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História

“Acho que sou filho da mãe Dinah”

História de: Fábio Willian Silva Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/05/2021

Sinopse

Nasceu no dia 28 de novembro de 1979 em Santo Adnré, São Paulo. Quando pequeno gostava de jogar futebol. Viveu toda a vida em Capuava. Viajou para Fotaleza. É caminhoneiro, tem um filho.

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História completa

P/1 – Fábio, eu queria agradecer a sua participação, de dedicar um tempinho a nós. Obrigada.

 

R – De nada.

 

P/1 – Queria começar pedindo que você fale o seu nome, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Fábio Willian Silva Alves, nascido no dia 28 de novembro de 1979, nascido em Santo André, São Paulo.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – Antônio Alberto Alves e Maria Irileida da Silva Alves.

 

P/1 – E os seus avós, você lembra?

 

R – De cabeça, só da minha avó mesmo, que eu tive mais convivência com ela, pois o meu avô faleceu cedo e não cheguei a conhecê-lo. E meus avós, que moram em Fortaleza, eu não tive muito contato. Mas a minha avó, que ainda está viva aqui em São Paulo, é a Maria Elizabete da Silva.

 

P/1 – Você se lembra da ocupação dos seus pais? O que eles faziam?

 

R – Tive pouco contato com o meu pai. Quando ele abandonou a minha mãe eu ainda era pequeno, tinha uns quatro anos. Não lembro o cargo dele, só por ouvir falar, a profissão dele... Hoje ele é aposentado, trabalhou muito como pedreiro. Trabalhou em empresas aqui em São Paulo e voltou para Fortaleza, no Ceará. Mas lá, pelo que soube, ele era pedreiro. E minha mãe trabalhou em vários lugares, como aqui na Petroquímica, trabalhou na Enterpa, que era uma empresa coletora de lixo aqui de Santo André, num depósito de bebidas, que de uma cerveja chamada Belco. Ela trabalhou também como dona de casa também. Ela trabalhou muito. Minha mãe foi uma guerreira, até hoje. Dela eu passo a tarde falando aqui e vou ter argumento, mas do meu pai, pouco, pouca intimidade com ele. Mas com a minha mãe... Minha mãe foi mãe e pai ao mesmo tempo. É uma pessoa que... Tenho que agradecer pois, o que eu sou hoje é somente a ela.

 

P/1 – Qual a origem dela? De onde ela veio?

 

R – Ela é do Ceará mesmo, cearense. E pelo que eu soube da história, veio cedo aqui para São Paulo, já com quatro filhos e, daqui, continuou até chegar ao time dela, que são 11. Chegamos aos 11 irmãos. Por isso que falo que ela é uma guerreira.

 

P/1 – E como você passou a sua infância? Aonde foi?

 

R – A minha infância foi na Capuava, aqui ao lado. Esse conhecimento foi bom, é um lugar que... Atualmente resido em Guarulhos, mas não saio daqui. Todos os dias estou em Capuava. Vou mesmo para dormir em Guarulhos, mas toda vez que posso, estou em Capuava. Sempre estou envolvido com meus amigos aqui em Capuava, a minha família. Mas a minha infância foi toda aqui.

 

P/1 – Você se lembra da rua onde você morava?

 

R – A rua é hoje. Hoje se pode falar que é rua. Era apenas uma viela. Eram barracos, escadões, que nós apelidamos de escadões. Hoje são escadas, tem rua, um núcleo, mas antes não tinha rua. Era uma passagem de barro, lama. Quando chovia não podia subir ali. Hoje não, está tudo mais modernizado e humanizado para as pessoas usarem. Mas antes não tinha rua, era uma casa aqui, outra um pouco mais à frente. Era um brejo. E para criança, onde tem esses lugares assim, é tudo brincadeira. Era uma bagunça.

 

P/1 – Você se lembra das suas brincadeiras? Do que você brincava?

 

R – O meu lado era mais para o futebol. Onde tinha um espaço nós colocávamos uma travinha e já era o futebol. A minha vida toda foi do meio do futebol. Tudo. De vez em quando um carrinho de rolimã já pelo meio da vila para perturbar os moradores da vila, mas sempre futebol, sempre. A minha base até hoje é futebol.

 

P/1 – A sua preferida é futebol.

 

R – É preferida porque foi o que me ajudou a não embarcar no mundo de drogas, de crime, nem nada. O esporte me levou a vários lugares, conheci pessoas, saí de São Paulo, fui para Fortaleza e, através do futebol, peguei um pouco de consciência humana à respeito das pessoas. E até hoje, querendo ou não, vivo do futebol, apesar de ter profissão.

 

P/1 – E o que você mais gosta do futebol? Que pedaço? Que parte?

 

R – Joguei bastante, disputei vários campeonatos, tentei até chegar ao profissional, mas o joelho não aguentou. Gosto mesmo da arte de jogar mesmo. Só que de dois anos para cá eu deixei meio de lado, tive uns problemas de saúde, engordei e, aí, fui deixando de lado. Via que não dava para eu jogar como jogava antes mas, se pudesse, trabalhava com esporte diretamente. Hoje sou árbitro de futebol em São Paulo, da Vargem, e com uns convites para prestar para a Federação (Paulista de Futebol) para ser árbitro profissional. Mas ninguém é árbitro profissional hoje no país, porque ninguém trabalha registrado com isso. Todos que vivem da arbitragem são profissionais. Até determinar registro em carteira e tudo, qualquer um que tenha curso, que faça arbitragem, é profissional. Sinto-me um profissional na arbitragem porque sobrevivo disso. Os outros que passam na TV, todos são profissionais. Tenho amigos profissionais também. Digo ‘profissionais’ porque eles já estão no nível da Federação Paulista de Futebol e da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Tenho um amigo que me incentivou a ir para esse lado, o Braghetto, que apitou Corinthians e Ponte Preta, quando a Ponte Preta ganhou do meu Corinthians, mas tudo bem. Tudo bem.

 

P/1 – E Fábio, aonde vocês jogavam futebol quando você era pequeno, lá na Capuava?

 

R – Na Capuava, que hoje nós chamamos de núcleo, era uma favela. Tinha meia dúzia de barracos de um lado, meia dúzia em cima do morro e meia dúzia perto da torre de energia. Ali a garotada tinha o seu time e o seu campinho. Era um espaço de 20, dez metros, nós fazíamos um campo ali. Pegávamos uma medalha e apostávamos contra o outro time. Era o “Time da rua debaixo, da avenida”, o outro time “Da torre” e o outro “Do meio da favela”. E era sempre assim: campeonato, rivalidade e sempre dentro da favela, beirando a avenida, do outro lado do riozinho, onde tinha um espaço grande, que passam os fios da Eletropaulo. Jogávamos ali.

 

P/1 – Vocês jogavam em outros bairros também?

 

R – Depois de certo tempo o time do bairro da Capuava, que é o famoso União do Morro, começou a ver que, daquela garotada, muitos tinham chance de jogar nos times. Além de ser um time de favela, eles começaram a marcar jogos para a molecada antes dos jogos deles. Aí fizeram uma peneira nos intervalos dos jogos. Foi daí que a gente foi começar a jogar fora.

 

P/1 – E quem jogava? Eram seus vizinhos, seus familiares? 

 

R – No começo, eu fui o único da minha família que caiu para o lado do futebol. Meu outro irmão caiu para o lado do teatro, o outro mais para o trabalho cedo. Mas futebol, só eu. E os amigos. Tenho amigos de 25, 28 anos de amizade, que são amigos mesmo. Conhecidos eu tenho vários, mas amigos desse tempo ainda têm poucos que optaram para o lado do futebol e não caíram para o lado da vida fácil, como se fala. Mas é conhecido mesmo ali. Criança onde chega faz amizade. Nós fizemos amizades entre as crianças ali e hoje a maioria que sobreviveu é pai de família e tem uma vida digna, apesar de tudo.

 

P/1 – E Fábio, você se lembra de algum episódio marcante da época da sua infância, algum causo, alguma coisa que te marcou por algum motivo?

 

R – Eu lembro... Minha vida foi toda no futebol. Uma vez a minha mãe falou assim: “Não vai jogar. Não vai jogar”. Eu falei: “Vou.” “Não vai porque hoje é Dia das Crianças, é aniversário do seu irmão e você não vai jogar. Estou falando para você não ir jogar”. Com isso eu fiquei meio encucado, mas desobedeci e fui. Era aqui, em frente à antiga Philips. Tinha um terminal de ônibus, um espaço e nós fomos jogar. Aí, num determinado tempo da partida, dividi uma bola com um primo, que é como se fosse um irmão de criação. Caí por cima do meu braço, que quebrou. Foram chamar a minha mãe, chegou a ambulância, fui para o hospital e ela falou: “Tá vendo? Eu te avisei.” Até hoje, tudo que vou fazer, se ela falar “não”, eu falo: “Então não é para fazer”. Ficou marcado. Ela tem um sexto sentido, tem uma coisa de mãe que é forte. E tudo que ela me disse: “Olha, não vai, que não vai dar certo”. Até o meu casamento: “Vou dar seis meses. Não vai dar certo”. Eu falei: “Acho que sou filho da mãe Dinah”. Pois foram seis meses, certinho, e o meu casamento acabou. Por isso que até hoje eu tenho uma admiração imensa pela minha mãe. Ela é tudo. Apesar de não conviver muito com ela. Tive amizade com ela depois dos meus 18, 19 anos, quando fui para Fortaleza e retornei para cá. Ficamos bem mais amigos. De lá pra cá é Deus no céu e a minha mãe na terra. Até hoje. Quando vou para Santo André, tenho que passar na casa dela para visitar. Cheguei a ir embora para onde estou morando, em Guarulhos, 11 horas da noite, para ficar conversando, falando besteira com ela. Ela é minha base. Até por eu estar aqui hoje. Ela presta muito serviço comunitário e eu sempre fui para esse lado da área social, também por causa dela. Era um gosto que eu tinha e, por causa dela conviver... Porque, se não tiver um convite de alguém, você não faz nada por ninguém. Você pensa em ajudar, mas se não ter um espelho para ajudar, você fica parado. Hoje, sempre quando posso, estou ajudando alguém. Apesar de que eu preciso muito de ajuda, mas tiro o meu tempo para ajudar alguém.

 

P/1 – Fábio, você se lembra de alguma coisa, algum prato preferido? Quem cozinhava para você?

 

R – Esse tempo de prato preferido era complicado. O prato preferido era o que tinha no momento. O que tinha ali. A minha mãe sempre trabalhou, e era obrigada a nos deixar só, com os irmãos e minhas irmãs mais velhas. Comia-se o que tinha. Hoje eu tenho prato preferido, desde quando comecei a trabalhar, alguma coisa assim. Tenho a minha vida própria, particular. Tenho meus gostos. Mas antes não. Era arroz, feijão e a ‘mistura’ era misturar um com o outro mesmo, raramente tinha outra coisa. Era o café da manhã, de vez em quando, ou senão, ia à casa de uma tia, que tenho como uma mãe de criação também. Ia almoçar lá e passava o dia com ela. Mas nenhuma comida preferida na infância.

 

P/1 – Fábio, como era a convivência com os seus irmãos na mesma casa? Vocês brigavam? Vocês brincavam?

 

R – Era complicado, porque eram três homens e cinco meninas na época. A gente vivia mais na rua, mas também quando chegava e reunia todo mundo era aquela briga: “Isso é meu. Isso é meu.” A parte maior do pão era dividida para os mais velhos. Os pequenos tinham que comer o que os mais velhos deixavam. Era briga direto. Mas isso quando era molecada. Daí a convivência, de tanto ficar na rua, a gente foi tipo... Não era obrigado, mas “obrigado” a ir buscar alguma coisa para se alimentar. E a gente, o meu irmão mais velho, que faleceu, ele ia muito para a Avenida Brasil, em São Paulo, vender chiclete, essas coisas. Aí, num determinado tempo, ele me levou: “Vamos lá vender chiclete. Com dois vendendo o lucro é maior”. Lembro que, na primeira vez, fui com ele e a gente começou descendo na estação da luz. Fomos andar de metrô, passava por baixo da catraca, começamos a brincar na escada rolante, subindo e descendo. Aquilo era uma novidade. Nunca tinha saído de casa. Nos perdemos na estação. Fomos pedir informação para um guarda e ele falou: “Dois meninos de rua?”. Levou-nos para a Fundação Casa, eu e meu irmão, e passamos a noite lá. Aí minha mãe ficou preocupada e, no outro dia, foi lá e nos encontrou. Eu falei: “Poxa, mãe, logo hoje a senhora veio nos buscar. Hoje que vai ter uma festa aqui dentro. Tem um bolo bonito. E a senhora veio buscar a gente?”. Coisa de criança. Aí ela foi, buscou a gente e, depois, acertamos de ir para o farol, o semáforo. Vender chiclete. E aprendi lá também. Aprendi muito. Muitas pessoas me ajudaram lá: fregueses que me viam todos os dias ali e compravam chiclete, Adams, Mentex, Suflair. Até jogadores profissionais que passava lá para ir ao Morumbi, tive a oportunidade de vender muito. O Cafu, o Biro Biro, muitos jogadores eu via passar por ali. Ali era caminho para o Pacaembu, para o Morumbi, para o Ibirapuera. Conheci muitos artistas que paravam e compravam. Muitos não estavam nem aí, levantavam o vidro, mas muitos compravam e ajudavam. Vivi muito também da venda de chiclete no farol.

 

P/2 – Quanto tempo foi nessa atividade?

 

R – Lembro que eu tinha uns sete anos e fui, mais ou menos, até uns 14 anos. Depois dos 14 você vai ficando com um pouco de vergonha e vai deixando de vender chiclete para vender panos, que nós chamamos de  sacos. As mulheres compram para fazerem limpeza em casa; frutas também, como cereja, pêra. Não sei se vocês já viram, mas muitos vendem no farol. Eu também já vendi, e parti para mercadorias que davam mais lucro: caixas de ferramenta para carros, carregador de celular, essas coisas todas. Até os meus 16 anos, uma parte do dia eu ia para o treino de futebol, arriscar e, na outra parte, ia para o farol. Aí fiquei, seu não me engano, até a copa de 2006, que foi na Coréia, que era de madrugada. Estava aqui em São Paulo, visitando a minha mãe, comprei umas camisas do Brasil na feirinha da madrugada, na 25 de Março, e saía vendendo. Pagava dez reais e vendia por 50, camisa manga longa. Vendia na 25 de Março, na galeria Pagé. E o meu irmão: “Você está sem fazer nada? Vamos ganhar um dinheiro. Você está aqui de bobeira mesmo”. Fui até determinado tempo assim. Ganhava dinheiro no farol. Depois retomei meus estudos, falei: “Tenho que voltar a estudar, porque sem estudo você é considerado um nada”. Voltei a estudar com muito incentivo da minha mãe. Falei a ela: “Volto se a senhora voltar também.” “Ah, mas estou velha”. E falei para ela: “Eu também me acho velho. Mas nunca é tarde para nada”. Fui com a ajuda dela e terminei os meus estudos aqui.

 

P/2 – E ela voltou?

 

R – Voltou. Só não terminou o ensino médio por preguiça e medo de matemática, a única matéria que a reprovou. Eu pegava no pé dela. “Mas eu não tenho mais tempo.” Falei: “Só não se tem tempo quando morre”. Eu a tenho como um incentivo em tudo. Separei-me em Fortaleza e vim morar na casa dela. Desde os meus 17 para 18 anos moro só e de aluguel. E quando cheguei aqui, passei uns tempos na casa dela. Disse: “Vou terminar esses estudos aí...”. Esse é o apoio que eu pedi a ela: “A senhora me segura um tempo até eu terminar os meus estudos”. Mas graças a Deus, em pouco tempo comecei a fazer um serviço de segurança numa adega e comecei a pagar o meu aluguel. Saí da casa dela e fui morar de aluguel. Até hoje continuo em aluguel, mas terminei meus estudos. No ano seguinte que terminei os meus estudos, entrei numa empresa química, como ajudante geral, auxiliar de produção. E teve uma oportunidade lá... Quando você ajuda as pessoas sem ter interesse, você tem oportunidade. E o mecânico da firma, que era um só, estava trabalhando. Bati meu cartão de ponto e falei: “Vou fazer o quê em casa? Vou ajudar o ‘cara’ ali. Estou sem fazer nada. Pelo menos vejo ali, tiro a curiosidade do que essa máquina é feita e como ela faz isso”. Fui ajudá-lo, peguei umas peças pesadas. Ele falou: “Não. Já deu o seu horário de trabalho”. Eu falei: “Mas chegando em casa eu não vou fazer nada. Vou ficar te ajudando aqui”. Ajudei, matei a curiosidade de umas peças lá. Na semana seguinte estava trabalhando e ele falou: “Vou precisar de alguém para auxiliar de manutenção e vai ser você”. Eu falei: “Não. Tenho dois meses de firma, alguma coisa assim, e tem pessoas aqui que vão querer essa vaga. Não quero entrar em briga por causa de vaga. O encarregado já quer indicar alguém também e, como sou novo aqui, vou ficar no meu canto.” “Mas é você”. Eu falei: “Não, ‘mano’, sinto-me até lisonjeado, mas não dá. Tente outras pessoas. Tem os amigos lá”. E eu entrei lá, fiz amizade com todo mundo. E falei: “Dê a oportunidade para quem tem mais tempo de casa”. Aí conversou com os encarregados lá, com o dono, que falou assim para o rapaz da manutenção: “Escolhe quem você quiser”. Aí o encarregado: “Ele entrou agora”. Ele falou: “Se não for o Fábio, não vou querer mais ninguém daí. Eu o quero." Aí me ensinou lá, falou: “Vou dar um treinamento pra você e tudo que você precisar, pode perguntar que te ensino”. E eu, com o maior medo de mexer em elétrica, levar choque, falei: “Você é louco. Tenho medo até de trocar a resistência de chuveiro. Compro um chuveiro novo, mas não troco uma resistência.” “Vou te ensinar, você vai ver que não é assim”. Esse rapaz também mora na Capuava. Ele teve a mesma oportunidade que eu tive e, aí, acho que na cabeça dele: “Tive uma chance e vou dar essa para ele”. Ensinou-me e quando estava com uns quatro meses de produção, veio aquela notícia: “Olha, o Anderson vai para a Petropol Mauá e você vai ficar tomando conta daqui”. O dono e a dona chegaram, sentaram na minha frente, falei: “Nossa!”. “E aí, tem como você ficar?” Eu falei: “Tudo que ele me ensinou eu vou fazer e o que não souber, ligo para ele...”. Eu ainda passei quatro anos nessa empresa trabalhando assim. Mas sempre sem passar à frente de ninguém, vindo mesmo na interpretação de boa vontade dos encarregados de lá. Logo na primeira eleição de CIPA: “Ah, o Fábio vai”. Essas coisas todas. “Ah, o Fábio”. Sempre. Alguma festa na firma, eu era o primeiro a chegar e o último a sair, sempre para ajudar. Sempre tive espontaneidade em ajudar. Via um amigo lá, que o salário nosso era pouco, e o ‘cara’ estava passando dificuldade. Ele comentava comigo. Falei: “Pessoal, vamos fazer uma ‘vaquinha’ para ajudar um amigo”. Eu falei: “Tem que pensar nele como se fossemos nós amanhã”. Isso sempre deu certo. Aí, de uns tempos para cá, começou a sair uns e outros, foi cortando aquele clima e me senti chateado também. Saí para tentar procurar algo melhor. E graças a Deus, não estou trabalhando registrado, mas caí numa área que adoro, que é o futebol. Estou fazendo arbitragem. Não é “bom”, porque a minha mãe deve ser xingada todos os fins de semana ou quando eu faço uma partida. Para um time ganhar o outro tem que perder. E nem sempre quem perde tem que arrumar um culpado, geralmente sobra para o trio de arbitragem. Mas, no entanto, na faixa é isso.

 

P/1 – Fábio, lá atrás, quando você era ainda criança, adolescente, e vendia no semáforo, tinha alguma estratégia que você desenvolveu para vender mais?

 

R – Tem a famosa malícia. Chegávamos mais nas mulheres. As mulheres veem uma criança ali e o coração já parte na hora. Eu falava algo do tipo: “Ô tia, leva um chiclete para me ajudar?” Ela olhava assim: “Não quero.” “Não, é só para dar uma força, pelo menos para eu comprar o meu almoço de hoje”. Aí compravam. Tinham algumas que compravam porque gostavam da mercadoria. Mas a estratégia era essa: persistir. “Mas não quero comprar. Não vou poder te ajudar”. “Já que a senhora não pode, arruma pelo menos uma moedinha para eu juntar e conseguir.” Sempre deu certo assim, mano. Sempre deu certo. Sempre deu certo. É a prática de se vender as coisas. Você tem dois, três minutos num farol bom para xavecar a pessoa para comprar a sua mercadoria. Tinha gente que vinha nos ver e trazia roupa, brinquedo, essas coisas todas. Éramos uma molecada, saíamos em dez moleques para vender chiclete no farol. Era aquela turma, parecia arrastão de trombadinha. Mas tinha gente que nos via com esses olhos, como uns trombadinhas. Mas não éramos. Não saíamos para roubar ninguém e, sim, para vender mercadoria. Perto do Natal nós colocávamos a mercadoria, chiclete, fazia uma caixinha bem embrulhadinha com um corte e: “Já que você não pode comprar, ajuda a gente com a caixinha de Natal”. Era sempre assim. Depois de um tempo, até já era um pouco moleque, crescendo, vinham uns meninos para roubar no farol e a gente se unia e ia para a briga para não deixá-los roubar naquele local, que era onde saía o nosso sustento. Você imagina: dos sete anos até 14 anos no mesmo farol, você fica conhecido. A polícia passava: “Ah, são os meninos que vendem chiclete”. Tinha até um pessoal, na época, quando eu era moleque e vendia chiclete, que trabalhavam como assistente social ou alguma coisa assim. Eles pegavam os meninos de rua e jogavam para o esporte. O meu primeiro contato com esporte em clubes grandes foi através dessa... Era uma fundação, ou uma ONG, não sei como era chamada na época. Era chamado de Casa Aberta e ficava lá em Pinheiros. Tinha um pessoal que nos via e falava assim: “Ah...”. Encostava uma perua: “Vocês gostam de fazer o quê?”. 90% por cento queria jogar futebol. Colocavam-nos dentro da perua e levavam para uma quadra. Ali, começávamos a jogar bola e nos esquecíamos da vida. Aí começaram a ver: “Tem uns meninos que têm talento”. Levavam-nos ao Banespa que, na época, era do Banco Banespa (Banco do Estado de São Paulo). Tinha um projeto social nessa área. Fui jogar no CT (Centro de Treinamento) do Palmeiras, no do Corinthians, do São Paulo, no Pinheiros, tudo (futebol de) salão. Só que minha área mesmo era (no futebol de) campo. Joguei até na Fundação Casa, depois de muito tempo. Eu falei: “Poxa, ‘mano’, teve uma vez que vim para cá perdido e, hoje, venho como um atleta do Banespa para jogar contra os meninos da Fundação Casa”. Nossa! Dá um flashback na cabeça: “Voltei aqui menino de rua e hoje volto como vendedor de chiclete no farol, como menino de rua também, mas como um atleta do Banespa”. O Banespa dava material escolar. Eu atrasei nos estudos quando era pequeno, mas por conta minha mesmo, porque em sala de aula sempre fui uma boa pessoa, um bom aluno. Porque tinha de ir ao farol vender chiclete e, então, perdia, deixava a aula e, no final do ano, vinha a repetição. Mas quando comecei a colocar meu pé no chão mesmo, a minha mãe começou a cuidar de todos. Eu brigava para ir à escola. Teve um tempo, com 14 anos, um professor de Educação Física no Delfino disse: “Ah, campeonato em Mauá, tem que levar o time de vôlei masculino, o feminino e o de futebol de salão”. Como eu já tinha me atrasado nos estudos, era Quarta Série, mas era para estar na Sétima Série, e não podia, pela idade, me inscrever. Então, eu ia pra dar uma força para o professor, um apoio. “Fábio, o futebol é seu. O vôlei, deixa comigo”. Fui útil para a escola: “Poxa, ‘mano’, estou sendo valorizado aqui”, eu pensava. Já começam a me ver com outros olhos. Os professores também. O professor de Matemática jogava bola em Mauá: “Você vai jogar no meu time lá em Mauá. Esquenta não, você é um cara legal”. Tem a Capuava da favela e a Capuava do outro lado, que era um bairro residencial e hoje é um bairro industrial, eu era um dos poucos que podia andar naquele bairro, entrar na casa de todo mundo, todo mundo me acolhia bem e falava: “Nossa, meu...”. Tinha um preconceito na época: “Ah, o ‘cara’ mora na favela. Você vai deixar o Fábio entrar na sua casa? Ele mora na favela”. Aí fiz amizade com um rapaz, um moleque na Capuava, e tanto eu ia à casa dele, como ele ia lá em casa. A família dele me adotou e a minha família o adotou. Aí você vê como a gente vai quebrando os preconceitos. Tudo na base da sinceridade, de você ser uma pessoa digna, correta, não mexer em nada que é dos outros. Cresci desse jeito. Mas a favela também foi um foco importante. O Núcleo foi importante, porque você olha para um lado, não tem para onde correr. A questão social... Não tinha ninguém por nós. Quem fazia a felicidade éramos nós mesmos. Juntava um monte de moleque e íamos para a feira pegar o resto, as frutas e ajudar os caras a carregar os caixotes. Porquê social, até hoje não vi. Tem muitos moleques se perdendo ali porque não têm mais campo de futebol. Antes tinha um, mas para o governo, para a política, é melhor você construir um prédio do que fazer uma quadra. Apesar de tudo, é melhor a habitação, mas não dependemos só da moradia. Emprego também, mas cadê o lazer? A pessoa não vai só trabalhar, tem que ter um esporte, senão a pessoa fica sedentária, começa a engordar, não tem para onde ir. E os filhos? A escola. E depois da escola, vai para onde? Tem que ter essas coisas onde nós moramos. Por isso eu falo que sou fruto de uma comunidade em que não se fez nada. Quem fez fomos nós. Eu mesmo, através do conhecimento, de alguém que trabalhava no farol vendendo chiclete, e da minha mãe. Eu gostaria de poder ajudar, mas é difícil. Já fui a reuniões e em tudo para tentar campo de futebol, mas é difícil. Eles falam que não têm espaço. Eu estava até numa reunião com o assessor do prefeito de Santo André que não vale nem a pena citar o nome do prefeito e ele disse assim: “Não tem espaço para nada”. Eu falei: “Se não tiver espaço para um futebol, para uma área de lazer, espaço na cadeia também não vai ter, porque vai encher”. E se você for analisar, já está enchendo. Isso é complicado.

 

P/2 – E o dinheiro que você ganhava com a venda?

 

R – O dinheiro que eu ganhava era importante e foi muito importante. Tinha um cara já maior que nos levava para trabalhar para ele, que comprava a mercadoria, tirava o valor que pagou e o restante era meio a meio. Ele pagava dez reais na caixa de chiclete e eu vendia dez reais: “Aqui é o seu”. E o que eu vendesse... Geralmente fazia o quê? Uns 30 reais na caixa de chiclete, dez era o que ele pagou e, o restante, meio a meio. Iam mais dez para ele. Comecei a perceber: “Poxa, eu vendo tão bem, o ‘cara’ está ganhando o maior dinheiro”. Juntei um dinheiro e fui trabalhar por conta própria. Falei: “Vou trabalhar por conta, já que vendo bem”. E comecei. Trabalhei uma semana para os outros, fui vendo e pegando a manha. Dava um dinheiro para a minha mãe: “Aí, mãe, esse aqui é o da senhora”. Ficava com dinheiro, ia jogar fliperama, pois era uma época de fliperama. Tinham aquelas casas de fliperama e ficávamos por ali. Até esquecia de voltar para o farol e vender chiclete para ficar jogando fliperama. Mas era para ajudar a minha mãe e tentar contribuir com alguma coisa dentro de casa, seja um café da manhã ou alguma coisa. No momento em que comecei a ir para o farol a vida já começou a melhorar, em termos de alimentação, pois antes era tudo por conta da minha mãe. Até hoje, paro para pensar e falo: “Poxa, a minha mãe é uma guerreira, correu bastante para nós”. Ali, ainda pequeno, deixar os filhos em casa para trabalhar. Sair de um trabalho e ir para o outro, é uma coisa que merece prêmio. E tem muitas mulheres assim, mas eu me baseio pela minha mãe. Ela merece um prêmio.

 

P/1 – Você se lembra da primeira vez em que foi para a escola?

 

R – Nossa! Foi uma ‘comédia’ a primeira vez. Não cheguei a chorar, porque não fui diretamente ao ‘Prézinho’, Jardim I, Jardim II, mas fui logo à primeira série. Ao chegar lá, o pessoal disse: “Senta na carteira”. Eu pensei: “O que é isso? Carteira?”. Fiquei em pé. A professora veio e disse: “Fábio, isso aqui é a carteira. É para você ficar aqui e o seu lugar é esse. Fique aí até a hora de ir embora”. Deu o intervalo e eu lá sentado: “Você não vai para o intervalo?” “Mas pode levantar?”. E ela: “Pode, sim”. E foi assim. Graças a Deus, tive bons professores. Sou ruim de memória para gravar os nomes, mas tive bons professores, mesmo. Depois, você começa a colocar na cabeça, fica rapazinho, com vergonha de voltar para o farol e vender chiclete, essas coisas. Começa a estudar, vem aquela fase da paquera na escola: “Poxa, ‘mano’, eu vendo chiclete no farol, o pessoal pensa que sou trombadinha... Como vou arrumar uma namorada na escola?”. Tem essa fase na escola, da Quarta Série em diante. Só que isso foi totalmente tranquilo. Tinha um respeito dos professores. No meu caso não era respeito, e sim um carinho que tinham pela minha pessoa. Respeito era eu que tinha por eles. Tinha carinho com os alunos de dentro de sala. A minha vida é tranquila, ‘mano’. Apesar de tudo, tranquila.

 

P/2 – Aonde era a escola?

 

R – No Delfino Ribeiro, em frente à Philips, aqui na Capuava. Terminei no João Amazonas. Retomei o Ensino Médio no João Amazonas. As pessoas já eram de certa idade, haviam deixado os estudos, esse era o ambiente. Eu, com 20 e poucos anos, era o caçula da sala. Retomei os estudos num projeto, acho que foi do governo. Deve ter sido. Eu tinha amizade com todos dali. Com estudos para terminar o ensino médio, fiz para Agente de Saúde. Você cai na área social como Agente de Saúde, vai visitar as pessoas, e eu gostei de fazer isso. A professora falou: “Nossa, mas você tem uma cabeça enorme para o social”. É bom você ouvir crítica e ouvir elogio. Eu recebi muita crítica também na minha vida mas, também, muitos elogios. E ela falou: “É uma área que você tem que seguir em frente”.

 

P/1 – Fábio, como era o bairro do Delfino?

 

R – Era um lugar bonito. Era uma vila. Ali pertence à Mauá. É Capuava, mas pertence à Mauá. Era a zona sul de São Paulo. Favelona. E a zona sul, o lugar. Saíamos de lá para comprar pão na Capuava, pois não tinha mercado e nada. Tinha o bar do seu Arnaldo, que era como um Primavera, o mercado mais popular daqui. Nós saíamos da favela para comprar pão, leite e tudo do outro lado, na vila. Tudo era lá. O Posto de Saúde e tudo mais eram na Capuava. Na favela não tinha nada. Hoje em dia você entra na... É força do hábito falar favela. Sabemos que é núcleo, mas o costume é assim. Hoje você chega ali, tem mercado, farmácia e tudo lá. Tem até uma creche agora. Falta só um Posto de Saúde, que com o tempo vai ter que vir, vai ter muita população. Mas tem de tudo o que você quiser encontrar. É um paraguaio moderno. É uma Santa Efigênia na Capuava. Mas antes era difícil, rua de terra, não tinha esgoto. O esgoto era aquele cano, se eu não me engano, de quatro polegadas, para o fundo das casas, caindo nos brejos. Ali tinha moscas e tudo mais. A energia elétrica, então... Sou da área de elétrica. Meus do céu! Eram velas para todo lado. Enquanto um puxava energia da outra casa, o famoso “gato”, era um efeito dominó. Puxa aqui, vai ali. Também, quando cortavam, caiam todos. Era o efeito dominó. O pessoal foi se mobilizando com o tempo e se unindo. Foi aumentando a população. Um pedaço de chão ali: “Quer vender?” “Vendo”. Em dois dias o pessoal já levantava um barraco. Aí eu pensava: “Será que é o pessoal que trabalha no Celso Portioli, que levanta uma casa numa semana, 15 dias?” O ‘cara’ chegou ali e pá, pá. A casa está levantada. Hoje não tem mais espaço para se construir. Mas era tudo rapidinho para levantar uma casa. Encostou o caminhão do depósito - do jeito que o ‘cara’ jogava a folha de madeirite, o outro levantava e já pegava. Era tudo assim. Um vizinho aqui, outro ali. Agora não. É parede com parede. Hoje você não vê mais isso. Se não me engano, não vejo nenhuma casa de madeira ali. É tudo alvenaria, com parabólicas, TV’s por assinatura, todo mundo com seu carrinho na garagem. Não pagam água, a maioria não paga luz, sobra um dinheiro para pagar a parcelinha de um carro. Pouca gente paga energia ali. Isso veio de antes. Mobilizaram e estão pagando pouco ali. Poucas pessoas pagam, mas pagam pelos outros também. Ali tem gente que tem carro novo, Hilux. Só que deixou de morar na vila para morar na favela, no núcleo. É o hábito de falar favela. Mas tem gente que eu falo: “Você tem uma boa vida lá.” “Ah, mas aqui é mais tranquilo”. É seguro, apesar de tudo. Seguro. Ninguém leva o seu carro. Tem a sua vida, sua segurança. E a infância era assim. Lá sempre ensinaram para nós: “Se está ali, não mexe, porque se mexer, tem a consequência”. Desde criança vivemos assim. Os caras falavam: “Olha, isso aqui é o lado ruim. Eu mostro para vocês. Venham se quiserem”. Ninguém pegava na mão: “Vá trabalhar nisso ou naquilo”. Eles explicavam: “Entra no mundo errado quem quer”. Explicavam e sabiam a consequência. Quem nunca viu um jovem ser morto por causa de drogas? Todo mundo. Todo lugar tem isso aí. Só que ali foi um lado que os caras explicavam para nós. Por isso, lá é um lugar tranquilo. Às vezes passo a tarde aí. Estou em casa, sem fazer nada, vou para Santo André, fico com a minha mãe conversando, vejo os amigos. Uma vez eu trouxe um amigo de Guarulhos que ele disse: “Nossa, você conhece esse pessoal. Eu não vejo você falar assim: ‘Conheci há pouco tempo’. É no mínimo cinco anos”. “Esse é meu amigo, foi goleiro do São Caetano na época”. Ele até falou para esse meu amigo: “Esse sem vergonha fez um gol do meio de campo em mim”. Sempre se fala de futebol. Falamos de tudo. Quando chego, já falo: “E a família, tudo bem? Os filhos?” Já pergunto em geral. Aí ele falava: “O cara fez um gol em mim”. E quando jogador, que jogava no A.D. São Caetano, na folga dele, não podia sair para fazer uma partida de futebol, pois jogador profissional não pode. Mas, no fim do ano, evento, ele foi, levou um azar de fazer um gol nele e, sempre que estamos juntos, comentamos: “Poxa, levar um gol do Fábio do meio de campo”. Aí eu falo: “Sorte acontece!”. E ele: “Foi o seu gol mais bonito?” E falo: “Não, mas na época foi o mais importante, por ter sido em você”. E é assim, desde moleque. Quando pequeno, também na Capuava, tinha um time do União do Morro, que tem até hoje. Joguei no meio de dois profissionais: um jogava no São Paulo e o outro no Guarani. O ‘cara’, na época, era reserva do Catê, do São Paulo. É o Bira e todos o conhecem como Bira, que jogou no São Paulo. E tinha um que chamávamos de Tchacuíra,  que jogou no Guarani. Quando fui jogar com ele, eu tinha 13 para 14 anos. O ‘cara’ falou assim: “Aconteça o que acontecer, toca a bola no chão. Você vai aprender a jogar bola conosco”. Dois caras profissionais, eu no meio deles, falei: “Meu Deus do céu!”. Saía dali, 13, 14 anos já no União do Morro. Dali já Forrózinho, 14 anos, só tomava Tubaína na época. Tínhamos um time de molecada que pegava o time da favela contra o time da Capuava. Eram “os ricos contra os pobres”. E apostava. O time do União nos deu um troféu velho do Bandeirantes. A molecada de lá e a daqui. Jogamos e ganhamos. “Ah, mas só o troféu é pouco. Nós vamos comemorar como?” Aí eu: “Vamos fazer o seguinte: o troféu e uma caixa de 24 Tubaínas. Vamos apostar?” Nós levávamos os troféus e as Tubaínas. Ganhávamos na maioria das vezes. Eles não tinham time para ganhar. Voltava lá com dois troféus e duas caixas Tubaínas. E lá fomos festejar com Tubaína. Depois você vai jogando em time, o pessoal tomando cerveja, aí você dá aquele primeiro bico e toma. Com 15, 16 anos, está lá no forró, se sente maior, tomando cerveja no forró, querendo pegar as meninas do local. Mas não é bem assim. Aí você começa... Eu, graças a Deus, tenho um vício. Se estou de folga? Tomo a minha cervejinha. Geralmente compro, levo para a minha casa. A minha namorada está lá, a gente vai e toma cerveja. Não gosto de ficar em bar. Não gosto. Se estou passando no bar e tem um amigo, paro, tomo uma cerveja. Se em casa não tem? Já pego e leva. Cumprimento todo mundo e vou embora. Não gosto. Até hoje. Desde moleque sou assim. Peguei muito forró nessa favela. Vivia muito nesse forró, e vi cada coisa feia. O Capuava hoje é um bairro gostoso de se morar. Falta muita coisa a ser feita, mas é gostoso. Eu vou completar 33 anos e, desde pequeno, onde era morro, hoje você olha e não vê o morro, só vê casas. Tijolos, muitos tijolos. Uma vez, na empresa em que trabalho, ficava fumando lá e falei: “Nossa, ‘mano’, dá uma paisagem muito legal para ver”. Só tijolos e mais, tijolos. Oitenta por cento das casas ali não são rebocadas. Quando reboca a frente, não dá para rebocar a lateral porque é a casa do vizinho. Fica esperando o vizinho levantar para esconder. É sempre assim. Mas hoje tem tudo. Tem saneamento básico, tem asfalto, tem escadaria para subir, tem drenagem das águas que vêm da escada, coleta de lixo, telefone, internet que todo mundo tem acesso. Uma creche, que é pouco, pelo número de crianças que temos lá, mas pelo menos tem. Há pouco tempo, não sei se é uma escola que tem uma quadra bonita, que até me convidaram para jogar uma vez lá mas não tive oportunidade. “Fábio, a quadra é a coisa mais linda.” Porque não sou mais fã de jogar futebol de salão. Comecei no futebol de salão, mas não gosto, o meu joelho não aguenta. “Vai lá Fábio, marca um horário para você jogar todas as noites.” E falei: “Não dá. Não aguento jogar salão”. Mas, aos poucos, está chegando.

 

P/1 – E Fábio, que outras festas vocês tinham na sua adolescência ou infância?

 

R – Festa... Na adolescência eu curtia as festas da escola. Festa Junina e encerramento de aulas, aquelas bagunças normais. As mães têm que costurar nossas calças, passar carvão, lápis preto nos dentes, fazer barba, cavanhaque e tudo. Era um momento bom. Apesar de ter que me virar desde pequeno, via a molecada, chegavam a casa, tinham comida e tudo mais, sem preocupação com nada, mas eu já tinha e, mesmo assim, aproveitava essas festas. Ia e me divertia mesmo. ‘Chutava o pau da barraca’ mesmo, me divertia, brincava pra caramba. E nas Festas Juninas, depois tinham aquele famoso bailezinho, aquela sala escura, fechada. Íamos para ali tentar a sorte e beijar alguém. Eram sempre essas festinhas de escola. No fim de ano também é a mesma coisa: “Vamos fazer um baile”. Nesse tempo de moleque tinha até um grupo de pagode. “Ah, festa na escola? Os ‘Atrevidos’ vão tocar.” Olha só o nome?! Atrevidos. Ia lá e tocava. “Aniversário do meu amigo. Vamos fazer um pagode lá.” “Casamento. Vamos para o pagode.” Tudo era pagode. Acho que se tivesse um velório, nós íamos fazer pagode também. Éramos tão unidos. “Ah, morreu Fulano. Vamos fazer um pagode.” Tinha uma galerazinha legal que até hoje encontro. Nos encontramos na Adega do Cheiroso, como é conhecido, tomamos uma cervejinha, conversamos do passado, do presente e de tudo. Mas todos rapaziada de molecada. Tem um lá que, quando me vê, é cunhado para lá, cunhado pra cá. Nos tratamos assim até hoje. Somos amigos de infância mesmo.

 

P/1 – O que você tocava nessa banda?

 

R – Eu gostava de fazer percussão: pandeiro, tantan, instrumentos de percussão mesmo. Apesar que hoje sou louco para aprender instrumento de corda. Então, falei, vou dar um tempo para melhorar um pouco a situação e vou comprar um violão. Vou tentar o violão, um cavaco ou um banjo. Ou, se puder, comprar os três. Vou tentar tirar um tempo para fazer isso. Consegui um violão de corda para ficar tocando em casa nas horas vagas. Eu gosto de samba, de sertanejo universitário, mas gosto de samba. Porque o samba caiu muito na minha vida. Cada coisa da minha vida tem o samba.

 

P/1 – E como você aprendeu?

 

R – Olhando. Via um pessoal maior que tocava e ficava olhando. Eles falaram assim: “Se vocês aprenderem, nós vamos dar oportunidade para vocês tocarem aqui no bar conosco”. Aí, você vê aquele bar lotado e os ‘caras’ tocando. Juntei-me aos moleques, arrumamos um cavaquinho, um pandeiro, um tantan e o meu amigo da Capuava, que tinha mais condições, já comprou. Íamos ensaiar na casa dele. Sabe aquela cena do ‘Chaves’, quando aquela orquestra dele com aquele barulho todo? A mãe do meu amigo saía assim. Eu falei: “Esquenta não, tia, um dia vamos ser bom”. Até hoje esse dia não chegou, mas... Começamos a ensaiar e apareceram oportunidades para nós. Na minha opinião, um bom músico aprende tudo de ouvido. Não adianta o ‘cara’ falar assim: “Você vai fazer o curso”. Você de lá e ele de cá: “Faz assim e assim”. Se você não tiver vontade própria... Mas vou chegar a tocar violão um dia. Percussão eu adoro. Pandeiro. 

 

P/1 – Fábio, você falou da Festa Junina, da banda, na sua adolescência. Teve algum fato, algum episódio que marcou mais, algum causo?

 

R – Na minha adolescência... Para falar a verdade, marcante não. Sempre tudo foi na base da amizade. Os mais tristes mesmo foram as perdas de muitos amigos. E isso foi uma escolha deles, em ir para o lado errado. Mas algo marcante eu não tenho, porque até hoje tudo está sendo uma conquista. Tudo que aprendo, que consigo é uma conquista. Por isso não tem nada marcante, porque tudo é marcante. Toda conquista, da adolescência até hoje, é uma conquista. Tudo que aprendo é uma conquista. Por isso digo que não tem nada marcante, pois uma coisa vem superando a outra. Podem dizer: “Você tem algum trauma”. Trauma você pega ali e não esquece. E trauma eu não tenho. E coisas marcantes eu não tenho, porque cada vez mais está acontecendo alguma coisa importante. Hoje, aqui, também é uma coisa que está sendo importante. Fica como um aprendizado, um conhecimento. Tudo é uma coisa que fica sendo importante. Amanhã, quem sabe, acontece outra coisa na minha vida que vai ser ainda mais marcante?

 

P/2 – Fábio, como foi a sua ida para Fortaleza?

 

R – A minha ida para Fortaleza foi assim. Fiz um teste na Portuguesa, que consegui através de onde a minha mãe trabalhava. Ela trabalhou num depósito de bebidas, uma cerveja chamada Belco. Perto dessa firma, jogando pelo time do bairro, uma das pessoas que trabalhava na empresa me viu e comentou com a minha mãe: “Tem um moleque ali que joga no time onde a senhora mora...” E ela: “Ele é meu filho.” “Ele tem uma qualidade, um conhecimento”. Aí comentou com um encarregado de lá e a minha mãe chegou no dia seguinte: “Carta de recomendação para você ir para a Portuguesa”. Eu falei: “Nossa, mãe, é mesmo?” “É”. Ela me deu a carta: “Tem que estar lá amanhã cedo”. Peguei e fui. A minha mãe me deu o dinheiro do trem. Pegava o trem, o metrô, para ir até lá. Do Tietê pra lá fui caminhando. Fui, joguei bola, passei no primeiro teste com cento e poucos moleques. Passei no primeiro teste. “Volte na quinta-feira de novo.” Fui. “Volte na terça.” Passei um mês e meio assim. Até que chegou uma época e falaram assim: “Hoje você faz parte da equipe”. Passei seis meses na Portuguesa jogando bola e fizeram uma negociação para eu ir para o Juventus. Fui para o Juventus, na Mooca. Achei melhor, porque é um trajeto só, descendo na Mooca. Comecei a ir para a Mooca. Jogando uma partida, lembro que era Juventus e o time do Fortaleza mesmo, pela Taça São Paulo. Chegou um ‘cara’ e disse assim, no intervalo, perto do alambrado: “Qual é o seu nome?” “Fábio.” “Vou deixar um cartão”. Ele puxou a minha bermuda e colocou um cartão aqui. “Guarda lá no vestiário e depois entra em contato comigo.” “Tudo bem”. Fui para o vestiário e, nos 15 minutos do intervalo, olhei, era um empresário. Só que a minha cabeça era fechada para essas coisas de negócio com empresário. Disse: “Beleza”. Voltei para o segundo tempo, acabou o jogo, e ele: “Então, aceita tomar um refrigerante e comer um lanche?” “Aceito”. E começou: “Ah, tem umas propostas, tem uns times...”. Acabou, depois de muito tempo, saindo essa proposta de Fortaleza. Só que, medroso de tudo, falei: “Não. Estou aqui mesmo”. Como eu vivia muito também com uma tia, que é minha mãe de criação, ela deixou tudo aqui para ir para lá. “Estou indo para Fortaleza, não dá mais certo aqui e vou viver a minha vida lá. Tenho a minha família.” Briguei muito com a minha mãe nessa época. Eu não era muito amigo dela na adolescência. Brigava muito com ela. Disse: “Vou morar com a tia Neidi”. E ela: “Você não vai, porque eu não vou deixar.” “Se a senhora não deixar, vou parar de estudar”, aquela rebeldia. “Vou parar de estudar, não quero mais saber de nada. Vou de qualquer jeito com ela. Vou fugir”. Aí ela não falava com essa minha tia. Elas tinham umas brigas e não se falavam. Sentaram as duas para conversar, entraram num acordo e me deixaram ir. Eu, com aquele cartão guardado ainda. Só que aí, a minha mãe falou assim para a minha tia: “O Fábio saiu de mim, mas ele é seu filho”. A minha tia é morena. Eu chamo de irmão. Os meus irmãos são todos negões e eu brancão. “Mas por que seus irmãos são negões e você é branco?”. Eu falei: “Meu amigo, para que inventaram cerca? Para ser pulada, não foi?”. Eu brincava assim. “É que ela é a minha mãe de criação”. Acabei indo para lá. De lá, liguei para o ‘cara’, que foi ser meu empresário, mas não deu muito certo. Ele ganhou mais do que eu. O que eu ganhei nessa viagem para Fortaleza foi o meu filho de 12 anos e muitos amigos lá. Por causa disso, por vontade de querer morar com a tia e a curiosidade de conhecer o meu pai, que eu não via. Aí juntou tudo. Sabe quando tudo conspira para você ir a esse lugar? Tudo. Curiosidade de conhecer o meu pai de novo e a minha tia indo morar lá, pois ela também é de Fortaleza, além desse convite para jogar. Juntou tudo e fui embora para Fortaleza.

 

P/1 – E Fábio, você foi outras vezes para lá?

 

R – Tinha ido uma vez com a minha mãe quando ela foi buscar as minhas irmãs. Fui porque ela não queria nos deixar só. E viajamos. Nessa viagem toda tinham as gêmeas, a Cristina e a Paula. A Leila já estava casada, morando no interior. Trouxemos só a Cris, a Cristina. Primeiro vieram a Cristina, o marido dela e o filhinho dela. Depois, vieram a minha mãe com as gêmeas que, se não me engano, são as caçulas. Não, o caçula é o Ricardinho. Das mulheres, são as caçulas. Foram as que vieram depois com a minha mãe. Acho que foi uma viagem de, no máximo, um mês, se não me engano. Acho que não chegou a isso tudo. Foi um mês que passei lá e voltamos.

 

P/1 – E qual a sua primeira impressão de Fortaleza?

 

R – Quando você vai para Fortaleza, você vai para passear. Fui com a minha mãe: “Ah, vou tirar férias”. Tudo são mil maravilhas. Que você não se preocupa com emprego. A minha mãe estava bancando tudo, comida... Era só brincadeira lá. A praia era a 50 metros da casa. Você passava duas ruas, já tava na beira da praia. “Ah, chegaram os paulistas”. Parecia celebridade chegando a um lugar. Tudo era festa. A família toda de lá. Passei uma semana só visitando os parentes. Falei: “Pelo amor de Deus, mãe, a sua família não acaba não?” Família grande demais. E pessoas que, quando você chega, é recebido assim... Chego até... Em abril fui lá visitar o meu filho e, até hoje é assim. A família recebe. Se você passar lá e não passar na casa de um, o pessoal fala: “Como você faz um desfeita dessas?” A primeira impressão foi mil maravilhas. Depois, quando voltei, já com 17 para 18 anos, já se vê que não é bem assim. Tinha que trabalhar, fui com a minha tia e não ia ficar morando de favor lá. Tentei, não deu certo no futebol, fui trabalhar numa empresa. A empresa deu certo. Aí veio a primeira namorada, o primeiro filho. O jogador está bom, logo de primeira. Primeira namorada, primeiro filho, mas o filho veio depois de um ano e pouco. Fui jogando na retranca ali, pra depois partir para o ataque. Aí foi isso. Cheguei lá, comecei a trabalhar numa empresa boa, prestando serviço e passei sete anos trabalhando nessa empresa. Mas sempre achava uma brecha e vinha visitar a minha mãe aqui. Mas a minha amizade com a minha mãe mesmo começou depois do falecimento do meu irmão, em 2000. Ela ficou meio perturbada aqui e eu falei: “Mãe, vem...”. Já tinha até a minha casa, nesse tempo, em Fortaleza. Estava com a mãe do meu filho e falei: “Vem visitar aqui”. Eu não tinha muito contato, nem muita amizade. Falava por telefone, mas não tinha aquele carinho de filho com mãe. Ela chegou lá, choramos juntos, e eu não tinha vindo ainda ver o meu irmão. Choramos a tarde toda juntos e fomos conversando. Foi tipo um pedindo desculpa para o outro, pela ausência um do outro. Foi legal. Uma coisa que você me perguntou, que foi marcante. Isso foi marcante. Mas não foi bem na infância, pois já estava com 20 anos e já tinha a minha casa. Assim, você põe na cabeça. Quando sai de casa, tem a nossa família, e é só um. Mas fui conversando com a minha mãe, vendo onde eu e ela erramos e, hoje, somos verdadeiros amigos. Amigos mesmo. Se ela chegar, posso estar em Guarulhos: “Tem como vir?” Subo na minha moto: “Estou indo aí, mãe.” 

 

P/2 – Qual o nome do seu filho?

 

R – Gabriel Willian.

 

P/2 – Ele já veio a São Paulo?

 

R – Ainda não, porque eu me separei da mãe dele. O meu contato com ele, se vou lá... Não falo nada com a mãe dele. Nos separamos, mas ficou o respeito. Eu não falo com ela, nem ela fala comigo. Ela tem a vida dela lá e eu a minha vida aqui. Cheguei lá em abril, para visitá-lo, para completar o que você está perguntando, passei dois minutos com ela, frente a frente. Eu não tenho mágoa dela, foi uma separação por besteira, infantilidade, coisas de adolescentes... Perguntei: “Vim passar 14 ou 15 dias aqui e estou pedindo a sua permissão para ficar com o Gabriel”. Ela me disse: “Tudo bem.” Eu falei: “Porque assim vou conversar diretamente com ele e saber o que ele precisa ou não”. Porque, antes disso, para ter contato com ele, ela dizia: “Não liga aqui em casa.” O marido dela tinha ciúmes. Eu falei: “Estou perguntando sobre o meu filho, mas já que você não quer...”. Daí, o contato para eu saber do meu filho ficou sendo a minha irmã, que é outra pessoa que é tudo, uma aula, é a minha irmã. Ela me deu um apoio num momento difícil, de separação. Hoje eu converso com o meu filho nos finais de semana: “E aí, vai vir quando?” Eu falo: “Se Deus permitir e o bolso ajudar, entre dezembro e janeiro estarei aí.” Estamos mais amigos. Pego esse lado da minha mãe e estou fazendo amizade com o meu filho também. É uma cena linda: eu e ele, no bar, jogando sinuca. O pessoal: “Nossa, pai e filho. Coisa rara de se ver”. Eu falo: “Pois é”. E, como o meu pai me abandonou, eu não abandonarei o meu filho. Porque estava sem emprego. E lá é assim, você trabalhou numa empresa grande, que domina todas, aí você não consegue emprego nas outras. Tive que vir para São Paulo. Aqui, terminei meus estudos. Estou retomando a minha vida. Até conseguir a minha casa própria, tudo está sendo na base da conquista. Mas agora eu tenho a minha vida própria. Posso ir visitá-lo.

 

P/1 – Fábio, falando um pouquinho da área de emprego, você comentou que trabalhou em Fortaleza. Quais outros trabalhos você teve depois?

 

R – Em Fortaleza fui arrumador de cargas. É uma empresa de farinha de trigo, um moinho. Que nem o Moinho São Jorge, aqui em São Paulo. Trabalhei na capatazia, carregando caminhão, fazendo loteamento para depois carregar os caminhões. Era serviço leve. Comecei na expedição na farinha de trigo de dez quilos, aqueles dez pacotes de um quilo num fardinho grande, para carregar as carretas. Ficava lá, as máquinas vinham, uma atrás da outra e você ficava direto. Trabalhei com isso. Aí falei: “Mas isso não dá dinheiro”. O ‘olho grande’ já estava crescendo. Falei: “Quero crescer aqui”. Fui para a parte do farelo: ração para cavalo, boi, ração animal, coisas assim. O mais leve eram 30 quilos. De 30 a 40. Fui para essa área, pois se pagava por dia de produção. Ali não, era uma diária onde eu trabalhava. E na outra, na produção, o que você produzia, você ganhava. Comecei a trabalhar, 80 a 90 reais por dia. O primeiro dia o pescoço travou, deu febre e tudo. Aí o cara falou assim: “Você ganhou 80 reais”. Eu falei: “Hoje? Ou é o dinheiro da semana?”. Por que em 1997... O ‘cara’ falou: “É o dinheiro de hoje.” “80 reais hoje?”. Passou febre, passou tudo. Falou: “Amanhã você começa às oito horas”. (risos) Sete e meia eu estava lá no portão. Comecei. O ‘cara’ começou a gostar, viu o meu desempenho e tudo, fiquei lá durante sete anos. Quando saí de lá ele falou assim: “Agora vai ficar meio difícil”. Saí da prestadora de serviço para entrar na empresa. Trabalhei dois anos na empresa. Depois saí dessa empresa, no mesmo local e fiquei dois anos na outra. Fui trabalhar no Café Santa Clara. Fui fazer uns bicos lá. Tinha um jornal lá, uns amarelinhos, como dizem por aqui, para descarregar o caminhão. Falei: “Vamos lá”. Descarregar café em grão. Comecei a descarregar café, passei 15 dias trabalhando nisso e a mulher disse: “Vou te efetivar”. Eu falei: “Tudo bem. Já vai assinar a minha carteira?” “Você vai ser encarregado, porque você já tem experiência. Vou te dar um salário X e uma cesta básica”. Falei: “Tudo bem”. Chegou no dia 15, veio um vale. Olhei para o vale e falei: “Acho que vai vir tudo no...”. Chegou o fim do mês, no dia pagamento, veio outra metade do vale. Eu falei: “Meu salário não tá chegando nisso”. Ela: “Não. É que aconteceram uns problemas”. Eu falei: “Eu também tenho problemas, sou pai de família. Está aqui a minha carteira de trabalho”. Trabalhei por 72 dias e cheguei para a dona: “Não quero mais trabalhar para vocês.” “É porque o negócio está ruim”. “O negócio está ruim para quem não tem coragem.” Entreguei a carteira a ela numa semana e, na outra, estava trabalhando na prestadora de serviço de novo. Trabalhei mais uns dias lá ainda. Até terminar e separar de tudo, me divorciar. Divórcio não, porque eu não fui casado no papel, mas separando e vindo para São Paulo. Aqui terminei os meus estudos e consegui trabalho. 

 

P/2 – E você pensa alguma coisa para a carreira do seu filho? E se ele seguisse o futebol?

 

R – Vou apoiar o que ele fizer. Porque eu nunca fui influenciado a fazer nada, nem pelos meus pais, nem por ninguém. Sempre tive o apoio da minha mãe: “É isso que você gosta? Vai e faz”. Quero agir do mesmo jeito com o meu filho: “É isso que você gosta?” Vou tentar ajudar no máximo possível. Não influencio em nada o meu filho. Quero ajudá-lo. Ele quer? Vou estar com ele. Eu torço para o Corinthians. Quando ele era pequeno e estava junto comigo, era corintiano. Quando voltei (a Fortaleza), ele era palmeirense. E o pessoal ficou: “Aí, seu filho é palmeirense!” Eu falei: “A escolha é dele.” “Ah, pai, você não vai ficar chateado, não?” Eu falei: “Não, porque você tem que escolher o que você quer ser e para quem você vai torcer. Eu não posso falar”. Fui a uma festa dos primos, que já vieram aqui, todos corintianos. Até o bolo. Ele falou: “Ô pai, pega aquela sua camisa na bolsa, do Corinthians, para eu usar”. Eu falei: “Gabriel, mas você é palmeirense, vai ficar chato com seus amigos.” “Não, mas agora eu quero usar essa camisa”. Eu falei: “Então fica como presente seu”. Você vê como são as coisas. Mas eu não influencio. Se quiser ser são paulino, palmeirense... Só uma coisa eu quero influenciar: na felicidade dele. Que ele seja sempre feliz. Isso eu tentarei apoiar em tudo. Porque seguir carreira de futebol, bom. Medicina: bom. O que ele escolher... Sendo feliz, está ótimo. Gosto de fazer o que gosto. Nunca gostei quando a minha mãe dizia: “Você vai fazer isso?” Se não gostar, não vou.

 

P/1 – Fábio, pensando na sua vida profissional, o que mais marcou ou chamou a sua atenção? Algum aprendizado ou coisa que você se orgulhe de ter feito?

 

R – Eu me orgulho pelo apoio que a minha mãe, a dona Leila, me deu. Porque quando eu vim para cá eu tinha experiência profissional, ou melhor, tempo de registro em carteira. Mas o que é trabalhar numa empresa carregando saco de farinha de trigo de 50 quilos durante sete ou oito anos? Fora isso você vai saber fazer o quê? Nada, só carregar, fazer enlonamento em caminhão, amarrar aquelas cargas para viagem. Mas isso não lhe dá conhecimento em nada, em leitura, em nada. Você vai saber o quê? Placa de caminhão, de que estado ele é. Mas conhecimento, cultura, se você não procurar outras coisas, como eu procurei voltar a estudar, você não vai ter nada. Hoje tenho um curso de elétrica industrial, residencial, industrial, tenho quatro anos de manutenção geral em indústria, indústria geral, sou agente comunitário de saúde, tenho esse curso, estou terminando no dia três o de arbitragem, para ficar mais preparado... Preparado eu já sou, que já apito na Vargem. Pois o pior futebol que tem é o da Vargem. Você entra em comunidades para apitar. Entra de um lado, barraco, do outro lado, barraco. E você sai aplaudido. Sai xingado por uns, mas aplaudido por outros. Até hoje nunca fui agredido. Nunca. No fim de semana eu estava em Registro, fazendo uma partida e o cara falou assim: “É o jogo mais difícil”. E falei: “Tudo bem”. Eu tenho um lado meio brincalhão, meio comédia de ser. E lá eu peguei o regulamento e vi: “O jogador que levar amarelo, para ajudar uma entidade, vai doar duas caixas de leite.” Aí, já brincando com os dirigentes, falei: “Hoje eu vou ajudar uma comunidade. Aliás, vou ajudar uma entidade. Vou aplicar o cartão para a caixa de leite”. O jogo mais tranqueira que ia ser, acabou como o jogo mais calmo. O time que ganhou: “Parabéns, meu, você apita muito”. Eu brincava com os dois auxiliares e com o rapaz que falou isso: “Eu quero ouvir isso da boca do time que perdeu”. E não é que quando chegou ao vestiário vêm o técnico do time, o capitão: “Parabéns, viu, professor. Que partida. Não teve violência, não teve nada”. E eu falei: a torcida aí fora está vendo, tinha tudo pra explodir, tudo para ser um mau jogo. Já fui para o vestiário e pensei: “Estou me sentindo um (árbitro da) FIFA (Fédération Internationale de Football Association). Um jogo desses e não teve briga.” Porque quando se faz a arbitragem, você tem que cuidar de si próprio, dos dois assistentes e dos mesários. Se a minha conduta é errada lá dentro, vai atingir a equipe. Utiliza-se muito da psicologia para nós próprios e para os outros. Vi onde estavam os mais chatinhos e já: “Olha, se vier, vou dar cartão amarelo”. Apliquei um cartão amarelo. Saí de lá falando: “Nossa! Não consegui ajudar a entidade que eu queria”. Juro por Deus, falei: “Nossa, ‘mano’”. Eu pensando que ia aplicar bastante cartão, levei o jogo na brincadeira, na calma. O ‘cara’ falou: “Nossa, como você faz um jogo desses? Quando eu via que ia... “Opa, os dois, vocês querem jogar ou querem ficar lá fora? Vou tirar duas caixas do seu filho e duas caixas do seu filho para doar lá. E aí, vai pesar no seu bolso?” “Não, professor, vamos lá”. Foi só na conversa... Acabou com um cartão amarelo só e ainda saí dando risada. Vim a viagem todinha falando: “Nossa”. E aquele convite: “Vou ligar para a Associação que você participa, em que você é federado para voltar de novo aqui”. Eu falei: “Tudo bem. Sinal que o trabalho foi bem feito”. Por isso que eu digo, ficam sempre coisas marcantes, mas de uma sequência de tantas coisas marcantes, você não consegue tirar uma.

 

P/1 – Fabio, como e quando surgiu essa questão da arbitragem? 

 

R – Tenho um irmão que começou com isso. Ele nunca jogou bola na vida. Falei: “Como um ‘cara’ que nunca jogou bola vai ser árbitro?” Nunca teve contato. Ele era aqueles jogadores que, se tivesse que escolher só 11 e ele fosse um dos 11, os ‘caras’ falavam: “Não, fica lá até chegar o próximo”. Ele não jogava nada. Só que ele é inteligente para o teatro. Inteligente para muita coisa. É o único da família que tá fazendo faculdade. Eu falei a ele: “Não esquenta. Não é inveja, mas se Deus quiser, ano que vem eu vou fazer a minha, por que nunca é tarde”. E ele fala: “Vou dar um apoio para você também. Ele que começou com esse negócio de arbitragem. Até trabalhou com o Braghetto, que é um árbitro da Federação Paulista e da CBF também. Esses árbitros famosos têm um escritório que presta serviço para a prefeitura daqui. Todos os municípios têm os seus negócios esportivos, secretaria esportiva, e tem que contratar os árbitros. E esse cara, como é conhecido no país, o meu irmão trabalha para ele. Até que um dia o meu irmão foi pegar uns jogos por fora, para ganhar, e falou assim: “Fábio, tem como você ir ao Corinthians apitar o jogo no meu lugar? Não poderei ir.” Aí junta Corinthians... “Qual categoria?” De 11 a 12 anos. Falei: “A idade do meu filho”. “Vou”. E fui. Fiz a inscrição no site dos árbitros lá do Braghetto. Ele falou: “Seu irmão está lhe indicando, pode ir”. Fui e deu tudo certo. Trabalhei com as crianças e acabou tudo tranquilo. Aí o Braghetto me ligou: “Olha, tenho uma escala para você trabalhar comigo. Vem aqui no meu escritório na Barra Funda”. Cheguei lá, ele me tratou super bem, me mostrou os quadros de arte. Eu quero chegar pelo menos a fazer essas coisas aí. Quando você vai... Falei: “Nossa”. Conversei com ele. Só que ele tinha poucos jogos para eu apitar. Disse: “Já que eu vou parar de jogar no amador para ganhar dinheiro de fim de semana, eu quero que dê dinheiro”. Outro amigo meu que trabalha com isso falou: “Olha, vamos lá onde estou, que lá você vai começar a ganhar dinheiro”. Aí comecei a ganhar mais do que na empresa em que eu trabalhava. Falei: “Já que estou fazendo uma coisa que eu gosto e o dinheiro está compensando...”. Acabei saindo da empresa em que estava, fui visitar meu filho e, quando voltei, estou no futebol até hoje. Hoje a tarde vou pegar a minha escala por telefone: “Você vai para tal lugar”. E é assim, todo fim de semana, até hoje, graças a Deus, tem escala para eu apitar.

 

P/1 – Fábio, o que você mais gosta de fazer na suas horas de lazer?

 

R – Eu gosto de dormir. Pode estar 40 graus mas, lá dentro da minha casa está aquele friozinho gostoso. Eu gosto bastante de palavra cruzada. Pego palavra cruzada, fico lá deitado, viajo  e, até conseguir terminar aquela página, não sossego. “Ah, está na hora de comer.” “Não. Só quando terminar. O palavrazinha difícil. Vou ter que escrever aqui mesmo.” Essa parte eu gosto, as palavras cruzadas. 

 

P/1 – Como é seu dia-a-dia hoje?

 

R – Hoje está assim: dormiria bastante. Se não viesse para cá, eu estaria descansando, porque troquei o trabalho de semana para o fim de semana, e é um trabalho que requer muito descanso. Pego o livro de arbitragem, vou lendo, assisto bastante esporte na área de futebol e tudo que se passa, como comentários de arbitragem. Pego tudo e vou vendo. Na minha hora de lazer, de folga, é isso. Geralmente, à uma ou duas horas da tarde, quando já vi o que tinha que ver, vou na minha mãe. Saio de Guarulhos para Capuava. E fico aí. Às vezes eu falo: “Mãe, vou dormir aqui”. São dez horas da noite: “Ah, vou lá para o meu cantinho, é mais gostoso, fico mais à vontade”. Aí vou. No outro dia pela manhã ou à tarde eu volto pra cá. “Ah, só foi dormir” “É, mãe, eu sinto...”. No fim de semana eu tive que dormir fora de casa e não me senti bem. Não dormi. Acordo aqui, acordo ali. Dormi na casa de um amigo. Acordo aqui, acordo ali e falei: “Nada melhor do que o meu canto. Nada melhor do que aquele meu velho travesseiro para descansar”. Eu gosto de ficar no meu canto. Sozinho, tranquilo. Sempre assim.

 

P/1 – Fábio, eu queria que você comentasse, por favor, um pouquinho sobre a sua família e do seu convívio com eles.

 

R – A minha família é, assim, a minha mãe. Tenho o meu filho, ele mora longe, não está todos os dias comigo, mas o coração todos os dias está com ele. A minha família é mais a minha mãe. Eu tenho uma irmã também, a Cristina, que mora junto com a minha mãe, na mesma casa. Tenho mais contato com ela e uma das gêmeas, que mora perto também, que é a minha irmã chaveirinho. Tenho um carinho por todas, mas as que eu tenho mais vivência são essas. Festa de aniversário de família, se me perguntar, nenhuma. Nenhuma. E quando uma das minhas irmãs faz, eu não consigo estar presente, em termos de trabalho, essas coisas todas e, também, por morar um pouco longe deles. Não tem uma união de família. Se eles precisarem, eu faço. Tenho mais tempo. Largo o que tenho que fazer lá e vou. Largo e vou vê-los no que precisarem. Mas a minha família é mais a minha mãe. Venho, converso com ela. Sou mais família assim, em termos de eu, Fábio: “Precisando disso ou daquilo e eu puder ajudar, eu venho”. Mas se estiver tudo normal, o meu cantinho. O melhor lugar que tem é o meu cantinho. Ali eu fico relaxo e tranquilo, na paz de Deus. Só. Não tenho nem o que falar de família, porque não tenho esses laços de família. Apesar de que a minha família é que nem “A Grande Família”, tem várias confusões, mas eu os deixo resolver, para eles terem a cabeça boa para resolver os problemas deles. Mas, se eu puder fazer alguma coisa, eu faço. Mas acho melhor eles no canto deles, e eu no meu. 

 

P/1 – Já estamos encaminhando para o final.

 

R – Tranquilo.

 

P/1 – Queria que comentasse um pouquinho as suas expectativas em relação à Capuava.

 

R – Expectativas? Eu espero que, como estamos em ano de eleição e nada é fácil, que quem ocupar a cadeirinha ali da prefeitura de Santo André dê uma olhada para a Capuava. Não só para Capuava, mas para todos os lugares. Tenho que puxar a sardinha para o lado da Capuava, porque é um lugar em que fui para lá com um ano de idade. Eu morava na vilazinha ali em cima, numa casinha de aluguel, ou melhor, de favor, e desci para morar em Capuava. A minha vida é ali. Espero ver ali bem melhor. Apesar de que está melhorando. Espero que tenha um campo de futebol, e que eu mesmo, com certeza, quero apitar muitas partidas ali. Chegar e fazer partida, apitar ali, fazer arbitragem. E ver saindo jogadores profissionais daí, porque já saíram e espero que saia mais. Quero que lá tenha um lugar para que as criançadas da Capuava. Tem crianças ali que... Apesar de que hoje em dia a criançada é Playstation, computador, mas por quê? Porque não tem área esportiva. Tem que ter uma área da saúde e mais educação. Para ir à escola estudar as crianças tem que subir longe. Você imagina uma escola ali do lado, mais tempo para uma criança praticar esporte e tudo. E melhorias vão ter. Já teve bastante na área de iluminação, na área de energia elétrica e de esgoto. Tudo está encaminhando para... Fico até gago com essas coisas. Para a melhoria. Tudo tá caminhando. Mas só que não podemos esperar que ocorra de um dia para a noite. Tem prefeito que vai entrar, tem político da área também que tem que visar. Temos também que chegar lá e levar uma coisa escrita, um protesto escrito, assinado por muita gente. “Queremos que você... Nem que você não vá fazer, mas que você veja isso com carinho para a melhoria da Capuava”. Porque, hoje em dia, com a qualidade de vida que estamos tendo, com emprego, todo mundo, graças a Deus, tendo oportunidades, tem que ter um lugar bom para se morar, para se viver. Não adianta. Não é mais aceitável ouvir falar em favela. Porque se a pessoa trabalha, tem que ter moradia. Hoje todo mundo trabalha, e penso comigo: “A vida é dura para quem é mole”. Porque quem tem um pouquinho de coragem. Como eu comentei com você em off, fui para Fortaleza com 13 reais no bolso. Cheguei lá com dez. Voltei pra cá com uma mão na frente e outra atrás. Hoje eu pago o meu aluguel, tenho um lugarzinho para eu ficar e tudo. Tenho. Pretendo uma faculdade no ano que vem e uma casa. Entendeu? Mas eu tenho que correr atrás disso aí. Alguns falam: “Por que você não mora lá na Capuava? Por que você paga aluguel lá em Guarulhos?”. Você vai ver o preço de um aluguel aqui na Capuava, com essas obras das casinhas do lado, o aluguel está caro demais. Quando terminarem as casinhas vai ter um aluguel barato.” Eu falo: “Agora eu vou retornar. Vou retornar de onde eu não saio”. Pouco saio daí. Vou retornar para aí. Mas está melhorando e vai melhorar.

 

P/1 – Só mais duas perguntas.

 

R – Tranquilo.

 

P/1 – O que você acha dessa ideia de fazer uma exposição contando a história do bairro através das entrevistas das pessoas?

 

R – Acho importante, porque vai dar uma ‘cara’ para o bairro. Vai tirar aquela ‘cara’ de favela, de que não tem ninguém lá. Porque tem pessoas importantes ali dentro. Tem pessoas que tem um caráter enorme ali dentro. Tem umas que não valem o que o gato enterra, mas a maioria tem um caráter espetacular e que tem que ser visto. Não adianta ali ser só procurado em época de eleição. Tem que ser procurado direto. Tem pessoas dali que merecem tirar o chapéu e bater palma. E o projeto de vocês vai dar uma cara para aquele local, para a nossa Capuava. Uma cara bonita. E vai ajudar muitas pessoas que estão se informando, estão fazendo uma faculdade, de conhecimento de bairros e de tudo, que estudam sobre isso. Porque não adianta: você chega à Capuava, o primeiro lugar que a pessoa vai procurar, um estudante? Vai procurar na internet. Se procurar na internet: “Ah, tem no museu”. Chega ao museu, você vai poder encontrar pessoas que vão poder dar informação do que é realmente a Capuava. Porque se chegar um aluno de faculdade ali para fazer uma pergunta, ele não vai conseguir nem um “bom dia”. Entendeu? Se não tiver as pessoas certas para indicarem. Vocês sabem bem disso, que para vocês, têm que fazer esse trabalho. Vocês tiveram que procurar alguém para explicar às outras pessoas. E é mais ou menos isso. O projeto de vocês está dando uma cara para a Capuava. Está dando origem, um significado para dizer o que é a Capuava. E é bom ter a Capuava como foco e não de favela: “Ah, só mora favelado. Se for puxar lá dentro, não tem só favelado”. Não tem. Tem pessoas trabalhadoras, que saem às quatro da manhã, chegam às oito, nove, dez horas da noite. Tem guerreiros ali dentro, humanos, pessoas que realmente saem para cuidar da família. Tem. E se as pessoas têm direito de pesquisar sobre nós e ver o que realmente é. Eu acho importante o trabalho de vocês, por isso vim aqui. Vim de coração, de Guarulhos mesmo. Aí a minha mãe: “Você não vai estudar nada?”. Eu falei: “Não. Porque eles vão perguntar uma coisa que não precisa de estudo. Vão perguntar uma coisa que vem daqui, de dentro, e vou falar o que é”. A minha mãe, quando veio aqui, meu Deus do céu. Eu falei: “Mãe, relaxa, fica tranquila. Não vão perguntar nada de mais. Vão perguntar o que é. Você só vai responder o que é”. E eu falei até mais do que... Porque eu gosto quando falam da Capuava, falam da minha vida. E que sirva de exemplo para muitas outras comunidades. É bom saber. Quando vou fazer uma arbitragem: “É num local que é perigoso”. Eu falei: “Quem sou para falar de comunidade, se sou o fruto de uma?” Chegou lá: “Tudo bem? Beleza?” Se tiver que falar na gíria com o pessoal, eu também falo. Se tiver que falar com educação, com respeito, é o que mais se usa na arbitragem. Usamos muito respeito. Aí chega aquele ‘cara’: “Ô professor!” Eu falo: “Calma aí, pai, não é assim, deixa que nós vamos fazer o nosso trabalho”. Tem a linguagem de tudo. E quem vive num mundo assim, tem que saber falar dos dois jeitos: falar bonito e falar feio. E isso vai mostrar para todo mundo o lado bom de se falar e o lado ruim. E tem que chegar mesmo e mostrar para todo mundo. Santo André tem vários locais, Mauá, São Paulo toda tem. E seu eu puder mesmo acompanhar e ver, vou falar: “Poxa, eu fiz parte de um projeto importante”. E vou conhecer amigos que estarão ou estão fazendo projetos importantes por aí. Porque onde você imaginar, num campo de futebol, Copa Kaiser, jogos da cidade, eu vou estar por lá. De repente numa conversa, vestiário, essas coisas: “Pô, eu participei de um projeto”. Eu falei: “Então são dois. Estou junto com você. Gostei, adorei o projeto lá e estou para o que der e vier”. É isso que eu penso do projeto. E tiro o chapéu.

 

P/1 – Fábio, como foi para você contar a sua história?

 

R – Foi tranquilo. Fiquei sabendo muitas coisas, sentado no sofá, vendo a minha mãe ali. Eu não sabia dos gostos dela, o que ela tinha, os seus sonhos e pensamentos. Eu nunca fiz um trabalho de escola, só respondia aquela: “Qual a profissão da sua mãe? Como sua mãe conheceu o seu pai? O que a sua mãe gosta?” Minha mãe adora a área social e eu herdei essas coisas dela. E o projeto mostra isso. E eu gosto de falar da minha vida. Gosto. Minha vida é um livro aberto, tranquilo. Se perguntar por mim na Capuava, vão falar... Graças a Deus. Tem pessoas que não gostam da gente, e não podemos fazer nada contra isso e só manter o respeito por elas. Mas tem pessoas que gostam, que vão falar bem. E se tiver alguém falar mal, vai ser um ponto de referência pra quem quiser pegar. Quem quiser falar bem, vai ser outro ponto de referência. Apesar de que isso é ótimo. Aonde vou sou assim. Converso, faço brincadeira, sempre descontraindo. Até em palestra de saúde que fui fazer numa escola. O pessoal à noite, que trabalha de manhã até à tarde, vão para a escola ver uma palestra sobre DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis), e a maioria quer tirar um cochilo. Então, ligo o data show e o pessoal... “Opa, vamos mudar um pouquinho o rumo da palestra...” Aí acabou super bem a palestra. Fui chamado, no dia seguinte, para fazer de manhã, de tarde e de noite. Quem estava querendo dormir era eu. É bom falar. Muita gente não conhece e, a partir desse momento, vão conhecer. É só me procurar para saber mais coisas e tudo, eu vou achar um tempinho. Menos no sábado e no domingo, que são os dias em que mais trabalho. Mas, durante a semana, sempre acho uma brecha e participo de tudo porque gosto de participar. Eu estava na defesa civil, tive que sair por causa do meu trabalho. Ou trabalho para me ajudar, ou ajudo as pessoas. Primeiro, temos que cuidar da gente para depois... Se não ajudar a si, como vai ajudar ao próximo? A defesa civil não deu, porque estou trabalhando no fim de semana. A vontade de ajudar é grande, mas tenho primeiro as minhas obrigações para fazer. Se ligarem na semana, em tal lugar, eu falo: “Estou indo.” Quando tenho um tempo para ajudar, eu ajudo. Porque isso vai ocupando o meu tempo. Vou perder aqueles minutos de sono, e eu gosto de dormir bastante, mas vou ajudar as pessoas.

 

P/1 – Fábio, em nome da Braskem e do Museu da Pessoa, agradecemos a sua participação.

 

R – Eu que agradeço.

 

P/1 – Obrigada.

 

R – De nada.

 

FINAL DA ENTREVISTA





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