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Abel Pieta

História de: Abel Pieta
Autor: Memória Local na Escola - Bom Jesus e Currais, 2015
Publicado em: 15/11/2015

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01 - Origens

Filho de pais nascidos no Rio Grande do Sul e devido a algumas dificuldades tiveram que mudar-se para Santa Catarina onde nasceu Abel Pieta em 12 - 05 – 1967. Ainda criança tiveram que novamente enfrentar uma nova viagem, agora para fora do Brasil, rumo ao Paraguai. Uma família com fortes tradições agrícolas, desde os avós até as gerações atuais todos são agricultores ou pelo menos tiveram no início, que aprender o ofício árduo, porém gratificante da agricultura, atividade milenar e muito importante para a humanidade. Além da agricultura, a família também criava suínos tanto para o consumo quanto para a venda ou troca por outros produtos ou objetos. Abel e a família moraram no Paraguai durante 20 anos. Durante todo esse tempo, o grande desejo era de voltar par o Brasil. Lá encontraram muitas dificuldades pois eram estrangeiros e não tinham direitos tais como: saúde, voto e uma série de outras coisas que são indispensáveis aos cidadãos para se viver com dignidade e respeito. Pensam que só foram coisa ruins? NÃO. Tiveram coisas boas também. Uma delas e a que nunca se esquecera, a imagem da escolinha paraguaia com apenas uma sala, um banheiro e uma cantina. As aulas eram pela manhã e funcionava da 1ª à 5ª série todos na mesma sala que media por volta de uns 10 por 08 metros quadrados e uma única professora muito bonita e sempre bem-educada. 02 - A bicicleta A família sempre teve dificuldades, mas nunca foi empecilho para batalhar e conseguir o que queriam. Assim, no Paraguai conseguiram comprar uma bicicleta que era usa por Abel para ir até à escola que era distante de sua casa por volta de uns 5 km, caminho que era feito todos os dias sempre à companhia de alguns alunos e principalmente por uma colega de classe, já que a sala era única e funcionava cinco turmas. Como Abel ia sempre de bicicleta, sempre convidava Cíntia, uma jovem bonita, porém, muito fechada não aceitava a carona nem dava bola. E Abel pensava consigo, - Um dia desses ainda te levo na minha garupa ai, não vou mais deixar de te dar carona. Foi com esse pensamento e muita insistência que um belo dia aquela paranaense que também foi morar no Paraguai resolveu aceitar a carona e daquele dia em diante sempre iam de bicicleta para a escola. Dessas idas e voltas nasceu uma bonita amizade e por fim um belo relacionamento. Começaram a namorar ela estudava na 4ª e ele na 6ª série os pais concordavam com o relacionamento até que um dia resolveram comunicar aos mesmos que gostariam de se casar e formar uma família. Após a decisão, foi marcado o dia do noivado que foi na casa dos pais de Cíntia. Abel nunca se esqueceu daquela noite de natal do ano de 1989 um jantar onde se reuniram as duas famílias e em meio ao churrasco pedi permissão para falar, foi dado a palavra e com um pouco de medo e meio trêmulo pedi Cíntia em casamento e pouco tempo depois já estavam casados. Um ano depois já tínhamos a nossa primeira e única filha de nome Jéssica. 03 - Primeiro dia de aula no Paraguai Ainda que meio perdido sem conhecer ninguém e em terra desconhecida foi Abel para o seu primeiro dia de aula no Paraguai. Chegando lá, deparou-se com outras crianças que tinham costumes diferentes, brincadeiras diferentes, roupas e até a forma de falar era diferente. É aí que inicia algo que nunca mais esqueceu em toda a sua vida. Era dia de leitura e a professora como todos os outros queria saber qual era o grau de conhecimento dos alunos novatos inclusive de Abel, brasileiro e aparentemente muito inteligente. Depois de algumas crianças paraguaias fazerem as leituras, pedida pela professora, chegou a vez de Abel. E ele quase que não se segurava mais de tanta ansiedade cada aluno que lia aumentava mais ainda a angustia infinita e perturbadora, era tanta vontade de fazer pipi que não sabe se não fez, involuntariamente, boca seca, coração acelerado e voz trêmula. Aí chegou sua vez e vem logo a primeira palavra “ TRABAJO” … e como já mencionamos anteriormente, a língua também era diferente da ensinada e aprendida no Brasil. E sem sombra de dúvida, Abel pronunciou como se pronuncia o som do ( J ) aqui no Brasil e leu “ TRABAJO”. A professora querendo tirar a dúvida que pairava sobre a sala perguntou novamente. Abel pronuncio um pouco mais forte “ TRABAJO”. Aí foi risada, risada atrás de risada dos colegas de classe. A princípio, não entendeu os motivos de tanta risada. Com o tempo é que entendeu, algumas letras no Paraguai tinham sons diferentes das usadas no Brasil, uma delas é o J. Que no Paraguai tem som de R. Então, a palavra “TRABAJO” lá se pronuncia “TRABARRO” Foi constrangedor, porém aprendeu. 04 - O presente Como já falamos anteriormente, a família era pobre e devido sermos 10 irmãos pela ordem de nascimento (Aneli, Adeni, Carlos que é sócio da nossa empresa e que mora no Paraguai, Luiz, Elvi, Derci que mora no Pará, Heloi, Abel, Igor, Maria que também mora no Paraguai ficava muito difícil termos tudo o que queríamos em tempos difíceis era comum as roupas, calçados, brinquedos dos irmãos mais velhos serem usados pelos mais novos Com isso, tinha um grande desejo de ganhar um presente, a oportunidade veio aos sete anos de idade. A professora sugeriu que fosse feito um amigo secreto e assim se fez. No dia combinado com muita ansiedade Abel pensava consigo: - Hoje ganho meu primeiro presente. Após dar seu presente, Abel muito muito inquieto recebeu uma caixa bem embrulhada de um colega de uma série a mais que a sua na época do acontecido. Após abrir a caixa, uma surpresa: dentro não havia presente nenhum e sim um grande sapo feio e daqueles que dar muito medo. Começou a chara sem parar. E o sentimento de alegria que antes era visível deu lugar a um enorme trauma que só foi libertado a pouco tempo só depois que chegou ao Piauí. Durante todo esse período não conseguia abrir os presentes que ganhava. Há! Quer saber o que aconteceu com o sapo? Depois que não me aguentava mais, de tanto choro, a professora pegou a caixa com o “ presente” e sugeriu que fosse jogado no rio que perto da escola passa. Assim foi feito, mas depois de muito medo. Por volta dos 8/9 anos, agora felizmente depois de muito tempo conseguiu ganhar o seu primeiro presente, e não foi sapo não. Fio uma bola do irmão mais velho. Ele estudou em uma escola agrícola se formou em engenheiro agrônomo conseguiu juntar um pouco de dinheiro e comprou uma bola que foi o primeiro presente de Abel. Foi tanta alegria que toda e qualquer folga que tinham sempre es estavam lá brincando de futebol. 05- O sonho Como tantas outras crianças, Abel tinha o sonho de ser jogador de vôlei. Até que era bom jogador, mas a estatura de mais ou menos 1.60 m não é ideal para jogador profissional de vôlei. Tentou, mas a natureza não o ajudou. Foi quando resolveu investir em um outro sonho, o de ser jogador de futebol. Novamente um outro empecilho, como ele queria ser goleiro a estatura também não o ajudava muito pois para um bom goleiro é necessário ter o mínimo de 1.80 m, o que não era o caso de Abel. Ainda hoje, tem esta atividade como uma boa forma de praticar esportes exercitando corpo e mente além de ser uma boa forma de juntar os amigos. Outra brincadeira que ele também gostava era de jogar pingue-pongue. Brincadeira onde dois jogadores com raquetes, um de cada lado da mesa, uma rede de mais ou menos 2 palmos de altura e uma bola. Pronto, era diversão que não acabava mais. 06 - Dificuldades no Paraguai No Paraguai era bom, dava para viver. Mas, muitos fatores contribuíram para o retorno, da família de Abel para o Brasil depois de 20 anos morando em terras paraguaias. Como eram estrangeiros imigrantes, e em tempos diferentes dos dias atuais, não tinham direitos de votar, não tinham direitos à saúde, enfim, não eram cidadãos daquele país. E por fim o motivo principal, a falta de terras para expandir a plantação. O retorno para o Brasil era algo inevitável. E assim foi feito. Chegado o dia da partida momentos muito tristes pois estavam deixando toda uma vida construída e que eram obrigados a deixar tudo para trás e seguir uma nova direção incerta, porém, agora, no pátria amada Brasil. Amigos, parentes, conhecidos todos choraram no momento da partida inclusive a família de Abel. Saem de Paraguai direto para o estado da Bahia, lá passaram uma temporada e por intermédio de um irmão descobre que no estado do Piauí havia terras, serrados próprios para o cultivo de soja, feijão, milho, etc. E assim, novamente, é necessário uma nova mudança, agora definitiva, para o Piauí de onde não querem mais sair pois encontraram aqui, além de terras, gente simples, trabalhadora e acolhedora. 07 - Curiosidades Ao chegarem em terras piauienses, por volta do mês de junho, já havia sessado o período chuvoso na região sul mais precisamente na cidade de Currais-PI. Com isto, enfrentam uma longa seca até por volta do mês de novembro o que para a região é absolutamente normal. O tempo já é, por si só, muito quente e sem chuva a coisa tende a esquentar mais e no alto da serra era pior ainda. Vieram as primeiras lamentações, lugar que não chove, muito quente, sem água na propriedade, mas persistiram e não desistiram do Piauí. Até que em um belo dia algumas nuvens se formaram no lindo céu curralense e veio a tão esperada chuva. Foi tanta a alegria de ver novamente a chuva que praticamente toda a família de Abel saiu para ser banhado por tão belo e precioso presente de Deus, a chuva. Abel pulava tão alto, de tanta alegria, que mais parecia uma criança nos tempos do Paraguai. Toda essa euforia tinha seus motivos é que no sul, de onde vieram, o período de estiagem é menor e praticamente não tem verão, daí o motivo de tanta alegria. Alguém, em meio à chuvarada, gritou: - Aqui também chove! Uma outra curiosidade piauiense, até então desconhecida pela família de Abel foi no que diz respeito ao nome dos que aqui habitavam. Por exemplo: João Filomeno das Colheres. Isso porque no sul é comum a pessoa ter um nome e apenas um sobrenome, que é o sobrenome do pai. Exemplo: Abel Pieta, nome do entrevistado deste livro. 08 - A filha O casal Abel e Cíntia tiveram apenas uma filha, Jéssica. Bem que queriam ter mais filhos, acontece que a esposa de Abel já havia perdido a primeira filha e logo após o nascimento da segunda, Jéssica, Cíntia foi consultada pelo médico que a informou que não poderia mais ter filhos uma tristeza, a pois o casal pensava em uma família maior. Jéssica é para toda a família um grande exemplo de superação e determinação. Teve que sair de casa muito cedo para estudar em Teresina -PI. Isso aos 13 anos de idade uma criança ainda. Foram anos de angustia, saudade, choros... Em Teresina foi morar em uma pensão. Todos os dias conversava com os pais por telefone que abençoava e desejava muita sorte. Jéssica só tinha a oportunidade de ver os pais de seis em seis meses quando entrava de férias ou quando eles iam visitar. E, depois de muitos anos de estudos e muita perseverança a menina chorona e dengosa consegue se formar em Fisioterapia, um grande sonho realizado. Hoje, Jéssica, é funcionária pública concursada na cidade de Bom Jesus-PI onde exerce a profissão pela qual foi formada, fisioterapia. Tem um belo serviço prestado na cidade que é de atender um dia por semana meio expediente pessoas de baixa renda que não tem como pagar uma consulta. Tudo isso sem cobrar absolutamente nada pelo serviço. 09 - Considerações finais Abel hoje é empresário no ramo da agricultura juntamente com outros irmãos que são sócios e que atuam tanto aqui na Fazenda União, Currais-PI, quanto no Paraguai. Tudo no seguimento de grãos como soja, milho, arroz, feijão, sorgo, milheto. Abel também presta serviço ajudando famílias carentes do município bem como serviços sociais. A esposa de Abel D. Cíntia além de ajudar nas inúmeras atividades da empresa é também ministra da eucaristia função que exerce na capela de São Pedro em Bom Jesus. “Em cima da serra a gente é mal visto como os gaúchos que estão acabando com o cerrado. Eu diria que não é isso não. Desmatamos sim pois é necessário, mas desmatamos de forma como mando a lei e sempre respeitando o meio ambiente. Não nascemos aqui, mas foi aqui que fincamos nossas raízes e escolhemos para morar, não pensamos em ir embora nunca mais, pois o Piauí nos adotou e nós adotamos Currais-PI”. (Abel Pieta)

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