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História

A volta ao princípio

História de: Onildo Magalhães Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Onildo relembra de sua infância na fazenda que viveu com sua família, onde tinham um contato enorme com a terra, a escola primária, a sua querida professora. Relembra de seu pai, apenas formado no ensino primário, mas que era muito bom nos cálculos matemáticos, acredita que veio daí o seu interesse por engenharia. Relembra do seu período de escola, em Salvador, o período de faculdade, como conseguiu entrar para trabalhar na Companhia Vale do Rio Doce, após a tentativa de trabalhar em outras duas cidades. Conta sobre os seus cargos, o seu período trabalhando na estrada de ferro, das viagens a trabalho, a sua contribuição na melhoria e redução do número de acidentes ferroviários, além de contar da sua aposentadoria e a volta para sua terra natal, onde ocorreu o princípio de tudo.

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História completa

P/1 – Bom dia, Seu Onildo?

 

R – Bom dia!

 

P/1 - A gente começa pedindo aos nossos entrevistados que falem o nome, local e data de nascimento, por favor.

 

R – Pois, não. O meu nome é Onildo Magalhães Costa, eu nasci no dia dezessete de dezembro de 1925, na cidade de Cruz das Almas, estado da Bahia, hoje é a maior produtora de fumo em folhas do país. Acredito que sim, através de algumas empresas que sucederam a antiga fábrica Suerdieck da Bahia. Além disso, a minha cidadezinha ainda tem alguma projeção através da televisão nas suas Festas Juninas, às vezes passam alguns trechos das batalhas de espadas que se realizam lá todo ano, no dia 24 de junho. E, é uma cidadezinha de setenta mil habitantes, um município pequeno. De lá é que saíram as nossas origens.

 

P/1 – E falando nas suas origens, o senhor conhece a origem dos seus pais, dos seus avós?

 

R – Olha, meus pais... Minha mãe nasceu lá em Cruz das Almas mesmo, no município de Cruz das Almas. Eu cheguei a conhecer a minha avó materna, que faleceu com 93 anos, Lorena da Mata Santana. Casou-se em segunda núpcias, e no primeiro casamento só teve a minha mãe como filha. E o meu pai nasceu na cidade de Castro Alves, também no estado da Bahia, numa localidadezinha pequena chamada Salgado. Isso é o que eu sei.

 

P/1 – E Castro Alves é próximo de Cruz das Almas?

 

R – É bem próximo de Cruz das Almas, porque há algum tempo atrás Cruz das Almas pertencia a Castro Alves. Castro Alves era uma cidade muito grande, um município muito grande e que foi desmembrando, que deu origem a Cruz das Almas e outras cidades vizinhas, não. Embora Castro Alves, hoje, o grande poeta Castro Alves, o nosso poeta baiano, tenha nascido no município de Cabaceiras do Paraguaçu, que nessa época pertencia a cidade de Castro Alves. Hoje é uma cidade independente.

 

P/2 – Em relação aos seus avós paternos, você sabe qual era a profissão do seu avô, o pai do seu pai?

 

R – Eles eram pessoas da roça, pessoas humildes da roça e que não cheguei a conhecê-los, nem meu avô paterno, nem minha avó. E meu avô materno, o avô não, o padrasto de minha mãe ele era homem da roça, acostumado a pegar na enxada e trabalhar das seis da manhã às seis da noite. Comia feijão três vezes por dia (risos). É o que eu tenho de informação que posso dar.

 

P/1 - E sobre seus pais, o casamento deles, o senhor conhece como se encontraram, onde se encontraram? Conhece um pouco isso?

R – Realmente isso eu não tenho uma referência que possa lhe dar sobre o casamento de meus pais. Eu tive apenas a oportunidade de acompanhá-los e graças a Deus viveram muito bem. Nós fomos treze irmãos, tiveram treze filhos, fomos treze irmãos e eu fui o último deles. E já estou aqui com 75 anos de idade e ainda sobrevivendo. Meu pai morreu relativamente jovem porque com 75 anos para uma pessoa da roça e muito pouco, mas ele fumava muito e realmente morreu com câncer no pulmão, acredito que era proveniente desse cigarro. Ele era um homem que estava à mesa tomando café ou almoçando e estava com o cigarro aceso do lado. Os dedos dele eram amarelados de tanto fumar. Aí um alerta para os fumantes (risos).

 

P/1 – E a sua infância? Como foi um pouco dessa infância? Como era sua casa?

 

R – Minha infância, apesar de eu ter nascido na cidade, nós morávamos nessa fazenda Engenho da Lagoa que foi herança de minha mãe. E lá existia um engenho e uma lagoa, tinham uma produçãozinha, uma moenda de cana de açúcar e existia isso. É o que contam meus antepassados, eu já não alcancei. Quando eu nasci, esse engenho já tinha sido demolido e meu pai construiu uma casa muito grande já para treze filhos e moramos a nossa infância lá. E me lembro perfeitamente quando nós fomos para a escola. Na cidade nós íamos na única escola que tinha na cidade, distância cinco quilômetros da fazenda e minha primeira professora primária - ainda vive… (Choro) Ela, professora Celina Carvalho de Carneiro Frazão (choro), tenho grande estima por ela! Ainda nos encontramos hoje. Depois de muitos anos nós encontramos e ela me estima como a um filho. Foi ela que me deu os primeiros ensinamentos e a quem agradeço tudo o que sou. Pode parar um pouquinho que estou muito emocionado. 

Isso nós íamos para a escola montado em um burrinho todos os dias porque não tinha outro meio de transporte, eram estradas carroçáveis, então nós, todo dia pela manhã saímos às seis horas da manhã para começar a escola às oito horas da manhã. A escola funcionava até o meio dia, meio dia nós voltávamos também no burrinho para chegar em casa quase duas horas da tarde, sem uma refeição. Levávamos, às vezes, uma merendinha. Isso eu e minhas duas irmãs que eram mais ou menos da minha idade. Meus irmãos, os outros, por facilidade alguns deles foram morar... Passar algum período com os tios que moravam na cidade próxima de Curitiba e lá se desenvolveram, fizeram o curso primário. Mas somente face às condições econômicas e financeiras de meus pais, somente os três últimos filhos, as duas moças se formaram como professoras, a Lígia e a Nair e eu fiz Engenharia Civil, não é? Tive um irmão que foi farmacêutico, mas por esforço próprio ele se formou em farmácia. Os outros todos têm apenas o curso primário. Meu pai era um homem que teve apenas o curso primário, mas era um homem com um discernimento impressionante. Ele fazia cálculos matemáticos, cálculos de área, porque trabalhava como coletor estadual e tinha que calcular a área das fazendas porque iam lá fazer as declarações, pagar os impostos e ele calculava a área das fazendas, dos sítios para o pagamento dos impostos. E ele fazia com uma facilidade. E foi ele que me ensinou a fazer isso e daí tenha vindo o meu interesse pela engenharia. Ele era uma pessoa muito exigente com os filhos. Naquele período de educação que era muito rígido, então ele se sentava na mesa na hora das refeições. Primeiro que era uma mesa grande e cada um ia sentando ninguém abria a boca, apenas para comer, ninguém falava nada na mesa até terminar a refeição. Após a refeição, quando ele se levantasse da mesa aí que os filhos poderiam se levantar. E isso motivou que todos os filhos fossem pessoas íntegras, honestas e seguiram pela vida. Alguns tiveram mais dificuldades, mas outros foram enfrentando... Tanto que quando eu terminei a faculdade e tive que enfrentar. Eu, por ser o caçulinha, o mais moço, ele tinha muita coisa comigo, era muito apegado. Ele tinha sentido bastante a nossa saída de lá, porque realmente saí da minha cidade com doze anos de idade, quando eu fui para Salvador estudar num colégio interno, Colégio Ipiranga, que era do grande educador professor Isaías Alves que foi Ministro da Educação. Fiz o Curso Ginasial, naquela época que existia o curso ginasial, quatro anos interno e depois fui para o Colégio estadual da Bahia, em Salvador, Colégio Central onde fizemos o Curso Científico e posteriormente o vestibular para a faculdade. Escola Politécnica da Bahia em 1945. Estudamos até 1950, quando nos formamos. Nos diplomamos dia onze de dezembro de 1950.

 

P/1 – Antes da gente dar continuidade gostaria que o senhor contasse um pouco mais desse período de sua infância na sua casa. Como eram as brincadeiras? Vocês tinham que ajudar em casa? Plantavam coisas? Como era a vida nessa família tão grande?

 

R – Em virtude de nossa origem mesmo, da terra, nós gostávamos de mexer com a  terra, como dizem lá. E consequentemente a gente estava sempre plantando, fazendo um vasinho, uma coisa, mexendo com a terra, brincando. E isso nos habituou a gostar da terra onde nós nascemos. E consequentemente na nossa fazenda nós tínhamos algumas plantações de laranjeiras, de mangueiras, de abacateiros. Tínhamos realmente bastante fruteiras em casa. E tivemos relativamente uma alimentação sadia. Relativamente não, tivemos realmente uma alimentação sadia. E isso fez com que todos os treze irmãos crescessem e só muitos anos depois, com 38 anos, morreu a minha primeira irmã. Meu irmão mais velho morreu há exatamente dois anos com 93 anos de idade, totalmente lúcido e saudável. Então eu estou aqui. Se Deus permitir eu pretendo chegar lá (risos).

 

P/1 – E em relação a essas festas tradicionais que existem em sua cidade, quando crianças vocês participavam? O senhor se lembra de acompanhar os festejos?

 

R – Naquela época as festas não eram... Eu considero hoje muito violentas, com essa batalha de espada, eu sou contra isso. Eu já tive oportunidade de revelar isso ao prefeito da nossa terra porque realmente é uma batalha campal. A espada, como eles chamam, é um bambu cheio de pólvora em que um atira no outro e que tem acontecido até mortes lá por acidentes de fraturas de crânios e tudo. Mas o povo acha que isso é atração, eu sou contra isso, porque na nossa época nós tínhamos um foguetezinho que a gente brincava, jogava, tinha aquelas estrelinhas, aqueles fogos comuns, que o meu pai gostava sempre, no dia de São João. Lá na fazenda ele acendia uma fogueira muito grande, a fogueira queimava do dia 24 de junho ao dia de dois de julho, que é o dia de independência da Bahia. Então ia queimando, ele alimentando, e queimando. E chamava sempre uma orquestrazinha, o pessoal da roça mesmo, que tocava os instrumentos de corda e fazia o forró com o povo. Quem fosse chegando lá tomava o licor de São João, que é muito comum ainda hoje. As caravanas iam entrando pelas casas, tomando o licor de São João, indo de casa em casa fazendo isso. É até uma festa tradicional muito interessante.

 

P/1 – E quais as brincadeiras que vocês faziam?

 

R – Ah, tinha umas brincadeirinhas de roda, de pular fogueira, compadre e comadre, não é?

 

P/1 – E quando menino, do que o senhor gostava de brincar?

 

R – Olha, eu brincava muito, por incrível que pareça. Porque a diferença para os meus irmãos… Eu tinha logo antes de mim duas irmãs, eu brincava muito com elas, porque eu não tinha irmão. Nós morávamos numa fazenda, não é? O meu irmão era cinco anos mais velho do que eu. Então não dava para brincar com ele, eu brincava muito com as minhas duas irmãs. A gente brincava de cavalinho e tudo, elas enfrentavam a parada. Era bom, era divertido naquela época.

 

P/2 – E em  termos de educação religiosa, a sua família era religiosa?

 

R – A minha família toda é católica praticante e nós também somos, embora eu tenha tido demonstrações espiritualistas muito concretas, que isso hoje me fazem balançar. Mas eu nunca abandonei a nossa religião católica. Pratico eu, minha primeira esposa e a atual esposa, que eu me casei em segundas núpcias. É isso o que eu poderia dizer sobre a nossa formação religiosa. A nossa família toda, os meus pais eram católicos, a minha mãe também muito religiosa.

 

P/2 – Algum desses festejos como Natal, a Páscoa, como eram comemorados na sua casa?

 

R – O Natal sempre foi comemorado em qualquer parte do mundo, não é? É a festa mater da humanidade, não é? E sempre no Natal tínhamos as reuniões familiares, tínhamos os irmãos, os parentes que se reuniam na cidade, lá na fazenda, para o almoço, passavam o dia, o feriado. Então a casa ficava sempre muito cheia para essas comemorações. O que realmente era muito agradável para nós, era motivo sempre de aguardar com ansiedade a festa do ano seguinte.

 

P/1 – Então o senhor aos doze anos vai estudar em Salvador?

 

R – Aos doze anos fui estudar em Salvador, fiz o curso de ginásio no Colégio Ipiranga. Graças a Deus, nunca perdi um ano, nunca fui reprovado em matéria nenhuma. Posteriormente fui para o colégio estadual. Tive oportunidade de vivenciar com algumas autoridades, inclusive o Toninho Malvadeza, que vocês já ouviram falar, ele foi nosso colega de turma.

 

P/2 – Como ele era?

 

R – Sempre foi o capeta que é hoje (risos). Posteriormente fizemos vestibular para a faculdade, fomos bem sucedidos na primeira tentativa. E, consequentemente, levamos a nossa faculdade até o último ano. Não digo que com um pé na frente e outro atrás, mas com luta e trabalho. Estudávamos para o vestibular na casa de um colega, onde nos reuníamos para o vestibular. A irmã desse colega, que era o Dalmo Pimentel, a Dona Rita, ela nos acordava de noite para nos dar merendinha, porque nós virávamos a noite estudando. Mas foi um período muito bom da nossa vida.

 

P/1 – Mas a Engenharia já era uma profissão que o senhor almejava?

 

R – Não, eu tive alguma inclinação porque eu gostava da aritmética, porque naquela época era aritmética, e posteriormente eu achei que a minha profissão tinha que ser essa. Inicialmente eu pensei em Engenharia Mecânica, que eu sempre gostei de trabalhos, mas depois a Escola de Engenharia Mecânica da Bahia não era oficializada. Então eu digo não. Então, vamos partir para a Engenharia  Civil, que era escola oficializada, e fizemos Engenharia Civil. E durante o período da faculdade nós fomos convocados, durante o período da guerra, e tivemos quase com um pé na guerra. A sorte é que nós fomos, conseguimos entrar para o CPOR, fizemos o curso de preparação de oficiais da reserva e, felizmente, na ocasião que me chamaram a guerra terminou e fugimos dessa.

 

P/1 – E quais eram as diversões dos jovens em Salvador, na sua época? Do que que o senhor gostava de fazer?

 

R – Normalmente nós saíamos para uma festinha na casa de um amigo, na casa de outro. E quando interno – isso é um fato até inusitado -, nós tínhamos um copeiro do ginásio, que era lá de uma cidade próxima a nossa terra, ele nos levava de noite para a boate. Já no quarto ou quinto ano nós saíamos fugidos do ginásio para ir para a boate. Uma boate, Rumba Dancing, era uma boatezinha para a gente dançar lá. Mas dava para a gente divertir.

 

P/2 – Mas teve muita diferença? O senhor foi educado numa cidade menor, um outro estilo de vida, e vai para Salvador, uma cidade maior?

 

R -  Eu estranhei... Ah, sim, não resta dúvida. Por isso foi uma das razões que eu fui interno porque não tinha possibilidade de eu ir para uma república. A república... Naquele tempo se adotava muito a república. Então eu fui para o colégio interno. E lutávamos, quer dizer, tinha que ter boas notas durante as aulas para que pudéssemos sair às quintas e domingos, porque a gente queria ir a uma matinezinha. Então a gente tinha que ter boas notas e ser bem comportado no colégio para poder ter autorização para sair. Nós saíamos geralmente depois do almoço do domingo, e na quinta feira também, e voltávamos antes do jantar, que era a ceia final, que era às seis horas da tarde. Assim passamos esse período de quatro anos. 

 

P/1 – Mas vocês, como jovens, iam a bailes, a jogos de futebol, iam a praia? Como era a vida social de um jovem?

 

R – Nós íamos muito a jogos de futebol. Os bailes não tinham essa facilidade que têm hoje, desses funks, não tinha nada disso. Era o nosso tempo mais modesto, um bailezinho de um arrasta-pé. Então a gente andava assim, no arrasta-pé e íamos muito a futebol, eu gosto muito de futebol.

 

P/1 – E qual é o seu time?

 

R – O meu time é o Flamengo, e na Bahia é o Vitória (risos). E tenho bom gosto, não é? De maneira que a gente sempre levou uma vida mais ou menos, equilibrada. E é isso que eu procurei dar aos meus filhos. Eu os reputo dois rapazes equilibrados. Um deles, o mais velho, é casado e tem dois filhinhos, um casal, diga-se de passagem, como todo avô coruja: “São lindos!”

 

P/2 – Qual é o nome dos seus filhos?

 

R – O meu filho mais velho chama-se: Onildo Magalhães Costa Filho, herdou o nome do pai. E o segundo é Renato Magalhães Costa. O primeiro nasceu na Bahia, durante um período que o General Juracy foi governador da Bahia. E ele me requisitou, aqui na Vale do Rio Doce, para eu tomar conta de uma estrada de ferro estadual, a estrada de ferro de Nazaré. Eu fui requisitado aqui, na Companhia Vale do Rio Doce, e levei dois anos lá, ocupando o cargo de Diretor Presidente. Eu já gostava da minha primeira esposa, em Vitória, Espírito Santo, e casei-me morando lá. Ele nasceu lá na Bahia, no Hospital Português. E o segundo, quando terminou esse período em que eu fui requisitado, eu voltei aqui à Vale do Rio Doce. Mas, quando eu saí, eu trabalhava aqui em Vitória. Quando eu retornei e me apresentei em Vitória, e a empresa achou por bem me transferir para o Rio de Janeiro. Cheguei aqui, se não me falha a memória, no dia dois de julho de 1961. E, dois anos depois, um ano e oito meses quase, nasceu o segundo filho, Renato Magalhães Costa. Como ele se dava muito com o avô, com a terra, Ele passou um grande período da vida dele residindo lá em Vitória, com a avó. E hoje ainda reside lá, embora a avó já tenha falecido. E está, como sempre, lutando através de um emprego. Mas é da vida. Lutar é bom. 

 

P/1 – E o tempo da faculdade, como foi? Da formação universitária,

 

R -  A formação universitária era muito boa, porque a nossa faculdade não tinha essas ostentações que têm hoje, de prédios fantásticos adaptados. Era um casarão velho, no centro de Salvador, na avenida principal, na Rua Sete de Setembro, naquela época era a avenida principal. E no centro, no miolinho da cidade, num casarão muito grande e que lá eram realizadas as aulas. O prédio pertencia a faculdade, a universidade e, como sempre, o auditório ficava numa sala encostada na rua. Então a gente ficava jogando xadrez e apreciando o desfile das moças, o desfile do povo ali. O que eles diziam é que nós éramos vagabundos, que passávamos o dia todo jogando xadrez e que não estudávamos. Mas não era bem essa a verdade. A faculdade era de excelentes professores, pessoas de vulto, entre as quais uma foi nosso paraninfo, o ministro Carlos Simas, professor de pontes e de grandes estruturas. Uma pessoa fantástica, o professor Simas. E outros mestres, o professor Leopoldo Amaral, o professor Albano Franco da Rocha, Vasco de Azevedo Filho, que foi Deputado Federal. Aliás, Vasco de Azevedo Neto, o Filho foi nosso professor também. E foi um período bom o período de faculdade. Como sempre, a gente sempre se metia na política também, embora eu não seja político. A gente sempre tomava um partido, por algum candidato, principalmente na política estudantil. Mas nós tínhamos as atividades relativamente restritas, mas eu também reputo como um período muito bom da minha vida.

 

P/1 – O senhor podia descrever esse clima político da época da faculdade?

 

R – Olha, como sempre, existiam os comunistas, os esquerdistas. Não vou dizer comunistas porque nós não temos comunistas, nós temos esquerdistas. Mas eu sempre procurei acompanhar os candidatos de direita e fizemos uma campanha, num determinado período, para um colega. E conseguimos vencer. E a nossa aula lá, pelo menos dentro da faculdade de engenharia, nunca houve domínio grande da ala esquerdista. Eles participavam, nunca deixaram de participar, mas nunca houve clima de animosidade, não. Todos nos entendíamos bem, a divergência era só política.

 

P/1 – O senhor lembra de alguma campanha   em especial da época? 

 

P/1 - Eu me lembro que nós elegemos o nosso candidato, Rivaldo Gomes Guimarães, que chegou até a ser secretário de Estado lá da Bahia, contra, se não me falha a memória, não sei se foi Fernando Santana, que foi Deputado Federal, mas nós conseguimos vencer a batalha.

 

P/2 – Mas vocês se envolviam em questões ligadas ao curso de engenharia, ao currículo, a matérias e aos professores?

 

R – Não, não. Não havia participação nenhuma. A não ser o pessoal do diretório, que às vezes era convidado algum membro nas reuniões de congregação. Normalmente, nas reuniões de congregação da escola não havia participação de alunos. Hoje existe mais liberalidade quanto a participação de alunos, que hoje é mais atuante, não é verdade? Eu acho que beneficamente.

 

P/2 – Tinham moças na turma de engenharia?

 

R – Tinham. Nós formamos duas moças, estão todas as duas vivas e, agora, nesse final de ano, no dia dez de dezembro do ano passado, nós comemoramos cinquenta anos de formatura e, dos 68 formando, conseguimos reunir 42. Fizemos uma festa muito bonita na casa de um colega, uma festa religiosa e muito amiga. Esse colega é um cidadão muito bem sucedido na profissão e ele foi quem patrocinou a nossa festa dos cinquenta anos de formatura. E foi muito agradável, muito boa, muito bem vivenciada. Houve encontro com colegas que não víamos há cinquenta anos. Apareceram colegas do Ceará, do Piauí, e foi uma festa muito bonita. Começou pela manhã, nove horas, com uma missa e às cinco horas da tarde ainda deixamos alguns colegas lá.

 

P/2 – Nesse período de faculdade, em termos profissionais, o que um estudante de Engenharia, naquela época, almejava como profissão ou como emprego? Havia algumas instituições que vocês desejavam trabalhar, como era?

 

R – Eu acho que a luta sempre existiu, não é? Eu, realmente, no tempo de faculdade, consegui, através do sogro do meu irmão, ir trabalhar como estagiário nessa empresa, Companhia Construtora Régis Agostinho, que me dava uma remuneração muito baixa, mas eu fazia a firma, eu ia à construção, trabalhei mais especificamente na construção do Grande Hotel da Bahia, hoje é, me parece, Rede de Hotéis Tropicais. E nós tínhamos o encargo de fazer controle de corpo de prova de concreto, de fiscalizar a armação das estruturas, as ferragens das estruturas, fazer a medição das obras de alvenaria, a medição dos empreiteiros, de alvenaria, de reboco, de embolso, fazíamos essa tarefa, o engenheiro fiscal,  o engenheiro local. O representante da Companhia Construtora era Régis Agostinho, em Salvador era o doutor Oswaldo Silva, que nos deu muitos bons ensinamentos, muito boa orientação.

 

P/1 – E nessa época o senhor já tinha interesse de sair de Salvador?

 

R – Olha, o meu interesse maior em sair foi quando eu estava terminando a faculdade e quando o nosso engenheiro chefe disse que, no momento, a firma não tinha uma outra obra em vista lá em Salvador e que, possivelmente, eu ia ser demitido, dispensado da empresa. Então eu disse: “Eu tenho que me virar.” Era muito difícil lá. Naquela época não existia as indústrias que existem hoje na cidade e na região. Então eu tinha realmente que procurar outro lugar para ir. Foi aí então que surgiu a ideia de procurar outro meio maior e eu sempre fui um grande admirador do estado de São Paulo. Então eu disse: “Vamos tentar São Paulo.” Porque era justamente o grande núcleo industrial do país naquela época. Isso em 1950. Então isso nos obrigou a procurar.

 

P/2 – Como foi essa procura? Como vocês procuravam emprego nessa época, como funcionava?

 

R – Nós procurávamos emprego através de conversa com colegas, com pessoas conhecidas. Dizíamos que estávamos procurando emprego e surgiu uma oportunidade, de um colega nosso ter vindo dois anos antes para São Paulo. Isso que o Departamento de Estradas de Rodagem em São Paulo tinha vaga para  Engenheiro Civil. Eu tinha algumas economias e disse: “Eu vou me aventurar” Então eu fui para São Paulo e lá tentei, junto ao Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo, uma vaga. Procurei o Diretor e ele disse que realmente tinha uma vaga, mas precisava que eu desse alguma apresentação, se eu tinha algum pistolão. Eu não tinha realmente ninguém conhecido em São Paulo. Eu fui a São Paulo praticamente como um aventureiro. Procurei o governador, para ver se ele seria o meu pistolão, mas ele - o Doutor Ademar de Barros - me enrolou e eu não consegui. E continuei mais algum tempo lá em São Paulo, mas não consegui nada. Então resolvi voltar aqui para o Rio de Janeiro, porque um outro colega, que também pleiteava emprego aqui no Rio, me disse que existia duas vagas no Iapetec, que era aquele Instituto de Transporte de Cargas, que os institutos não eram unificados. Tinha duas vagas para Engenheiro Fiscal de obras. Aí então eu vim, encontrei-me com ele aqui, ele disse que éramos candidatos e ele, naquela época, já tinha um carta de apresentação do Doutor Jango Goulart, que era Ministro do Trabalho, para concorrer a uma das vagas. Se eu tivesse alguma apresentação, tudo bem. Então eu pensei assim, e então lembrei-me da possibilidade de ser atendido pelo General Juracy Magalhães, que era Presidente, na época, da Companhia Vale do Rio Doce, e procurei ele na sede da Companhia.

 

P/2 – Mas qual era o seu contato com o Doutor Juracy Magalhães?

 

R – Olha, anteriormente eu não tinha contato, mas o meu pai era político, era correligionário político do General Juracy Magalhães e nós tínhamos uma pessoa muito amiga que chegava a ser até contra parente, que era o Deputado Albérico Fraga. E eu telefonei para o Albérico Fraga e o Albérico disse que eu poderia procurar Juracy, que eu seria bem atendido. Eu, então, fui à Vale do Rio Doce e falei.

 

P/2 – Que ficava onde nessa época?

 

R – Ali na Rua Presidente Wilson,  edifício Novo Mundo, no terceiro andar , se não me falha a memória. Mas a audiência com o General Juracy Magalhães, principalmente a audiência pública, era o modo mais liberal que eu já conheci até hoje. Era o salão dele aberto e quem fosse chegando ia sentando. Ele sentava-se no canto, numa mesa, e a secretária do lado, a datilógrafa. Naquele tempo ainda era aquela maquinazinha manual. E as pessoas interessadas iam sentando nas cadeiras ao redor, do lado da parede, e a proporção que iam sendo atendidas, iam saindo. E eu me sentei lá e fui atendido.  Fui atendido, expliquei o meu caso a ele, disse da necessidade de ter uma carta de apresentação para o professor Oscar Stevenson, que era o presidente do Iapetec. Na mesma hora ele virou-se para a secretária e disse: “Escreva aí.” Ele ditou uma carta para a secretária e ela datilografou. Essa carta eu ainda tenho até hoje guardada. E me apresentando dizendo que eu era o candidato dele a participar da equipe do Iapetec. Mas, infelizmente, eu levei vinte ou 21 dias aqui no Rio e minhas economias estavam acabando, embora eu tivesse me hospedado em um hotelzinho bem modesto, ali na Rua Mem de Sá. O dinheiro estava acabando e eu tinha que voltar. Na minha terra, de qualquer forma, eu tenho onde morar e o que comer, na casa dos meus pais.

 

P/2 – Era a primeira vez do senhor no Rio de Janeiro?

 

R – Não, eu tinha estado no Rio de Janeiro um ano antes, naquela caravana que faziam as faculdades. Todo ano se fazia uma caravana, pelo menos as universidades lá no norte vinham conhecer o sul. Nós fazíamos rifas e tudo para adquirir recursos e então dividíamos com os alunos participantes. E eu vim na segunda turma. Estivemos aqui no Rio, São Paulo, fomos a Curitiba, Porto Alegre e, o dinheiro rendeu um pouquinho, fomos até Montevidéu e Buenos Aires. 

 

P/2 - Mas para conhecer as cidades ou para conhecer empresas?       

 

R – Não, só para conhecer as cidades. Era, digamos, um divertimento. 

Como eu dizia, eu procurei o general, ele me entregou essa carta. E eu não sendo bem sucedido junto ao professor Oscar Stevenson, eu voltei a ele para agradecer e certificá-lo de que eu ia embora, ia retornar a Bahia. Ele virou-se para mim e disse: “Você não quer trabalhar na Vale do Rio Doce? Se eu tivesse um filho engenheiro, ele iria trabalhar na Vale do Rio Doce.” Eu disse: “Bom, eu aceito o convite.” Ele aí virou-se e disse: “O senhor procure imediatamente o Doutor Luís Burlamaqui de Mello, que é o Superintendente Geral da estrada, e o senhor tem um prazo de oito dias para se apresentar em Vitória, ao Superintendente da estrada, porque nós estamos precisando de um engenheiro lá e o senhor tem que se apresentar imediatamente.”

 

P/1 – Seu Onildo, o senhor conhecia já a Vale do Rio Doce?

 

R – Não, nada, nada, nada.

 

P/1 – Não tinha noção do que era a companhia?

 

R – Não, não. Nem tinha ideia do que era a Vale do Rio Doce. E eu fui à Bahia. Inicialmente, eu estive com o superintendente, que era o Doutor Louis Burlamaqui de Mello, que me deu uma carta de apresentação para o Superintendente da estrada, que era, naquela ocasião, o General Wolmar Carneiro da Cunha, que tinha sido o meu comandante no CPOR. Eu fui à Bahia, peguei lá o restinho de roupa que eu tinha e retornei a Vitória, me apresentei ao general e, imediatamente, eu comecei a me submeter aos exames médicos para admissão. E, finalmente, no dia treze de julho de 1951 eu fui admitido na Vale do Rio Doce, onde eu trabalhei 33 anos e alguns meses. E o General Juracy era um homem de uma fibra fantástica, faleceu este ano, e ele tinha uma memória fantástica e uma facilidade de motivar as pessoas. E isso, eu acredito, que não só a mim, como a outros colegas, a outros funcionários da empresa. Ele conseguia motivar o funcionário a gostar da empresa, mas amar a empresa como se fosse um patrimônio dele. E foi assim que eu trabalhei 33 anos na Vale do Rio Doce, considerei a empresa como se fosse o meu patrimônio, a minha casa. Isso eu acho que o General Juracy teve um grande mérito. E por outras atitudes dele, como: todo mês ele fazia uma viagem, a fiscalização do Departamento de Estradas e Departamento das Minas, porque naquele tempo a companhia era constituída de dois departamentos. Aliás, tinha o Departamento de Estradas, o Departamento de Minas e o Departamento de Obras. E ele viajava lá, para fiscalizar. Ia lá, corria as instalações do Departamento das Minas e descia normalmente pela Estrada de Ferro, ou através de um trenzinho de administração, ou automóvel de linha. E o Engenheiro Residente, o cargo que eu fui ocupar lá, era obrigado a acompanhar qualquer autoridade, nas viagens dele, no trecho que ele era responsável. Então o nosso contato continuou aí e era muito interessante porque ele gostava muito quando fazíamos essa viagem, principalmente quando eu estava na terceira residência. Mais adiante eu vou detalhar o que era. E quando estava na terceira residência, ele nos levava muito para a casa da administração, na Fazenda Conceição, em Itabira, que tinha uns pés de jabuticaba  - que coisa linda! - , então, a gente dormia lá, ele passava o dia e, no dia seguinte, ele viajava. Mas era, avançava nas jabuticabeiras, que era uma coisa gostosa. Deliciosas frutas. E ele conversava muito, porque ele continuava naquele convívio até a hora que ele deitava. Então jogava ainda um buraquinho ou uma canastra com a gente, participava, embora nós fôssemos funcionários iniciantes. Mas ele sempre foi muito liberal. 

Mas, como eu dizia, eu procurei o general, fizemos os exames médicos, fomos aprovados no exame médico e iniciamos no dia treze de junho de 1951, quando fomos designados para trabalhar na terceira residência. Porque a estrada de ferro tinha 570 quilômetros de extensão. A estrada de ferro que transportava o minério da Vale do Rio Doce, principalmente. E esse trecho de 570 quilômetros era dividido em três residências. A primeira residência ia de Vitória até Aimorés, no estado de Minas, duzentos quilômetros; a segunda residência, ia de Aimorés a (Anac?), com mais duzentos quilômetros; E a terceira residência que ia de (Anac?)  até Itabira, onde estão as minas, as reservas de minério da Vale do Rio Doce, tinha 170 quilômetros. E era realmente o trecho de mais difícil manutenção, porque era um trecho de rampas muito fortes e curvas também muito fechadas. Então, era o trecho mais trabalhoso da estrada de ferro.

 

 P/1 - Em que consistia a manutenção da estrada de ferro?

 

R – Bom, estrada de ferro, cada trecho deste tinha um Engenheiro Residente. E esse Engenheiro Residente tinha dois mestres de linha, um mestre de linha para cada cem quilômetros. Por sua vez, o mestre de linha tinha dez turmas de conservação, composta do feitor e mais dez trabalhadores, para dar manutenção a essa linha. Agora, todos os trechos tinha uma turma de conservação, era uma turma de socorro, que chamava-se turma de lastro, quando existia algum acidente ou quando algum trecho ficava mais deteriorado. Então eles pediam ao Engenheiro, porque era o Engenheiro que controlava isso. E o Engenheiro mandava essa equipe de lastro para dar ajuda aos mestres de linha e aos feitores.

 

P/1 – E como era feita a comunicação?

 

R – A comunicação era muito rudimentar. Existia um telefone – hoje eu não sei porque tem muito tempo que eu não vou lá – que chamava-se seletivo. Através desse telefone seletivo e do antigo pica-pau, passava um telegrama pedindo ajuda.

 

P/2 – O senhor estava baseado onde, o senhor morava onde?

 

R – Eu passei, quando eu assumi a terceira residência, eu me baseei na cidade de Antônio Dias, no estado de Minas Gerais, era uma comarca. Mas era uma cidadezinha muito pequena e as autoridades da cidade eram o Juiz de Direito, que ia lá só no dia de audiência, o Doutor Milanês, que era um promotor, era uma pessoa fantástica, era nosso companheiro, muito bom, mineiro; e tinha o farmacêutico; e tinha outros amigos que, quando o tempo permitia, a gente sentava no barzinho para tomar uma cerveja. E eu morava numa casa pertencente a Companhia, era uma casa velha. E lá tinha um empregado para me atender, mas não a minha alimentação. Nós, então, comíamos lá em Antônio Dias, numa pensãozinha de Dona Genoveva. Era uma comida muito gostosa, uma senhora muito boa e muito bem visitada, porque naquela época, às vezes, o trem parava em algumas cidades para almoço. E ela se dava muito com o promotor e com o juiz. E quando eles estavam lá, embora o promotor morasse lá, ele gostava de comer a comidinha de Dona Genoveva. E o juiz, normalmente, nos finais de semana, ia embora para Belo Horizonte. E assim vivemos lá um período muito saudável.

 

P/2 – E o senhor, baiano, se acostumou a comida mineira?

 

R – Muito. É uma delícia o tutuzinho mineiro (risos). É muito gostoso.

 

P/2 – Quando o senhor chegou nessa cidade já tinha essa casa da Vale?

 

R – Já sim. Essa casa era muito antiga. Eu acredito que tenha sido alguma casa adquirida pela empresa na época da sua constituição, da estrada de ferro, e ela tenha mantido essa casa para um engenheiro residente. E essa casa era uma casa com quase toda a estrutura de madeira, as paredes não eram de blocos, eram cheias com barro, taipa, tanto que quando o trem passava em baixo, a casa tremia um pouco.

 

P/1 – E o seu relacionamento com os seus subordinados, com os empregados, com o feitor, como se dava?

 

R – Graças a Deus, sempre foi bom, porque a minha maneira de conversar, nunca alterei a minha voz para ninguém. Eu sempre tive essa maneira de falar, simples, e sempre me entendi muito bem com eles, muito bem. Quando havia algum deslize por parte deles, eu chamava particularmente e conversava com eles. Felizmente eu só tive um caso durante esse período que trabalhei com as equipes, principalmente essa turma de trabalhadores. Como um trabalhador de uma turma de conservação que resolveu tomar uma pingolada de cachaça, pegou o feitor e partiu para cima do feitor, para dar um sopapo. E eu mandei que o feitor suspendesse ele. O feitor o suspendeu e no dia seguinte ele pegou uma foice e foi para matar o feitor. Ai eu fui obrigado a pedir um inquérito administrativo e o setor jurídico e do trabalho da Vale do Rio Doce fez e ele foi dispensado da empresa. Foi o único desentendimento que eu tive na empresa. E, consequentemente, depois que ele foi demitido, ele disse que iria me matar. Aí eu comuniquei isso ao superintendente. Isso eu já estava na primeira residência, em Vitória. Eu comuniquei ao superintendente, e este me mandou comprar uma arma e eu tive por algum tempo usando uma arma na cintura, com medo... Com medo, não, com receio. Mas graças a Deus, eu nunca precisei usar e eu não gosto de usar arma, não. Não é do meu feitio, nem da minha formação. O resto foi tudo em paz. Todos os meus auxiliares, todos os meus amigos e os meus superiores também. Graças a Deus, eu só construí, na Vale do Rio Doce, amigos.

 

P/1 – E o senhor chegou a trabalhar nas três residências?

 

R – Trabalhei nas três residências. Inicialmente, em 1951, fui designado para Antônio Dias, a terceira residência; no começo de 1952 a Companhia admitiu um outro engenheiro que me substituiu na terceira e, então eu vim para a residência de Governador Valadares, que estava também desocupada. Aí eu fiquei um ano, em torno de um ano em Governador Valadares, sendo que essa residência já era uma pouco mais puxada porque, além da manutenção da linha permanente, ela tinha uma oficina também, para a manutenção de veículos, de equipamentos, tratores. E era sob a nossa orientação que ela funcionava. E, posteriormente, nós fomos para Vitória, em 1953. Daí ficamos lá até 1959. Mas levamos dois anos. Em 1953 ela começou a exploração de uma pedreira para lastreamento da linha, e nós éramos responsáveis também pela manutenção e produção de brita para toda a estrada de ferro, lá em Santana, no município de Cariacica, no Espírito Santo. Nós éramos os responsáveis pela manutenção dessa pedreira e tivemos bons auxiliares. Dentre eles, eu destaco, um grande auxiliar, ________ Moraes. E ficamos lá por algum período. Posteriormente fomos melhorados, acho que passamos a ser ajudante da Via Permanente, porque logo que nós fomos para Vitória, pouco tempo depois, o Doutor Eliezer Batista, que chegou a ser Ministro e chegou a ser Presidente da Vale do Rio Doce, foi nomeado chefe da Divisão da Via Permanente. Aí nós passamos a trabalhar juntos, ele sediado em Vitória. Mas tivemos muito contato, muita ligação, viajamos muito. E nas inspeções a gente saia, ele era uma pessoa muito trabalhadora. Entrávamos para trabalhar juntos. Às vezes saíamos às cinco horas da manhã e só voltávamos às nove, dez horas da noite, em viagens de inspeção. Tínhamos muito bom relacionamento, até pelo menos quase a minha saída da Vale do Rio Doce. Depois eu me afastei também, ele alcançou os postos mais graduados e aí era mais difícil o nosso contato.

 

P/1 – E nessa época, qual era a capacidade dos trens?

 

R – Quando eu entrei na Vale do Rio Doce, os trens tinham capacidade para trinta toneladas o vagão. Hoje, se não me engano, já está em noventa toneladas cada vagão de minério. Os trens de minério tinham em torno de vinte vagões de trinta toneladas. E quando eu saí da estrada, já estavam transportando 180 vagões de noventa toneladas. Na época que eu entrei, eram locomotivas a vapor que tracionavam os trens. E nós, como Engenheiros Residentes, éramos obrigados, quase que diariamente, a percorrer o trecho. De um modo geral, a gente viajava na locomotiva junto ao maquinista para ver os defeitos da linha, quando não era de um automóvelzinho de linha que nós andávamos. Nós éramos obrigados porque a locomotiva mostrava melhor os defeitos apresentados pela ferrovia. E, depois, chegaram as locomotivas maiores, importadas da França. E com os trens, na época das locomotivas a vapor, havia muitos acidentes, por causa do problema de freio, principalmente na serra, porque as locomotivas não tinham capacidade para manter. Então quando havia qualquer falha na Via Permanente, ocorria tombamento e, consequentemente, esses tombamentos acumulavam, três, quatro, cinco, até dez vagões, um em cima do outro, e a gente levava, às vezes, oito, dez dias para retirar, para limpar a linha, restabelecer o tráfego na estrada. E o Engenheiro Residente não podia se afastar dali um minuto. E a gente virava ali dia e noite. De vez em quando dava uma cochilada em cima de um monte de barro, mas tinha que estar ali. Foi uma época dura, mas muito saudável, muito saudável. Não me arrependo de nada.

 

P/2 – O senhor ficou um ano em Governador Valadares e depois vai para Vitória, em 1953. E aí fica...

 

R – Eu fiquei até 1959.

 

P/2 – Até 1959.

 

R – Aliás, minto. Até 1958, final de 1958...

 

P/2 – Doutor Onildo, eu gostaria que o senhor nos contasse um pouco como foi essa experiência em Governador Valadares e qual foi a sua impressão ao chegar à cidade?

 

R – Bom, quando eu fui admitido na Vale do Rio Doce, no dia seguinte peguei o trem de passageiros e fui para Governador Valadares, que era onde o trem pernoitava. Naquela época o trem saia de Vitória às sete horas da manhã e pernoitava em Governador Valadares, percorria 330 quilômetros. E realmente nós ficamos hospedados no Hotel Rio Doce. E era um pouco frio aquela época do ano, era o mês de julho. E dormimos bem no hotel e, no dia seguinte, de manhã, acordamos um pouco cedo, cinco e meia para as seis horas da manhã, e o tumulto, aquele burburinho, chegamos na janela do hotel, em frente a estação ferroviária, ali depositavam muitas toras de madeira para serem transportadas pelos trens, porque o município abastecia a região de madeira. E procuramos ver e tal, e tinha em cima daquelas toras de madeira – porque Governador Valadares tinha a fama de ser uma cidade muito perigosa – e tinha uma pessoa lá, um homem deitado em cima de uma tora de madeira, vestido de roupa branca e decapitado, a roupa totalmente limpa. Então deve ter sido alguma aventura amorosa que resultou na decapitação. Então eu me apavorei, não era para menos, não é? Depois daqueles fatos e tal, mas a gente se precavia e com medo. Com isso, eu fui para Antônio Dias. Quando eu retornei, voltei a morar em Governador Valadares, quando eu assumi a segunda residência, no ano seguinte. A cidade é uma cidade muito boa hoje. Eu calculo hoje que deve ter mais de meio milhão de habitantes, é uma cidade bem traçada, tem uma infraestrutura muito boa, é um entroncamento rodoferroviário. A BR 116 passa por lá e tem a estrada de ferro Vitória-Minas que é pertencente a Vale do Rio Doce. Então a cidade cresceu muito, muitos bons hotéis, muitas boas casas. E tem pessoas muito bem sucedidas financeiramente. E hoje, dizem que talvez seja a cidade do Brasil que mais mandou brasileiros para os Estados Unidos (risos). Então, a vida, naquela época... Existia uma indústria, uma pequena indústria de mica, que eles utilizavam malacaxeta para produzir implementos para eletricidade. E tinha aquelas fabricazinhas lá. Mas a cidade tinha, realmente, uma vida noturna dentro do prostíbulo, muito, muito bom, muito arrumado, que chamava-se Figueirinha. Era para onde a gente ia para as dançazinhas e tal. E tinha o capitão Pedro Ferreira, que era afamado, um homem de uma coragem danada. Se bem que ele nunca ficava de costas para ninguém. No lugar que ele chegasse, ele encostava na parede. Era um capitão da Polícia Militar, com muita coragem. Uma vez, um cara, um daqueles desordeiros, achou de se enfeitar com ele: “Se o senhor é homem é porque está cheio de soldado. Venha sozinho!” Ele partiu para cima do cara e, em dois golpes ele quebrou o cara. Passou-lhe a perna, derrubou e tal. Mas era um cara muito exigente. Os presos lá ele botava para trabalhar, porque tirava o preso da cadeia e botava o preso na rua, para limpar a rua. Fosse quem fosse, capinar a rua. Não tinha isso, não. Realmente nós fizemos muito boa amizade. Eu não sei hoje onde ele se encontra, mas foi um homem que amansou aquela região. Ele foi para lá para justamente acabar, ou reduzir a criminalidade de Governador Valadares. Porque aquela região era uma região muito braba. Não só Governador Valadares como Conselheiro Pena, Redentor, eram cidades muito perigosas do estado de Minas. 

Eu ia partir no dia seguinte para Antônio Dias, eu fiquei hospedado lá. No ano seguinte que eu retornei. Mas eu vinha sempre para Governador Valadares, porque era cento e poucos quilômetros de Antônio Dias. Então quando eu tinha uma folga de fim de semana, a gente ia lá para passear. Mas quando eu retornei a Governador, a Companhia me deu uma casa junto ao clube de tênis, o Figueirinha. A casa era muito boa, de alvenaria. Nós ficamos um ano morando nessa casa. E a vida noturna da cidade era só aquele divertimento, mas era uma cidade muito agitada, um comércio bom, um movimento muito bom. Em resumo, era uma cidade muito boa naquela região, que eu reputo, naquela época, que talvez fosse a melhor cidade da região, na zona do Rio Doce.

 

P/1 – E qual era especificamente o seu trabalho na segunda residência?

 

R – Na segunda residência, eu fazia o mesmo trabalho que fazia na terceira, a parte de  manutenção da Via Permanente e tinha também a parte de oficinas, porque lá tinha uma oficina menor do que a que tinha em Vitória, para a manutenção dos equipamentos, dos tratores, das máquinas de linha, que eles tinham lá, dos automóveis também. Porque a Companhia tinha também alguns automóveis e caminhões, lá em Governador Valadares. Porque lá tinha sediado também um Departamento de Obras, então isso dava para encher o nosso tempo. Embora o trecho fosse um trecho mais suave do que o trecho lá da serra, porque a ferrovia tinha traçado melhor, em planta e perfil e, consequentemente dava uma manutenção mais fácil. Agora, o grande mérito foi… Ainda me encontrava em Antônio Dias e a ferrovia já estava fazendo o lastreamento da linha férrea com brita. Então nós tínhamos que tirar todo aquele lastro de terra, substituir os dormentes e colocar o lastro de brita, que tinha que ter, no mínimo, trinta centímetros de brita, embaixo dos dormentes. Depois dos dormentes vinha a placa de apoio e, consequentemente, o trilho. E nessa ocasião, a Vale do Rio Doce também já iniciou... Minto, ela tinha trilho de 35 quilômetros por metro, 35 quilos por metro, era o trilho mais baixo. E nós fazíamos a manutenção. Tínhamos também a mesma coisa, as turmas de conservação eram a mesma coisa, dez homens com um feitor para cada dez quilômetros de linha. E mais aquela turma de lastro, que era a turma auxiliar. 

Bom, esse período também foi relativamente curto. Depois nós fomos para Vitória. Mas, nessa época, já estava sendo construída, na cidade de (Barrancueté?), uma usina para a produção de pedra britada, lá da própria Companhia. E ela produzia muita pedra lá. E, me lembro de um fato agora porque a especificação das normas técnicas determina que a pedra britada tem que ter tamanho máximo de duas polegadas e meia e mínimo de três quartos de polegada. E o general Juracy Magalhães, quando presidente, foi lá. Um dia ele chegou na pedreira e pegou uma pedra assim, virou-se para o Doutor Duarte, que era Superintendente de construção, e disse: “Doutor Duarte, qual é a especificação disso aqui?” Ele disse: “Duas e meia a três quartos.” Ele pegou a pedra e isso assim, uma, duas... Já cheguei em duas e meia e ainda não chegamos na metade do tamanho da pedra. Quer dizer, estava totalmente contra às especificações. Ele era exigente. Mas construiu-se essa usina de produção de brita, que realmente deu uma produção muito grande, que era distribuída ao longo de toda a estrada. E posteriormente essa usina foi transferida para Vitória, no município de Cariacica. Quando eu fui para Vitória eu fui trabalhar nessa usina como responsável pela produção e abastecimento das outras residências. Abastecia a residência que ocupava e abastecia as outras residências. Nós éramos obrigados a abastecer as outras residências fazendo uma distribuição de acordo com o chefe da Divisão da Linha Permanente.

 

P/1 – Então, estava sob sua responsabilidade a manutenção da estrada e a oficina?

 

R – Da usina também, da pedreira. A produção de brita.

 

P/1 – E em relação ainda a esse __________, de que forma essas melhorias acarretaram na estrada de ferro e como era antes, que era de barro e de terra?

 

R – Antes, qualquer chuva que ocorresse dava sempre defeitos na ferrovia. Quer dizer, chovia, então amolecia e o trilho começavam a ver aquelas oscilações e,  consequentemente, ocorriam acidentes de descarrilhamento e tombamento de trem. E com o dilaceramento, a drenagem da linha era mais fácil, quer dizer, o escorrimento da água não deixava que ocorresse isso. Melhorou substancialmente e reduziu muito o número de acidentes ferroviários. Foi um período de muito trabalho, muita luta e, paralelamente também, nós fazíamos a parte de melhoramento e retificação do trecho ferroviário, porque tinha trecho de muitas curvas. Então a gente ia fazendo as variantes e ligávamos as variantes, melhorávamos o trecho ferroviário, para consequentemente aumentar a velocidade comercial dos trens.

 

P/1 – O senhor poderia explicar melhor o que são as variantes?

 

R – As variantes eram linhas que nós construíamos paralelamente, a mesma coisa. Fazíamos um aterro e, em cima do aterro, quando nós já construíamos assim, nós colocávamos o lastro de brita, os dormentes, as placas de apoio e os trilhos. Ligávamos na linha principal e abandonávamos aquele trecho que era tortuoso, que era cheio de curvas e também de alguma declividade. 

 

P/2 – O senhor lembra de ter presenciado algum acidente de grandes dimensões?

R – Vários, vários e vários. Uma das vezes, o General Juracy estava descendo Itabira e nos comunicaram que tinha ocorrido um acidente. Eu estava descendo junto com ele no trem de administração e eles ficaram retidos numa estaçãozinha que se chama Engenheiro Guilma. E nós descemos, fomos dar socorro lá em baixo, no trecho, e ele levou três dias preso ali, com a família. Nessa época ele estava com a família, era até próximo do Natal. Mas deu para passar depois de liberarmos a linha. E com referência a esse trecho acidentado, que nós liberamos lá em cima, quando eu morava ainda na terceira residência, me lembro de um fato até muito curioso. Tinha um senhor, que era topógrafo prático, não era formado, e nós estávamos fazendo uma retificação lá do Rio Piracicaba e choveu muito, muito mesmo. Então ele entrou pelo seletivo, aquele aparelhozinho rude: “Doutor Magalhães...” - ele me chamava de Doutor Magalhães - “Doutor Magalhães, o troço aqui está feio. Está chovendo tanto que até sapo está morrendo afogado! (risos)". Mas chovia mesmo, o Rio Piracicaba, nessa região, era muito acidentado e tanto que tem, já tinha uma grande quantidade de pequenas usinas hidrelétricas. Um rio que tem um potencial elétrico e hidráulico muito grande para a região. 

 

P/2 – Essa precariedade do sistema de comunicação também acarretava desastres?

 

R – Ocorria eventualmente, mas era um sistema muito seguro, apesar disso, porque a liberação dos trens de minério era através ainda daquele telégrafo sem fio, o pica-pau, não é? E, ali ele tinha que pegar uma mensagem, pegava a mensagem escrita quando o trem chegava, aquela mensagem era entregue ao maquinista. Ele só poderia avançar de uma estrada para outra, de uma estação para outra, com aquela liberação que era escrita. De maneira que era muito difícil ocorrer acidentes. Mas havia, eventualmente, mas não com frequência, não havia frequência de acidentes, não. Mas hoje, os meios já são melhores e, depois, já veio esse serviço de comunicação através dos telefones motorola. Hoje, os maquinistas já se comunicam através da motorola. E os meios já são maiores, além de ter o controle dos trens numa central. Existia uma central, que se chamava Central do Seletivo, para controlar os trens, inclusive onde os trens iriam se encontrar, porque os trens iam se encontrar numa estação onde tinha um desvio. Era feito através de uma estação de controle em Governador Valadares e a outra na estação de Vitória. Quem controlava isso chamava-se Central de Seletivo, Central do Departamento de Transportes. Bom, então, da parte de Governador Valadares, eu acho que já atendi. E, no ano seguinte, em 1953, nós fomos morar em Vitória, transferidos para a primeira residência. Assumimos a Pedreira de Santana, a Oficina de Manutenção de Vagões e a residência de duzentos quilômetros. Tivemos ali dois mestres de linha excepcionais: o Antônio Marques, pessoa de responsabilidade, e o Alberto Batista. Dois grandes auxiliares nós tivemos. E conseguimos, felizmente, atravessar esse período, com a melhoria acentuada do tráfego. Quando chegou em mil e novecentos e... Aí ficamos, fomos ajudantes, passamos ao cargo de ajudantes e, em 1958, nós conseguimos um curso, através do Ponto 4, e treinamento nos Estados Unidos. Fomos através do Ponto 4, a Companhia pagou a minha passagem e me dava uma diária de dez dólares - dinheiro para burro! (risos) Dez dólares. E depositava o meu salário. Bom, então nós fomos lá, e tínhamos uma ajuda do governo americano, e fizemos um treinamento nos Estados Unidos em algumas ferrovias: ___________ Rio Grande e outras e outras ferrovias. Ai já fizemos o treinamento, para a mecanização da Via Permanente. Fomos nós que fomos lá e fizemos esse treinamento. Visitamos também várias fábricas de produção de equipamentos ferroviários, de manutenção. Nós saímos daqui em novembro e um fato foi interessante porque chegamos lá, justamente no dia de Ação de Graças, nos Estados Unidos. Passamos uma fome danada, porque é tudo fechado. Você não encontra nem um botequim para tomar água. Só no dia seguinte pudemos comer (risos). Ficamos lá, primeiro porque não dominávamos muito bem a língua, então ficamos uns vinte dias treinando a língua. Depois iniciamos o curso, passamos em Washington – e, diga-se de passagem, uma cidade belíssima, eu gostei muito, tranquila. Depois começamos a labuta, percorrendo aquelas ferrovias já mecanizadas dos Estados Unidos. E era uma época de muito frio, chegamos até, um dia, numa cidadezinha, no estado do Colorado, pegar 33 graus abaixo de zero de temperatura. 

 

P/1 – E essas estradas também transportavam minério?

 

R – Transportavam, algumas transportavam mercadorias de um modo geral. Porque lá, nos Estados Unidos existe a concorrência entre ferrovias no transporte de carga. Então não é assim, como é no Brasil, que nós temos uma estrada só para transportar tudo. Lá elas concorrem. Então, aquela que der melhor tarifa, ela tem a preferência do frete. Então tem ferrovias muito boas, excelentes, equipamentos ferroviários muito bons, fábricas de equipamentos ferroviários muito bons. Hoje, eu não sei se aqui no Brasil já se está produzindo esses equipamentos. Mas eu sei que nós que implantamos, fomos nós que iniciamos o treinamento do pessoal aí. E hoje a Vale do Rio Doce tem um serviço de Manutenção Mecanizada da Via Permanente. E tenho orgulho de dizer que fomos nós que iniciamos, com a ajuda do Doutor Eliezer Batista, que era o nossa chefe na Via Permanente.

 

P/2 – Era comum, era uma prática da empresa, mandar os seus empregados para esse tipo de aperfeiçoamento no exterior, ou vocês foram pioneiros?

 

R – Não, antes de mim, foram doze engenheiros, quando a locomotiva... Bom, o Doutor Eliezer foi várias vezes, quando a Companhia comprou as locomotivas diesel-elétricas, na General Motors, eles foram passar um período lá em (La Grange?), na fábrica de locomotivas, passaram um período lá treinando a manutenção de locomotivas diesel.

 

P/2  - Eles foram pioneiros nesse tipo de coisa?

 

P/1 – Ele estava falando de (La Grange?), que os técnicos foram fazer estágio.

 

R – Eu tenho um relatório de tudo o que eu fiz nesse período. Realmente, a Vale do Rio Doce mandou outros engenheiros antes de mim e, posteriormente, também foram vários. E os dois que foram anteriormente a nossa ida, eles foram fazer treinamento na parte de manutenção na parte de locomotivas diesel, porque a Vale tinha comprado um grande número de locomotivas - dez locomotivas - então eles foram fazer um treinamento lá, para trabalhar na manutenção de locomotivas. E durante esse período que eles estiveram lá, eu acumulei o lugar dele, que era a parte de manutenção. Mas me dediquei mais a parte de locomotivas, porque eu já tinha os meus auxiliares nos outros setores. Então eu fiquei um período trabalhando lá na oficina de Manutenção de Locomotivas, lá em Vitória.

 

P/1 – Quer dizer, o senhor viu a chegada dessas locomotivas a diesel?

 

R – Vi sim. Vi a chegada das locomotivas. Existia um fato interessante porque a companhia comprou essas locomotivas a diesel-elétricas dos Estados Unidos e comprou uma locomotiva diesel-hidráulica da Alemanha. Então tanto a General Motors, com a fábrica Klaus ________, da Alemanha, mandaram técnicos para acompanhar, pelo menos o período inicial de manutenção. E eles ficavam, às vezes, um embaixo das locomotivas copiando os dados de outras locomotivas. O alemão copiando da locomotiva americana. E o americano copiando da locomotiva alemã. Mas era interessante, tivemos muito bom relacionamento com ambos, tanto com o americano, o Mister David Ray, como o alemão. E o período foi relativamente curto, eles passaram seis meses. Depois retornamos às nossas bases.

P/2 – E como é que foi aceitação dos empregados brasileiros, dos ferroviários para essa nova...

 

R – Manutenção?

 

P/2 – Manutenção.

 

R – A reação vocês não podem imaginar. Uma loucura! Eu tinha um feitor lá, Sizenando, não me lembro mais o sobrenome dele, e nós éramos obrigados a suspender a circulação dos trens, para fazer inclusive a substituição de trens e  a manutenção por um período de duas ou três horas, quando não passava três. Ele disse: Ah, essa porcaria, “Eu, com os meus homens,produzo mais do que isso". E realmente, ele era muito trabalhador e quando nós iniciamos, realmente o êxito não foi total, mas depois que o pessoal foi treinando, então o rendimento passou a ser fantástico. Nós passamos a trocar um quilômetro e meio, dois quilômetros de linha por dia. Mas era um serviço todo coordenado, tínhamos equipamento para fazer cada coisa, equipamento para tirar parafuso, equipamento para colocar os pregos, equipamento para soltar, preparar os dormentes para aplicação da placa e tudo. E uma vez quebrou um desses equipamentos, nós fomos obrigados a paralisar. E o Sizenando disse: “Meu Deus do céu, eu dizia que a gente ia produzir mais.” Mas realmente o serviço mecanizado funciona. E ele conseguiu, nós já estávamos produzindo, substituindo cerca, foi na época da substituição dos trilhos, 35 quilos por metro por 57, já de fabricação nacional, aqui na Siderúrgica Nacional. Então ele se queixou que, realmente, que hoje a turma estava organizada e a equipe bem menor e a produtividade muito maior. Mas, posteriormente, eu saí também, fui ocupar um outro cargo e nessa época também nós já tínhamos… Trabalhava conosco cada um dos Engenheiros Residentes, a gente tinha um sistema de controle, capinação química, porque o mato crescia muito do lado da linha. Então nós tínhamos um processo de capina química que funcionava muito bem.

 

P/2 – Essa mecanização trouxe um desemprego ali na ferrovia, não?

 

R – Não, porque muita gente foi deslocada de um setor para outro. Mas serviu para limpar, porque nessa época já tinha muito trabalhador idoso, que foi se aposentando, e nós fomos preenchendo essas turmas de mecanização permanente por trabalhadores dessa turma de mecânica.

 

P/1 – Essa divisão de controle era também ligada à ferrovia que o senhor assumiu?

 

R – Era sim, essa divisão de controle era uma divisão que absorvia os setores de compras do departamento da estrada e financeira, parte de pagamentos e tal. Mas eu tive aí, por um período relativamente curto, foi quando o General Juracy me requisitou para ir para a Bahia. Aí eu deixei, fui obrigado a sair da divisão de controles, mas tínhamos nessa divisão muito bons auxiliares. Seu Aníbal Moraes, Seu José Silva, pessoas dedicadíssimas, corretas, muito sérias, muito direitas.

 

P/1 – E qual o cargo que o General Juracy ocupava nessa época?

 

R – Ele foi Presidente da Vale do Rio Doce.

 

P/1 – Não, eu digo, quando ele lhe chamou para...

 

R – Quando ele me chamou?

 

P/1 – É.

 

R – Ele tinha sido eleito governador do estado da Bahia. Então ele me chamou para lá, ele me convidou, fez uma assembléia, indicou meu nome. Quando eu cheguei dos Estados Unidos, eu já estava com o meu nome indicado, eu pedi para ele que me aguardasse algum tempo porque eu estava fazendo a implantação, eu não ia voltar de uma viagem de um estágio para deixar assim.

 

P/2 – E quais eram as suas atividades? Quanto tempo o senhor esteve na Bahia nesse período?

 

R – Eu fui Diretor de uma estrada de ferro. Estrada de ferro Nazaré, que tem 270 quilômetros, que vai do Porto de São Roque, dentro da Bahia de Todos os Santos, até a cidade de Jequié, onde tinha uma reserva, tinha não, tem ainda uma reserva de minério de ferro. Então a atividade principal da estrada de ferro era transportar o minério de ferro até o Porto de São Roque, para exportação. 

 

P/1 – E quem era o proprietário da mina?

 

R – Olha, eram umas firmas particulares. Gruner e Companhia, tinha umas três ou quatro firmas. Agora, os nossos vagões lá  transportavam dez a quinze toneladas, enquanto a Vale do Rio Doce já estava transportando vagões de noventa mil toneladas.

 

P/1 – E essa experiência nos Estados Unidos contribuiu para a gestão dessa linha férrea?

 

R – Não, porque eu já tinha uma experiência muito boa dentro da Vale do Rio Doce. Porque nos Estados Unidos foi apenas um aperfeiçoamento. E isso permitiu que nós também, através do meu conhecimento, junto à Vale do Rio Doce, eu conseguia alguns recursos e já iniciamos uma substituição de trilhos lá da estrada de ferro, que era um trecho muito pequeno, muito leves, pelos trilhos que estavam sendo retirados aqui na Vale do Rio Doce. E eu levei muitos trilhos lá e substitui um trecho muito grande da ferrovia. 

Mas lá também, a ferrovia tinha o mesmo problema, não tinha o lastro com britas, tinha só pequenos trechos. Então a manutenção era muito difícil, embora o transporte fosse menor. E também existia uma evasão muito grande de rendas, porque embora fosse uma região produtora de cereais, grande, ninguém queria transportar os cereais pela estrada. Eu procurava os produtores, os exportadores e nada. “Para eu botar a minha mercadoria na estrada de ferro, eu vou ter que pagar imposto. Eu arranjo um caminhão daqueles, ele vai direto no consumidor e eu não tenho que pagar imposto nenhum!” Isso eu falei ao Governador e ao Secretário da Fazenda. Mas isso existe, infelizmente, no Brasil todo, essa sonegação. Eu acho que foi um período válido que, infelizmente, eu tive que interromper, porque tivemos uma enchente muito grande, que praticamente destruiu quase toda estrada de ferro.

 

P/2 – Em que ano isso, Doutor Onildo?

 

R – Isso em 1961. Destruiu dentro da oficina, porque inclusive a oficina de manutenção de locomotivas era encostada num riozinho, que tem lá. E o rio subiu muito e encheu até a oficina. Eu consegui também até locomotivas. Nesta ocasião, porque as locomotivas lá já estavam muito velhas, muito usadas, conseguiram locomotivas da Vale do Rio Doce e da Rede Ferroviária, que eram locomotivas já obsoletas para eles, locomotivas à vapor. Mas, para lá, para a Estrada de Ferro Nazaré, eram locomotivas ainda muito boas. Aí chegou a um ponto que houve uma interferência da política na estrada de ferro. E quando eu fui para lá, eu disse ao General: “General, eu não sou político, o senhor deve ter observado esse período que nós temos de convívio, que eu não sou político. Eu espero que a política não vá interferir na minha administração.” Mas, se aproximando as outras eleições, então os correligionários políticos começaram a fazer umas cartinhas para ele denunciando concessões que ele estava fazendo a funcionários da empresa, correligionários do adversário. Ele me chamou lá no palácio, eu fui lá ao palácio. Eu entrava no palácio para ver o governador assim: empurrava a porta e entrava. E ele, então, mandou que eu respondesse aquela carta. Eu pedi a ele 24 horas, fui para casa, juntamente como o meu auxiliar fizemos a resposta e, no final, eu pedi demissão da estrada de ferro. Aí eu voltei, quando eu voltei, ele me fez uma carta, que ainda se encontra nos meus arquivos, agradecendo os serviços prestados e que eu retornasse a Vale do Rio Doce, onde ele me conheceu...

 

P/1 – Isso em que ano?

 

R – Isso em 1961. Foi quando eu voltei para a Vale do Rio Doce. Quando eu saí, eu era sediado em Vitória. Ai a Vale do Rio Doce já me trouxe para o Rio de Janeiro, e eu vim trabalhar aqui.

 

P/1 – E que cargo o senhor ocupou aqui no Rio?

 

R – Eu fiquei aqui como Assessor Especial do Patrimônio, como Auxiliar do Doutor Carlos Pereira Neto, que era o Superintendente Geral do Patrimônio. Aí, eu tive a oportunidade de desincumbir algumas tarefas, quando fui ser auxiliar dele. Eu tive fiscalizando, não efetiva, mas eu tive de quinze em quinze [dias] a Brasília, porque a Vale do Rio Doce tinha iniciado a construção de um prédio em Brasília, e eu ia lá fiscalizar, fazer prestação de obras. E tinha um engenheiro permanente na obra, mas eu ia fazer as compras, fazer a liberação de verbas para pagamento, e tudo. Nisso levei uns quatro ou cinco meses. E posteriormente houve também um contrato de fabricação de vagões - dois contratos, aliás – com a Mafersa, material ferroviário, que construiu esses vagões do metrô. E, num período que ela pediu concordata, aí então o BNDES pediu que a Vale do Rio Doce indicasse um elemento, para juntamente com um representante dele, fiscalizar o cumprimento do contrato. E nós, então, passamos nove meses vindo ao Rio de Janeiro. Minha família estava residindo aqui, eu vinha toda sexta feira. Saia de lá às quatro horas da tarde, quando fechava a fábrica e dormia em Juiz de Fora e, no dia seguinte, saíamos cedinho para passar aqui o sábado, o domingo e segunda feira de manhã voltarmos. Levamos aqui nove meses fiscalizando a construção desses vagões. Graças a Deus, tudo correu com normalidade e todos os vagões foram entregues, apesar do pedido de concordata. Éramos um triunvirato que administrava, era o Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte, o Doutor Álvaro Café, representante do BNDES e eu, como representante da Vale do Rio Doce. E foi mais uma etapa, mais uma experiência na vida.

 

P/1 – E uma pergunta. (Pausa)

 

R - ... foi sim, foi nesse período que ela foi construída. Hoje ele pertence à Novacap, porque foi, me parece, na época, uma imposição do Presidente Juscelino Kubistchek, que a Vale do Rio Doce aplicasse algum dinheiro lá. Porque a ideia era levar a sede da Vale do Rio Doce para lá. E chegou a ir. Alguns empregados, inclusive, se beneficiaram com as transferências para lá e conseguiram até melhoria salarial, gratificação de transferência e tudo.

 

P/1 – E como era o clima de Brasília em 1961?

 

R – Era aquela loucura: poeira, era uma coisa louca, era uma loucura. Nós morávamos ainda... Quando íamos lá não tinha hotel ainda, era naquelas barraquinhas de madeira, tinha os hoteizinhos de madeira e tal, e ficávamos lá geralmente um ou dois dias. Mas era uma locomoção muito difícil, embora nosso engenheiro tivesse uma condução lá, que nos transportava sempre para lá. Mas era uma coisa, era um movimento monstruoso. Eu não sei, eu não posso afirmar, mas dizem que até a areia ia de avião. Então foi um dispêndio tremendo. Se realmente é verdade, o fato é que  Brasília está aí construída, não é? É realmente uma bela cidade, cidade muito bonita.

 

P/1 – E em relação a sua vida pessoal, quando se casou, onde se casou?

 

R – Bom, eu, quando o General Juracy me convidou para eu ir para a Bahia, para dirigir essa estrada de ferro, eu estava noivo. E fui para lá e, saudade deu, eu tive que casar. Aí eu casei, não é? (risos).

 

P/1 – O nome da sua esposa?

 

R – Da minha primeira esposa? Maria da Glória (La Perierre?) Costa. Ela era capixaba, do município de Alegre. Nos casamos, fomos para a Bahia, lá nasceu o nosso primeiro filho e, quando terminou o meu contrato, essa fase que eu estive a disposição do governo do estado, eu voltei para o Rio de Janeiro e o meu segundo filho já nasceu aqui, na Casa de Saúde Santa Lúcia.

 

P/2 – O senhor morou em que bairro aqui na cidade do Rio?

 

R – Eu morei primeiro em Copacabana, na Avenida Copacabana, no posto três, na Avenida Copacabana 454, apartamento 702. Era uma incorporação de militares que eu consegui, que tinha um apartamento vazio e cujo proprietário tinha sido um general, que estava removido para a Bahia, e casualmente chegou ao meu conhecimento que ele estava à venda. Então eu comprei através da Caixa Econômica, com o financiamento da Caixa Econômica, o meu primeiro apartamento. Quando foi em 1972, já o prédio era um prédio muito antigo. Como hoje ainda está lá. Então eu achei que devia procurar um lugar mais próximo para os meus filhos, que ainda estavam estudando o curso primário. Então nos mudamos para Laranjeiras e passei a morar na Rua Ipiranga 91, apartamento 1101, um apartamento bom. E lá vivi doze anos também. Mas, muito bom, gostei muito do bairro de Laranjeiras, um clima bem ameno, saudável e fácil de se viver. E naquela região, próxima do Largo do Machado, tem tudo hoje, e hoje tem o metrô. Porque quando eu fui morar ali ainda estava na época da construção do metrô, de maneira que o acesso era horrível. Mas depois da construção do metrô nós estamos vendo que o acesso era muito fácil, para qualquer... Não só através do metrô, como as linhas de ônibus para qualquer bairro do Rio de Janeiro.

 

P/2 – E o senhor se aposenta em que ano, Doutor Onildo?

 

R – Eu me aposentei no dia trinta de outubro de 1984.

 

P/1 – Em que função?

 

R – Eu me aposentei como Gerente da Divisão da Reserva do Rio Doce. Eu ocupei, embora esse período todo, eu sempre me queixei dos meus colegas, um deles fui eu até que levei para a Vale do Rio Doce, o professor Raimundo Mascarenhas, que foi Presidente da Vale do Rio Doce, ele chegou ao cargo de presidente. Então eu estava querendo me aposentar, porque já tinha tempo que eu estava querendo me aposentar. Eu pedi a ele para ver se ele me arranjava uma posição melhor, que eu estava querendo me aposentar. Eu não pretendia ficar muito tempo na Vale do Rio Doce e ocupar a vaga de outra pessoa, não. Porque eu ainda me julgava uma pessoa útil, que podia desempenhar outra função. E não tive praticamente, eu tive poucas oportunidades na Vale do Rio Doce. Eu ocupei o cargo de Gerente da Divisão de Controle, me aposentei como Gerente de Divisão, e ocupei o cargo de Gerente da Divisão de Administração Patrimonial. Ai eu realmente passei um período muito longo, ainda sob a subordinação do Doutor Carlos Neto, porque nessa parte de Administração Patrimonial nós tínhamos o gerenciamento e a fiscalização de todos os bens patrimoniais da Companhia – bens móveis e imóveis. Tínhamos ainda a venda de materiais __________ indisponíveis, que isso se, graças a Deus, eu olho para o céu e agradeço a Deus, se eu fosse homem desonesto, hoje eu estaria rico, não estaria aqui. Porque me dava margem para fazer grandes trapaças. Mas, graças a Deus, eu costumo botar a minha cabeça no travesseiro e acordar tranquilo no dia seguinte. Eu tenho aquilo que construí através do meu trabalho e do meu esforço.

 

P/2 – Que tipo de trapaças que poderiam ser feitas?

 

R – Essa parte de vendas de materiais e ________ disponíveis e indisponíveis eram todos materiais disponíveis na Vale do Rio Doce, sucatas e não sei o quê. E sabe-se que nesse meio existe muita sujeira, não é? A não ser a minha maneira de tratar, a minha maneira muito aberta nunca fui tentado, tiveram medo de me tentar. Exceto uma vez que abri uma concorrência para a venda de, se não me falha a memória, duzentas toneladas de sucata de bronze, que era um valor bem alto. Um dos participantes me procurou e disse que precisava ganhar aquela concorrência. Eu disse: “Bom, o senhor dá a proposta, o senhor ganha. É aberto, o senhor viu como é que a gente abre, na frente de todo mundo. A proposta é: entregue na hora e é aberta na frente de todo mundo.” Aí ele voltou insistindo, dias depois ele mandou uma moça muito bonita me tentar, lá no escritório. Na saída, estava na hora de encerrar o expediente. Ela disse: “Vamos tomar um uísque?” Eu  disse: “Não, senhora. A senhora me desculpe, mas a minha esposa trabalha aqui pertinho, no IBGE e nós costumamos ir juntos para casa.” Ele não satisfeito com isso, no dia da concorrência, ele botou um cheque dentro da proposta dele. Aí eu peguei o cheque assim e joguei para o lado, e fiquei quieto. Quando abrimos todas as propostas, eu disse: “De quem é esse cheque aqui?” Ele disse: “É meu, pois eu estava dando falta desse cheque, lá no escritório. Esse cheque é meu.” E nós trabalhávamos no décimo primeiro andar na Avenida Churchill. Ele desceu a pé os onze lances de escada (risos). Eu mandei pegar ele lá embaixo, mas o rapaz não pegou, foi pelo elevador, mas não pegou ele lá. Ele foi embora. Graças a Deus, foi a única tentação e isso eu não me arrependo de ter feito. E é com muita honra que eu declaro isso. 

Bom, como eu dizia, também as oportunidades que a Companhia me deu, talvez seja pela minha incapacidade. Isso aí quem julga é a Administração. Eu não tive oportunidade. Tive uma vez um convite para ser Superintendente da Valia, da nossa Fundação. Mas o meu pistolão, até pelo marechal José _________, acho que o meu pistolão foi fraco e eu não fui eleito. Não fui nem no local onde disputei a eleição. E pedi ao Doutor Clodoaldo, que foi diretor, morou comigo muitos anos, no tempo de solteiro, ao Doutor Mascarenhas, que eu precisava sair da Vale do Rio Doce e estava querendo uma promoção, uma melhoria salarial para me aposentar em melhor situação, mas não tive. Aí eu tive que sair. A minha esposa estava querendo se aposentar, porque ela já tinha tempo para se aposentar no IBGE. Então nos aposentamos os dois no mesmo dia.

 

P/1 – O senhor fica aqui no Rio, depois da aposentadoria?

 

R – Eu tentei viver aqui no Rio, mas eu não achei nada para fazer de imediato. Porque eu me levantava cedo, ia para o Aterro do Flamengo, andava lá duas horas, voltava para casa, lia o Jornal do Brasil de ponta a ponta. Aí ficava sem nada para fazer. Quando tinha um cinema, ia ao cinema. Aí começou a aparecer problemas cardíacos e tal. Eu tive a assistência do Doutor Cícero Torres, médico amigo nosso. E começou a surgir esses problemas. Então procuramos outros médicos. O médico perguntava: "O que você faz?” “Estou aposentado.” “Precisa arranjar o que fazer!” “Eu me aposentei, como é que eu vou arranjar o que fazer?” Não é verdade? "Só tem que procurar outra coisa". Surgiu a oportunidade, eu vou voltar lá para a terrinha. Então vou procurar o que fazer, vou cavar terra outra vez. E assim voltei para lá e consegui até hoje estar aqui, contornando os problemas cardíacos. Faço a minha caminhada.

 

P/2 – Como é um dia seu hoje, Doutor Onildo?

 

R – Hoje, o meu dia… Me arranjaram um abacaxi há dois anos atrás. O prefeito de lá é muito nosso amigo, o prefeito da cidade. E fundaram uma Associação dos Produtores de Leite. Eu nunca fui produtor de leite, pelo contrário. E houve lá a assembléia, me indicaram e eu fui eleito presidente da associação. E está me dando um trabalhinho danado, porque a associação está em organização e até hoje não conseguimos ainda botar ela em funcionamento. Já temos o terreno, compramos outra área para aumentar o terreno, já conseguimos comprar a usina. Mas está faltando recursos para construir, edificar o prédio da usina. Então, com essa minha saída atrasou um pouco, perturbou. Isso nos ocupa. E tenho uma fazendinha lá que, vamos lá, vamos ocupar, e plantamos uma laranjinha e vendemos uma laranjinha, um coco e tal. Temos muitas fruteiras no sítio, na fazendinha e, com isso a gente vai gastando, vai a Salvador, procura um médico de quando em vez, quando não tem o que fazer. Ai vamos ver como é que está a aparelhagem. Então o tempo vai passando e a gente está aí, escondido enquanto Deus permitir. 

Eu fiquei viúvo em 1990, justamente a minha primeira esposa apareceu com câncer e ela faleceu no dia do meu aniversário, dezessete de dezembro. Isso marcou bastante. Eu fiquei muito abalado, emagreci quatorze quilos, fiquei muito arrasado. Meu filho mais velho já era casado e queria que eu fosse morar com ele. “Ah, meu pai, vem morar comigo!” Eu disse: “Não, meu filho, minha casa está aqui. Se você quiser vir morar comigo é diferente. Mas eu ir morar com você não dá. E uma prima da minha falecida esposa, que trabalhava com essa que hoje é a minha esposa, numa escola em Jacarepaguá… Então tinha lá essa professora de Educação Física, que era muito amiga dela e que era viúva também. Ela disse: “Ah, vou arranjar uma moça para casar com você". E me apresentou, Deus foi bom, achou que ela servia para mim e nos conhecemos, vivemos algum tempo, menos de um ano, e resolvemos casar e estamos casados há sete anos já.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Maria Filomena Monteiro Carneiro da Cunha. Vivemos, graças a Deus, muito bem. Agora, ela não está passando bem de saúde. Mas, se Deus permitir, ela vai se recuperar.

 

P/1 – Estamos chegando ao final da entrevista, a gente costuma perguntar o que que o senhor achou de deixar esse depoimento aqui, para a Vale Memória?

 

R – Eu achei fantástico, principalmente porque eu quero revelar aqui uma mágoa. Por ser ainda hoje um funcionário que doou metade da sua vida para a Vale do Rio Doce, foram 33 anos de serviços prestados, ser tratado na Portaria da Vale do Rio Doce como um visitante. E não devia ser somente eu, não. Todos os outros empregados deveriam ser tratados como aposentados da Vale do Rio Doce, e não como visitantes. Nós entramos na fila, lá, e participamos da mesma forma, como se queríamos visitar ou procurar uma instalação da Vale do Rio Doce. Tanto que eu não vou lá. Quando eu vou, eu vou à Valia, ficar lá. Ou quando eu vou, vou ao primeiro andar no Clube de Investimento. Mas eu acho isso degradante para um ex-funcionário ser fichado, ser fotografado. Me perdoa a Administração da Vale do Rio Doce, mas é uma mágoa que eu tenho. E também, naquela ocasião, antes de aposentar, eu estava com uma promessa de visitar instalações da Vale do Rio Doce, lá em Carajás, porque eu ajudei muito na área de compras, na remessa de equipamentos e tudo. Ajudamos muito a construir lá a Ferrovia Norte e estávamos com a promessa de uma visita lá, ao Projeto Carajás. Infelizmente eu me aposentei e esse sonho meu foi por água abaixo. Mas eu espero que a Administração da Vale do Rio Doce ainda me conceda isso, à mim e à minha esposa.

 

P/2 – O senhor tem esse sonho de visitar Carajás?

 

R – Eu tenho, eu gostaria muito de conhecer aquela região. Porque eu conheço o Brasil, relativamente bem, até Fortaleza. De Fortaleza para lá, eu não conheço. E até eu disse à minha mulher, nessa última vez que nós fomos para os Estados Unidos: “Eu vou com você porque eu te prometi que nós íamos fazer essa viagem, mas eu gostaria mais de conhecer o meu país.” Porque eu acho que nós temos coisas lindas. Eu vi realmente coisas muito bonitas nos Estados Unidos e como eles sabem explorar as belezas naturais. E nós temos aqui no Brasil coisas tão bonitas quanto nos Estados Unidos. Brasília é um troço lindo, Brasília é um troço lindo, eu acho. Um projeto arquitetônico grandioso. Aquele ______ tem muito mérito.

 

P/1 – Para finalizar, o senhor gostaria de deixar alguma mensagem para os atuais ou futuros funcionários da Vale do Rio Doce?

 

R – Não. Eu quero agradecer a todos os meus colegas, ao meu primeiro mestre que foi o Doutor Ademar Ribeiro Vidal, é falecido. Foi esse que nos deu a primeira prática. Porque nós tínhamos a teoria da faculdade, mas de estrada a gente não conhecia nada de prática. Ademar Vidal foi o nosso primeiro mestre, muito nosso amigo; ao Doutor Eliezer, que eu estimo muito, embora eu esteja afastado dele há muitos anos, eu procurei até manter um relacionamento através de cartões postais, mas as ocupações dele, as atribulações são diferentes. E aos meus superintendentes: o Doutor Costa e Silva, Doutor Carlos Neto, que é falecido, e  aos meus companheiros da Vale do Rio Doce, todos os meus companheiros da época. E agradecer também a oportunidade que a Vale do Rio Doce me deu de prestar esse depoimento, que eu me sinto muito honrado de tê-lo desempenhado e espero que tenha sido a contento. Muito obrigado.

 

P/1 e P/2 – Muito obrigado ao senhor!

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