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Ações que impactam comunidades

História de: Flávio Blangis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2013

Sinopse

Infância simples ligada à agricultura. Relato sobre a família: pais, esposa e filhos. Passagem na Marinha e no Exército. Aprendizados e formação pessoal. Jornada na Camargo Corrêa, ressaltando principais projetos nos quais esteve envolvido. Atenção especial às ações sociais desenvolvidas junto às comunidades nos locais de obras. Decisão de cursar Direito, ressaltando a importância de se manter sempre atualizado.

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História completa

P/1 – Flávio, bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Em nome do Museu da Pessoa e da Camargo Corrêa eu agradeço a sua presença. Pra darmos início e deixar registrado, eu gostaria que você falasse seu nome, local e data de nascimento.

 

R – O meu nome é Flávio Blangis, sou nascido na cidade de Miguelópolis, no interior do Estado de São Paulo. Eu nasci no dia 13 de novembro de 1955.

 

P/1 – Quais são os nomes dos seus pais?

 

R – O meu pai é Stanislaw Blangis, minha mãe Conceição Nogueira Freire Blangis.

 

P/1 – O que os seus pais faziam?

 

R – Os meus pais eram agricultores, acho que depois de uma determinada idade mudaram pra cidade. Deixaram o sítio, mudaram pra cidade, mas continuaram vinculados à agricultura.

 

P/1 – Eles viviam onde? Eles nasceram em que cidade, você sabe?

 

R – Sim, minha mãe nasceu perto de Franca, em São João da Bela Vista, meu pai nasceu na Lituânia.

 

P/1 – Você sabe por que ele veio pro Brasil, como é que se deu o processo de migração dele?

 

R – É, ele veio após a Primeira Guerra, a Primeira Grande Guerra, e veio por necessidade mesmo. Naquela época, o Brasil precisava de mão de obra, ainda tava na fase de substituir a mão de obra escrava e começaram pelos países que se empobreceram com a Primeira Guerra. E o Leste Europeu - aquela região, Lituânia, Estônia, Polônia - era uma fonte muito boa de mão de obra. Ele veio nessa, pra trabalhar na agricultura, principalmente na plantação de café.

 

P/1 – Você sabe pra que região que ele foi?

 

R – Ele foi pra região próxima a Ribeirão Preto mesmo. Na época, foi pra Joaquim da Barra, então os imigrantes foram distribuídos pelo Brasil, grande parte foi pro norte do Paraná, Grande Maringá, Londrina, uma boa parte foi pra região de Ribeirão Preto, que eram as regiões de maior produção cafeeira da época.

 

P/1 – Ele veio sozinho ou veio com os pais? Conta um pouquinho do que você sabe a respeito desse processo de imigração deles.

 

R – Ele veio com a família, o pai não veio. Veio a minha avó, a mãe dele, e no fim quem praticamente criou e educou ele foi um tio, porque chegaram em condições difíceis de imigrantes e precisaram de auxílio da família e quem educou mais foi o meu tio. Aliás, tio dele, tio-avô.

 

P/1 – Esse tio já estava no Brasil ou vieram juntos?

 

R – Vieram juntos na época.

 

P/1 – Por que o pai dele não veio, você sabe dizer?

 

R – É, a história que a gente conhece é que ele tinha a pele muito branca, e os fazendeiros brasileiros que pagavam a viagem mandavam fazer uma pré-seleção no lugar, então os médicos chegaram à conclusão de que por a pele ser muito branca ele não suportaria o sol do interior de São Paulo, então, na última hora, ele não veio.

 

P/1 – Em nenhum momento ele veio pro Brasil, então? Ele ficou lá o tempo todo?

 

R – Ficou, faleceu depois de alguns anos e não veio pra cá.

 

P/1 – Conta um pouquinho. Você chegou a conhecer a sua avó por parte de pai ou não?

 

R – Conheci.

 

P/1 – Conta um pouquinho. Como é que era o nome dela, como é que se deu essa convivência?

 

R – O nome dela era Albina Blangis e a convivência foi muito distante, até por essa dificuldade que ela teve de criar os filhos, no caso eram o meu pai e uma tia, e acabou ficando mais na mão dos tios. Aí ela acabou vindo, casou a segunda vez aqui no Brasil, veio morar na região de Bragança Paulista e eles ficaram lá, então a convivência foi mínima. Se eu tive algum contato com ela foram umas duas vezes.

 

P/1 – E por parte de mãe, você chegou a conviver com os seus avós ou não?

 

R – Muito pouco. Deles eu me lembro muito vagamente, porque faleceram quando eu era muito pequeno, mas enfim, eu ainda tenho alguma imagem deles, mas não tive contato.

 

P/1 – Você sabe como é que os seus pais se conheceram ou não, Flávio?

 

R – É fazenda, trabalho rural. Moravam na mesma fazenda e foi dessa forma que se conheceram.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho, tenho mais dois irmãos e uma irmã.

 

P/1 – Nessa escadinha, onde você está?

 

R – Eu sou o mais novo.

 

P/1 – Me fala uma coisa, conta um pouquinho pra gente da sua infância, da casa onde você morava, fala um pouquinho pra gente dessa primeira infância, como é que era, onde vocês moravam, fala pra gente.

 

R – Era fase até dez anos de idade, a gente morava em sítio, com as dificuldades que são normais pra quem mora em zona rural, escola na cidade, mais de seis quilômetros, caminhada a pé. Mas era interessante, não era uma vida que a gente pode dizer que seria desprezível, é uma vida sofrida, difícil, mas boa. Depois dessa idade, os meus pais foram morar na cidade, uma infância pobre, mas normal. Eu passei a estudar mais, com um pouco mais de conforto, a vida bem normal de uma criança, adolescente e até chegar lá pelos 18 anos e me mudar.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, você falou que vocês moravam numa fazenda, era um sítio dos seus pais, o que eles plantavam?

 

R – Não, era um sítio que não era deles. Mas ele arrendava, alugava, na época. Plantava o básico, naquela época plantação de soja era mínima. Plantava arroz, feijão, às vezes algodão, era o básico, era isso.

 

P/1 – Ele tinha criação de alguma coisa, de gado, alguma coisa?

 

R – Não, era só de subsistência mesmo, ali eram animais só para o consumo mesmo.

 

P/1 – Ele vivia da venda do arroz, do feijão, do algodão?

 

R – Isso, vivia disso aí, era a renda da família, era isso, produzir e vender.

 

P/1 – Vocês ajudavam os seus pais na plantação? Conta um pouquinho como é que era o cotidiano, vocês levantavam cedo, conta um pouquinho pra gente como é que era essa fase.

 

R – Eu praticamente não ajudava porque na época eu ainda era bastante pequeno, morei na zona rural até dez anos, então não tive muita chance nem precisou da minha ajuda, mas meus irmãos mais velhos ajudavam, participavam sim, mas sempre fora do horário de estudo. Meu pai exigiu que todos estudassem.

 

P/1 – Vocês iam pra escola pela manhã ou à tarde?

 

R – Normalmente, naquela época, as escolas eram de manhã, não sei se era por coincidência, mas eu sempre estudei de manhã. Era uma distância longa, a gente tinha que caminhar a pé, seis, sete quilômetros todo dia de ida, seis de volta e saía às cinco e meia da manhã, que as aulas começavam às sete, e voltava depois de meio-dia. Era uma vidinha assim, um pouco não muito confortável.

 

P/1 – Tinha uniforme, como é que era?

 

R – Era todo mundo uniformizado.

 

P/1 – Você lembra como é que era esse uniforme?

 

R – Ah, eu me lembro, na fase de primário, curso primário, que hoje é o ensino básico, sei lá como é hoje, a gente usava calça azul marinho e camisa branca, né?

 

P/1 – E quando chovia, como é que você ia pra escola?

 

R – Tinha que ir, pegava alguma proteção, um guarda-chuva ou a capa plástica. De qualquer forma tinha que ir.

 

P/1 – E tinha muito barro?

 

R – Tinha muito barro. Naquela época, a grande maioria dos alunos era da zona rural, na época o pessoal morava mais, da forma que se diz, na roça, chegava molhado lá. As crianças, a professora separava, punha lá no canto pra não molhar os outros e a aula continuava.

 

P/1 – Você lembra dessa escola, como é que ela era? Conta um pouquinho pra gente dessa escola.

 

R – Lembro, até voltei lá não faz muito tempo. Era um colégio muito bom, uma construção muito boa, grande, era colégio municipal, parece que é Capitão Emídio o nome do colégio, mas era um colégio que hoje não encontra o nível de construção que tinha na época.

 

P/1 – Como é que era, você tinha recreio, tinha merenda ou vocês levavam? Conta pra gente como é que era.

 

R – Normalmente levava. A escola, às vezes, fornecia sopa, sopão, então alguns gostavam, outros não gostavam, levavam algum lanche, o lanche caseiro da época, alguns levavam até uma marmita, mas era bem interessante.

 

P/1 – Do que você brincava na escola?

 

R – Tinha o básico aí, corre-corre, pega-esconde e aquilo era normal, é o que toda criança nessa idade faz. O tempo de recreio era bem restrito ali, meia horinha e, às vezes, a gente ia comer a sopa, daí sobrava menos tempo ainda.

 

P/1 – Como é que era? Você voltava pra casa, ia almoçar e depois o que você fazia? Conta pra gente.

 

R – Era vidinha rural, era caçar passarinho, às vezes brincar com outras crianças ali das propriedades próximas, era bolinha de gude, pião, que eram os brinquedos da época, né?

 

P/1 – Vocês andavam a cavalo, como é que era?

 

R – Andávamos. Mas eu não era muito, aliás. Até porque a minha idade, na época, que eu tive essa vida até dez anos, eu não tive muita oportunidade, mas não era tão viciado em andar a cavalo.

 

P/1 – E dessa sua fase de escola, enquanto você morava na zona rural e ia a pé para a escola, tem algum professor que te marcou dessa época, você lembra dos professores dessa época, tem algum que te marcou?

 

R – Lembro, lembro de alguns. Tinha o Seu Dorival, que foi professor dois anos, deve ter falecido agora pela idade que ele devia estar. Mas há uns dez anos, inclusive, eu fui visitá-lo, estava velhinho já e tal. E tinha também um casal de professores que até hoje eu me lembro, nunca mais vi, que era o Seu Loilo e Dona Lucy, eles eram jovens na época. Era até diferente, os professores antigos, antigamente eram normalmente com mais idade, e eles eram bem jovens, então marca bem essa imagem.

 

P/1 – E por que vocês saíram, sua família mudou da roça pra cidade?

 

R – Eu acho que era o começo dessa mudança, da urbanização. O pessoal começou a ver um pouco mais de perspectiva na cidade do que na zona rural, a zona rural começou a ficar na mão dos grandes proprietários, os pequenos foram ficando sufocados e buscando pela cidade.

 

P/1 – Vocês foram morar em que cidade?

 

R – Aí nós já fomos morar em Ituverava, que é próximo.

 

P/1 – Como é que era a cidade, você lembra?

 

R – Ituverava, cidade pequena pra média, uma cidade na época com 30 mil [habitantes], um pouco mais. Muito gostosa, uma cidade muito boa, foi a segunda fase da minha vida, foi ali que vivi, a partir de 11 anos de idade.

 

P/1 – Como é que era essa casa que vocês foram morar?

 

R – A casa era estilo de uma chácara, que o meu pai continuou voltado para as coisas rurais, então ele já passou a trabalhar mais com horta. Era uma chácara, uma casa também boa, confortável, mas era mais na periferia da cidade, por ser chácara até.

 

P/1 – Ele vendia o que ele produzia?

 

R – Vendia.

 

P/1 – Ele vendia onde?

 

R – Na cidade. Às vezes tinha compradores, até meio atacadistas, que passavam, compravam, iam levar pro Ceasa. Normalmente ele vendia bem a produçãozinha dele.

 

P/1 – Nessa fase você mudou de escola também?

 

R – Ah, sim, aí eu já estava no ginásio, que hoje é o segundo grau, não sei como chama hoje, mas já estava no ginásio, e aí já estava estudando em Ituverava.

 

P/1 – Como é que era essa escola?

 

R – A escola também era uma escola boa, construção boa, grande, eu até tive sorte, nessa questão de qualidade de escola, escola muito boa. Só que aí eu já passei a estudar à noite, porque eu já ajudava o meu pai na demanda da atividade dele, mas também era interessante. Cansativo, extremamente cansativo, porque estudava até às 11 [horas]. Naquela época, não tinha, assim, essa chance que se dá às vezes: “Não vamos pensar no horário e tal.” Era até 11 e meia da noite, pra ir dormir depois de meia-noite, pra levantar às cinco e meia, seis horas, então era bastante sufocante até, mas a gente tinha uma vidinha.

 

P/1 – O que você ajudava, o que você fazia com o seu pai?

 

R – Ah, ajudava a plantar, também o pessoal que vinha comprar, ia lá pesar, toda a entrega, às vezes até vender na rua. Teve uma fase: “Vamos tentar vender na rua, dá mais lucro.” Até isso também eu fiz.

 

P/1 – Era basicamente o quê? Hortaliças?

 

R – Hortaliças, aí nessa fase é só hortaliças.

 

P/1 – E aí, Flávio, conta pra gente como é que se deu a tua escolha pra ir pra faculdade, do curso de Direito, conta um pouquinho pra gente como é que se deu essa fase sua.

 

R – A faculdade já foi agora, uma fase recente, de seis, sete anos. Na realidade, na época eu terminei o segundo grau e parei de estudar.

 

P/1 – Por que você parou?

 

R – Porque em primeiro lugar comecei a trabalhar de verdade, com carteira assinada, que demandava um tempo e não tinha. E as faculdades antigamente eram muito caras, então hoje tem muita oportunidade, os cursos ficaram muito mais baratos e é possível pra qualquer um. Naquela época não era, ou tinha um grande salário ou não estudava, ou se o pai tinha condição pra ele fazer um preparatório e ir pra uma escola pública. Então isso era um dos pontos. E um segundo ponto é um pouco do relaxo. A pessoa está naquela fase - eu comecei a trabalhar, estava ganhando dinheiro - talvez até pense: “Não, não preciso nem estudar, isso aqui tá bom.” E toca a vida, e aí chega um tempo que a gente descobre que é preciso fazer faculdade, estudar.

 

P/1 – Vamos voltar então um pouquinho, você trabalhou com o seu pai, ajudando ele, até que idade mais ou menos?

 

R – Eu até 15 anos, próximo de 16. Aí eu fiz um concurso para a Marinha, passei e fui pra Vitória.

 

P/1 – Por que o interesse pela Marinha? Conta pra gente um pouquinho porque você teve esse interesse.

 

R – Ah, eu acho que não vem de, assim, de convicções pessoais não. Era turminha: “Não, olha, tem um concurso, vamos lá, vamos fazer, tal, vai.” Fiz, passei.

 

P/1 – Esse concurso pra que era?

 

R – Era pra, na época, aprendiz de marinheiro e seguir uma carreira militar na Marinha, mas que era uma força armada limitada, que você entra num nível inferior, o máximo que a gente chega é suboficial, você não chega a ser oficial. E daí eu fiquei ali um ano, um ano e pouco. A Marinha, não sei se ainda é assim, mas na época exigia que a gente assinasse um contrato por no mínimo cinco anos e caso resolvesse sair antes tinha que indenizar toda a despesa que eles tiveram. Aí os próprios oficiais lá falaram: “Sai fora, você tem uma boa formação, você passou num concurso que tinha quase 30 mil candidatos e 25 vagas, você entrou, então vai viver lá fora que é melhor que aqui.” E eu falei: “Não vou assinar o contrato”.

 

P/1 – Como é que foi esse ano na Marinha, o que você fazia, você tinha aulas?

 

R – Aulas, bastante aulas. O militarismo dá uma lição de vida, de disciplina mesmo. A gente sai dali com a cabeça muito bem formada, é algo que todo mundo devia passar, realmente a gente aprende a sofrer e tirar proveito do sofrimento. É um sofrimento planejado, não é que alguém quer fazer sofrer, é regulamento. Todo mundo tem que acordar às seis horas e dormir às dez, aí a gente aprende muito.

 

P/1 – Como é que era o cotidiano lá? Você de manhã acordava às seis horas, ia fazer o quê?

 

R – Normalmente seis horas, aí se apresenta e tem os rituais militares, cantar o hino e alguma coisa. A partir das sete já começam as rotinas, é escola, preparação física, esporte, uma série de coisas. Isso é uma rotina planejada pro dia inteiro, exatamente pra não sobrar tempo.

 

P/1 – Você tinha outras atividades pra trabalhar lá dentro também? Por exemplo, você fazia alguma atividade ou não?

 

R – Não, tinha conforme escala: a semana que a gente vai trabalhar na cozinha, a semana que vai ficar na guarda da escola - que na realidade é um quartel, mas um quartel escola, então vai trabalhar de guarda -, você vai auxiliar os oficiais, sempre tinha, eles sempre arrumavam alguma coisa.

 

P/1 – Você passou por alguma punição quando você tava lá ou não?

 

R – Não, não cheguei a passar. É porque eu era muito menino, eu acho que eu devia ser o mais novo ali, tinha 15 anos, um pouco mais de 15, então eu era um pouquinho o xodó da turma, então nunca tive punição.

 

P/1 – Você ficou um ano lá?

 

R – É, acho que um ano e três meses, algo assim.

 

P/1 – E aí o que você foi fazer? Fala pra gente.

 

R – Aí eu voltei. Como eu saí sem terminar o curso, eu não era reservista, aí eu tive que servir no Exército, mas como eu já estava no pique, saindo da Marinha, estava muito bem preparado. O Exército oferecia, não sei se é assim ainda, quem tinha terminado o segundo grau ou estava em fase de encerramento podia servir como voluntário, antecipar a obrigação de servir. Eu fui lá, me candidatei como voluntário e servi, tanto que eu fui reservista com 17 anos.

 

P/1 – Você serviu aonde?

 

R – Eu servi no Tiro de Guerra.

 

P/1 – Mas lá na tua cidade?

 

R – Lá em Ituverava, isso.

 

P/1 – Como é que foi essa experiência no Exército, foi diferente da Marinha? Conta um pouquinho pra gente.

 

R – É, é diferente porque a Marinha é uma escola, lá o objetivo deles é escola. O Exército não, é simplesmente você cumprir aquela obrigação que a gente tem, obrigação legal de servir e aprender também. Mas eles sabem que aquilo ali, na época acho que eram dez meses que a gente servia, no final de dez meses a gente vai embora. Então é um ensinamento diferente, é um ensinamento mais básico e com menos compromisso com a pessoa. A Marinha não, a Marinha foi voltada para formar, uma formação escolar, além de moral e tal. Então a Marinha está mais focada na pessoa do que o próprio Exército, neste nível de Tiro de Guerra. Talvez nas escolas do Exército também seja assim.

 

P/1 – E aí você saiu do Exército, o que você foi fazer naquela época?

 

R – Aí eu voltei e entrei na Camargo!

 

P/1 – Ah, sim. Conta pra gente como é que se deu essa entrada na Camargo.

 

R – Na época, a Camargo tinha uma obra na cidade, que é uma ferrovia, a Fepasa, na época era Fepasa [Ferrovia Paulista S.A]. Fepasa não, na época era Companhia Mogiana, depois se tornou Fepasa. E a gente ficou com a linha férrea que saía de São Paulo aqui e ia até Goiás. E uns trechos a Camargo Corrêa foi contratada, ali na região que ligava São Joaquim da Barra até uma outra cidadezinha próxima, e passava por Ituverava, onde eu morava, aí alguns amigos: “Ah, vamos lá que eu vou arrumar um serviço pra você.” E eu comecei.

 

P/1 – Você começou fazendo o quê? Conta pra gente.

 

R – Eu comecei como apontador, mas a minha vida como apontador foi muito curta porque o cargo de apontador não exigia muita qualificação, aí o pessoal: “Poxa, você está aí e está bem formado, não sei o que, vamos!” Aí eu acho que dois meses já me passaram pra escriturário e segui carreira.

 

P/1 – O que é apontador, o que o apontador faz?

 

R – O apontador faz anotações de máquina, como que é que a máquina trabalha. É um anotador das coisas que acontecem nas frentes de trabalho.

 

P/1 – E aí você foi trabalhar dentro do escritório?

 

R – Isso.

 

P/1 – E aí como era a sua rotina, o que você fazia lá?

 

R – Essa área de pessoal, a área comercial, ali eu era uma espécie de principiante mesmo, fazia um pouquinho de cada coisa, mas foi o começo.

 

P/1 – Conta pra gente, então, como é que se deu sua evolução dentro da Camargo profissionalmente.

 

R – É, eu fiquei nessa obra, em Ituverava. Também fiquei pouco tempo ali, porque a obra já estava encerrando e fui transferido pra Caraguatatuba. Caraguatatuba também foi um ano, um ano e pouco. Depois fui pra Jacupiranga, aqui no Vale do Ribeira, e vim transferido pra Jundiaí.

 

P/1 – O que eram essas obras?

 

R – Em Caraguatatuba era uma rodovia, na realidade, era uma rodovia pra quem vai ainda da Tamoios. E na época a Camargo Corrêa também estava construindo a barragem de Paraibuna e a estrada antiga estava sendo inundada e nós estávamos construindo o novo trecho, que é o que tem até hoje.

 

P/1 – Você foi pra obra pra fazer o quê?

 

R – Eu ainda de escriturário, aí comecei a carreira, auxiliar técnico, assistente e segui assim.

 

P/1 – Quando você volta pra Jundiaí você já vem pra qual obra daí?

 

R – Aqui para a Bandeirantes de hoje, que na época era chamada Via Norte.

 

P/1 – E aí o que você estava fazendo na obra?

 

R – Ainda estava nessa sequência, de assistente técnico talvez, não me lembro bem se aqui já era assistente técnico, e aí foi uma fase que eu saí da Camargo Corrêa.

 

P/1 – Você foi fazer o quê?

 

R – Fui pra uma outra construtora, mas de Jundiaí, na Conter Construções e Comércio, e ali eu fiquei um ano também.

 

P/1 – Por que você saiu da Camargo?

 

R – Na época eu acho que tinha uma transferência que eu não queria, acho que era pra ir pra Tucuruí, eu não tinha plano. Nessa época eu casei em Jundiaí: “Ah, não vou!” E aí saí. Aí me convidaram, eu voltei aqui pra trabalhar na melhoria da Anchieta, e fui morar em São Vicente.

 

P/1 – Como é que era essa coisa? Você falou de algumas obras rodoviárias que são interessantes, então, por exemplo, a Bandeirantes e a própria Anchieta. Como é que a empresa chega nos locais? Conta um pouco como é que a empresa se instala, como é que ela monta o campo de obra e onde vocês trabalham, é escritório ou vocês trabalham no campo de obra? Fala um pouquinho pra gente como é que se dá isso.

 

R – O início, a chegada, já tem algum planejamento. Óbvio que a gente não chega ali sem saber o que vai fazer, mas tem as dificuldades, tudo ali é temporário, é improvisado, são escritórios temporários, às vezes, contêineres, né? Tem uma dificuldade inclusive pra gente conseguir moradia. Chega no local, tem que ver onde vai botar a família, alugar casa, a fase mais trabalhosa em qualquer transferência é essa, né? Na minha, nessa época, não tinha problema de filho, então com o tempo passa a ser um problema, que aí vai ter que ver escola, adaptação, e é um pouquinho complicado. E a obra em si, o começo também é um pouco delicado, que tudo vai sendo construindo e a obra andando, e não tem oficina, ainda não tem um escritório definitivo e na época não tinha tanto problema como hoje. Hoje tem que chegar e ver se tem internet, se tem telefone, o que é que tem, né? O padrão da época era ter uma telefonia e energia elétrica, isso era o básico pra começar, e construir escritórios, tocava a vida.

 

P/1 – Tem algum fato interessante na construção da Bandeirantes ou mesmo da Anchieta em relação à obra que você queira contar pra gente, que foi algum caso inusitado assim?

 

R – Olha, eu acho que a minha vida de obra é tão normal, isso já me perguntaram um dia: “O que você acha de tão interessante?” Nunca vi algo que fosse mais diferente, que aquilo que eu vejo hoje é novidade, amanhã eu vejo de novo. Então não tem nada interessante, mas por exemplo, a Bandeirantes era uma obra fabulosa, muito moderna até pra época, tanto que é uma rodovia moderníssima 30 anos depois, né? Mas a Bandeirantes tem uma marca interessante, até porque eu vim morar em Jundiaí e Jundiaí virou minha cidade, casei aqui, então talvez o que marca mais é esse fato desse relacionamento com a cidade. Eu passei a ter um relacionamento quase definitivo, aí o meu filho nasceu em Jundiaí, então talvez a Bandeirantes marque, a Rodovia dos Bandeirantes marcou bastante por isso, porque passou a fazer parte da minha vida.

 

P/1 – E aí como é que se dá? Você sai da Bandeirantes, vai pra reforma da Anchieta, né?

 

R – Não, foi o inverso, foi Anchieta, eu fui pra Jacupiranga, que é incrível. Aí tem uma coisa que não é de obra, eu morei ali em Jacupiranga 30 e tantos anos atrás, agora recentemente o meu filho passou num concurso público e foi morar ali em Registro e casou em Jacupiranga! 30 e tantos anos depois eu voltei em Jacupiranga pra casar meu filho. Então são marcas, eu conto pro pessoal que trabalhou na época: “Eu fui lá em Jacupiranga!” “Mas o que você foi fazer lá?” E eu falei: “Ah, eu fui ver o casamento do meu filho!” Então é interessante.

 

P/1 – E a cidade mudou muito ou não?

 

R – Mudou, tá moderna. Hoje as coisas modernizam muito rápido, tá moderninha, tá bonitinha a cidade.

 

P/1 – E aí conta pra gente como é que se deu a sua carreira, como é que, vai falando pra gente um pouquinho, aí depois você saiu da Bandeirantes.

 

R – Aí na Bandeirantes eu saí da empresa, voltei na Anchieta, foi uma obra rápida, que era sempre de reforma, e fui pra Guarulhos pra trabalhar na construção da antiga Rodovia dos Trabalhadores, que hoje é a Carvalho Pinto. Trabalhei ali uns dois anos, aí já em seguida fui pro aeroporto de Guarulhos, então tive uma temporada muito grande, eu fiquei dez anos no aeroporto de Guarulhos, somado com o tempo que eu fiquei na Trabalhadores, eu fiquei 12 anos morando em Guarulhos.

 

P/1 – O que você fazia nessa época na Camargo?

 

R – É uma continuidade, tinha uma evolução profissional, mas as atividades eram parecidas. Às vezes, o que se fazia diferente era em função de crescimento profissional, então aquilo que eu fazia ali como subordinado, eu não estava mais sendo o subordinado, mas as atividades são parecidas, moderniza-se, mas a finalidade do trabalho é sempre a mesma.

 

P/1 – E essa finalidade qual que era?

 

R – Parte comercial. Depois de um tempo eu fiquei fazendo só a parte comercial, que é controles, pagamentos, relacionamento com o cliente, recebimentos. Então envolve uma gama enorme de atividades, mas tudo ligado a essa parte econômico-financeira.

 

P/1 – E aí depois que você ficou em Guarulhos e nessa região você foi pra onde?

 

R – Fui pra Brasília, pra reforma do aeroporto de Brasília, fiquei três anos. De lá, fui pro Rio de Janeiro pra construção das escolas do Brizola, o Cieps [Centros Integrados de Educação Pública], lá eu fiquei mais três anos. Fui pra Goiás, lá pro norte de Goiás, dois anos e meio. De Goiás voltei pra Paulínia, fiquei pouco tempo.

 

P/1 – Em Paulínia era a refinaria?

 

R – Não, era uma rodovia também. Era uma obra pequena até, fui mais pra colaborar aqui no Paraná, em Ponta Grossa, mas sabendo que era temporário, que foi uma obra rápida. De lá eu vim aqui pra Dutra, trabalhar na reforma, que o grupo da Camargo tem a concessão da rodovia, nós fizemos reforma, e aí eu fui pro sul.

 

P/1 – Você foi pra Alpestre?

 

R – Não, ainda antes, a Alpestre já foi o segundo passo. Eu fui pra Barra Grande, que foi uma outra hidrelétrica, nós construímos em 2001, fiquei até 2006. Em 2006 eu vim ali pra Alpestre, ali pra Chapecó.

 

P/1 – E lá também é uma outra hidrelétrica?

 

R – Outra hidrelétrica.

 

P/1 – Conta pra gente, de todas essas obras que você passou, a Camargo Corrêa sempre teve uma preocupação de fazer ações sociais nessas comunidades ou não?

 

R – A Camargo sempre teve respeito com a comunidade, mas ação objetiva de atuar, de fazer, dar oportunidade até pros funcionários atuais, não. Eu acho que eu me lembro a partir de Barra Grande, a gente já tinha algum trabalho, eu já encampei algumas ideias de voluntariado, né?

 

P/1 – Que tipo de trabalho você fez lá?

 

R – É, a Camargo tinha um projeto, chamava Funcionário Voluntário, então a gente identificava alguma entidade que precisava de alguma coisa, criava um projeto pra empresa, pra atender a necessidade maior daquela entidade e trazia pra Camargo o projeto pronto e o que é que precisava fazer, e a empresa aprovava e financiava aquilo que a gente queria. E a Alpestre, isso era em Vacaria, no Rio Grande do Sul, lá eu consegui um ônibus pra uma entidade que atendia crianças carentes, porque a grande dificuldade detectada é que eles atendiam, mas as crianças não moravam lá, então tinha que recolher todo dia e se não buscasse em casa os meninos não vinham, então...

 

P/1 – Não iam pra escola.

 

R – Não vinham pra escola, então eu fiz esse trabalho e na obra tiveram outras pessoas que fizeram outros e também foram atendidos, mas o que eu mais trabalhei foi esse, doação do ônibus. E depois viemos pra Alpestre, aí a empresa já estava atuando de forma estruturada, com planejamento, já saiu daquela coisa pessoal. Então eu fazia um projeto antes, como se eu fosse o dono da coisa. Aí ali em Alpestre, em Chapecó, que a coisa está mais estruturada, era um relacionamento muito forte da empresa com os funcionários que atuam na linha de frente, mais estruturado, o projeto já é criado antes junto com o Instituto, então aí a coisa funciona muito bem.

 

P/1 – Como é que se deu essa aproximação com o Instituto? Eles propuseram os projetos, como o Futuro Ideal, Escola Ideal, como é? Conta um pouquinho pra gente e fala um pouquinho dos projetos que foram colocados lá em Alpestre.

 

R – Na realidade, a nossa obra lá com essa nova modelagem de projeto foi a pioneira, a primeira obra que o Instituto levou algo estruturado. Na época, até a dona Rosana foi, fez o lançamento do projeto, tal. E aí vão criar as lideranças, como funciona? Tem que arrumar um meio de fazer isso andar e eu gosto disso, aí eu comecei a liderar e representar o Instituto, e formei um grupo de trabalho muito grande, que hoje todo mundo fala: “Como que você conseguia ter um grupo com 18 pessoas atuando em todas essas questões sociais?” Tanto naquelas patrocinadas pelo Instituto quanto outras que nós criamos na obra, pequenos projetos. E a gente fazia isso funcionar, a base do projeto do Instituto é financiamento, pra fixação da comunidade no local e principalmente nas questões agrícolas, né?

 

P/1 – De geração de renda também?

 

R – De geração de renda a gente foi criando. Inicialmente teve uma primeira fase do projeto, que é um projeto que financia, ele não doa nada pra ninguém, ele financia. A pessoa paga, se paga em dia, tem um desconto. E também tem que estar envolvido mulheres e jovens, o projeto é muito bem estruturado, é algo pra se ver.

 

P/1 – E qual foi esse projeto? Vocês estruturaram o projeto com alguma cooperativa, como é que foi feito?

 

R – É, o nome do projeto lá era Tempo de Empreender. A gente faz o projeto, monta o projeto, bota de pé, mas como a finalidade dos projetos do Instituto é ter condição de andar sozinho quando a gente sair, ele tem que criar uma estrutura local pra comandar seus parceiros locais. E aí no caso nós trabalhávamos em três municípios ali, Alpestre, onde já tinha uma cooperativa que estava praticamente apagada, talvez nem existindo mais, nós reativamos essa cooperativa e trouxemos as pessoas. E São Carlos, que é a outra cidade, e Águas de Chapecó, nós fomos buscar apoio e hoje nós criamos cooperativas pra funcionar e pra continuar naquilo que a gente tinha implantado, e aí é o trabalho, isso que é o interessante da coisa. Pra fazer funcionar não é só dinheiro, o Instituto colocou uma verba razoável, mas isso se multiplicou, foi fabuloso, deu tão certo que o próprio Instituto resolveu criar a fase dois, já com uma dimensão maior, com a cooperativa totalmente estruturada, produzindo, embalando mercadorias, produzindo suco. Então hoje, quando a gente vai lá, é algo e serviu até como referência. Nós tivemos visitas dos outros projetos do Instituto pra ver como que fazia funcionar.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa. Essa cooperativa, ela estava ligada basicamente a que tipo de produção? Tinha produção de leite, tinha produção de alguma fruta, como é que era? Fala um pouquinho.

 

R – Ela surgiu de alguns técnicos agrícolas. O município teve uma boa ideia, tinha um pessoal da cidade, tinha se formado lá uma meia dúzia de técnicos e o município resolveu criar essa cooperativa e inclusive pagava alguma ajuda pra eles se manterem, mas não andava porque não tinha essa estruturação atrás disso, né? Aquele negócio, soltar uma ideia no ar e sair correndo atrás, não adianta. Adianta é parar, pensar e começar a trabalhar quando já tiver um planejamento. E quando nós chegamos com um planejamento e mais o apoio técnico do Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], que ajudou bastante, aí eles sentiram que era exatamente o que eles queriam, que eles tentaram, mas que em outra época faltou essa estruturação e começaram a trabalhar. E aí veio a soma de outras pessoas, a gente conseguia fazer reuniões lá que a gente trazia 30, 40 pessoas, pra os prefeitos, técnicos da Emater [Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural], nem tinha participação, mas eles iam lá assistir e conseguiram disseminar essa ideia da gente, né? E as pessoas lá do campo, o cara que estava recebendo o benefício, ele começou a ver resultado porque ele produzia, e dentro do planejamento a gente identificava a necessidade, dava a oportunidade de produzir e a cooperativa tinha o trabalho de comercializar isso. Então ele deixou de ser aquele desamparado que produzia e não vendia, ou não produzia por falta de conhecimento técnico. Ele conseguiu juntar tudo isso, então realmente foi um, é algo...

 

P/1 – Quem eram os parceiros lá? Você falou do Sebrae, quem mais, a Emater também, né?

 

R – A Emater não era um parceiro direto, como outros órgãos da região, também não eram parceiros diretos e assumidos dentro do projeto, eles eram colaboradores. Agora, dentro do projeto nós tínhamos a Credioeste [Agência de Microcrédito], que é uma cooperativa financeira, que administrava esse empréstimo do dinheiro, o recebimento, reempréstimo, eles faziam essa parte. E o Sebrae era um parceiro que disponibilizava conhecimento técnico.

 

P/1 – Que tipo de produção, que tipo de projetos vocês financiaram?

 

R – O básico hoje a gente pode falar que é produção de mandioca, que tem até uma coisa interessante, que ali era uma região que produzia muito fumo e a produção era um pouco rústica, usava muito veneno e o pessoal ganhava pouco, se sacrificava, sacrificava a saúde. E quando veio essa nova oportunidade, primeiro foi uma fase de desconfiança e depois começaram a substituir e hoje praticamente os associados da cooperativa substituíram toda a plantação de fumo e plantam mandioca. Mas nós financiamos também produção de mel, deu muito certo, a gente financiava desde a abelha, comprava lá o enxame de abelha, colocava lá, financiava caixa, roupa para o cara, tudo. Financiamos produção de laranja, uma padaria rural, financiar na cidade não teria muito sentido, mas lá numa distância, o cara precisava de um pão, vinha comprar na cidade, o cara fazia já em casa, organizamos a vida dele, todas as inscrições, questões sanitárias e ele passou a produzir tudo, produto de panificação, e está muito feliz da vida. Então tem vários projetos, criação de codorna, melhoria na qualidade de criação de bovinos, com métodos de pastoreio, que é divisão da propriedade em várias partes, que o gado quando tá se alimentando aqui não esteja danificando outro lugar, então tem exemplo lá que passaram a produzir cinco vezes mais o que produzia de leite com essa.

 

P/1 – Com essa técnica.

 

R – Com essa técnica, então tem outros pequenos projetos, coisas menores, foram muitos, muitos.

 

P/1 – Você falou um pouquinho da desconfiança, qual que era a técnica que vocês usavam pra envolver a comunidade?

 

R – É, aí a parte da importância do parceiro local, porque dificilmente a gente consegue convencer, tem que ser alguém que olha, que sabe falar a linguagem da pessoa e vende, passa. Aí vem um, começou, deu certo, veio o segundo, deu certo, veio o terceiro, deu certo, aí a coisa se expande. E a gente entra nessa coisa passando, já está a porta aberta, ele vai lá e passa confiança, ele já está falando em nome da empresa, em nome do Instituto, mas conversando com a pessoa na linguagem dela. Essa aproximação eu acho que é básica.

 

P/1 – Como é que se dá a escolha de que projeto vocês vão ajudar? Como é que isso é feito com o Instituto e a própria empresa? Como é que você também arregimenta, ou você chama as pessoas da empresa pra ajudar naquele projeto?

 

R – Internamente, nós criamos esse grupo de trabalho. É assim: primeiro chama um, vem o outro, vem o outro: “Olha, amanhã nós vamos lá pras propriedades pra fazer uma visita”, vão cinco juntos, no dia seguinte ele contou, o outro já quer ir, chegou um ponto lá que a gente não podia mais aceitar pessoas no grupo de tão grande que tava ficando. Agora, essa parte técnica no campo, identificar o que é necessário, era o Sebrae, que tinha o conhecimento técnico, que identificava: “Olha, essa região é propícia pra criar mel, mas se eu produzir o mel onde que eu vendo? Qual é a forma de criar, de ter um produto que atende a todas as questões sanitárias?” Então ele identifica passo a passo, o projeto em si está aprovado para quem quisesse entrar. Agora, a pessoa, o proprietário, às vezes já tinha uma vocação pra criar abelha lá, talvez ele tivesse alguma coisa mal estruturada, ele via aquilo, falava: “Então eu quero cinco mil reais pra começar a produzir”. Eles faziam o levantamento cadastral, igual se faz em qualquer loja, tal, se o nome está negativado e não sei o que, se atendia às condições. Aí tinha um comitê com um representante da Camargo, um da Credioeste e um do Sebrae, e a gente sentava e analisava, fazia a homologação de todo esse trabalho. Agora, também é interessante dizer que a gente sempre buscava um trabalho cooperativo: “Tá, vamos financiar, quem é? Vai você, você e você nesse projeto.” Isso dava garantia pro outro, era uma garantia solidária, todos ali estavam envolvidos.

 

P/1 – Pra fazer esse tipo de trabalho, por exemplo, tudo bem, você tem os parceiros, tem o parceiro técnico, o Sebrae, que vai e avalia a região, e ele de alguma forma aponta pra algumas soluções para aquela comunidade, mas vocês enquanto funcionários da Camargo, vocês precisavam estudar, precisavam aprender alguma coisa sobre aquele assunto pra poder se envolver ou não?

 

R – Olha, não existe uma regra que seja necessário, mas é necessário sim porque é básico quando a gente está passando uma ideia a gente conhecer o mínimo do assunto que tá tratando. Então se eu ia sentar com o pessoal que quer criar abelha, eu tinha que ler alguma coisa sobre abelha, sobre comércio, sobre como se vende, o consumo regional, alguma coisa. Eu tinha que aprender alguma coisa pra chegar lá, pelo menos pra mostrar um pouquinho de autoridade naquele assunto porque senão fica frágil. A gente chega e olha: “Eu vim aqui porque nós estamos financiando mel.” E daí? Então é necessário sim e a gente fazia esse trabalho, internet ajuda, o Google ajuda muito nisso aí.

 

P/1 – Me fala um pouquinho, você falou um pouco dos processos, esse tipo de projeto, ele de alguma forma trouxe melhorias da região ou inspirou melhorias na região de uma forma que vocês não estivessem diretamente envolvidos? Por exemplo, melhoria nas escolas, posto de saúde, teve esse impacto na região ou não?

 

R – Tem, de forma indireta, que às vezes não é nem mensurável de imediato, mas ele criou renda, ele criou dignidade, então as pessoas passam a cobrar mais do poder público porque eles sabem que não tinha porque não é que era impossível ter, é porque ninguém dava o apoio pra ele. Então ele passa a ver, a se situar melhor, então tem um reflexo muito grande, talvez não seja mensurável a cada dia, eu acho. Mas é interessante, eu tinha o hábito de visitar os projetos e ver a resposta das pessoas. É muito interessante.

 

P/1 – Qual é a importância na sua maneira de ver das parcerias em prol do desenvolvimento social e comunitário? Por que você acha que é importante?

 

R – É interessante, iniciando pelo benefício que trazem pra nós da Camargo Corrêa. A gente vive no lugar, normalmente a gente é um pouco rejeitado quando chega, a gente é tratado quase como invasor porque a gente chega, tudo aumenta de preço, chega numa comunidade de dez mil pessoas com mais cinco mil pessoas adultas, então muda totalmente. Então a gente tem uma rejeição, e essa aproximação dá qualidade de vida para o funcionário e pra família, a gente tem um respeito, isso vendo o lado empresa, o lado do benefício para o funcionário. Agora, em relação às comunidades, elas começam a ver a construtora com outros olhos também, que não é aquele que vem, explora, ganha dinheiro, vai embora e fica todo mundo lá na mesma ou pior do que quando a gente chegou, ficou alguma coisa. E nós fizemos muito trabalho de mostrar que a gente estava atuando ali pensando nisso, que a gente queria usar essa passagem da gente ali pra deixar algo, deixar um legado e que aquilo teria continuidade, porque ficou uma cooperativa, que tem um planejamento futuro. Então isso cria uma base muito interessante, eu tenho até, assim, aquelas historinhas que se conta aí. O prefeito de Alpestre, um cara bastante inteligente, um médico da cidade, foi numa reunião de prefeito lá no Rio Grande do Sul e contou tudo o que acontecia. Aí um prefeito humildezinho da cidade lá: “Eu tenho uma barragenzinha, o que eu faço pra trazer essa Camargo Corrêa pra mim?” Ele já estava pensando no benefício que a gente estava deixando no outro município. Então isso vende uma imagem fabulosa, além do benefício direto pras pessoas, pra empresa isso marca. É a nossa marca, né?

 

P/1 – Você tem algum causo ou alguma historinha pra contar sobre como é que se deram esses processos de aproximação ou algum caso pitoresco, sei lá, ligado à alguma atividade desses projetos ou não, pra nos contar?

 

R – Eu não sei, como eu disse, assim, eu vejo as coisas muito natural porque a gente vai vendo e as coisas vão se repetindo, mas é muito interessante essa fase da desconfiança pra depois ter uma confiança total. Igual o pessoal da cooperativa, diz que cansou de ouvir: “Porque, se isso é tão bom, por que essa empresa está trazendo quase que de graça pra nós?” Quer dizer, a população está sempre desconfiada daquilo que vem, que alguém está oferecendo, ela aprendeu a ter que implorar pra conseguir. Quando vem alguma coisa nova, vem alguém aqui na tua porta te oferecer alguma coisa, vai melhorar tua qualidade de vida, ele fica todo ressabiado ali, todo medroso porque acha que é algum golpe. Isso a gente, no início, cansou de ver e depois até o inverso disso, a satisfação que esse pessoal mostrava. A gente teve a visita do Valor Econômico, aí o repórter saiu de lá entusiasmado, falou: “Poxa vida, como que vocês conseguiram essa amizade com as pessoas? Além de gerir o projeto vocês ficaram amigos das pessoas.” Mas é por isso, porque eles aprenderam que a gente realmente tinha objetivo de dar uma qualidade de vida pra eles, né?

 

P/1 – Quanto tempo você ficou nesse projeto lá em Alpestre?

 

R – Na obra em si eu fiquei cinco anos, com o projeto Tempo de Empreender em termo de uns quatro anos, começou um pouco depois.

 

P/1 – E aí pra onde você foi?

 

R – Eu vim pra São Paulo, fiquei aqui na Faria Lima quase dois anos e agora eu estou atuando lá em Belo Monte, no Pará.

 

P/1 – Ah, você está fazendo a hidrelétrica lá?

 

R – Hidrelétrica de Belo Monte.

 

P/1 – Como é que se deu essa implantação lá em Belo Monte? Conta pra gente qual é a proposta da Camargo em termos de projetos sociais pra lá, fala um pouquinho pra gente.

 

R – Olha, pelo o que eu conversei com o pessoal do Instituto, eles tiveram uma fase até anterior à minha ida pra lá que tentaram levar o projeto. Como lá é um consórcio, as consorciadas se opuseram, porque ia ter um projeto representando um nome de uma das empresas do consórcio e hoje não existe o projeto social do Instituto. Em determinado momento aí conversando com o pessoal, olha, está na hora de insistir.

 

P/1 – Como é que está a obra lá? Você vai pra lá sempre? Conta um pouquinho pra gente.

 

R – Eu vou. É muito grande a obra, ela está num estágio muito bom. Tem muitas questões sociais que a gente ouve, vocês vêem pela televisão: questão indígena, tem a população ribeirinha, pescadores. Mas isso hoje se tornou natural de obras, uma parte das pessoas realmente têm razão e outras são questão de exploração mesmo, mas o projeto é muito bonito e está evoluído.

 

P/1 – Você mora aonde?

 

R – Eu moro em Jundiaí e lá eu moro em um hotel em Altamira.

 

P/1 – Tua família não foi com você pra lá?

 

R – Não. Hoje meus filhos estão casados, e estamos eu e a esposa, aí minha esposa é uma turista, ela fica um pouco comigo lá, fica em Registro com o meu filho, fica em São Carlos com a minha filha e ela faz turismo.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar, então vamos voltar. Como é que você conheceu sua esposa? Conta pra gente, Flávio.

 

R – A gente trabalhava os dois na Camargo.

 

P/1 – Ela fazia o quê?

 

R – Trabalhava em RH, telefonia, essas partes. Aí na época eu conheci trabalhando junto.

 

P/1 – Vocês tiveram quantos filhos? 

 

R – Dois.

 

P/1 – Como são os nomes deles?

 

R – Glauco e Gláucia.

 

P/1 – Eles fizeram o que, eles são formados em quê?

 

R – O meu filho é formado em Esportes aqui na USP [Universidade de São Paulo] e minha filha em Imagem e Som na Federal em São Carlos.

 

P/1 – Hoje eles já estão casados?

 

R – Os dois são casados.

 

P/1 – Você já tem netos ou não?

 

R – Tenho um.

 

P/1 – É filho de quem?

 

R – Do Glauco.

 

P/1 – Como é que é o nome dele?

 

R – Gustavo.

 

P/1 – Tem quantos anos?

 

R – Um ano e seis meses.

 

P/1 – Me fala uma coisa, como é que foi pra você essa coisa de ficar mudando, com os filhos? Cada hora você estava num lugar, como é que foi isso?

 

R – É uma parte complicada da história da gente, trabalha mudando sempre, construção civil ou qualquer atividade, porque talvez até dez, 12 anos de idade eles sentem pouco, tudo é aventura, mas quando chega a adolescência, começa a formar amizades, às vezes, até o namorado, a namorada, e de repente a gente chega: “Olha, nós estamos morando aqui no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, mas semana que vem nós vamos morar em Uruaçu, em Goiás.” Quer dizer, é um golpe pra quem vai, o adulto se adapta, agora, é muito delicado, tem que administrar, tem que contar história, tentar, falar e levar a vida, mas não é o ideal, eu acho que não é. E depois chega aquela idade da faculdade, aí a gente tem que parar. Tanto eu quanto minha esposa chegamos à conclusão que não podíamos continuar mudando nessa fase porque começaria a interferir.

 

P/1 – E aí vocês resolveram ficar aonde?

 

R – Fixamos em Jundiaí.

 

P/1 – Você estava nos falando a respeito da fase de faculdade dos seus filhos, que você e sua esposa acharam melhor se fixar em um lugar. E aí como é que se deu essa relação com a Camargo Corrêa? O que você argumentou e que obra que você ficou?

 

R – Essa fase eu estava no fim de Barra Grande e já foi Chapecó, então eu fazia o quê? Eu vinha pra São Paulo toda semana, sábado de manhã, de Chapecó saía sábado seis horas da manhã, pegava o avião, oito da manhã estava aqui, passava o sábado e domingo, domingo à noite ia embora e a vida foi essa. Aí minha esposa ia a cada 15 dias, ela ia lá fazer um passeio, voltava, quando os filhos podiam eles iam também, aí tem que administrar. A grande verdade é querer ter uma convivência boa, não deixar o trabalho interferir na vida pessoal ou vida pessoal no trabalho, tem que saber administrar.

 

P/1 – Me fala uma coisa, Flávio, como é que se deu essa ideia de fazer Direito, você falou que foi recente, conta um pouquinho pra gente.

 

R – Ah, isso até é a questão de ficar às vezes fora da família. Isso não é o ponto básico, mas a gente sente a necessidade de ocupar tempo, a melhor coisa era uma faculdade. Então estava nessa época, estava ainda no fim da obra de Barra Grande, fiz o vestibular na Universidade de Caxias do Sul, passei, estudei lá até o terceiro ano, vim pra Chapecó e concluí em Chapecó.

 

P/1 – Como é que foi fazer a faculdade agora? Conta pra gente.

 

R – É uma novidade necessária, todo mundo devia fazer porque a gente vai fechando o círculo da vida em alguma coisa muito pequena, é trabalho, casa, assiste a novela e não sei o que, a gente nem conhece pessoas que falam outra linguagem que a gente. Então é uma experiência fabulosa, principalmente uma questão de conviver, por exemplo, com pessoas mais jovens. Isso é básico, a gente tem que se manter muito próximo do jovem, né?

 

P/1 – Por que você escolheu Direito?

 

R – Eu gosto, eu sou um pouco polêmico. Assim, tem uma tendência do Direito ser um pouco contestador, até pela formação em Direito exigir que a gente esteja de olho pra contestar, então eu acho que é um pouquinho o meu jeito.

 

P/1 – Bom, pra ir finalizando, fala um pouquinho como é que é seu cotidiano, fala um pouquinho da sua vida hoje.

 

R – Hoje, como eu estou atuando em Belo Monte e é bastante longe, os primeiros dez dias do mês eu fico aqui na Faria Lima, aí viajo pra lá, fico dez, 15 dias, volto, fico dois, três dias aqui e nisso já chegou o fim do mês seguinte, já fico sete dias, dez dias aqui, e a rotina tem sido essa. E algumas outras, por exemplo, lá em Chapecó a gente tem um restinho de obra, daí eu visito, Tucuruí eu tenho ido, dou apoio a algumas obras no Estado de Goiás. Então hoje eu viajo bastante, é bastante interessante que não tem muita rotina.

 

P/1 – Quais são as coisas mais importantes pra você hoje, Flávio?

 

R – O mais importante hoje é a questão, principalmente, da família, esse cuidado que a gente tem, já vem uma geração de netos. E principalmente a questão profissional, e até pessoal também, eu acho válido, é se manter atualizado porque, a idade chega, tal, não sou muito de acreditar naquela: “Não, eu tenho tantos anos, mas eu tenho espírito de 15.” Não tem espírito de 15. Então na realidade a gente tem que ser no mínimo atualizado porque senão eu não consigo conversar com o jovem, eu fico fora do mundo, eu não consigo entender o que a empresa pede porque as coisas se modernizam. Então o foco principal é se manter atualizado, e pra isso tem uma série de buscas que tem que ter, é escola, estudo, bons relacionamentos, mas essa é a base, ser atual.

 

P/1 – Pra finalizar, como é que foi contar sua história pra gente?

 

R – Ah, interessante, é algo que a gente muitas vezes não tem essa oportunidade, de sentar e falar: “Vamos conversar sobre a minha vida!” É raríssimo, o máximo que a gente faz é contar um pedacinho da vida, mas foi muito interessante.

 

P/1 – Em nome da Camargo e em nome do museu eu queria te agradecer por essa sua generosidade e espero que você realmente tenha gostado. Obrigada.

 

R – Eu que agradeço. É a oportunidade de falar de mim, e até de reiterar, principalmente com o Instituto, que é o foco dessa modernidade de hoje, agradecer pela oportunidade que ele deu pra que a gente pudesse participar. Isso eu estou repetindo o que eu já falei pra eles, porque isso dá uma qualidade de vida fabulosa pra gente.

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