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História

Abelhas, o doce mel na vida de Vanderley

História de: Vanderley Doniseti Acássio dos Reis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2009

Sinopse

Infância em Andrada, Minas Gerais. Nesta cidade terminou o ensino médio, com qualificação em Química. Começou a trabalhar e aos 21 anos prestou vestibular para agronomia na Esalq. Depois de alguns anos de formado, fez concurso para a Embrapa e nesta empresa trabalha com o desenvolvimento da apicultura no Pantanal.

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História completa

P/1 – Vanderley, pra começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Vanderley Donizete Acácio dos Reis, eu nasci em Espírito Santo do Pinhal, no dia 29 de maio de 1971. Mas mudei... A minha família toda é de Andradas, Minas Gerais, e eu só não nasci lá, mas eu cresci e meus vínculos de amizades estão todos lá.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – O nome do meu pai é Benedito Silvério dos Reis e da minha mãe é Vera Lúcia de Oliveira.

 

P/1 – A atividade profissional dos seus pais?

 

R – Meu pai é um comerciante e minha mãe, ela trabalha numa indústria cerâmica.

 

P/1 – Comércio de que?

 

R – É gerais. Compra, venda de móveis, animais, gado, né? É isso mesmo, várias coisas.

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho. Tenho uma irmã e o nome dela é Valéria Regina dos Reis.

P/1 – Apenas uma irmã?

 

R – Somente uma irmã.

 

P/1 – Quantos anos?


R – Eu tenho 37 e ela 34.

 

P/1 – E o que que ela faz?

 

R – Ela é bibliotecária.

 

P/1 – Beleza. Vanderley, eu gostaria que você falasse um pouco da sua infância, assim, o local que você cresceu, como que era, as brincadeiras, a sua casa?

 

R – Eu cresci na Serra da Mantiqueira, ali no sul de Minas Gerais. É uma região muito bonita, tem montanhas. Isso é algo que eu sinto falta aqui no Pantanal, que é uma planície, né? Eu gosto dessa parte mais alta que do Pantanal. E me alegra muito o espírito ver montanhas, eu sinto essa falta de... Esse atavismo, né, de... Das montanhas. Isso é algo que em Minas me encanta, são as montanhas. E o povo, também, a cultura, né? Isso marcou muito e marca muito a minha infância. O meu sentimento, e sempre quando eu tô em férias, eu volto pra lá. Eu tô saindo, quando eu vejo a Serra da Mantiqueira, me alegra muito o espírito.

 

P/1 – E as brincadeiras que você lembra?

 

R – Era uma geração ainda pré-internet, né? Então, a gente não tinha toda essa questão eletrônica e tinha muito ainda dessa brincadeira, cidade pequena, muito ir pro sítio dos meus tios e isso eu gostava muito, e eu sempre quis fazer Engenharia Agronômica, né? Então, daí eu sempre ia e chamava atenção, então... Isso desde pequeno, eu dizia que eu queria ser agrônomo. Então isso veio ao tempo e isso ratificou essa sensação, até que eu fiz a faculdade em Piracicaba, na Esalq- USP [Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz da Universidade de São Paulo].

 

P/1 – Deixa eu só voltar um pouco. Você começou a estudar nessa cidade mesmo? 

 

R – Sim, eu fiz até o segundo grau, o curso técnico em Química. O segundo grau agora... O primeiro e o segundo grau, em Minas, e o segundo grau técnico... Eu sou técnico em Química e fiquei lá até pouco depois de estar formado. Aí, eu saí pra fazer a faculdade. 

 

P/1 – Deixa só eu voltar um pouco na sua primeira escola, logo que você entrou, você lembra dessa escola, você lembra de alguma professora, alguma matéria?

 

R – Lembro sim. Escola Estadual Coronel João Mosconi. Foi a minha ex-escola até a quarta série. Isso. Depois, da quinta, foi na Escola Estadual Alcides Mosconi. As  duas escolas têm o mesmo sobrenome. E nessa primeira, até a quarta série, eu tive uma professora muito legal, a Ana Sasseron que era muito culta, muito culta mesmo. Uma pessoa de uma visão muito eclética e a gente tinha uma coisa que ela gostava: toda sexta-feira ela contava uma história, normalmente, de mitologia grega. Então, era como se fosse uma viagem, toda sexta-feira ela contava uma história da mitologia grega ou alguma história, algum fato relevante na história da humanidade, né? Isso era muito interessante.

 

P/1 – E teve alguma dessas histórias que você lembra, assim, com um maior carinho?

 

R – Não, dessas histórias de mitologias, nada em especial, mas a série de contos era bastante interessante. 

 

P/1 – Beleza.

 

R – Ela tinha uma didática muito boa.

 

P/1 – Beleza. E a Química, porque você fez depois um técnico em Química...

 

R – Técnico em Química.

 

P/1 – Por que essa escolha?

 

R – Ah... Foi uma opção, né? E era... Tinha o segundo grau normal e mais um ano, que era o quarto ano, que saía com habilitação de técnico em Química. E foi uma fase muito boa também, quando não tinha ainda, também, escolas particulares lá nessa cidade. Os melhores professores, que hoje estão nas escolas particulares, foram os meus professores no segundo grau. Então, foi uma felicidade.

 

P/1 – Mas por que que você escolheu Química, exatamente?

 

R – O por quê eu gosto de química?

 

P/1 – Por que gosta?

 

R – Eu gostava mesmo. Eu gostava. Os professores eram muito bons, o grupo também. Isso tem o efeito no grupo, a turma toda seguiu, a maioria seguiu, fez o técnico e foi muito bom. Me deu uma formação bastante sólida, que eu aproveitei isso na faculdade e hoje, eu incorporei na minha profissão.

 

P/1 – Dessa época de colégio tem alguma história assim que você se lembre? Alguma brincadeira, alguma coisa assim que tenha ocorrido?

 

R – A gente era um grupo bastante unido, um grupo bastante interessante. E a gente seguiu desde da... Dessa escola do primeiro grau, um grupo, um núcleo base, que foi até o técnico em Química, no final. E aí depois cada um seguiu outras profissões, né? Mas era um grupo bastante divertido, a gente fazia churrascos, passeios. Tem essa questão dos sítios, então. Nas montanhas, ir pra cachoeiras, tinha toda uma... Essa questão de mais contato com a natureza, né?

 

P/1 – Bom, então, assim os divertimentos eram?

 

R – É. Era uma cidade menor, não tinha tantas opções. Cinema não existia. Teatro existia e existe, um teatro municipal, mas para eventos. Não... com uma programação rotineira, né? E eventos da festa... Tem lá naquela região... Andradas tem uma colonização italiana muito forte, então. A principal festa lá é a festa do vinho, então era... Ainda é... Que vinham muitos artistas. Então, eu lembro da minha adolescência vendo shows dos Titãs, Barão Vermelho, Cazuza, ainda. Então, essa geração do rock dos anos 1980. O Ira!, quando tava naquela fase de ostracismo, ainda pré... Essa pré-fase, MTV acústico, essa coisa toda. Eles vinham num clube lá, o Rio Branco. E eu lembro de assistir vários shows deles, quando eles estavam... Depois que deu aquele boom dos anos 1980 e caíram... E ficaram um pouco no limbo, então, iam bastante lá. Era legal. Legal.

 

P/1 – Aí você, então, saiu do colégio e resolveu... Aí, você foi prestar vestibular? Como é que foi isso? A decisão do curso?

 

R – Sim, eu trabalhei um pouco. Fiz um estágio...


P/1 – Peraí, você trabalhou?

 

R – É, quando eu tava terminando o curso técnico, eu precisava fazer um estágio. Aí eu fiz um estágio nessa empresa de cerâmica onde a minha mãe trabalha ainda, e fui convidado a... Participar, né, ser contratado. Teve essa possibilidade, eu fiquei quase dois anos e gostei bastante...

 

P/1 – Qual era o seu trabalho?

 

R – Eu trabalhava com controle de qualidade, nessa parte de processo, né? Acompanhamento de processo. Aí saí de lá pra ir pra faculdade. Fiquei um ano entre aquela questão de “vou, não vou, trabalho”. Até lembro quando eu fui fazer a inscrição, né, a funcionária da USP [Universidade de São Paulo], ainda disse: “Ah, que pena trabalhava”. “Ah, eu trabalhava, mas eu sempre quis fazer o curso.” E eu cheguei mais tarde. Já cheguei com 21 anos, né? A idade que a maioria dos meus colegas se formaram. Então, eles entraram com a idade – os colegas da faculdade –, 16, 17 anos, e eu entrei um pouco mais velho.

 

P/1 – Então você ingressou a faculdade com 21?

 

R – 21.

 

P/1 – Mas era Agronomia?

 

R – Isso.

 

P/1 – E aí você já tinha essa ideia de fazer Agronomia em Piracicaba? Como é que foi essa escolha? 

 

R – Ah... Então, essa professora lá, o irmão dela é amigo do meu... Era, né? Porque ele faleceu. Ele era amigo do meu pai e professor em Viçosa. Aí, eu fui conversar com ele e ele falou que as duas universidades eram muito boas, só que Viçosa era muito longe, tava a mais de 800 quilômetros, apesar de estar em Minas também, e que a Esalq era muito boa, também. Então, eu fui... E tinha um amigo, o irmão de um amigo desse grupo de infancia, que morava em Piracicaba. E aí eu fui conhecer, tal, e fui, gostei, prestei, prestei vestibular somente pra lá, e passei. 

 

P/1 – E aí você foi morar longe da família, né?

 

R – Nem tanto, mas naquela fase de... Que você tá estudando, sem muito recurso, também, então, 160 quilômetros podem parecer uma enormidade, mas hoje eu acho que é muito perto. Morar no Pantanal mudou os meus referenciais de distância; aqui 500 quilômetros, eu já acho muito próximo.

 

P/1 – Mas naquela época você tinha 21 anos, né?

 

R – 21. Isso

 

P/1 – Deveria ser uma experiência muito diferente, né? Como foi isso?

 

R – Muito. Morar fora, sair de uma cidade pequena, ir pra uma cidade média, né, de porte médio, e mais uma influência grande de universidade. Uma vida cultural, e, em outros sentidos, bastante efervescente, foi uma experiência de vida que eu recomendo. Foi muito bom. Sair da casa dos pais e ir morar fora foi um divisor de águas na minha vida.

 

P/1 – E dessa época de faculdade, você lembra de alguma coisa, assim, que foi marcante pra você?

 

R – O curso em si, a escola marca muito. Todo mundo que estuda lá tem um carinho muito grande e se identifica. Realmente, veste a camisa da... O idealizador do curso foi um visionário, né? Foi uma daquelas pessoas que estão muito à frente do seu tempo e ele impregnou isso em todo mundo que passa por lá e fica com essa, essa sensação. 

 

P/1 – Você tinha amigos?

 

R – Sim. O ano passado, nós... Eu completei dez anos de formado, e reunimos a turma a cada cinco anos, então, é uma experiência muito interessante.

 

P/1 – E assim, durante esse tempo que você fez a faculdade, você começou a trabalhar também? Ou não?

 

R – Não, eu estagiava, né? Eu comecei a trabalhar com as abelhas, com a apis mellifera, a abelha africanizada, já no primeiro semestre da faculdade. E eu...

 

P/1 – Você que escolheu as abelhas? Foi uma escolha?

 

R – Sim, eu tinha interesse naquela questão. Eu tinha interesse também, por ser de Minas, óbvio, nessa questão de leite, de trabalhar com caprinocultura. Seria a minha primeira opção, eu fui procurar a professora, mas ela tava fazendo um doutorado fora do país e não tava disponível; a disciplina tinha sido suspensa. E eu fui procurar apicultura, que era a minha segunda opção, e de segunda, passou a ser a primeira, até hoje.

 

P/1 – Mas da onde vem essa... Esse gostar?

 

R – Esse gostar... A questão da sociedade das abelhas é muito interessante. A sociedade bastante complexa, com castas, com hierarquia rígida e muito bonita. É maravilhoso.

 

P/1 – Dá pra você falar um pouco mais dessa sociedade pra gente entender?

 

R – Tem três castas, né? Com aquela analogia das sociedades indianas que o pai era militar, o filho vai ser e o filho dele também vai ser militar, ou seja não tem aquela mobilidade social como tem nas sociedades ocidentais. Então, isso por analogia foi transferida pra sociedade das abelhas, né? E tem três castas: o zangão, que é o macho, basicamente, a única função é fecundar a rainha; e a rainha é uma fêmea fértil que, normalmente, é a única que faz postura na colméia e mantém a coesão social, através da liberação de feromônios e outras ações. E tem as operárias, que executam todas as atividades, exceto a postura de ovos férteis, e a fecundação da rainha que é realizada pelo zangão. Então, a operária e a rainha são fêmeas, e o zangão é macho. E diferente do ser humano, que nós somos dois N´s, o homem é XY e a mulher é XX, nas Apis, o macho é N e a fêmea é dois N. Então, essa diferenciação é haplodiplóide (sistema de diferenciação do sexo). Então, isso só pra ilustrar essa questão da sociedade. Além do mel, que tem todo esse... Essa questão desde a... De toda a... Os primeiros medicamentos registrados pelos egípcios já utilizavam o mel. Na Bíblia e em outros livros antigos há referências pela... Com o mel, né? A Terra Prometida vai... Corre rios de mel e tudo mais. Doce como mel. Então, tem várias passagens que são comentadas na Bíblia e que fazem menção direta ao mel ou às abelhas, né? A proteção e tudo mais. Então, isso é bastante interessante. 

 

P/1 – Mas assim, todo tipo de abelha funciona, mais ou menos, dessa forma?

R – Não...


P/1 – Ou tem diferença?

 

R – Tem diferenças. Essa abelha que eu tô falando é a abelha melífera, Apis mellifera, que no Brasil, também foi introduzido como o povo brasileiro. Veio, o europeu, o africano, misturou com o indígena aqui, e depois, no século... No final do século... No início do século passado, vieram os orientais, né? E juntou tudo, deu essa miscigenação e tem essa característica do povo brasileiro que é de toda... Todas as nuances, né, e todas as feições. Então, quando você fala de um nórdico, de um sueco, você, normalmente, você tem uma imagem; você fala de um africano, você pensa em alguma coisa, né? E do brasileiro, você fala que é brasileiro, mas pode ser qualquer tipo, né? Físico.

 

P/1 – Mas essa cultura, assim, das abelhas aqui no Brasil ela, você tem... Como que é a história disso aqui?

 

R – A história começou com os jesuítas, no início, né? Padres, né? Normalmente... Porque antes do advento da indústria do petróleo, as velas não eram feitas de parafina, mas sim da cera das abelhas. Por isso, vários pesquisadores eram padres ou pastores protestantes que necessitavam da cera. Então, como eles precisavam da cera para fazer as velas, eles precisavam criar as abelhas. E dada aquela coisa bucólica, meio terapeuta ou de terapia ocupacional, de você trabalhar e aquilo te distrair, ocupar a mente – é, realmente, uma terapia; é muito bom trabalhar com as abelhas; pra quem gosta, né, obviamente – e controlando o nervosismo, as pessoas se relaxam e começam a ver o quão bonito é a sociedade delas.

 

P/1 – Aqui no Brasil tem quantos tipos de abelha?

 

R – Ah, tem muitas espécies: a abelha Apis exótica, tem muitas abelhas sem ferrão, ou indígenas, ou meliponíneos, que são essas abelhas nativas do Brasil. Tem vários tipos, né? Jataí, Meliponas, Trigonas, então, tem muitos tipos, tem muitas espécies e a Apis, que é a mais criada. Aquela que ferroa, tal, e que produz bastante mel, e tal.

 

P/2 – É a que mais produz mel? 

 

R – É a que mais produz.

 

P/2 – E você sabe por quê? Tem alguma... 

 

R – Sim, tem uma explicação lógica. Primeiro, é o tamanho, né, do inseto. Ela é uma abelha relativamente grande. Não é tão grande quanto a Mamangava, né, mas a Mamangava forma colônias pequenas. Ela é uma abelha de tamanho de médio a grande, de médio, e o tamanho da população, o número de indivíduos pode chegar a ser muito maior do que uma colônia de Jati, que tem uns 500 indivíduos, às vezes, um pouco mais. Uma abelha média tem 50 mil (diapes?), né? Então, além do tamanho da abelha, em si, a Jataí é bem pequenininha, ela é maior e o número da população muito grande. Outra característica biológica interessante, ela é porífera, ela se alimenta de várias... E muito oportunista, também, para localização de ninhos, dispersão, tudo. Então, esses fatores explicam porque que ela é tão mais adaptada, ou adaptável, a essa condição tropical.

 

P/2 – Por que que ela forma uma colônia tão maior que a outra?

 

R – Característica biológica. A fêmea... A rainha faz uma postura muito maior e ela tem essa capacidade. São características biológicas, né, da seleção. Foi do ambiente onde ela foi selecionada.

 

P/1 – Essas abelhas aqui em particular, elas são nativas aqui dessa região?

 

R – Tem. Tem muitas espécies nativas, mas tem algumas... São nativas daqui. Por exemplo, abelhas nativas da Amazônia, provavelmente, podem não se adaptar bem aqui, e vice versa. Então, essa questão, tem os biomas, tem suas abelhas. Então, não seria interessante, também, ficar fazendo como o homem fez, levar a Apis pra todo lugar. Então, essa questão pode ter uma competição entre as nativas, entre as próprias nativas de uma região pra outra, e delas com a Apis, com certeza, ocorrem também.

 

P/1 – Você pode dar um exemplo dessa adaptação da abelha ao bioma, como que funciona isso?

 

R – A adaptação?

 

P/1 – É. 

 

R – Sim. Ah... Vamos falar da abelha africana, a Apis mellifera, algumas das subespécies africanas, elas quando as condições do ambiente não estão favoráveis, ela abandona, vai procurar uma outra região. A mesma espécie, mas subespécies que se originaram na Europa, elas não abandonam, quando a condição vai piorando elas vão se agrupando e ficam com um núcleo muito pequenininho. Por que é que elas não vão abandonar? Porque se elas saírem, lá fora tá o inverno, elas vão morrer. Então, elas têm, obrigatoriamente, que sobreviver naquela condição. Já numa condição tropical, ali, naquela região que ela está pode tá ruim, mas a poucos quilômetros pode estar melhor. Então, o limitante não é a temperatura, como é na região temperada. Então, isso explica, por exemplo, pra uma mesma espécie.

 

P/2 – Só pra retomar uma coisinha. Qual que é a abelha típica do bioma do Pantanal?

 

R – Tem Jati, também, tem outras, tem outras espécies... A Jati, aqui, é o nome que dá pra Jataí, né? Então... E tem outras espécies: Manduri, Mandaguari, tem outras, também. Que ocorrem aqui e em outras regiões, também, né? O nome comum é complicado. Por exemplo, Jati é o nome que a gente dá no Sudeste pra Jataí. Então, essa questão... Por isso que, às vezes, é interessante usar o nome científico associado com o nome vulgar, o nome comum, pra ter essa certeza do animal que você tá falando é da espécie. Animal ou planta, né?

 

P/1 – E assim, que plantas assim, porque elas vão procurar fazer o melzinho dela, não tem essa coisinha da florada?

 

R – Isso. É um dos trabalhos que nós estamos realizando aqui na Embrapa Pantanal. É... Exatamente, elaborar um calendário, uma identificação das plantas que são visitadas pelas abelhas. Por todas as abelhas, porque algumas espécies são mais importantes pra Apis, outras pras sem ferrão, algumas pras todas elas, outras pra borboletas, mariposas, beija-flores, então, é interessante, também.  E se uma dessas espécies está visitando, provavelmente, ela pode ser visitada pela Apis.

 

P/1 – E já tem assim alguns nomes... 

 

R – É um trabalho que nós...

 

P/1 – ... De nomes de árvores que elas vão...?

 

R – Sim. Já tem uma relação... Sim. Agora, no momento, tem uma espécie que tá florindo que ocorre no Sudeste, também, em Minas, em São Paulo, Arranha-Gato, que é uma leguminosa bem interessante.

 

P/1 – Arranha-Gato? 

 

R – Arranha-Gato. Tem espinhos que parece os espinhos do gato. É por isso que ela é Arranha-Gato...

 

P/1 – É uma flor? 

 

R – É. Ela dá inflorescência. É uma pequena árvore, né, de uns três a quatro metros de altura...

 

P/2 – Que cor? Descreve um pouquinho só pra eu ter uma idéia...

 

R – Folhinhas pequenininhas, compostas, e com inflorescência. Vocês vão ver. No caminho devem ter reparado bastante. Ela é quase clarinha.

 

P/2 – Amarelinha? 

 

R – É. Um tom bem claro. É... Tem bastante.

 

P/1 – Então, no Pantanal, eu poderia dizer que tem esse Arranha-Gato, tem mais algumas outras?

 

R – Ah, tem muitas. Essa aqui... O Arranha-Gato, eu tô falando aqui na parte alta, né, que não é o Pantanal ou a planície pantaneira. Na planície pantaneira tem muitas outras espécies, também, que...

 

P/1 – Você pode falar alguns nomes? 

 

R – Sim. A Assa-Peixe, que tem ali no Sudeste, aqui também tem três espécies. Ãammm... Hortelã do Campo, é muito interessante. Cambará. Tem muitas espécies que são visitadas.

 

P/1 – É uma coisinha também, quando você começou o trabalho, só voltando um pouco agora, você tava na faculdade e você tava concluindo, né?

 

R – Sim.

 

P/1 – E aí você se especializou... Escolheu a questão de trabalhar com apicultura.

 

R – Apicultura, exato.

 

P/1 – E aí, como é que pintou a Embrapa nisso? 

 

R – Oh, a Embrapa surgiu no final do mestrado que eu fiz, justamente especializando mais ainda, né? Eu peguei o estágio, como eu gostei de apicultura, então, a abelha como sendo um inseto, eu peguei essa parte da... Pra me especializar, como mestrado, em Entomologia.

 

P/1 – Mas o estágio foi em São Paulo? 

 

R – O estágio foi na própria universidade.

 

P/1 – Na própria universidade...

 

R – Isso.

 

P/1 – Ah tá! 

 

R – Depois, eu fiz o mestrado, na mesma instituição, na área de entomologia, que é o estudos dos insetos, justamente, insetos, mas o meu foco principal sempre a abelha africanizada, Apis Mellifera. 

 

P/1 – E aí como é que foi a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] daí então?

 

R – A Embrapa surgiu no final do mestrado, quando abriu o concurso, depois de muito tempo. Tinha ficado quase dez anos sem abrir concurso, tinha uma lacuna muito grande, né, e aí surgiu um grande concurso. Eu prestei pra área de manejo de colméias, que é uma área específica, dentro da apicultura, e acabei sendo chamado pra trabalhar aqui no Pantanal. 

 

P/1 – Isso foi quando, mais ou menos?

 

R – Isso foi no final de... Foi em dezembro de 2002. No final do ano de 2002.

 

P/1 – E você já conhecia o Pantanal?

 

R – Não. Só aquela visão de que é água pra todo lado e aquela visão bucólica, de televisão, de revista, que, sinceramente, não condiz com a realidade [risos]. É uma...

 

P/1 – Então, qual foi a realidade que você se deparou?

 

R – Na unidade experimental, que fica no Pantanal da Nhecolândia, é quase que um areião, lá. Não tem rio nenhum e algumas baías, que a maioria seca, na época do inverno, e que não lembra nada aquela ideia que eu tinha, que era água pra todos os lados e isso tudo é, bem diferente da realidade.

 

P/1 – Mas não tem uma época certa, o ciclo das águas?

 

R – Sim, o ciclo das águas, mas não, necessariamente, em todas as regiões, né? Então, a cada... O Pantanal é muito grande e tem uma dinâmica, também, diferenciada. Então, começa a inundar lá... Chove muito no norte, o fluxo vem, o pulso vem descendo, e leva um tempo, também. O que me chama a atenção aqui é que, normalmente, a época das cheias, onde... Em Minas, nas montanhas, acabou de chover, o rio sobe, né? Aqui não. Aqui chove, chove, como tá agora, o rio não muda nada. Ele vai subir no inverno quando não tá chovendo aqui, porque leva dois ou três meses pra água que choveu, caiu lá nas cabeceiras dos rios, lá em Mato Grosso, chegar até aqui. Então, lá pra maio, junho, é o pico, costuma ser o pico do nível do rio aqui. Quando não está chovendo nada aqui [risos]. 

 

P/2 – E essa visão, que não tem nada a ver com o que você disse que tinha no imaginário, você acredita que tem a ver com a mudança do clima?

 

R – Não. É uma questão pura e simplesmente de divulgação. Divulgam o que é mais belo, mais cênico e, é óbvio, que no rio tem as onças, têm as margens, tudo mais e acabam extrapolando isso pra toda região. Então, acaba passando uma imagem que não condiz com a realidade. Quase que como um estereótipo, né, aquela visão que você tem de alguns grupos, né, que, principalmente, acabam sendo reforçados, mas que não condiz com a realidade. Pra todas as regiões; isso é verdadeiro pra aquela situação, só que extrapolar isso pra outras regiões não é... (risos). Não funciona.

 

P/1 – Mas você teve a oportunidade de percorrer toda a região do Pantanal?

 

R – Toda não. É muito grande, tem mais de 140 mil quilômetros.

 

P/1 – E essa que você imaginava que fosse assim, você conseguiu chegar e ver o rio, enfim?

 

R – Sim, como tem a unidade experimental lá e a gente desenvolve pesquisas, tem mais contato, então, você acaba vendo e conhecendo essa região. Mas é muito bonita, também, não é que seja feia. Não é isso que eu tô querendo dizer. Só que não é aquele senso comum pra Pantanal.

 

P/1 – E nesse seu primeiro contato não teve nenhum caos, alguma coisa que tenha ocorrido? Você chegou a encontrar com uma onça ou coisa parecida?

 

R – Não. Nunca vi. Nenhuma onça, só vi algumas cobras no caminho, na estrada, nunca encontrei aqui, também. Mas tem muitos animais e alguns animais que no Sudeste e em outras regiões, estão ameaçados ou estariam em extinção, aqui ainda são muito freqüentes: tamanduás, jacarés, veados, vários tipos, então. A fauna é muito bonita. A arara azul é linda, linda, linda. Muito bonita, muito mais bonita que o tuiuiú, que é sempre mostrado como símbolo, pelo menos pra mim, a arara azul. E ela não é passiva, ela participa, você olha pra ela e ela olha pra você (risos). Começa a criar uma relação de... De conhecimento, tudo, é muito bonito. As aves no Pantanal são muito bonitas.

 

P/2 – Fala um pouquinho dessa história de ela olha pra você?

 

R – É, ela não é passiva como você fica olhando um animal que tá ali parado e ele não se mexe... O jacaré, por exemplo, você fica olhando pra ele e ele continua do mesmo jeito que tá. E ela não. Ela se move e olha, vem e tal, e fica brincando, falando, gritando. Não chega a ser tão interativo, mas, pelo menos, é muito mais que em relação a um jacaré, por exemplo, que é quase como se fosse uma tora ali na beira do rio e sem muito movimento, né?

 

P/1 – Deixa eu voltar lá então pra Embrapa. Então, você voltou pra cá, você passou no concurso, e aí você, já… Qual o trabalho que você começou a desenvolver?

 

R – Sempre com apicultura. E eu só vim pra cá porque eu fui contratado pra trabalhar com apicultura, senão não viria. Porque eu estava trabalhando em Minas, no Senar, também. Serviço Natural de Aprendizagem Rural... Quando eu terminei a faculdade lá e não fui chamado, ainda houve um hiato aí. Um período, é, que eu fui, voltei e trabalhei como autônomo e outras questões lá em Minas e, também, tava ministrando cursos em apicultura, que a minha área, que depois de ir pra faculdade virou a minha área de interesse. E isso seguiu. Seguiu e eu só vim, exatamente, porque fui contratado pra trabalhar com apicultura, senão, não viria, também.

 

P/1 – Mas, assim, quando você chegou, como é que foi a sua adaptação ao local? Por que o clima, talvez diferente, o local também diferente. Como que foi essa adaptação?

 

R – Muito. A experiência de Piracicaba foi muito boa. Hoje, eu posso dizer que, antes de Piracicaba, eu não iria pra outras regiões. Isso me favoreceu bastante. E, também, o desafio,né, exercer aquilo em que eu sempre me especializei e que eu gosto de fazer. Então, isso, o desafio me motivou muito. Mas, óbvio que tem essa questão de ficar muito longe, é uma região muito afastada, muito inóspita, o calor é muito intenso e outras coisas mais. Então, tem os seus... Como tudo na vida, tem seu lado positivo e o seu lado nem tanto, né?

 

P/1 – E você lembra do seu primeiro dia aqui, qual foi a sua atividade?

 

R – Lembro. Lembro. Fui dar uma volta, ser apresentado, tal, e ocupar a sala. Isso foi muito interessante.

 

P/1 – Mas e o contato com as bichinhas, como é que foi?

 

R – É... Diferente. Foi diferente. Os animais aqui tem um comportamento não tão diferente, mas em alguns locais, mais agressivos, noutros, menos. O que chama mais a atenção aqui é o desgaste físico, né, você sua muito, é muito quente, então, tem que mudar o horário de trabalho. Lá eu trabalhava de manhã e à tarde, aqui, normalmente, eu prefiro trabalhar no período da manhã e não ir a campo à tarde. Isso é um aprendizado que os próprios pantaneiros fizeram, eles acordam muito cedo, às vezes, duas, três horas da madrugada, tal, e, óbvio, param mais cedo e vão dormir muito cedo, também, porque durante o dia, uma hora, duas horas, três horas tá todo mundo muito... Vai ficar insuportável, né? Então, eles já desenvolveram, se adaptaram ao bioma dessa maneira: começando a trabalhar mais cedo, né?

 

P/1 – Mas assim, quando você começou a trabalhar. Você já colocava aquela roupa nos primeiros dias?

 

R – Sim, sempre.

 

P/1 – Como que é o seu trabalho? Quando você vai trabalhar, o que você começa a fazer e depois como é que é o desenvolvimento?

 

R – O interessante do trabalho é que não tem muita... No campo, não há rotina. Isso é algo que chama muita atenção. Se eu abrir dez colméias, provavelmente, as dez vão estar diferentes, uma da outra, e cada uma tem uma coisa que chama a atenção e isso é muito interessante. E, outra, é que você não tem muita rotina. Na pesquisa, você tem que formular hipóteses, testá-la, desenvolver, ver se tem a fundamentação ou não. Você encontra com os resultados e isso, às vezes, uma pesquisa é o início de outra e assim sucessivamente. Só que, como a gente tá numa empresa que tem que desenvolver produtos, transferir tecnologias, tudo isso tá associado, também. Então, além de desenvolver, realizar pesquisa, nós temos que fazer o desenvolvimento, também. Que é fazer com que essa pesquisa se tornem produtos pra sociedade e esse é o diferencial da Embrapa, também. Que é desenvolver produtos. Ter essa questão e ter feito essa conexão entre o conhecimento, os muitos, dos conhecimentos gerados em instituições mais básicas de ensino, e ter transferido isso pra sociedade com um êxito muito interessante em várias áreas. 

 

P/1 – Mas, Vanderley, nessa sua análise, que você vai lá e observa a colméia. Você fica anotando, tem um manejo... Como que é isso, assim, na prática mesmo, como que funciona esse seu trabalho?

 

R – Bom, eu vou, examino, depende a situação. Por exemplo, na coleta de material das plantas, nós não examinamos no mesmo dia as colméias, mas, se possível, na mesma semana pra correlacionar, porque, às vezes, tem uma grande quantidade de plantas florindo, mas você vai dentro da colméia e entrou pouco néctar, pouco pólen. A colméia tá fraca, isso pode acontecer. E o contrário, também é verdadeiro. Às vezes, vê algumas plantas só florindo e abre a colméia e tá super populosa com mais... Lembra aquela história de 50 mil indivíduos? Às vezes, muito maior do que isso, com uma grande reserva de alimento, tanto mel como pólen, área de cria muito desenvolvida. Isto é bastante interessante. Então, às vezes, não necessariamente trabalho direto com as colméias... Uma outra questão aqui, também, que é um desafio, é. Como a atividade ainda não é tão consolidada, ela é desenvolvida de maneira, em pequena escala, incipiente, com alguns casos de insucesso, então. Tem que se buscar também essa transferência de tecnologia ao longo do processo. Não é só construir o avião, tem que mostrar como é que constrói a fábrica, também. Então, você tem que atuar, tanto ali, na formação de profissionais, como também na pesquisa pra atender essas demandas. Então, isso é algo interessante, também, e que acaba sendo necessário pro bom desenvolvimento das pesquisas.

 

P/1 – Esse trabalho com apicultura aqui da Embrapa, ele é recente ?

 

R – Já tinha uma parceria antes da minha contratação e depois ela foi mantida durante um período, mas, infelizmente, o senhor que tinha a parceria veio a falecer. Inclusive, lá no Pantanal, num dia em que a gente trabalhou, captou umas imagens muito bonitas, e ele gostava muito da atividade. Foi um curto período de contato, mas bastante interessante. Alfredo Pinto de Arruda. Foi uma boa experiência.

 

P/1 – Tá, você falou de tecnologia, você pode dar um exemplo, assim, de tecnologias que foram desenvolvidas nesse decorrer do tempo?

 

R – Ah, sim. Essa questão da adaptação aqui, determinação de quais são os períodos de carência e quais são os produtos. Isso é uma tecnologia que tá na reta final pra ser desenvolvida e vai ser repassada à sociedade. Essa questão do calendário de plantas apícolas, também é outra que tá em fase final de desenvolvimento por uma região e está sendo expandida também para os assentamentos rurais. Corumbá, apesar de não ter uma tradição tão grande em agricultura, e muito maior em pecuária, é a região, o município de Mato Grosso do Sul onde tem o maior número de assentados rurais e estão aqui, próximos, na fronteira seca com a Bolívia. Então, agora é um trabalho, também, que tá sendo desenvolvido. Um projeto de agricultura familiar, que é um marco, programa específico da Embrapa para esse fim, pra atender as demandas de pesquisa e transferência. Toda essa questão voltada para agricultura familiar. É um projeto que tá em andamento também.

 

P/1 – Então você também tem esse contato com essas comunidades?

 

R – Sim, agora sim.

 

P/1 – E você lembra do seu primeiro contato com a comunidade?

 

R – Foi logo que eu cheguei e um colega que estava aqui e depois, infelizmente, pediu transferência, por uma questão de saúde na família, da esposa dele, e não prosperou porque não surgiu projetos nessa época, editais. A gente tem que captar recursos, também, pra viabilizar as pesquisas, né, outra questão. E agora, isso foi aprovado no final de 2007, e vai ficar durante três anos, essa execução.

 

P/1 – E esse contato com a comunidade você lembra como foi?

 

R – Ah, muito rica, muito rica. A demanda... E eles são muito carentes nessa questão de transferência de tecnologias, tem várias, tem vários casos de um pouco de descrédito e relutância, mesmo; Mas isso com o tempo e com o trabalho executado e com essa questão forte que a Embrapa, de segurança. Até de segurança mesmo que a coisa que vai ser desenvolvida, o trabalho é sério, por parte da Embrapa, e isso acaba sendo um facilitador pra esse acesso, né? Obviamente, que eles demandam coisas que vão além da nossa missão. Então, aí, é interessante ter parcerias, como nesse projeto, pra outras instituições poderem atuarem.

 

P/1 – Nesse contato, por um acaso, não existia, você chegou a se deparar com algum saber, assim, da própria comunidade? 

 

R – Ah, sim. Isso ocorreu no início, aqui, com um colega, também. Que trabalha e prestou apoio no início, Sebastião de Jesus, um pantaneiro, mesmo, morou muito tempo ali, nascido e criado no Pantanal, trabalhou com esse senhor que iniciou a atividade, conviveu algum tempo com ele. Infelizmente, ele não pode continuar por questão de saúde foi. Mudou de área, E com os apicultores aqui, também. Eles tem algumas adaptações e isso sempre é rico, é uma experiência muito boa. Eu trago essa experiência também da época do Serviço de Aprendizagem Rural, lá do Senar, em Minas, porque nos cursos era muito... Tinha uma disparidade de formação muito grande. Você tinha pessoas analfabetas e pessoas com um nível superior e pós-graduação e tudo mais. E isso numa mesma turma. Então, equilibrar isso e não... E que todos possam aproveitar, é muito interessante.

 

P/1 – Mas você lembra de alguma coisa que você tenha aprendido, assim, falado nossa! Como é que pode isso?

 

R – Manejo. Eles tem um manejo muito adaptado e esse manejo é o que você faz pra interagir com aquela espécie.

 

P/1 – Por exemplo?

 

R – Por exemplo. A época de fazer algumas ações que é um pouco diferente. Então, eles já têm também. Como eles têm esse conhecimento das plantas, conhecimentos até tradicional, que um passou pro outro, pro outro e pro outro, às vezes, de algumas gerações, então, eles já tem um calendário - isso que nós estamos sistematizando, eles têm isso mentalmente.  Então, eles sabem. Às vezes, cada um dá um nome diferente pra mesma espécie de planta [risos] e isso, às vezes, complica, mas a gente tem que passar por uma linguagem científica, mantendo esses sinônimos, e depois retornar isso pra eles também. Isso é interessante. Eles interagem muito, eles não são passivos nesse processo. Eles querem interagir 

 

(Pausa para troca de fita)

 

P/1 – Vanderley, só uma outra coisinha, você tinha falado também de produtos, que produtos estão sendo desenvolvidos ou que podem vir a ser desenvolvidos?

 

R – Ah, essas tecnologias, processos, algumas recomendações, algumas adaptações de manejo, mas isso tudo tá nas publicações e é só acessar a página eletrônica da Embrapa Pantanal. É www.cpap.embrapa.br, e ali na área de apicultura, linha de pesquisa, ou na área de publicações, também, tem toda essa relação pra quem tiver interesse. As publicações estão disponíveis pra baixar no formato de PDF, é gratuito, tanto pra leitura como pra baixar. Não tem ônus.

 

P/1 – É que eu pensei em produtos assim, eu pensei que era mel, cera, xampu...

 

R – Poderia ser. Mas isso, pra gente, é subproduto. O nosso produto principal é gerar, adaptar e transferir tecnologias. Mas o mel, os bovinos lá... Tem criação lá, eles são vendidos no leilão, mas isso pode, dentro de um projeto de pesquisa, que pode ser, por exemplo, avaliar, fazer um melhoramento genético pra uma determinada característica e no final desse processo vai ter os bovinos, por exemplo, e eles são comercializados, mas não é o objetivo principal da instituição. Isso... Mas nós temos, também, eventualmente, óbvio, quando se faz a colheita, todo mundo quer adquirir. Nós somos muito demandados e não podemos atender muito a essa questão até, obviamente, senão a gente saí da nossa missão e perde o foco, né, e vamos acabar competindo com os produtores o que não é bom pra nenhum dos dois lados.

 

P/1 – Na verdade vocês dão assim as ferramentas, não é isso?

 

R – Um suporte...

 

P/1 – Um suporte técnico...

 

R – Um suporte e esse know how, também, e interagimos, também. Não conhecemos toda a realidade. Essa interação que há com os produtores é muito salutar e bastante produtiva.

 

P/1 – E assim, qual que é a importância da apicultura aqui pra região?

 

R – É uma atividade alternativa que pode ser desenvolvida de maneira complementar com a bovinocultura de corte, que é a principal atividade na planície pantaneira, e aqui nos assentamentos e nessa parte alta, pode ser uma atividade até principal pra alguns produtores, então. Áreas interessantes, floradas em grande quantidade e uma maneira também de diversificar a multifuncionalidade produtiva nesses locais. Então, seria uma maneira muito interessante. até pra maximizar o uso dos insumos, por exemplo. O produtor vai até o Pantanal e nisso tem uma equipe, leva alguém, tal, aproveita a viagem, usa a parte das instalações que ele já tem ali disponível, ou treina uma pessoa, ou tem alguém que... Ou cede a área, então. Começa a obter um retorno de algo que tá ali e a outra vantagem de se criar as abelhas são os serviços de polinização que ela realiza. É um serviço ambiental extremamente relevante. A grande maioria das plantas tem polinização e uma boa parte tem polinização cruzada. E nisso, os insetos são muito importantes, e as abelhas se destacam ainda neste grupo. São os principais agente polinizadores, principalmente, a abelha melífera. Daí aquela questão, há pouco, há um ano, ao redor de um ano, tá surgindo aquela discussão da síndrome do colapso lá das colônias em que estavam morrendo as abelhas. O pessoal preocupado e tal, porque o principal serviço não é... Os produtos da apicultura não é mel, geléia real, isso tudo é secundário. O principal produto é a polinização. Mas que não é o caso aqui, porque não é uma região de agricultura intensiva e tudo mais como, por exemplo, tem os pomares de maçã no Sul e outras culturas, girassol e canola, outras culturas frutíferas, em geral, necessitam da polinização e onde isso não é possível, tem que abrir mão de polinização, fazer com o manual e isso encarece muito, né?

 

P/1 – Então eu poderia também dizer que o estímulo a essa atividade. A gente poderia tá contribuindo com preservação aqui do Pantanal?

 

R – Pode, no seguinte sentido, porque o apicultor pra ele, ele começa a ver que pra ele ter a produção, ele necessita ter plantas, normalmente, árvores, e manter uma condição, uma reserva legal. Não ficar, ir lá cortando árvores na reserva legal. Então, isso desenvolve a cultura. Inclusive, um assentado, isso é um relato bastante interessante dessa semana, que ele desmatou quando ele entrou na propriedade... Às vezes, os assentados eram obrigados a limpar, isso no passado, e hoje ele quer aproveitar esse projeto, uma das ações desse projeto é um viveiro de mudas, ele quer recuperar uma área da propriedade dele para destinar exclusivamente pras abelhas. Então, vocês vejam que é uma forma também de ter um retorno econômico nessas áreas de reserva legal, área de preservação permanente, que a apicultura é uma das poucas atividades que podem ser desenvolvidas ali, legalmente. Óbvio, que além de outras ações de manejo, mas a apicultura é uma delas. 

 

P/1 – Eu gostaria que você falasse um pouco como que apareceu o DRS do Banco do Brasil nessa história?

 

R – Ah, sim. Foi numa reunião na câmara setorial de apicultura aqui de Mato Grosso do Sul, do qual a Embrapa é membra, e eu represento a instituição nesta câmara e foi... Foi divulgado, né, e montamos algumas palestras e nisso, o responsável pelo DRS [Departamento Regional de Saúde] no estado, que é o Miguel, entrou em contato e colocamos, e foi bastante interessante essa palestra dele, também, e que é uma contribuição, pode vir a ser um parceiro, inclusive, desse projeto, que é uma área que os produtores, principalmente, os assentados, são muito carentes. Essa questão de fomento, de financiamento à atividade pro seu desenvolvimento, e que não é uma missão da Embrapa, que é... Não é fazer fomento, né? Então, essa complementaridade de instituições é muito interessante.

 

P/1 – Poderia dizer que um futuro aí, diferente, tá pintando?

 

R – Poderia. Sim, poderia. E isso até seria um dos primeiros projetos de DRS, da apicultura a ser desenvolvido. Circunstancialmente, foi desenvolvido o DRS do leite, inclusive, eu tô participando, representando a instituição, porque, a experiência do DRS do leite pode ser aplicada a atividade apícola. Isso, provavelmente, ocorrerá no futuro.

 

P/1 – Vanderley, a gente tá quase que finalizando, tá? Você olhando essa sua experiência na faculdade, estágios, assim, e hoje. A atividade que você tá desenvolvendo, o que você diria que são as principais lições que você tirou pra sua vida?

 

R – As principais lições? Saber o que você quer, ter objetivos, saber que, também, o resultado demora, principalmente, se for sério. Trabalho leva tempo, mas os resultados aparecem. E a melhor maneira de se trabalhar, que eu imagino, pelo menos, eu tento aplicar, é isso, trabalho sério. Mesmo que demore, o resultado vem e é isso. Lembrando da sociedade das abelhas, aquela história que no final lá elas guardam essa reserva pra passar o inverno, né, então você tem que ter um planejamento. então. Ações sem planejamento não trazem bons resultados, normalmente. Então, pra executar um bom trabalho, você tem que ter um bom planejamento e isso é fundamental. Essa é a lição que eu tiro, principalmente. Trabalho duro, leva-se tempo, mas mostra resultado e o planejamento é fundamental pra atingir essas metas.

 

P/1 – Qual o significado dessa atividade pra sua vida?

 

R – Eu acredito que eu seja uma pessoa privilegiada porque eu trabalho com aquilo que eu gosto. Isso eu digo até com muito... Apesar de algumas pessoas que eu vejo, que desenvolvem um trabalho apenas para conseguir recurso pra se manter, subsistência e tudo mais, e isso acaba virando quase que uma tortura diária, né? E isso, felizmente, não é o meu caso. E, além dessa questão, também de ser uma atividade que me sustenta, é uma atividade que me dá muito prazer.

 

P/1 – E qual o futuro dessa atividade que você vislumbra assim?

 

R – Pra região é muito promissora, tem um potencial muito grande para ser desenvolvido, para ser aproveitado como ocorreu no Nordeste. A apicultura começou pelo Sul do país, subiu pelo Sudeste, ficou um bom tempo ali, hoje aquelas regiões, Sul e Sudeste, estão saturadas, muito dessa vegetação original foi substituída, então há poucas reservas de mata silvestre, de vegetação nativas. No Nordeste e no Pantanal, especificamente, ainda há muitas regiões, há grandes áreas com a cobertura vegetal muito próxima do original, então isso é muito interessante. Dá um tipo de mel que é muito demandado, mel de origem floral silvestre, que em muitas regiões está extremamente restrito. A apicultura, hoje, é desenvolvida em muitos países, basicamente associada com a agricultura e a fruticultura e essas culturas agrícolas de maneira geral, florestais, por exemplo, o eucalipto, mas as floradas nativas são cada vez mais escassas. Esse é um diferencial da apicultura do Pantanal, por exemplo, e pra mim, eu pretendo continuar na atividade.

 

P/1 – Vanderley, bom essa atividade que nós estamos fazendo, esse seu depoimento faz parte então desse projeto de comemoração dos 200 anos do Banco do Brasil, mas antes de perguntar isso eu queria saber quais são seus sonhos?

 

R – Sonhos? Bom, um deles era o Corinthians voltar pra Primeira Divisão. Nisso eu já fui atendido. O outro agora... É metas, né, acabar o meu doutorado logo e constituir família, também, tem essa questão, tenho a namorada, tal, eu sou solteiro, mas tenho namorada e seguir isso, também, constituir família, essa questão.

 

P/1 – É porque, lidando tanto com abelha, você teve tempo de arrumar uma namorada, né?

 

R – Sim, sim.

 

P/1 – E você leva ela pra ver as abelhinhas?

 

R – Não, não. Ela até que gosta, mas nunca foi... Ela gosta mais do mel. Ela tem um pouco de temor das abelhas, mas é tranqüila.

 

P/1 – E, às vezes, quem lida com abelha deve ser assim meio docinho, né?

 

R – [risos] É, isso é só ela que pode dizer.

 

P/1 – Tá bom, bom voltando, né, então o Banco do Brasil tá desenvolvendo essa atividade para comemoração dos 200 anos, né?

 

R – Perfeito

 

P/1 – Por isso tem pessoas de cada bioma, até pra ta falando um pouco sobre isso, tá representando isso, mas a partir da sua história de vida, né, e o que que você achou de estar dando o seu depoimento, de tá contribuindo?

 

R – Interessante. Eu fico até lisonjeado de ter... Podendo colaborar. Eu achei muito interessante essa questão de dar esse depoimento, mesmo não sendo pantaneiro, né, e estando aqui, como fiquei seis... Oito anos em Piracicaba, também foi uma experiência muito boa. Tá sendo uma experiência muito boa e isso vai marcar mesmo que eu continue aqui ou não, ou vá para outra região. É uma fase da minha vida que... Uma mudança de paradigmas, né? E isso é interessante e é uma fase muito boa, tá sendo uma fase muito produtiva.

 

P/1 – E tem alguma coisa que a gente não tenha abordado que você gostaria de tá falando?

R – Eu acho que acabamos falando mais da apicultura, que acaba voltando, né, vira e mexe, mas eu acho que é isso mesmo.

 

P/1 – Mas sobre a sua vida um fato marcante que você tem que deixar registrado?

 

R – Um carinho, eu gostaria de deixar um abraço e um beijo pra minha mãe. Para os meus pais. 

 

P/1 – Então é isso nossa equipe aqui agradece o seu depoimento .

R – Tá jóia!

 

P/1 – Obrigada.


R – Obrigado.

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