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História

“Acorda, a vida não parou, você tem pra onde caminhar ainda”

História de: Vera Lucia da Silva Kutianski
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2021

Sinopse

História dos pais. História da adoção. Ida para Paranaguá. Infância. Lembranças escolares. Primeiro emprego. Trabalho na área de vendas. Início da carreira como instrutora de autoescola. Tirando habilitação E. Batalha contra o câncer. Perda paterna. Início dos trabalhos no porto. Maternidade. Casamento. Netos. Filhos. Sonhos para o futuro.

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História completa

P/1 — Vamos lá! Vera, pra começar, gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.


R — Meu nome é Vera Lúcia da Silva Kutianski. Nasci em Itapetinga, na Bahia, no dia dezenove de maio de 1963.

 

P/1 — E quais os nomes dos seus país?

 

R — Minha mãe se chama Maria do Carmo Sousa da Silva e meu pai se chamava Miguel Gonçalves da Silva, que ele já é falecido.

 

P/1 — Como você os descreveria?

 

R — Meu pai era um homem, aquele homem íntegro, com todo o caráter imaginável, um coração que não tinha tamanho, ajudava todo mundo sem olhar a quem, muito trabalhador. E eu sempre o considerei a minha mãe e não o meu pai, porque tenho 58 anos de idade hoje e seu eu falar pra você que um dia eu conheci o peso da mão do meu pai, eu tô mentindo, porque ele nunca me encostou um dedo, mesmo sendo um povo antigo, que você sabe que antigamente o povo era mais rígido com os filhos. O meu pai não. Mas a minha mãe não tinha dó, minha mãe encostava a mão mesmo. Agora, o pai não. Então ele era um homem muito trabalhador, sempre zelando pela família, com cuidado com todos. Nós morávamos longe dos nossos parentes, mesmo daqui, que antigamente pra você se comunicar era carta. Então ele sempre estava mandando cartas, telegramas, preocupado com os parentes que ele tinha. Então ele tinha muitas qualidades, não vi… até hoje eu não consigo descrever um defeito no meu pai.

 

P/1 — E, Vera, me conta uma coisa: com que os seus pais trabalhavam, o que eles faziam?

 

R — A minha mãe sempre foi dona de casa, nunca trabalhou. Também porque ela não sabe ler e escrever, até hoje. É analfabeta. O meu pai estudou, eu acredito, que até o terceiro ano primário, porque ele sabia escrever muito pouco e ele sabia malmente assinar o nome dele. Mas ele sabia ler. Escrever era mais difícil, mas ele conseguia, porque ele era filho de uma família com sete filhos e o pai dele os abandonou criança. Então, ele, sendo menino, acabou indo trabalhar muito cedo pra ajudar a mãe a criar os irmãos. Então ele, quando na Bahia, trabalhava tipo serviços gerais. Porque na Bahia o serviço é muito difícil, é muito… até hoje, nos dias de hoje, é muito difícil e pouco valorizado. Então eles passavam muita necessidade, viviam do que plantavam. Aí, depois, o meu tio veio pra Paranaguá, que naquela época existia o café, que era carregado em saca, nos armazéns, que eles eram chamados ensacadores. E o meu tio veio pra cá, viu que ganhava-se dinheiro, voltou na Bahia e trouxe meu pai pra trabalhar aqui. Então meu pai começou a trabalhar ensacando café nos armazéns. Ele, na época, carregava sessenta quilos de café na cabeça, que era esse o peso do saco de café, pra carregar os caminhões. Hoje em dia trabalha-se com empilhadeiras. Naquela época era na cabeça deles. Então a profissão que ele tem na profissional dele, é ensacador de café. Aí, devido a esse trabalho pesado, ele sofreu uma grave lesão na coluna. E ele teve que se aposentar por invalidez, muito novo. E daí, pra completar, que quem se aposenta por invalidez no nosso país, o salário é muito baixo, ele trabalhava como pedreiro, fazendo bicos como pedreiro.

 

P/1 — E você tem irmãos?

 

R — Não, sou filha única. Sou filha única adotiva. Olha, atravessei no caminho dos dois, assim, no brinde (risos). O meu pai, quando veio pra cá, ele e minha mãe, iam fazer três anos de casados e minha mãe não havia engravidado. E daí ele veio, trouxe minha mãe, com seis meses que ele estava aqui, ele voltou pra buscar a minha mãe. E na volta eles resolveram fazer uma visita na Bahia, visitar os parentes, porque ele estava ganhando dinheiro, já tinha conseguido montar uma casa, com móveis. E daí eles foram. No caminho, na rodoviária, em São Paulo, apareceu uma senhora dando um menino. E ele chamou minha mãe, porque ele foi no banheiro, ouviu a mulher dando o menino: “Ai, Maria, tem uma mulher ali dando um nenezinho”. Daí ela falou: “Ai, eu não quero, três anos de casado, eu não engravidei, é porque Deus não quer que eu tenha filho”. E não quis. Continuaram viagem. Quando ela chegou na Bahia, no dia que ela chegou, eles iam, geralmente, pra casa da irmã do meu pai. E daí, chegando lá, minha madrinha - ela se tornou minha madrinha - falou pra ela: “Ah, Maria, aqui na rua tem uma moça que está dando uma menininha”. Daí ela contou a história da rodoviária. Aí a minha madrinha: “Mas você não quer nem ver, vou chamar a moça”. E ela falou: “Não, não precisa chamar não, que eu não vou ver”. Aí a minha madrinha: “Não, vou chamar pra você ver”. Aí foi, chamou a minha mãe e a minha mãe veio comigo nos braços e deu no colo da minha atual mãe. E aí quando ela falou: “Ah, tem nove dias de nascida. Eu não posso criar, porque eu trabalho de empregada na casa dos outros, não tenho família e a minha patroa, o meu patrão, não deixam eu ter uma criança”. Aí ela pegou, a minha mãe pegou, ficou comigo no colo, aí a minha madrinha contava pra mim que ela ficou quieta, ela não falava nada, só comigo no colo. Daí quando a minha mãe verdadeira falou: “Ah, então, já que a senhora não quer o nenê, eu vou ver se outra pessoa quer”. Daí disse que a minha mãe pegou, me abraçou, falou assim: “Não, pode ir embora sozinha que agora ela é minha”. E eu falei, acho que foi paixão, ou era pra ser. Não tinha explicação, é Deus que coloca no caminho. O que é pra ser, não tem explicação. E daí eu tinha nove dias. Eles foram com o plano de ficar uma semana, acabaram esperando eu completar um mês, porque todo mundo questionava que eu era muito pequenininha pra viajar de ônibus. E daí quando eu fiz trinta dias, a gente veio pra Paranaguá. E onde eu tô até hoje, moro aqui. Conheço a Bahia, conheço meus parentes, porque visitar, porque isso ele não tinha preguiça, se ele estava com dinheiro, ele chegava, ele chegava bem assim: “Comprei as passagens, arruma a mala, nós vamos viajar sete horas da noite”. Era assim: ele chegava de manhã, era só o tempo da minha mãe enfiar a roupa dentro da mala e nós sairmos correndo, porque ele não planejava. Essa qualidade ele tinha, não planejava nada: “Ah, vamos viajar segunda-feira”. Era de manhã que ele chegava, com a passagem comprada. E daí a gente tinha que só que pôr as coisas, a roupa dentro da mala e sair correndo. Isso ele fazia. Então, eu conheço todo mundo lá, conheço todos os meus parentes. E daí, quando eu tinha 13 anos de idade, no meu aniversário de treze anos, ele me contou que eu era filha adotiva. Porque até treze anos, eu era total inocente no… pra mim, era normal que eu sou dessa cor, meu pai e minha mãe, de cor. Ele, um negão bem negão mesmo. Mas, pra mim, criança, não tinha diferença nenhuma. Então... aí, na escola, era debochada: “Ah, você nasceu de dia, seu pai e sua mãe nasceram de noite!” As crianças falavam o tal do bullying, naquela época a gente nunca levou a sério. E hoje em dia o povo leva tão a sério. Mas eu nunca liguei, pra mim, o que interessava pra mim era que eu tinha muito amor, eu sempre fui criada com muito amor, muito bem tratada, por ele, pela família, nunca teve diferença. Eu chegava na reunião da família, lá na Bahia, eu era um peru de fora, que todo mundo de cor e eu no meio. Mas o tratamento não tem melhor. Todo mundo te tratava muito bem.

 

P/1 — E, Vera, você conheceu os seus avós?

 

R — Por parte de pai, eu conheci minha avó. Que, quando eu, minha mãe me pegou, meu avô já tinha falecido, parte de pai. E da minha mãe também, por parte de pai, já tinha falecido. Conheci minha vó. A mãe do meu pai morreu muito antes, ela morreu, eu acredito que eu devia ter uns quatorze, quinze anos, quando a mãe do meu pai faleceu. Agora, por parte de mãe, a minha avó faleceu eu já era adulta, ela já tinha conhecido os bisnetos, porque o meu filho foi o primeiro bisneto da minha vó, por parte de mãe. Tanto que, quando eu estava grávida do Leandro, ele veio pra Paranaguá, pra vê-lo nascer, que ela queria dar o primeiro banho, no primeiro bisneto. Pra você ver a diferença, o tratamento. Então, ela se mandou, que ela morava em São Paulo, ela veio e ficou com a gente aqui, conheceu a Cristiane, que é a mais nova. E ela cuidou dos bisnetos, nós íamos pra São Paulo, que agora a parte da minha família, da minha mãe, tem a irmã só. Porque ela tinha mais um irmão, que já faleceu. Então, a minha tia mora em São Paulo, em Votuporanga. Agora, o lado do meu pai, continua todo mundo na Bahia.

 

P/1 — E na sua infância, você lembra de algum costume da sua família, desde comida, cheiro, algum sabor que te lembra a sua infância?

 

R — Ah, muito, muito, muito. Meu pai era o cozinheiro extraoficial. Quando ele amanhecia inspirado, ele ia pro fogão, sabe? E tem uma coisa que eu não como: aipim. Todo mundo tira sarro, que eu não gosto de aipim. Mas o meu pai fazia um bolo de aipim, que eu não sei se é pelo amor que eu tinha por ele, se era o bolo que era bom, não sei te dizer, eu comia. Aí a minha mãe ficava brava: “Eu faço aipim frito, eu faço aipim não sei como, ela não come, agora o bolo dele, ela come”, eu não sei te dizer. Então, o bolo dele era maravilhoso. E pão, ele tinha paciência pra fazer pão. Eu gostava do pão, eu não gosto do pão grande, eu gosto do pão pequeno. Ele tinha trabalho de fazer um monte de pão pequeno, pra me agradar, sabe? E outra coisa que ele gostava muito, era uma carne. Eu dizia que ele tinha nascido na cidade errada, que era pra ele ser gaúcho, que gaúcho que gosta de churrasco. Ele chegava - como eu falei pra você, ele não era nunca de planejar - tipo dez horas da manhã em casa, aí passava, que nós morávamos no mesmo quintal, porque o quintal era muito grande, a casa era muito grande, o terreno. E, quando eu casei, eu me senti mal em sair e deixar os dois. Porque era só nós três. Daí eu casei, falei: “Pô, vou abandonar os dois aqui?” Aí meu pai chegou e falou: “Ah, constrói aqui no terreno, a gente divide”. Realmente, foi construída a minha casa, foi dividido o terreno, cada um com seu terreno individual, com seu portão, nós morávamos um do lado do outro. Então, ele chegava tipo dez horas da manhã, ele passava lá pra trás, pra casa dele. Ele tinha uma churrasqueira que parecia de restaurante, de tão grande que era a churrasqueira que ele fez. Daí ele passava, daqui a pouco ele vinha na janela, na minha cozinha, né: “Ei, não faça comida, que eu vou fazer espetinho”. Assim, do nada. Não precisava ser final de semana, não precisava ser domingo, não precisava ter festa, nada. Ele era o homem da carne, sabe? Então, você via, estava assando carne. Aí a minha mãe: “Eu ia fazer comida”. “Agora é tarde, já tô assando carne”. Era só assim, só brigava por causa disso, os dois. As brigas que eu lembro, do meu pai e da minha mãe, era por causa de comida, porque ela queria cozinhar, ele se atravessava na frente dela, pra fazer o que ele queria. E, assim, o tempero nosso é muito diferente. Até hoje eu sigo à risca, porque eu fui criada com carne temperada de noite, feito o tempero com alho, pimenta, cominho, tempero baiano. Aí você deixa aquilo, no outro dia que você vai comer. Hoje não, o pessoal usa muito esse negócio de Sazón, caldo de carne. Eu, na nossa família não tem esse costume, entendeu? É o tempero feito mesmo, por você. E daí, quando você come a comida de outra pessoa, você sabe que você está comendo alguma coisa diferente. E uma lembrança que eu tenho, muito gostosa, da minha infância, é quando eu ia pra casa da vó por parte de mãe. Ela… o meu tio trabalhava no Leite Glória, porque o início do Leite Glória era em Itapetinga, na Bahia. Se você for pesquisar, depois que ele veio pra outra cidade, que a fábrica original do Leite Glória é na Bahia. E meu tio trabalhava no Leite Glória. Aí, no final de semana, a empresa dava, pra cada funcionário, aquele... eu não sei o nome daquela vasilha que coloca leite, ela é grande e meu tio levava pra casa aquilo. Então, ele levava pra casa e a minha infância eu lembro da minha vó e o meu tio fazendo manteiga. Eles colocam num... tipo um pilão de madeira, é tipo um pilão, que tem uma tampa e por aquela tampa passa um braço. E daí é colocado o leite ali dentro e aquilo vai batendo, igual você vai moendo um alho, num potinho, você vai batendo. Eu lembro que meu tio batia, cansava, passava pra minha vó, minha vó batia, cansava… meu, saía aquela manteiga bem amarelinha, porque era aquele leite puro, sem água, sem nada, o leite puro mesmo, da vaca. E era uma manteiga muito gostosa, daí minha vó colocava numa tigela, colocava água e sal em cima e daí a manteiga acaba absorvendo o sal. E depois, se tirar a água, a água está sem sal nenhum. E outra coisa era minha tia que, toda noite, quando a gente ia, antes de dormir, ela chamava eu e meus primos, né, que eu tenho três primos por parte de tia, ela fazia aqueles pratos de mingau de aveia, com esse leite e, antes de dormir, era sagrado. Podia ter tomado café, almoçado, jantado, mas, antes de dormir, punha os quatro na mesa, que era e os meus três primos e o prato de mingau de aveia, pra encerrar a noite, pra ir dormir. Então, a recordação que eu tenho de comida, dessas coisas, é essa.

 

P/1 — Uau! E, Vera, você se lembra da casa onde você passou sua infância? Como que era?

 

R — Não, com certeza. Na primeira etapa da minha vida, eu fui criada até dois anos e meio, numa casa que era de aluguel, que nós morávamos. E essa casa de aluguel era uma cozinha, né e um quarto. Esse quarto era grande, tinha minha cama, né, do lado da cama da minha mãe. Daí, na época que eu tinha dois anos e pouco, a gente morava de aluguel e, perto de onde nós morávamos, atravessando a BR que tem aqui, né, saiu um loteamento, vendendo terreno. E era o antigo Banco do Estado do Paraná. O primeiro. O Banestado, logo que começou, que financiava esses terrenos e meu pai foi e comprou um lote. E daí a gente vinha pra esse terreno, que o pai construía no final de semana, foi ele que fez a nossa casa. Por ele ser pedreiro, trabalhar com essas coisas, ele que construía, no final de semana. E era um terreno grandão, daí ele construiu bem no centro do terreno, a casa de madeira. Eu não sei se você já viu, conhece, casa com sapata, que ela é de madeira. É feita uma sapata de tijolo, entendeu? E essa casa é apoiada em cima dessas sapatas. Mas o pessoal fazia essas casas antes, não é por causa que não sabia fazer piso, essas coisas, que hoje em dia, geralmente, fazem direto no piso, mesmo sendo de madeira. É por causa de cobra, que naquela época, como era loteamento novo, tinha cobra, porque era mato, estavam abrindo o mato. Então, fazia essas casas altas assim, tinha uma escada pra subir. Devia, cada sapata, ter em torno de um metro, de setenta centímetros a um metro de altura. E daí era casa de assoalho, né, de madeira. E eu lembro, nunca vou esquecer essa casa, porque o assoalho era de madeira e adivinha quem encerava e lustrava o assoalho? Eu. Então, (risos) eu não sei se você já viu, porque o pessoal comenta coisa, o famoso “vassourão”. A gente tira sarro, que fazia academia, sem saber o que era academia. Porque a minha mãe é muito exigente em limpeza, muito exigente. Ela me colocava pra limpar, ela fazia primeiro eu varrer tudo aquele chão, erguer cadeira, erguer tudo. Aí varria tudo, aí vinha depois o vassourão, com uma palha de aço embaixo, pra tirar cera velha. Tirava tudo aquela cera velha, aí depois varria de novo, depois passava uma flanela, pra não ficar nenhum pozinho e depois passava a cera e a cera eu tinha que passar no sentido da madeira, não podia fazer círculo com a mão, porque ela dizia que o brilho não ia ficar igual. Aí, depois, secava essa cera, tinha que pegar o vassourão com a flanela e dar brilho. Como era sapata, ela ia lá pra fora - minha mãe, você vê a pessoa - ela ia lá de fora, ela olhava e dizia assim: “Lá não está brilhando, em tal lugar não está brilhando”, pra eu passar de novo. E depois colocava tudo os móveis no chão e ela na porta: “Devagar, pra não riscar”. Tinha que colocar devagar. Ai de mim, do meu pai, se riscasse aquele chão durante a semana. Eu apanhava, o meu pai escutava. (risos) Ela não podia bater nele, então, a farra, ali, era grande. E ela tem um… não sei se é defeito, vamos dizer defeito, que eu não tenho: minha mãe é muito apegada a bem material, sabe, minha mãe é muito apegada a bem material. Se você vai na minha mãe e quebra uma xícara, você escuta o ano inteiro, ela falando daquela xícara. Meu pai não, meu pai quebrava, estragava, comprava outro. Ele falava bem assim, não estava nem aí. Mas ela não. Então, ela pegava, essa casa está impecável e tinha um forro de madeira branco, ô castigo! E aquela época nós morávamos perto dos armazéns aqui, tinha muita mosca. Aí você imagina um forro branco, num lugar que tem mosca. Todo final de semana ela fazia passar pano naquele forro, porque tinha que tirar o cocô da mosca, que ficava feio, que as visitas iam chegar e chamá-la de porca. Então, ela, nesse ponto, era muito exigente. Então, eu lembro bem da minha casa, do quintal, não tinha muro, não tinha cerca, era tudo aberto, um vizinho conversava com o outro no meio do quintal, daí o mundo foi crescendo, foi mudando, foi obrigado a fazer cerca, foi obrigado a fazer muro. Mas naquela época não tinha, você não sabia onde ia seu terreno, qual era o limite do teu terreno com o do vizinho, você não sabia! E ninguém tinha muro, ninguém tinha cerca, sabe? O que eles faziam, até o varal que tinha no quintal era comunitário. Quando você via, seu varal estava cheio de roupa, não era seu, era a vizinha que tinha estendido, porque não tinha essa privacidade que o povo exige hoje, sabe? Eu acho que era um tempo muito melhor do que hoje. Você estava ali, cozinhando uma carne, o vizinho de lá: “Ah, essa carne está cheirando, hein!” Aí, quando você via, o vizinho estava na tua mesa, almoçando junto com você. Hoje em dia não, hoje em dia o povo se isola muito, é muito diferente.

 

P/1 — E brincadeiras, Vera, tinha alguma que você gostasse muito?

 

R — Então, perto da minha casa tinha uma família, que eles se tornaram compadres do meu pai, pela amizade que se tornou. Minha mãe é madrinha de uma das filhas dele, ‘seu’ Antônio e Dona Tereza. Eles tinham nove filhos e ele trabalhava muito pra sustentar essas nove crianças, porque era muita criança. E meu pai, sempre ajudando, levando comida, minha mãe fazendo panela de sopa, levando pra ajudar. Que era que nem eu falei pra você: não tinha cerca, nós estávamos sempre um no quintal do outro. E eu me criei com esses nove irmãos. Eles foram meus irmãos de infância. Eu não tinha irmãos, eles foram meus irmãos. E a nossa brincadeira era... que tinha um mato, não sei se você conhece, uma frutinha que dá no mato, que a gente chama de amorinha, ela é vermelhinha. Então, nossa brincadeira era ir pro mato, catar essa amorinha, fazer suco. Amassava aquela amorinha, fazia suco, todo mundo tomava. Fazia jarra de suco. E a Dona Tereza também tinha um coração, assim, que entrava na loucura da criançada, sabe? E aí, às vezes, a gente estava com fome, eu lembro que na casa deles não tinha fogão à gás, na minha já tinha, a deles era fogão à lenha. Quando a gente via, a Dona Tereza estava lá no fogão, com tacho, fazendo aquele monte de bolinho, pra gente tomar café. E ela tinha um bule, sabe um bule gigante? Eu acho que, cada vez que fazia, eram três litros de café, porque era muita gente. Então, ela fazia aquilo, eu lembro que ela colocava aquele bule no meio da mesa, com aquela coisa e ia todo mundo tomar café com aquele bolinho e era café preto, né, que não tinha a regalia deles terem leite, porque era muita gente e pra mim era um prazer estar naquele lugar. Então, a minha brincadeira, que eu conheci, foi com eles. Brincar de casinha, de pai e mãe, de família, de filho, de pega-pega, né, de mãe, de esconde-esconde. Esse negócio de catar. Aí tem o João, o mais velho, que eu vou contar, você vai dar risada. Sabe o que o João fazia, quando chovia? Ele fazia um arco com uma flecha, com o tal da sombrinha, que ela era o homem da sombrinha. E nós íamos pra poça de chuva, caçar rã. Acredita que nós íamos caçar rã? Porque tinha muito dentro da poça de água. E ele pegava aquilo, amarrava um fio na ponta, naquela lança,e jogava e caçava rã. Nós vínhamos pra casa, ele limpava todas as rãs - ele, ele é mais velho que eu - Dona Tereza temperava e fritava e todos nós sentávamos pra comer, entende? Então, até hoje eu digo bem assim: “O assassino de rã da cidade”. Ele fica bravo comigo, sabe? (risos). Mas era a nossa diversão, meu Deus! E eram meus colegas de escola, de ir pra escola, de voltar, sabe? Assim, não estudava na mesma série, porque eu tenho 58, o João tem 61. É quase três anos de diferença, dá impressão até que é tudo da mesma família. Aí depois vem a Rose, que é três anos mais nova que eu. Então, cada um estava numa turma. Então, nós íamos a pé, tudo junto, pra escola. Na volta, quem saía primeiro, ficava no portão, esperando os outros. Então, eu chegava, saía todo mundo junto, chegava todo mundo junto. E ali, a nossa tarde, que nós estudávamos de manhã, era só de brincar, de correr, de pular corda. Aí eu ganhei uma bicicleta de Natal e eles queriam muito a bicicleta e o pai não tinha condições de comprar. Aí, a rua que eu morava, era uma rua sem movimento, assim, era uma rua meio morta. Eu ensinei todos os nove a andar na bicicleta. Aí sabe o que nós fazíamos, qual era a brincadeira? A bicicleta era o táxi. Colocava na porta bagagem, ia até o final da rua, voltava, deixava lá, aí levava o outro, depois o táxi trazia de volta e passava o dia desse jeito, nós andando de bicicleta. A minha amiga diz até hoje, a Rose: “Eu não esqueço de nós brincando de táxi” (risos). E era o que a gente se divertia. E hoje em dia a gente não vê, né, crianças brincando desse jeito.

 

P/1 — E, Vera, você falou que iam todos juntos pra escola. Qual é sua primeira lembrança da escola?

 

R — Da escola, foi meu primeiro dia de aula, assim, porque eu não vou esquecer, a minha professora, a minha primeira professora, que eu sou católica, a gente vai na missa e ela participa da direção da nossa catedral. O nome dela é Lindamir e a gente a chamava de “Tia Linda”. E o meu pai tirava sarro quando ia me buscar, que eu falava: “Ai, a Tia Linda falou não sei o quê” “Não sei onde é que você está vendo linda ali”, meu pai falava, sabe, brincava com a gente, né, pra perturbar. (risos) Eu falava: “Pai, o nome dela” “Nada, você está dizendo que ela é bonita”, que meu pai era muito brincalhão comigo. Então, eu lembro dela, tipo assim, o acolhimento que ela tinha com a gente, que ela era muito carinhosa. Ela não era bem uma professora, ela era uma mãe, na sala de aula. Porque, no decorrer dos anos, a gente foi pegando umas professorinhas assim que eram bem bravas, que brigavam, que corrigiam. A professora Linda, não. E outra coisa assim, que eu marco bem, que na minha época não existia uniforme. Existia, sabe jaleco de enfermeira? Era igual e chamava guarda-pó, né, naquela época, não chamava jaleco, chamava guarda-pó. E o de todo mundo da escola, da maioria, era feito de saco, desse saco alvejado, que é feito pano de prato. E o meu, por eu ser filha única, era de tergal, porque o meu pai tinha condições de comprar. Então, quando eu passava, todo mundo olhava, porque o meu era o único que era tergal branco, impecável, bem passado, com friso, que a minha eu cuidava. E as outras crianças não tinham essa regalia, elas não tinham uma mala decente. Eu tinha, que é aquela época de criança, era uma mala tipo 007. Era esse tipo de mala que a gente carregava, era uma pasta assim. E eu tinha o sapato, chamava sapato colegial, era um sapato caro, né, pra época. Eu tinha sapato. As meias tinham que ser até o joelho, tinha meia até o joelho. A maioria das crianças, quando ia com o sapatinho, não tinha meia pra colocar. Então, foram coisas que marcaram a minha escola, na época de criança, foi isso. E o nome da minha escola era “Estados Unidos da América”. Então, eu brinco que eu estudava nos Estados Unidos, a turma tirava o sarro: “Você foi pros Estados Unidos”. Eu estudava nos Estados Unidos. Hoje em dia a escola não existe mais, fechou, mas era “Escola Estadual Estados Unidos da América”.

 

P/1 — E, Vera, nessa época, você ficava pensando o que você queria ser, quando crescesse, qual profissão você queria ter?

 

R — Olha, a gente, quando é criança, se ilude com as coisas. E é o sonho de toda criança que vai pra escola, ser professora, você admira a professora e você quer ser professora. Só que, com o passar do tempo, foi passando e foi passando essa vontade. O meu pai, o sonho dele era que eu fosse advogada. Mas, na época, o curso de advocacia era um curso muito alto, muito caro. Até hoje é um dos cursos mais caros que tem. E eu tenho consciência, sou uma pessoa, sempre fui muito consciente, desde criança, eu sabia que meu pai não teria condições. Então, tipo assim, eu não levei muito à frente. O que eu fiz foi estudar até o segundo grau e depois fui procurar emprego pra ajudar em casa porque, como eu te contei, o salário dele era baixo, a aposentadoria e ele se obrigava a trabalhar de pedreiro, já com problema na coluna, que às vezes chegava, não conseguia nem dormir, com dor no corpo. Então, eu fui trabalhar, pra colocar comida dentro de casa junto, pra não pesar tanto pra ele. Então, assim, planos, se eu fosse mesmo… hoje em dia eu vou dizer pra você, um sonho que eu tenho, que eu sei, que só se eu ganhar na loteria, pra eu fazer, sabe? É aprender a pilotar helicóptero, tenho paixão. Mas eu sei que é um negócio que é caro e que eu não tenho condições porque, se eu tivesse dinheiro, não importava, com setenta anos eu ia lá aprender, ah, ia! (risos) 

 

P/1 — E você só estudou nessa escola, ou você chegou, em algum momento, a mudar de escola?

 

R — Não, eu mudei. Eu estudei até a oitava série nessa escola. Aprontava muita arte nessa escola, junto com a turma, que não tinha o que passar. E daí a gente foi pro estadual, que é o José Bonifácio, que tem aqui até hoje. E essa escola, o estadual, ficava, da minha casa, eu acredito que a distância do estadual até minha casa dá quase três quilômetros. Nós íamos a pé e voltávamos, todo dia. Aí, lá, eu fiz novas amizades. Tem amizades do estadual até hoje. Tem amizades do "Estados Unidos" até hoje. Nós temos um grupo das meninas dos Estados Unidos, que a gente se encontra. O último encontro nosso foi em fevereiro, antes da pandemia, depois não teve mais, por causa da pandemia. Tem um grupo do estadual também, que a gente se encontra. Aí, essa do estadual, a gente se encontra sempre dia 15 de novembro, tem data marcada. Porque a maioria trabalha, é feriado e daí dá tempo. Tem umas que moram em São José dos Pinhais, outras que moram em Curitiba, no Centro. Então, dá tempo de todo mundo vir e se encontrar. A dos Estados Unidos, como a maioria mora aqui, então é mais fácil a gente marcar: “Sábado, vamos em tal lugar”. Daí a gente vai, todo mundo. Mas a gente sempre tem contato com essa turma ainda. Então, eu… o estadual foi assim, no estadual eu estudei três anos. Que foi, que é o ensino médio, foram três anos. Mas foram três anos bem bacanas, que eu fiz muita amizade, professora de lá, tem uma professora do estadual, que foi professora do meu filho e foi professora da minha filha. Sueli Terezinha o nome dela. Quando eu cheguei na sala dela, que teve uma reunião, foi chamado os pais, que ela olhou pra minha cara, falou: “Não acredito!” Eu falei: “Nem eu!” Que eu não ia imaginar uma professora que foi minha, dando aula pro meu filho. Então, tem muita recordação boa do estadual. Hoje não é uma escola tão boa, por causa do vandalismo, né, que o… é muito vandalismo, coisa, mas aquela época era muito... teve um dia que a pessoa santa aqui, resolveu gazear a aula, sabe? E eu era a cabeça da turma, eu era chamada a cabeça da turma. Que eu que dava as ideias, os trouxas iam atrás. (risos) Aí, tinha uma zeladora chamada Dona Avani. Nós estudávamos no andar de cima e ela ficava cuidando pra ninguém fugir, na hora do recreio. E eu falei: “Vamos sair?” “Vamos!” Aí, pegamos duas, colocamos lá embaixo, pegamos as nossas malas e jogamos pela janela e a guria pegava lá embaixo. E daí a gente descia a escada sem mala, não estava indo embora. Eu não acertei a mala na cabeça da diretora? Fomos parar tudo na secretaria. (risos) Graças a Deus não aconteceu nada, que a mala estava leve. Mas que acertamos, acertamos. Fomos descobertos. Meu, deu um rolo aquele dia, mas só pra rir. Aí a gente fazia essas coisas. Daí, tem uma que mora em Curitiba, que é minha amiga até hoje, a Valdéia, nós pegávamos e gazeávamos aula, que tinha carona de bicicleta, pro Centro. Os caras passavam de bicicleta, nós pedíamos carona. Os caras não levavam a gente até o Centro, de bicicleta, carregava nós? Aí eu falo pra Valdeia, falei: “Meu, os caras eram muito inocentes”. No dia de hoje você não pode pedir carona pra ninguém, mas naquela época nós íamos de bicicleta, bem sentadinha, no porta bagagem e os caras carregando”. Lá no Centro a gente ia chupar sorvete, não sei o que, depois pegava o ônibus e ia pra casa. (risos) Não sei se é certo, mas foi assim (risos). Tem uma da minha sala, que é madrinha do meu filho. Eu a chamo de “mana”, porque ela é muito parecida comigo, então, a turma perguntava se a gente era irmã. E daí, na brincadeira, ficou mana, mana pra lá, mana pra cá. E isso eu tinha quatorze anos. E até hoje é mana. Nós não nos chamamos pelo nome. Não a chamo de Maria, ela não me chama de Vera. E a família dela, quando eu falo que eu vou pra Curitiba, que eles estão lá, ela: “Ai, a mana está vindo, a mana está vindo”. Todo mundo na família dela me chama de mana, eu arranjei um monte de irmão, sem ser irmão. Tudo por causa da escola (risos). Muito bom foi (risos).

 

P/1 — Ô, Vera, você contou que, na sua infância, seus pais conversaram com você e contaram a sua história, né? Como foi esse momento? Você conheceu sua mãe biológica?

 

R — Não. Então, foi assim: ele chegou, me chamou e falou assim: “Ó, nós temos uma história pra contar pra você, eu quero que você saiba que, seja o que você pense, mas amamos muito você”. Aí ele me contou como é que foi, que eu fui dada, me contou toda a história que eu te contei no início e, na hora, eu chorei muito, muito, inconsolável. E chorei, chorei, eu não sei te dizer até hoje o porquê. Se eu chorei de tristeza, se eu chorei de alegria, se eu chorei do choque, mas eu lembro que eu chorei inconsolável. Eu fui pro meu quarto, eu deitei, eu não queria falar com ninguém. Eu só chorava, chorava, chorava, chorava. A minha mãe, na época, ficou desesperada, porque ela achou que eu ia ficar com raiva deles. E daí foi aquela crise de choro, passou, aí, depois, eu lembro que eu fui pra cozinha, sentei com os dois e a única coisa que eu falei bem assim, pro meu pai, pra minha mãe: “Eu não quero conhecer ninguém, eu não quero ir atrás de ninguém”. E o meu pai: “Mas eu queria tanto que você fosse procurá-los, pra eles verem que você está bem”. Eu falei: “Pai, se ela me deu, é porque ela não tinha condições, eu não tenho raiva de ninguém, não tenho mágoa, não desejo mal pra ninguém, só que se ela não me quis...” - eu falei, na época eu tinha treze anos - “... eu tenho treze anos, alguma vez ela me procurou?” Ele falou: “Não”. Falei: “Então, se em treze anos ela não sentiu minha falta, não existe necessidade de eu ir atrás dela”. E nosso relacionamento não mudou nada em casa, meu pai, a minha mãe, não teve nada. Aí, quando eu tinha, acho, eu vou te contar, acho que eu tinha uns 42 anos. Meu padrinho era vivo e a gente aí já tinha telefone em casa, ele já tinha telefone na casa dele. Meu pai já se comunicava com os parentes mais por telefone. E o meu padrinho ligou, que ela bateu na porta do meu padrinho, se o meu padrinho dava meu endereço ou telefone pra ela entrar em contato, que ela tinha casado e tinha tido mais três filhos e que ela tinha contado pros filhos a minha existência. E que um dos meus irmãos queria me conhecer. Aí, o meu padrinho, com receio, que a gente nunca tinha conversado sobre isso, não deu o endereço, nem o telefone. Ele preferiu ligar primeiro, perguntar. Aí, quando ele ligou, eu falei: “Não, padrinho, pode dar o endereço, eu não vou sair de onde eu estou, procurá-la. Agora, se ela me procurar, vier atrás, irmão, ela vai ser muito bem tratada, eu não tenho nada contra ela”. Daí, o meu padrinho pegou e ficou esperando, ela não voltou pra pegar o telefone. Eu não sei se ela ficou com medo, se ela achou que eu não ia querer saber dela. Não sei o que ela pensou, que ela não voltou. A última notícia que eu tive foi de uma prima minha, que essa minha prima era amiga de infância dela, da minha mãe. Ela conhecia, a única, última notícia que eu tive foi em 2010, que eu estive na Bahia, que a minha prima falou que ela estava morando em Ilhéus. Só que é difícil até de procurar, Luiza, porque a única coisa que eu sei é que ela tem o mesmo nome que a minha mãe, Maria, só, entende? A gente não tem sobrenome, não tem referência. E o meu pai é testemunha no meu registro de nascimento. Porque aquela época precisava de testemunha. Eu sei que o nome do meu pai é Valdir, porque tem no meu registro.

 

P/1 — E, Vera, como foi esse segundo grau, e se formar na escola?

 

R — Olha, não tem… foi assim, eu falo pra você: eu era chefe da gangue na escola, mas eu estudava, entendeu? Eu nunca dei esse desgosto pros meus pais, não. Meu pai nunca foi chamado na escola por nota baixa, sabe? Porque foi malcriada com a professora, porque respondeu, não. Fazia as artes, gazeava aula, subia em árvore. Que a gente subia nas árvores, no final da escola, ficava a diretora, a zeladora louca atrás da gente, pra descer da árvore, nós de saia trepavamos na árvore: “Desce daí, que está mostrando a bunda, meninas!”, era aquela bagunça. Mas em relação a estudar, eu sempre estudei, sempre tirei nota boa. Hoje em dia tem ali o nosso certificado, né, que aparece todas as notas. Nunca tirei um vermelho, nunca fiquei em recuperação. Não reprovei na escola. Sabe, esse orgulho eu dei pro meu pai. Foi pouco, mas eu dei.

 

P/1 — E, logo que você saiu da escola, você começou a trabalhar?

 

R — Não, eu saí da escola acho que eu tinha... eu concluí o segundo grau, eu tinha acho que dezessete anos. E não era tão fácil conseguir emprego. Daí, com dezoito anos, eu comecei a entregar currículo na cidade, pra trabalhar. E aí eu fiz amizade… eu tinha uma amiga que morava do outro lado da BR, na frente da minha casa, que o pai dela era dono de uma fábrica de baterias, chamava “Baterias Fátima”. E eu não saía de lá. Daí, na época, ele chegou e falou pra mim: “Ah, Vera, dá o telefone aqui da Bateria, né, que a menina atende e te passa o recado, se ligarem”. Eu não tinha telefone em casa ainda. E daí, eu lembro que eu, até hoje, a Rosângela é minha amiga até hoje, a secretaria, né, da Bateria, ela foi lá em casa, que tinham ligado em uma loja que existia, chamada “Prosdócimo” e depois essa loja se transformou na “Arapuã”, que era uma outra loja de móveis. Eu fui trabalhar lá, foi meu primeiro emprego, daí a gente ganhava por comissão. E eu nunca esqueço que o meu primeiro salário eu comprei um relógio pro meu pai, que tem até hoje esse relógio, está com meu filho, guardado. Meu pai faleceu, meu filho pegou o relógio e guardou. Era o orgulho do meu pai aquele relógio, sabe? E a pessoa vai trabalhar, não tinha noção, naquela época a comissão era alta. Conforme o móvel, era mais alto, maior o móvel, mais alta era a comissão. E eu lembro que eu comprei o relógio e achei que eu ia ter que pagar as parcelas, o relógio já tinha vindo descontado e tinha sobrado um monte de dinheiro e eu achando que eu tinha que pagar o relógio ainda, de tão bom que era o trabalho, graças a Deus! (risos) E eu era esperta, sabe? Porque, na minha época, que eu trabalhei de vendedora, apareceu muito lançamento. A Arno foi lançada na época em que eu comecei a trabalhar. A Walita foi lançada na época em que eu comecei a trabalhar. A Semp Toshiba foi lançada. A máquina de costura com motor foi lançada na época em que eu comecei a trabalhar. Daí, o que que a Prosdócimo fazia? Ela levava a gente pra Curitiba, pra fazer curso, como mexer com essas coisas e a maioria não queria ir, pra não perder de vender, entendeu? Não queria ir e parar. Eu ia pra todo curso. Pode ir, eu vou, eu ia. Aí, quando chegava você pra comprar: “Ai, como é que funciona essa máquina?” Eles não sabiam explicar, eu sabia. Quem que ganhava a venda? Eu, né! Eu acabava vendendo mais do que eles. E uma coisa boa que tinha também, que a Arno, tipo a Arno, a Walita, a Semp Toshiba, faziam uma promoção. Ah, no dia de hoje, promoção, né, promoção relâmpago: “Quem vender televisão, vai ganhar, no final do dia, três reais, na boca do caixa”, um exemplo. Eu vendia televisão o dia inteiro, só pra ganhar os três reais (risos). Chegava no final do dia, eu tirava o dinheiro da semana quase, na boca do caixa, porque daí eu não mexia no meu salário. Eu tinha que comprar legumes pra casa, fruta. Carne eu comprava com esse dinheiro que eu ganhava da promoção das vendas. Não é igual hoje, que a promoção relâmpago é pro cliente. Não, naquela época era pro vendedor. Então, eu era sabida, eu ia lá fazer os cursos. E a turma dizia assim: “Ah, você é malandra, você vai fazer o curso, pra passar a perna na gente”. Falei: “Não, o curso é aberto pra todo mundo, ninguém quer ir, eu ia”. E daí, quando chegava o gerente: “Vera, vem aqui, que você fez o curso, sabe explicar”. Eu ia explicar e ganhava a venda. Assim que eu ganhava bastante dinheiro (risos). Aí, eu saí de lá, da Prosdócimo. Daí eu entrei na… eu fiquei desempregada um tempo, que daí eu tive o Leandro. Meu filho, com seis meses, pegou uma infecção grave no ouvido, sabe? Que eu tive que sair do emprego, pra cuidar dele. Porque era muito grave a infecção, ele corria o risco de perder o ouvido esquerdo. Então, entre ele perder o ouvido esquerdo e eu trabalhar, eu fiquei em casa. Daí, na época, eu estava construindo a minha casa, no quintal da minha mãe e deu um temporal muito grande e derrubou minha casa inteirinha construída. Faltava pôr as portas e as janelas. As telhas pareciam de papel, que não ficou uma inteira. Arrebentou tudinho, nós tivemos que começar de novo. Daí, eu fui trabalhar de caixa, num supermercado que tinha aqui em Paranaguá, chamado “Supermercado Real”. Deixei meu filho em casa, com oito meses e fui trabalhar no Supermercado Real, de caixa. Trabalhei no Supermercado Real acho que um ano e pouco. Naquela época era bom supermercado, que não abria domingo, não abria feriado. Não é igual hoje, que é todos os dias. E o horário de fechamento era às oito horas da noite. Oito horas da noite abaixava as portas, só ficava quem estava dentro. O tempo que nós odiamos o supermercado, foi a troca do tal do cruzado. Meu Deus, ô sofrimento! Porque a mercadoria subia todo dia. E aquela época não era hoje, código de barra, era etiquetinha colada no produto, com o valor. Aí saía a notícia que aumentou tudo. Fechava as portas às oito horas, e nós ficávamos, com uma lata de Varsol, um pano, tirando todas as etiquetas, porque não podia deixar vestígio e vinha outra equipe com a maquininha, com a etiqueta, etiquetando tudo, com valor novo. Nós chegávamos a sair às dez, meia-noite do supermercado, remarcando preço de tudo. E não era eu, do caixa, era todo mundo! Era quem trabalhava no açougue, quem trabalhava na padaria, quem trabalhava na limpeza, quem trabalhava na verduraria, todo mundo ia pra esse rolo, não escapava um! Dia de lavar o supermercado, ia todo mundo pra lavar o supermercado, até o gerente, com a vassoura. Até nesse ponto era bonito, porque não havia discriminação: o seu cargo é melhor, o meu é pior. Todo mundo trabalhava junto, sabe? E, depois disso, daí eu voltei, saí desse serviço e fiquei em casa e consegui trabalhar na HM, a Hermes Macedo, antiga Hermes Macedo. E essa Hermes Macedo, eu peguei a época que ela estava falindo, que eles alugavam espaço dentro das lojas, pra outras lojas. Eu cheguei a trabalhar uma época na HM, daí a HM abriu uma loja de utilidades domésticas, que o cara era de São Paulo, que ele veio pra cá e eu fui trabalhar nessa loja de utilidade doméstica. Lá eu também conheci umas amizades, que eu tenho até hoje, fazem parte da minha vida até hoje. E, nessa época, minha filha tinha, ia fazer dois anos, quando eu entrei. Eu entrei pra fazer um bico de Dia das Crianças, fiquei dois ano e meio, um bico. E daí que eu resolvi tirar carteira. Porque, como eu falei pra você, nunca fui de esperar muito pelos outros, conseguimos, com a graça de Deus, comprar um carrinho. O carro entrou por uma porta, eu saí pela outra, pra autoescola, pra tirar carteira. Eu falei: “Eu não vou ter um carro na garagem e não saber dirigir. Não posso ficar dependendo”. Aí eu peguei e fui tirar carteira, onde eu conheci a dona da autoescola, fiz amizade com ela e ela falou pra mim: “Faz o curso de instrutora, que o emprego eu garanto pra você”. Aí eu ainda falei, tirei sarro: “Você está falando sério?” Ela falou: “Não, tô falando sério!” Aí eu fui, fiz a inscrição, fiz o curso. O curso levava quinze dias. Aí eu cheguei na loja que eu trabalhava, né, que era HM, conversei com o patrão, ele me deu quinze dias de férias adiantado e eu fui pra Curitiba, fazer esse curso de quinze dias. Aí, graças a Deus, eu não tenho amigos, tenho anjos na minha vida. E eu tenho um anjo que me acolheu na casa dela, eu fiquei quinze dias na casa dela, em Curitiba, na Westphalen, bem no Centro e o curso era ali perto, eu ia a pé. E eu fiquei uns quinze dias lá, fiz o curso, passei em tudo, tirei nota boa em tudo, voltei, apresentei pra ela o diploma de conclusão, daí ela começou a me chamar, pra cobrir férias dos colegas no trabalho, que na época eram cinco instrutores, eram quatro de carro e um de moto. E aí eu comecei, que estava todo mundo com as férias atrasadas e ela tinha que dar férias pros cinco. Então, nessa brincadeira, eu trabalhei cinco meses. Um mês acabava as férias de fulano, entrava outra, entrava outra e eu tinha que ir ficando. Daí ela falou: “Olha, eu vou comprar mais um carro, quando terminar as férias de todo mundo e daí eu vou comprar mais um carro e te chamo”. Nesse meio tempo, ela me ligou, que um amigo nosso tinha sofrido um acidente de moto e tinha falecido, um dos instrutores. Daí a gente foi tudo pro velório, que daí eu já tinha amizade com todo mundo e aí, na segunda-feira, ela me chamou, que ela ia me contratar no lugar dele. E lá, com ela, eu trabalhei dois anos e meio também. Dando aula, fiz amizade, saí da autoescola, não porque eu não gostasse da autoescola, que era muito bom, é que ela passou pro pai dela e o pai dela queria colocar pessoas do círculo de amizade dele, nos nossos lugares. Então, ele começou a prejudicar a gente, de algumas maneiras. O carro ficava guardado na casa dele, que era uma casa grande, com garagem grande. Ele jogava a sacola de lixo dentro do carro, pra dizer que a gente não limpava o carro. Ele deixava o farol aceso, pra arriar a bateria, pra dizer que a gente não cuidou do carro, entendeu? Ele arranjava coisas pra pôr nas nossas costas, pra ter um motivo pra mandar embora. E daí, eu, graças a Deus, nunca tive medo das coisas, de dizer: “Ah, eu vou ficar desempregada, eu preciso desse emprego, eu vou humilhar”. Não, nunca tive esse problema. E daí, chegou um dia que, na minha vida, que já era um tormento eu levantar de manhã, pra ir pra autoescola. Porque tudo era motivo pra ele perseguir a gente, tudo. Não foi só comigo, foi com os cinco, entendeu? E daí um dia eu cheguei, um sábado, eu não esqueço e falei pro meu marido: “Eu vou na autoescola hoje só pra pedir a conta, não vou dar aula”. Aí ele falou: “Não, você sabe o que faz”. Aí eu cheguei e falei com ele, conversei com ele, falei: “Ó, não tô aguentando, o senhor faz um acordo comigo, lhe devolvo a multa, mas eu vou procurar outra coisa pra fazer”. Daí ele pegou e falou: “Não, está bom”. Que ele já tinha pessoa pra colocar no meu lugar. Então, pra ele foi muito fácil eu ir e pedir. Daí eu fui, pedi a conta e vim pra casa. Aí, eu acho que eu tinha o quê? Se eu te contar que se eu fiquei quinze dias em casa, foi muito. Daí a outra autoescola me ligou, se eu queria trabalhar com eles. Daí eu fui. Já me… a mulher já me registrou, que ela já me conhecia, sabia que eu dava aula, que é a autoescola Scremin. Aí fui, trabalhei lá com eles. Daí ela abriu uma filial na outra rua, daí ela me transferiu pra essa filial. E lá, com eles também, foi quase dois anos e meio de autoescola. Daí, de lá, eu saí, por causa de uma fofoca de um colega. O cara fez uma fofoca sobre minha pessoa, porque ele queria o meu lugar. Ele queria passar pra instrutor, ele não era instrutor. E daí o dono lá acabou acreditando. Eu falei: “Não, bem, se você acredita nele, não acredita em mim, pode me mandar embora, sem problema nenhum” “É, porque tem não sei o que, tem lógica”. Eu falei: “Não, se tem lógica pra você, não é da minha índole, mas, se você acredita que eu falei alguma coisa sobre a autoescola, não posso fazer nada”. Daí, ele me mandou embora, vim pra casa. Isso, começo de setembro. Aí, tô aqui em casa, toca o telefone, outra autoescola. Essa eu fiquei um mês. Se eu queria ir pra autoescola, dar aula pra eles. Aí eu fui, que é a última que eu trabalhei, né, a Berlim. Aí trabalhei na Berlim, fiquei lá, aí ele falou: “Ah, eu queria uma instrutora de micro-ônibus, não sei, você tem categoria D?” Falei: “Não”. “Então vai tirar”. Aí ele pegava, desmarcava minhas aulas, tipo: se eu tinha dez aulas num dia, desmarcava três, pra eu fazer aula no ônibus. Ele falou: “Você vai fazer aula no ônibus, pra tirar essa carteira logo”. Mas a gente dava aula de instrutor, você acaba se habituando com as coisas. É diferente a marcação pra baliza, mas você entende mais rápido do que explicar pra uma pessoa que nunca fez. Eu fui, passei na primeira, aí eu já fui pro ônibus, dar aula no ônibus. Aí, do ônibus, eu falei pra ele, cheguei na sala dele, falei: “Agora eu quero tirar a E” “Por quê?” Eu falei: “Não, agora eu quero tirar a E. Eu tenho a D, quero a E”. Aí ele falou: “Meu, você é abusada”. Falei: “Não é abusada, já que eu tenho uma, eu posso ter a outra, eu quero também”. Daí eu fui pra carreta, fazer aula. Aí, o que que eu fazia? Na hora que eu dava aula no micro-ônibus, nós treinávamos na mesma rua a carreta e o ônibus, então largava meu aluno lá, treinando, ia pra carreta treinar (risos). O aluno treinava de um lado, eu do outro. Aí não era aula, era por amizade dos amigos. Ficava na carreta, fazendo a manobra. No dia do meu exame, fui eu e nove homens. Que eu tenho uma sorte, todos os exames meu só tinha eu de mulher. No carro só tinha eu, no da moto tinha quinze homens, só eu de mulher. No do micro-ônibus só tinha eu de mulher. Falei: “Pô, eu sempre venho pra acabar com a homarada, eu acho”. Aí eu fui fazer o trajeto da carreta e a carreta você tem nove minutos pra você estacioná-la. Eles deixam numa rua, você tem que trazer, fazer a curva com ela na esquina e colocar emparelhada com o meio-fio. Como eu tinha treinado bastante, eu fiz de olho fechado. Aí, dali você vai pra rua, dar uma volta com a carreta. Que é pra ter noção de redução de velocidade na lombada, como é que faz uma curva, né, sem subir no meio-fio. Eu fiz tudo! Aí, quando eu cheguei pro examinador, que daí, nessa época, já não eram os amigos que a gente tinha, que a gente fez muita amizade com examinador. Já tinha mudado e eram uns que vinha de Curitiba. Então, a gente não conhecia o examinador, então, não podia dizer que foi por amizade. Daí, quando a gente chegou, que eu estacionei de novo a carreta, aí ele falou: “Ó, tá aprovada”. Eu falei: “Quanto tempo eu levei pra fazer tudo isso?” Ele falou: “Sete minutos, os nove minutos que você tinha pra estacionar a carreta, você fez a carreta e o trajeto”. E daí tinha mais nove homens. Dos nove, dois passaram na carreta. O resto tudo se perdeu, subiu no meio-fio na hora de virar a esquina, na hora de estacionar, não conseguiu. E, graças a Deus, todos eles, eu passei tudo na primeira. Daí ele falou, quando eu cheguei, eu falei: “Ah, passei, agora já tenho a categoria E” “Vai me dizer que você quer dar aula na carreta?” Falei: “É só você deixar, que eu vou”. Aí ele: “Pô, você é fogo, mas eu já tenho instrutor fixo da carreta”. Falei: “Não, mas o dia que ele ficar doente, que ele não for, eu vou, não tem problema”. E era isso que eu fazia. Daí, essa carreta era guardada na casa da filha dele. Tinha que entrar de ré, sabe? Era o meu maior prazer, pegar aquela carreta e entrar de ré. Chegava na hora de guardar, eu dizia bem assim pro Felipe, né: “Fê, eu guardo, você guarda o ônibus, eu guardo a carreta, tá?” Só pra ter o prazer de manobrar e dar ré. (risos) Aí, que nem eu falei pra você: eu tenho mania de grandeza, não gosto de carro pequeno. Gosto de coisa grande, não gosto de carro pequeno. Carro pequeno, pra mim, não chama minha atenção. E aí, foi assim que eu fui mudando de emprego, dessa autoescola eu tive uma fase muito difícil na minha vida, que foi o câncer. Eu estava dando aula na autoescola, quando eu descobri. E eu fui tomar banho e, no que eu fui me depilar, eu senti um carocinho, entre o seio e embaixo da axila. E daí eu fui no médico, marquei a médica e, quando eu cheguei lá, que ela apalpou, ela falou: “Ó, é um nódulo calcificado. Ó, mas nós vamos ter que fazer biópsia, pra ver”. Porque ela me explicou que tem nódulo no nosso seio, que não são câncer, eles andam de lugar. Você aperta com o dedo, ele se movimenta. O do câncer não, ele é fixo, ele tem raiz, ele não sai do lugar. E foi isso que ela sentiu. Daí ela mandou fazer a biópsia e veio. Que daí eu faço aniversário no dia 19 de maio. Que dia que eu peguei exame, o resultado? No dia seguinte do aniversário. Estava lá: “Câncer maligno”. Daí, na hora, eu entrei em desespero. Chorei muito, eu fiquei muito... eu estava dando aula pra um rapaz, ele chegou e ficou comigo, era muito querido, o Peterson, Peterson também já faleceu. E ele que ficou comigo, que me deu apoio na hora que eu abri o exame, sabe? Daí eu fui na médica, procurei aqui em Paranaguá. Ela chegou e falou: “Não, vamos marcar a cirurgia amanhã, a gente arranca tudo, resolve isso aí, não sei o quê”. Eu não me senti segura, sabe? Eu não me senti segura. Aí eu cheguei, conversei com uma outra colega de trabalho, ela falou: “Ó, a minha prima, ela trabalha no hospital e ela consulta com médico que vem de Curitiba” - e nós tínhamos um plano de saúde, né, da autoescola - “eu vou conversar com ela, daí ela vai te ligar”. Daí o nome da menina é Melissa, daí a Melissa me ligou no outro dia e falou bem assim: “Ei, Vera, a Ana me falou que isso aconteceu com você. Me pega o teu manual lá do plano e vê lá quais os médicos que são oncologistas”. Daí eu lembro que tinha cinco nomes. Cheguei lá, eu passei pra ela os cinco. Ela falou: “É, eu vou passar pro meu ginecologista, que ele é de Curitiba, conhece todo mundo lá”. Daí eu cheguei em casa, reuni todo mundo, né, os filhos, o marido, contei. Aí, eu tenho um filho, que não é um filho, ele é uma benção de Deus. Ele falou assim: “Tem cirurgia pra arrumar, tem, então nós vamos curar”. Foi a única coisa que ele falou. Minha filha chorou, meu marido chorou, ele não. “Nós vamos dar um jeito, mãe, não se preocupa”. Foi a única coisa, sabe, que ele falou pra mim na hora. Aí, ele pegou, ele falou bem assim pra mim... aí eu fui trabalhar, falei: “Não, tenho que trabalhar, não dá pra ficar.” Daí, no outro dia, eu estava trabalhando, tocou meu celular no ônibus. Daí um número que eu não conhecia. Eu atendi, falou: “Bom dia, é a Vera que está falando?” Eu falei: “É ela mesma”. Ele falou: “Vera, meu nome é Carlos Maestri, você não me conhece, eu sou ginecologista da Melissa, ela me passou teu nome, me contou o que aconteceu e me passou o nome dos médicos que tem no teu plano e três médicos aqui não passa nem na porta, porque são três carniceiros, não tem amor à profissão. Aí tem dois, que é o Doutor Cícero Andrade Urban e o Doutor Cléverton, esses dois você pode ir de olho fechado, que você vai estar em boas mãos. E outra coisa: o Doutor Cícero é o médico dos médicos, ele é professor, ele que forma a maioria dos oncologistas em Paraná, em Curitiba. Só tem um problema o Doutor Cícero: você vai ligar hoje, vai levar um mês pra você conseguir uma consulta com ele”. Isso era uma sexta-feira. Daí, ele me deu os números dos telefones dos dois, eu liguei, falei: “Moça, eu queria ver se eu conseguia uma consulta com o Doutor Cícero”. Sexta-feira de tarde. “Aí, tem um cancelamento, terça-feira, oito horas da manhã, você quer?” Eu falei: “Claro que quero!” Assim, um médico que você já vai preparada, que vai demorar pra ser atendida. Aí, o médico, de sexta-feira pra terça-feira. Falei: “Não, claro que eu quero, pode marcar!” Aí cheguei em casa, falei pro Leandro: “Não, mãe, a gente sai cedo daqui”. Que nós não sabíamos onde que era. É perto do Hospital Nossa Senhora das Graça, em Curitiba. Fomos. Aí cheguei, levei o resultado. Fui, entrei na sala dele. Quando entrei na sala do médico, já me senti em casa. Um quadro dele beijando a mão do papa, eu sou católica. Então, já me senti: tô em casa, não tô em outro lugar. Aí, eu olhei pra aquele quadro, falei: “Leandro, nós estamos no lugar certo”. Aí comecei a chorar, já. Quando ele entrou, que ele pegou o exame, comecei a chorar, chorar, chorar, chorar, chorar. Ele atende - se você tiver a oportunidade, pesquise, você vai ver, ele não tem outra... ele está nas fotos dele, tudo sorrindo. Cícero Andrade Urban - a gente, do começo da consulta ao fim, com aquele sorriso no rosto. Aí, ele pegou meu exame, leu, leu, leu, leu, leu e começou a falar: “Dona Vera, tem alguma coisa errada aqui”. Quando ele falou “tem alguma coisa errada”, sabe quando dá aquele alívio assim: “Ai, o exame estava errado”. Começa a dar aquele alívio, aí você para de chorar. Parei de chorar. “Que tem errado, doutor?” “Oxi, ali está escrito ‘atestado de óbito’? Porque as coisas só não têm solução, Dona Vera, depois que está escrito ‘atestado de óbito’. Enquanto não estiver aqui escrito ‘atestado de óbito', tudo tem solução e nós vamos correr atrás dela”. Ô, aquilo, menina, foi um tapa, sabe, assim: “Acorda, que a vida não parou, você tem pra onde caminhar ainda.” Aí ele mandou fazer a bateria de exame, tudo. Aí eu fui, eu ia com meu filho fazer os exames, a única coisa que ele exigiu, que ele queria os exames tudo em Curitiba. Aí eu fui, fiz tudo os exames, levamos. Aí, isso foi final de maio. Aí ele marcou a cirurgia pra julho e falou: “Ó, eu tenho várias cirurgias agendadas, eu tenho que ir pro Rio de Janeiro, pruma convenção, então, não vou ter espaço, então vou marcar pra julho”. Aí, chegou em julho, ele teve um problema com os filhos dele, de saúde, que eu não lembro o que foi, ele me ligou, se ele poderia transferir. Eu falei: “Não, doutor, se está no seu... podemos transferir”. Daí ele transferiu pro dia 18 de agosto. Aí, dia 18 de agosto eu me internei seis e meia da manhã, num hospital que tem em Curitiba, chamado Nossa Senhora de Fátima, ele é só pra mulheres. Homem, lá, só entra quem é médico. Não tem homem, só mulher. Aí eu fui, fiz a cirurgia. Daí, eu lembro que, quando eu saí da sala, a menina falou bem assim pra mim: “Aham, vai embora bem acompanhada hoje, hein?” Eu falei: “Bem acompanhada? “Com dois cachorrinhos”. Eu: “Dois cachorrinhos?” Era os dois drenos, um no seio, né, dois drenos juntos. Que aquilo vai grudado, né e você tem que andar. E daí eu andava com aquilo. “Você vai ficar dez dias com esse dreno, pra tirar toda a sujeira, não sei o que, daí a gente chama de cachorrinho, porque onde você vai, vai atrás”. Eu falei: “Ah, então tá bom”. Daí ele veio me ver, tudo. Daí ele falou: “Olha, não se preocupe, porque nós vamos fazer cirurgia de reconstrução, só vai saber que você não tem a mama, quem te contar, quem você contar”. Porque ele me deu as duas opções, na época. Tirar, ou fazer quimio e rádio, pra ver se matava o tumor. Eu, como não tenho paciência, falei: “Não, doutor, vamos tirar logo, vamos fazer o que tem que fazer logo, pra eu não sofrer duas vezes, que eu pago pra não sofrer”. E ele falou: “Eu queria só mais dez igual você, porque chega aqui chorando, que vai perder o seio, que vai ficar aleijada”. Eu falei: “Doutor, o que eu tinha que fazer na vida, eu já fiz, casei, já tive filho, não pretendo arranjar namorado novo, já tem um lá em casa pra me incomodar, chega!” Aí ele começou a dar risada e falou: “Olhe, Vera, gostei muito de você, vamos fazer a cirurgia”. Daí eu vim, fiz a cirurgia, aí voltei pra Curitiba, tirar o dreno. No dia que eu fui tirar o dreno, tinha uma senhora desesperada, chorando no sofá. E eu achei que era porque ela tinha descoberto, igual eu. E daí eu comecei a conversar com ela, eu com aqueles drenos lá. Daí eu falei: “O que foi que aconteceu, a senhora descobriu? Não, não é assim, eu também já passei por esse choque, a gente vê que tem como lutar” “Não, filha, já fiz a cirurgia, já tirei, meu marido arrumou tudo ontem e foi embora, que ele não ia morar com uma aleijada”. Eu falei: “Olha, o meu caso foi diferente, porque eu cheguei da cirurgia e falei pro meu marido: “Aproveita a oportunidade, que casou inteira, agora está faltando um pedaço, quer ir embora, aproveita que é hoje, porque depois não vou deixar ir embora mais”. Ele falou: “Não, nós vamos ficar junto até o final, está faltando nada aí, não”. E daí, depois disso, é colocado um aparelho dentro da mama, chamado expansor. Ele é de silicone, achatado, um círculo achatado, injetado, ele é colocado, eu já saí da cirurgia com ele. E daí, de vinte em vinte dias, você vai no médico e ele injeta soro nesse expansor, que é pra ele ir inchando, pra tua mama ficar quase do tamanho da outra e a pele ir se esticando novamente, pra quando colocar a prótese de silicone, não dar rejeição. Porque muita gente coloca em seguida, dá rejeição, dá infecção, tem que voltar a tirar. E ele não, ele tem esse cuidado, o Doutor Cícero. E daí eu voltava, de vinte em vinte dias, ele ia injetando o soro, até ficar uma mama quase do tamanho da outra. Aí, quando ficou do tamanho exato, ele marcou a cirurgia de reconstrução, que foi um ano, quase um ano depois, que foi em junho, sabe? Dia onze de junho eu fiz a cirurgia de reconstrução. Daí ele tirava sarro de mim: “Aham, vai voltar pra casa siliconada, hein, chique você!” Ele me atendia no hospital. Aí, eu falei: “Pois é, até que enfim, pelo menos uma vez na vida eu vou ter alguma coisa que posso bater no peito: ‘Tenho silicone, você não tem.’” Aí, ficou perfeita a cirurgia, as meninas do hospital elogiavam, né, que ele é muito caprichoso. E aí eu vim embora. Com três dias que eu estava em casa, meu pai teve um AVC e foi pro hospital. E a minha tristeza maior, que eu liguei pra ele, contei, ele falou: “Não entre no hospital, porque o hospital é cheio de bactéria, você está com tudo ponteado ainda, não foi nem mexido em ponto, se você pegar uma infecção aí, vai virar uma infecção generalizada”. Aí, a minha maior dor era essa, porque eu não podia entrar no hospital. E daí, eu tenho dois filhos que são dois anjos, a minha mãe entrava às nove horas da manhã, ficava com meu pai até cinco horas da tarde, meu filho entrava às cinco da tarde, ficava até meia-noite, meia-noite entrava minha filha, ficava até nove horas da manhã. Minha filha só saía de lá, depois que ela dava banho no avô e que trocava o avô, só. Que daí, quando ele voltou, que ele acordou, ele já não mexia mais os braços e as pernas, aí tinha que dar comida na boca, já usava fralda. E a paixão dele sempre foi meu filho, ele era apaixonado pelo meu filho. Aí tinha um, no mesmo quarto que ele, que dizia bem assim pro meu filho: “Meu Deus, quando esse neto chega, é melhor do que o sol, que o sol brilha pra todo mundo. Tu brilha só pra ele”. Porque, quando ele fala que esse neto está chegando, o olho dele brilha, nessa cama. E meu filho brincava com ele, mexia, tirava sarro dele na cama: “Ah, viu, mandava em mim, agora quem manda em você sou eu”. Daí ele dizia bem assim pro meu filho: “Ó o respeito, guri, ó o respeito!” Ele fazia assim, que nem eu fiz. (risos) Aí, ele pegou e chegou, meu filho chegou, que falou: “Mãe, o vô quer sair do hospital, não quer ficar lá. Vamos atrás do médico?” “Vamos”. E eu fui conversar com o médico, perguntei pro médico, falei: “Ó, eu sou filha única. Quem está cuidando dele é minha mãe e meus filhos, porque eu não posso entrar no hospital. Eu queria saber se eu posso levá-lo pra casa”. Ele falou: “Ó…”. Eu perguntei: “Daí meu pai melhora ou piora”. Ele falou: “Olha, nenhum dos dois, dali ele não vai nem pra frente, nem pra trás. Dali é só ele esperar o dia dele, porque ali não tem melhora, que estourou não sei o quê”, ele explicou o que tinha estourado no cérebro dele. E daí eu falei com meu filho: “Nós vamos tirá-lo do hospital, eu não vou deixar meu pai aí, morrer sozinho”. Aí, a gente foi, assinou um termo de responsabilidade e tirou. Tinha que ver a alegria do meu pai, quando ele desceu pra ir pra cadeira de roda, no colo do meu filho. Meu pai tinha um metro e noventa e três, era um negão enorme. Meu filho pegou no colo o avô e pôs na cadeira de rodas. Aí meu filho dizia: “Viu, agora você vai pra casa, lá você vai fazer o que eu quero, não vai fazer o que você quer”. E ele vinha brigando no carro: “Olha, hein, eu vou voltar a andar, eu voltar a mexer o meu braço, eu vou meter a mão na cara desse guri, hein” “É ruim, hein, nunca meteu na minha, vai meter no neto”. Nunca encostou em mim, encostar no neto? De jeito nenhum. Aí eu digo: “Tá bom, quero ver esse dia, então”. Trouxemos pra casa. Chegou em casa, sabe criança? “Eu quero bala, eu quero pipoca, eu quero uva, eu quero maçã”. O Leandro só subia naquela motinha dele, só ia comprar o que o avô queria, só ia comprar. Aí, a minha mãe bem assim: “Meu Deus, vocês estão fazendo toda a vontade desse homem!” Falei: Não, vamos fazer a vontade dele, o que ele quer, nós vamos comprar”. Adivinha o último desejo da pessoa? Queria uma feijoada. Lá tivemos que fazer uma feijoada. A minha mãe: “Meu Deus, esse homem vai passar mal, com essa feijoada” “Não vai, não”. Pois o danado estava com tanta vontade dessa feijoada, que ele comeu e não sentiu nada. Nós trouxemos meu pai pra casa numa terça-feira. Ele ficou em casa uma semana. Uma semana ele contou história do arco da velha, ele contou coisa do passado. Daí, quando fez uns cinco dias que ele estava em casa, ele falou bem assim pra nós: “É, logo eu vou embora”. Aí a minha mãe: “Vai pra onde?” “Logo eu vou embora”. Porque os irmãos dele já eram todos falecidos, só tinha ele vivo. “Meus irmãos já vieram tudo, estão tudo lá na sala, só falta minha mãe vir me buscar”. Aí eu falei: “Que, estão na sala, não” “Está tudo lá”. E ele disse o nome de um por um que estava sentado na sala, só faltava a mãe dele. Aí, quando foi no domingo, ele levantou, contou história, deu risada, perturbou o Leandro, perturbou a Cristiane, sabe? Que ele com a Cristiane, com a menina, meu Deus, mas brigavam o dia inteiro. O Leandro era o dodói, a Cristiane era pra brigar, só brigava com essa guria. Aí ele meio assim: “Não vai pensando que você me trocou fralda, lavou minha bunda, que você manda em mim, não, guria!” Brigava com a neta. Daí ele chegou e falou bem assim: “Ó, mãe, eu vou embora na segunda-feira”. Aí, a Cristiane: “É, vô, o senhor não anda e não mexe o braço, mas o seu cérebro está bom, vai pra onde, está ficando biruta, já?” “Ei, guria, me respeita” – ele bem, assim, bravo – “mas amanhã eu vou embora, porque mãe chega amanhã. Minha irmã já veio aqui no quarto e avisou que a minha mãe chega amanhã, no domingo”. Na segunda-feira, Luiza, ele levantou, não falou mais, acordou, não falou mais, não quis tomar os remédios, não comeu o dia inteiro e nós preocupadps e nada, nada, nada. E, naquela época, como eu estava operada, eu estava de licença, eu tenho uma vizinha, ela tinha um guri pequeno, nós o pegávamos na escola, pra ela, porque ela conseguia levar na hora do almoço na escola, mas ele saía quatro e meia, ela não conseguia pegar. E daí, eu estava lá com a mãe, cuidando dele, eu falei: “Mãe, é quatro e meia, eu vou buscar o João Vítor, porque a Inerci chega cinco e pouco”. Daí eu fui, peguei o carro, fui indo buscar o João Vítor. Peguei o João Vítor, cheguei aqui e entreguei pra irmã dele, porque a irmã dele já tinha chegado da escola, sabe? Entreguei pra ela. Quando eu entrei dentro de casa, tocou meu telefone, a minha mãe: “Volta, que teu pai está ruim, venha correndo, que teu pai está ruim”. Daí eu já liguei pro Leandro, Leandro já saiu do trabalho e foi pra lá e a Cristiane foi comigo. Quando nós chegamos lá, ele estava com um ronco no peito, que o pessoal fala, os antigos falam que é a ______ da morte. E ele com aquele ronco e meu filho preocupado que era catarro, que tinha que levar pro hospital. Falei: “Leandro, não é catarro, o vô não estava gripado”. E daí, isso era cinco e meia pra seis horas, ele só fechou o olho, Luiza, só, mais nada. Ele não teve reação, nada. A única coisa que eu lembro do meu pai é ele fechando o olho e a lágrima escorrendo do olho dele, porque ele sabia que ele estava deixando a gente, sabe? Então, essa parte eu vi, eu e meu filho e minha filha, nós três estávamos juntos nesse dia. Ele não ficou sozinho, eu não deixei, esse orgulho eu tenho.

 

P/1 — Que linda passagem!

 

R — É, foi mesmo, a gente cuidou dele o que a gente pôde, o que estava ao nosso alcance, a gente fez. Mas eu acho que tudo na vida tem, eu acredito muito que nós temos o dia de chegar e o dia de irmos, não existe um modo diferente pra isso, cada um tem o seu dia de ir embora. Porque o meu pai jogava baralho. Então, meu pai levou facada, meu pai levou tiro em jogo de baralho, meu pai foi atropelado por um motoqueiro, teve traumatismo craniano, meu pai ficou três dia em coma, quando acordou, não me conhecia, não conhecia minha mãe, sabe? Ele passou por coisas assim, teve tétano, meu pai, você escuta: “Ah, fulano teve tétano e morreu”. Meu pai teve. Perto da minha casa foi construída uma ciclovia e colocaram uns pedaços de trilho pra carretar não entrar, porque tinha muito armazém, pra não estacionar a carreta. Meu pai perdeu o equilíbrio de manhã, bateu naquele trilho, ele rasgou a perna, levou 48 pontos na perna, foi enorme e isso aí virou tétano, entendeu? Porque trilho é ferro, virou tétano. E meu pai não foi embora por nada disso! Tanta coisa que passou, ele passou uma em cima da outra, o que que levou meu pai? Um AVC, né, que deu, que daí ele ficou já… não conseguia se mexer e ele morreu assim: ele não sentiu dor, ele não estava sentindo dor, ele comia bem, ele dormia a noite inteira. Então, por isso que eu acho que cada um tem o seu dia, não adianta querer você escapar. Ele contava pra mim, ele dizia bem assim pra mim: “Ah, você já ouviu a história do cabeludo que fez o pacto com a morte que, se ele ficasse rico, podia vir buscar?” Meu pai contava. E eu: “Não, pai”. Ele contava que o cabeludo fez um pacto com a morte, que antes dele morrer, ele queria ficar rico, ter dinheiro, boa vida. E ele pegou, ficou rico e abusou da vida. E quando chegou o dia da morte buscá-lo, ele era bem cabeludo, ele falou pra mulher: “Meu, a morte vem me buscar hoje, e agora, o que eu faço?” Ela falou: “Raspa a cabeça. Ela vai procurar um cabeludo, né e você vai estar careca, não vai te levar”. Aí, ele pegou e foi para uma festa que tinha na cidade, que tinha muita gente, a morte chegou no meio do povo procurando, não achou: “Ó, lá, já que eu não achei cabeludo, vou levar esse careca mesmo”. Não teve jeito, o levou do mesmo jeito. (risos) Meu pai contava essa história. E daí, ele me ensinava, né, que cada um tem o seu dia, não adianta querer correr, no dia de ir, tem que ir mesmo. (risos) Eu tenho muitas boas lembranças do meu pai. Não tenho o que falar pra você e os meus filhos também, os dois. Eu te falo, o café da manhã dos meus filhos, Luiza, sabe o que era? A sobra da janta de ontem. Meu filho tinha onze meses, pesava treze quilos, porque meu pai ia lá dentro de casa, pegava no carrinho de manhã, levava pra dentro de casa, esquentava a comida que sobrou de ontem e enfiava goela abaixo das crianças, sete horas da manhã. E daí, o que eles faziam? Eles acordavam: “Nós não vamos tomar café com o vô hoje?” Que café? Eles almoçavam de manhã, não tomavam café. (risos) E foram criados assim, por isso que era muito agarrado e até hoje, né, que meu filho trata minha mãe melhor do que eu. Paciência com a minha mãe, assim, que é incrível, que a minha mãe é a turista do supermercado, sabe? Gosta de um supermercado, que eu nunca vi! Em casa está com dor nas pernas, está com dor não sei onde, leva pro supermercado, são três horas no supermercado, rodando e não quer ir embora. E o Leandro vai e fica. Eu já não tenho tanta paciência. A Cristiane também não, ela já quer que entre e passe. O Leandro, deixa ela rodar, ele fica com ela três horas. A minha nora dizia assim: “Olha, a paciência dele com a Dona Maria é invejável”. E é mesmo, de verdade. Faz todos os gostos dela, todos os gostos. Ela liga pra ele: “Lê, você vai passar no supermercado, traz tal coisa pra vó” “Levo sim, vó”. Ele passa no supermercado, compra tudo que ela quer. Aí, se traz uma marca: “Não, vó, pode deixar, eu fico com essa e vou lá trocar pra você”. E vai e traz a marca que ela quer. E ela abusa dele, que ela é sabida (risos). Mas olha…

 

P/1 — Vera, me conta uma coisa: quando você estava me contando do seu trabalho na autoescola, nessas três autoescolas, eu queria saber como foi a sua sensação, se você lembra o que sentiu quando começou a pilotar carreta.

 

R — Olha, é assim, não sei como é que vou explicar pra você. Mas não, é...  como é que eu vou dizer? Empoderamento, eu me sinto bem, muito bem. É porque é até engraçado: você passa lá onde eu trabalho agora, entra os caminhões de fora, com os motoristas de fora. E tem motorista que vem de cidades pequenas, de longe, com o caminhão carregado e não vê mulher no volante duma carreta. Quando eles entram, dão de cara com a gente pilotando a carreta, você que eles apontam e comentam com o outro, né: “Ai, uma mulher na carreta” Que, pra eles, é novidade, né, porque era um setor muito masculino, muito masculino. E hoje em dia, a mulherada está tomando conta. Eu não esqueço, quando eu inventei que eu queria dirigir carreta, foi assim: eu tinha uma Biz e eu tenho uma amiga que morava na praia. Ainda mora lá. E daí ela ligava pra mim: “Vem passar a tarde com a gente” - assim, na loucura - “Vem passar a tarde com a gente aqui”. Eu catava a minha filha, colocava na moto e ia pra praia, passar o dia na praia. Chegava lá seis horas, sete horas, subia na moto e vamos embora! Aí, um dia eu parei num posto, que tem na BR aqui, pra abastecer a moto. Para uma cegonha carregada e desce uma mulher de um metro e meio lá de dentro. Eu bem assim pra Cristiane: “Cris, olha a motorista”. Os homens do posto tudo pararam, porque imaginaram que ia descer um homem enorme lá de dentro. Desce aquela mulher, com aquela cegonha carregada de carro. E eu: “Ah, é isso que eu quero”. A Cristiane: “O que, mãe?” “Dirigir carreta”. Ela: “Ai, está louca?” Eu falei: “Ai, olha só que legal!” E todo mundo abismado de ver, porque era um toco de mulher dirigindo aquela carreta, sabe? Aí a Cristiane: “A senhora viu a cara dos homens?” Eu falei: “Vi, é essa cara que eu quero que eles façam, quando eu passar”. Aí a Cristiane: “Pô, mãe”. Eu falei: “É isso mesmo!” E daí, quando eu trabalhava na autoescola, que eu estava de licença, chegou a comunicação que a TCP ia pegar mulheres pra trabalhar na carreta. E você vê muito pouca mulher trabalhando dentro da área portuária, em si. Elas trabalham nos escritórios, nas agências, nas empresas que têm ligação com o porto. Agora, lá dentro da área, é mais difícil. E daí eu peguei, mandei o currículo, numa quinta-feira, acho que foi uma quarta-feira de tarde, era depois do almoço, pra menina e a menina pegou e mandou pra mim assim: “Se você quiser, você pode vir fazer o teste sexta-feira cedo?” Falei: “Posso”. Aí foi eu e uma colega minha, fazer o teste. Aí eu fiz o psicotécnico, o exame psicotécnico deles era o mesmo da autoescola, então eu sabia de cor o que fazer, entendeu? Até essa vantagem eu tive, eu sabia o que tinha que responder. Aí respondi, passei. Aí tinha que fazer uma entrevista com a psicóloga e essa entrevista fazia o teste de manhã e a entrevista era de tarde. Como nós terminamos rápido o exame, a moça falou bem assim: “Ó, a psicóloga está aí, vocês querem fazer a entrevista com ela?” Falei: “Queremos”. Aí a gente foi pra entrevista, aí ela chegou: “Ó, aqui, por mim, vocês estão aprovadas tanto no psicotécnico, como na entrevista, se vocês quiserem, agora só depende da empresa”. Isso na sexta-feira. Quando foi de tarde, umas cinco horas da tarde, a menina me ligou, lá da TCP: “Passa aqui pra pegar os papéis pra fazer os exames médicos, a documentação que você precisa me trazer, está tudo incluído. E isso, de quarta-feira pra sexta-feira, deu dois dias. Daí eu fui na segunda-feira, peguei todos os exames, a papelada e eu não tinha voltado pra autoescola ainda, porque eu estava com a consulta marcada com o Inss, pra poder voltar a trabalhar. Daí eu fui na TCP, fiz tudo a papelada e entrei na autoescola, só pra pedir a conta. E eu nunca vou esquecer que o dono da autoescola falou bem assim pra mim: “Você vai quebrar a cara, porque é temporário lá, você vai perder o emprego, daí eu quero ver onde é que você vai trabalhar”. Daí eu falei: “Não tem problema, eu vou arriscar, tem que arriscar, a gente não pode ficar sempre no mesmo lugar”. Daí ele falou bem assim pra mim, que eu saí magoada, sabe, desse lugar? Porque ele chegou e falou pra mim assim: “Você contou lá que você tem câncer?” Aí eu falei bem assim pra ele: “Se você está preocupado se eu contei pra eles que eu tinha câncer, eu contei, eu não tenho mais. Está lá no meu relatório, está toda a papelada, eles sabem que eu tive câncer”. E saí magoada com o termo que ele usou, assim, tipo menosprezando: “Se você sair daqui, você vai passar fome”. Aí eu fui, pedi a conta, entrei lá. Daí a gente foi primeiro pra sala teórica. E daí, nesse entremeio, já veio minha consulta, saiu a liberação pra trabalhar. Daí, eu fui pra sala de aula teórica, foi passado todos os dados. Os nossos empregos lá, nós devemos a um cara chamado Papini, que esse que deu a ideia de contratar mulheres na TCP, porque até lá era muito restrito. Ele falou: “Vamos inovar, vamos colocar mulher, mulher é mais responsável, a gente vai se incomodar menos, porque mulher é mais responsável em relação ao horário, em relação à veículo.” E, realmente, da mulherada que trabalhou lá comigo, ó, se teve acidente com mulher, foi coisa muito pequena, em vista do que os homens fazem. Que daí a gente foi pro treino. Aí quando eu entrei, tinha até a carreta - que elas têm número - número 24. Da uma às onze era carreta muito pequenininha, não tinha ar-condicionado, não tinha nada. E eram as piores carretas da empresa. E nós estávamos começando, só pegava as bombas, não pegava coisa… aí, na nossa época, tinha os arrumadores, que era do rodízio. Aí, a gente treinava com os arrumadores, a gente não treinava com o pessoal da casa. E eu fiz uma amizade lá, que o nome dele é Nivaldo, ele que me treinou. O nome dele é Nivaldo e o apelido dele é Sabão, que é liso que só ele, sabe? O apelido dele é Sabão, porque ele é muito malandro. E daí, ele pegava a carreta e dizia assim ó: “Vai embora, vai lá, dirige, eu vou ficar sentado aqui”. Ele ficava sentado, ele largava a carreta na minha mão e ficava lá. E daí, quando eu chegava embaixo, pra pegar o container, que eu demorava, ele começava a gritar: “Vai, vai, vai, vai!” Ele começava a gritar, então, eu não o chamo de Sabão, nem de Nivaldo, eu o chamo de Vai Vai, porque era só assim que ele falava. E daí, quando a gente entrava embaixo do aparelho pra carregar, que eu vou separar umas fotos dos aparelhos pra você ver como que é que funciona, ele parava e me dizia bem assim: “Quando você sair debaixo do aparelho, vai reto, reto, reto, reto, não vira esse volante, não esqueça que você tem um rabo atrás! E o rabo, se ele ficar entre a porta e a porta bater, vai machucar o rabo, doer”. Que era um acidente. Ele queria dizer, nessas palavras que, se você puxasse, ia bater na parede e provocar um acidente e você ia se incomodar. Então, eu o chamo de Vai Vai, porque ele ficava com a carreta: “Vai, vai, vai, vai, vai!” Ele ficava no meu ouvido. E foi um excelente professor, ele que me ensinou tudo que eu sei fazer hoje, foi ele. As manobras, entrar embaixo do aparelho, posicionamento, sabe? Tudo, tudo foi ele. E daí, meu, eu me senti realizada, quando eu dirigi. Aí, quando… eu sofri pra aprender a dar ré, porque a carreta que você treinava na escola, tem dois eixos. Então, ela é mais fácil de dar ré. A de um eixo dobra muito fácil e a da TCP tem um eixo. Então, se você descuidar, você perde a carreta muito rápido. Sabe o que eu fazia, quando não tinha navio? Tinha um pátio do lado, grande, ficava três, quatro horas treinando ré. Pegava essa carreta, ia até a frente, Sabão olhando, sentado do lado. Aí eu ia lá na frente, voltava de ré. Ele gritava: “Está torta!” Eu voltava pra frente, ia de novo. E assim nós ficávamos três horas, treinando ré. E hoje em dia, quando eu vou dar ré embaixo do aparelho lá, que tenho dez anos de casa, o cara lá de cima: “É Vera que está embaixo”. Porque ele já conhece, que ele sabe que a maioria que entra se perde, eu não me perco mais. Às vezes até sem olhar muito, vou certinho, de tanto que eu treinei com o Sabão. Mas que eu aprendi, aprendi! (risos) 

 

P/1 — Ô, Vera, qual é o seu cargo? Como funciona?

 

R — Lá, a gente é operadores multifuncionais. Porque eles colocam “multifuncionais”? Porque existem três aparelhos: têm a carreta; tem o transtainer, que é o TR, que trabalha em cima do bloco; e tem o portainer, que é o PT, que a gente chama, que trabalha na beira do costado, com o navio. Então, da empresa existe, assim: se você foi um bom funcionário, trabalhou bem, teve uma boa produção, você vai subindo de cargo. Eu já fui convidada pro TR quatro vezes, Luiza, eu não quis. Eu tô tão sossegada na carreta, eu não me incomodo. Lá a pressão é maior, lá embaixo é mais light, você pode descer da carreta, lá do TR você não pode descer, são seis horas preso lá em cima, eu não gosto de ficar presa, então… é assim, então, operador multifuncional. Daí, a gente separa assim: operador de CT. Por que CT? Caminhão Trator, porque o motor dele é um motor de trator, pra conseguir carregar muito peso, então chama “caminhão trator”. E tem o outro operador, do TR, que a gente chama, que é do Transtainer, que é do ________ e o operador de PT. Então, são as três classes que existem. Aí tem a classe que a Andréia trabalha, que é RS, que é hit tracker o nome dela. Então, eles começam na empilhadeira pequena e depois vão transferindo de cargo pra hit tracker, que empilham os blocos na máquina, daí é diferente. Essa máquina não entra no bloco onde entra o TR. Quando é o TR, é só TR, a máquina trabalha em lugares mais abertos, onde a Andréia trabalha. A Andréia começou na empilhadeira, da empilhadeira ela está na máquina grande, hoje. Então, os cargos são divididos em três.

 

P/1 — E você já enfrentou alguma dificuldade no trabalho, já sofreu algum tipo de preconceito, por ser mulher?

 

R — Ó, dificuldade a gente teve no começo, pra se adaptar, colocar o... Porque o povo diz assim: “Ah, é uma área fechada”. Não existe isso de “área fechada”. Tem que ter o respeito ao trânsito do mesmo jeito, porque tem você, tem os caminhões de fora, tem as ruas que são principais, então, tudo isso aí. E é você se acostumar com o ambiente, porque são blocos. Tem o bloco A, que é só hifer, tá? Só carga congelada, o bloco A. Ele vai, ele começa por módulos. Cada container é um módulo. Então, começa no módulo dois, daí módulo seis, dez, aí vai de quatro em quatro, depois do dois. Do lado de cada módulo desse é um container e no bloco tem do A1 ao A15. Então, até o A9 é só rifer ligado na tomada, só carga congelada. E do A10 em diante é outro tipo de carga, excesso que vem: barco, caminhão desce do navio, container fechado com móveis, entende? Essas cargas que chamam carga com excesso. Que ou ela transpassa... que o container, daí, é aberto, ele só tem a parte do final, que protege o container e as laterais são abertas. Então, as cargas com excesso, geralmente elas passam pro lado, são excessos laterais ou de altura, então, ela não pode ficar acomodada num bloco, entende? Eu vou ver se consigo uma foto pra você, eu vou te mandar dos excessos, como é que são. Daí, a gente teve que se acostumar num local onde ficava tal coisa e daí, na época que eu entrei, tinha o bloco A, o bloco B e o bloco C. Só que daí, ia até o número 38. Aí, como foi solicitando muito, o serviço foi aumentando, eles aumentaram o pátio e transformaram o bloco D e o bloco A em tipo quatro blocos, porque eles dobraram a quantidade de containers. Era até o 38, foi até o 80, o módulo. E aí, agora, aumentaram de novo e colocaram bloco C no rolo, agora são três blocos. E, preconceito, minha filha, foi o que mais nós enfrentamos naquele lugar. Eu nunca esqueço um arrumador que chegou, olhou pra mim, falou bem assim: "Ai, o que você está fazendo aqui? Aqui não é lugar de mulher, você não estaria melhor em casa, fazendo comidinha pro marido?” Eu falei: Ó, se é lugar de mulher ou não é, o problema não é seu, é meu e eu acho que não existe um lugar definitivo pra mulher” “Claro que existe, em casa, cozinhando pro marido”. Eu falei: “Sabe qual é a diferença entre nós dois?” Ele falou: “Qual?” “Eu já consegui marido, você ainda não conseguiu”. E ele calou a boca na hora, sumiu da minha frente. Aí a minha amiga: “Meu Deus!” Eu falei: “Mas é claro, o sonho dele é ter marido, só pode! E vem me criticar se eu tô fazendo alguma coisa ou não?” E daí, tinha aqueles que olhavam atravessado. Tinha um, do TR, que ele já não trabalha mais com a gente. Agora, todos os caminhões têm rádio, antigamente não tinha. Antigamente só tinha rádio quem trabalhava no pátio, que o serviço de pátio é pra arrumar os blocos. Porque, quando desce um navio muito grande, que a descarga é muita, eles vão jogando container em qualquer lugar, não vai jogando em lugar específico. Que tem um lugar que é carga cheia, tem um lugar que é carga vazia, tem lugar que é IMO, que IMO é com produto tóxico. Qualquer produto tóxico, que pode explodir, que pode fazer mal pra saúde, que pode cair no mar, é corrosivo. Então, tem uma área só pra isso. Então, quando a descarga está muito acelerada, eles largam em qualquer lugar. E o serviço de pátio, quando a gente cai no pátio, é pra arrumar o pátio, é dia que não tem navio. Aí, nesse dia, você vai pegar o container de um lugar e vai levar pra outro, mas, na verdade, você está arrumando a casa. Antigamente eles chamavam de “house equipe”, né, uma equipe arrumando a casa. Agora não chama mais, agora é só serviço de pátio. E eu lembro que eu estava no pátio e eu peguei o rádio. E daí a gente ficava com o rádio, que era pra ser chamado onde que tinha que ir buscar, onde que tinha que levar. E tinha um do TR, que era aquele machista, né, que se acha, que mulher só nasceu pra cozinhar pra eles e fazerem o que eles querem, falou bem assim no rádio: “É, colocaram essa mulherada aí, só pra incomodar a gente” - conversando no TR com os outros - “Eu sinto saudade da época que era só homem isso aqui, isso aqui era mais organizado, bando de mulher burra”, não sei o que, não sei o que, não sei o que, falou, falou, falou. E eu fiquei bem quietinha, Luiza, eu não falei nada. Não falei nada. Aí, quando chegou na saída, né, eu sempre me dei bem com os líderes, aí um deles: “E aí, Vera, como foi o dia?” “Foi bem, apesar das chicotadas nas costas que eu levei hoje, eu tô bem”. Ele: “Chicotada?” E ele estava atrás de mim, o cara, na fila, pra sair. Falei: “É, esse aí chegou e falou pra nós que nós somos um bando de burra, não sei o que, não sei o que. Só tem um detalhe que ele esqueceu: que foi uma burra que ensinou ela a falar, a andar e comer sozinho, igual ele faz hoje e até limpar o bumbum, que se não tivesse a burra no caminho dele, nem isso ele sabia fazer”. O cara passou o resto dos anos que ele trabalhou sem olhar na minha cara. Mas ele escutou, escutou. Aí, depois daquele dia, a gente não escutou mais eles falarem mal da mulherada, no rádio. Então há um tipo de preconceito. Porque eu penso assim, se os homens aprendem tudo o que eles aprendem, do dia que eles nascem, até o dia que eles se mantém sozinho, foi porque teve uma mulher no caminho, que ensinou tudo pra eles. E os homens não valorizam isso aí. Porque, se você não ensinar um filho a andar, a falar, a sentar e comer sozinho, a ir no banheiro, fazer sua higiene sozinho, ele não vai aprender. Que não tem pai que vai lá no banheiro ensinar isso, não tem homem que vai lá ensinar o outro, isso. Quem ensina é uma mulher. E eles não dão valor às mulheres, por isso. E daí eles se acham superiores e eles não são sempre superiores. Eles são inferiores a nós. Eu tiro o sarro aqui em casa, que eu digo, que Deus... eles dizem assim, tiram o sarro: “Ah, vocês foram criadas da costela. Não fosse Deus tirar a costela do homem, vocês não existiam”. Eu falei: “Não, é que ele fez uma burrada, tentou consertar depois. Tirou a costela e consertou” (risos). Não é verdade?

 

P/1 — Vera, queria saber o que representa pra você ser essa turma pioneira de mulheres, que começou a trabalhar no terminal de containers de Paranaguá?

 

R — Olha, pra gente foi muito importante, porque a gente acabou servindo de exemplo. Porque eu conheci muitas alunas que tinham medo de dirigir um carro pequeno. Quando elas descobriram que eu estava trabalhando com a carreta, eu e outras amigas, menina, cresceu tanto a procura de categoria E pelas mulheres, nas autoescolas, que a gente ficou impressionada, porque daí elas viram como uma porta que abriu. Porque a pessoa vê aquilo ali: “Ah, aquilo ali eu não tenho acesso, não posso ir ali”. É um lugar restrito. Quando a gente entrou, a gente começou a trabalhar, que começaram a sair, que foi, teve uma vez que veio a Gazeta do Povo aqui, entrevistar. Eu tenho a foto, eu não sei se eu vou conseguir achar nos meus arquivos, mas foi feita uma entrevista comigo e mais uma da TCP e tem a foto nossa na página principal da Gazeta do Povo, sabe? Mostrando nosso início lá, foi muito bom. E, então, aí eu lembro que eu, conversando com a dona da autoescola, a última que eu trabalhei, ela: “Vera do céu, você tem que ver a quantidade de mulher que vem agora tirar a categoria E! Que antes era só homem que vinha: ‘Ah, não, vou tirar a E’. Não, agora a mulherada vem e dá show na carreta aí”, porque elas perderam o medo, você abre a porta, você serve de exemplo. Pra nós foi legal isso aí e até hoje, do pessoal, das mulheres, eu tenho dez anos, que eu sou mais antiga, depois de mim, a próxima tem oito anos. Que a turma que entrou comigo, das dez, das 21 que entraram comigo, só tem uma que foi pro TR. A Daniele, essa foi pro TR. As outras saíram tudo, entende? Então, daí, foi legal assim, entendeu? Porque a gente serviu… até hoje, quando eu chego lá e converso com alguém: “O que você trabalha?” “Trabalho na TCP” “O que você faz?” “Trabalho na TCP” “Ai, não acredito que você faz isso lá dentro, meu, que legal!” Eu tenho uma amiga minha, de Maringá, que é essa amiga que eu contei pra você, que me ligou do emprego, que ela trabalha… somos amigas até hoje. Quando ela chega lá, ela tem o maior prazer de falar pros amigos dela, quando a gente sai, que eu piloto a carreta. Ela sente o maior prazer: “Ah, ela é corajosa, eu não tive coragem nem de tirar de carro, essa aí vai pra carreta logo, que ela é... ela não pensa”. Eu falei: “Não, quando é coisa assim, que eu tenho vontade mesmo, realmente eu entro de cara”. Posso me arrepender? Posso. Não é. Ninguém pode dizer que não se arrependeu de alguma coisa que fez. Mas eu meto a cara, vamos arriscar, estamos aqui pra arriscar. Se a gente ficar com medo, a gente não vai a lugar nenhum. Mas que foi muito bom, foi, a gente abriu a porta pra muita gente. Hoje em dia você vê mais instrutor homem na autoescola do que mulher, porque a mulherada quer tudo ir pra carreta. Daí tem agora as que trabalham nas empresas de fora, com caminhão, pegam estrada, vão viajar pra fora, entendeu? Não conseguiram entrar na TCP, entraram numa empresa e vão carregar container pro norte do Paraná, pra outros lugares. Vira e mexe a gente encontra uma mulher lá dentro, com a carreta, um bitrem, né, que é aquela com dois, né, container, carregando e estão lá, trabalhando junto. Então, a gente acabou abrindo a porta pra outras, servimos de exemplo, com certeza. E a Andréia também foi a primeira a ir pra máquina grande. Que até a Andréia ir, só tinha homem na máquina grande. A Andréia foi a primeira da empresa a ir pra máquina grande e dar show nos homens lá, hein! Ela dá show, que ela não tem medo, porque a máquina tem que empilhar cinco de altura. Tem homem que não empilha cinco de altura, a Andréia empilha, ela não tem nada, ela não está nem aí. Ela encara mesmo, não está nem aí. Ela sofreu um acidente, eu não sei se ela te contou, que ela caiu da máquina, chegou a arrancar o braço dela do lugar. E ela teve que voltar a trabalhar, porque o Inss não segurou mais. Então, ela teve que voltar a trabalhar e ela falou: “Vera, você acredita que, eu voltando a trabalhar, foi melhor a minha fisioterapia do que a fisioterapia com a fisioterapeuta, meu braço melhorou mais”. Mas acho que é o prazer de estar no que você gosta. É diferente. Porque ela fazia fisioterapia pra voltar a trabalhar. Lá, ela trabalhando, no dia a dia, no que ela gosta de fazer, ela se saiu melhor do que com a fisioterapeuta. Mas que foi bom, foi.

 

P/1 — E, Vera, como é o seu dia a dia?

 

R — Ó, o meu dia é corrido (risos). Porque a nossa carga horária é seis por doze. Eu trabalho seis horas, venho pra casa, com doze horas eu volto pro trabalho. Por quê? Porque nós dependemos do navio. E eu vou dizer pra você: se teve uma coisa que não aconteceu na nossa pandemia aqui, foi o porto parar. O porto trabalhou triplicado, meu Deus! Você acha assim: “Ah, com a pandemia, vai dar uma acalmada”. Não, não teve calma nenhuma. Foi pior do que quando não tem pandemia. Então, eu trabalho de manhã. Se eu cair de manhã na escala, eu volto de madrugada. Aí, saio da madrugada, saio às sete da manhã, daí volto às dezenove, aí, das dezenove, eu volto no outro dia, às treze. A maioria dos dias é assim. Eu trabalho seis dias, folgo dois, tá? Nesse intermédio, se eu saio, trabalho de manhã, chego aqui uma hora, aí eu tenho a minha vida pra cuidar. Eu tenho a minha mãe, que eu preciso levar no supermercado, que eu preciso ir ver se está tudo bem, porque ela tem oitenta... vai fazer 82 anos e não aceita morar comigo. Quer ficar na casa dela, porque lá ela sabe onde estão as coisas. Então, eu não vou tirar essa individualidade dela, enquanto ela pode. O que a gente faz é estar lá quase todo dia, pra ver se precisa de alguma coisa, se está tudo bem, cuidar da segurança dela. A gente mandou erguer tudo muro, colocar portão fechado, tem dois cachorros grandes no quintal, que ficam soltos, por causa da segurança dela, que ninguém entra, com aquelas bençãos lá, sabe? Então, o que a gente faz é isso. Daí tem o telefone da vizinhança inteira. A vizinhança inteira tem meu telefone. Porque, antes, a bonitinha acordava sete hora da manhã. Eu dizia: “Por que a senhora acorda sete hora da manhã, se a senhora não vai fazer nada?” Aí, agora, ela aprendeu a acordar às dez. Aí, às vezes eu quero ir lá de manhã, eu digo: “Ai, dez horas, a mãe não acordou ainda”. Eu fico esperando dar o horário, pra ir lá. E daí, se ela não aparece no quintal, tipo, dez horas, onze horas, meio-dia, não aparece, já tenho, meu telefone já toca: “Vera, Dona Maria não apareceu aqui fora ainda”. O vizinho já se preocupa, que não a viu brigando com o cachorro, que não a viu molhando as plantas, entendeu? Então, tem que cuida pra mim também, a vizinhança. Aí, eu chego em casa, tem as coisas pra fazer, às vezes uma roupa, uma roupa pra passar, umas coisas pra organizar. Que nem eu falei pra você: ontem eu demorei pra responder, que eu estava limpando a casa, que hoje as minhas netas de Curitiba estão aqui. Que é assim: as minhas netas de Curitiba não são netas de sangue. Elas são filhas da minha primeira afilhada e a minha primeira afilhada me chama de mãe. Que, quando ela namorava, ela dizia assim pra mim: “Mãe, quando eu casar, a minha… os filhos que eu tiver vão chamar você de vó”. E, então, são minhas netas. Fale o que falarem, critiquem o que criticarem, ninguém vai tirar do coração: são minhas netas e a mãe delas é minha filha. Tanto que o meu filho, quando a gente vai conversar aqui em casa, sobre ela, a gente não fala “Adriana”, a gente fala “a tua irmã”. Porque é irmã, querendo ou não, é irmã. Que não é o sangue que une, né, é o amor. E essa que estava querendo entrar aqui, é o meu grude, é a Mari, de onze anos, sábado doze. E essa daqui, que está aqui hoje, daí sábado, ontem, foi aniversário da minha neta de sangue, fez quatro anos anteontem. É que a primeira filha do meu filho. E sábado é o bolinho dela, né, o aniversário dela. Então, Deus o livre, se ela não vier com as meninas. Fica faltando um pedaço da casa, tem que vir junto. E daí, ela acaba, na verdade está aqui, que vem aqui na porta, me olha e volta pra lá (risos). Meus carrapatos. Então, daí eu estava dando uma geral na casa, trocando roupa de cama, que aqui é o quarto delas, aqui. Eu fiz o quarto pra elas, quando elas vêm, elas têm o lugar delas, pra elas ficarem. E daí, ontem eu estava dando uma geral, pra deixar tudo em ordem, pra recebê-las de noite.

 

P/1 — Ô, Vera, me conta uma coisa: já são dez e meia, mas eu queria saber se você consegue ficar só mais um pouquinho, pra gente ir finalizando, pode ser?

 

R — Sim, com certeza.

 

P/1 — E me conta uma coisa: como você conheceu seu marido?

 

R — Então, meu marido foi assim: lá, como eu falei pra você, onde a gente morava, não tinha cerca, as casas. E a tia dele comprou terreno que era divisória conosco e foi morar lá. Quando a tia dele foi morar, ela tinha recém-casado, tinha um filho de sete meses, o Marcelo. E eu tinha sete anos de idade. E daí, eu ficava com o Marcelo, pra ela lavar roupa, pra ela fazer as coisas, fazer comida. Eu ficava com o Marcelo, eu acabava cuidando do Marcelo, pra ela. E o meu marido é sobrinho dela, frequentava a casa. E eu fui crescendo e ali, convivendo com ele, indo e voltando. Daí, um… acho que aí eu fui crescendo, ficando adolescente, aí ele tinha uma namorada e ele ficou noivo dessa namorada, oito anos. Ele foi noivo oito anos dessa menina e a gente sempre frequentando, tomando café junto na casa da tia dele, almoçando, ali, mas não tinha nada. Eu tinha outro namorado, namorei outro. E daí, ele terminou o noivado e ele terminou o noivado com essa menina e eu também tinha um namorado, terminei. E daí, a tia dele morava numa casa de madeira pequena, resolveram fazer uma casa de material, né, grande, por causa da quantidade de filhos, né, que eram cinco. Então, tinha que ter um quarto pros meninos e um pras meninas. E o marido dela começou a construir. E daí, sabe o que nós fazíamos de noite? Ia brincar de esconde-esconde dentro dessa casa, com as crianças. A casa em construção, ele era malandro, subia em cima da parede da casa, então ele achava todo mundo, o pessoal se escondia dentro da construção. E, de noite, nós íamos brincar com as crianças, pra entreter as crianças, eu e ele. Ele já tinha terminado o noivado, eu com 18 anos. E quem que ele achava primeiro? Sempre eu, né, que ele procurava. Mas, daí, já estava aparecendo o interesse, não estava procurando por causa de esconde-esconde, era com outra intenção, já. Já estava aparecendo o interesse. E daí, nessa história de esconde-esconde, que a gente começou. Ele me achava e dizia: “Se eu achar primeiro você, eu quero um beijo”. Só que a gente achava que ele estava procurando legal, depois que nós descobrimos que ele subia na parede, por isso que ele me achava (risos). Aí a gente começou a namorar. E daí, muito engraçado, foi o dia que ele foi falar com meu pai. E meu pai, todo mundo via meu pai, aquele homem daquele tamanho, é rígido. E não era. Rígida era minha mãe. Daí ele foi conversar com meu pai, daí o pai só falou: “Ó, não, vai namorar, só tem um negócio de horário, aqui não é casa da Mãe Joana, pra vir e ficar”. Ele colocou as regras dele, que tinha muita regra. Esse ano nós fizemos 36 anos de casado. Então, entre namoro, noivado e casamento, são 39 anos juntos. É, então, é bastante… então, tinha muita regra antigamente. E daí ele chegou e falou assim pra mim, ó: “Nós vamos noivar no dia dez de setembro”. E eu achei que era brincadeira. Falei. Mas aí, quando o vi com aliança, comprando tudo e foi noivado dia dez de setembro, foi feito o noivado dia dez de setembro. Daí, ele falou: “Ano que vem a gente casa”. E daí eu falei: “Não, vamos ver, não” “Não, ano que vem a gente casa”. E daí, quando virou o ano, chegou mais ou menos acho que março, ele falou pra eu escolher uma data, pra nós casarmos. E daí ele escolheu o mês que ele estava de férias, que foi junho. Aí a gente marcou dia 22 de junho. Aí todo mundo começou: “22 de junho vai estar frio e é tempo de chuva e é tempo de não sei do quê”, porque aqui o clima é muito úmido. E essa época geralmente começa a esfriar muito, chover. Tivemos uma sorte tão grande, um calor de rachar no dia do meu casamento! Não teve chuva, não teve nada. (risos) Mas foi… e foi assim. E daí, estamos aqui junto, filha. Entre namoro e noivado, 39 anos juntos. Graças a Deus, assim: tem defeito? Tem. Todo mundo tem, né, não é perfeito. Tem umas coisinhas que a gente se pega de vez em quando, mas, fazer o que. Faz parte. Se não tiver, perde a graça. Mas é assim: somos muito unidos, muito companheiro um do outro, sabe? Tudo o que vai fazer é conversado, sempre junto, autoridade sempre, sobre os filhos, sempre foi minha, ele deu pra mim. Ele nunca se meteu, se queriam fazer alguma coisa, se eu dizia “não”, era “não”. “Ah, vou falar com o pai” “Não, a tua mãe decidiu, está decidido”. Nesse ponto eu tive sempre a última palavra. E eu tiro o sarro dele até hoje, ontem de noite eu estava tirando sarro aqui, dele. Ele falou: “Ah, eu vou ver o tripé pra colocar o celular, que você vai ficar segurando o celular na mãe. Melhor no tripé, acho que fica melhor a visualização”. Ele é preocupado. Aí, eu não lembro o que que ele falou, eu falei bem assim: “Conta pra todo mundo aí que você já se arrependeu”, que estavam os meus amigos de Maringá, estão aqui também, que eles vieram pro aniversário da minha neta. Falei: “Conta aí pra todo mundo que você se arrependeu”. Ele falou: “Do quê?” “Que você casou comigo, porque você queria saber o que a baiana tem, descobriu, já se arrependeu, mas agora é tarde” (risos). Ele: “É verdade, eu queria saber o que todo mundo fala que a baiana tem, eu quis saber, agora é tarde, eu tô aqui”. Vira farra, sabe, entre nós, aqui. Então, nesse ponto, eu tenho, dá uns barraquinhos de vez em quando? Dá mesmo. Aí já entra filho no meio, entra todo mundo (risos). Mas estamos aqui, minha filha, firme e forte, acho que vai longe essa história, hein? Que, se ele não largou com tanta coisa que nós passamos, agora, minha filha... o meu amigo que falou: “Aí, João, comeu a carne, vai ter que roer o osso agora, até não existir osso mais”. (risos) É verdade.

 

P/1 — E, Vera, como foi se tornar mãe? O que a maternidade representou pra você?

 

R — Então, era um sonho muito grande. Desde criança, eu sempre quis ser mãe, sempre gostei de criança. E daí, quando eu casei, tinha uma que o meu marido teve um problema no couro cabeludo, quando a gente era noivo. Que eu casei, eu tinha 22 anos e ele tinha 28. Cabeça dele ficou inteirinha branca. E o cabelo branco é associado à pessoa de idade. A pessoa de cabelo branco é velha, não é verdade? E daí começou o boato na rua, que eu estava casando com velho, que eu estava grávida. Começou, as pessoas que não têm o que fazer, cuidando da vida dos outros. Só que ele tinha 28 anos e foi um problema no couro cabeludo. Que depois foi sanado com remédio, essas coisas e tal, voltou o cabelo normal. E daí: “Ela está casando com velho, que ela está grávida”. E eu nunca prestei, né, Luiza, o que eu fazia? Casei, andei seis meses de topzinho bem curtinho e short bem curtinho, mostrando a barriga, pra todo mundo ver onde estava a barriga de grávida, eu não estava grávida! E daí, com seis meses... eu tomei comprimido durante seis meses, pra provocar todo mundo da rua. Que eu falei: “Não, não vou deixar engravidar já, não vou mesmo”. Aí, com seis meses, eu parei de tomar o remédio. Aí eu fui no médico, o médico falou: “Ó, você tomou remédio por seis meses, vai levar mais ou menos um ano pra você engravidar”. Um ano! Deu quinze dias, minha menstruação não veio, eu estava grávida. Falei: “Tão rápido!” Aí, o sonho dele era uma menina. E naquela época não tinha esse negócio de ecografia, até tinha, mas era pra quem tinha dinheiro, era muito caro. E daí, eu não… aí, o que a gente fazia? Comprava um enxoval cor neutra: amarelo, verde… sabe? Cores neutras, que não define se é homem ou é mulher. E daí, quando eu fui… ontem até nós estávamos... hoje de manhã eu estava lembrando aqui. Eu acordei, no dia que eu ganhei o Leandro e eu não estava sentindo nada. Acordei com fome, comi bem, daí, quando foi uma hora da tarde, que ele trabalhava e vinha almoçar, quando ele entrou dentro de casa, estourou a minha bolsa. E daí a gente foi pro hospital. E tem um fato curioso: o número de sorte do meu filho é dezessete, porque o meu marido trabalhava na empresa de ônibus da cidade. Ele trabalhou desde os doze anos, saiu agora, em março, na pandemia, foi mandado embora. Então, ele tinha cinquenta anos de empresa. E daí, nós ligamos pra tudo que é táxi, ninguém atendeu. E estava passando um ônibus na BR, que era o número dezessete, o ônibus. Meu marido parou o ônibus e me levou pro hospital no ônibus dezessete. Cheguei no hospital, o número da ficha, dezessete. Vai pro quarto ganhar nenê, quarto dezessete. Cama dezessete. Falei: “Meu Deus, muito dezessete num dia só”. E daí eu fui, ganhei o Leandro, entrei uma hora, uma e meia, duas horas da tarde quase. Eu fui ganhar o Leandro às sete e quarenta da noite. E, nesse intermédio, naquela época, não era hoje, né, foi minha comadre, foi minha amiga de Maringá, foi o João, foi minha cunhada, todo mundo naquele corredor, esperar esse Leandro nascer. Daí, ele nasceu e daí eu fui… eu lembro que, quando ele veio, ele tinha o cabelo bem vermelhinho, porque o meu marido é descendente de ucraniano com polonês. O avô… a avó era ucraniana e o avô era polonês e o pai dele era ucraniano. Por isso esse sobrenome, Kutianski. E daí, eu lembro que a menina falou que tinha um… parece um carrinho, aqueles carrinhos de chá, que é um carrinho de chá. Só que tinha dois andares aquilo, tinha o debaixo e o de cima. A menina do berçário colocava todos os nenês ali, que eles iam tudo enroladinho numa flanela e colocava um do ladinho do outro e ia de quarto em quarto, entregando pras mães darem mamar. E a berçarista era minha amiga, a do berçário, a Célia. E daí, ela ia lá no meu quarto com aquele carrinho cheio de nenê e dizia assim: “Vera, qual que é o teu aqui”. Eu dizia: “Esse com a cabecinha vermelha”. Ela se rachava de dar risada, que ele tinha o cabelo bem vermelhinho. Era aquele nenê. Ela dizia: “Pô, essa é a única que conhece o filho, que as outras, nenhuma acha”. Falei: “Claro, só eu tenho cabelo vermelho” (risos). E foi assim. Aí eu tive o Leandro, daí eu não quis outro filho, em seguida. Daí eu fiquei tomando comprimido, pra não engravidar em seguida. Daí, quando o Leandro fez quatro anos, eu cheguei, falei pro meu marido: “Vou parar de tomar remédio, pra ter mais um filho”. E o sonho dele era que o Leandro fosse uma menina. E daí a gente fez um acordo, falei: “Se for homem, eu escolho o nome; se for mulher, você escolhe”. E ele tinha escolhido Vanessa e eu tinha escolhido Leandro. Aí, quando eu engravidei a segunda vez, aí tinha ido morar uma família do lado da nossa casa, que a filha chamava Vanessa. Daí ele falou: “Não vou poder pôr Vanessa mais na minha filha, se eu tiver, porque daí vão ser duas Vanessas, grita de lá, grita de cá Vanessa, vai saber qual Vanessa é?” Aí ele escolheu Cristiane. Mas aí eu falei: “Por que que você coloca Cristiane?” Eu falei: “Ah, porque coloca apelido nas crianças, pelo menos Cristiane é Cris, é fácil”. E daí eu parei de tomar comprimido, acho que com seis meses que eu tinha parado de tomar comprimido, eu engravidei da Cris. A gravidez do Leandro, sofri igual cachorro. Tudo que eu comi os nove meses, eu joguei fora. Nove meses vomitando. Eu vomitei antes de ir pro hospital, ganhar o Leandro. E tudo me fazia mal, o cheiro de comida me enjoava, o cheiro de pasta de dente, o cheiro do banheiro, tudo me enjoava. Da Cristiane, era eu e a morta de fome. Eu acordava comendo, dormia comendo. Eu jantava duas vezes. Eu jantava sete horas, que eu dava comida pro Leandro e jantava de novo dez hora da noite, de tanta fome que eu tinha, que eu não sei de onde que era, porque eu digo que a culpa é dela. Ela diz: “Pô, mãe!” Eu falei: “É, é você que é culpada, porque eu comia demais”. E sabe o que eu gostava de comer? Arroz, feijão, ovo e o vidro de pimenta do lado. Que, na minha terra, pimenta faz parte do nosso dia a dia. Então, minha filha, eu enchia o ovo de pimenta, mas era tão gostoso aquilo, que eu repetia. E ela é ruim, ela diz que a culpa é minha, que eu comia pimenta, por isso que ela ficou brava. (risos) Ela é braba! O Leandro, não, o Leandro não dá bola pra você. A Cristiane, meu Deus do céu! Eu conto que, na escola, eu tive as duas experiências de mãe: o Leandro apanhava, Cristiane batia. O Leandro ligava que eu tinha que buscar, que ele apanhou não sei de quem, estava chorando. A Cristiane eu tinha que buscar, porque ela bateu em alguém. Eu tive as duas experiências (risos) numa casa. E quando eu chegava: “Dona Vera, dá pra senhora vir aqui, fazendo o favor? O Leandro apanhou e não quer sair, está aqui chorando”. Pus Cristiane na escola: “Dona Vera, dá pra senhora vir aqui, que a Cristiane bateu em duas hoje”. Falei: “Meu Deus, enquanto um apanhava, a outra batia”. Aquelas, né, gente, é, ela parte pra cima das coisas, também não tem medo, não! Ela tirou carteira: “Ah, porque nós vamos…” “Eu vou levar o carro!” “Mas você nunca subiu a serra” “Não, mas vou subir, tem que subir!” E foi, subiu a serra pra Curitiba. Se você falar pra ela: “Cristiane, nós temos que ir lá em Curitiba, em tal lugar” “A gente acha”. Ela entra dentro do carro, pega a direção, vai-se embora, não tem medo. E o guri também, nesse ponto, é igual, sabe? Ele também não tem medo de encarar as coisas, mas ela é mais decidida que ele, sabe? Ele ainda para pra pensar se vai fazer, ela não. Ela: “Vamos!” Às vezes eu digo assim: “Cristiane, eu queria comprar tal coisa” “Compra, ué!” (risos) Assim. Ela não diz: “Ah, mãe, agora não dá, pensa…”. Eu digo: “Ó, se eu faço bobagem, a culpa é tua, que me apoia”. Então, a experiência que eu tenho muito grande, que você vê que o coração é grande. Adotei a filha de outro, né, como minha. E as duas netas que não são de sangue, mas amo de paixão. E agora tem as duas de sangue. Que você sabe que... como é? O fruto não cai longe do pé. A mais nova, que tem um ano e três meses, é a tia em carne e osso, desaforada, briguenta que só, sabe? Não aceita desaforo, você briga com ela, ela põe a mão na cintura e bibibibibibi. Ela não fala ainda, então ela resmunga com você, com a mão na cintura. Eu falei: “Essa guria vai dar um trabalho!” Porque é a tia dela, né, igualzinha. Puxou. E daí, contando, eu tenho quatro netas. E daí tem uma amiga, que ela tem um filho, ela diz: “Tenho uma inveja”. Que a minha mãe, a mãe dela a deu também. Só que não tem amor, num… ela, hoje em dia, conhece a mãe, tudo, mas ela não tem, tem o filho, daí ela está ensinando o filho a me chamar de vó. Daí eu falei: “Ah, tô arranjando mais um neto, de banda, eu vou ficar com cinco agora”. (risos) Ficou Davi, bendito fruto. E eu chego na casa dela, buzino, ele diz: “Vovó chegou”. Porque ele aprendeu, né, está com dois anos, a me chamar de vovó. E aí eu tenho uma EcoSport, né e daí ele chegou, ela foi na loja, ele queria, ele viu um carro com pneu atrás: “O carro da vovó, o carro da vovó!” Daí ela comprou pra ele. Quando eu chego lá, ele vai lá no quarto buscar o meu carro. Diz que é meu carro que está na mão dele. (risos) E daí eu tô adotando mais um. (risos) E assim eu vou, adotando filho dos outros. (risos) Falei: “Não tenho mais filho pequeno, vou pegando do vizinho”. (risos) Mas é uma coisa muito boa. Eu tenho pena das pessoas, que nem a minha mãe, que eu falei pra você. Eu acredito, hoje em dia, que ela me deu, porque ela não tinha condições mesmo. Ela não tinha família, morava de favor na casa dos outros e era um tempo muito mais difícil, né, das mulheres conseguirem emprego. Elas conseguiam nesse ramo: doméstica, lavar roupa, limpar casa. Então, eu acredito que foi isso, não foi falta de amor, não. É que ela não teve oportunidade mesmo, de criar. Então, mágoa eu não tenho nenhuma. Eu a agradeço até, os dois que ela achou, né, que pôs no meu caminho, que olha, eu acho… tem aquela frase: “Nenhuma família é normal, mas se eu pudesse escolher, eu escolhia tudo de volta”, eu escolhia de novo mesmo, sem pensar. Eu não tenho o que reclamar de onde eu caí, do amor que eu tive, nenhum.

 

P/1 — Ai, meu Deus, que difícil começar a encaminhar pro fim! Queria ficar muito tempo aqui, com você. Mas queria te fazer umas últimas perguntas e queria saber quais foram os maiores aprendizados que você tira da sua trajetória profissional e o que o porto representa na sua história.

 

R — Então, aprendizado que eu tive na minha vida, até hoje, foi em relação ao meu pai. Que o meu pai, ele dizia bem assim pra mim, quando eu era criança: “Você não é pior do que ninguém, nem melhor, você é igual. Existem pessoas que têm mais dinheiro que nós e as que têm menos, mas melhor e pior que alguém, não existe ninguém nesse mundo”. E olha que era um homem semianalfabeto, que me ensinava isso. E outra coisa que o meu pai me passou muito é sempre ter caráter e dignidade. Ele falou: “O que é teu, é teu; o que não é teu, não é teu. Nunca pegue o que não é teu. Se a pessoa te der, muito bem; se não, olhe, achou bonito, é dele, não é seu. E sempre seja digna de tudo, tenha responsabilidade”. Isso eu aprendi com meu pai, entendeu? Eu trago até hoje e passei pros meus filhos. E uma coisa que meu pai não admitia era mentira. Meu pai, se eu mentisse pra ele alguma coisa, só de olhar, ele sabia que eu estava mentindo. Coisa de criança, de você mentir que foi em tal lugar e não foi, que você estava na casa de fulano e não estava. Não era nada grave, mas só dele me olhar: “Você está mentindo”. Ele já sabia, entendeu? Então, isso eu aprendi e ensinei pros meus também, até quando vem contar uma história: “Você está mentindo” “Não, mãe”, aí conta a história verdadeira. Mesmo correndo risco, que podia levar uma surra, contava. E na trajetória da vida, eu aprendi muita coisa, porque a pessoa diz assim: “Ah, é professor da autoescola, sabe tudo”. Não sabe, não. As pessoas têm que aprender que a gente não sabe tudo. Cada dia você aprende uma coisa diferente. O aluno, além de você ensiná-lo uma coisa, você aprende com ele. Tem coisas que você... eles veem de uma forma diferente da tua que, no futuro, vai te ajudar. Você vai pensar: “Eu aprendi isso”. Coisas assim, tipo marcas de referências que a gente ensinava em relação à baliza. Eu tinha a minha marca. O aluno, às vezes, via do lado dele e dizia: “Vera, se eu ver assim, fica mais fácil”. E, às vezes, quando eu ia passar pro próximo aluno, eu passava a minha marca e passava o que o outro aluno viu. E o aluno acabava, às vezes, entendendo melhor a do outro aluno, a outra visão, do que a minha. Uma coisa que me gravou foi uma aluna, que ela disse bem assim pra mim: “Vera, quando eu sair na rua, eu vou estacionar só em vaga de mulher”. Eu: “Vaga de mulher, existe isso?” “Existe, esquina da frente, esquina de trás, entrada e saída de garagem”. Eu nunca vou esquecer, o nome dela era Lourdes. “De onde você tirou isso?” “Vera, se eu parar na esquina da frente, não pode parar ninguém na minha frente, eu saio direto; se eu parar na esquina de trás, eu dou a ré e saio, ninguém me prende; e, se eu parar na entrada de garagem pra frente ou pra trás, é a mesma coisa, ninguém vai me trancar pra sair da garagem. Isso é vaga de mulher”. E a gente vai decorando essas coisas. Daí, quando eu pegava uma aluna que tinha dificuldade de estacionar o carro. Eu falava: “Ó, vai que nem a minha aluna, vai na vaga de mulher, que até você aprender a fazer uma baliza, estacionar, você não vai errar”. Então, foram coisas que eu aprendi com os alunos, que a visão deles é diferente da minha. Eu tinha feito um curso pra passar a dirigir, eles têm outra visão de algumas coisas. E em relação a área portuária, foi bom porque, mostra o quanto de capacidade, pra mim mostrou o quando de capacidade eu tinha. Porque, depois de eu ter passado por uma doença, ter passado pela perda do meu pai, muitas pessoas acabam se afundando, achando que são incapazes das coisas. E o porto mostrou pra mim que isso não existe, que você é capaz de ir atrás do que você quer, você é capaz de fazer qualquer coisa. Não vem aquilo: “Ah, esse serviço ____ não pode”. Não, não é assim. Tudo é treino, tudo você adquire. Que nem um amigo meu falou: “Eu sou destro, eu faço a minha higiene com a mão direita. Se um dia eu perder a mão direita, eu vou aprender a fazer essa higiene com a mão esquerda, eu vou ter essa capacidade, eu não vou ficar sem fazer minha higiene pessoal, porque eu não tenho mais a mão direita, eu não vou parar de comer, porque eu não tenho mais a mão direita”. Então, o porto me mostrou isso. Porque, quando você chega lá e vê aquele monte de homem, aquela carreta, realmente, te dá um… você olha assim, você diz: “Meu Deus, é muita coisa, né, eu não vou conseguir” e você consegue. Então, foram essas coisas que eu aprendi na minha vida. Com meu pai, a ser uma pessoa honesta, a ter dignidade. Graças a Deus agradeço hoje muito a Deus, pelo que eu tenho. Toda noite, Luiza, quando eu deito na minha cama, eu agradeço, porque a gente sabe que tem tanta gente que não tem uma cama, que não tem uma casa, que não tem uma família. Eu tenho tudo, guria! Deus me deu a honra de ver minhas netas nascerem, coisa que eu achei que eu não ia conseguir. Que quando você descobre o câncer, desculpe, Luiza, você acha que o mundo acabou! Né, acabou agora. Que nem o médico falou do atestado de óbito, sem estar escrito no papel. Você mesmo se dá atestado de óbito. E eu tive o prazer de ver minhas netas, de conviver, a minha neta Alice, ela diz bem assim, quando ela vem, que a outra vó dela mora na outra rua da minha casa aqui, sabe, moramos pertinho. Ela diz bem assim: “Pai, nós não vamos ver a vovó ‘véia’?” Que é a vovó ‘véia’. Ela não sabe falar “vovó Vera”, ela fala vovó ‘véia’. Aí a gente diz bem assim: “Por quê?” “Não, vamos lá, que a vovó ‘véia’ é legal, ela brinca comigo”. E, então, é a memória que ela vai ter. Porque ela chega aqui na minha casa, ela diz bem assim: “Vó, posso pular na sua cama?” “Pode!” “Porque a mamãe não deixa eu pular na cama dela, não” “Mas a vovó deixa”. Aí a Cristiane diz: “Engraçado, né, eu não podia pular”. “Mas você é filha, ela é neta, ela pode” (risos). Tem diferença. (risos) Infelizmente tem, Luiza, a gente acha que não vai ter, mas tem, tem. O neto é um amor que não tem como explicar. Você ama o filho de paixão, você é apaixonado, mas o neto, não sei, eu não sei te explicar que amor é esse, que a gente deixa fazer o que eles querem, os agrada, sabe? Anteontem foi aniversário dela, eu fui levar um bolo, que ela é apaixonada por esse unicórnio. Tinha que ver a alegria dela, quando viu esse bolo decorado de unicórnio, sabe? Então, é gostoso de ver, o sorriso de cada dia. Eu agradeço a Deus, ele ter me dado oportunidade de eu estar vivendo isso. Que tem muita gente que passou pelo que eu passei, não conseguiu. Eu conheci várias mulheres enquanto eu estava fazendo a quimio, que eu soube depois que não resistiram, que não ficaram, entendeu? Então, eu sou uma vitoriosa, até hoje. Eu me considero assim. E realmente, as pessoas que me conhecem também me consideram. Aqui tem um lugar chamado “Peito Aberto”, que tratam as mulheres. É um lugar para as mulheres que tiveram câncer irem, conversarem, aprenderem alguma coisa pra fazer. Tem muitas pessoas que se entregam. E eu digo pra você: o câncer é assim, ó, uma doença silenciosa, que ele usa o nosso psicológico. Se você se deixar abater, dá impressão que ele vem com mais força ainda. Então, existe esse lugar pras mulheres, aqui. E eu fui chamada, na época, pra falar, né, sobre a minha coisa e eu passei, eu lembro que eu falei pra moça, eu falei: “Ó, uma moça perguntou, que foi numa escola, o que você deve fazer, quando uma pessoa tem câncer?” “Não olhar com olhar de pena”. Você vê muito isso. A pessoa te olha careca, ela já olha: “Ai, morreu”. Ela já vê você dentro de um caixão, sendo velada. Não olha com olhar de pena, é a pior coisa, é a pior sensação do câncer, é essa. As pessoas te olham diferente, sabe? Não olhe diferente, trate igual, a pessoa está lutando pra conseguir superar. Porque é uma doença tão triste, que leva tantas pessoas embora, mas, se você tem apoio, se você tem uma família, você encara diferente. Eu tive tudo isso, sabe? E o meu pai, Luiza, meu pai, que eu não contei pra você, ele morreu sem saber que eu tive câncer. Porque ele estava com Alzheimer, ele esquecia as coisas. A gente não contou que eu tive câncer. Então, ele me via careca, ele passava a mão na minha cabeça: “Meu Deus, essa minha filha não tem juízo, pra que você foi raspar a cabeça?” Aí eu dizia: “Não, pai, é que é moda agora” “Meu Deus, moda de gente louca” Aí, no outro dia, eu ia de novo, ele passava a mão: “Meu Deus, guria, pra que você foi raspar a cabeça?”, que ele esquecia, você falava, no outro dia ele não lembrava. Então, eu não contei pra ele, entendeu? Porque de repente podia abrir uma portinha nele, lá, que fosse fazê-lo sofrer. Então, ficou só eu, entre minha mãe e o resto, ele não. Ele só brigava comigo que eu tinha raspado a cabeça, ele não sabia que tinha caído (risos). Eu não contei essa parte pra ele, tadinho (risos). Mas essas coisas a gente grava.

 

P/1 — E, Vera, quais são seus sonhos, hoje?

 

R — Olha, em relação à família, eu acho que eu tenho tudo que eu quero. Se eu disser pra você que eu quero coisa melhor, eu não quero. Tenho um filho maravilhoso, que eu falo que, na minha doença, ele não foi meu braço direito, ele foi meus braços, minhas pernas e a minha cabeça, meu filho. Tenho uma filha que é chamada minha cúmplice, fazemos tudo junto, vamos pra todo lugar junto e enquanto meu filho andava comigo pra médico, fazendo exame, ela cuidava da casa, ela cuidava do pai, ela mantinha casa, entendeu? Não tem coisa… minha filha do coração, outra: se internou comigo no hospital, ficava comigo, queria vir pra casa me dar banho e queria cuidar de mim. Minhas netas, não têm o que falar, o orgulho maior que eu tenho, as duas mais velhas são muito estudiosas, muito dedicadas. Vêm pra cá, Luiza, ficam quinze dias, pra ir embora é uma briga, que não querem ir embora, querem ficar aqui. Eu falo pra mãe delas que ela já perdeu, que é tudo minha, não querem ir embora mais. A menor vai, chora dois dias depois que chega em casa, que quer voltar pra cá, a de doze anos. As duas pequenas são uns raios de sol da minha vida, são dois raios de sol. Chega aqui, pode estar chovendo, pode estar nublado, pode estar temporal, a casa se ilumina, sabe? Com a falaria delas, com a brincadeira, com ela fazendo a careta pro avô, a mais velha. Ainda corre lá: “Vó, ele fez careta pra mim!”, sabe? O avô dela a perturba, faz careta, ela fica brava, faz careta pro vô. A outra brigando com todo mundo, a pequenininha. Então, quanto a isso não tem. E eu, nessa profissão, eu dei entrada na minha aposentadoria, o Inss me pediu mais dois anos. Eu pretendo, Luiza, me manter os dois anos que faltam, se eu conseguir, onde eu tô. Porque eu gosto do trabalho, eu conheço todo mundo, eu me dou com todo mundo, eu já sou… sonho, é que nem eu falei pra você: eu tinha dois na época de adolescente, que era aprender a tocar piano, sabe? Sou apaixonada por piano, adoro. Tinha o sonho de aprender piano. Tinha uma amiga que tocava piano, eu ia pra casa dela. Eu ficava encantada, escutando-a tocar piano. E o outro, como eu te falei aquele dia, pilotar um helicóptero. Mas esse tem que ter dinheiro. Não é assim, tão barato (risos). Então, a gente vai jogando na loteria aqui, vai que um dia o homem olha lá, diz assim, ó: “Hoje você vai ganhar e vai fazer o que você quer”. Porque eu digo pra vocês, se eu tiver setenta anos e eu tiver dinheiro, eu vou fazer o curso pra pilotar helicóptero, eu vou morrer com o sonho realizado (risos).

 

P/1 — Vera, você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar algo que eu não tenha instigado, deixar alguma mensagem?

 

R — A mensagem minha, Luiza, é aquilo que eu estava conversando com você agora há pouco, principalmente pra nós mulheres, porque nós somos vistas como “a dona de casa”, a gente não é vista como uma pessoa que tem capacidade pra outras coisas. Então, pras mulheres, que elas têm capacidade, sim. Eu acho tão bonito quando assisto o jornal e aparece uma pessoa lá com setenta anos, que se formou advogada, que o sonho era ser advogada, que se formou médico com mais de cinquenta anos, porque o nosso mundo é muito injusto em relação ao trabalho. Se você tem dezoito anos, vinte, você não tem experiência para tal coisa. Se você passa dos cinquenta, você é velho demais para tal coisa. Isso tinha que deixar de existir, porque todo mundo tem capacidade e não interessa a idade. Você, tudo você aprende, tudo você consegue, desde que você queira. Você não tem que fazer o que as pessoas querem pra você e sim aquilo que te deixa bem, que te deixa realizado. Se você tem um sonho de ser advogado, você tem cinquenta anos, corra atrás. Nunca é tarde. Como o meu médico disse pra mim: “Nossa vida só não tem solução mais depois que é emitido atestado de óbito, aí não tem mais”. Mas, enquanto tiver, corra atrás dos sonhos, lute, procure, nunca vai ser tarde pra realizar um desejo.

 

P/1 — Como foi, pra você, ter dividido um pouquinho dessa história com a gente, hoje?

 

R — Ah, eu achei gostoso, sabe por quê? Porque as pessoas veem a gente e não… é aquela história: “Ah, tem um carro bom, tem uma casa boa, teve sorte na vida”. Não foi sorte, tudo que nós temos, a gente lutou pra chegar. Então, é bom as pessoas verem que a nossa vida é igual a de todo mundo. Todo mundo tem que trabalhar, acordar cedo, encarar o sol, encarar a chuva, encarar a tempestade, pra ter o conforto. Se eu não trabalhasse, eu não corresse atrás, eu não teria nada. Era muito fácil eu ficar em casa, deitadinha, olhando pro teto, esperando as coisas e nada cai do céu, minha filha, a não ser a chuva, quando Deus manda. Então, foi gostoso pras pessoas conhecerem que, como eu falei pra você, as pessoas, depois que têm um câncer, acham que o mundo acabou. Ela tem uma doença, ela acha que o mundo acabou. Não acabou. Então, é bom pras pessoas… que sirva a minha vida, né, o que eu passei, que eu fui adotada, que tem muito filho aí que foi adotado e hoje não amam os pais, são contra os pais hoje em dia, que eu já vi casos que eu conheço, que foram adotados e depois pararam de falar com o pai e a mãe, porque foi adotado. E mostrar que, se você foi adotado, não foi porque a pessoa gerou... que quando você gera, realmente é teu, mas quando você pega de outra pessoa, é porque você realmente amou aquela criança, quando você viu. Daí você não foi gerado no útero, você foi gerado no coração. E quer coisa melhor do que ser gerado no coração? Não existe. E outra coisa é que a gente mostra aqui, eu tento mostrar, que tudo, na vida, tem dificuldade, tudo. Então, pra quem assistir, ver, tudo na nossa vida não é fácil. Se fosse fácil, não existia, né, uma noite e um dia pra você parar no meio do caminho e pensar no que está fazendo, no que você vai encarar. Tem dias, Luiza, que eu acordo aqui, que eu juro pra você, que a vontade é de ficar aqui na minha cama, deitadinha, sem sair pra fora. Mas tem o mundo lá fora e eu tenho que ir lá. Porque o mundo, tem que bater de frente com ele. Então, eu gostei muito, espero que sirva de exemplo pra outras pessoas, que as pessoas olhem e vejam que o mundo não acaba em certas horas da nossa vida. A vida continua e a gente tem que correr atrás dela todo dia.

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