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História

Aconteceu na estação

História de: Oneide Costa Alves Fiuza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/01/2021

Sinopse

A nordestina Oneide Costa Alves Fiuza conta sua história desde a infância no Maranhão até a sua chegada em São Paulo, sempre focada e confiante em estudar. Ao chegar à cidade grande, ela acaba no metrô Praça da Árvore e começa estabelecer seus laços com a cidade a partir dali.

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História completa

P/1 - Vamos começar com você nos falando seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. 
R - O local onde eu nasci? 
P/1 - O teu nome completo, o local onde você nasceu e a data. 
R - Certo. Oneide Costa Alves Fiuza. Nasci no Maranhão e moro atualmente em São Paulo. Sou... nasci no dia 7 de janeiro de 1975. 
P/1 - E em que cidade do Maranhão você nasceu? 
R - Vitorino Freire. 
P/1 - E qual é a sua atividade? 
R - Hoje, técnica de enfermagem. 
P/1 - E qual é o nome dos seus pais? 
R - João Médio Alves, Helena Costa Alves. 
P/1 - E qual atividade que os seus pais exercem? 
R - Lavradores. 
P/1 - Lá no Maranhão? 
R - No Maranhão, na roça, no interior. 
P/1 - E... O bairro que você mora aqui em São Paulo? 
R - Americanópolis. 
P/1 - E na sua infância, onde você morava? Como era o lugar em que você morava? Conta um pouquinho pra gente. 
R - A minha infância foi no interior do Maranhão. Brincando na terra, subindo nas árvores, caindo, machucando e ajudando os meus pais na lavoura mesmo, na roça, né? Trabalho manual, que é plantação, colheita de legumes na época. Da colheita. 
P/1 - Quais as lembranças que você tem, assim, mais marcantes dessa época da tua infância? 
R - Lembranças boas, né? De uma criança que tinha liberdade, de correr, de brincar, porém, não tinha oportunidade de estudar, que era um objetivo que eu sempre tive, desde criança, pois a minha mãe tinha um “estudo muito pouco”, meu pai é analfabeto, E no qual... eu saí da casa deles com 11 anos de idade, com o objetivo de estudar. Fiquei trabalhando numa empresa, onde não tive oportunidade de estudar porque não era permitido, por eu ser menor. E... E ser... O estado do Maranhão... que, isso é muito precário, assim, a oportunidade, o trabalho é escravo, eu passei por isso, onde eu tive oportunidade de trabalhar em um outro setor, na cidade pequenininha, que não era o interior. Economizei um pouco de dinheiro, decidi vir pra São Paulo, porque eu tinha o objetivo de estudar e conseguir fazer um curso superior no qual eu já... Estou fazendo há 3 anos, né? E chegar aonde eu quero chegar e vou chegar. Vim pra São Paulo sem conhecer ninguém. Cheguei, fui, peguei o metrô sem ter o mínimo conhecimento, assim, perdida. Onde cheguei na catraca, tentei passar, não passei. Uma senhora falou: "Volta, tem que comprar o passe". Voltei, aquela menina bem ingênua, bem analfabeta, porque até então eu só tinha até a quinta série, né? Onde, é, comprei o passe, passei, entrei no metrô, fiquei perdida, sem saber onde descia porque não tinha informação, porque eu não vim pra casa de amigos, né, nem de parente. Ah, chegando na Praça da Árvore, desci, né? Nervosa, com medo de tudo, com medo das pessoas. Onde, de cara, assim, eu me aproximei de uma senhora, tentei conversar com ela e ela virou as costas pra mim. Eu fiquei muito desapontada e triste, comecei a chorar, porque eu não tinha noção da cidade grande, das pessoas, né? 
P/1 - E o impacto, assim, da cidade... 
R - … Ah, foi... 
P/1 - … Como foi? 
R - … Foi muito... Primeiro, na... Aconteceu na estação... Na estação, não, na Tietê, né? No que eu desci do ônibus, que eu vi aquela multidão de pessoas, eu fiquei apavorada. E aí, eu observei que tinha sempre... Tinha alguém esperando sempre, alguém que tinha descido do ônibus e eu não tinha ninguém, né? Eu falei: "Ah, meu Deus, e agora? Eu vou pra onde?". Aí sentei um pouco no banco lá, tal. E eu observei que tinha uma grande multidão saindo em direção a um determinado lugar, que era o metrô. Eu falei: "Vou acompanhar essas pessoas, que eu vou chegar em algum lugar". Acompanhei, no qual entrei no metrô, e desci na Sé. Chegando na estação Sé tem um... Na estação Sé não, na Praça da Árvore, tem uma pracinha lá, onde fica sempre um carro de polícia. Aí me aproximei, fui na direção do carro de polícia, perguntei se eles conheciam algum hotel próximo de lá, onde o cara olhou, assim, na minha cara, e falou: "Mas você veio... vem de onde?". Eu falei: "Do Maranhão". "Vai pra onde?". Eu falei: "Ah, eu não sei [risos]". Ele falou: "Como não sabe, você não veio pra casa de amigos? Cadê o endereço? Eu vou deixar você lá". Eu falei: "Eu não tenho o endereço de ninguém e eu vim pra trabalhar e estudar". Aí ele falou: "Você é louca, garota?" [risos]. 
P/1 - [risos]. 
R - O policial, né? Eu falei: "Não, não sou louca, não. Eu só quero ter uma oportunidade". Onde ele falou: "Bom, eu vou deixar você numa pensão que a gente conhece aqui, que fica um pouco abaixo aqui da avenida." E entrei no carro da polícia, coisa que eu achei [risos], que eu acho que seria difícil dependendo de onde [risos] eles deixaram lá na pensão. Eu fiquei, porém tinha pouco dinheiro. Eu só tinha R$200 reais, né? Aí no outro dia... Eu cheguei numa quinta-feira, na sexta-feira, levantei cedo, voltei pra estação, pra praça, ali, da Praça da Árvore, né? Porque era o que eu conhecia até então. E, chegando lá, fui na banca de revista, comprei um jornalzinho amarelo. E tinha uma propaganda de um teatro, na avenida Jabaquara. Ah, eu falei: "Vou conhecê-lo". Porque eu tinha noção de teatro, o quê? Na Igreja católica que a gente tinha lá, né? As brincadeirinhas e falar no teatro. Aí fui até o teatro, chegando lá, era uma coisa muito chique [risos]... 
P/1 - [risos]. 
R - ... A moça olhou pra mim, falou: "Você veio... Você se interessou por algum curso? Você vai fazer algum curso aqui da gente?"Eu falei: "Não, moça, é só curiosidade, eu vim dar uma olhada". A secretária percebeu que eu era uma menina, assim, muito imatura. E daí ela perguntou: "Você é nordestina?" Eu falei: "Sim". Ela falou: "Tem pouco tempo que você tá aqui, né?". Eu falei: "Sim, tem... Eu cheguei quinta-feira", que isso foi na sexta-feira. Ela falou: "Nossa, você tá onde?". Eu falei: "Ah, tô numa pensão". Ela falou: "E você veio trabalhar? Já tá trabalhando?". Eu falei: "Não, tô desempregada, tô procurando emprego". Ela falou: "O que você faz?". Eu falei: "Qualquer coisa: lavar louça, varrer rua, qualquer coisa que aparecer [risos]". Aí, tá, ela falou: "Ah, eu sou do Maranhão também". Então a dona do teatro era do Maranhão, né? Então já... Assim, meio que eu tava falando a mesma língua, assim, em termo de conhecimento de como é o estado. Aí tinha uma moça que tava fazendo a peça, ela se comunicou com a moça e a moça falou: "Ah, eu conheço um casal que tá precisando de uma pessoa". Aí eu falei: "Ah, você leva eu lá?" Ela falou: "Sim". Aí, levou. E isso na Avenida Casemiro da Rocha, na Praça da Árvore também. Chegando, a casa desse casal, era um senhor aposentado, Coronel da Aeronáutica, onde eu conversei com eles, assim, poucos minutos, e ele percebeu que eu era uma menina ingênua, uma menina, e que tava perdida na cidade, igual São Paulo. Falou: "Minha filha, você tá contratada, tem um quartinho aqui nos fundos, você vai pegar as suas coisas e vai ficar aqui com a gente". Aí fiquei lá por quatro anos, onde eu tive oportunidade de fazer o colegial, terminar o colegial. Ele me ajudou muito, foi o meu segundo pai, né? Onde...Mostrou pra mim, falou sobre a cidade grande, as pessoas, enfim, tudo. E, terminei o colegial. Comecei a fazer um curso técnico, de enfermagem. Terminei, aí saí pra trabalhar na área. E comecei o curso superior, no qual hoje eu tô no quarto ano. P/1 - E qual bairro que você mora atualmente? R - Hoje eu moro na Cupecê. É uma rua travessa à Malavi, a Cupecê. O ponto de referência é a Cupecê, né? Avenida Cupecê. 
P/1 - E... Como é esse bairro? 
R - Ah, é bom, né? Assim, o local que eu moro, eu não gosto muito por ser uma rua sem saída. E como eu trabalho à noite, durante o dia eu não consigo dormir, porque os vizinhos fazem muito barulho [risos]. Então eu não gosto muito [risos], meu sonho é sair de lá. P/1 - E o que mais te chama atenção lá... 
R - ... É só isso. 
P/1 - … Né, no bairro? 
R - O que mais chama atenção... Aí, muitas pessoas, assim, sem trabalho. Tem muitas pessoas desempregadas lá, principalmente as mães de família, que têm filhos. Eu acho que também é um motivo que impede elas, de repente, de tá arrumando um emprego. 
P/1 - E você gosta de ler, Oneide? 
R - Ah, eu gosto. 
P/1 - É?! 
R - Muito... 
P/1 - E o que você tá lendo atualmente? 
R - Olha, eu gosto... Vejo, leio sempre Época, Veja. Gosto muito dessas revistas, que são revistas bem atualizadas, que te passam todo tipo de informação, assim... Época. Eu... 
P/1 - E tem algum livro, assim, que você leu, que te marcou? 
R - Mundo de Sofia... Deixa eu ver [pausa]. Não, o que mais me marcou foi esse mesmo. Eu gosto, assim, de época de colegial, foi Dom Casmurro, Vidas Secas... são... Eu gosto por serem livros, muitos, assim, de um conhecimento muito amplo, pra gente voltar lá atrás e ver o quanto a sabedoria dessas pessoas. É isso. 
P/1 - Oneide, o que você achou de ter dado esse depoimento aqui pra gente? 
R - Ah, ótimo, contar um pouquinho da minha história, né? Que, é... Eu vejo assim, por mais que sejam difíceis as coisas pra qualquer pessoa que seja, se você vive pra vida, se você acredita e corre atrás, você consegue. É claro, isso com responsabilidade, honestidade, enfim, e coragem mesmo de enfrentar os obstáculos aí da vida, que não é fácil, mas a gente consegue. 
P/1 - Tá bom, então. Muito obrigada pelo seu depoimento, Oneide. 
R - Obrigada, eu.

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