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História

A voz para o mundo

História de: João Carlos Amaral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2022

Sinopse

João Carlos Amaral nasceu em Ribeirópolis, Sergipe. Morou num sítio, sem eletricidade no povoado de Malhada. Aos 6 anos mudou-se com os pais e os 5 irmãos para Barra Bonita. Filho de João do Amaral e de dona Neusa Santos Amaral. Os pais eram lavradores e cedo ele começou a ajudá-los, já que a família era grande. Pequeno ainda, sofreu um acidente com arame farpado, que o deixou sem a visão de um olho e com catarata. Um professor percebeu sua baixa visão, fez uma cirurgia e depois pôs uma prótese ocular. Conheceu a esposa em Brotas e teve um filho, John Lennon de Godoy Amaral. Sempre teve o sonho de ser locutor. Trabalhou em diversas áreas até ter seu sonho realizado. Trabalha com tecnologia numa escola e como locutor numa rádio da cidade. Montou seu próprio estúdio de gravação de vinhetas e jingles na sua casa.

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História completa

Eu morei até os meus seis anos em um sítio sem iluminação em Ribeirópolis, no estado de Sergipe, num povoado que chamava Malhada. Mesmo quando era criança, de sete para oito anos, eu ajudava os meus pais no carro de boi, tinha uma casa de farinha, que a gente fazia farinha, eu estava sempre ali junto, histórias que apareciam na casa de farinha, lobisomens, saci-pererê… Não sei se era verdade, mas a gente ouvia. Lembro que um dia minha mãe estava plantando uma flor e cortou um pedaço de arame que ficou no chão dobrado e fui tentar desdobrar. Peguei aqui assim, puxei, escapou, bateu no olho. Eu sofri uma lesão em um dos olhos, e nós viemos para Barra Bonita em busca de recursos. Eu tive catarata depois dessa lesão, e só fui descobrir que tinha baixa visão na escola depois de muito tempo, porque o professor percebeu que de um lado eu não enxergava direito. Hoje eu sou visão monocular, eu uso uma prótese de silicone onde era o olho. O início da vida em Barra Bonita não foi fácil não. Eu era o mais velho e eu tinha que ajudar meus pais, foi difícil. A minha mãe lavava roupa em um circo, ela me colocava na arquibancada durante o show, e eu vendia bala, chiclete, pipoca, tinha seis para sete anos. Eu vivi bastante essa vida do circo, via os espetáculos, tinha vontade de participar, até de ser alguém da área do circo. Eu via o cara falar, o locutor, “respeitável público!” e aquela coisa toda e eu falava assim, um dia eu vou fazer parte disso. O meu primeiro serviço que eu me recordo foi atrás de um caminhão de lavagem, para dar comida para os porcos, resto de comida. Catava lavagem nas casas num balde que eu nem conseguia carregar. Depois trabalhei de noite em uma empresa, chegava às sete horas da manhã para estudar e cochilava na carteira. Toda hora minha professora ia lá, oi Amaral, oi João, tudo bem? Está tudo em ordem? Nessa época eu catava bituca, resto de cana, o pessoal corta a cana e fica aqueles pedacinhos, e a gente catava, juntava a noite toda das seis da tarde às seis da manhã. Ela não sabia que eu tinha chegado do serviço. Difícil… Tive diversos trabalhos. Trabalhei como almoxarife da área de peças numa empresa de eletrônicos, depois como técnico, depois numa empresa de ônibus como fiscal de linha. Fui sonoplasta, separava os discos, mas sempre focado no que eu queria ser, locutor. Só que eu tinha uma gagueira psicológica, eu não falava direito, eu não podia ser locutor, mas eu ficava sozinho dentro do estúdio treinando, chegava os textos para o locutor e eu tinha que chamá-lo. Só que antes de chamar eu gravava, eu fazia uns testes. Aí surgiu uma chance para fazer fono, para aprender falar na empresa, a empresa deu a chance para quem tinha esse tipo de problema, e eu fui, fiz fono dez anos, aprendi a falar de novo. E um belo dia eu fiz uma gravação com o prefixo da rádio, gravei em um rolo que esqueci de apagar, ficou gravado lá, e o gerente foi ouvir as gravações e tinha essa voz lá, que ele não sabia que era minha. Ele me chamou e falou: “De quem é essa voz aqui?” “É de um cara de São Paulo que passou por aqui”… eu tinha vergonha. Ele falou assim, “Nossa, que voz legal”. Eu falei, é? Você acha? “Nossa, legal, fala bem para caramba. Quando ele passar de novo aqui, pede para ele gravar mais umas vinhetas.” Só que ele não sabia que era eu. Aí um belo dia ele pegou eu gravando, abriu a porta, entrou e falou: “Ah então o locutor de São Paulo é esse?”. Falei “cara, eu acho que eu não tenho chance…” “Tem sim, tem sim, você vai fazer o meu programa.” Aí eu fui fazer, era gravado. Ele separava as músicas, eu entrava no estúdio, gravava, tudo bem, até o dia que eu quis fazer ao vivo, fiz ao vivo, foi top, um sucesso, falava horas, as pessoas ligavam. Ele falava: “Caramba, eu coloquei o cara certo lá, coloquei o cara certo”. Depois montei um estúdio de gravação na minha casa. Faço locução para lojas, empresas do mercado de varejo, gravo vinhetas, jingles para cinco estados no Brasil, além do meu serviço fixo em escola, na área de tecnologia, como gestor de TI. A minha vida foi bastante sofrida, mas teve o lado bom, as conquistas, eu sempre procurei, eu nunca fui aquela pessoa que vou fazer só por fazer não, vou fazer para galgar outros espaços, os degraus. Foi luta, eu matei vários leões e me superei de várias passagens da vida. Sempre fui uma pessoa que correu atrás de algo para no futuro ter uma vida mais estável. Eu me sinto orgulhoso de tudo que fiz para trás, desde o catador de lavagem do baldinho até hoje, eu me olho assim e falo, puxa vida, eu fiz isso, isso, isso, isso. Olha aonde que eu vim parar. Então me superei.

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