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História de: Consuelo de Toledo Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/04/2005

Sinopse

Consuelo trabalhou como telefonista na Companhia Telefônica Brasileira. O início da carreira bancária foi no Banco Indústria e Comércio, foi diretora do Sindicado dos Bancários, onde enfrentou várias greves. Participou da fundação do Conselho Intersindical da Mulher Trabalhadora, bem como das lutas dos bancários pela folga aos sábados  e demais benefícios do Instituto de Aposentadoria a Pensão dos Bancários - IAPB. Ela comenta o sumiço de fotos e documentos de sua casa, na época em que esteve presa, o episódio de sua prisão, como foram os dias de cárcere e a saída da prisão. 

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História completa

P - Bom, Consuelo, para começar poderia falar seu nome completo, onde nasceu e quando?

R - Meu nome é Consuelo de Toledo Silva, nasci em Campinas, estado de São Paulo no dia 17 de junho de 1925. Estou atualmente com 71 anos bem vividos.

P - E o nome do seu pai e da sua mãe.

R - Antônio de Toledo Silva e Eulina Vieira de Toledo.

P - Eles moraram e nasceram aonde?

R - Meu pai nasceu em Piracicaba e a minha mãe em Brodósqui, conheceu, como é aquele pintor? Esqueci o nome.

P - Portinari.

R - Portinari, quando ele era criança. Lá em Brodósqui, que é a terra dele também.

P - E ela conta, contava alguma coisa?

R - Contava.

P - O que ela contava dele?

R - Da igreja que estava pintando e que ele garotinho ia lá ajudar a pintar a igreja, sabe?

P - E você teve muitos irmãos?

R - Dez, fartura não? Aí, 3 morreram pequenos e 7 cresceram, mas destes 7 eu sou a única viva, o resto já foi tudo para o espaço.

P - Conta um pouquinho a história do seu pai, da sua mãe, dos seus irmãos que você estava contando lá embaixo.

R - De quando eu nasci? O pai era um senhor muito distinto, então quando ele botou a minha mãe e os meus irmãos tudo na casa de uma irmã dele, foi embora com outra Depois de 3 dias eu nasci. Beleza

P - E aí como a sua mãe fez?

R - Eu não conheci o meu pai. Ah, como toda mulher ela teve que dividir os filhos, eu fui para Piracicaba morar com o meu padrinho, fiquei lá uns tempos e depois quando a minha mãe pôde juntar todos os filhos e tal aí nós fomos para Jacareí.

P - Os outros filhos foram para onde enquanto isso?

R - Uns ficaram estudando em colégio interno, aí eu já não sei muito bem.

P - E o que se lembra da sua infância, dos lugares que morou? Das brincadeiras...

R - Das brincadeiras, eu dei muita dor de cabeça para a minha mãe porque eu chorei uma noite inteirinha de dor de ouvido. E aí quando foi de manhã cedo que foram perguntar: "O que foi aconteceu que chorou a noite inteira?" Eu falei: "Eu não sei, era uma coisa que fazia fuimmmm." Era pernilongo e eu achava que era dor de ouvido, eu não agüento canto de pernilongo até hoje.

P - Onde estava nessa época?

R - Nessa época eu estava em Jacareí. Depois em 1930 que veio a Revolução e nós fomos tudo para fazenda do meu tio lá em São José dos Campos, Raul Fagundes, a Fazenda Ibirarema, que existe até hoje, hoje é um clube de campo muito bonito, dizem, eu não fui lá. Então já com os meus 5 anos eu já aprendi esse negócio de política, de Getúlio, de Washington Luís, de Júlio Prestes, sabe? Era o que a gente ouvia falar o tempo todo. E eu acho que daí entrou o micróbio de política nas minhas veias e eu não esqueci nunca mais.

P - E em 32 você estava morando aonde?

R - Em 32 eu já estava morando em Taubaté, que foi a Revolução de 32 que o meu irmão serviu, foi lá para as trincheiras da vida. Só que o Exército é uma belezinha, enquanto ele estava lá dando tiro estava muito bom, quando ele teve pleurisia aí mandaram ele para casa doente, tchau e benção. Ninguém tratava dele não, a minha mãe que teve que se virar sozinha.

P - Onde você morava em 32, quando teve a Revolução?

R - Em Taubaté.

P - E teve alguma coisa por lá ou não, campo de batalha, lembra de alguma coisa?

R - Lá não, lá eu não me lembro. Em 32 o que foi mais foi os aviões que vieram bombardear São Paulo, bombardeou Campinas, mas em Taubaté, no Vale do Paraíba, que eu me lembro não tinha essas coisas. Houve porque o Santos Dumont ficou até arrependido de ter inventado o avião, sabe? Dizem que foi uma das causas do suicídio dele foi quando ele viu o avião bombardeando São Paulo, entende? Que todo mundo se escondeu, eu tive um tio que se escondeu, ele morava ali pela na Liberdade, ele se escondeu no porão da casa com a família por causa dos bombardeios. E no porão ele encontrou uma , acabou lendo a Bíblia enquanto vinha a Revolução e virou presbiteriano, sabe? Ele virou, a minha mãe ficava brava quando eu falava virou, não, é: "Aceitei a verdade." (risos) A minha mãe sempre foi fanática, sabe? Ela era muito católica depois virou adventista. Olha, era um sacrifício para agüentar, sabe, o negócio de religião.

P - Por que ela virou adventista?

R - Ela não fala que virou: "Aceitei a verdade." Sei lá, idéia, sabe essas coisas, cada um tem uma cabeça, eu para mim é proibido proibir, cada um faz o que quer, casa com quem quer, com homem, com mulher, sabe? Não tem dessa, faz a religião que quiser. Eu, para mim a minha religião é o amor ao próximo. Eu me amo e amo todos vocês, nisso é a minha religião, sabe? Não barganho vela, oração, prece, não sei o quê com Deus, nada, sabe? Eu vou lá na bochecha dele e digo: "Eu preciso disso aqui, como é que faz?" Já fui tuberculosa, fiquei um ano dentro do sanatório, o médico chegava e dizia: "Eu nem vou passar aí por você porque você não faz repouso." Eu digo: "Para fazer repouso me traz o caixão, eu entro nele e espero a morte." Mas se eu tiver que viver eu vou viver cantando, fumando, brincando, sabe? Eu quero morrer assim, não interessa. "Se quiser passar passa, se não quiser não passe." Eu tive tanta sorte, eu fui para São José dos Campos, do Vicentino Aranha, que a gente chamava UVA - Universidade...

P - Pode falar.

R - E era a coisa mais gostosa, sabe o que é o momento mais feliz da sua vida? Foi quando eu fui tuberculosa, sabe?

P - Onde você ficou?

R - No Sanatório Vicentino Aranha em São José dos Campos, sabe? Então tinha jornalzinho. E uma vez saiu no jornalzinho eu com um rapaz no meu colo dizendo: "Diga-me como te chamas?" "Consuelo, a que consola." E aí a Madre Paula que era diretora do sanatório foi lá me passar pito: "Mas como?" Eu digo: "Olha, a senhora vai passar pito em quem manda colaboração para o jornal." Porque toda vida eu fui muito petulante e não vem falar para mim, não era retrato original porque se fosse era o contrário, eu estava sentada no colo dele e não ele no meu colo. Eu não tenho nada a ver com isso, e também não tenho nada a ver que o nome é Consuelo, a que consola. "A senhora bateu em porta errada, não tem nada que ver com este negócio. Quem tinha que ficar brava era eu não a senhora."

P - Quantos anos você tinha, Consuelo?

R - Tinha 22 anos. E eu achava que eu ia morrer, não podia olhar no espelho. Olhava no espelho e ficava com uma peninha de mim, chorava. "Você vai morrer." Então eu fazia serenata, eu só sei chorar cantando, sabe? Então eu chegava na janela de noite assim, em vez de dormir, de chorar eu ficava cantando e tinha um outro doente lá no outro andar que ele assoviava porque ele também sofria de insônia que nem eu. E eu cantava, ele assoviava, era uma beleza a nossa serenata.

P - E as pessoas dormiam com isso?

R - Dormia porque é a tal história, minha filha, tuberculoso não reclama muito, sabe? É uma irmandade tão coesa, com tanta afinidade que a gente diz: "Nós não temos parente, parente somos nós entre nós aqui." Então era muito gostoso.

P - E por que acha que ficou com tuberculose?

R - Ah, sei lá. Que eu vim do Interior com gripe aí me levaram num médico, sabe, famoso, doutor Tise Neto, acho que nem vive mais. E ele achou, porque como eu tinha vindo do Interior estava com maleita e me deu quinino e quinino faz mal para o pulmão e daí... Erros médicos como tem até hoje aí com a Cláudia Liz, são essas coisas, estudam, estudam para não saber nada. (risos)

P - Consuelo, e a escola, você foi à escola?

R - Ah, fui. Em 1939, eu já estava em outra cidade, eu não disse, a minha mãe era que nem cigana. Eu estava em Sorocaba no Colégio Santa Escolástica, sabe? E as freiras lá eram todas alemãs e estourou a guerra, a Segunda Guerra Mundial. Ah, minha filha, a gente xingava aquelas freiras de quinta coluna, sabe, de nazistas, eu não suportava as freiras alemãs de jeito nenhum, sabe? Uma vez eu estava com dor de garganta, uma delas foi passar mertiolate na minha garganta. Porque antigamente eles pegavam um bastão assim, enrolava algodão e passavam assim "rá, rá, rá." Não tinha essas coisas, remedinho, antibiótico, essas "palhecelas" todas de hoje, o negócio era vamos que vamos mesmo, sabe? E ela lá com aquele papo branco dela lá, e eu fazendo assim com ela, "rá, rá, rá." Eu fiz "rahhhhh" e espirrei azul de metileno. (gargalhada) A freira ficou onça comigo: "Vai deitar, vai para o dormitório." Mas era triste.

P - Fale sobre as brincadeiras e o que estudavam nessa escola.

R - Em 39 eu estava fazendo, porque naquele tempo a gente fazia, terminava o quarto ano primário, aí a gente fazia um... Como é que chamava mesmo? Para entrar para o ginásio? Fazia um ano.

P - Admissão?

R - Admissão, para depois prestar exame para o ginásio. E nessa admissão a gente já estudava francês, minha filha. Que tiraram o francês também e botaram essa porcaria de inglês aí, sabe? Que ninguém sabe mais falar português direito, tiraram latim. Porque você precisa aprender o latim que é para aprender falar o português correto, sabe? E hoje é essa droga que está aí que ninguém sabe falar. "Legal, jóia", só isso, não sabe falar mais nada.

P - Quando você era pequena, era muito arteira?

R - O que é que você acha? (riso) Olha para minha cara hoje.

P - Conta algum exemplo.

R - Um exemplo, começa por isso, eu era caçula, acima de mim 5 irmãos homens, quer dizer, os menores um pouco que ainda viviam em casa, eu brincava de figurinha "pá, pá, pá", pula sela, andar a cavalo, eu fui moleca e continuo. A criança que existe dentro de mim não vai morrer nunca.

P - E quando veio morar em São Paulo?

R - Quando eu vim? Eu vim morar em São Paulo em 45, eu vim para São Paulo. Arranjei emprego, fui telefonista, depois eu fui aprender datilografia, aí fui trabalhar na Usina Colombina. E lá na Usina Colombina em 47 foi que eu fiquei doente do pulmão, aí fui para São José, fiquei um ano lá no Sanatório, entende? Aí arranjei um grande amor da minha vida também tuberculoso. Que ele disse para mim: "Nós estamos aqui para morrer. Vamos apostar uma corrida com a vida?" Eu digo: "Vamos embora." Aí eu fui viver com ele, entende? E fui felicíssima, amada e amei que foi uma beleza, poucas mulheres foram amadas como eu fui.

P - Como era o nome dessa pessoa?

R - Eu preciso dizer?

P - Não, se não quiser não.

R - Não, não vou dizer. Esse é recuerdos que me pertencem.

P - Consuelo, você veio em 45 e foi trabalhar como telefonista?

R - É.

P - Aonde foi trabalhar , e como era o seu trabalho como telefonista?

R - Nossa, minha filha, eu levei tanto choque, sabe? Era na Martiniano de Carvalho e os telefones ainda eram daqueles que o assinante pegava o fone e a gente lá: "Qual é o número?" Espetava o coisa lá, aí ele pedia o número, a gente discava, quando atendia, botava outro fio lá enfiado no coisa para ele atender, para ele falar. Quando ele desligava, acendia a luzinha, a gente desligava, entendeu? Então você tinha um aparelho aqui assim e o bocal e quando chovia se você estivesse com o sapato molhado dava choque. Agora tinha muito safado que punha o fone no bocal e aí dava um choque tremendo na gente também. E tinha assinante que fazia isso, sabe?

P - Quem era o assinante assim?

R - A gente não sabia.

P - Era do outro lado.

R - Era do outro lado, ele tirava o fone do gancho só que invés de pôr o fone no ouvido para ouvir, que o telefone tinha aquele fio, aqueles telefonões antigo, vocês acho que nem sabem, precisam ir no museu da Telesp para saber como é que era. Não era o fone assim, fone e o gancho tudo junto, era o fone e o bocal com aquele fio, agora se você encosta o fone no bocal dava choque em quem estava lá, na telefonista que estava lá para trabalhar. E tinha muita gente bondosa que tinha coragem de fazer isso.

P - Mas isso era comum de ocorrer?

R - Não era muito, muito, mas tinha uns engraçadinhos.

P - Já começou a trabalhar registrada, Consuelo?

R - Ah, sim, registrada, na Telefônica era registrada. Só que eu perdi essa Carteira, sabe? Porque eu acho muito errado esse negócio de você ter um número para cada coisa na vida. Eu acho que a gente já devia nascer, o número de registro da gente já devia ser, a cidade, o horário, tal, isso e aquilo e esse número era eterno para tudo. Então eu perdi a Carteira não posso mais fazer para aposentadoria porque eu não sei dos documentos. É carteira de identidade, é carteira de título de eleitor, é carteira de não sei o quê, carteira de não sei de quanto. Então era um número só, acabou, acabava muito ladrão, muito sem-vergonha por aí porque a ficha dele era uma só para todo lado, não tinha as contas bancárias fantasmas. Eu acho.

P - E depois da Telefônica, onde foi trabalhar?

R - Fui na Usina Colombina que fazia lança-perfume, que era tão gostoso e que depois proibiram de fabricar, entende?

P - E o você fazia nessa usina?

R - Trabalhava no escritório. Era de produtos químicos.

P - O que você se lembra da usina, da fabricação?

R - Não, não, porque eu trabalhava no escritório ali na Silveira Martins, na fábrica mesmo eu nunca fui. Mas lá eu fiquei pouco tempo também, fiquei tuberculosa e fui embora. Quando eu fui embora para São José dos Campos para ir daqui até São José de carro levou 3 horas, era chão toda vida A estrada não era asfaltada. Quer dizer, para muita coisa foi bom o progresso mas para muita coisa foi péssimo, sabe? Eu preferia o Brasil bem atrasadinho de antigamente do que o de hoje que só tem ladrão. O que mais que vocês querem que eu fale?

P - E no banco? Quando você entrou?

R - Ah, no banco eu entrei depois que eu vim de São José dos Campos. Depois que este meu grande amor morreu, aí eu entrei para o banco em 1951. Eles só me registraram em 52. Na greve de 51 então estava precisando de gente, eu entrei. Depois como bancária, como gosto, toda a vida eu gostei muito da luta e tudo, eu estava tão decepcionada com o mundo, sabe, de ter perdido o meu amor e eu não ter morrido também. Deus foi ingrato comigo, podia ter me levado. Aí eu entrei para o Sindicato dos Bancários. Eu disse: "Pelo menos eu vou lutar." Aí entrei como diretora do Sindicado dos Bancários, fui a primeira mulher depois de 33 anos que existia o Sindicato dos Bancários, eu estou até lá no livro que quando foram feitos 70 anos de sindicato, pois é, a minha pessoa humilde está lá registrada porque foram muito bacanas comigo. E lá estou eu, na luta. Veio o Seu Carvalho Pinto. Hoje quando eu vejo preso fazer tanta rebordosa nas prisões por aí, eu digo: "Porque é que não fazem como o Carvalho Pinto fazia com gente grevista?" Porque ele vinha de brucutu, minha filha, "chu, chu, ô", água em cima da gente, sabe? Foi um governador belíssimo Eu tinha todas essas fotografias, minha filha, quando os milicos me prenderam, carregaram tudo embora, não me devolveram, estão me devendo essa ainda, sabe? Eu digo: "Joga água naqueles presos lá, fim de papo. Assenta, abaixa tudo." Não, jogava em cima da gente. A gente fez até uma musiquinha, sabe, que era assim (cantando): "Brucutu, brucutu, você não é de nada, você não assusta grevista, você só lava calçada." (risos) Viu? Ainda bem que ele já morreu, infeliz, mas tinha coragem de fazer isso com a gente, ia de brucutu em cima, viu, eu já tomei muito banho de brucutu mas em compensação botei muito palitinho de fósforo na fechadura de banco.

P - Explica isso. Como pôr o palito de fósforo?

R - Pois greve, minha filha. Eu fui para Campinas, a assembléia foi no Paramount e o Paramount era ainda aquele cinemão do tempo dos coronéis do café, com frisa, com balcão, com camarote e estava lotado o Paramount para a gente decretar a greve. Então foi decretada a greve, estamos em greve e tal, eu pedi a palavra e falei: "Estamos em greve..." naquele tempo mulher não andava de calça comprida, sabe, era só saia, então eu digo: "O bancário que quiser furar a greve fala comigo primeiro porque eu troco as minhas saias pelas calças dele." (risos)

P - Quando foi isso?

R - Quando que foi? 1953, 54. Eu não me lembro bem. Esse negócio de data eu não sou de guardar muito. Eu sigo um lema na minha vida que eu leio muito Rubaiyat de Omar Kayan você já leu? E ele tem uma máxima que diz assim: "Procura ser feliz ainda hoje pois não sabes o que te reserva o dia de amanhã. Toma uma urna cheia de vinho, senta-te ao clarão da lua e monologa, talvez amanhã a lua me procure em vão." Então eu vivo hoje, para contar mesmo a minha história aqui foi uma luta, eu não queria, porque eu sou assim: eu vivo hoje, não quero saber de amanhã, não quero saber de ontem porque não adianta. Mas tem que resolver, tem que fazer as coisas hoje, já.

P - Voltando um pouco, Consuelo. Quando começou a trabalhar no banco o que fazia exatamente?

R - Ah, essa foi boa. Sabe que eu tive muito atrito com o chefe no banco. Eu trabalhei no Banco Comércio e Indústria de São Paulo. Aí tinha uma seçãozinha lá muito fajuta, chamava borrador, e eu virei um borralho. Me deram para fazer um serviço que era conta de telefone e de telegrama que o cliente chegava no banco e pedia para fazer os pagamentos para o Interior, da conta, transferir da conta dele para conta de outro, isso então tinha despesa. Então ele queria pôr telegrama, pôr telefone, o banco fazia e depois cobrava do miserável. E me deram uma escrivaninha, uma gaveta embaixo assim e aquele amontoado. Eu disse: "Ai, meu Deus do Céu, eu não venço nunca." E você precisava bater tudo, tudo, tudo na máquina. Aí eu falava para o meu chefe: "Escuta aqui, não dá para fazer um impresso disso?" "Não pode." E sabe como é que era o nome desse chefe? Júlio Maciota, eu digo: "De Maciota você só tem o nome." Então eu batia tudo aquilo e no fim eu não agüentei, aí eu digo: "Não, eu vou mandar fazer um carimbo." Então eu mandei fazer um carimbo, um do telefone e outro do telegrama, e chegava de tarde eu pegava o carimbo e "tá, tá, tá", batia todo o bloquinho. No outro dia eu punha aquilo na máquina, o telefonema, telefonar para fulano de tal, para tal lugar e só preenchia os vazios que eu tinha deixado. Aí digo: "Não dá, é muita coisa, eu vou passar a tarde inteira carimbando essa porcaria aqui. Que negócio Não vai para a frente isso", sabe? Porque Banco Comércio e Indústria é daquele tempo de antanho que era tudo manuscrito, tudo escrito, tudo "nhem, nhem". Ah, meu Deus. Um dia eu criei coragem, eu digo: "Desaforo, eu não vou ficar trabalhando, não acabo nunca", sabe? Quando eu ia pensar que ia acabar aquilo vinha aquela montanha das contas correntes e enchia a minha gaveta de novo. Um dia eu entrei na sala do doutor Quartim Barbosa, sabe? E fui falar com ele, digo: "Eu trabalho em tal seção, o Banco está tendo prejuízo porque isso aqui não vai debitar na conta, demora muito tempo e eu quero impresso porque eu canso de trabalhar desse jeito e não rende o meu serviço." Aí ele mandou eu ir falar lá com outro chefe que tomava conta do negócio de impresso para fazer impresso do jeito que eu queria, sabe? Ih, minha filha, quando o contador que era o Orestes, não sei do que lá, ele entrou e me viu na sala do presidente do banco ele ficou com os olhos estatelados porque dizem que ele saía só de rastro para trás, ele não dava as costas para o presidente do Banco. Eu falo francamente, para mim todo mundo é igual a mim, o Papa, a rainha Elisabeth, o rei da Bélgica, sabe, o presidente da República, não tem bom, é tudo igual, carne e podridão. Não vem com essa de: "Meu posto, autoridade." Não tem disso, ninguém é autoridade para mim, detesto isso, sabe? E para mim nem precisa morrer para ficar igual, vivo mesmo está tão igualzinho, naquela base, você já sabe, não é? Te contei não te contei, mas eu não vou falar aqui não que é feio, não sou pior do que a Dercy, eu gosto dela. (risos) E olha, sei que eu arranjei um impressinho para mim. Sei que o chefe ficou bravo Aí me mandou trocar de seção, me pôs à disposição.

P - E para onde você foi?

R - Não, daí foi tão bom, sabe, porque eu fui no departamento de pessoal e falei para o chefe lá, diretor de Pessoal, era o João Carvalho: "O Maciota lá me botou à disposição porque eu passei por cima da autoridade dele, fui falar com o doutor Quartim Barbosa para fazer impresso." Aí ele falou: "Consuelo, foi bom, já que você está assim meio livre, tem o Holliday aí e eles mandaram vender entrada aqui para o banco, para os funcionários. Então aproveita e você vai vender porque você tem jeito mesmo." "Ah, é comigo mesmo esse negócio." E fui vender e passava por tudo quanto é seção: "Olha, quantos vocês querem? Quanto você quer? Pergunta em casa. Vê quem quer em casa? Eu vou voltar no outro dia." E passei lá na minha antiga seção e fui lá com o Júlio Maciota eu digo: "Olha os retratos do Holliday aí, você não quer assistir?" "O que a senhora está vendendo isso aqui, é coisa do sindicato?" Eu digo: "Não é coisa do sindicato não, é prêmio por você ter me posto à disposição, viu? Eu estou vendendo entrada do Holliday que ele mandou oferecer para os funcionários aqui do Banco. E como eu sou muito boa, muito simpática, todo mundo topa a minha cara, entende? O Carvalho deu para eu vender isso. E eu estou vendendo, estou correndo o banco para vender as entradas do Holliday On Ice." E fiz a maior farra, encompridei aquela venda o mais que eu pude. (risos) Que castigo vem de bicicleta para quem merece. Depois numa das greves eu estava fazendo piquete e vieram me dizer: "Consuelo, tem um senhor lá dizendo que é gerente e está querendo entrar no Banco." Porque só gerente é que a gente deixava entrar. Eu cheguei lá, quem era? Era o Júlio Maciota, eu digo: "Mas quando você é gerente, meu filho, você é chefete. Volta para Ribeirão Pires." (risos)

P - E quando acabou de vender os ingressos, Consuelo?

R - Ah, daí eu fui trabalhar na mecanizada, aí era um negócio elegante, moderno

P - O que era isso?

R - Era o princípio do computador, sabe? Que a gente batia os cartãozinho assim, perfurava tudo. E depois tinha uma outra máquina que você punha, então a máquina jogava os cartãozinhos tudo assim "tu-tra, tu-tra, tu-tra" sabe? Ou por ordem de número ou por ordem de nome, era o comecinho da... chamava mecanizada. Aí eu fui trabalhar com outro chefe, o Paulo, esse era uma jóia de chefe, não me lembro o sobrenome dele, sabe?

P - E quanto tempo ficou lá, não lembra?

R - Lá no banco?

P - Nessa seção.

R - Ah, nem me lembro, eu não digo para você que eu esqueço, negócio de data então eu tenho pavor, não lembro de nada, não guardo data de nada, passou, passou, acabou, acabou, fim de papo.

P - E depois da mecanizada você foi para outra seção?

R - Olha, eu trabalhei telegramas e telefones também, esse já era, que o banco para ninguém roubar, extraviar, então eles tinham um prefixo para mandar as ordens de pagamento, tal, isso e aquilo. Então eu fui para essa seção e de vez em quando precisava bater aqueles prefixos, mudava o prefixo, sabe? E depois disso também fui ser caixa na Agência Liberdade, sabe?

P - Naquela época como era o trabalho de caixa?

R - Hum, meu Deus, vou te contar. Eu fui ser caixa nessa Agência Liberdade que é ao lado ali da rua dos Estudantes, sabe? Então o padre da Igreja dos Enforcados fazia depósitos lá. Então quando chegava o padre eu já pegava uma fita colante já punha assim numa escadinha que tinha, que ia dar no cofre, uma coisa mais horrível. Abrir aquele cofre às 7 horas da manhã me dava ânsia porque dinheiro fede quando está dentro de banco então, sabe? Oh, mercadoria fedida, sabe? E ele vinha com aquelas notinhas, sabe essas notinhas que pobre fica assim segurando na mão e depois chega na igreja, vai dar para igreja para ver se vem mais para ela. Ih, minha filha, eu tinha que colar todas aquelas notinhas de 1 real, de 1 cruzeiro. Cruzeiro? Já era cruzeiro, porque cruzeiro foi em 1940, em 42 foi que o Getúlio mudou de mil- réis para cruzeiro, sabia disso? Sabia? Pensei que você não tinha aprendido isso na escola. (risos) Então eu tinha que colar todo o dinheiro para recolher porque não dava mais para rodar com aquele dinheiro. E o padre me manda um depósito lá para fazer e eu que sou muito católica, contei, contei, contei o dinheiro e não dava o que ele tinha posto porque ele já levava os impressos para preencher. E o dinheiro não correspondia ao valor do depósito. Aí eu passei para o contador, eu digo: "Olha, conta isso aí porque eu preciso atender as outras pessoas. E não dá, eu não chego num acordo." Contou. "Quanto deu para você, Consuelo? " "Deu tanto." Ele disse: "É o que está dando para mim." Eu digo: "Então, telefona para o padre." Aí telefonou e o padre muito do santinho disse que ou o sacristão ou a caixa tinha tirado o dinheiro do depósito. Ah, minha filha, eu fiz assim. Eu digo: "Eu acabo com a vida desse padre hoje aqui quando eu sair", sabe? E depois o contador pediu para ele ir lá na agência para ver o dinheiro e tudo porque estava faltando dinheiro. E ele: "Ou foi o sacristão ou foi a caixa." Aí o contador disse assim: "Caixa nossa é de confiança e o senhor se quiser fechar a conta aqui é um favor que o senhor faz até." Ele foi curto e grosso com o padre. Aí mais tarde, ele ao invés dele ir lá se desculpar, pedir desculpas de joelho, não, telefonou: "É que eu fiz um trôco de uma missa e esqueci de repor no depósito." Bela missa que ele foi rezar. Aí fiquei com tanta raiva É por uma dessas e outras, sabe que a minha religião é amor ao próximo, sabe? Porque se você tem amor ao próximo você não acusa ninguém que roubou de você, entende?

P - Consuelo e o serviço de retaguarda, como era?

R - Que retaguarda?

P - Antes dos computadores, quando o dinheiro passava do caixa para fazer a compensação de cheques?

R - Ah, minha filha, isso daí, sabe? Eu trabalhei uns tempinhos, mas pouco tempo nas contas correntes, era um maquinão desse tamanho que aquilo a gente batia assim, blem, blem, brummm, vinha de volta. Então tinha nas fichas, banqueiro é um bicho muito honesto Então na ficha do banco tinha uma coisa, na ficha do cliente, que você chegava você não via lá no computadorzinho, que nem hoje: "Cadê o meu saldo? Quanto é, não sei quanto" A máquina, o computador lá dá tudo. Não, naquele tempo: "Quanto é meu saldo?" A gente pegava a ficha do cliente e ia lá no balcão mostrar para ele, entende? Só que naquela ficha do cliente não estava anotado as perdas de ganhos porque a gente abria uma conta no banco e o banco já pagava juros na sua conta comum. Não tinha essa de poupança isso, poupança aquilo, poupança não sei o quê. Você abria uma continha lá e já estava ganhando um jurinho. Agora se você desse um cheque, eu dava um cheque para você e você demorava para ir descontar esse cheque quando o cheque caía no banco não era os juros daquele dia em diante que você perdia, era os juros do dia que você tinha dado o cheque. Então nessa folhinha assim tinha uma listinha de seda que era para cliente não saber a perda dos juros que ele tinha perdido, essa era uma conta só do banco. Eu já disse: "Se existe Satanás no mundo é banqueiro," viu? Isso eu já falei bem na cara deles até.

P - Teve oportunidades de conversar com o patrão, com o banqueiro, com o dono de um banco?

R - Vamos esquecer esse pedaço aí porque senão depois fica feio, mas que eu disse eu disse.

P - Está bom então.

R - Nada a declarar. (risos)

P - E a compensação de um cheque antigamente, como era? Anotava...

R - Olha, você sabe que essa jogada eu não me lembro como era, sabe? De compensação, dessas coisas, acho que o movimento, era muito pouca gente que tinha conta em banco. Agora, deixa eu te contar uma coisa. Tinha um fulano, um professor de matemática, sabe? Era doutor Athos Pagano, príncipe, não, Conde de Bergamo, Visconde de Santo Albano. Ah, minha filha, cada vez que eu ia fazer a conta corrente dele, de algum depósito, ele comprava uns livrinhos, umas coisinhas por aí a fora no mundo e a gente tinha que mandar pagar. E depois tinha que mandar uma coisa para ele que ia um para contabilidade para depositar na conta dele, um não sei para onde e um ia para ele. Então na ficha que ia para ele eu tinha que pôr um papelzinho assim para não sair o nome dele porque a conta dele era doutor Athos Pagano, agora no papelzinho dele eu tinha que pôr, como é? Conde de... ah, os títulos nobres dele porque ele ficava bravo se não mandasse os títulos. Eu digo: "Pô, o nome da conta dele qual é que é?" Eu mandei só uma vez doutor Athos Pagano, e fim de papo, era a conta dele. Ah, não, ele reclamou para o Banco que não pôs os títulos de nobreza. Eu digo: "Uai, aqui é a República, vai ser Visconde da Sabugosa lá adiante." Pôxa. Eu tinha uma raiva de escrever carta para esse homem, eu queria saber se ele ainda é vivo, sabe? Para ir lá xingar ele de tanto trabalho que ele me deu.

P - Como eram feitos os pagamentos de funcionários de grandes empresas? A retirada de dinheiro.

R - Ah, isso. Olha, a maior parte dos pagamentos era feita em envelope, vinha o dinheirinho, sabe? A gente ficava com o envelope, tinha uma cópia, parece que a gente assinava. Sabe, negócio de ordenado eu nunca lembrei muito, a gente ganhava tão pouco que a gente esquece. (risos)

P - O que dava para fazer com o salário, Consuelo?

R - Olha, eu digo assim para você que até antigamente dava para alguma coisa, sabe? No banco, por exemplo, você recebia duas gratificações, uma em junho ou julho e outra no fim do ano. E naquele tempo eu me dava o luxo, então eu comprava roupa para mim duas vezes por ano só, sabe? E aí eu já ia para as cabeças, eu ia na Loja Alemã, comprava o que era bom, que durava, mas dava para tudo isso, sabe? Não era essa agonia que hoje em dia o ordenado é menor que o mês, sabe, pelo menos dava. Eu me lembro que eu trabalhava, eu comprava coleção de livros, comprava máquina de costura, estava sempre... comprei terreno, quando fui pagar a última prestação desse terreno que eu comprei, sabe quanto custava? Uma entrada de cinema. Porque era tudo pela Tabela Price, não tinha essa famigerada correção monetária que esse Roberto Campos inventou. Outro dia eu li num jornal um artigo, aquele a proa da canoa, a canoa da proa, não sei como é o nome dele, e ele dizendo que ele conversando com... como é que é o nome dele? Era um que era o capa preta aí dos milícos, como é que era o nome dele? Lá de Brasília. Golbery, Golbery do Couto e Silva. Então disse que o Golbery conversando, eu li isso no jornal esses dias agora, sabe? E falando com o Golbery, o Roberto Campos conversando com o Golbery que ele tinha se arrependido de ter criado o SNI, arrependeu tarde Aí o Roberto Campos: "Eu também me arrependi de ter criado o Banco Central." Olha, se eles botassem a mão na consciência e vissem quantas coisas erradas eles fizeram nesse Brasil para deixar achincalhado desse jeito que a gente tem vergonha até de ser brasileira Tanto que tinha até o Banco do Brasil que funcionava muito bem, controlava as moedas do país muito bem, não, inventaram, que eu li que ele inventou o Banco Central, a correção monetária, a porcaria do fundo de garantia por tempo de serviço, você trabalhava dois anos antigamente já tinha estabilidade, depois de 10 anos não podia te mandar embora Agora, opção, opção mas se você não opta lá não está optado, não arranja emprego. Então que raios desse negócio? É tudo errado nesse Brasil, eles fazem, desfazem, depois não consulta a gente, não sabe quem trabalha como que é a dureza da vida, entende? Inventou esse monte de lorota. Aquela Sandra Cavalcanti, outra idiota que foi lá ser presidente do banco, como é? Ah, eu esqueço o nome das coisas. Negócio de construção para casa, não sei o quê. Quando ela viu que ia pôr correção monetária também no BNH, aí ela pega e desiste: "Ai, não concordo." Invés de lutar, não pode, xinga, estrila, entende? Não, desistiu do BNH e deu essa fuzarca que deu o BNH que o trabalhador foi lesado, roubado.

P - Consuelo, a Tabela Price foi substituída pela correção monetária?

R - Eu acho que sim porque antigamente você comprava era tudo pela Tabela, você comprava uma casa pela Tabela Price e aquilo ia embora, a Tabela Price Eu vou procurar se eu acho alguma coisa da Tabela Price de antigamente.

P - Como é que funcionava a Tabela Price?

R - Era um jurinho, mas um jurinho, não era jurão que nem hoje. E também a gente não entendia das coisas, o povo era simples, entende? A gente aprendia a ler e escrever muito bem no primário porque não é essas porcarias de escola que tem hoje mas o que aprendia valia, sabe? Mas todo mundo, a igreja vem com aquele: "Mais fácil entrar um pobre no Céu do que um camelo entrar para o fundo da agulha" e os pobres ficam tudo contente "Ai, eu vou para o Céu." E se contentavam. Hoje não, hoje você quer o aqui e agora. É SBT. Porque senão não dá. E essas coisas que não tem, é uma calamidade pública, cada governo que entra é mais Collor que o outro collorido e vai fazer o quê? E nem entra, nem governou já quer ser reeleito, o que é que é? Festa? Isso aqui é casa da Mãe Joana?

P - Consuelo, voltando um pouco ao seu trabalho.

R - Deixa eu tomar água primeiro.

P - Claro, à vontade, enquanto isso eu vou perguntando. Como era o seu cotidiano de trabalho? A que horas você entrava no banco? A que horas saía?

R - Às 6 horas, filhinha, nada de fazer hora extra não. Era do meio-dia às 6.

P - E os bancos abriam a que horas?

R - Ah, o banco abria acho que às 9 horas, 9 horas o banco abria. Mas a gente entrava, eu, por exemplo, entrava às 7 horas da manhã, entende? Era às 7 horas, tanto que eu falei lá com aquele motorneiro lá dos bondes que eu combinava com o motorneiro dos bondes: "Olha, se você me ver que eu estou correndo de lá me espere porque eu tenho que marcar o ponto às 7 horas." E ele esperava. Quer dizer, motorneiro de bonde era gente distinta, tiraram os bondes, a Guarda Civil, você chegava para um guarda civil pedir uma informação, ele dava com a maior delicadeza. Não Tiraram a Guarda Civil para pôr essa Polícia Militar, quer dizer, sabe? Então o que esculhambaram com o Brasil Nós tínhamos institutos, bancários, eu era do IAPB, o IAPB era a nata, sabe, dos institutos. Eu fui operada na Beneficência Portuguesa com quarto particular, com direito a acompanhante, tudo pago pelo IAPB que era o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários. Mas nós dirigíamos o instituto não era esse INPS aí da vida, sabe, que não tem dinheiro para nada porque roubaram tudo

P - Quais eram os benefícios que os bancários tinham?

R - Do IAPB. Ah, vou te contar. Deixa tomar mais água. Olha, você vê, tem aquele conjunto na Nove de Julho? Você já viu? Pois é, aquele lá foi construído pelo IAPB para os bancários. Tem o conjunto de Santa Cruz mas cada apartamento com quarto, sala, cozinha, banheiro, sabe? Tudo grande. Foi o instituto dos bancários que construiu para os bancários. Você precisam lá passear, tem muito bancário velhinho lá que é uma belezinha que são meus amigos, o Carlos Souza, sabe? Ele vai ser ótimo para contar história para vocês, do sindicato, porque ele era atuante que nem eu. Porque eu sou sindicalista pura.

P - Mas uma coisinha ainda dos bancos, Consuelo, o que era Sumoc?

R - Sumoc, me lembro da Sumoc, quem que era mesmo da Sumoc?.

P - Mas o que era?

R - Ah, que tenha pena de mim, a gente até dizia. (risos) Sei que era da Sumoc, era Superitendência, não me lembro agora do que, era um Banco Central, era uma repartição assim tipo Banco Central daquela época, sabe? De quando o Brasil era dos brasileiros.

P - A compensação de cheques era feita no Banco do Brasil antes?

R - Eu creio que sim. Isso eu não tenho certeza para dizer para você, viu? Se tinha compensação, como que era essa jogada de cheque de um banco para outro. Porque também não era uma coisa, você vê todo mundo não recebia ordenado como recebe hoje através de banco, todo mundo recebia no seu envelopinho na própria firma. Não tinha ladrão, os dinheirinhos estavam tudo lá e a gente já recebia e tal. Hoje não, tudo tem agência de banco na firma e você recebe na firma, no fim o ladrão chega lá leva tudo, até da agência, posto de serviço.

P - Como eram feitos os pagamentos de funcionários de grandes empresas? A retirada de dinheiro.

R - Ah, isso. Olha, a maior parte dos pagamentos era feita em envelope, vinha o dinheirinho, sabe? A gente ficava com o envelope, tinha uma cópia, parece que a gente assinava. Sabe, negócio de ordenado eu nunca lembrei muito, a gente ganhava tão pouco que a gente esquece. (risos)

P - O que dava para fazer com o salário, Consuelo?

R - Olha, eu digo assim para você que até antigamente dava para alguma coisa, sabe? No banco, por exemplo, você recebia duas gratificações, uma em junho ou julho e outra no fim do ano. E naquele tempo eu me dava o luxo, então eu comprava roupa para mim duas vezes por ano

P - Como era o esquema de segurança antigamente?

R - Para gente honesta. Quando tem honesto não precisa de segurança, o exemplo vem de cima. Agora quando lá em cima apodrece, cá em baixo já sabe, não? Olha, eu me lembro que eu saía do sindicato à noite, eu morava lá na rua Tenente Otávio Gomes, eu saia do sindicato na rua São Bento, atravessava a São Bento, entrava, eu e mais uma outra amiga e não era, 11, 11 e meia, sabe? Vinha lá, chegava na Clóvis Bevilacqua, entrava na Santa Tereza, comia uma pizza, tomava um chopp, batia papo ainda da reunião do sindicato: "É isso e aquilo," descia a Conselheiro Furtado, chegava na esquina da Conselheiro Furtado, ela morava na Conselheiro Furtado e eu na Tenente Otávio Gomes, era assim uma esquininha. A gente parava na esquina e "patipatatá". Eu ainda dizia para ela: "Maria, um dia nós vamos sentir saudade dessa esquina." Mas ninguém te molestava, sabe? São Paulo era outra coisa, você andava na rua tranqüila não tinha esse negócio de segurança, cadê segurança, não. Tinha Guarda Civil, a Guarda Civil tinha Guarda Noturna, então nas casas que pagava para ter o guarda tinha um cachorrinho na porta, era o emblema da Guarda Civil. Mas não tinha, você não tinha medo de andar na rua. Eu ia para o cinema e voltava tarde e não tinha nada, não tinha que ter medo porque não tinha bandido.

P - E agora falando então um pouquinho do sindicato, como é que foi a sua diretoria no sindicato? O que você fez, como conseguiu ser eleita, quem fazia parte da chapa?

R - Ah, no meu tempo de sindicato? Olha, tinha Salvador Romano Lossaco, que era uma pessoa maravilhosa, que foi ele que fundou o Dieese. Tinha Mílton Marcondes, tinha Armando Piane, tinha Pedro Iovini, que foi preso junto comigo. Que eu fui presa com gente importante, até com o Mário Schemberg, viu? Eu não sou pouca porcaria não. E como sempre, eu era a única mulher presa também. Oh, delícia de vida Eu gosto de ter a supremacia, mas tinha gente boa, nossa Sabe. Tinha o Urbano França, quem mais assim? Mas o Salvador Romano Lossaco era uma beleza, ele foi um dos primeiros que foi eleito deputado federal. Aí ele que ensinou a gente que para mandar abaixo-assinado lá para os picaretas a gente não podia mandar folha de almaço. Porque a gente era inocente, mandava folha de papel almaço "Vamos pôr o nome, vamos pôr o nome." Aí ele chegou em nós: "Olha, não pode fazer isso não porque senão eles tiram o nome e aproveita para outra coisa. Em cada folha tem que ter para quê é que é aquela assinatura." Já está na hora de terminar?

P - Não.

R - Passando bilhetinho, eu estou pensando.

P - Não. Mas como foi a eleição? Foi por eleição que você chegou na diretoria?

R - Foi.

P - Então como foi a campanha para ter pela primeira vez uma mulher no sindicato?

R - Mas isso daí eu acho que, sabe, não houve muita campanha não porque não tinha ninguém contra, sabe? Todo mundo concordava com tudo, meu amor. Era o Sindicato dos Bancários, então tudo que era outra categoria que quisesse fazer algum movimento, alguma coisa, ia para o Sindicato dos Bancários. Porque o dos comerciários nunca foi, sempre foi meio coisa lá, entendeu? Mas o Sindicato dos Bancários era de luta, eu não digo para você que a gente fazia musiquinha, entende? Saía, no tempo de greve você estava lá na porta do banco fazendo piquete, chegava a soldadesca a gente começava a cantar o Hino Nacional, aí tudo mundo "puh" (fica de pé e põe a mão direita sobre o coração). Não podia fazer mais nada porque a gente tinha que respeitar o Hino Nacional, hoje não respeita. Enquanto estava cantando o Hino Nacional tu corria na Assembléia lá, que era lá onde é a prefeitura hoje para ir buscar um deputado amigo da gente e tal para ir tirar quem foi preso, quem isso, quem aquilo, entendeu? Mas era uma beleza. Eu não estraguei nada aí não?

P - Não. Mas tocava o Hino Nacional?

R - Cantava. A gente levantava lá, minha filha, todo mundo no piquete: "Ouviram do Ipiranga..." Aí os soldados não podiam fazer nada com a gente, sabe?

P - Na sua diretoria quais foram as coisas que fizeram naquela época? De conquistas...

R - Naquela diretoria nós fundamos, o que foi um dos meus crimes para 64, o Conselho Intersindical da Mulher Trabalhadora porque a mulher não ia para o sindicato, entendeu? Então nós fundamos o Conselho Intersindical da Mulher Trabalhadora e o negócio era horizontal. E o governo não deixa, precisa ser tudo assim: bancário, metalúrgico, sapateiro, marceneiro, vidreiro, sabe? Como era um negócio das mulheres nós queríamos fazer um negócio assim das mulheres e o negócio era muito bem intencionado, porque era para formar creche nos bairros, entendeu? Então cada mulher que não trabalhava daria três horas, pena que os milícos roubaram esses livros de ata, não sei aonde é que eles enfiaram. Quem não trabalhava dava três horas de trabalho na creche para cuidar dos seus filhos e dos filhos das mulheres que já trabalhavam fora, entende? Quer dizer, três horas você saí de uma casa sabendo que o seu filho estava na escola, estava tudo muito bem. Então a gente pensava de montar uma lavanderia comunitária, ao invés de todas as mulheres que trabalhavam no fim - de - semana ir para o tanque, "nhec, nhec". Porque os maridos brasileiros são muito folgados, não vão ajudar mesmo, então lavaria essa roupa lá também, num usinão bem grande, desinfetado, tal, isso e aquilo. Lavava toda a roupa de toda mulher que trabalhava. Restaurante comunitário. Para quê cada um ter a sua cozinha? Eu sou contra cozinha dentro de casa, para mim comida devia ser bem baratinho e todo mundo ia comer fora, sabe? Nada da mulher estar: "O que eu faço hoje para o meu marido comer?", sabe? Não tem, isso é uma tragédia, eu acho a coisa mais horrível isso. Esse negócio de cozinha: "O que é que eu vou fazer hoje?" E o peste não gosta disso, não gosta daquilo, é uma farra. Então era tudo isso que nós queríamos fazer, entende? Minha filha, aí veio 64, gloriosa, não é? Lá fui eu presa porque o meu crime foi esse, sabe? Eu fiz, houve uma reunião do Conselho Intersindical da Mulheres e eu mandei convite para todo mundo, todos os vereadores, até a Dona Ruth Saliscali Cunha Braga, que ela era o quê? UDN, sei lá, era um partidão aí daqueles famosos. Minha filha, os milicos só acharam o convite que eu mandei para o Rio Branco Paranhos. E como ele era comunista eu também era, eu digo: "Então somos, se é gente boa nós estamos juntos." Diga-me com quem andas que eu direi quem és. Mas é isso, sabe? Mas quando eu precisei um dia ir buscar um atestado de bons antecedentes no Dops aí eu procurei um amigo meu: "Olha, eu preciso disso aí, como é que, a minha ficha lá é suja, como é que eu faço?" Porque eu fiquei presa lá no Dops na General Osório, numa celinha lá bonitinha que eu gosto dela.

P - Quanto tempo?

R - 15 dias.

P - Não aconteceu nada lá? Você ficou só presa.

R - Não, naquele tempo não tinham vindo ensinar aqui torturar, foi 5 de maio de 64, minha filhinha. Só foram me buscar num carro do Exército, cheio de soldado com metralhadora porque a "perigosa" estava lá, sabe? É. E olha, e por falar nisso, pega a minha bolsa ali por favor

P - Vamos dar uma paradinha para dar uma refrescada na sala porque está ficando muito quente.

R - Vamos.

P - Retomando então, Consuelo, quando você foi tirar o seu atestado de antecedentes lá no Dops como foi?

R - Eu fui lá tirar o meu atestado de bons antecedentes, que de bom para eles não tinha nada, mas para mim é ótimo. Então foi lá, o delegado e tal, puxou uma fichinha minha do Dops. Aí eu digo: "Com licença, deixa eu ver." Uma das fundadoras do Conselho Intersindical da Mulher Trabalhadora. Aí eu olhei assim e falei para ele: "O senhor sabe que foi um grande pecado isso aqui não ter continuado porque nós íamos fazer isso, o Conselho e organizar creches, lavanderias, coisas para as pessoas nos bairros terem aonde deixar os seus filhos para ir trabalhar." Eu digo: "E sabe de uma coisa? Se isso tivesse funcionado hoje não tinha tanto trombadinha na cidade." Ele disse: "Acredito." Nada como dar a mão à palmatória.

P - Faz tempo isso?

R - Ah, foi em, deixa eu ver, nessa época eu estava trabalhando na Banespa Corretora de Câmbio e Títulos, sabe? Que eu trabalhei no Baneser, saí do Baneser e fui a Banespa Corretora e Títulos. Aí começaram a dizer: "Nossa, deram emprego para uma comunista" Aí o chefe falou: "Vai lá buscar o bons antecedentes." Aí eu fui lá e me deram porque eu era ótima antecedentes, não era bons antecedentes, sabe? Mas quer dizer, isso foi o maior crime não ter continuado, isso porque as mulheres já estavam organizadas já naquela época, para quê desorganizar, mexer no que está dando certo? Então são essas coisas, essas lutas, sabe? Que a gente tinha como bancária para não trabalhar no sábado porque já vinha a luta de antigamente de trabalhar só seis horas porque a maior parte dos bancários ficava tuberculoso ou com úlcera ou louco. Porque você vê dinheiro todo dia, todo dia dinheiro, enche os olhos de qualquer um, virava todo mundo Tio Patinhas e o dinheiro era só do banqueiro a gente mesmo olha lá, o salarinho. Então ficava todo mundo doente, tanto é que o IAPB, o glorioso IAPB do Alfredo Delmonte, que era o delegado nosso no IAPB, que nós votávamos nele para eleger. Ele, Jário Bonilha que era daqui de São Paulo que tomava conta do IAPB aqui em São Paulo que eram pessoas maravilhosas. E a luta era aquela, trabalhar seis horas para o bancário não ficar tão doente. Que o IAPB montou até o Sanatório Santo Antônio, lá em Tremembé por causa disso. Hoje é um conjunto de bancários que o IAPB fez também, sabe? E tinha o conjunto Santa Cruz que o IAPB fez. Quer dizer, além de dar saúde, pensão, ainda dava moradia. Para quê mexer no que está dando certo? Não, sabe? Precisaram inventar essa porcaria de INPS aí que hoje você precisa entrar na Justiça para receber o que você tem direito, o que é isso? Direito é direito, não tem que você brigar com alguém. Nenhum filho briga com o pai porque está com fome e quer comer, o pai já dá de comer para o filho. Governo é a mesma coisa. Toma chocolate e paga logo o que deve, paga os aposentados. Não, dá 12 cruzeiros de aumento, Ah, o que é isso? Agora quando eles entram lá: "Não, está ganhando muito pouco". Aí dobra de 4 para 8 para deputado, para o presidente. Agora como é que para eles sobra dinheiro? Ah, eu não agüento uma coisa dessa

P - Consuelo, o que você fazia para ter o sábado. Você contou que quando passava uma música...

R - Ah, essa foi outra luta. Porque antigamente trabalhava seis horas, agora chegava no sábado você ia para o banco para trabalhar três horas, entende? Mas era o tempo de sair para ir para o banco e no meio- dia fechava. E já estava aquela coisa de semana inglesa, "piriri, parará". Então nós começamos a lutar, fazer campanha para não trabalhar mais aos sábados. Então o que eu fazia? Papel eu não jogava no lixo inteiro não, eu rasgava tudo bonitinho com a régua assim e guardava tudo num saco. Aí tinha a "Furiosa", a bandinha do sindicato que passava: "Ei, você aí me dá um dinheiro aí." "Pirata da perna de pau," então a gente chovia papelzinho rasgado lá de cima, dava mais um ênfase na campanha e tal, é mais bonito, suja depois para os lixeiros, mas é gostoso.

P - A "Furiosa", ela surgiu como?

R - Ah, isso é coisa antiga. Essa bandinha, sabe? Até hoje nós saímos para rua lá com os aposentados, sabe, e vai a bandinha atrás. Ah, não tem jeito, essa bandinha é a "Furiosa", é célebre.

P - Por que ela tem esse nome? Tem alguma história?

R - Eu não sei não, eu acho que era a nossa fúria. (riso) Então a gente chamava "Furiosa".

P - Consuelo, você foi filiada a algum partido?

R - Não, fui simpatizante, bonito, não?

P - E da greve de 63, parece que foi uma greve nacional dos bancários, não foi?

R - Foi.

P - Você pode contar alguma coisa daquela época?

R - Em 63 eu estava na Federação dos Bancários, eu mais me comunicava com o Interior, com os sindicatos. Porque quando eu fui para a Federação dos Bancários, que terminou o meu mandato como líder sindical, então o banco me mandou embora, me deu um "pitz": "Essa aqui não serve," sabe? E aí eu fui para Federação. Então no estado de São Paulo existia só cinco sindicatos: São Paulo, Santos, Campinas, Ribeirão Preto e Marília. E eu, como boa brasileira, que eu gosto de tudo organizadinho nos seus mínimos detalhes, peguei um mapa do estado de São Paulo, uma lupa. Fui no Departamento de Estatística do Estado de São Paulo, que era ali na Brigadeiro Luís Antônio e pedi uma lista de todas as agências de banco no estado de São Paulo. E por aquela lista eu fiquei sabendo todas as cidades no estado que tinha mapa. E com a lupa eu comecei a formar Araraquara, Araçatuba, Barretos, Bauru, São Carlos e assim foi. E juntei 27 cidades para formar sindicato intermunicipal. Formei o sindicato e tal, então a gente fundava associação, sabe? Então para o bancário ter o pretexto para se filiar na associação, porque olha, homem tem uma paura, minha filha, que eu vou te contar. Então o que a gente fazia? Fazia convênio com o barbeiro na cidade, com o dentista, sabe? Que era para ele tratar dos dentes dos filhos, da mulher dele tudo no dentista, sabe? Mas com o convênio nosso, então era pretexto para ele poder dizer para o banqueiro que ele precisava entrar para o sindicato porque precisava tratar dos dentes dos filhos, do barbeiro. E com isso ele entrava, foi entrando para o sindicato, Sorocaba. E aí eu comparava os mimeógrafos, que era tudo assim rodado à mão, minha filha, não era nada isso desse negócio de computador, vai, bate tudo e sai uma beleza. Não, o nosso era sacrificado mesmo, botava graxa lá e roda e tal. Então mandava para lá. E na greve eu me comunicava com todos os sindicatos, eu já chegava na Federação, pegava a lista assim e dizia para a telefonista: "Olha, minha filha, eu preciso comunicar a respeito da greve, então você me liga para Araçatuba, Araraquara, Barretos, Bauru, Sorocaba, sabe? Eu quero ligação interurbana o dia inteirinho." E o dia inteirinho eu ficava: "Olha, a greve está assim, a greve está assado, fez isso, fez aquilo, resolveram isso, resolveram aquilo," sabe? E era...

P - Foi uma greve nacional?

R - Foi nacional.

P - E paralisação dos outros estados como foi?

R - Então, minha querida, é nessa jogada que eu entrei. Então eu fui para Campinas que houve a coisa no Paramount. Que eu falei: "Quem quiser furar a greve fala comigo porque eu troco as minhas saias pelas calças dele." Aí me chamaram: "Vou para Campinas para ajudar na greve lá." Cheguei lá na assembléia me apresentei, digo: "Meu nome é Consuelo." Ai virou um gaiato lá e disse: "É Leandro?" "Eu admiro muito essa artista mas não vim aqui para fazer graça, eu vim aqui para batalhar." Aí ele foi pedir desculpa para mim mais tarde. Aí eu fui. Então fui fazer piquete no Bradesco ali numa praça, e estou lá bonitinha em pé na calçada e chega um guardinha e falou para mim: "A senhora não pode ficar aí." Eu digo: "Olha, a rua é pública, eu fico aonde eu quero, não estou fazendo nenhum ato imoral. Então você fica bonzinho aí porque você também ganha pouco, daqui uns dias nós temos que ajudar você para você ganhar mais. Então fica do nosso lado porque você é trabalhador também." Dali a pouquinho veio o gerente: "Ah, eu preciso pegar um papel no banco." "Seu guarda, faça um favor um pouquinho, me acompanha com o gerente porque ele quer tirar um papel lá do banco, então o senhor vai comigo." Aí entrei junto com o guarda e o gerente e foi lá tirar o papel. Eu falei para ele: "Nós estamos em greve, o senhor por favor não abra o banco O senhor pegou o papel que o senhor queria?" "Peguei." "Então vamos embora." Saiu e fechou o banco. E eu continuei lá porque eu sou que nem um carvalho, ninguém me sacode não, não sou arbusto, tenho personalidade, isso a minha mãe me deu. Dali um pouquinho eu estou olhando lá, o gerentinho vem vindo de novo, eu falei: "Ah, essa não" Catei um palitinho de fósforo na minha bolsa e cheguei assim perto da porta e "plim-plim"quebrei o palitinho lá dentro da porta. Ele veio lá para abrir eu digo: "Não vai dar não." "Eu preciso abrir o banco." Eu digo: "O senhor não vai abrir o banco porque eu pus um palitinho na fechadura." Aí ele saiu todo, sabe? Parecia mais banqueiro do que tudo. De repente veio ele com o delegado de polícia: "A senhora pôs." "Pus, eu falei para ele que eu pus. A greve é uma revolução, a minha arma é um palitinho, pus o palitinho. Agora se o senhor quer abrir o banco o senhor chama um chaveiro." Aí ele chamou o chaveiro. Veio o chaveiro mas desmontou tudo para tirar o palitinho e tal isso e aquilo. Bom, quando, dali a pouco o gerente todo satisfeito, rindo até aqui, porque a porta estava aberta. O chaveiro olhou para mim e disse: "Agora eu vou ficar aqui de plantão porque eu quero ver quem é que vai botar mais palitinho na fechadura." Eu digo: "O senhor cala a boca porque o senhor nunca ganhou tanto dinheiro como está ganhando hoje de abrir porta de banco que eu pus palitinho." Miserável, eu digo: "Puxa, ao invés de ser solidário e ficar contente." "Puxa, essa mulher me deu serviço hoje." Não, "Vou ficar aqui tomando conta, ninguém mais vai pôr palitinho." "O senhor cala a boca, o que é? Múmia." (risos)

P - E os resultados dessa greve?

R - Olha, eu acho que foi bom, viu? Eu não me lembro mais, você sabe? Porque eu não vivo do passado, eu já disse, mas eu acho que valeu a pena. Lutar vale a pena por tudo, sabe? Você não pode ter medo. Olha, quando eu fui presa os milícos lá diziam: "A senhora vai para o Forte de Copacabana, vai ser fuzilada." Eu digo: "Olha, eu tenho uma vida só, se você quiserem acabar com ela o problema é de vocês, medo da morte eu não tenho." Porque a única certeza que eu tenho nesse mundo é que eu vou morrer, Deus já foi bom demais, não matou até agora, já podia ter matado, porque já fui tuberculosa, já todas as coisas e estou aqui até hoje.

P - Quando foi presa você falou que eles levaram um monte de coisas da sua casa, foi no dia em que foram te prender? Como eles entraram na sua casa?

R - Não, eles entraram depois, sabe? E eu tinha fotografias de congressos, sabe? Da Bahia que eu fui em 62, tinha congressos que tinha havido aqui em São Paulo, latinoamericano, eu tinha retrato com uma porção de bancários de outros países: da Bolívia, do Chile, do Uruguai, de Cuba, sabe? Que eu saí com eles fui mostrar São Paulo para eles. Então como o meu nome era Consuelo foi aquela beleza e eu já transava até o espanhol com eles e tudo, sabe? E aí os milicos vieram, minha filha, levaram tudo. Meu marido, ele escreveu dois livros: "A Ideologia do Imperialismo" e "Como atua o Imperialismo Ianque", o nome dele era Sílvio Monteiro. No fim eu queimei os livros que sobrou comigo de medo desses milicos aí, mas eu estou para recuperar, eu vou lá na UBE buscar, sabe? Porque ele escrevia sobre royalties, esse negócio, a Gillette, eu tinha o livrinho do marido da Ivete Vargas, "Um dia na vida do Brasilino." Vocês conheceram esse livro? Não. Ah, então ele falava assim: você vai daqui para São Paulo, daqui para Santos então é Goodyear do Brasil, sabe? Era muito interessante esse livro, eu tinha guardado também. Mas não sei o que lá, Carlos Martins, não ele já morreu, não me lembro o nome dele. Mas era "Um dia na vida do Brasilino". Procurem, vocês que são historiadores precisam saber desse livro que é muito importante, sabe? E esse do meu marido eram esses dois que era a respeito de royalties e de cartel. Mas numa linguagem que você lia e entendia o que é. Então para você usar Gillette você paga royalties lá, para usar Light você paga lá para usar Light, para não sei o quê lá você paga não sei quanto, para usar o Mickey você paga. Fica todo mundo aí, coisinha do Mickey, não sei o quê, a Barbie. Ao invés de por Jeca Tatu, sabe, Emília. Precisamos fabricar isso lá e cobrar royalties para cá. Era esse livro, muito importante, sabe?

P - Quando os policiais foram lá você estava em casa?

R - Não, eu já estava presa. E eu fiquei muito tempo, depois que eu saí da prisão, eu não podia ver ambulância.

P - Por causa do barulho?

R - Por causa do barulho. Não, sabe por quê? Eu ia para cama, tremia inteirinha, sabe? Fiquei com síndrome. Porque eles me botavam num camburão e me davam a volta na cidade. Iam buscar preso lá no Hipódromo. Então era eu sozinha naquele baita daquele, eu me enfiava lá num banco: "Mamãe me acuda" Iam até lá, quando eles chegava lá eu já sabia que os presos que eles tinham buscado lá já estavam aqui, sabe? Outra vez me tiraram para me levar para o Batalhão Tobias Aguiar, lá no Parque D. Pedro, sabe? E eu digo: "Pelo amor de Deus O que é que eu faço?" Porque lá pelo menos eu tinha os meus companheiros de prisão que eu conhecia todo mundo. Agora aqui no meio disso aqui o que é que eu faço? Aí quando foram ver o quarto que eu ia ficar era com cadeado, ninguém sabia onde estava a chave, abriram o cadeado com baioneta. Eu digo: "Abriram agora e para fechar depois?" Eu digo: "Não, não dá." Ah, que já vem, eu sou muito fantasiosa, você já viu? Eu já comecei a pensar um monte de coisa, eu digo: "Não, aqui eu não posso ficar." "Caí num chororó" danado, chorei mesmo tudo que eu tinha direito. Aí me puseram, o camburão já tinha ido embora, aí me puseram num carrinho, num Volks, sabe? E eu esgoelando a não mais poder e xingando tudo quanto é nome de santo para não dizer outros. Aí me passaram, ainda tinha a Primeira Delegacia ali no Pátio do Colégio, aí me aplicaram uma injeção, lá que eu fiquei bonitinha. E aí me levaram de volta para minha celinha lá no Dops, sabe? Então eu fiquei com essa síndrome, eu não podia, agora não, agora eu estou mais maneira. Mas ambulância eu corria e deitava mesmo porque, sabe, aquilo fazia assim que nem um filme e eu me via lá de novo, aquela coisa. É dureza, não é à toa que tudo aí está ceifando o último que foi, que Deus o tenha e que o Diabo o carregue, os Geisel da vida.

P - E para sair de lá, eles te soltaram ou alguém te tirou?

R - Alguém me tirou. E olha, para me tirar de lá, minha filha, foi uma beleza. Eu estou lá bonitinha, presinha, coitadinha, sabe, que eu cantava o dia inteiro. Eu cantava Saudade de Matão (cantando): "Nesse mundo eu choro a dor." E chorava: "Por uma paixão sem fim." E aí um dia foram lá me buscar na prisão: "É para a senhora subir." "Ah, meu Deus é agora." Cheguei lá um homem alto, sabe, "Eu sou o Major Elói." Eu falei é esse que vai me levar para fuzilar, puxa vida é agora, estou morta. Eu disse: "Sim, senhor o que o senhor quer de mim?" "Eu sou o Major Elói." Eu digo: "Pois não, eu sou Consuelo." E ficamos naquela. Daí de repente ele falou: "Eu sou o pai do Sílvio." Ah, quando ele falou assim: "Eu sou o pai do Sílvio," sabe? Eu grudei no pescoço dele: "Paizinho, o que fizeram comigo." Foi meu pai, adoro o meu sogro, sabe? E ele era major do Exército Aí ele me tomou sobre a proteção dele, sei lá com quem ele falou. Só sei que ele me contou que ele foi nos Correios e disse: "Nós fizemos a Revolução para não virar isso aqui uma Gestapo." E que virou. Quase o Hitler da vida, tem muito Hitler brasileiro aqui também, viu, vou te contar. Aí sei que daí eu saí, saí da prisão mas ficou um policial na porta do meu prédio. E aí quem disse que eu tinha coragem de sair na rua. Eu digo: "Vão me levar para lá de novo." Aí ele veio do Rio de Janeiro, que ele morava lá: "Não, filhinha, não pode ser assim não, você tem que sair, você tem que ir para a rua, vamos embora para um cinema." Aí ele começou a me tirar de casa, sabe? Porque eu vivia, eu queria voltar para o útero da minha mãe porque lá eu tinha proteção, mas no Brasil não tinha porque não era mais a minha pátria, sabe? E foi doloroso, eu não gosto nem de lembrar.

P - Então, mudando um pouco de assunto, como a senhora vê a continuidade da categoria dos bancários?

R - Tadinhos. Olha, eu tenho uma pena dessa mocidade, sabe? Porque bancário deixou de ser profissão. Antigamente bancário dizia assim: "Ah, porque o meu banco." Eu muitas vezes dizia: "O seu banco nada, é do banqueiro, rapaz, você é empregado, que meu banco." Mas tinha uma paixão pelo banco que ele trabalhava, sabe? Falavam de boca cheia assim: "Meu banco" eu digo: "Para mim não, eu sou empregada do banco, banco é do banqueiro, dinheiro que é bom, fica tudo para ele e para mim não vem nada." Mas agora é a tal história, com esses negócio de computador aqui, computador de lá, não tem mais serviço de bancário. Antigamente os clientes ficavam tudo feliz, sentavam no balcão. "Faz favor". Tem uma piada muito interessante, pode contar? Diz que uma moça chegou no balcão do banco naquele tempo que olhava as fichas assim e disse: "Moço, o senhor quer ver os meus fundos que eu quero ver se eu saco." (risos) Eram as piadas que a gente contava no banco, sabe? Que era divertido, porque todo mundo queria ir lá saber qual era os fundos dele para depois poder sacar. Hoje não tem mais nem isso você chega lá no negocinho, sabe? Que eu me atrapalho, tem uns que você vai com o dedinho assim e não pode é só um assim para apertar de lá de longe assim e ele já acende a luzinha. Ai, é uma complicação, menina, eu fico desesperada com essas coisas modernas, não agüento. Então acabou-se, para quê bancário? Agora você vê, os banqueiros recebem dinheiro do INPS para abrir mais cedo e pagar aposentado mas já viu se eles cumprem? E o Banco Central da vida, as gororobas lá que faz portaria disso, portaria daquilo, vê isso? Não vê nada, botam uma coisa aqui, sabe? Está todo mundo cego. Agora mesmo vem essa lei aí de CPMF do Jatene, que " já tenes muito," resultado: "aposentado não vai pagar". Não vai pagar uma ova, ontem mesmo eu estava falando lá na Associação dos Bancários, eu digo: "Escuta, como é que nós não vamos pagar?" O INPS vai repor esse dinheiro dos aposentados porque banqueiro não come a unha porque dói, ele não perde um centavo. Quer dizer, o INPS vai ter que pagar duas vezes para o banqueiro porque paga o aposentado e porque o aposentado usa cheque, então volta no envelopinho de antigamente, gororoba com essa coisa. E o INPS vai pagar para o banco todo o movimentinho do aposentadinho lá. Eu digo: "Eu vou sacar todo o dinheiro, já ponho embaixo do colchão, entende? É mais fácil, paga uma vez só." E pronto e já falo para os gatuno aí: "Vai roubar de quem tem, de mim não." Vou fazer umas camisetas: "Eu não tenho dinheiro, sou aposentada, vai roubar de quem tem." Porque ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, não tem? Por isso é que está sendo perdoado aí tudo quanto é bandido está saindo da cadeia, para quê sair? Nem precisa prender, entende?

P - Bom, Consuelo, a gente está terminando, e só para finalizar gostaríamos que dissesse quais são os seus sonhos e alguma coisa a mais que quisesse reparar, concluir...

R - Olha, o meu sonho, eu quando era criança eu decorei uma poesia muito bonita "A morte da águia" de Luís Guimarães, sabe? Um dia eu vou trazer essa poesia para você ler, e eu quero morrer que nem a águia "Morrer de um grito, vibrante, imenso, torto e soberano. E fremente rolar no azul do oceano como um titã caindo do infinito. Ter o fundo do mar por catacumba, as orações do vento que retumba e as cambraias de espuma por mortalha." Eu quero morrer no mar que nem Caymmi.

P - Então agradecemos você por ter vindo aqui. Foi maravilhoso a gente poder ter esse papo.

R - Eu agradeço vocês da lembrança do meu nome.

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