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História

A vida vira cinema

História de: Raimundo de Oliveira Valentim
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/11/2020

Sinopse

Em sua história, Valentim nos conta sobre sua infância, suas viagens diversas com a sua avó. Em seguida, fala sobre seu "renascimento" dentro do teatro, onde cria o "Grupo Grita". Depois, fala sobre seu casamento, o nascimento de seus três filhos e do processo de remoção para a Vila Canaã. Aqui, fala de sua transição para o evangelismo e suas composições musicais religiosas. Valentim explica, da mesma forma, como se tornou a liderança cultural na Vila Canaã. Por fim, comenta sobre o roteiro que escreveu sobre a história da Vila, "Deixa que eu conto!".

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História completa

 

P/1 - Vamos começar, então. Qual o seu nome inteiro, que dia o senhor nasceu e onde foi?

 

R - Meu nome é Raimundo de Oliveira Valentim - mais conhecido como Valentim ou Valente, pela maioria das pessoas. Nasci no dia trinta de junho de 1970, em São Luís do Maranhão. 

 

P/1 - O senhor nasceu em casa ou hospital? Como foi isso?

 

R - Eu nasci em casa. 

 

P/1 - E a sua mãe e seu pai falaram pra você como foi esse parto? 

 

R - Minha mãe, como sempre foi mais amiga, ela sempre me contava, me falou como é que foi. Inclusive a parteira que fez o parto, até alguns anos eu a chamava de mãe também. O nome dela é Maria Santana. 

Não sei o que aconteceu, mas eu não tive mais notícias dela. Faz mais ou menos uns 25 anos que eu não ouvi falar mais nela, mas… Fazia festa na casa dela… Era uma coisa bacana, a relação. 

Quando ela fez o parto da minha mãe, a minha mãe tinha só treze anos de idade, era praticamente uma criança. Foi em casa e foi um parto normal. 

Isso foi bom, bacana a história que ela me contou. por ser o primeiro filho, o primeiro neto das duas famílias, tanto da minha mãe quanto do meu pai.  

 

P/1 -  E ela contou se foi difícil, se não foi?

 

R - Não foi difícil. Ela até conta que eu nasci muito rápido, não foi uma coisa… Porque às vezes tem parto que demora muito, mas foi rápido. 

 

P/1 - E qual é o nome da parteira? 

 

R - Maria Santana. 

 

P/1 - Era uma parteira que sempre fazia partos na região, era conhecida lá? 

 

R - Ela fazia muitos partos. Acho que o da minha mãe… Não sei se ela fez dos meus irmãos também, mas sei que o meu ficou marcado porque… Tanto que eu passei a chamar ela de mãe também, “mãezinha”. 

 

P/1 - Quais os nomes dos seus avós por parte de mãe?       

 

R - Roberta Gomes de Oliveira e Francisco das Chagas. 

 

P/1 - O senhor os conheceu?

 

R - Eu conheci mais a minha avó. O meu avô por parte de mãe eu vi umas duas vezes, só - escondido, eu tinha medo dele. (risos)

 

P/1 - Por quê?

 

R - Não sei, por ele ser… Não sei nem explicar. Quando eu nasci eu não o conheci; quando ele apareceu, eu já estava garoto, [com] uns quatro ou cinco anos, aí eu me escondia dele. Mas foi só uma ou duas vezes que ele apareceu na nossa vida. Não apareceu mais. 

 

P/1 - Ele morreu, então…

 

R - Eu tive notícia [há] uns dez anos que… Eles me comunicaram que ele tinha falecido. 

 

P/1 - O seu avô e a sua avó são de onde? O que eles faziam?

 

R - Meu avô, eu não sei de onde ele é. Eu sei que minha avó é de Chapadinha, Maranhão. 

 

P/1 - E eles faziam o que da vida?

 

R - Eram agricultores, sempre... Desde que eu entendi, já eram envolvidos na agricultura. 

 

P/1 - O que eles plantavam, você sabe?

 

R - Eu lembro que eles plantavam muito arroz. Na região onde eles viviam dava muito arroz. 

 

P/1 - Em Chapadinha.

 

R - Chapadinha era o município, mas era um ‘interiorzinho’ que se chamava… Era até um nome meio… Cafundó. (risos) Era o nome de onde eles faziam a plantação. 

 

P/1 - E os seus avós por parte de pai? Qual o nome deles?

 

R - Eu lembro só da minha avó, por parte de pai. Adailde Pereira Valentim. (choro)

 

(PAUSA)

 

R - Desculpe, é que a minha avó foi minha mãe também. Eu perdi ela e sempre me emociono pra falar dela. 

 

P/1 - Faz pouco tempo?

R - Faz 25 anos. 

 

(PAUSA)

 

P/1 -  O senhor se emociona quando lembra dela, sempre?

 

R - Sim, porque eu nasci em São Luís, aí ei fui pro interior e depois ela me resgatou.. (risos)

Aí eu fiquei morando com ela por muito tempo. Eu conheci, não digo todo o Maranhão, mas boa parte do Maranhão com ela. Ela viajava muito, tanto que eu comecei a estudar com onze anos, porque ela não parava, viajando todo o tempo. Mas com onze anos eu aprendi a ler sozinho, não precisei [de] alguém [pra] me alfabetizar. Eu era muito curioso, qualquer papel que eu pegava… Acho que com a idade de uns seis, sete, oito anos eu já sabia ler. 

 

P/1 - E ela te ajudando nisso.

 

R - Ela me ajudando.

 

P/1 - Se eu perguntar dela, tá tudo bem? 

 

R - Tudo certo. 

 

(PAUSA) 

 

R - Ela me ensinou muito. Foi com ela que eu aprendi a ser o que eu sou hoje. Por ela ser agricultora… Foi ela que me colocou na escola. Ela viu que era hora. “Meu filho, nós temos que parar pra você poder estudar.” 

Mas eu sempre viajei com a minha avó. Era uma coisa que ela gostava de fazer, principalmente porque os filhos dela moravam longe, então ela passava um mês com um, uma semana com outro, e assim ia. Só lugar longe mesmo.  

 

P/1 - Qual é a primeira memória que você tem dela?

R - Hoje? 

Ela era uma pessoa bem saudável, mas hoje eu vejo ela da maneira que...Ela chegou a ficar de cadeira de rodas, depois. Eu vejo essa imagem, na minha cabeça vem ela precisando de ajuda de alguém. 

 

P/1 - Seu avô por parte de pai você não conheceu, então. 

 

R - Não conheci. Ele faleceu antes que eu nascesse.

 

P/1 - Então quando o senhor nasceu ela era viúva.

 

R - Era viúva. 

 

P/1 -  Quando o senhor nasceu, ela morava onde? Morava com vocês?

 

R -  Ela morava num lugar chamado Boqueirão. 

 

P/1 - Você nasceu na região de Itaqui?

 

R - Anjo da Guarda, bem próximo de Itaqui.

 

P/1 - Qual é o nome do seu pai?

 

R - Meu pai é Crispim Pereira Valentim.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - Minha mãe é Deusuíta Gomes de Oliveira. 

 

P/1 - Você é o primeiro filho, então. 

 

R - Eu sou o primeiro filho da família. 

 

P/1 - E como era essa escadinha? Você tem irmãos?

 

R - Tenho sete irmãos. 

 

P/1 - E quem são eles?

 

R - Tem José de Oliveira Valentim, Antônio de Oliveira Valentim, Dorilene de Oliveira Valentim, tem Deusalina, Deusilene e tem o Davi. 

 

P/1 - Como era na sua infância? Você cresceu longe. Como era essa vida?

 

R - Minha infância… Eu posso dizer que depois de minha família ter vindo morar em São Luís, fui morar com eles. Na verdade, eu digo assim: eu não tive infância devido às viagens. Mas eu fui descobrir mesmo… Aos quinze anos é que algumas pessoas foram saber que eu realmente existia. 

Eu estudava e algumas pessoas foram ver… Eu fui descobrir o que era ser gente de verdade. 

 

P/1 - Mas por que isso não acontecia antes?

 

R - Porque eu era um garoto, um rapaz bem reservado. Minha vida era estudar, não sei se porque eu não tinha começado cedo, mas eu vivia direto estudando. Só queria saber de estudar. Brincar… Como eu estou falando, eu vim… A partir dos quinze anos eu fui saber o que era a vida; que a gente precisava estudar, mas que tinha outras coisas pra viver também. Fazia parte da vida. 

 

P/1 - Antes de começar a estudar - o senhor falou que começou com onze anos - o senhor trabalhava muito com seu pai, com a sua mãe? 

 

R - Eu não trabalhava, eu sempre viajava com a minha avó. E nessas viagens a gente apanhava arroz, macaxeira, ia pras roças com ela. Ela gostava de fazer carvão também, eu ajudava ela nessas caminhadas. 

P/1 - Então só pra entender: você nasceu e não ficou muito tempo com a sua mãe e o seu pai. Você ficou mais com a sua avó.

 

R - Fiquei mais com a minha avó. 

 

P/1 - E vocês viajavam pra onde?

 

R - Como os filhos dela moravam muito distante, [a gente] viajava pra Santa Inês, tem um lugar chamado Satuba também, Boqueirãozinho.. Tem outro lugar agora que eu não estou lembrado. A gente sempre viajava, mas eram lugares distantes. Tinha lugares que a gente descia do ônibus [às] nove, dez da manhã e ia chegar no local já de noite. E era andando, caminhando. 

 

P/1 - Vocês iam de ônibus.

 

R - Ônibus só ia até certo ponto. Lá a gente descia e ia a pé. Às vezes, a gente chegava às dez horas e ia chegar no povoado [quando estava] anoitecendo. Era muito longe. E eu sempre acompanhando ela. 

 

P/1 - E vocês iam a esses lugares por que tinha parente lá?

 

R - As filhas dela, que moravam bem distante. Minhas tias.

 

P/1 - Você gostava das suas tias, dos seus primos?

 

R - Muito. Acho que eu sou uma pessoa bem família, gosto dos meus primos, minhas tias. Até hoje respeito, sinto saudade porque todo mundo procurou seu rumo e a gente passa muito tempo sem [se] ver. 

 

P/1 - E como era nessa época, você criança? Você gostava de viajar com a sua avó?

 

R - Gostava muito. Talvez esse seja o motivo de estar… De ficar morando muito tempo com ela, porque eu gostava muito de viajar. 

 

P/1 - E como eram essas viagens? Vocês levavam comida ou não? Era longa a viagem.

 

R -  Ela gostava… (risos) Ela sempre fazia uma farofa pra levar, um suco, porque era bem cansativo. Nas voltas também, às vezes a gente saía à meia-noite pra poder chegar no ponto certo onde o ônibus passava. A gente tinha que chegar no horário pra pegar o ônibus e poder voltar pra São Luís. 

Era um pouquinho complicado, mas eu gostava. Eu não reclamava de nada. 

 

P/1 - Você não fazia birra com ela. 

 

R - Não, nada. Nunca fiz porque gostava. Sempre gostei do mato, então quando ela dizia que ia pro interior, aí é que eu gostava. “Não fico, tenho que ir”. 

 

P/1 - Chegando lá nas suas tias, você então ajudava ela a trabalhar. 

 

R - Também ajudava, bastante. Eu lembro de uma tia minha que a gente…Onde ela morava, pra ir pegar água pra beber demorava umas três horas pra ir… Entre ida e vinda dava umas três horas. Eu achava que dali… Eu dizia: “Meu Deus”... [Mesmo] sendo garoto, eu às vezes parava. “Como é que essas pessoas vivem aqui? Pra banhar, pra beber tem que buscar água a uma distância dessa...”  

 

(PAUSA)

 

P/1 - Então você a ajudava a trabalhar e vocês ficavam na lavoura.

 

R - Na lavoura. Andando de jumento, que eu gostava muito. Andava pra ir pras roças, [com] meus tios, meus primos. Essa aventura é uma coisa inesquecível pra mim, hoje. Eu lembro da idade de sete anos, a gente ia pra roça arrancar mandioca pra fazer farinha, apanhar arroz - eu apanhei muito arroz. Pesquei muito, também, então tem aquela… A gente guarda pra gente. 

 

P/1 - Tinha alguma tia, alguma casa de tia ou tio que você gostava mais de ir?

 

R - Tinha. Maria das Dores era a minha tia que… Gosto de todas, mas pra mim ela era o meu xodó porque quando eu chegava lá ela não queria me deixar ir embora. Ainda passei uns tempos morando com ela. Infelizmente, ela faleceu faz um ano e pouco. Mas era a tia que eu era mais apegado. Tudo que ela comprava ela me dava, por ser o primeiro sobrinho. 

 

P/1 - Como era a casa dela?

 

R - Por eu ser criança, eu achava que ela era rica por ter uma casa bacana. Era um sítio muito bonito, então eu achava assim. Por ela ter aquela casa bonita, eu achava que ela tinha melhor condição que as outras irmãs. A casa dela era bem bacana. Na época de criança, ela era uma das melhores pra mim.

 

P/1 - Você achava grande?

 

R - Achava grande, corria.. Ela gostava de fazer doce de goiaba. Eu amava o doce de goiaba que ela fazia. 

 

P/1 - Tem alguma coisa que você lembra bem, alguma história que te marcou dessa época toda? Da sua avó? 

 

R -  Da minha avó…

O que mais me marcou antes da minha avó partir… Antes dela partir… Eu não sei se ela foi a fundadora, mas eu considero como a fundadora da Vila Madureira, onde a gente vivia. Porque era a minha avó que vivia lá na vila e eu acompanhei ela. Eu já tinha uns quatorze, quinze anos, quando ela começou a ir pra Madureira, então… Ela dizia: “Meu filho, isso um dia vai ser teu.” É a única coisa que eu lembro… E o pior é que eu abandonei depois que ela faleceu, fiquei desgostoso. Olha que eu já era adulto quando ela faleceu, mas eu fiquei meio… Porque onde eu ia, eu achava que… 

 

P/1 - E nessa época, você brincava também com seus primos? O que vocês faziam de brincadeira?

 

R - A gente brincava um pouco de… Brincadeira de moleque mesmo, de jogar bola, areia, de… Às vezes ia pro mangue, se enlameava… Isso já depois dos quinze anos. Mas descobrimos umas brincadeiras bacanas. Pega-pega, cola… Mas a brincadeira que eu preferia mesmo era fazer aqueles carrinhos de lata de sardinha, de água sanitária pra gente brincar. 

 

P/1 - Nesses lugares que você ficava vocês ouviam rádio, TV?

 

R -  Ouvia mais histórias. A gente quase não tinha porque era afastado. Minha avó sempre gostava de contar histórias. 

 

P/1 - Que histórias ela contava?

 

R - Histórias que às vezes a gente até ficava com medo. Contava história de lobisomem, de saci-pererê, essas histórias de curupira… 

 

P/1 - Como é que ela contava?

 

R -  Eu achava que minha avó era uma atriz, porque ela enfeitava tanta coisa que a gente achava que era real. Eu não posso dizer que nunca vi, mas ela contava assim: “Olha, ontem o curupira esteve aqui, correu atrás das galinhas”, histórias assim. Eu lembro de uma história que ela contou assim: “Ontem à noite, quando eu tava dormindo, eu fui passar a mão debaixo da rede pra procurar o fósforo pra acender a lamparina. Uma mão cabeluda pegou na minha mão.”  A gente ficava às vezes com medo. E no sítio lá onde a gente vivia era tudo aberto, tinha que dormir agarradinho com alguém porque era um medo… Mas eram bacanas, as histórias. 

 

P/1 - E você viu alguma dessas coisas?

 

R - Não, nunca vi. (risos) Curupira, saci, nunca vi. Lá não, mas aqui no polo eu já vi.

 

P/1 - Ah, é? Então a gente chega lá. 

 

R - A gente chega lá.

 

P/1 - Nessa época, você tinha alguma religião? A sua avó…

 

R - A minha avó sempre foi… Quando eu me entendi, ela já era evangélica. Ela levava a gente pra igreja, então cresci num meio religioso. [Da] parte dessa avó, mas voltando pra parte da avó da parte de mãe, ela era muito católica, então às vezes eu apanhava pra ir à igreja católica. Eu lembro que eu apanhei pra beijar o pé do… Tipo uma procissão, Jesus Cristo morto; eu lembro que eu apanhei pra beijar o pé do Cristo morto. 

A outra queria me levar pra uma igreja que era diferente, mas na época, por ser criança, eu ficava sem entender.          

 

P/1 - Seu pai e sua mãe ficaram onde enquanto você viajava?

 

R - Eles ficaram em um lugar chamado Chapadinha. Minha mãe e meu pai eram igual cigano também, era viajando direto. Conheceram um monte de cidades [do] interior. Por ser lavrador, ele sempre queria o melhor; [se] aqui não dava certo, ele procurava outro [lugar]. E na época que eu vim pra São Luís, eles ficaram em Chapadinha. 

 

P/1 - O seu pai era lavrador e sua mãe fazia o quê?

 

R - Minha mãe era quebradeira de coco. Os dois sempre ali, porque fazia parte da agricultura também a quebradeira de coco, então ela trabalhava mais nisso na roça. 

 

P/1 - E como era o jeito do seu pai, da sua mãe? Eles se davam bem?

R - Eu conheci meu pai muito molecão, porque eles se casaram bem novinhos. Depois de quatro anos é que veio nascer um irmãozinho pra mim, mas aí eu… Eu via meu pai sempre brincalhão, principalmente quando ele bebia. (risos)  Mas eu vi uma diferença no meu pai depois que eu tinha quinze anos, porque ele mudou. Não comia mais com a gente na mesa, aquilo era uma tristeza pra gente. Sempre pegava a comida e ia comer em outro lugar. A gente ficava perguntando o porquê dele não sentar na mesa pra comer com os filhos. Mas meu pai é um cara bacana. 

 

P/1 - Me conta então como foi essa coisa de começar a pegar papel, começar a ler… De onde surgiu essa vontade?

 

R - Eu sempre fui um garoto muito curioso, tudo eu queria saber. Queria saber por que... Eu tinha uma tia que era professora, na época, e eu sempre perguntava: “Eu quero formar essa palavra.” A primeira coisa que ela me deu foi uma cartilha de abecê, então ali pra mim foi…A força de vontade, ali pra mim foi prato cheio. Eu comecei a juntar as letras. O curso que teve foi decorar o alfabeto, aí eu aprendi sozinho mesmo a ler. Todo papel que eu via na rua, jornal, eu pegava, começava a ler. 

 

P/1 - Isso a partir dos onze [anos]. 

 

R - Antes dos onze. Acho que sete, oito anos, por aí. Quando eu cheguei na escola, com onze anos, os garotos [eram] todos menores -  sete, oito, nove anos. Quando a professora começou a soletrar - era pra mim, chegou minha vez - eu disse: “Não, professora. Eu sei ler.” “O quê?” “Eu sei ler.”  Aí comecei a ler.    

Foi um prato cheio pra mim. Eu digo que eu tive sorte ou foi Deus mesmo. Do primeiro ano eles me jogaram pra quarta série, aí foi um avanço. Tinha menino na quarta série que não sabia o que eu fazia. “Mas tu já estudou?” “Não, nunca estudei. É a primeira vez que eu tô indo pra escola.” A gente não acreditava, mas era a realidade.       

 

P/1 - Em que escola você foi estudar? Essa primeira escola?

R - A primeira escola era… Deixa eu lembrar um pouquinho aqui.. Centro Educativo Pinóquio. 

 

P/1 - Onde fica?

 

R - No Anjo da Guarda. A primeira escola que eu frequentei. E por incrível que pareça, até hoje eu tenho uma professora que a gente, onde se encontra… Ela nunca esqueceu [de mim]. Por mais que eu já esteja de cabelo branco, ela nunca esqueceu.                 

     

P/1 - Quem é? Qual é o nome dela?

 

R - Meu Deus, agora pra eu lembrar o nome dela... Faz tanto tempo, meu pai. Não, eu não me lembro. 

 

P/1 - Mas por que você nunca esqueceu dela?

 

R - Porque ela é uma morena… Meu Deus, como é o nome da mulher? Não consigo lembrar. mas onde a gente se encontra… E ela me chama pelo nome. 

 

P/1 - Ela era professora do quê?

 

R - Do primário mesmo. Depois da primeira aula que eu fui, foi ela que ajudou a fazer com que a escola fizesse um teste comigo, pra ir pra quarta série. Não sei se é esse o motivo de eu nunca ter esquecido dela, porque ela fez uma coisa bacana também, né? 

 

P/1 - E como era ir pra escola? O que você pensava disso?

 

R - Meu primeiro dia de escola não foi bacana. Por eu ser um cara já com onze anos...Outros [eram] menores, mas tinha sempre aquele aluno que era muito… Por você ser maior, ficava aquela crítica. 

Lembro que teve um aluno que me queimou no primeiro dia de aula. Não sei como estava com um isqueiro; me queimou debaixo do pé. Ali eu já disse: “Não venho mais.” (risos) Mas também aconteceu esse negócio na minha vida, dessa professora [que] me ajudou. Fui logo pra quarta série, pra uma turma mais da minha idade. É isso. 

 

P/1 - Como é que você ficou quando ela passou você pra quarta série? O que você sentiu?

 

R - Acho que ficou essa amizade entre nós. Eu me senti muito feliz. Disse: “Já é um avanço pra mim, não vou ficar tão atrasado.” Eu fiquei muito feliz com o que aconteceu, agradeci muito a ela. Levei ela à minha casa, minha mãe… Não sei se são amigas, mas…

 

P/1 - Você foi então pra quarta série. Como era? Era diferente a turma?

 

R - Foi diferente. Eu conheci outra professora. Essa eu não esqueço o nome, professora Domingas, que foi também uma chave, um ponto… Como é que eu posso dizer? Foi uma inspiração pra mim. Ela era vizinha da minha mãe e ela me ajudou bastante. Graças a Deus, eu não fiquei reprovado e fui seguindo. Eu chamo ela de Irmã Domingas.

 

P/1 - Por que você chama ela de Irmã Domingas?

 

R - Porque ela era evangélica. Espero que ela ainda seja, mas na época ela era. 

 

P/1 - E você depois gostou de ir pra escola? Você gostava de lá?

 

R - Eu comecei a gostar e dizer: “Eu quero aprender mais e mais”, tanto que no ano seguinte eu fui pro quinto ano, aí eu já queria era trabalhar. Por morar numa cidade grande, eu já queria trabalhar. 

Mudei de escola, porque a escola [em] que eu estava era só até a quarta série; a quinta série já tinha que ir pra outra escola. Nessa escola, eu fiz uma amizade tão beleza com os diretores… Era particular. E eu comecei a trabalhar na escola. Trabalhava de manhã e estudava à tarde. Ganhava meio… [faz o sinal de mais ou menos] Já dava pra pagar a minha escola. 

Quando foi no ano seguinte, eu fui pra sexta série. Eu chamei eles e falei: “Eu quero estudar à noite e trabalhar aqui.” Combinaram lá, beleza. Comecei como zelador da escola. Comecei a estudar à noite e trabalhar de dia na própria escola. 

 

P/1 - Que escola era essa?

 

R - Centro Educacional Tancredo Neves. 

 

P/1 - Onde fica? 

 

R - Ficava no Anjo da Guarda. 

 

P/1 - Pra quem não conhece São Luís, a região, onde fica o Anjo da Guarda?

 

R - Fica na área de Itaqui-bacanga, depois da Universidade Federal do Maranhão. Depois da barragem do [Rio] Bacanga. Pra quem não conhece, o Anjo da Guarda é um bairro enorme. Às vezes chamam de… Dentro do Anjo da Guarda tem vários bairros menores. A gente consegue dizer… Área de Itaqui-bacanga, por ser tão grande. É um lugar bacana, apesar de muita gente não gostar. Mas foi onde eu nasci, cresci.

 

P/1 - Que lugares você gosta do Anjo da Guarda, que você mais ia, gostava de ir?

 

R - Eita Jesus… (pausa) O que eu mais gostava era do Grupo Grita local. O Grita é um local onde eu me formei como ator. Depois dos dezesseis anos, eu comecei a descobrir o mundo -  música, teatro… O Grupo Grita me deu uma grande… Eu praticamente vivia dentro do Grita porque eu comecei a estudar teatro, música; comecei a compor também… Fiz tudo com a idade de dezesseis anos. Tinha um sonho de chegar um pouquinho mais longe.

 

P/1 - Então nessa época você trabalhava de dia…

 

R - De dia e estudava à noite.

 

P/1 - Mas você trabalhava na própria escola, zelando a escola.  

 

R - Zelador da escola.

 

P/1 - Com essa idade. 

 

R - Com dezesseis anos. 

 

P/1 - Você também começou a namorar nessa idade também?

 

R - A minha namorada eu conheci [quando] eu tinha quatorze anos, mas a gente só começou a namorar de verdade com dezesseis. Por eu estar dentro de uma família muito religiosa - minha mãe era evangélica, minha avó também - eles não concordavam de eu namorar uma pessoa que não era evangélica. Eu tive de levar pra enfrentar a família. Não foi fácil. (risos) 

 

P/1 - Essa foi a sua primeira namorada? 

 

R - De verdade, foi. E sou casado com ela até hoje.

 

P/1 - Ah, é? E como você a conheceu? Qual é o nome dela?

 

R -  Eu conheci ela… Na verdade, ela namorava um amigo meu. Ele me conheceu pra dar uma saída e nessa saída… Eu não gostava muito de sair, comecei a sair de quinze [anos] pra frente - nessa época, eu tinha quatorze. Cheguei lá, ele me apresentou ela, namorada dele. Só que ali eu… Eu disse: “Tudo bem.” (risos) 

Ela ia na casa dele, só que a gente morava de frente e quando ela ia, eu estava lá, eu estava em casa. Eu dizia: “Meu Deus…” Mas ficou naquilo, eles namoravam, claro que eu não vou… Por respeito. Era o melhor amigo que eu tinha. 

Eles terminaram, depois disso acho que passou um ano, mais ou menos. Eu tinha dezesseis, aí eu comecei… Não teve jeito. Com dezesseis eu comecei a ir em festas. Por ser religioso, [antes disso] eu não ia em festas. Com uns quinze anos eu me afastei um pouco da igreja, aí eu fui em uma festa e a gente ficou. 

 

P/1 - Como é o nome dela?

 

R - Ana Creuza. 

 

P/1 - E você a viu, se apaixonou?                 

 

R - Eu já era apaixonado antes, desde os quatorze, mesmo sabendo que ela namorava com o meu amigo. Mas eu não intervim, não falei pra ela. Vim [a] falar depois, com dezesseis anos. Nessa festa, eu tive a oportunidade de falar, aí ela disse que já gostava de mim. Deu tudo certo. (risos) 

 

P/1 - Você acha que é por isso que você disse que com uns quinze [anos] você começou a viver? 

 

R - Até então, de quinze pra trás eu não imaginava.. Eu queria só estudar. Pra igreja eu ia aos domingos com a minha avó, porque como ela ia eu a acompanhava, mas a minha mãe achava que eu ia ficar louco de tanto estudar. 

Eu queria saber de tudo, mesmo. Quando surgiu a internet, aí pronto! Agora que eu vou descobrir mesmo o significado de cada coisa que eu queria… Entendeu?

 

P/1 - Que tipo de coisa você queria entender nessa época, por exemplo?

 

R - Tudo, entre aspas, porque nem tudo a gente pode saber. Eu queria saber… Como era ser um homem de verdade, como era ser um pai de família de verdade, o que era ser… Como falar? (risos) Eu ouvia muito falar sobre homossexuais também. Tudo isso eu queria saber, então eu fui pesquisar pra saber o que é. Muitas vezes você ouve falar, às vezes a gente até julga, mas não sabe nem o porquê de estar julgando alguém. Então eu queria saber tudo isso. Eu fui atrás e descobri, não precisei de ajuda - quer dizer, só da internet. Saber o que era certo - isso aqui eu posso, isso aqui eu não posso. 

 

P/1 - Como é que você veio a se formar no teatro? Como conheceu esse Grupo Grita?

 

R - Eu tinha um professor na sexta série chamado Edson. Ele não era daqui, ele era do Rio, e ele ensinava teatro. Ele queria montar um espetáculo e me convidou. Esse foi o primeiro. Eu fiz, aí ele disse: “Você tem talento.” “Ah, você quer me iludir.” “Não, você tem. Procure um grupo de teatro pra você fazer um curso. Aí eu procurei o Grita. 

Conheci o professor Gigi Moreira, que foi um grande amigo também, sua esposa, Eliane Moreira; me deram uma força, então eu vi que realmente eu podia trabalhar no teatro. [Isso] me ajudou muito, porque eu era um pouco tímido, não falava em público, era difícil. Eu fui estudando, aprendendo, e estou aqui.

 

P/1 - Conte como foi esse primeiro espetáculo que você fez. O que você interpretou, como foi? 

 

R - O primeiro espetáculo foi difícil, porque nos ensaios não tinha ninguém na plateia. Com plateia bate um nervosismo, principalmente pela primeira vez que você está pisando num palco. Depois que terminou foi que eu achei bacana, mas ficou aquela vontade de continuar. Eu até falei pro professor Edson: “Eu quero continuar.” Ele me deu força também, aí eu procurei o Grita e me formei por lá, digamos assim, entre aspas.

 

P/1 - Nessa época, o que você queria ser? Você se lembra? Você queria conhecer muita coisa, mas queria o quê?

 

R - Eu queria ser professor. Eu me formei em magistério, mas até hoje nunca exerci a profissão de professor. Nunca dei aula pra ninguém, apesar de algumas pessoas me procurarem pra… “Você sabe isso?” Mas pra dar aula, não. 

 

P/1 - E essa simpatia pelo teatro, como você acha que começou?

 

R - Não sei explicar, mas a arte de interpretar, pra mim é bacana, porque eu já imaginava comigo mesmo… “Eu queria ser outra pessoa.” Então a única maneira que eu achei de ser outra pessoa foi interpretando dentro de um teatro, fazendo outros personagens, porque dentro do teatro eu já fiz quase de tudo. 

Como todo mundo sabe, o ator não tem sexo, a não ser que ele não queira interpretar o papel que vier pra ele. Eu já tive a experiência de interpretar papéis masculinos ou femininos. 

 

P/1 - E o que você mais gostou de interpretar nesse tempo todo? Um personagem ou um tipo de personagem...

 

R -  Eu fiz por dois anos o Patati. A gente tinha um espetáculo onde a gente… A gente sabe que o Patati e o Patatá são dois personagens, dois palhaços bem queridos da criançada. Eu fiz o Patati numa peça chamada Alertando Geral, em que a gente alertava [sobre] lixo, saúde… A poluição em torno. A gente sempre falava nesse espetáculo a respeito disso, mas com muito humor, então a criançada adorou. O primeiro foi um sucesso. Eu querendo parar, mas a gente fez dois anos, ficamos dois anos em cartaz.

 

P/1 - O Grupo Grita, como é que ele funciona? Onde ele fica?

 

R - O Grupo Grita é do Anjo da Guarda. Não me lembro bem quando ele foi fundado, mas hoje ele é responsável por um dos maiores espetáculos de Via Sacra do Maranhão. Ali dentro eu aprendi muita coisa: fiz parte da direção, do elenco. Tem outros dentro do Maranhão, mas o Grita é bem considerado e bem conhecido também.

 

P/1 - Como foi conhecer esse pessoal? Como era o povo do teatro, você fez amizades lá? O que te marcou desse período?

 

R - [Foi] uma outra família que eu arranjei porque a gente sempre estava junto. Sempre tinha os dias marcados pra gente estar junto dentro do teatro. Sempre estudando coisas novas, tanto que eu nunca tinha feito um espetáculo… Eu achava que nunca ia aparecer nu em público e dentro do teatro eu já… E olha que quando eu apareci nesse espetáculo eu já tinha esposa, porque eu casei bem novinho também, com dezenove anos. Com dezenove eu já arranjei família. 

O teatro fez parte, faz parte da minha vida. Quando eu não estou atuando, eu estou escrevendo. Eu também escrevo meus próprios roteiros. Já tive oportunidade de ser dirigido pela Giramundo, bem conhecida… Esqueci o nome dela, mas é a filha do dono do Giramundo. Estiveram conosco aqui, em dois dias ela conseguiu montar um espetáculo comigo. Recebi até a proposta de viajar com eles, acho que pra Belo Horizonte. 

 

P/1 - Eles fizeram um espetáculo com você. 

 

R - Sim. 

 

P/1 - Como foi isso? 

 

R - Acho que foi a coisa mais incrível de eu conseguir, porque é muito difícil você montar um espetáculo em dois dias. Ela olhava pra mim e dizia: “Você consegue.” Eu dizia: “Não vou conseguir”. “Mas você consegue.” E a gente conseguiu. 

É Bia Apocalypse o nome dela, se eu não estou enganado. Foi uma coisa bacana, ficou como experiência pra mim. Hoje eu repasso, porque eu dou aula de teatro. Aprendi circo também, malabares.  

 

P/1 - Tudo isso no Grita.                                     

     

R - Não. Isso eu aprendi já fora. No Grita eu aprendi a dirigir e a interpretar. Eu passei três, quatro anos no Grita, aí eu saí. Montei a minha companhia. A Gran Vagalume é uma companhia criada por mim. A gente veio montando espetáculos, apresentando. A gente parou uns dois anos porque uma componente do grupo cometeu suicídio e a gente ficou muito assustado. Mas a gente está voltando. 

P/1 - Como é essa vida atrás da coxia? Tem alguma história interessante, engraçada, que você se lembre dessa época do Grita?

 

R - Tem, principalmente de camarim. (risos) Em camarim acontece muita coisa bacana. Algo que aconteceu e eu fiquei muito assustado foi… Faltavam algumas horas pro espetáculo e tinha uma câmera ligada. Eu estava tão nervoso, porque quando eu abri [a cortina] tinha muita gente pra entrar no teatro. Eu comecei a fazer um monte de loucuras, só que a câmera estava ligada e eu não sabia. Aquilo pra mim foi uma coisa… Sei lá, depois botaram [a gravação]. Eu disse: “Meu Deus!” Então ficou uma coisa inesquecível, ficou guardado pra mim. 

 

(PAUSA)

 

P/1 -  Voltando pro Grita, tem amizades que você possa dizer o nome, falar sobre essa pessoa que te marcou durante esse período? Ou também da companhia que você fundou?

 

R - Tem, sim. Ficou de amizade Gigi Moreira, que era um dos diretores do Grita, Eliane Moreira também. Gustavo Moreira… [Um pessoal] que ficou marcado, a gente realmente fez uma outra família. Eles me abraçaram, a gente sempre tem aquele… De vez em quando [tem] aquele bate-papo pra saber como estão as coisas, então continua. E dentro dessa companhia nova - digo nova, mas ela já tem uns dez, doze anos - tem pessoas bacanas também. Eu aprendi a lidar com outra família, me tornei tipo um pai por ser responsável pela companhia e abraçar essa nova geração de atores que eu mesmo fui trabalhando, fui formando, ensinando, dando aula. “Olha, se você quiser ficar na companhia você pode ficar”. E algumas foram ficando. A gente tem uma amizade até hoje. A gente tem a companhia formada, mas a gente quer novas pessoas também dentro da companhia, mesmo porque a gente tem a esperança… Tem muitas pessoas que querem, que gostam da arte de representar, então eu estou abraçando novas pessoas que queiram participar da companhia. 

 

P/1 - Que tipo de peça você fazia no Grita? Vocês mesmos compunham as peças?

R - Não. Lá a gente sempre montava espetáculos de outras companhias, de outros autores. Dentro do Grita, a gente às vezes se preparava o ano inteiro pro grande espetáculo, que era a Paixão de Cristo. Tinha outros espetáculos, mas alguns se envolviam mais com a Via Sacra mesmo. Eu gostava mais da Via Sacra, que é um espetáculo muito grande. A gente trabalhava na época com quinhentas, seiscentas pessoas em cena, então era muito trabalhoso, mas muito gratificante. Eu gostava mais, apesar de ter feito outras coisas lá dentro - O Casamento da Dona Baratinha, A Formação do Homem.  Foram os que ficaram marcados.

 

P/1 - Na Via Sacra você fez quais papéis?   

 

R - Eu sempre fazia papéis dos hebreus, da parte boa. Nunca fiz um papel [de] mau. Dentro do espetáculo [do] Grita tinha aquelas pessoas que gostavam de fazer papel de Satanás, essas coisas do mal. Eu sempre gostei de fazer, sempre me colocavam em algo bom. E é bom que você aprenda dos dois lados, hoje você sabe que tem o bem e o mal. Existe, mas graças a Deus eu sempre fiz do lado bom. 

 

P/1 - Por que você fazia esses papéis mais…

 

R - Acho que coincidia deles me colocarem, não por escolha minha. Sempre me botavam pra ser discípulo ou esse tipo de… Mas eu nunca disse assim: “Eu tô aqui, eu quero isso aqui.” Não. 

Eu gosto de desafio. Se hoje eu canto uma música num tom, amanhã eu quero me desafiar e quero um tom mais alto. E eu consigo. O desafio pra mim sempre é bom. É o mesmo caso de chegarem assim: “Valentim, você tem coragem de fazer um papel de mulher no teatro?” Eu digo: “Vai ser um desafio, mas eu quero.” E eu consegui. 

 

P/1 - O que você fez de mulher?

 

R - Eu fiz uma médica. A ideia foi assim: todas vão de homem e todos vão de mulher, então me coube o papel de uma médica e foi bacana. Pra mim, foi normal. Não me tirou nem um pedaço, foi tranquilo. 

P/1 - Como é um ator se preparar, treinar? O que vocês faziam de exercício?

 

R - A gente sempre se exercitava [por] meia hora. Tinha gente que até estranhava, porque a gente tinha que despertar o corpo mesmo antes de entrar em cena. ”É preciso isso?” Eu dizia: “É preciso isso pra você fazer [o espetáculo].” Alongamento, às vezes a gente fazia abdominais, tinha todo aquele preparo pro ator entrar em cena. Não é fora do normal. 

A gente já teve a oportunidade de trazer vários cursos pra cá, pra comunidade, também patrocinados pela Eneva - circo foi ela que trouxe, iniciação teatral… E a gente sempre buscando parcerias pra que aconteça, porque depende muito de dinheiro, pra você pagar um professor pra vir de São Luís e dar aula de teatro aqui. A empresa sempre abraçou essa causa e a gente aproveita pra formar novos atores. 

 

P/1 - Como é ensinar teatro?

 

R - É gostoso. Às vezes a pessoa chega sem saber nem o que é teatro. Aí você começa a ensinar, a pessoa pega gosto. É bacana. Eu gosto de dar aula de teatro. 

 

P/1 - Você acha que qualquer pessoa consegue aprender a atuar?

 

R - Consegue, sim. Inclusive a gente está preparando pra novembro uma grande aula, que da comunidade só não vai entrar quem não quiser, preparando para um roteiro, que está pronto, de um filme. A gente quer contar a história da nossa comunidade. 

Se a gente for contar toda a história, vai dar mais de dois, três filmes. Tem histórias alegres, tem histórias tristes também. Muitas coisas pra gente chegar até aqui, muitas águas rolaram. Alguns perderam seus parentes - eu perdi acho que três parentes pra chegar até aqui. Mas são histórias que a gente tem que contar. A gente não caiu aqui de paraquedas, não veio por vir. Tem toda uma história por trás disso. 

Quando nós chegamos aqui, algumas pessoas disseram: “Vocês vieram do lixão. Vocês moravam debaixo da ponte”, mas não foi isso que aconteceu. A gente tinha uma área, onde nós morávamos, e a empresa precisou pra construir o que está construindo lá hoje. Ela remanejou, ela nos trouxe pra cá. 

A gente veio pra cá, olhou a área onde seria construído isso aqui. Sempre existiu um acordo, ninguém veio pra cá obrigado. Quem não quis vir, vendeu sua casa ou até hoje aluga sua casa. 

Eu quero contar essa história. É um sonho meu, há mais de dez anos. Acho que passei uns quatro anos pra aprontar esse roteiro. Já estou organizando tudo pra gente dar o pontapé. 

 

P/1 - Eu quero perguntar depois sobre como você escreveu esse roteiro. Você então passou esse tempo no Grita, abriu a sua própria companhia depois. O seu sustento era dando aula de teatro? Você já estava com família nesse período.

 

R - Eu comecei a estudar teatro com dezesseis anos. Eu queria aprender mais. 

Eu vi uma peça da Elizabeth Savalla, Lua Nua. Fui pra São Paulo estudar teatro. Na época, era tudo que eu queria, mas eu não me sustentava assim. Eu tinha meus trabalhos. Só não roubei, mas… (risos) Trabalhei com serviços gerais, vigia, servente, cozinheiro, isso tudo pra ganhar o meu sustento. 

Eu casei com dezenove anos - 2007, se não me engano. Não, 97 - mas sempre trabalhando. Minha esposa me deu o maior apoio dentro do teatro, tanto que [quando eu fiz] a peça que eu apareci despido eu já estava casado com ela. “Meu bem, eu pensei que você não tivesse coragem de fazer isso.” Mas eu acho que quando você se entrega a um trabalho, você tem que fazer bem-feito, não importa qual seja. E eu sempre me dediquei aos meus trabalhos. Não que eu seja melhor que ninguém, mas eu dou o máximo de mim pro trabalho sair pelo menos 80% perfeito. 

Já ganhei dinheiro com teatro? Sim. Em alguns espetáculos eu dizia: “Eu preciso pagar os meus atores e a gente faz isso por tanto [de dinheiro].” Um espetáculo, um aniversário… A gente sempre fazia, mas ganhava alguma coisa. Mas viver do teatro, eu ainda não vivi. Hoje eu já estou com cinquenta anos, não sei se eu vou ter essa oportunidade. 

Fazer parte da [área de] cultura… Quando a gente chegou nessa comunidade, disseram: “Valentim, você vai administrar a cultura dentro da comunidade, com a responsabilidade de trazer grupos de dança, grupos…” Aqui tem o São João, [então tenho que] trazer grupos pra animar, pra alegrar, pra ficar na comunidade. 

Eu achei que fosse ser difícil, mas não foi. Foi bem tranquilo. Eu não me boto sozinho, a gente tinha uma equipe que trabalhava comigo pra trazer, pra fazer a coisa acontecer. Na maioria das vezes, você fazer sozinho não… Tem pessoas que batem no peito e dizem: “Eu trouxe, eu fiz isso”, sendo que por trás tem mais pessoas. Eu digo que a minha equipe se uniu e trouxe, a gente sempre fazia uma festa bonita pra comunidade. Isso que eu acho bacana, você não tomar a frente, você coordenar uma administração pra tudo dar certo. 

 

P/1 - Então você trabalhava com essas coisas e você foi pra São Paulo. Que idade você tinha e como foi essa viagem? 

 

R -  Tinha dezoito. Passei só uma temporada. Fui em busca do teatro, não queria saber de mais nada. (risos) Assisti a alguns espetáculos e fiquei mais apaixonado ainda. Aquilo só me inspirou mais. 

Eu vi a idade chegar - quarenta, 45… Eu disse: “Meu Deus, eu não vou conseguir, porque eu já estou…” Mas não, ainda hoje as pessoas me procuram. “Valentim, bora fazer isso…” “Eu não tenho mais força.” “Tem, sim.” 

Escrever histórias faz parte da minha vida. Inventar histórias e jogar lá no papel. Eu gosto, muito. A maior parte do meu tempo é música - sou compositor também… Sou agricultor, compositor… (risos) [Perguntam:] “Tu, como agricultor, ainda faz tudo isso?” Eu faço, eu gosto. 

Quando eu estou em casa, no meu computador, eu estou escrevendo, fazendo algo, tirando ideias [da cabeça]. Se eu disser “eu vou me sentar pra compor”, eu não consigo. Às vezes a música vem na minha cabeça [quando] eu estou em um lugar que não tem um papel, uma caneta e aí eu fico… Ainda bem que hoje tem o celular, grava ali. (risos) É dessa forma. 

As histórias também vêm da mesma forma. Parece até que é coisa de filme. Não. Muitas vezes eu ouvia alguém cantar pra mim, vindo do ar mesmo. Eu parava. Na praia, quando vinha, eu escrevia na areia e ficava horas até decorar a letra e ir pra casa pra… Eu vinha no ônibus, não queria falar con ninguém. Chegava em casa, “não fale comigo”, entrava pro quarto. Enquanto eu não escrevia tudinho que eu tinha escrito lá na areia da praia, eu não me aquietava. 

Os espetáculos também. Eu escrevi um livro infantil só pra mim, Meu reino infantil. É um livro que eu escrevi e vou transformar num espetáculo também. Estou com esperança de montar. 

 

P/1 - Qual é a história?

 

R - É um reino animal. Conta a história de um macaco, de um leão. O leão conta como é o reino dele dentro da história. Se fosse do jeito que eles quisessem, aqui fora não aconteceria isso. É uma história infantil que está no papel, mas eu pretendo expandir um dia, se papai do céu não me chamar logo. 

 

P/1 - Você pode cantar pra gente alguma composição que você fez? 

 

R - Posso, sim. Deixa eu só lembrar aqui de uma. [pausa]

São tantas que a cabeça embaralhou aqui. 

 

Não levarei saudade 

Deste mundo quando eu partir,

Eu partirei pra glória 

Já não vejo a hora 

De chegar ali. 

Quando estiver entrando na mansão celeste

Que eu contemplar, 

Jesus, o homem santo, 

vindo ao meu encontro 

eu vou lhe abraçar.   

 

P/1 - Você faz composições mais religiosas?

 

R - Sim, mas eu já fiz muita… Eu fiquei um tempo desviado da igreja, passei vinte anos. Comecei a cantar em bandas, fazer serestas, aí eu compus muitas músicas. Eu gravei dois CDs, mas não deu certo porque a gente não pode passar na frente da vontade de Deus. Se Deus tem algo pra você… Ele conhece o coração de cada um e se ele sabe que aquilo um dia vai te prejudicar, ele não vai te dar. 

Agora estou gravando um CD evangélico. Creio que lá pelo meio do ano de 2021 esteja pronto. Mas já fiz muitas músicas em outros ritmos.

 

P/1 - Você pode cantar uma que você compôs em outros ritmos?

 

R -  Eita, Deus… (risos)

Parece até mentira, mas o que eu vou falar… Essa música foi me dada por alguém… Como é que eu digo? (risos) De outro mundo, mas não era… A pessoa chegou pra mim e disse: “Essa música vai fazer sucesso, mas ela tem que ser um deboche.” “Mas pra quem?” Era pra alguém, mas já faz quatro anos que eu sou evangélico. Era pra eu gravar essa música em janeiro de 2017 e em dezembro de 2016 eu fui pra igreja, no dia cinco de dezembro. 

Eu vou cantar só um pedacinho. 

 

Tu quer ser melhor que eu, mas tu é boi

Boi, boi, boi 

Tu quer ser melhor que eu, mas tu é boi

Boi, boi, boi

Estão dizendo por aí que tu não dá no couro

E que tu virou foi touro                      

 

P/1 - Como foi essa história de vir do outro mundo? Foi uma inspiração?

 

R -  Não. Eu fui uma pessoa muito oprimida, acorrentada por umas entidades. Eu venho de uma família que era… Minha mãe, meus avós, minhas tias eram de umbanda. Por eu ser o neto, o filho mais velho, eles queriam que eu assumisse depois. Hoje não tem mais nenhum dos que eram umbandistas; quem não era evangélico faleceu. 

Eu fui casado alguns anos com uma pessoa que eu não conhecia, nesse outro mundo. Só que eu nunca quis assumir esse negócio na umbanda, por isso eu sofria muito. Eu via, só que numa certa época, pra eu dormir essa pessoa tinha que vir. Eu não via, eu sentia. Eu sabia que era uma mulher. Ela colocava a unha no meio das minhas costas pra eu poder adormecer. 

Aquilo viciou. Quando eu não tinha sono, eu não sabia o nome, mas eu chamava essa pessoa e dizia: “Vem, vem.” Enquanto essa pessoa não vinha, eu não conseguia dormir. 

Depois eu descobri que era coisa de outro mundo, aí eu rejeitei. Depois essa pessoa chegou pra mim e disse que era casada comigo há um tempão, me tinha como marido. Eu achei uma doidice, disse: “Não, pra mim não.” Expulsei da minha casa. Desde então, eu sofri muito, paguei as consequências, mas eu não me arrependo. Não tenho nada com umbanda, nem sou contra quem tem, mesmo porque eu já participei, já vivi. Acho que tem um limite e um respeito. Um monte de gente da minha família foi de umbanda. só que não tem mais. 

 

P/1 - O que essa pessoa fez depois que você a expulsou?

 

R - Eu me senti ameaçado, porque até certo ponto eu fiz a vontade [dela], depois eu não chamei mais. Algumas pessoas da minha família sofreram algumas coisas por esse motivo. 

Como eu falei, nada contra, respeito, mas pra mim não dava pra continuar casado com uma pessoa que eu nunca vi. 

 

P/1 - Era uma espécie de espírito, então.

 

R - Um espírito. 

Uma vez eu quase fico louco, porque eles apareciam muito pra mim. E tudo que aparecia na minha frente parecia ser gigante. E ali eu… “Rapaz, eu não quero isso pra mim.” Eu teria de assumir de qualquer forma, mas eu nunca quis. Apesar de eu ter aprendido muita coisa - hoje eles falam simpatia, mas pra mim não era simpatia o que eles faziam. Tudo que eu queria, eu ia lá porque eu tinha ouvido.. Minhas tias trabalhavam com esses negócios; eu via, então eu aprendi. Eu queria ficar com alguém, eu ia lá e fazia o serviço. E dava certo. (risos) Mas hoje eu não faço mais isso. Foi lá no passado. 

 

P/1 - Quando os espíritos o visitavam, você já estava casado.

 

R - Já casado. Minha esposa sofreu muito, porque eles não queriam que eu casasse com ela. Acho que eles se conformaram, mas no começo foi muito difícil. 

 

P/1 - Sua família se opôs a isso?

 

R - Sim, à minha esposa. Minha mãe era uma grande amiga, então ela sofreu bastante porque ela do meio, mas saiu, foi pra igreja. Minha avó também. É como eu disse: os que não se converteram ao evangelismo faleceram. Que eu saiba, hoje não tem mais ninguém na família que trabalha com umbanda. 

 

P/1 - Você acha que esse histórico da sua família veio um pouco pra cima de você, é isso?

 

R - Foi muito pesado porque diziam que eu tinha que assumir, alguém da família tinha que ficar. Por não querer, eu sofri as consequências. Foi um ano, quase louco, [com] perturbação direto, mesmo, mas eu consegui atravessar.

 

P/1 - Isso aconteceu aqui na Vila Canaã?

 

R - Não, antes de vir pra cá. 

 

P/1 - E você acreditava nisso antes de acontecer com você? 

 

R - Não. Eu respeitava, mas não acreditava. Ainda hoje, eu não me importo com disse-me-disse nem com a vida de ninguém. Cada qual com seu cada qual.    

 

P/1 - Você estava na sua carreira de teatro e a sua família estava morando perto da Vila Madureira, é isso?

 

R - É, na Vila Madureira era minha avó, lá era dela. Quando ela faleceu, ficou abandonado. Depois de uns quatro ou cinco anos foi que veio uma das filhas dela do interior. Os filhos se reuniram, então resolveram limpar o sítio e dividir entre os três irmãos que ficaram. 

Eles acharam que eu também merecia um pedaço de terra lá, então meu pai me chamou e me deu um pedaço de terra lá na vila, aí eu construí uma casa lá. Mas eu não morava totalmente na Vila Madureira, morava no Anjo da Guarda. 

 

P/1 - É próximo?

 

R - É próximo, uns quatro a cinco quilômetros, acho. 

 

P/1 - Em que ano as empresas começaram a chegar na região?

 

R - Entre 2007 e 2008. No começo de 2008 a empresa chegou e começou aquela confusão toda. Alguns não acreditavam porque outras empresas já tinham procurado também, mas não tinha acontecido nada.  Até que chegou essa empresa, fez todo o processo.

Algumas pessoas começaram a acreditar quando a empresa começou a mostrar, levar aos lugares - porque não foi o único, teve outros lugares - pra ver onde seria construída a vila pra colocar as pessoas. 

Nos outros lugares eu não fui, eu vim nesse. Achei distante, mas aprovei. 

 

P/1 - O lugar que você foi reassentado foi o Anjo da Guarda ou da Vila Madureira? Ou os dois?

 

R - Não. No Anjo da Guarda, a gente morava de aluguel. A gente tinha uma casa no sítio, que era na Madureira. 

Quando aconteceu tudo isso… Só sei que no final de 2008, a empresa já precisou do local. Como a vila não estava pronta, a empresa alugou casas pra gente em outros setores, até aqui ficar pronto. Quem tinha suas casas nem precisou sair. Tinha gente que tinha terreno e casa na vila, mas tinha suas casas na Vila Maranhão ou no Anjo da Guarda, mas eu, como morava de aluguel no Anjo da Guarda, alugaram uma casa pra mim em outro local enquanto ficava pronto, pra trazer a gente pra cá.                  

P/1 - E você se lembra como foram as primeiras conversas da Eneva com você, com a sua família? Como era essa relação, no começo? 

 

R - A conversa é que tinha uma empresa interessada na área, que eles iriam construir um empreendimento naquela área. 

No começo, como eu falei, a gente quase não acreditou, mas depois a coisa foi ficando séria. Começaram a aparecer outras pessoas, conferir suas plantas e a avaliação da sua terra. Depois disso, a associação começou a sentar com os moradores e começaram também a trabalhar. “Eles vão construir aqui, mas o que eles vão fazer com a gente? Pra onde nós vamos? O que vai acontecer conosco? Eles vão indenizar, só vão pagar? A gente vai pra onde?” Começou aquela preocupação. Então veio aquela ideia - não sei se já era da empresa - de construir uma vila pra remanejar o povo que seria atingido, pra vir pra cá. 

Muitos abraçaram a ideia, outros não; até hoje, [com] algumas pessoas não sei o que aconteceu. Eu não tinha outra saída. (risos) A casa que eu tinha era lá. “Olha, eles vão lhe dar uma indenização, mas vão dar uma casa em troca”, então o que eu podia fazer? 

Eu não queria vir, mas o dinheiro que... Eu não vou falar mal, mas o dinheiro que eu ia receber não dava pra comprar uma casa em outro local, então eu vim. 

Não trouxe minha esposa nem pra mostrar, nem pra olhar a casa, nada; só no dia da mudança. [Ela] chorou três meses pra vir embora, mas hoje ela não quer ir mais, porque uma das melhores coisas que aconteceu foi isso aqui. Sem falar que eles ficaram cuidando, se preocupam até hoje. [Faz] onze anos, mas se preocupam até hoje com a comunidade. De vez em quando, eles estão por aqui pra ver como está. 

Era uma coisa que me preocupava, porque tudo era a empresa. Eu dizia: “Nós precisamos andar com as nossa próprias pernas. A empresa já deu a vara de pescar, ela vai dar o peixe? Não.”

Eu sempre fui contra algumas coisas. Sempre que aconteciam, eu não concordava. A gente aprendeu, claro, mas hoje nós andamos com as nossas próprias pernas. 

 

P/1 - Até chegar aqui, quantos anos demorou?

 

R - Eu creio que quase um ano e meio. Eles chegaram lá por volta de 2007, aí foram aqueles processos, viajavam, porque algumas pessoas não eram daqui. 

 

P/1 - Você morou em outra casa, inclusive.

 

R -  Sim. Eles pagaram ainda três meses de aluguel antes de ficar pronto aqui, em 2008. Em quatorze de março de 2009, a gente mudou pra cá. As primeiras mudanças foram feitas no dia seis, sete de março.

 

P/1 - Você se lembra desse dia, como foi?

 

R - Lembro. Da minha rua, fui o primeiro a mudar. Eles foram buscar [a mudança] na casa onde eu estava morando. Fui muito bem recebido aqui pelos… Tinha psicólogo, tinha assistente social, todos esperando. A gente teve um trabalho de ir se preparando. Eu me preocupei em vir morar num lugar onde eu não conhecia ninguém; do que eu ia viver aqui?  Vou sustentar minha família com o que lá? Só que quando chegamos, a empresa abraçou, ela criou frentes de trabalho dentro da comunidade, no polo agrícola, pras pessoas poderem trabalhar e terem como sustentar sua casa.                                     

Achei incrível o que aconteceu. Apesar de algumas pessoas serem contra, que a empresa deveria ter feito mais… Outros acham que a empresa não deveria ter feito isso, deveria ter indenizado todo mundo e cada qual procurasse o seu canto, mas aconteceu assim. 

 

P/1 - E lá na região, as pessoas, em geral, viviam como? 

 

R - Algumas viviam da pesca. Ao redor tem muitas empresas, alguns viviam trabalhando em algumas empresas, como empregados. Eu trabalhava numa empresa lá, era perto. Alguns eram aposentados. Da terra mesmo, não dava pra pessoa se sustentar. Não saía essa renda toda de lá. 

 

P/1 - Como foi essa negociação da Eneva com o lugar? Como iam ser as casas, vocês demandaram isso ou foi...

R -  Foi criada uma associação pra ficar de frente, então tudo que era negociado com a empresa a associação chamava os moradores e dizia: “O que vocês acham de ser dessa forma?” Foi sugerido tirar todo mundo daqui e botar em outro local, pra não quebrar… Pra todo mundo continuar ali, em outra vila, mas perto.” A maioria se conhecia. 

“Vamos concordar. Vão dar outras casas, tudo bem. Mas dentro dessa vila a gente vai querer isso, isso..” Foi acordado. Uma escola, um posto de saúde, segurança. Aí levavam lá pra empresa, aí votavam. Concordou ou não concordou? 

Foi assim que aconteceu. Muitas vezes, a empresa chegava e dizia: “Vai ser feito assim.” “Isso vai ser bacana.” “Isso não vai dar certo”, mas como a maioria sempre vence, a Vila Canaã está aqui hoje, dentro de Paço do Lumiar.

 

P/1 - Por que vocês escolheram esse território e não outro? 

 

R - Alguns lugares não foram escolhidos porque a documentação não estava em dia, outros porque ficavam muito alagados. Aqui, apesar de eu ter vindo só nesse, a gente se identificou mais. O polo fica num lugar bem bacana, então o coração das pessoas pulsou mais forte por esse lugar aqui.

 

P/1 - Quais as escolhas que vocês fizeram, do tipo “eu quero isso, isso…” O que vocês exigiram e por quê?

 

R - Nós queremos uma escola, porque aqui as escolas eram distantes. Queremos um posto de saúde pra ficar mais fácil, porque tinha muitas pessoas com a idade avançada pra sair. E segurança porque era necessário. 

Foram feitas várias reuniões, abaixo-assinados, pra que isso viesse a acontecer. Também não foi assim, dizer eu quero e eles já liberarem, não. (risos) Eles abraçaram a ideia, também não sei se já estava na cabeça deles fazer dessa forma. 

 

P/1 - E o polo agrícola? Como ele foi pensado, como ele é dividido?

 

R - Como lá muitas pessoas plantavam bastante - lá eu tinha uma plantação de abacaxi, abacaxi lá dava bem - a ideia foi dar uma área pras pessoas. Até quem não tinha nada, só tinha uma casa lá, ganhou uma área no polo agrícola para trabalhar. Algumas pessoas não entendem, a empresa deu pra trabalhar, então algumas pessoas até venderam. Pra mim, como eu gosto da terra, gosto de plantar, foi bom.

Hoje nós temos, de quem veio da Madureira, creio que 22 ou 25 pessoas dentro do polo, que gostam de plantar e gostam da terra. Outras pessoas adquiriram depois, chegaram depois. Algumas já venderam. Mas é um lugar bacana que eu não troco por nada.

 

P/1 - Contaram pra mim que vocês fazem questão da plantação não ter agrotóxicos, não ter um processo mais agressivo. De onde surgiu isso?

 

R - É outro assunto importante. A gente sabe que o veneno faz muito mal pra saúde. Todo mundo sabe disso. Plantar sem usar foi uma ideia que a gente abraçou. Não é fácil, a produção não é a mesma usando o produto. 

A gente tem até o selo de orgânico. É uma planta que você pode arrancar e comer na hora que não vai fazer dano nenhum à sua saúde. A gente abraçou por isso, porque a gente pode viver muito mais, sem agredir também a natureza, porque o veneno agride. 

É bacana trabalhar assim, não passar mal usando... Tudo que você usa é natural. A produção é menor, mas dá pra produzir.  

 

P/1 - Você me disse que no polo viu coisas lá, também. Que história é essa?

 

R - (risos) É interessante, acho que foi uns cinco anos atrás. Eu trabalhava com uma plantação de maracujá. Eu e o rapaz que trabalha comigo… Veio alguma coisa de dentro do mato, rasgando o mato. A gente pensou que era algo natural e não era. “Tu cerca por ali e eu cerco por aqui.” “Beleza.”

Um lado eu fui pra cercar, ele foi pro outro. Veio pro meu lado, só que quando veio, eu perdi a voz, eu fiquei parado; meu cabelo ficou todo arrepiado. Eu vi que aquilo era sobrenatural. Veio assim e voltou rapidinho. Eu disse: “Vixe…” Foi a úinca coisa que eu pude ver, veio e voltou.

Quando meu companheiro veio, eu estava sem voz. Disse o menino: “O que aconteceu?” “O que aconteceu, meu irmão, é que o que veio era tipo um…” Era desse tamanho assim, não era grande não, mas era… Aí ele disse pra mim: “Ele veio atrás de fumo.”

Depois eu descobri que meu pai, quando ia lá no polo, sempre levava fumo e jogava pra um tal de caipora, aí aconteceu isso comigo. Eu disse: ”Rapaz…”

Depois eu coloquei um rapaz pra trabalhar comigo e eu não sabia que ele trabalhava com umbanda. Ele estava aqui [do meu lado], eu olhei [pra lá] e tinha um cara sentado com um chapéu. Aí eu disse: “Rapaz, quem é aquele cara?” Ele disse que era o padrinho dele que estava ali, mas não era normal, era gente de outro…

Veio a pergunta pra mim: “Mas por que é que eu vejo? Tem pessoas que não conseguem ver e eu vejo.” Ele disse assim: “Rapaz, tu tem um dom e não sabe.” Eu disse: ”Mas nem todo mundo consegue ver. E eu vejo de vez em quando.”

Eu tinha a possibilidade de dizer: ‘Fulano, toma cuidado com quem tá perto de ti.” Às vezes, a pessoa até se zangava, mas eu via. [Por exemplo,] você está aí e eu via alguém atrás de você [e dizia]: “Fulano, cuidado.” Não sei se era um dom ou loucura. (risos) Mas eu conseguia ver.

 

P/1 - Você recebeu a sua casa aqui e a outra casa no polo. Você construiu ali?

 

R- Não. Lá no polo foi a empresa que construiu, é tipo um quiosque pra você, quando dá meio-dia, poder repousar. Não é totalmente uma casa, é toda aberta; só tem banheiro. É um rancho, um quiosque. Não foi pra todo mundo; ela construiu nos grupos. No meu grupo, eram doze pessoas; há mais de dez anos, estou só eu nesse grupo. Eu cuido de lá como se fosse meu, porque é nosso. Cuido muito bem. 

 

P/1 - Esse tempo você plantou o que lá?

 

R - Eu já plantei de tudo, hortaliças em geral, mas por falta de água - água lá é muito complicado - hoje eu trabalho mais com maracujá, mamão e acerola. Trabalho mais com esses produtos, que você pode molhar dia sim, dia não; pode passar dois dias sem molhar, no terceiro dia molha bastante, ele aguenta. 

 

P/1 - E essa produção do polo vai pra onde? Vocês vendem pra quem?

 

R - Nós temos feiras livres, quarta, quinta e sexta-feira. Esses produtos são escoados pra essas feiras livres. Algumas pessoas vendem assim, botam na moto, na bicicleta e saem vendendo. Por ser um produto diferenciado, muitas pessoas querem, compram. Vão lá no final de semana, as pessoas vão comprar o produto. “Quero conhecer”, aí vão lá e compram.   

 

P/1 - Vocês fazem feira dentro do polo?

 

R - Não. Já aconteceram feiras lá dentro, mas hoje a gente não faz lá dentro, faz fora.

 

P/1 - Você acha que o fato de ser uma produção orgânica ajuda na venda?

 

R - Ajuda, mas muitas pessoas não valorizam. Por ser orgânico, é um produto mais caro; veem um produto que não é orgânico, veem que é mais volumoso e preferem levar o mais volumoso, que tem veneno. Sem o produto, ele não desenvolve tanto. Preferem levar, mas não sabendo que o que estão levando vai prejudicar a saúde.

Muitas das vezes, você acaba vendendo pelo mesmo valor ou mais barato do que o outro produto.

 

P/1 - Quais são as ruas que tem aqui, na Vila Nova Canaã, pra quem não conhece? As ruas e os lugares.

 

R - Dentro da Vila Canaã nós temos a Rua Curió, Rua Pipira, todas com nome de pássaro. Rua Rouxinol, Totoriá, Leva-arriba, e tem essa aqui que eu moro, que é a Avenida Jaçanã.

 

P/1 - Por que foi tudo nome de passarinho?

 

R - Eu não sei te explicar, mas eu acho que é homenagem a um dos fundadores da vila, o seu Zacarias Passos; acho que acrescentaram algumas letras pra ser ‘pássaros’. A gente se acostumou, apesar de no documento ter os nomes oficiais das ruas. Até a Cemar, que fornece energia, a Caema [Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão], os Correios, [já] vem com nomes de pássaros mesmo. Não mudou muita coisa, não.

 

P/1 - Nesse processo de mudança, teve lideranças mais marcadas, pessoas que lideraram essas negociações?

 

R - Teve o seu Zacarias Passos, que foi à frente, o seu Domingos. Esses dois foram os caras que batalharam pra coisa acontecer. Sempre defendendo a comunidade, sempre querendo o melhor pra comunidade. 

 

P/1 - O que você acha que explica as pessoas terem aceitado se mudar juntas e não cada um ter ido pro seu lado?

 

R - Eram mais famílias. Tinha pessoas com quatro, cinco filhos e tinha os parentes, então acho que foi o acordo mais… “Vamos aceitar, porque todo mundo fica perto, na mesma vila”. Mas quase não adiantou, porque muitos… Meus parentes vieram, moraram alguns dias, já venderam as casas; só tem eu e meu irmão da família Valentim.

 

P/1 - Você acabou tomando conta da Casa de Cultura. Como foi isso? 

 

R - Hoje eu sou presidente da Associação Cultural e desportiva da Vila Canaã. Acharem de acordo eu ficar dentro dessa associação com o campo de futebol e a Casa de Cultura. Eu sou hoje responsável pela cultura da comunidade, pelo lazer, e por trazer isso pra dentro da comunidade. A gente não está trabalhando mais por causa da pandemia, mas é uma coisa que eu aprendi a gostar. Não sei jogar futebol, mas administro a quadra. Estou aqui pro que der e vier. 

 

P/1 - Isso desde que ano? 

 

R - Um ano, só que a Casa de Cultura veio esse ano, foi no mês de maio, junho que resolveram passar pra nossa associação. 

 

P/1 - Já existia antes a Casa de Cultura?

 

R - Está com quatro anos. Dentro da comunidade nós temos o Tambor de Crioula, o teatro, que é de dentro da comunidade. Então a gente sentou. “O que a gente pode fazer? Vamos fazer um teatro?” “Não, vamos fazer uma casa de cultura, que vai abranger não só a Nova Canaã, mas que vai ficar dentro do Paço do Lumiar.” A única casa de cultura que existe em Paço do Lumiar é a Casa De Cultura Nova Canaã. 

 

P/1 - Vocês estão planejando que eventos, que programação? 

 

R - Dentro da casa dá pra gente ministrar cursos profissionalizantes, balé, canto, que é uma coisa que eu gosto, e teatro. É o que a gente pretende e que vai acontecer dentro da Casa de Cultura.

 

P/1 - Como é o espaço da Casa de Cultura? Como está a estrutura lá?

 

R - O espaço não é muito grande, mas pro tamanho da comunidade dá, apesar de que a gente quer abranger as comunidades vizinhas também. Elas nos visitam quando a gente faz espetáculos, assistem. Mas era pra ser um pouquinho [mais] espaçosa. (risos)

 

P/1 - Você já se apresentou lá?

 

R - Ainda não, porque ela estava fechada. Ela veio a funcionar esse ano e com a época da pandemia, a gente nunca se apresentou lá dentro.

 

P/1 - Mas você já se apresentou em algum lugar da Vila Canaã?

 

R - Em vários lugares. Na escola, no campo , na praça, aqui na associação. Já fizemos várias apresentações aqui. Onde nos chamam, a gente vai.

 

P/1 - Apresentando teatro.

R - Apresentando teatro. 

 

P/1 - Você se lembra da primeira vez que se apresentou aqui?

 

R - Se eu lembro? Meu Deus… Foi no final de 2010. A gente apresentou o espetáculo Alertando Geral. A gente se preocupava muito, eu principalmente, com a natureza em si e com o lixo gerado dentro da comunidade - pra onde ia… Aí eu sentei com o pessoa. “Vamos produzir um espetáculo pra alertar esse pessoal, pra manter o meio ambiente limpo.” Então a gente criou esse espetáculo, que eu achei que seria só uma vez e ficou pra mais de dois anos aí.  

 

P/1 - Tanto aqui quanto fora. 

 

R - É, fora. 

 

P/1 - Em que você era o Patati. 

 

R - Eu fiz o Patati várias… Nem me chamavam pelo nome, era Patati. As crianças… “Cadê o Patati?” 

Foi uma coisa bem marcante. Aquelas crianças já cresceram, mas ficou marcado o espetáculo dentro da nossa comunidade. Estão todas grandes, mas de vez em quando ainda… “E o Patati?” [Eu respondo:] “O Patati morreu.” (risos) Mas é bem interessante. 

Quando a gente ia pra praça, a gente interpretava o espetáculo, mas sempre brincando com a comunidade. Quando diziam: “Os meninos vão se apresentar em tal lugar”, a gente podia esperar que era público garantido.

 

P/1 -  Você gosta de se apresentar nessa praça? Como é essa praça?

 

R - A praça não é lá essas coisas, mas eu gosto. (risos) Gosto muito de me apresentar em público - na praça, principalmente, porque a gente sabe que é um lugar mais amplo. As pessoas se achegam mais e a gente…

Eu gosto da praça. Tem tipo um palco lá que foi feito principalmente pensando no teatro, pra gente se apresentar.

 

P/1 - Agora você está trabalhando na Casa de Cultura, está responsável por ela.

 

R - Na verdade, eu trabalho mais na quadra porque de lá dá pra administrar as duas coisas. Eu acho o campo mais amplo. Eu tenho o meu escritório no campo, gosto porque dá pra administrar, é mais bacana.

 

P/1 - E às vezes você volta pro polo.

 

R - É assim: dia sim, dia não eu estou no polo porque eu posso molhar as plantas dia sim, dia não. (risos) Eu tenho que dar atenção à associação e lá também. Tenho as pessoas que trabalham comigo, mas eu gosto de estar sempre presente. Eu gosto de estar presente em quase tudo; nem sempre dá tudo, mas eu gosto de estar sempre presente. 

 

P/1 - Hoje você consegue dizer que se sente à vontade aqui, que é a sua casa?

 

R - Super à vontade. Minha casa não vendo, não troco por nada. Apesar de ter pessoas que chegam assim: “Quero comprar tua casa”, [eu digo] “não, eu não vendo”. 

Eu me sinto à vontade dentro da comunidade, estou pronto pra ajudar. Se for pra multiplicar, aqui estou eu; se for pra atrapalhar, eu me retiro. Se eu vejo que alguém não gostou… Se eu te machuquei, eu sou muito homem pra te pedir perdão. Já pedi perdão até pra quem me machucou, porque você sabe que o ser humano é muito falho. Na maioria das vezes, a gente erra… Às vezes, quem está de fora está vendo mais que aqui. Talvez eu esteja falando alguma coisa errada aqui e alguém de fora observa. Quem está dentro acha que está empolgando, mas está fazendo alguma coisa que não está agradando.

Essa é a minha comunidade. Eu estou aqui pra defender a minha comunidade. Se jogarem pedra em alguém, vai me atingir também. Não vou apanhar a tapa, mas ajudar o negócio a crescer mais ainda. 

P/1 - E como é a relação da casa com o Tambor de Crioula?

 

R - Se for apresentar o Tambor de Crioula, só se for do lado de fora, mas o teatro e o Tambor de Crioula andam juntos, são duas coisas interessantes dentro da comunidade, que ao nosso redor ainda não vi. O Tambor de Crioula é bem bacana, vocês vão ter a oportunidade de estar com a responsável. 

Dentro do nosso filme também vai estar o Tambor de Crioula, o teatro; vai ser uma história em que a gente vai conseguir botar todo mundo numa só coisa. Eu creio que vai ficar bacana.

 

P/1 - Agora me conta como é esse roteiro, essa narrativa. O que você quer contar?

 

R - O nome da nossa história é “Deixa que eu conto”. Só o título já é bem… O que vai acontecer?

Assim como vocês chegaram hoje aqui… Quando eu escrevi esse texto, eu não imaginava, uns três, quatro anos atrás. É o que está acontecendo hoje: você veio de onde fazer uma entrevista? É a mesma coisa que vai acontecer no filme: vai chegar alguém de fora, que vai querer ouvir a nossa história, como eu estou aqui, contando alguma coisa. Só que pra apimentar a história, dentro do roteiro o escritor vem… É um escritor que vem pra ouvir a história e da história talvez [vá]  fazer um filme. Só que algumas pessoas vão achar que, contando essa história, vão receber um grande valor em dinheiro, aí vai começar uma corrida. Daí vem o título: “Deixa que eu conto”. Todo mundo vai querer contar sua história, as pessoas vão fazer de tudo pra conseguir chegar a contar sua história.

Não sei se foi de propósito, aqui foram escolhidas algumas pessoas pra contar a história, (risos) Assim também está dentro do filme, eu fiquei pressionado por estar fazendo uma ficção e estar acontecendo na realidade. Nem todo mundo vai poder contar a história, se fossem vocês iam passar um bom tempo aqui, não é? Tem algumas pessoas que foram selecionadas.

Quando me perguntaram, eu aceitei. É dessa forma. No filme, algumas pessoas vão ser até capazes de sequestrar alguém pra não deixar contar a história, outras vão se agarrar ao espiritismo - vão fazer despacho pra tentar chegar a contar a história. Só que no final, será uma história real, porque as pessoas vão contar a história de lá. 

É uma grande comédia que eu estou sentando pra acertar com a produção que vai fazer a gravação toda pra gente; E eu quero fazer com todo mundo da comunidade. Se precisar buscar alguém fora, vai ser bem pouco. Mas está bem elaborada.

 

P/1 - Posso perguntar como termina essa história?

 

R - Termina como eu estou aqui, contando minha história. 

 

P/1 - E no meio dessa briga por contar a história pro escritor, cada um acaba contando pro espectador. 

 

R - Isso. Acaba contando a história…

 

P/1 - Da sua perspectiva. 

 

R - Sim, vai contar a sua história. Vai terminar dessa forma, porque a nossa história… Algumas podem vir distorcidas, então tem que correr atrás da verdadeira história. A gente vai ter a oportunidade, dentro do roteiro e do filme, de ouvir as histórias reais, pra gente poder, mais pra frente, talvez fazer um filme da história real. Sei que vai ser bacana. 

 

P/1 - E a história que você quer contar é da mudança da Vila Madureira pra cá.

 

R - Justamente, só que a princípio não vai ser nessa história. Eu quero ouvir a história de cada um. Vai ter essa corrida porque eles acham que… “Deixa que eu conto” porque se eu contar eu vou me dar bem. Muita gente dentro da história vai ser capaz de sequestrar - de matar não, porque eu não botei nenhuma cena de morte, mas de fazer alguma coisa absurda pra conseguir chegar na frente das câmeras e contar sua história. 

 

P/1 - Agora que você está aqui, que história você acha que não teria como deixa de fora sobre esse processo de remanejamento que você viveu ou que ouviu?

 

R - Nós temos histórias tristes, histórias felizes, mas uma que não poderia ficar de fora… É uma história triste, mas pra que a gente reflita e tenha o cuidado, porque muitas vezes a pessoa está junto com você e você não conhece a pessoa. Não sei se ela vai contar essa história, mas é a história de uma pessoa que convivia com a família e matou alguém da família. Ainda teve a coragem de ir junto, procurar o corpo dessa pessoa. É triste, mas aconteceu dentro da nossa comunidade na Vila Madureira.    

Creio que não pode faltar porque é tipo um alerta. Nem todo mundo que vive ao seu redor é seu amigo. Você tem que não se abrir pra todos, mesmo porque a Bíblia fala: “Maldito o homem que não pode confiar no outro.” Tem que confiar desconfiando, digamos assim.

 

P/1 - A gente vai entrevistar essa pessoa?

 

R - A mãe dessa pessoa vai ser entrevistada, sim. Não sei se ela vai querer contar essa história. 

 

P/1 - Essa é uma história que aconteceu na Vila Madureira.

 

R - Sim, aconteceu.

 

P/1 - Tem alguma outra da Vila Madureira, antes de falar da Vila Canaã, que você acha marcante pra comunidade?

 

R -  Tem. (risos) A gente morava perto de um lixão. Algumas pessoas não queriam sair de lá, aí surgiu uma história de dizer que lá ia explodir. Deixou todo mundo em pânico. Quando eu lembro, eu até sorrio porque é tipo uma comédia: “se vocês não saírem daí, esse lixão vai explodir”. 

Não sei como aconteceu; no dia seguinte começou a sair uma fumaça de dentro. O povo entrou todo em pânico. “Mais dia, menos dia isso vai explodir e quem estiver perto vai evaporar.” 

Mentira, acho que alguém foi lá, tocou fogo e contou essa história. Como era a minha família que morava perto, ficou todo mundo desesperado. É uma coisa que aconteceu lá, mas até hoje nunca explodiu nada. 

 

P/1 - E aqui na Vila Nova Canaã, já deu tempo de ter histórias também?

 

R - Muitas histórias bacanas aqui, tristes também. Já perdi alguns companheiros que vieram de lá, outros que nasceram aqui...

Tá, vou contar uma, parece coisa do outro mundo também. Eu trabalhava aqui na escola, na UEB Canaã, de vigia, à noite. Éramos eu e outro companheiro. Uma certa noite, eu ouvi um barulho, como se fosse uma caminhada de alguma coisa. Era como se fosse uma ovelha, mas essa ovelha era enorme. Era nessa rua aqui.  

O da frente berrava bem alto e o de trás respondia, só que quando eu coloquei a cabeça no muro pra ver era, meu irmão, era muita ovelhinha e só essa grande na frente. Atravessaram. 

Depois me disseram que aqui era uma procissão de mortos. Mais uma história assim… Mas é certo que toda quinta-feira acontecia algo diferente aqui na vila. Tinha gente que ouvia e não abria nem a porta; tem gente que saía pra ver e se assombrava. 

Eu só vi esse dia, isso aconteceu. Não sei se é porque eu já tinha aquela coisa de ver; o companheiro não viu, mas eu vi.

 

P/1 - Não tem ovelha no Maranhão, não é?

 

R - Não, nunca vi. Nessa noite eu vi, eram quase duas da manhã, saindo do cemitério pro outro lado. Eu disse: “Meu Deus, tu tá vendo?”  O companheiro: “Eu não tô vendo nada.” Mas eu tô vendo.” “Tu tá ficando é louco.” “Então deixa pra lá, não ouvi nada, não vi nada.”

 

P/1 - Indo pras últimas questões, como você é o potencial da vila pra esse lado cultural? Como você vê isso hoje?

 

R - Eu sei que a gente precisa muito de apoio do município, em relação à cultura dentro da comunidade. Eu não sei de dentro de todo o município existe assim um… Porque era muito forte, a gente sempre batalhou pras coisas acontecerem dentro da comunidade. Chamar as outras comunidades pra dentro da nossa, pra gente sempre dividir. A gente já trabalhou com shows de calouros pra chamar a atenção, pras pessoas participarem. Muitas pessoas participaram.

O que eu quero, o que eu pretendo fazer é esse tipo de coisa dentro da comunidade. com o apoio hoje do município, da Secretaria de Cultura ou de empresas privadas, que a gente às vezes busca também. Esse tipo de patrocínio pra gente poder trazer, tudo tem um custo. Às vezes é muito alto e a gente não tem como arcar com as despesas.

Tudo que eu quero é tudo de bom pra essa comunidade e pras comunidades vizinhas. Enquanto eu estiver pensando só em mim, a coisa não acontece.

 

P/1 - E como está a relação da Eneva com a comunidade hoje?

 

R - Estável.

 

P/1 - De vez em quando eles visitam?

 

R - É, de vez em quando. Por enquanto, eles ainda dão atenção. Eu tenho contato, Às vezes eu quero saber também… Não pra dizer “isso tá errado”, mas pra saber como andam as coisas. Se você se interessa pela sua comunidade, você tem que saber como está a sua comunidade também.

Muitas pessoas condenam a nossa comunidade. Vivem dentro, não querem se envolver, mas querem exigir algo. Pra você exigir algo, você tem que estar envolvido no negócio, senão a coisa desanda.

 

P/1 - Hoje quais são seus sonhos?

 

R - Esse filme é um sonho, mas ainda não aconteceu tudo que tinha de acontecer na minha vida. Hoje eu vivo bem porque tenho uma família bacana, tenho meus filhos, tenho meus netos, tenho muitos amigos. Mas tudo o que eu queria hoje era ver essa comunidade toda pavimentada. todo mundo dizendo “eu estou bem” porque tem muitos amigos ainda que precisam financeiramente [de ajuda]. Eu não reclamo financeiramente - meus filhos, minha esposa trabalha, eu trabalho, mas tem pessoas que necessitam mais ainda, então eu quero ver essas pessoas bem. Não esbanjando coisas, mas dizendo: “rapaz, eu estou bem”. É um dos meus sonhos também, ver as pessoas bem, principalmente da minha comunidade porque eu conheço mais aqui e a comunidade vizinha. Mas no mundo inteiro, as pessoas precisam desejar o bem pras pessoas. Não só puxar a brasa pra minha sardinha. Eu quero o bem pra todos. 

 

P/1 -  Você tem quantos filhos hoje?

 

R - De mim mesmo, eu tenho dois, mas eu tenho um de criação e crio uma neta, que vai fazer quinze anos. 

 

P/1 - Quais os nomes dos seus filhos?

 

R - Tales André Reis Valentim, que é o mais velho, Taís Adriana Reis Valentim, Eliézer Silva Barros, que é o meu filho de criação, minha neta, que é Carla Adriana Valentim, e mais dois netinhos, que são Lucas Mateus Vito e Ana Valentim, que é a caçulinha, tem três aninhos.

 

P/1 - Como foi o dia que nasceu seu primeiro filho, você se lembra? 

 

R - Pra mim foi um barato. Eu era tão novo… Eu sempre fui um pai presente, fiz de tudo por meus filhos. Eles vieram cedo, mas também paramos cedo. (risos) Minha filha caçula tem 28 anos.

Pra mim foi uma alegria ver meus filhos assim. Eu sou pai de quatro filhos, mas dois Deus levou. Ter meus filhos foi uma bênção pra mim, me fizeram me tornar mais maduro, mais responsável.

 

P/1 - E o seu filho de criação, como é essa história?

 

R -  Ele não é o primeiro, alguns até já se casaram e foram embora. Eu sempre tive um ímã, uma chama assim… As pessoas às vezes olhavam pra mim e diziam: “Eu quero morar na sua casa.” Já aconteceu várias vezes. E nessas, um garoto [disse]: Eu quero morar na sua casa.” “Mas como? Não dá.” E pessoa lá. Eu dizia: ‘Meu Deus.” Como essa pessoa começou a frequentar, eu disse: “Meu filho, vem-te logo embora pra cá.” (risos) E ficou até hoje, ainda não casou. Tem 33 anos, está atrás de uma esposa pra casar também. É um filho que me respeita, excelente. Não tenho o que dizer. 

 

P/1 - E pra você como foi contar um pouco da sua história hoje? 

 

R - Relembrar o passado… Algumas coisas doeram um pouquinho, mas é bom… Não vou dizer desabafar, mas foi bom relembrar algumas coisas que estavam lá no fundo do baú pra vir pra cá hoje. E dizer que vai ficar registrado pro resto da vida. É isso aí.

 

P/1 -  Obrigado, seu Valentim.

 

R - Eu que agradeço muito. Desculpa, porque minha língua às vezes enrola, às vezes quer sair uma palavra e não sai. Preciso de um esforço pra ela sair. Mas quero agradecer vocês por virem de tão longe. Sejam bem-vindos a São Luís do Maranhão e Paço do Lumiar.   

 

P/1 - Obrigado.

 

R - Eu que agradeço.


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