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História

A violência começava dentro de mim

História de: Hilda Almeida dos Santos
Autor: Coleção Alagados
Publicado em: 29/07/2020

Sinopse

Hilda se percebe como protagonista da violência e narra uma mudança interior a partir do convívio com a comunidade religiosa.

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História completa

Primeiro que a violência, eu penso, eu tenho quase que certeza, começa dentro de mim. Eu faço uma… uma avaliação, né, uma autoanálise de anos atrás, do jeito que eu me comportava, do jeito que eu resolvia as coisas e como eu me comporto hoje e como eu resolvo as coisas hoje, né? Ah, antes eu dava ordens, eu determinava, eu pra o fazia assim e… e isso já começava dentro da minha casa, né? Assim, já começava lá com os meus irmãos e em casa era assim também. Então é isso: “ - É para fazer assim, para fazer assim!” E sem respeito do outro, o mais forte é que ganha, eu sou mãe, os filhos têm que obedecer e pronto. E se discutisse, apanhava, né? E nisso ia no trabalho, em que vai impondo o nosso jeito… eu me impondo, né? O meu jeito, entendeu? Querer assim, isso é assim, já que é melhor para você também, se é bom para mim é bom para você [risos] e é bom para todo o mundo, tem que ser feito assim. Então, as pessoas de um modo… mesmo que não quisessem, mas faziam, né? Por causa não por… talvez pela minha violência física, mas pela minha determinação porque quando eu… no momento em que eu falava, eu mesma reconheço que eu tinha um poder de… de influenciar, né? Eu… eu me lembro bem de que tinha o poder de influenciar mesmo e que eu devo, pelo próprio tom da minha voz. Então não dava muito chance [risos] de negociação, não. [risos] Né? Eu não dava muita… muita chance de negociação, não. Então… eu só [risos] E sempre foi… foi assim, entrei na igreja assim, com o meu comportamento assim e lá eu fui me… me podando, não, quem me dera, né? Foram me podando, né? Então, foram me podando e cada vez que podava, doía, eu me debatia, eu brigava. Eu sempre tive uma… um gênio muito forte. Não porque eu já… eu já falei porque quando eu comecei… eu entrei na igreja, o meu… estava com problema de depressão, né? Assim aquela situação de depressão, então ninguém vem na minha casa, nem fale dos meus filhos… Então eu entrei na igreja como uma última… último… tábua de salvação. Eu entrei lá como… então eu entrei do jeito que eu era, do jeito que eu estava, como eu estava e foi lá que eu comecei, assim, com quem era que eu batia de frente era com o padre, não tinha outra pessoa. Eu convivia muito com ele, foi ele que me levou para a igreja, foi ele que me convidou a participar da igreja. Então eu começava a ter os meus primeiros choques era com o sacerdote porque eu queria fazer do meu jeito, como eu queria e ele demonstrava isso, simplesmente não aderia ou não dava a menor bola do que eu fazia e ainda dizia e eu pirava [risos]. Mas… e… mas, bom, eu fui sendo lapidada, tem muitas pessoas que passaram na minha vida, eu fui encontrando umas pessoas dentro da igreja que passaram na minha vida que cada um foi tendo sua contribuição, né? Cada um foi tirando a sua lasquinha e eu… ali dentro eu vi que era realmente o meu lugar, se eu chorasse, se eu sorria ou se eu me esperneasse, se eu brigasse ou não, ali era o meu lugar e não tinha… me encontrei na igreja lá naquele lugar. Não queria sair. Então se eu tinha que me deixar podar, me deixar polir para continuar ali, mesmo que eu me debatesse como dava, mas eu vi que eu tinha que ficar lá. Então são vinte e tantos anos, não são dois dias, né? Cada pessoa foi me podando, foi me lapidando, foi…e o próprio Jesus, eu creio muito lá, e só creio nisso, que… que como ele disse numa palavra que uma vez que Ele me disse: Não seja como mula, um cavalo, né? Não seja como a mula porque eu te dou o domínio nem que seja com aquela viseira, né? Aquelas… como bota no cavalo pro cavalo só ir para um lado, né? Mas como eu… é a palavra que usou assim, como eu sou… como eu sou inteligente, então não queira ser como a mula, mas que eu te ensino não… do jeito, mas eu te ensino, então usa a sua inteligência. Então, como eu não sou cavalo, eu sou inteligente [risos] então eu me deixei ir moldando pelo Espírito Santo. Também fui conhecendo pessoas, fui participando de muitos encontros, de muitos retiros, eu fui… eu fui tendo compromissos, responsabilidades sérias que eu não… eu não tinha mais que ser aquela grosseira, aquela rústica. As pessoas esperam muitas coisas de mim. Quer dizer olhavam muito para mim, era assim que eu me sentia, né? Mesmo que não fosse, eu me sentia assim então, eu não tinha mais o direito de machucar as pessoas, de decepcionar. Eu não tinha mais esse direito. Então eu fui, eu disse: “ - Não, eu não posso ser bruta, grossa, violenta, eu não posso responder mal porque não dá”. Então esse tempo foi me… me moldando.

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