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A voz do locutor: escolher seus representantes políticos é um exercício democrático

História de: Valter A ngelo de Lima
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Desde a infância, Valter Lima aprendeu a observar as oportunidades de trabalho. Na Polícia Militar, identificou a sua vocação para locutor. Foi repórter policial por 21 anos. No rádio jornalismo contribuiu para o fortalecimento da autonomia política de Brasília. Como jornalista trabalhou nas Rádios Planalto, Alvorada, Justiça e Nacional.

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História completa

Memória Compartilhada a Luta pela Autonomia Política do DF Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Valter ngelo de Lima Entrevistado por Eliete Pereira Brasília 10 de março de 2009 Codigo: MDF_HV020 Transcrito por Keila Barbosa Revisado por Esalba Silveira P/1 – Valter Lima, bom dia!!! R – Bom dia! P/1 – Agradecemos a sua presença, por estar aqui conosco, neste projeto. Primeiramente eu gostaria que você dissesse o seu nome completo. R – Olha, meu nome é Valter ngelo de Lima. No Rádio, abreviei para Valter Lima, e venho utilizando esse nome dessa forma. P/1 – E o local e a data de nascimento. R – Eu nasci em Anápolis. Eu costumo dizer que é a cidade mais bela do mundo, e, quem quiser conferir, é só chegar lá. Fica aproximadamente a uns 120 quilômetros do centro de Brasília, perto de Goiânia. Uma cidade agradável. P/1 – E qual a sua atividade atual? R – Eu sou funcionário da Radiobrás, sou âncora da Rádio Nacional, também presto serviços na Rádio Justiça, que é a emissora do Poder Judiciário. Então, atualmente são estas atividades que eu estou desempenhando. P/1 – Valter, qual o nome dos seus pais? R – Meu pai, Adão ngelo de Lima, um goiano de Trindade, uma cidade próxima de Goiânia; e minha mãe, uma baiana, do sertão baiano, não poderia ser diferente: Dalva de Souza Lima. Uma pessoa do lar, uma pessoa semi-analfabeta, mas que tinha, assim, um conhecimento profundo de vida e principalmente com relação às suas crias. Eu tenho mais quatro irmãos, e ela era aquela pessoa que, enfim, cuidava de todo mundo, não deixava faltar nada, super protetora, acima de tudo consciente e principalmente com o futuro dos filhos. Por isso é que ela colocava todos para estudar, para que quando crescesse pudesse ser alguma coisa na vida. P/1 – Valter, e você chegou a conhecer os seus avós? R – Conheci avô paterno, apenas ele, os avós...aliás, conheci avô materno, os paternos não cheguei a conhecê-los, né, porque... até meu pai pouco conheceu do pai dele, porque ele estava apenas com 6 anos, quando lá em Trindade, o pai dele, meu avô, teve que sair, para poder ganhar dinheiro para poder sair da fazenda onde ele estava trabalhando; aquela história né, de trabalho escravo, aquela coisa toda, né? Então, como ele trabalhava e nunca ganhava, mas estava sempre devendo, mas ele teve que sair, mas para sair ele teve que deixar como refém a esposa, que é minha avó, e o meu pai, que era, então, uma criança, né? Então, ele ficou, enfim, de ganhar dinheiro lá fora, voltar, efetuar o pagamento que ele devia e resgatar, então, a família. Só que ele foi, e não teve condições mais de voltar, né...é claro que meu pai era muito pequeno, a esposa dele que era mãe do meu pai, deve ter tomado algum conhecimento, alguma notícia, porque naquele tempo era muito complicado. A comunicação não existia, né... o pessoal fazia viagens a pé, né, então, por isso é que era muito complicado esperar uma carta, esperar um telefonema, nem pensar, né... Então o tempo foi passando, meu pai aos 18 anos perdeu também a mãe e foi então criado pelos outros tios, e primos, foi quando ele então casou e saiu de Trindade e veio para Anápolis, e lá então ele formou a sua família. E do lado da minha mãe, extremamente pobre também, nesta cidade de Santana, onde ela perdeu a mãe muito cedo. Era ela mais três irmãos, os mais velhos foram casando e foram embora, e ela ficou, ainda menina, sendo cuidada pela avó. Então foi nessa que meu avô ficou viúvo, e então veio a pé de Santana, até passando aqui por Brasília, que não tinha nada por aqui ainda, foi na década de 1940, alguma coisa nesse sentido, e rumou, então, para Goiás, onde ele conseguiu chegar até Trindade, lá ele se fixou, né? E lá ele constituiu nova família, vieram outros filhos, e ele precisando então de alguém que pudesse cuidar desses filhos mais novos, então voltou a Santana e trouxe a minha mãe, que tinha na faixa dos 12, 13, 14 anos, né? Eles vieram pelo Rio São Francisco, pararam em Minas Gerais, e de lá, então, conseguiram, não sei, que tipo de condução, vieram parar até Trindade. Então, essa é mais ou menos a história, né... A história do meu pai... os meus avós, eles eram de Formosa, os avós dos meus pais, né... o meu avô, é claro, saiu de Formosa também e foi para Trindade. Nesse meio tempo a mãe do meu pai, com a família toda, o pessoal veio de uma cidade perto de Paracatu. Meu pai falava nome de Estrela do Sul, não sei se existe, e eles vieram a pé para Trindade. Quer dizer, eles foram se encontrar todos em Trindade. O pessoal saindo aqui, da parte do meu pai, saindo de Formosa, indo para Trindade, e parte da minha mãe saindo perto de Paracatu e indo também para Trindade. Só que um fato interessante, é que em Trindade, a família do meu pai, ou seja, do lado da mãe, a família se reuniu, achou então de juntar o dinheiro que eles tinham ou conseguiram juntar, vendendo a terra que eles tinham, o gado que eles tinham, pouca coisa que eles tinham. Eu conversei muito com o meu pai, mas eu quero entender que quando a família se juntou, ele falava pouco, porque ele pouco sabia, mas eu acho que tinha acabado aquele processo de escravidão, aquela coisa toda, o pessoal estava meio que disperso, não sabendo o que fazer da vida, né? Então eles tinham uns tios muito inteligentes, mas sem estudo também, né... inteligente para a vida. Então eles conseguiram formar lá uma, alguma coisinha em termos de posse e conseguiram vender, só que eles achavam que ali não era o lugar para eles. E ele estava escutando muito falar de Trindade, de Goiânia, que ainda ia ser criada, que até então a Capital de Goiás era Goiás Velho, não tinha Goiânia ainda. Então o que eles fizeram? Nesse ramo do meu pai, por parte da mãe, o pessoal se juntou, viu o dinheiro que tinha, colocou na mão de uma pessoa que passou por lá e disse que conseguiria comprar as terras em Goiás, e o pessoal confiou. Na realidade, estava caindo num baita de um golpe, só que eles foram descobrir o golpe quando eles chegaram para ocupar a terra. Quando eles chegaram em Trindade para ocupar a terra, achando que ali era a terra deles... e quando eles chegaram, claro, os “coronéis da vida” falaram: “Esse aqui nos pertencem, então saiam senão eu mato, aquela coisa toda, então dispersou essa parte da família do meu pai. Então, os meninos, que até então... as moças foram trabalhar de doméstica, os homens foram virar peão de fazenda. Então, foi nessa, que a minha avó passou a ser lavadeira de uma fazenda, cozinheira. O meu avô que tinha vindo de Formosa, era um misto de trabalhar na roça e na cidade, e ficou conhecendo a minha avó, aquela coisa toda, e se casaram. Só foi possível ter o meu pai, então. Porque as outras crianças como que ele falava: “nascia e morria, nascia e morria”. Devia ser aquele problema de saúde pública, não existia na época saneamento básico, nem pensar. Como dizia meu pai: “Só vingou ele”. Ele não conheceu irmãos, não conheceu mais ninguém. Então, essa é a parte da vida dos meus pais, como eles se conheceram, através dos meus avós. Então, interessante é que meus bisavós, pai do meu avô, pai do meu pai de Formosa, faz uns dez anos atrás, eu fiquei sabendo que tinha um ramo da família do meu pai em Brazlândia. Nem ele sabia, ele achava que não tinha mais parente nenhum no mundo a não ser os primos, que ele conhecia. Aí eu fui atrás em Brazlândia e consegui localizar um primo dele, que era filho de uma irmã do pai dele, né? Então foi aquela alegria muito grande, aquela coisa toda, e nós fomos até Planaltina de Goiás, numa área de fazenda, onde até hoje a família tem terras, que eram dos meus bisavós. Terras que são registradas na igreja, porque na época não tinha cartório e o registro foi feito então, pelo que eu soube, na Igreja de Luziânia... e o interessante é que até hoje eu tenho primos ocupando a terra, eu não sei o tamanho dessa terra, meu pai... até o primo dele falou “se ele quisesse reivindicar a parte dele”... meu pai não ia mexer com isso, para quê? Ou seja, eles estão tomando conta. Fui no túmulo dos meus bisavós, que são sepultados nessa terra. Foi um dado interessante, então ele encontrou mais parentes, por parte de pai em Goiás, até mesmo aqui em Brasília. E foi um aspecto interessante. P/1 – E você tem irmãos? R – Tenho, eu tenho... são cinco. Eu tenho um irmão mais velho, chama Wilson, tenho uma irmã, depois dele chama Wilma, tem eu, depois tem a Waldete e depois tem a Walquíria. Então nós somos em cinco, todos já avós, pais, todo mundo aí, cada um cuidando da sua vida. P/1 – Valter, eu vou pedir para que você me diga novamente a sua data de nascimento. R – Eu repito, com todo o prazer: 26 de dezembro de 1950, um dia depois do Natal. E eu ficava chateado da vida porque eu ganhava só um presente, né [risos]. P/1 – Valter, e você, nasceu, em Anápolis? R – Exato. P1 – Você viveu toda a sua infância em Anápolis? R – Olha, a infância sim. Nasci lá, estudei lá, enfim, uma infância gostosa, mas, aquilo que eu ia te falar, tinha uma mãe muito protetora, não que ela escondia, mas ela procurava suavizar a gente das dificuldades que o casal enfrentava, não é? Quer dizer, o pai pedreiro, o meio de locomoção dele era uma bicicleta. Você imagina, né, ele ter que sair cinco horas da manhã, pedalando uma bicicleta debaixo de chuva, ou na volta debaixo de sol, distante... de casa para o local de trabalho. Enfim, então a vida era essa e a casa que a gente tinha depois de sair dos aluguéis, ou então morando de favor, foi um terreno que então, depois de um... eu era bebê... minha mãe falava que eu era bebê, né, e tinha uns dois irmãos mais velhos, ainda pequenos: um mal começou a andar, a outra mal começou a falar e eu já era o terceiro que ainda nem engatinhava. Então, foi mais ou menos nesse ritmo, que ele adquiriu um terreno, numa parte distante do centro, que hoje, é praticamente centro, mas naquela época, na década de 1950, era realmente muito distante. Então, o que ele fazia: ele trabalhava durante o dia todo, e à noite, ele e mais a minha mãe iam para esse terreno... Minha mãe fazia a massa, aquela coisa toda, colocava o tijolo lá perto dele, e ele então foi começando a construir a casinha dele assim...aproveitando a luz da lua, quando não chovia, colocava um pano no chão para as formigas não me comer, não me picar; os irmãos pequenos ficavam por ali, tipo, brincando... Foi dessa forma que a gente conseguiu a nossa propriedade, a nossa moradia, depois de estar morando de favor. Então era assim. Eu cresci estudando em escola pública, grupo escolar, essa coisa toda, mas antes do grupo escolar, a família era evangélica, e meu pai, ele tinha, assim, uma habilidade muito grande na profissão, então chegou um grupo de americanos em Anápolis, na década de 1950 Goiás era cheia de americano. Eu não sei por que, mas eu sempre via lá o pessoal ocupando fazenda, eles ficavam muito no campo das igrejas, levando também a educação, criando escolas, tanto que uma das escolas, uma das principais de Anápolis, que é o Colégio Couto Magalhães, hoje já foi transformado inclusive em Universidade, quem construiu foi o meu pai. Meu pai, mais um primo, quer dizer foi a família: ele e mais uns três ou quatro primos, que eram umas pessoas de frente, né? Então, essa escola tinha uma igreja que ficava um pouco distante de onde estava sendo feita esta construção. Pois bem, nessa escola o pessoal resolveu então dar aulas, ou seja, transformou numa escola, na escola fundamental, alguma coisa assim. E como o meu pai era uma pessoa...uma pessoa do agrado desse pessoal, que estava construindo, essa grande escola em Anápolis, então, permitiu que a gente estudasse também nessa escola particular. Era uma bolsa que a gente recebia, e pronto. E, nessa grande escola que foi construída, quem usufruiu bem foi um primo meu. Depois da escola pronta, o pessoal tinha assim uma certa consideração com os meus parentes, e vendo as nossas dificuldades, fez com que um dos meus primos permanecesse nessa escola grande, que era uma escola só da elite de Anápolis. E, ele, claro, aproveitou bem os ensinamentos, ele trabalhava lá, e na hora da aula ele ia pra sala. Pagava, entre aspas, a sua permanência na escola com o seu trabalho, mas não tinha dificuldade para livro, nada, tinha tempo para estudar e acabou se transformando em um médico. Estudou bastante, fez o vestibular na Universidade Federal de Goiás, passou em Medicina e hoje é professor dessa mesma Universidade, então é isso. Eu continuei em Anápolis, lá fiz o ginásio e escolar em colégio público, isso eu já estava trabalhando desde os oito, nove anos, né? P/1 – No que você trabalhava? R – “Iiii bichinho...” eu trabalhava lá de muita coisa, eu comecei... veja só, tinha um campo de futebol lá perto de casa, o Manoel Demóstenes, imagina o campo, um chão... não tinha grama não. Um chão puro, é claro, tinha todo uma estrutura de um estádio, aquela coisa... para mim era um Maracanã. Não conhecia outra coisa e lá eu via grandes partidas de futebol. Anápolis contra os times de Goiânia, ou então contra um time de Minas Gerais, ou então um time até mesmo do Rio de Janeiro... aqueles times de quarta divisão, mas era do Rio de Janeiro... era tudo o que a gente queria; e, para eu ter acesso ao campo, o que eu tinha que fazer? Pular o muro, né, por quê? Por que não tinha dinheiro para pagar o ingresso, e criança lá, o pessoal não queria nem saber, tinha que pagar. Só que é aquela história: eu pulava o muro para eu poder assistir à partida, mas ao mesmo tempo, eu me viria lá dentro, porque mais tarde tinha um cinema que eu também queria assistir, mas também não tinha dinheiro. Então o que eu fazia? Eu chegava junto àqueles carrinhos em que o pessoal vendia melancia, vendia abacaxi já pronto para o consumo, colocavam as peças na bandeja, e eu saía vendendo. Então eu acho que eu vendia, tipo, uns 50 pedaços de abacaxi, para ganhar hoje quase um real. Pra mim era tudo o que eu queria, e o cinema custava 50 centavos. Eu passava o dia e não via jogo nada, ficava ali vendendo esse tipo de coisa lá para o pessoal e no final da partida, eu tinha o meu dinheirinho, e ainda via o finalzinho do jogo, e depois ia pra casa tomar banho, e então ia para o cinema. Um episódio interessante, é que uma vez eu ganhei um dinheiro, não sei se foi vendendo gibi, aquelas revistas assim em quadrinhos, isso na parte da manhã, na porta do cinema, eu gostava de ler aqueles gibis. Não tinha tempo de ver televisão, não tinha nada, a diversão da meninada era o tal do gibi, e o grande lance, era você chegar na praça central, onde tinha o principal cinema, para você ver, fazer a troca de gibis. De repente você tinha um monte de gibis que ia trocar com os meus, tinha uns que só vendiam, outros só trocavam quando eu via que eu tinha aqueles que interessavam bastante, eu não trocava, eu vendia. Foi assim que eu consegui uma grana, então eu falei “dessa vez eu não vou pular o muro não, dessa vez eu vou pagar o meu ingresso, vou assistir ao jogo tranquilo”. Entrei na fila, comprei o meu ingresso, fui claro, para o meio do povo também não vou vender nada, só quero assistir ao jogo. Mas aí me deu na ideia e falei: “Quer saber de uma coisa? Deixa eu ir lá ver como é que os meninos que pulam o muro, como é que eles estão passando o sufoco, para ver a, porque você tinha que pular o muro e correr, porque tinha vigia, e você tinha que entrar no meio do povo para se esconder. E eu fui para lá para ver, o sufoco dos meninos e rir, coisas de menino, né? Só que quando eu me aproximei da área, um dos vigias olhou para mim assim, e falou: “Vem cá, volta...”, eu falei: “Voltar para onde?” “Você pulou o muro...”, eu falei: “Não pulei o muro, eu paguei o ingresso”. Só que naquele tempo você dava o papelzinho, e não ficava com nada de recibo. “Volta porque senão eu vou dar umas...” eles andavam com um chicote na mão... “Senão eu vou ter que dar uma chicotada aqui em você” “Mas por quê? Eu paguei.” “Não pagou...” Resumindo, eu tive que pular o muro de volta, porque não acreditou que eu estava falando a verdade. É claro que eu pulei o muro de volta, mas no primeiro vacilo eu pulei lá dentro de novo, me escondi no meio do povo, aí não quis ficar mais ali para ver o que o pessoal estava fazendo. Então são esses episódios interessantes. Nesse mesmo campo, eu gostava muito de bola, eu jogava bastante bola, só que era muito franzino e o pessoal tinha medo até de me quebrar pelo meio, então eu acabei não progredindo no futebol por conta disso. Depois você fica imaginando por que você era magrinho, desdentado, aquela coisa toda, às vezes com problema sério de visão. Naquele tempo, coitado dos meus pais, não tinham dinheiro para nada, de repente eles ficavam sem comer para a gente comer. Tudo isso depois você fica um pouco mais maduro que você começa a perceber a importância destes detalhes, né? Então foi dessa forma que eu comecei a compreender bem como era a minha vida. Uma vida onde eu tinha vizinhos que comiam bem, porque era um servidor público, trabalhava na rede ferroviária que era um dos melhores empregos públicos que tinha na época, tanto é que mensalmente, chegava uma composição de trem, e essa composição era como se fosse uma cooperativa, em cada vagão, é como se fosse um supermercado. Então cada vagão tinha um determinado tipo de produto e essas pessoas compravam, tipo, no atacado: saco de arroz, caixa de óleo, caixa de bolacha, enfim, essa coisa toda, e nós éramos, um quilo, meio quilo, essa coisa toda. Foi numa dessas que eu fui conhecer o que era coca-cola, que até então eu não sabia o que era isso. Foi numa dessa que o coleguinha da casa da frente, onde iria ter uma festinha lá, ele roubou da casa dele uma coca-cola e a gente bebeu escondido. Bebi aquilo de uma vez só, puro gás, quase que eu sufoquei, não gostei muito na primeira impressão que eu tive, enfim, então foi assim que a vida foi tocando. Fui crescendo, já estudando, aí meu pai: “Você tem que trabalhar, você quer acompanhar a minha profissão...” quer dizer... então, ele me levava para o serviço dele, para carregar tijolo, porque naquele tempo, o pensamento dos pais era o seguinte: criança à toa em casa vai querer fazer arte, vai querer aprontar, vai querer, enfim, vai querer fazer coisa que não deve. Então, ele levava, ou pelo menos no meu caso, ele me levava para poder trabalhar. Porque o meu irmão já trabalhava no mercado como balconista. Eu ia para o canteiro de obras para trabalhar com ele, mas eu era muito danado. Quando eu chegava já simulava que eu estava com uma dor de dente, tinha dor na perna, dor na barriga, alguma coisa assim. Ele me olhava assim, aí eu simulava de um jeito e ia embora para casa. Aí minha mãe era minha cúmplice, quando eu chegava em casa e minha mãe: “O que é que foi?” E ele não entendi, né... de lá mesmo que já ia pro campo, para jogar bola. Às vezes meu pai ia atrás para saber se eu estava mesmo em casa, aquela coisa toda, e quando não me achava, às vezes, eu era premiado também com surra. Porque mentia, esse tipo de coisa. Mas foi uma infância legal. Desse trabalho, com ele, eu saí, e fui trabalhar com um primo dele que tinha um açougue... imagina... meu trabalho: limpar tripa de porco. Era isso que eu tinha que fazer, e o pior, na madrugada, porque esse primo meu começava a trabalhar não sei por que, as 10 horas da noite, então ele tinha que chegar, tipo às 18 horas, depois da escola, aquela coisa toda, tinha todo um processo para limpar essas tripas, ahhh... e depois aquilo ia temperar a carne. É uma linguiça até gostosa, até hoje sinto o cheiro dela, [risos], um bocado de tempo para trás, e depois interessante é que essa linguiça, ele fazia de forma artesanal, tinha toda uma estrutura, era tudo limpinha aquela coisa toda... e ele trazia para Brasília. Então muita gente na década de 1960 comeu linguiça que eu fabricava, de alguma coisa eu ajudava a fazer ali em Anápolis. Então depois também deixei, era muito difícil: trabalhava de noite, trabalhava de madrugada... falei: “Ó pai, para mim não dá, é complicado”. P/1 – Você tinha quantos anos? R - Eu devia ter uns 12 anos. Então foi mais ou menos nessa época que eu saí de lá, aí fui ser entregador de “bujão” de gás, aí já foi um emprego melhor, né, [risos]. Trabalhava de manhã, e à tarde ia para a escola. Era mais ou menos isso. Só que, imagina, você aqui na Asa Norte e entregar um bujão de gás em Sobradinho. Era mais ou menos assim, para ganhar o equivalente hoje a dez centavos por cada bujão que você levava. Se você levava o “bujão” por um quilômetro seria interessante. Mas era o emprego que tinha. Então eu fiquei um certo tempo nessa atividade, até que eu fui promovido. Meu irmão já trabalhava no mercado, ele ficou sabendo que no armazém do lado alguém estava precisando de um balconista. Aí eu fui. Fui pra lá e fiquei dos 13 anos, por aí, até os 17 anos, foi quando eu vim embora para Brasília pra servir a Aeronáutica. Foi então que a minha vida começou, realmente, a ganhar contornos, começou a mudar. Eu aqui em Brasília consegui realmente me engajar na Aeronáutica, fiquei lá de 1969 até, eu me alistei em 1967, mas aquela história que eu tinha só 17 anos, eu não pude vir. Então em 1968 eu vim. Ainda estava com 18 anos incompletos, então só fui incorporado em 1969, quando eu tinha completado em 26 de dezembro de 1968, eu tinha completado então meus 18 anos, e incorporei então em janeiro na Aeronáutica e fiquei até 1971. P/1 – Valter, quando você estava em Anápolis, o que você ouvia falar de Brasília? R – Ahhh.... P/1 – O que era Brasília para você? R – Ahhh... Interessante... P/1 – Antes de você... R - Legal você ter me perguntado, porque você faz eu voltar na minha memória. Perto de casa, no bairro São Jorge, na Rua Firmo de Velasco, o número da minha casa era 404, onde morria a linha de trem. Essa linha existia, na época, ela vinha de São Paulo, aquela coisa toda, e lá, perto de casa, morriam as linhas e aonde os vagões eram descarregados e carregavam os caminhões que vinham trazendo a estrutura pesada para Brasília: era o ferro, era o cimento, era a estrutura metálica. Então, era assim, uma coisa, é... como é que eu posso me expressar, né, era muito short, era noite e dia o movimento de caminhão chegando, saindo, aquela coisa toda. Então você vê como eu era virador, e eu sempre encostando ali perto do pessoal, para ver aquele movimento todo: os motoristas tudo trabalhando de forma frenética, os caras acho que nem dormiam, encostava e o caminhão já saía; mas só que na hora do almoço tinham fome, então o que eles faziam? Pediam: “Alguém tem comida para vender?”, esse tipo de coisa. E eu, meio danadinho, já me virava, comprava peixe, comprava galinha, aquela coisa toda, levava lá pra casa e a minha mãe fazia, então trazia as marmitas e vendia para o pessoal, ali. Então, eu... o que eu ouvia falar bastante de Brasília era isso: que Brasília estava sendo construída, que estava tendo movimento muito grande. Agora, interessante que meu pai, ele na profissão que ele exercia, ele podia estar muito bem aqui em Brasília, mas ele não quis arriscar. Por que ele não quis arriscar? Por que o Prefeito da época, o Sócrates mais do que o Diniz, era uma pessoa que tinha no meu pai, como se fosse um Secretário de Obras, então o meu pai era aquela pessoa que... “Olha seu Adão, precisamos construir X, ou seja, um parque de exposição agropecuária, ou precisamos construir uma sede e tal, e o meu pai é que ia fazer. Meu pai era tão assim honesto, que ele chegava para fazer a aquisição do material, ele chegava e olha, fazia primeiro toda a estrutura, fazia o levantamento: “Vou precisar disso, disso e disso...” Ele que ia comprar, e é claro que ele sofria pressões enormes. Naquele tempo já tinha esse negócio... “Olha, compra tanto e leva tanto... 30% para você...” “Olha, eu não quero saber disso”. Enfim, então a vida dele sempre foi essa. Ele acreditou, nessa pessoa, que também gostava muito dele, só que a época dele vir, ele não veio. Enfim, infelizmente esse Prefeito, no exercício dele, pegando um avião do Rio para São Paulo, até dizem que ele era o pai da Leila Diniz, aquela atriz, quer dizer, era a conversa que tinha ali em Anápolis eu não sei confirmar. Mas o fato é que o avião caiu e ele morreu, esse prefeito. E o meu pai ficou meio que sem saber para onde é que ia correr, e ficou meio que vagando... É claro houve... a outra administração entrou e já passou a função dele para outro, e ele então ficou meio que... e continuou a vida dele por lá, fazendo uns trabalhos dele, e também pensava muito na gente, que era tudo pequeno. Saí, de Anápolis, embora sozinho, porque até então Brasília praticamente não tinha nada, era um descampado... o que a gente ouvia falar muito era dos peões que vinham trabalhar, que às vezes davam muita confusão, esse tipo de coisa, mas que Brasília ia sair. Então ele achando que aqui não tinha conforto nenhum, então preferiu segurar a gente por lá. Por isso é que ele não veio. Mas eu escutava muito falar de Brasília, nesse sentido, e via também o movimento, por conta dos trens, das composições, que descarregavam os sacos. Era coisa impressionante: cimento, ferro, estrutura metálica, que era uma coisa assim de, por dia, acho que devia parar mais de mil caminhões por ali, para fazer este tipo de transporte. Era uma coisa realmente de doido. P/1 – Valter, e você escolheu para se alistar na Aeronáutica, por quê? R – Eu escolhi porque o meu irmão já estava. Meu irmão, eu já tinha vindo para servir a Aeronáutica e a minha irmã também já tinha se casado, e estava morando aqui. Isso veio em 1966, minha irmã casou também acho que foi em 1965, alguma coisa assim e eu fiquei por lá, achando que o meu tempo... porque até então eu já entendia, já pude compreender que a gente era uma família muito pobre e que eu tinha que dar um jeito na vida, que eu tinha que continuar estudando, essa coisa toda, e a Aeronáutica, não que eu fosse achar, que eu fosse ser um piloto de avião... porque eu sabia que para ser piloto de avião você tinha que fazer um concurso, e eu não tive estudo suficiente para isso, e para ingressar também como graduado, você também tinha que fazer concurso e tinha que ir para a escola. Mas como soldado eu podia servir, era aquele período obrigatório, né? P/1 – Você já tinha terminado o ensino médio? Na época que você decidiu... R - Não, não tinha, não tinha ainda terminado, mas eu estava... eu vim de lá, encerrei lá o segundo ano, alguma coisa assim, vim para cá e continuei, realmente estudando, para concluir o ensino médio. Eu estava na Aeronáutica, quando eu concluí o ensino médio aqui. Então na época eu tinha uma espécie de salário mínimo, que eu me lembro muito bem, que eu fiquei uns três ou quatro meses sem receber... eu não sei qual foi a quantia, mas para mim foi quase uns 10 milhões de reais [risos]. Porque foi assim, um dinheiro que eu nunca tinha visto, então eu imagino que deve ter sido, no dinheiro de hoje, uns 800 reais, alguma coisa assim. Eu sei que eu peguei esse dinheiro todo e corri para Anápolis, dei tudo para o meu pai, ele ficou muito alegre. Porque até então, eu falei: “O que eu vou fazer com isso: solteiro, estudando...” E eu também gostava muito da família, e queria também ajudar, fazer a minha parte para que eles pudessem ter uma vida melhor. Então fui, levei esse dinheiro para ele, e toda vez que saía então meu pagamento, que era uma espécie de um salário mínimo, eu ficava só com um pouco, o suficiente para pagar a escola, porque até então eu estava estudando no La Salle do Núcleo Bandeirantes, eu consegui é... quer dizer, era barato, na época e escola pública era complicado por conta de horário, eu servia nessa coisa e toda, então, encaixei, realmente, no La Salle, do Núcleo Bandeirantes. Então, foi assim, a minha vida. P/1 – Valter, e quando você chegou a Brasília, qual foi a impressão que você teve, você lembra? R - Olha, eu lembro, porque até os parentes do meu avô Salviano moravam em Goiânia, e o pessoal sempre falava de Brasília e daí já tinha uns tios, que já tinham vindo para Brasília, e falava: “Olha, por que Brasília é um encanto. Brasília você não vê um pedacinho de chão: tudo asfaltado, é tudo gramado, você não vê problema nenhum, você não vê lixo”. Olha, Brasília era uma Suíça, que o pessoal falava e eu entendia assim. Aquela coisa limpinha, parece um céu. Aí tá, aí eu falei: “Mas que legal, mas que bacana”. Só ouvia isso. Até que, num meio tempo desse, a família do meu avô mudou aqui para Brasília, ou seja, para Taguatinga, se fixou lá, então, as minhas férias, ao invés de eu ir para Goiânia, então eu mudei de rumo, vim para Brasília. E a primeira vez que eu vim foi com o meu pai, que me trouxe até Taguatinga, para eu ficar lá uns 10 ou 15 dias. Taguatinga praticamente quase não tinha nada, só tinha a avenida Comercial e a avenida Sandu, não tinha nada, nada, nada e os meus tios eram engraxates, eu às vezes saía para trabalhar e eu saia com eles, ali pela Comercial, vendo de que forma eles trabalhavam, e na hora de brincar largava a caixa de engraxate lá e a gente ia brincar, jogar bola, ou então, brincar na beira dos córregos, que até então não eram poluídos, os córregos lá de Taguatinga, então era assim. E eu me lembro bem que uma vez nós vínhamos de Taguatinga para o Plano Piloto, especialmente na Asa Sul e descemos na W3. A W3 era coqueluche de Brasília, não tinha shopping, não tinha nada. Então a W3 era a avenida Paulista, aquela coisa onde você encontrava tudo, tudo, tudo de interessante... moda, quisesse encontrar com as pessoas... Aí tá, então pegamos um ônibus em Taguatinga e viemos para a Asa Sul. Olha quando eu vi fiquei encantado, com aquela coisa... olha tudo diferente, o formato das casas, aquela coisa toda. Mas uma coisa me chamou a atenção, como me disseram que Brasília era uma Suíça, eu comecei a observar que não era, né, porque nas entre quadras, da Asa Sul, eu vi muito barro [risos], então aquilo para mim era inadmissível: “Como Brasília, você me disse, vocês me diziam que Brasília era tudo asfaltado, tudo no concreto, não tinha... você não via barro, não via lama... e isso aqui?” Quer dizer, eu cobrava, né? Mas na realidade era Brasília sendo construída, o barro que eu via era porque estava recebendo grama, nada era... não podia ser tudo de concreto, tudo de asfalto então tem que ter realmente um chão, para a água pelo menos sumir. Então...essa foi a impressão que eu tive de Brasília, depois eu avancei um pouco mais para o centro de Brasília, vi a Estação Rodoviária, gostava muito de andar pela escada rolante, era a coisa belíssima da época, vi de longe a Esplanada, né, a Catedral ainda estava sendo construída, aquela coisa toda, alguns prédios também da Esplanada estavam sendo concluídos, enfim, então foi essa a impressão que eu tive de Brasília. P/1 – E como era estar na Aeronáutica, servindo, e estudar? R - Olha, era muito complicado, porque na Aeronáutica eu praticamente morava no Quartel, porque a minha irmã casada morava em Taguatinga, e eu sempre não querendo incomodar ninguém e tinha como ficar no Quartel, então, como a gente dizia, eu ficava arranchado no Quartel. Só que o expediente no Quartel terminava às 16h o jantar, para quem ficava no Quartel era servido às 17h30min. Se eu fosse esperar o jantar, eu não tinha como pegar a carona, o ônibus que o próprio Quartel fornecia para levar o pessoal, ou para Taguatinga ou para o Gama ou então para o Plano Piloto, na Rodoviária. Então eu tinha que pegar esse ônibus do Plano Piloto, para descer na Rodoviária. O dinheiro era muito contadinho, né, e da Rodoviária, então, eu tinha que pagar o ônibus para ir para o Núcleo Bandeirantes, porque o ônibus... se eu pegasse o ônibus e fosse direto para o Núcleo Bandeirantes eu ia chegar muito cedo e ficava fazendo o que lá? Pelo menos na Rodoviária, tinha muita gente, e ali era o embarque e o desembarque de passageiros das linhas interestaduais, e ficava por ali, olhando, escutando o serviço de som, aquela coisa toda, anunciando a partida de ônibus, né... P/1 – E no Núcleo Bandeirantes você estudava? R - No Núcleo Bandeirantes eu estudava, então, quando dava 18 horas ou 18h30min e alguma coisa, que eu pegava na Rodoviária e ia para o Núcleo Bandeirantes. Às vezes a fome apertava porque eu almoçava no Quartel tipo 11 horas, e você sabe quando você é muito novo, muito exercício físico, você despende muita energia, então o seu organismo fica pedindo alimentos, e é claro, então eu chegava na Rodoviária, e falava: "Poxa, to com fome...” Olhava aqueles pastéis, que até hoje tem, da Viçosa, com caldo de cana, eu falei: “Poxa, pelo menos um caldo de cana com esse pastel, ficaria bem, poderia matar a minha fome aqui, ou alguma coisa, né.” Mas não podia gastar, né? Então o que eu fazia? Olhava o povo comer e aquilo ali eu procurava me satisfazer vendo o povo comer e beber o caldo de cana, como se eu tivesse também me alimentando. Às vezes eu até chorava, com fome, mas o que eu podia fazer. Não podia gastar senão não tinha como ir para a escola, então, ia para a escola.... Mas, né..., interessante que ao acabar, tipo, 10 horas, 10h30 da noite, eu vinha a pé do Núcleo Bandeirantes, lá do centro do Núcleo Bandeirantes, até onde hoje é a Candangolândia, só que naquele tempo, a Candangolândia era totalmente desestruturada..., a gente até chamava aquilo lá de parte de Velha CAP, e era bem perto do Morro do Urubu, que era a parte mais violenta que tinha aqui em Brasília. Essa era a que a polícia entrava lá, como se fosse a Rocinha do Rio de Janeiro; era um local extremamente violento, onde as pessoas matavam, e a polícia tinha medo de entrar ali à noite. E eu pegava o ônibus por ali e vinha a pé, chegava dali, pegava um ônibus que passava, voltava para o Quartel, mas nunca fui incomodado pelas pessoas, além do mais o pessoal do Quartel, até a maioria também era dali, do Morro, e então, fiz muita amizade com o pessoal e voltava para o Quartel. Só que eu tinha um colega, o Silva Santos, um baiano escurinho, jogava uma bola danada, e ele percebia que às vezes eu chegava da escola e chegava com fome, porque ele ficava no Quartel, ele não estudava e via que eu chegava e que eu não tinha feito a alimentação alguma. Então o que ele fazia para me ajudar? No café das nove da noite, tinha o último lanche, ele ia até o refeitório do Quartel, entrava na fila e pegava para mim pão, às vezes pegava um ou dois, né, e pegava o pão e abria o miolo do meio do pão e enchia de café, deixava o pão bem molhado, com café, colocava num plástico, colocava no meu armário e quando eu chegava estava lá o pão molhado de café, para eu poder comer e para ter a sensação que eu estava alimentado, para eu poder dormir; e no outro dia, exercício físico, aquela coisa toda, até chegar a hora do almoço e isso foi repetindo aí, durante o meu tempo que eu permaneci na Aeronáutica. P/1 – Quanto tempo você ficou lá? R – Eu fiquei lá até 1971. Em 1971, a gente podia ficar um ano, e repetir mais um. Então eu já tinha ficado um e estava no meio de repetir o segundo. Aí eu falei: “Bom, estou aqui, não sei fazer nada, a não ser soldado, voltar para Anápolis eu não pretendo, eu quero seguir em frente, e o que eu vou fazer da minha vida?” O estudo não me permitia enfrentar ainda um concurso, ainda estava muito despreparado. P/1 – Tinha alguns concursos naquela época? R - Tinha, tinha dentro da proporção, o que é hoje. A gente pensa: “Ah, naquele tempo lá atrás era fácil.” Não era fácil. Você para ingressar num vestibular, era complicado, você entrar num MBA era difícil, por exemplo, entrar num CEUB [Centro Universitário de Brasília] era também difícil, então era tudo complicado, era tudo difícil, era... a dificuldade daquele tempo é a dificuldade de hoje. Se você tivesse bem preparado... (PAUSA? Ou CORTE?) P/1 – Valter, você estava falando quando você terminou o seu serviço militar. R – Eu ainda estava no Quartel e num conflito: “O que eu faço da minha vida?” Então eu tinha um grupo de colegas que estavam ingressando na APM, né, ingressando de que forma? Os concursos para PM estavam abertos, naquele tempo só exigia o primeiro grau completo, naquele tempo eu já tinha, já estava correndo atrás para fechar o segundo, mas eu não queria ser Policial Militar, não era o meu perfil, sair batendo nos outros. Na minha cabeça era isso: PM era para bater. Só que não era nada disso, porque em Anápolis a gente via como é que era que o pessoal lá trabalhava, o Policial matando, aquela coisa toda, eu falei: “Eu quero lá saber de ser Policial, eu não quero.” “Rapaz, vamos, vai ser legal.” Eu falei: Não”. Eu estava com planos de ir embora para São Paulo, fazer não sei o quê, né, mas eu estava com planos. Porque até então São Paulo era aquela coisa, que tinha muita indústria, eu podia, enfim, entrar numa daquelas fábricas. Mas daí eu fiquei assim, eu falei: “Pôxa, eu não... não vai dar legal.” Aí pensava muito em meus país, aí falei: “Não vai dar certo.” Até que eu resolvi então aceitar o convite dos colegas. Já tinha bem uns dez que tinham feito concurso na PM. “Embora, a gente ajuda a fazer a sua inscrição, paga tanto, as provas não são difíceis.” Falei: “Ah, o negócio é que eu não tenho perfil para isso.” Mas fui. Fui, fiz, e fui selecionado para fazer os seis meses na escola da PM aqui em Brasília. Aí fiz, passei, me chamaram para a escola e eu não fui. Falei: “Ah, eu não quero saber disso não.” E os caras que já estavam, os colegas que já tinham sido chamados, e já estavam na escola, falou: “Olha, você está tendo falta lá, todo dia na chamada seu nome está sendo chamado e você não diz presente.” “Eu lá, que por mim... eu não assinei papel nenhum, eu passei no concurso mas eu não quero ir.” Resumindo, 40 dias já tinham se passado, até que um colega falou: “Pô Valter, não esculhamba, embora lá rapaz, não custa nada. Se você não gostar, depois você vai embora. Os caras lá te chamando, com a maior boa vontade com você.” Aí, resumindo, eu fui, e quando eu cheguei na PM, as pessoas me observavam, e falaram: “Ah, você realmente você tem uma voz de Locutor, né?” Falei: “É... não sei.” “É, você vai trabalhar na Central de Polícia.” Falei: “Na Central de Polícia, fazer o quê?” “Chamar as Rádio Patrulhas, não tem a voz de Locutor?” “Ah”, falei... Aí eu achei interessante, aí fui. Aí, a quantidade de Rádio Patrulha que tinha na rua: duas [risos]. Imagina, hoje tem umas quinhentas, aí, né? Naquele tempo tinha duas Rádio Patrulhas e tinha um telefonezinho, onde as pessoas... não tinha 190, não tinha nada. Apenas um telefone, um ramal lá, onde as pessoas, por acaso ligavam para lá, e: “Ah, “tá” matando um aqui”. Aí eu chamava o Rádio: “Fulano, onde você está?” “Tô em Sobradinho” “Ah, “tá” matando no Gama”. “Ah, não dá tempo de chegar lá não”. “Então liga para a Delegacia e pede aquela coisa assim, era bem improvisada, quer dizer... estava tudo no começo, aquela coisa toda. Eu fiquei por ali, na PM, por uns dois anos no segundo ano, eu falei: “Quer saber de uma coisa, eu vou-me embora, porque eu estou o vendo aqui que é difícil fazer concurso para eu me graduar, então não vou ficar aqui perdendo o tempo.” Aí o pessoal: “Não, não faça isso, não vai.” E o pessoal me segurando, e eu fiz um requerimento, pedindo o meu desligamento, os colegas esconderam em uma gaveta lá que eu não sei qual. Então nesse meio tempo apareceu o concurso para Cabo, concurso, eu tinha que fazer concurso. Aí os caras: “Embora...” Já tinham feito até o meu requerimento para fazer este concurso. Porque eles tinham que fazer um requerimento também, ao Comandante, pedindo para fazer este concurso para Cabo. Aí foi deferido, ou seja, eu podia fazer o concurso. Aí eu falei: “Mas gente...” E fui, tinha mais uns mil lá pra fazer concurso para 100 vagas. Falei: “Ah, vou lá passar num canto desse aqui que eu não vou mesmo.” Fiz, e passei entre os dez. Aí tá, fiz o curso de cabo, melhorou um pouquinho aquela coisa toda. Aí, nesse meio tempo eu casei. Casei e minha filha mais velha nasceu e eu ainda era Soldado. “Eu não quero que minha filha cresça e me veja...” Não que ser Soldado seja uma desonra, de forma alguma, mas eu achava que eu podia ser mais alguma coisa. Podia dar mais de mim. Mas depois veio esse curso de Cabo, essa coisa toda, né, ainda eu fiquei por ali e um ano e sempre na comunicação da PM. “Bom, agora eu vou embora, agora eu não quero mais saber disso: ser Cabo, não sei o que. Eu vou caçar outra coisa para fazer.” Aí o pessoal novamente entrou em ação: “Não faça isso, está aparecendo um curso de Sargento aí, e vai ser bom para você.” Resumindo, fiz também o concurso para Sargento e passei, também entre os dez. Não, não passei entre os dez, eu fui classificado, então, pela classificação, uma turma fez num ano e eu fiquei esperando a conclusão dessa turma para eu poder ir, fazer. Mas por que eu fiquei para trás? Por que nesse meio tempo, nasceu um casal de gêmeos, que até então, eu achava que eu fosse uma criança: Soldado da PM, ganhando pouco, já com filho, morando de aluguel e de repente nasce mais dois, né, você imagina, né, o sufoco, e tá... Aí... P/1 – Você estava morando sempre em Taguatinga? R - Sempre em Taguatinga. Isso num lote onde tinha mais quinhentas pessoas morando. Um banheiro só para todo mundo, e eu encarando aquilo tudo, vendo aquela dificuldade toda, né, e não tive tempo para estudar, para poder me preparar melhor para esse concurso de Sargento. Mas mesmo assim eu fiz e consegui, e a dificuldade era tanta que os meninos que nasceram, o berço deles era o sofá: um dormia no sofá de cá e o outro dormia no sofá de lá, daí a menina mais velha dormia no berço, e era tudo muito complicado. Mas depois fiz o curso para Sargento, aí sim eu fiquei entre os dez classificados, fui o orador da turma, fiz lá o discurso que tinha que ser feito, aquela coisa toda, o paraninfo da turma foi até o administrador do Gama, porque a escola era lá. hoje o Ministro do Terceiro Walmir Campelo, ele era o administrador do Gama, então, enfim, dali então eu voltei para a comunicação da PM, fiquei por ali um tempo, depois voltei, fui deslocado para cuidar de trânsito, mas não... depois voltei de novo para a comunicação, e aí então eu comecei a ter os contatos, porque muitos coleguinha de Jornalista ligavam pra lá, querendo saber de ocorrência, aquela coisa toda e sempre falavam comigo, aquela coisa... então eu fui criando uma certa amizade com o pessoal, até que um dia... “Ah, você tem realmente jeito para trabalhar em Rádio, por que você não encara?” “Eu lá quero saber de Rádio, rapaz” Mas a coisa foi pegando, foi impregnando e eu comecei a frequentar o serviço de som da Estação Rodoviária. E lá os caras, quando eu chegava lá, era festa pra elas. Eles eram contratados e eu chegava lá, para eu poder treinar no microfone e quando eu chegava eles sumiam. Aí eu ficava chamando um ônibus, a saída de ônibus, aquela coisa toda, fazendo comercial. Até que uma pessoa passou lá, de rádio, ouvindo, e foi lá conhecer quem era aquela cara que estava por ali e falando, essa coisa toda e me viu, me deu um cartão. “Vem aqui fazer um concurso, um teste, né, essa coisa toda, eu fiquei todo empolgado. Era até na Rádio Planalto, a antiga Rádio Planalto. Aí, no dia certo eu corri lá para fazer o teste. Só que quando eu cheguei, era no Edifício Carioca, o elevador não estava funcionando, e eu subi, não sei quantos andares, e cheguei cansado lá em cima, para fazer o teste. Imagina, sem fôlego. Resumindo, a pessoa que me avaliou, falou: “Olha você pode continuar sendo soldado da PM, porque pra Locutor, um abraço pra você, né.” Aquilo me deixou meio frustrado, mas não me desanimou. Eu continuei ainda atendendo o pessoal, foi onde entrou então aquela turma “Os Cobras da Notícia”, que se valia muito das ocorrências policiais que normalmente eram atendidas pela Central, que eu repassava para eles, numa boa, até que um deles falou: “Pôxa, por que você daí mesmo você já não faz os boletins e grava pra gente. Falei: “Ah, mas pode?” “Pode” Aí eu falei com o Comandante. “Pode se virar, pode fazer” Quer dizer, eu não era remunerado, nem nada, para mim era uma alegria, então, comecei, através do Wilson Minelli, que era o editor chefe do programa. Eu comecei então a participar da programação da Rádio Alvorada e a entrar com Boletins nos Cobras da Notícia, então foi quando ele me chamou: “Dá uma passadinha aqui, Valter.” E eu fui lá para conversar com ele. “Vamos fazer o seguinte: a partir de hoje você vai ser o Valter Lima, e você vai ser o Cobra Vigilante, ou seja, o nosso Repórter de Polícia, que vai dar notícia de tudo o que está acontecendo. Tá bom pra você? Você está ali dentro mesmo, e vê aqueles casos, manda pra nós aqui.” Para eles era um filé, e era uma concorrência muito grande: Rádio Alvorada com Rádio Planalto, e ter um cara de dentro da Polícia, para narrar os Boletins, era tudo o que eles queriam. Mas mesmo assim, legal, eu fui tocando, fui tocando, até que um dia eles falaram: “Vamos te contratar.” Quer dizer, o Gerente, o Diretor da Rádio, até então, não tinha nenhum vínculo empregatício com a emissora... um dia ele me ouviu, por acaso me ouviu e quis saber quem era a pessoa que estava ali trazendo notícias de Polícia. “É um menino que ajuda a gente aí, e num sei o quê.” “Então contrata ele, ele é muito bom.” Aí o pessoal: “Contratar?” “É, pode contratar. Manda ele trazer a carteira dele.” E aquilo para mim foi assim, né, como é que eu podia fazer que eu estava na PM, entrar naquela coisa toda, mas os Coronéis da PM, eles tinham assim uma simpatia muito grande por mim, e falou: “Não, toca... não pode mas faz de conta que a gente não está vendo, mais um emprego para você, aí. Não é emprego público, é emprego privado, apesar que a nossa Lei que não permite isso.” Mas ele me deram essa colher de chá, né. E eu então tive a minha primeira carteira assinada da vida, carteira de trabalho. Eu já estava então com 21, 22 anos, por aí assim. E para mim foi a melhor coisa do mundo, né, e dali então eu comecei a ser Repórter de Polícia, aquela coisa toda, aí eu já não ficava só na Central, já vinha para a Rádio, na minha folga pegava o carro de reportagem. P/1 – Qual o horário que você tinha. R – O programa dos Cobras era às dez da manhã. Então, quando eu estava trabalhando, eu entrava no Quartel, quando eu estava de folga, eu entrava na Rádio mesmo. Então eu ficava, ao invés de ficar só meia hora ali trabalhando, aquela coisa toda, ficava era o dia todo, rodando aquela coisa toda. Até que também nessa, eu comecei a diversificar: ao invés só reportagem de polícia, às vezes eu fazia outro tipo de reportagem também, né? Foi nessa então que eu comecei a ter um contato maior com o pessoal do Sindicato. Foi onde o pessoal falou: “Valter, vai ter hoje uma Assembléia de Bancários, disso, daquilo, você pode fazer para gente, porque a gente está tão sem...” “Posso” Vibrando, achando ótimo. Às vezes eles me empurravam serviço e eu ia fazer. Então foi nessa que eu tive contato então com o Sindicato dos Bancários, Sindicato dos Professores. Eu me lembro, perfeitamente, de que eu fui fazer também uma pauta da reunião: a primeira reunião dos Vigilantes de Brasília. Que até então, eles não tinham nenhum tipo de organização, eles estavam numa base, estavam revoltados com os patrões, que estavam explorando a atividade deles, pagando pouco, ou não pagando. Então o pessoal queria se organizar, se organizar para poder ter forças para pode enfrentar os patrões, e os próprios patrões, na malandragem, apontaram para eles uma pessoa que iria ajudá-los, a mando do próprio patrão. E marcaram então a reunião para os Vigilantes, foi até mesmo no Edifício da Federação do Comércio, ali ao lado do Edifício do (____?) Setor Comercial Sul, prepararam lá o auditório, para o pessoal se reunir, mas na hora certa de começar a Assembléia, o cidadão que o patrão apontou não quis ir, não foi, porque ele achou que os meninos estavam muito sabidos, e podia levar uma prensa, e ficou com medo: não apareceu. E os Vigilantes ficaram sem pai e sem mãe, lá tipo, sem ninguém para coordenar. Então eu lembro bem que estava eu, pela Rádio Alvorada, estava o Jarbas Marques, pelo Jornal de Brasília, e estava o Celsão Franco, que faleceu acho que no ano passado, pelo Correio Braziliense, né... éramos... e o Chico Pereira, pela Rádio Planalto. Então, estávamos quatro, prontos para registrar aquele momento ali, e de repente não ia ter momento. Primeiro que a manchete da reportagem era “Vigilantes se reúnem, se formem a Associação.” Sim, mas e aí, não tinha o cara lá para ajudá-los, aí o pessoal estava meio que disperso, alguns já querendo ir embora, foi quando eu cheguei, de longe eu observei uns, chegou perto de mim e: “Você é o Valter Lima, da Rádio Alvorada, dos Cobras?” “Sou eu mesmo” “Ah, te escuto muito.” Assim, meio sem graça, meio sem jeito, pequenininho, barrigudinho, assim... olhar assim meio espantado, conversando comigo. Aí, eu olhei para ele assim: “E aí, o que vocês vão fazer?” Ele: “Pois é, o povo está indo embora, o rapaz que ficou de vir e não veio.” Eu olhei para ele e falei: “Porque você não vai lá na frente e, chama a atenção dos teus colegas, e vocês mesmos não começam a se organizar para ver o que vocês querem.” Comecei a falar, aí ele me olhou assim... “Ué, será que vai dar certo?” “Vai rapaz, vai lá.” Assim nasceu o Chico Vigilante, foi justamente ele que eu bati o olho nele e percebi que ele tinha, pelo menos ali, condições de poder segurar aquela onda ali, então foi o que ele fez: chegou lá na frente e começou a falar da forma que ele falava, gesticulou, enfim, já segurou o pessoal ali por mais de uma hora, o pessoal já debateu, aquela coisa toda, e já marcou a próxima reunião que não seria mais ali, porque ali era terreno dos patrões, então já marcou um outro canto, foi onde ele entrou então o José Neves, do Sindicato dos Comerciários, para apoiá-lo, cedeu uma sala que eles tinham, o Sindicato, para que o Chico se instalasse ali para ser então uma Associação dos Vigilantes, e ele também teve muito apoio também do Sindicato dos Bancários, para ele poder ter aí a sua estrutura. Foi então começando e também começou o Sindicato dos Professores a se articular, então, ficou realmente o Sindicato muito combativos, que eram a Associação dos Vigilantes, que tinham o apoio do Sindicato dos Comerciários, que por sua vez, era ligado também com o Sindicato dos Bancários, e que também tinha a simpatia do Sindicato dos Professores, que é o Sindicato então de ponta, daqui de Brasília, de trabalhadores. Então, foi quando os movimentos começaram a acontecer, começou a se falar também, na representação política de Brasília, porque até então os nossos representantes eram os Senadores, de uma comissão do Senado, e começou então essa luta: Brasília precisa ter seus representantes, aquela coisa toda, então isso era sempre falado. E a brecha para que essa luta ganhasse corpo, foi dada pela Associação Comercial do Distrito Federal pela pessoa do Lindberg Cury, que ele abria o auditório da Associação. Então lá, chegavam professores, bancários, servidores públicos, o pessoal que queria de fato que Brasília tivesse a sua representação política. Mas só que esse tipo de luta era muito combatido, porque o sistema não permitia, né, então todo mundo era comunista. “Ah, os comunistas se reunindo, né.” E às vezes a Polícia cercava, ameaçava, prendia, mas mesmo assim a coisa foi ganhando corpo. A princípio a coisa era feita à noite, depois a luta foi evoluindo então já se fazia também movimentos durante o dia e um dos pontos preferidos para isso era a Praça do Povo, é aquela Praça que fica ali entre, em frente às Lojas Americanas, e o Banco Itaú. Então ali era a Praça do Povo. Aquilo ali, menina, até então, só tínhamos dois partidos, o PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro] e a Arena [Aliança Renovadora Nacional]. Então o PMDB era o partido que abrigava todo mundo, abrigava todas as tendências políticas, né, de comunista a direitista, estava todo mundo ali, né, enfim... Então, começou realmente o processo e eu como tinha muita ligação com, enfim, com os Sindicatos, então era sempre eu a pessoa para ser o apresentador dos movimentos, então, quando tinha uma Assembléia de Professor: Valter Lima. E ia eu lá apresentar a Assembléia de Professores. Quando tinha uma de Bancários, disso ou daquilo, era sempre eu. Quando tinha um evento, tipo, o Primeiro de Maio, era Valter Lima. P/1 – Valter, e como você assim, você já estava tendo um contato com esses movimentos sociais, através dos Sindicatos, como um Radialista, e a PM? R - Não, aí é que está. Eu ficava até com medo, o pessoal falava: “Rapaz, o pessoal vai te expulsar de lá, alguma coisa assim, você pode se dar mal.” “Eu não sei, eu não estou fazendo nada demais, só estou chegando e apresentando o pessoal e aquela coisa toda, e aí no mais se eles me encherem o saco, eu peço para ir embora.” Porque eu já tinha sempre em mente a vontade de poder ir embora. Como nunca me falaram nada, essa coisa toda, eu ia tocando, ia tocando... essa coisa toda, né? P/1 – E você fazia cobertura desses movimentos em algum programa? R – Fazia, eu fazia. P/1 – Em qual programa? R - Fazia no próprio Cobras da Notícia, ou então fazia reportagem, que entrava nos noticiários da emissora, então fazia, entrevistava eles e ia tudo em forma de matéria. E além de entrar em Brasília, que a Rádio, ela era ligada à Rede Brasil de Comunicação que é o Grupo Gaúcho, de nome Zero Hora, em Porto Alegre, e fazia matéria também para o Sul do país, desses movimentos que aconteciam aqui em Brasília. Então foi assim, né? Então, o movimento cresceu, ganhou corpo, sempre era eu, ficava às vezes danado da vida com os colegas do movimento [risos], porque às vezes eu fazia esse tipo de atividade durante o dia, ou então durante a noite. Normalmente à noite era na Associação Comercial, e às vezes acabava às dez da noite, 11 horas da noite e eu tinha que descer a pé para a Rodoviária, que não era distância muito longa, mas tinha que ir para lá, a pé, e de lá pegar o ônibus e ir embora para Taguatinga. Às vezes tinha uns colegas, que eu então entendia isso... poxa, os caras comigo ali, participando do evento, querendo, exigindo a representação política e terminava o evento, cada um nos seus carrões, lá bonitos, e eu ficava olhando assim: “Mas vem cá, esse caras também brigando, representando aqui os políticos, caras todos ricos, com uns carros desses aqui, uns moram no Lago Sul, outros não sei aonde. Quer dizer, eu tinha esse conflito comigo. Claro, que muitos como eu também, caminhavam para a Rodoviária, e o que eu ficava meio danado é que os colegas que estavam de braços dados com a gente, fazendo esse tipo de reivindicação, a hora que saía na porta não te conhecia mais, não te oferecia uma carona até a Rodoviária. Aquilo me deixava injuriado [risos]. Mas mesmo assim, a coisa foi. Até que chegou também nesse bolo todo, o movimento das Diretas Já, então aqui em Brasília. Antes das Diretas Já, a gente já tinha eleições no Goiás, essa coisa toda, então algumas pessoas aqui queriam se candidatar em Goiás, então fazia aqui também muito movimento em Goiás, essa coisa toda. Mas aí a coisa cresceu, na questão das Diretas Já. Começou por São Paulo, Rio, estes grandes centros, e em Brasília também cresceu, e cresceu muito. E eu fui o apresentador dos movimentos, enfim, desse movimento das Diretas Já. Eu me lembro bem, que um dos primeiros comícios que eu fui apresentar, foi ali na Esplanada dos Ministérios, depois de lá a gente saía para outros cantos: Taguatinga, Ceilândia, Gama, Brazlândia, Guará, Núcleo Bandeirantes, enfim, o movimento ele realmente percorria toda, até depois eu fazia um central, entrava no Plano Piloto, também ali perto da Torre de TV, também era feito. Interessante é que eu ali fazendo a apresentação, e olhando dos lados assim, aquelas figuras ilustres, do cenário Político, que até então eram pessoas que não estavam buscando também um espaço, enfim, iam avançando naquilo que elas acreditavam, exemplo de um Ulisses Guimarães, ele esperando pelo chamado, ficava muito contente. “Olha, vou chamar o Ulisses.” Teotônio Vilela, hum... enfim... um Franco Montouro, né, um Leonel Brizola. Leonel Brizola já tinha voltado, a verdade é que foram muitos desses, enfim, dessas figuras expressivas: Tancredo Neves, José Sarney que tinha largado a Arena, tinha vindo para o PMDB, enfim, então foi realmente assim um período muito gratificante. Um momento histórico, que jamais vai ser apagado da minha memória. Eu fiquei um pouquinho feliz de receber esse convite para, de alguma forma, perpetuar realmente essa história aqui com vocês, para que as pessoas possam compreender como é que foi... porque nada vem de mão beijada, nada veio de graça, nada veio assim de forma tranquila, muito pelo contrário, foram realmente muitos debates, muita luta, muito corre corre, enfim.... P/1 – Valter Lima, vou retroceder um pouquinho, e gostaria de saber que você que tem uma trajetória tão interessante, né, assim, de trabalho, de esforço, de estudar, de entrar na Aeronáutica, ter família... Como que você viu o movimento de representação política? Era um movimento popular? R - Olha, esse movimento não tinha muito assim a característica do povão. Era um movimento que tinha muitos estudantes, tinha muitos servidores públicos. Essa era a característica, e tinha muitos bancários. Então eram as pessoas que realmente tinham assim uma visão, não tinham condição de ter uma visão maior, desse processo. Então, eu me lembro do Maerle Ferreira Lima, lembro do nosso saudoso Pompeu de Souza, me lembro... olha, era tanta gente... Uma pessoa que a gente não pode esquecer nunca é o Lindberg Cury, realmente foi uma pessoa que ajudou muito; e eu até peço perdão pela minha memória já estar falhando, com relação aos nomes das pessoas que estiveram a frente desse, enfim, desse movimento todo. Mas a coisa realmente começou aqui, no Plano Piloto, com esses segmentos. As pessoas mais esclarecidas, que normalmente tinham um perfil social melhor, porque eram pessoas que tiveram condições de estudar, de frequentar uma Faculdade, então tinha um senso crítico mais aguçado. Então, foi aí que eu pude conhecer Marília Seixas, pude conhecer também o Elcio Carvalho. Pude também conhecer aí o Libério Pimentel, que era do Sindicato dos Professores, então eram pessoas que tinham realmente assim uma luta muito grande, nesse campo. Enfim, e a coisa foi... o popular desse movimento, ele foi alcançado na Ceilândia, porque na Ceilândia a gente tinha ali um pessoal que era muito batalhador, para que eles pudessem fazer com que a cidade fosse respeitada como cidade. O pessoal morador teve que lutar muito, para a Ceilândia sair daquela mancha de ser uma cidade violenta, de ser a cidade do mal, aquela coisa toda. As pessoas tinham vergonha de dizer que moravam em Ceilândia, diziam que moravam em Taguatinga. E aqueles que tinham orgulho da cidade e brigavam, e diziam que moravam na Ceilândia mesmo. Então o popular do movimento da representação política, começou realmente na Ceilândia, enfim, com o movimento da Associação dos Moradores da Ceilândia, com o Eurípedes Camargo, foi ele que deu a cara popular para esse movimento, aí depois foram ingressando outros também, me perdoe, mas outros também foram ingressando. Então, o movimento foi isso, tanto é que, se você fizer uma leitura, dos nossos representantes ocupando Brasília, que pode realmente escolher seus representantes, você vê o perfil de quem foi eleito, dificilmente você vai encontrar ali alguém do povão, porque era um pessoal mais esclarecido, que se apresentou, que de alguma forma se mexeu melhor, e conseguiu então vencer nas urnas. Com legitimidade. Mas o povão em si, você... não tinha a cara de ninguém ali, porque o pessoal achava que para você se meter num negócio deste tinha que ter dinheiro, tinha que pagar caro, essa coisa toda, e não era por aí, até que a coisa foi se modificando. P/1 – Agora Valter, qual o papel do radiojornalismo, no movimento como representação de Brasília. R – Olha, foi fundamental, porque era eu, na então Rádio Alvorada, o Chico Pereira, na Rádio Planalto, que eram duas Rádios extremamente populares, muito ouvidas, até então não tinha, assim, essa difusão grande da televisão, né, então, era o Rádio. E o que acontecia, a gente registrava, e registrando o povo ia tomando conhecimento, no que estava acontecendo de fato e ia engajando melhor também nesse processo. Então o Rádio, principalmente o Rádio foi fundamental, nessa questão. E se hoje Brasília tem a sua vida política própria, com certeza o Rádio deu aí uma contribuição inestimável para que isso pudesse acontecer. P/1 – Agora Valter, da representação política que a gente tem em Brasília elegendo seus Deputados para a Constituinte, e Senadores, vem a autonomia política, que já é Brasília, tendo seus ativos e vem também a possibilidade de eleger um Governador. Você participou desse processo de autonomia política. R - Participei, porque na minha luta de ter os representantes e da autonomia... quer dizer, foi uma luta só, né. Não é uma coisa que chegou primeiro e depois chegou a outra. Tanto que depois de 1988 que a gente pode então, é, ter aí... bem, retomando, a luta era uma coisa só. Até então a gente convivia com o Governador nomeado, quando os militares escolhiam o seu presidente, aqui em Brasília já fervilhava para saber quem seria o Governador nomeado. E no caso, normalmente, era amigo do Presidente, e o processo era esse, né? Me lembro do La Maison, do Governo Figueiredo, foi um dos que estavam atuando realmente no Rádio. Acompanhei muito bem aí esse processo. Até que um dia, ainda em 1986, a gente ainda não tinha a nossa Constituição atual, o Sarney assumiu, com a morte do Tancredo. Esse lance do Tancredo é até interessante, quando... e na véspera dele assumir, a equipe da Rádio Alvorada estava toda mobilizada para poder fazer a posse. Eu estava escalado, tinha comprado uma roupa nova, engraxado o sapato, aquela coisa toda, e estava em casa me preparando para descansar porque no outro dia, quatro horas da manhã, tinha que estar lá na Rádio. Lá pela nove horas da noite, me liga o Jaime (_______?), que até então era o nosso coordenador de jornalismo, diretor da Rádio, e ele: “Olha, vem para cá, urgente, que o Tancredo está internado.” “Mas, como internado?” Enfim, não de roupa nova, vim com a roupa normal de trabalho e quando chegamos aqui verificamos que o Tancredo estava no Hospital de Base, e aquele “rebu”... né? “Poxa, o homem vai tomar posse amanhã, e foi internado hoje, na véspera.” E o que aconteceu? Aí é aquele história, levou tiro, não sei o quê, passou mal, aquela história toda, e eu como era Repórter de Polícia, tinha uma facilidade para entrar no Hospital de Base, que é um labirinto, aquilo ali, eu consegui entrar, cheio de Seguranças, em volta do Hospital, e eu consegui chegar até a porta do Centro Cirúrgico, onde estava o Tancredo Neves. Eu me lembro que estava fora do Centro Cirúrgico, numa sala, assim, e tal, eu mesmo vendo o Augusto que acho que é filho dele e uma outra pessoa que, agora eu não me lembro, e eles me viram e acharam que eu fosse algum funcionário do Hospital ou alguma coisa assim. Aí quando eu aproximei deles, e meti o gravador em cima que fiz a primeira pergunta, ahhh... não contei nem três, nem botei mais o pé no chão, já fui carregado por um bocado de gente, para fora do Hospital, só que eu não sabia como é que eu entrei, não sei o que. Foi quando reforçaram de novo a segurança, aquela coisa toda, que eu fui fazer o meu trabalho normal, perguntando: “Como é que está Tancredo, o que vocês estão achando, o que foi que aconteceu.” Então era uma coisa de segredo de Estado, o pessoal realmente não falava... P/1 – Então eu vou fazer esta última pergunta, tá bom? R – Onde é que eu estava? P/1 – Você estava falando sobre o Tancredo e este contexto das Diretas R - Então, justamente, me tiraram do Hospital, aquela coisa toda e o nosso período então, o tempo todo, foi esse: de acompanhar a agonia do Tancredo. A expectativa do Sarney assumir, ele passou a ocupar o Palácio Jaburu, que é onde mora o Vice-Presidente da República, e aquela coisa toda, até que Tancredo faleceu, Sarney assumiu, os Constituintes chegaram. Foi quando então Brasília ganhou a sua autonomia, mas para ganhar, precisou realmente do movimento ser muito forte, aí você precisou também percorrer, essas pessoas que eu nominei, e claro, tiveram outras que eu não me lembro agora. Nessa altura o Chico Pereira já estava bem engajado, nesse processo, o (Sig Marinha?) também estava muito engajado nesse processo todo, o velho Pompeu de Souza, e tantos outros. Então foi realmente uma luta muito grande para o povo compreender a importância dele próprio votar para ter o seu Deputado Federal, o seu Senador, a sua Câmara Legislativa, o seu Deputado Distrital, escolher o seu Governador, né? Então, tudo isso foi passado para o povo, a importância de ser isso, foi realmente um processo legal, um processo que evoluiu bastante, e que caiu na compreensão da população. Tanto é que os movimentos, os eventos que aconteciam eram super lotados, a população já não era somente a cara do Plano Piloto, as cidades Satélites também já participavam, o entorno também participava. Então realmente foi uma luta, uma guerra, uma guerra entre aspas, muito bonita, para que Brasília pudesse conquistar o que tem hoje. P/1 – Você continuou na PM? R – Não, eu saí em 1988, eu desliguei, porque realmente não dava mais para eu conciliar as coisas. Então, o pessoal: “Mas rapaz, você é louco, como é que você vai fazer um negócio desses, concursado, não sei o quê.” Porque não dá para minha cabeça hoje é outra, hoje eu já tenho uma visão diferente de mundo, de tudo, não dá mais para mim. Quando eu cheguei lá e pedi o meu requerimento e fui embora, e continuei então a minha vida. Na Rádio Alvorada fiquei até 1986. Em 1986 a Rádio Nacional, que desde 1981, tentava me levar, e não conseguia nunca aceitar porque eu tinha um... enfim, achava que eu tinha que concluir um trabalho ainda na Rádio Alvorada. Em 1986 eu resolvi ir embora, porque nesse meio tempo, em 1984, também mataram Mário Eugênio [Mario Eugenio Rafael de Oliveira], que era o meu contemporâneo nas reportagens de polícia. Então, como mataram ele e a gente conversava muito, né, falei: “Pô, Mário, é o negócio está meio complicado, para a gente continuar trabalhando, com muita perseguição, uns caras estão meio revoltados.” Ele: “Ó Valter, acho bom a gente parar, viu, porque, deixa esses meninos que estão chegando aí tocar, porque nós já cumprimos o nosso papel.” Eu lembro que a última vez que eu encontrei com ele, foi na porta da Segunda DP, na Asa Norte, onde eu, atrás ali da Câmara Legislativa, eu estava saindo no carro da reportagem e ele estava chegando, na Kombi do Correio Brasiliense. Ainda buzinou, né, aí eu parei, ele: “E aí Valter, tudo bom?” “Tudo bom.” E aí a gente trocou algumas conversas, foi até numa quinta-feira, e ainda falou: “Pô, a gente tem que parar com essa merda, que eu estou de saco cheio e também os caras não entendem que esse é um trabalho que a gente tem que fazer.” Eu falei: “Pois é Mário, eu também estou querendo partir para outra. Acho que eu vou aceitar um convite que está pintando aí de outras emissoras, eu acho que vou voltar, essa coisa toda.” “Não, cara.” Bom, enfim, aí despedimo-nos ali, e no domingo mataram ele. Encontrei com ele na quinta e depois de três dias mataram-no, e eu também só não fui embora, ou seja, não me mataram, porque, até então, o único Repórter que tinha condição, na época, de elucidar a morte dele era eu, né? Mas como eu percebi que eu estava sendo muito vigiado, porque você acaba aguçando teu senso também, eu percebi que eu estava sendo muito vigiado. Pessoas que, onde eu estava, tinha um, de um grupo, “mas que coincidência é essa.” Se eu parava numa farmácia, tinha alguém. “E aí, Valter, tudo bom?” Se eu entrava no mercado tinha alguém, se eu chegava no serviço tinha alguém, se eu chegava na porta de Delegacia, tinha alguém. Até que eu ouvi de um Delegado dizer: “Vem cá, Valter, você gosta de viver?” Eu falei: ”Gosto”. Aí ele saiu rindo. Falei: “Tem alguma coisa que esses caras estão querendo preparar para mim.” E eles queriam saber muito o que eu sabia do caso, ou seja, estavam procurando saber se eu já tinha encontrado o fio para poder puxar. Aí eu falei: “Quer saber de uma coisa, se eles são espertos, eu tenho que ser mais espertos do que eles, né.” Então eu dizia sempre que não sabia nada, e sempre falava oficial: o que todo mundo falava através de nota oficial, eu falava... Foi onde eu consegui preservar a minha vida, porque se eu avançasse, eu tinha certeza que eu não estaria aqui dando esta entrevista, ou este depoimento para vocês, né? Então realmente um período muito difícil, muito duro, até hoje ninguém sabe por que mataram, ou quem foi que matou, é claro, tem gente que foi condenada, essa coisa toda, mas mesmo assim, a voz corrente do povo, é o que ficou decidido na justiça, não é a verdadeira história. Agora, quem vai contar a verdadeira história? A verdade. Se tiver alguém aqui que possa contar, né... é isso. (TROCA DA FITA) P/1 – Valter, você teve algum envolvimento na primeira eleição da Câmara Legislativa, em 1990? R - Não. O envolvimento que eu tive, é foi justamente com esse pessoal, que a gente tinha um contato maior, por conta dos movimentos, então sempre alguém ia fazer algum tipo de comício, então pedia: “Ah Valter, vai lá me dar uma força, me ajuda no Rádio, dentro do que é possível ajudar.” Então o meu envolvimento foi mais esse, né, nunca tive interesse de ser um desses protagonistas. Eu preferia estar ali, ajudando, vendo, como o Augusto Carvalho, que chegou na primeira, o (Sidnei Maringa?), então muitos que conseguiram chegar na primeira legislação. Então, foi ... o meu movimento foi mais nesse sentido. P/1 – Agora Valter, o que você acha que mudança, quais as transformações que a Câmara Legislativa trouxe para o Distrito Federal? R – Olha o que eu, claro, você ter um outro poder, você tinha o Executivo, você tinha o Judiciário e chegar o Legislativo, quer dizer, a mudança que eu percebi, além da estrutural, que foi necessário realmente ter um custo maior, quer dizer Brasília ficou mais cara por conta desse, enfim, outro poder; mas é... tem o seu custo, mas também tem o seu benefício. Eu sempre, já até debati em programas e com outras pessoas que questionavam se foi legal ou não Brasília ter a sua autonomia, ter a sua representação política. Eu sempre disse que sim, compete a nós, à sociedade em si, saber administrar, saber quais as pessoas que estão ali nos representando na Câmara, saber também quem é o Governador e o seu compromisso, para que ele possa também administrar todo o Distrito Federal. Então, eu sempre preguei, entre aspas, as pessoas que questionavam: “Ah, Brasília era melhor quando não tinha aqui os seus Deputados, quando o Governador era nomeado, não tinha essa confusão de eleição.” Falei: “Mas gente, isso é um exercício democrático legal: você saber quem é que você vai colocar para te representar, quem vai ser seu Governador, ou se não está legal, na próxima a gente dá um jeito, a gente é que tem que saber escolher o processo.” Então é nesse sentido que eu sempre defendo, se fosse preciso começar tudo de novo, para que Brasília pudesse ser o que é, em termos de representação política e em termos de autonomia, eu voltaria a fazer tudo com o maior prazer, sem a carona, saindo de madrugada dos comícios aí, dos atos públicos, né... faria tudo do mesmo jeito. Hoje eu fico realmente feliz de ver... Às vezes me estranha um pouco não ver aquelas pessoas que lutaram muito para que Brasília pudesse ter essas duas condições e elas não estão nem um pouco perto, porque acabaram não sendo reconhecidas, ou não sendo devidamente vistas... enfim, no geral ou por falta de oportunidade, ou por falta de habilidade, alguma coisa aconteceu para que elas não pudessem estar ali representando o povo, naquilo que elas tanto lutaram para que pudessem ser. Às vezes eu acho isso estranho, mas compreendo também um processo, isso é um processo, né: você tem que ir a luta, você tem que batalhar, você tem que, enfim, mostrar, para poder chegar lá, já que estamos num mundo democrático, não existe esse negócio nomeação, você tem que conquistar o voto, e o voto se conquista por aquela pessoa que tem mais habilidade, aquela que convence melhor, então, é nesse sentido. P/1 – Valter, quais são os seus maiores desafios no Distrito Federal? R – Olha, o que eu vejo aqui, para Brasília, um dos maiores desafios, é Brasília se auto-sustentar. Quando eu digo Brasília, é a população, porque Brasília ela é muito carente em termos de oportunidade, para se colocar no mercado de trabalho: ou você faz um concurso público, mas nem todo mundo nasceu com vocação para passar em concurso público, pode até ter o conhecimento, até maior do que aquele que passou. Mas às vezes não consegue. E outra, o serviço público, não é um serviço onde você tem que ir absorver mão-de-obra. Então, eu acho que Brasília não encontrou a sua vocação, a sua verdadeira vocação econômica. Muitos pensam que é o serviço público, mas não é, né? Brasília, eu a entendo como aquela cidade que está pronta para dar oportunidade para você poder crescer, mas só que você tem que descobrir: o quê? O quê eu vou fazer, está no campo do turismo, está no campo, enfim, de... porque indústria aqui não cabe para você absorver mão-de-obra. O comércio é aquela coisa que você, um dia você está dentro, um dia você não está. Quer dizer, não é aquele emprego que a pessoa chega e vai e fala: “Bom, eu estou aqui e vou sobreviver com isso aqui, mas vou enxergar outras coisas na frente para poder, de alguma forma, vencer na vida, não quero morrer sendo o que eu sou hoje.” Então, a gente ainda não conseguiu descobrir qual a verdadeira vocação econômica da nossa Capital Federal. Muitos falam: “Ahhh, Brasília pode ser um pólo disso, um pólo daquilo, um pólo daquilo outro.” Sim, mas por que não vem. E a minha preocupação é que os espaços vão encurtando, para que Brasília possa ter.... encontrar a sua verdadeira vocação. Então, hoje os espaços que a gente tinha belíssimos aí, que de alguma forma poderiam abrigar, não fábrica, mas algum setor, ou setores apropriados para algum tipo de atividade, para absorver mão-de-obra das cidades Satélites ou então do Plano Piloto, estão sendo ocupados com o quê? Com imóveis caríssimos para as pessoas poderem morar, e é claro, elas precisam morar, mas cá pra nós, eu acho que você ocupar áreas que poderiam ser destinadas à outra atividade, para que o todo pudesse ganhar e não apenas alguns. Então eu vejo às vezes até, eu não digo esperteza, mas, às vezes, as pessoas acham que são donas disso aqui, e não são. Os donos somos nós, o povão, que tem que saber o que é melhor para a cidade. E não alguns que pensam que cheguei aqui primeiro, porque eu sou filho disso, sou filho daquilo, sou filho desse ou filho daquele. Não é por aí. Acho que Brasília tem que ser pensada num todo, de uma forma geral que quer o melhor, e pra gente encontrar e acabar com essa tutela, porque praticamente isso é uma tutela que colocaram em cima da gente, que a gente não conseguiu ainda romper. Eu acho que é um processo que ele tem que evoluir, através da nossa Câmara, através dos movimentos, então isso é que a gente tem que realmente batalhar, encontrar a saída e encontrar a verdadeira vocação econômica de Brasília. P/1 – Valter, e como você vê o futuro de Brasília? R – Eu vejo um futuro, como aquela cidade que já é encantadora, e que vai encantar ainda mais, né. Eu vejo Brasília como aquela cidade onde daqui mais alguns anos o brasileiro vai ter orgulho de vir no aniversário da cidade. Não é o aniversário da cidade, é como se fosse o aniversário do país, Brasília Capital. Não é você, é feriado e fechar o comércio, e o povo viajar, cada um vai pra um canto: “Ah, aniversário de Brasília, cada um vai...” É aquela verdadeira festa, aquela festa aonde as pessoas que aqui chegaram e construíram, vão poder e ser devidamente homenageadas, não só os Doutores, mas aqueles que pegaram ali na massa, carregaram o tijolo, que sempre foram esquecidos, nunca foram chamados para as grandes festas, então eu imagino isso. A cidade toda rendendo homenagem a essas pessoas, e o Brasil, brasileiro em si, vendo realmente a sua verdadeira cidade. Essa aqui não é nossa, Brasília é do país, então se a festa é o aniversário de Brasília, então a festa é do Brasil, né? Então eu vejo assim, aquela cidade com trânsito organizado, uma cidade com um sistema de saúde pública funcionando, e funcionando muito bem. Um sistema de educação também excelente, porque Brasília tem todas as condições de ter uma qualidade de vida e já tem em comparação com outras, infelizmente, com outras cidades do país, infelizmente, já eu, no meu pensamento tinha que estar tudo dentro de um padrão. Mas Brasília tem essa qualidade, mas ainda peca muito no campo do transporte, que é difícil, no campo da educação onde as nossas escolas elas têm uma infra estrutura, mas o professor trabalha de forma amargurada, porque não dão condições para ele poder exercer aí a sua profissão a contento. O mesmo acontece também com os médicos, que querem trabalhar, tem uma boa estrutura, mas falta isso, falta aquilo outro, acaba desestimulando. Então, Brasília tem tudo para ser realmente aquela cidade de onde pode irradiar para as demais cidades do país, tudo aquilo que é bom. É o que o brasileiro precisa para poder ter uma vida digna. E não isso que a gente está vendo é? Você vê ilhas de prosperidade em Brasília, como também em outras partes do país. Então eu vejo Brasília como aquilo que... aquela cidade que chegou, não para ser um modelo, mas pelo menos para irradiar e mostrar para todo mundo, que tudo é possível fazer, basta apenas que o gestor, ele cuide bem dos recursos, que ele saiba o que ele vai fazer com aquele recurso, porque dinheiro tem e o que tem o que falta para todos nós é aprender administrar, é o que nos falta ainda. P/1 – Valter, o que você acha desse projeto de registrar a história da luta pela autonomia? R - Ah, eu acho excelente. Eu estava até com medo de morrer e não ter essa oportunidade de poder contar um pouco da minha insignificante história, porque é aquela coisa: você junta uma história daqui com outra de lá, e realmente você vai ter uma história verdadeira contada, né, por aqueles que realmente viveram ali de perto, que sofreram, que sorriram, que vibraram, enfim, que passaram por tudo, por todos os períodos. Então eu acho que vocês estão de parabéns, para mim foi... até levei um susto, quando me foi feito o contato, me foi feito o convite. Quem sou eu para contar realmente esta história, mas eu estou aqui contando aquilo que eu vi, aquilo que eu, enfim, aquilo que eu vivenciei e assim com um prazer muito grande, porque eu sei que as gerações que virão, e essa geração que está aí, está encontrando diferente daquilo que existia há 30 anos atrás. Então, hoje ela, bem ou mal, ela tem aí a escola perto da sua casa, tem o sistema de segurança pública, que também, bem ou mal está aí funcionando. O serviço de saúde, bem ou mal, também está aí funcionando. Então, é interessante que a pessoa que hoje está aqui vendo tudo com facilidade, encontrando tudo com facilidade na porta da sua casa, que ela possa entender que lá atrás teve muita gente que lutou bastante, que tomou chuva, tomou sol, que ficou preocupado de ser chamado na polícia para poder depor, enfim para esclarecer determinados detalhes. Então é isso, você tem que saber que lá atrás a gente derrubou suor, derramou lágrimas, às vezes derramou até sangue; e quantos colegas que nesse processo não conseguiram chegar onde eu cheguei, porque ficaram no meio do caminho, ou por uma doença ou por um acidente, ou então por uma bala. Então, para mim, está sendo realmente um privilégio muito grande. Eu até rendo aqui as homenagens aos colegas, principalmente dos Cobras da Notícia, a figura de um Wilson Minelli, a figura de um Afonso Fabre, na figura de um Mário Nelson. O Mário Nelson taí vivo, para poder enfim, testemunhar também tudo isso, na memória de um Rudnei Bandeira, então, tem tantos outros colegas, que de alguma forma também fizeram, deram a sua contribuição, do seu jeito, para que Brasília pudesse chegar aonde chegou e da forma que chegou. Então, para mim, foi assim, uma alegria muito grande ter batido esse papo, né e perpetuar dessa minha fala aqui com vocês. P/1 – Para a gente foi um prazer. Agora, Valter, você lembrou novamente dos Cobras da Notícia, e para gente encerrar gostaria que você dissesse um pouquinho o que foi o Cobras da Notícia. R – Eu vou sintetizar os Cobras da Notícia, que normalmente encerrava assim: Não somos os melhores, nem piores do que ninguém, somos apenas diferentes. Só isso. P/1 – Bom, muito bom. O Museu da Pessoa e a Fundação do Branco do Brasil agradecem a sua entrevista. R - Eu que agradeço muito a vocês e espero ter contribuído. Eu tenho certeza que quando eu sair daqui alguma coisa deve brotar da minha memória, eu vou ficar danado comigo e por que eu não falei isso, mas quem sabe na outra oportunidade a gente possa contribuir com outros detalhes desse nosso dia a daí daqui da Capital Federal. Foi um prazer também estar com vocês. P/1 – Obrigada. ------------------------------FIM DA ENTREVISTA----------------------------------
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