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História

A vitória de um saco de arroz

História de: Almir Oliveira Ramos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2016

Sinopse

Almir Oliveira Ramos é o filho mais velho de seu pai e o segundo filho de sua mãe. Em seu depoimento, Almir conta da origem da família, de como o avô migrou para São Paulo, nos idos dos anos 20, a pé, em busca de melhores condições. Com essa mesma promessa, seu pai saiu do interior paulista para a capital, assim como sua mãe que veio do interior de Algoas. Almir nasceu e cresceu num bairro periférico da cidade de São Paulo e desde muito pequeno ajudava a mãe no sustento da família. Com esse senso de compromisso e responsabilidade, Almir conta o dia que se sentiu vitorioso: quando não se tinha o que comer em sua casa e ele conseguiu, com o suor do seu trabalho, um saco de arroz de dois quilos. Essa sensação o levou a acrecitar que os sonhos são possíveis e essa história acompanha toda a sua trajetória. Almir estudou em escolas públicas e foi na que cursou o Ensino Médio que conheceu o trabalho do AFS. Com o sonho de viajar e conhecer o mundo, Almir se inscreveu no processo seletivo da bolsa oferecida por esses voluntários e conseguiu. Mas o patrocinador, por conta dos planos de governos, decidiu não bancar e foi com o trabalho dos voluntários para arrecadar o dinheiro da viagem que Almir conseguiu: fez o intercâmbio nos Estados Unidos. Almir conta em seu depoimento como foi o processo de adaptação e de aprendizado da língua que desconhecia até então. Em seguida, como foi a volta e ter que voltar à dura realidade em que vivia em São Paulo. Almir só conseguiu se manter erguido porque junto com seu trabalho iniciou a carreira de voluntário que seguiu por muitos anos, chegando à presidência. Almir descreve também, além dos desafios de voluntário, os desafios de ser pai de intercambista, já que dois de seus quatro filhos já viajaram de intercâmbio. Além disso, Almir conta com orgulho como foi poder oferecer bolsas de estudos para estudantes que, como ele, precisavam da oportunidade.

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História completa

Não tinha comida em casa e eu consegui um pacote de dois quilos de arroz. Se você me perguntar: “Qual o momento que você se lembra que você se sentiu bem sucedido na vida?”. Esse é o momento. Eu morava numa ladeira. Quando eu consegui comprar um pacote de arroz de dois quilos, e o coloquei embaixo do braço, eu olhei pra baixo e falei: “Cara, eu posso qualquer coisa. Tudo o que eu quiser eu posso”.

Eu trabalhava de dia e estudava à noite. E aí estava escrevendo alguma coisa, concentrado [durante a aula], entrou esse grupo de pessoas e eles começaram a falar sobre bolsa de estudos no exterior. Parei tudo o que eu estava fazendo e falei: “Eu vou ganhar essa bolsa. Não sei como, não sei o que tem que fazer”, eles tinham acabado de começar a falar, tal. E foi o primeiro contato que eu tive com o AFS, foi com esse grupo que entrou na sala e aí eu fui depois saber como me inscrevia. Se inscreveram acho que um mil, cento e poucos candidatos e eu coloquei na minha cabeça: “É a minha oportunidade”. Como eu tive uma infância muito: “tem que ser hoje porque amanhã...”, não dava pra pensar no futuro, você podia ter desejos, sonhos, tal, mas tinha que resolver questões práticas do dia, tipo arrumar o que comer. “Eu não sei o que vai acontecer, mas eu vou ganhar essa bolsa”. Eu participei de um processo de seleção que começou com uma prova de conhecimentos gerais, aí várias sessões de dinâmica de grupo depois entrevistas individuais, entrevistas na própria casa de cada candidato. Desses mil e cem, eu acabei sendo selecionado. E aí falei: “Poxa, realizei a primeira parte do que eu tinha em mente, consegui uma bolsa pra estudar nos Estados Unidos”. Nesse ínterim, os meses foram passando e veio o tal do Plano Collor (risos). Até então, essa bolsa ia ser paga por um banco americano de Nova York, nem sei se existe hoje, acho que foi comprado por um outro banco e eles iam pagar a bolsa. De repente, veio o Plano Collor e os caras não iam mais pagar a bolsa. Alegria de pobre realmente (risos) tem pouca duração, né? Bobagem. Já não tinha mais o dinheiro e alguém teve uma ideia, dentro do AFS, de fazer uma rifa e aí colocou lá: “Campanha Almir”, tinha uma historinha, com o objetivo de arrecadar fundos. Essa campanha foi muito bem, tanto que levantou-se fundos pra minha bolsa e ainda sobrou dinheiro para uma segunda. Virou uma campanha que foi reproduzida nos anos seguintes, acho que por dez anos eles fizeram Campanha Almir 2, Campanha Almir 3. Com essa campanha, outros estudantes foram contemplados, começou em São Paulo e depois outros estudantes no Brasil foram foram contemplados, houve fundos, houve verbas para que eles pudessem também morar fora.

Quando me falaram que não tinha mais dinheiro pra bolsa, o mundo caiu. Porque eu falei: “Pô, e agora?”. Aí falavam pra mim assim: “No ano que vem, a gente vai tentar conseguir”, eu falei: “Não tem ano que vem, eu não posso esperar. Não tenho essa possibilidade de esperar”. Quando eu vi essa mobilização, eu falei assim: “Caramba”. Primeiro, eu perguntei: “Por que essas pessoas fazem isso? Deve ser uma coisa muito boa pras próprias pessoas fazerem”. E foi um grande aprendizado pra mim porque mais uma vez me mostrou aquela história do pacote de arroz de dois quilos. Eu lembro muito bem que eu lembrei dessa fase e eu falei: “Pôxa vida, tá vendo como é possível? A gente consegue transformar”, isso me deu muita esperança de que a gente podia, que a força da articulação, quando uma pessoa acredita as coisas já andam, né? Quando outras pessoas acreditam na mesma coisa, não tem como não dar certo. Aquilo tudo me ensinou que primeiro que eu tinha muita sorte, que eu era muito abençoado e me ensinou que o mundo não era só os meus desejos ou as minhas angústias, que eu podia, dentro das condições que eu tinha, sendo poucas ou não, fazer alguma coisa também. E foi muito legal. Quando eu recebi a confirmação que eu ia viajar eu falei: “Pôxa, é isso que eu quero pra minha vida, sabe? Eu vou viajar, eu vou ter uma experiência, isso vai ajudar a transformar a minha vida”. Mas só transformar a minha vida não resolve, então eu aprendi muito com isso, com esse momento que eu podia ser importante dentro de qualquer contexto.

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