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Acima de tudo, enfermeira!

História de: Sueli Noronha Kaiser
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/08/2021

Sinopse

Sueli Noronha Kaiser é a mentora do Grupo Cene. Sua experiência como enfermeira e a percepção de que o homecare era ma oportunidade para uma melhor recuperação de pacientes recém operados, ela não hesitou em apostar em um novo negócio. Nascida no Rui de Janeiro, cursava Enfermangem quando conheceu seu futuro marido, o médico Roberto Luis Kaiser. Já casados, os dois mudaram-se para São Jose do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo. Foi a partir de sua contratação na Beneficência Portuguesa que desenvoolveu sua carreira e teve oportunidade de implementar a equipe de enfermagem do próprio hospital devido à falta de escola para a formação de profissionais qualificados. Nesta entrevista, Sueli detalha como foi percebendo a importância dos cuidados humanizados e as possibilidades do atendimento do Home Care. Hoje, o Grupo Cene está presente em todo o território nacional.

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História completa

          Meu nome é Sueli Noronha Kaiser. Eu sou carioca, nasci no Rio de Janeiro, no dia 28 de março de 1944. Então, a minha vida de criança e jovem foi toda no Rio de Janeiro, onde eu vivi os anos 60 - os anos da Jovem Guarda, um período maravilhoso, do rock, daquela explosão dos jovens.

          Minha mãe era enfermeira e me levava pro hospital quando trabalhava no plantão noturno. E eu via aquele ambiente hospitalar, aquilo me encantava, eu já sabia: “Quando eu crescer, quero ser enfermeira”. Então, eu fui fazer enfermagem e me identifiquei muito com a profissão. Eu me encantava com aquela arte do cuidar, das pessoas cuidando de pessoas doentes - isso me encanta até hoje.

          Em 1969, eu terminei a faculdade, e em 1970 eu me inscrevi num concurso na universidade em Botucatu - fui pra Unesp de Botucatu como enfermeira. Mas no período em que eu estava trabalhando e fazendo a faculdade, eu conheci o meu marido, Roberto Luis Kaiser, daqui de São José do Rio Preto. A gente se casou, e eu vim pra São José com ele, caí aqui em Rio Preto e fui trabalhar na Beneficência Portuguesa. Mas eu fui a quarta enfermeira a chegar a Rio Preto, pois não tinha enfermeira aqui. Por isso, eu recebi proposta de todos os lugares. Comecei a trabalhar lá e me aposentei lá, com 37 anos de trabalho na Beneficência Portuguesa.

          E logo que eu cheguei, a Beneficência Portuguesa, através do Doutor Braile, trouxe pra São José do Rio Preto a cirurgia cardíaca, o que fez com que Rio Preto se tornasse um polo de medicina. Esse desafio me interessou muito, e eu fui trabalhar com ele. Mas eu levei cinco anos pra treinar todo o meu time de enfermagem, pois naquela época não existia escola de enfermagem, não existia nada. Então, eu tinha que pegar as pessoas totalmente leigas e treinar para a assistência de enfermagem. Aí, depois que vieram os cursos pra cidade, eu fui incentivando pra que todos eles oficializassem com o curso de auxiliar ou de técnico. Fui dar aula também, no Senac, de técnico de enfermagem, de auxiliar de enfermagem. Então, eu posso dizer que a preparação de todo o time de profissionais de hospital acabou ficando comigo.

          Como eu era enfermeira, eu vi que o hospital estava numa situação financeira ainda não muito boa, começando a dar o up dele. E o Doutor Braile já operando cirurgia cardíaca, trazendo muita novidade, fazendo cirurgia extracorpórea, que na época só São Paulo fazia. Aí, em 1986, o hospital estava no auge, lotado, em torno de cinco cirurgias cardíacas por dia - uma rotatividade muito grande. E aí a gente não tinha leitos suficientes. Então, como nós iríamos resolver esse problema de leito? Eu falei pra ele: “Doutor Braile, vamos desospitalizar, vamos levar esse paciente pra casa, que tem condições de ser cuidado em casa, pra gente ter leitos livres pra cuidar dos pacientes cirúrgicos”. E aí, aqueles pacientes que estavam internados por curativo, antibiótico ou ortopedia, que poderiam fazer o tratamento em casa, eu os levei pra casa e comecei a montar, pelo hospital, uma estrutura em casa. E estava dando certo, tanto que deu uma repercussão muito grande na cidade, e começaram a me procurar pra ver se eu não podia fazer isso pra outros pacientes não hospitalizados. E aí eu descobri um nicho de mercado novo, de trabalho. Por que não montar alguma coisa nesse sentido, já que a cidade precisava?

          Comecei a comprar equipamentos que as pessoas precisavam levar pra residência. Fazia isso sem muito conhecimento financeiro: quanto custava, e dividia por quanto tempo a pessoa iria usar. Eu pagava em três, quatro vezes aquilo. E aí eu comecei a ter equipamentos, pra poder criar estrutura de hospital na residência. Passei a treinar o pessoal pra trabalho na residência. Então, eu precisava de materiais e medicamentos que eu comprava das farmácias, mas ficava muito caro pra eu passar pros pacientes. Assim, eu comecei a comprar direto das distribuidoras, e começamos a ter preço, material, pessoal treinado. A partir disso, precisei montar uma empresa, porque precisavam de nota - montei uma empresa de prestação de serviços, inicialmente. Abri outra de venda e locação de equipamentos hospitalares.  Montei isso numa portinha, numa salinha que a gente tinha.

          O negócio deu tão certo, que hoje nós estamos no Brasil inteiro. A nossa primeira expansão surgiu em Araçatuba, depois abrimos Bauru, Ribeirão, Fernandópolis e Campinas. E a gente foi indo, conseguimos atender, já naquela época, quase todo o interior de São Paulo. Aí nós fomos pra Fortaleza, Recife, São Luís do Maranhão... e fomos pra todo o Brasil.

          Mas o mais importante do nosso tripé é a parte da humanização. Eu não posso deixar que se perca isso, porque o nosso crescimento é fruto de um trabalho humanizado. Eu trabalho muito a assistência do funcionário na residência, tratando aquele paciente com carinho, com amor - de humanizar tanto ele como a família. Nós temos em torno de 1,5 mil pacientes hoje – isso, os internados, realmente. Fora os que nós temos só com atendimento pontual. Então, eu não posso deixar que a qualidade e a humanização se percam.

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