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História

A Vida, uma Obra de Arte

História de: Esther Proença Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/02/2008

Sinopse

Esther é uma destas pessoas cuja vitalidade causa espanto, realziou três graduações, diversas profissões e possui uma relação incrível com a arte, o teatro e o corpo. Ao longo de sua vida esteve sempre muito rodeada de pessoas, possui onze netos e cinco filhos. Ainda mais surpreendente que sua sociabilidade e sua relação com a arte é o fato de exercer sua porifssão até os 68 anos!

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História completa

P/1 – Boa tarde, Esther.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Bem vinda.

 

R – Obrigada.

 

P/1 – Primeiro gostaríamos de saber qual o seu nome completo, local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Esther Proença Soares. O Esther com th, porque é do tempo que ainda não tinha havido a reforma tirando os agas. Então, eu nasci em São Paulo, na Maternidade São Paulo em 1929. Dia 21 de junho. Um dia muito frio, diz a minha mãe. Dizia a minha mãe.

 

P/1 – Você lembra-se dos nomes dos seus avós, dos seus pais?

 

R – Lembro todo mundo, claro. Do lado, meu pai era Manoel Alves Proença. Ele era filho de uma mulher muito linda, muito suave, com os olhos muito azuis: a vovó Manoela. Chamava-se Manoela, ela foi casada com o meu avô e depois, em segundas núpcias, segundo casamento com outro senhor. Então, na verdade, eu fui, tive essa minha avó muito presente na minha vida, porque ela morreu com 92 anos. Ficou muito velhinha, já com aquela, hoje uns 92 anos já não é mais tão velhinho. Mas vovó ficou bem velhinha. Não tive avô, bisavô por isso. Minha mãe era amparense. Ela era do Amparo. Porque amparense fala que é do Amparo. Porque a Nossa Senhora do Amparo. A mamãe nasceu em Amparo, uma família bem tradicional de lá. Mas mamãe ficou, chamava-se Maria Guimaraes Proença. A mamãe ficou sem pai e sem mãe muito cedo. Então ela com 16 anos já teve que sair, trabalhar e foi trabalhar como professora. Naquele tempo era muito mais fácil. Trabalhava como professorinha de cidade do interior. Depois ela se casou com meu pai aos 21 anos, 22 anos. Vieram para São Paulo e moraram sempre aqui.

 

P/1 – Seu pai trabalhava com comércio segundo você nos contou na ficha.

 

R – Papai, é isso. Papai conheceu mamãe foi muito engraçado. Papai conheceu mamãe viajando. Porque ele trabalhava numa drogaria, chamava Drogaria Bráulio, depois se fundiu com outras drogarias e deram a famosa Drogasil que existe até hoje. Mas papai trabalhava na Drogaria Bráulio. Naquele tempo eles eram viajantes. Eles tinham que fazer a propaganda, o marketing era feito de porta em porta com os farmacêuticos do interior. Papai viajava para aquela região da Mogiana e conheceu mamãe no trem. Porque a mamãe tomava o trem em Amparo e ia para uma cidadezinha perto para dar aula numa, numa dessas, escola rural. E o meu pai conheceu a mamãe no trem. Ela mocinha, com 19 anos. Apaixonaram-se e se casaram assim.

 

P/1 – E a origem da sua família por parte de pai e de mãe é portuguesa, ou tem lá atrás também...

 

R – Tudo, tudo sangue português.

 

P/1 – Bem português.

 

R – Tudo sangue português. Parece, eu tenho uma, um bisavô que era avô da minha mãe, que era ou alemão ou judeu. Nós não sabemos se ele era um alemão não judeu, ou se era um alemão judeu.  Mas era alemão. Porque os próprios judeus não sabem me dizer com certeza. Esse meu bisavô era Grossman. Esse Grossman, depois não ficou na família, porque as mulheres vão perdendo o sobrenome. Então é o único sangue diferente que a gente tem conhecimento. No mais é tudo português.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho. Nós éramos quatro. Três homens e eu. Era, eu sou a segunda filha. Sou o segundo filho e então vim mulher. Meu pai teve o mais velho, que ainda está vivo, eu, o terceiro que é médico e o último, justamente o caçula foi quem faleceu primeiro.

 

P/1 – E você lembra-se do que vocês brincavam quando vocês eram crianças? Como é que era a rua, o bairro?

 

R – Lembro. Eu, como cresci no meio de meninos, brinquei muito de futebol, de bafa-bafa. Brincava muito com brinquedos masculinos também. Mas tinha meu lado de brincar com as minhas amiguinhas que iam lá pra casa. Nós brincávamos muito de casinha, com bonecas e muito de teatro. A nossa grande, o grande, aquilo que formou muito a minha infância foi: "Vamos brincar de teatrinho?" Tanto que tive muita vontade depois, como professora de, como arte educadora tive muita vontade de fazer alguma coisa com esse título: "Vamos brincar de teatrinho." porque é uma expressão muito de criança daquele tempo. Hoje criança não brinca mais como nós brincávamos né? Nossa distração toda era brincar de teatro, criar coisas, inventar coisas. Teatros que eu inventava, shows, nós cantávamos, dançávamos, fazíamos balé. Paralelamente, quando as amigas iam embora, ia jogar futebol com os meus irmãos. Rolar, brigar, pular cela, fazia tudo que era de menino.

 

P/1 – (riso) E você lembra, brincando de teatro, qual era o contexto, era dentro de casa, como era a sua casa, ou era na casa das amigas? Como vocês faziam?

 

R – Era muito na minha casa. Casa de amiga às vezes, mas por que na minha casa? Porque nós tínhamos uma, embaixo da casa nós tínhamos uma sala, que para mim era imensa. Hoje vejo que não era. Quer dizer, já fui lá depois e vi que essa sala era uma sala bem comum. Mas para nós chamava-se o quartão. O quartão era assim alguma coisa muito misteriosa. Lá a gente fazia tudo. Aquilo virava tudo. Inclusive os nossos teatros eram feitos ali. Nós tínhamos um guarda-roupa, minha mãe tinha encostado lá um guarda-roupa enorme, tinha uns gavetões em baixo muito grandes, cheios de cacarecos. Coisas que ela ia colocando. Eu tinha algumas paixões lá dentro que me ajudaram muito a brincar de teatro. Por exemplo, pedaços de veludo. Como tinha paixão por passar a mão no veludo, sentir a cor, a maciez, sentir o toque do veludo e o brilho do veludo. Veludo para mim era uma coisa, um tecido mágico, encantador realmente.

 

P/1 – Vocês iam ao teatro assistir alguma coisa, seus pais levavam?

 

R – Nessa idade não havia teatro infantil. Mas já ali para os 12, 13 anos, meu pai começou a me levar para teatro. Eu vi Bibi Ferreira mocinha, vi Dulcina e Odilon. Vi todos aqueles clássicos. O Procópio Ferreira muito. Quer dizer, assisti aos grandes clássicos, o pessoal de teatro que fez a história do teatro no Brasil, tive a oportunidade de assistir. Depois mais tarde quando fui fazer a ECA, foi engraçado porque o pessoal dizia para mim, meus colegas jovens diziam: "Você é a história viva do teatro." (riso) Sabia tudo, tinha estado com essa gente. Daí passei a frequentar muito teatro, as peças que havia, toda semana mudavam. Era bem diferente o teatro. Então isso tudo me inspirou a fazer um bom teatro em casa também brincar. A me canalizar para essa área de Arte Educação.

 

P/1 – Vocês brincavam, além de você ter as brincadeiras com seus irmãos meninos, suas amigas, como foi quando você começou a estudar, como ficou o seu cotidiano? Você já estava na escola quando você brincava de teatro?

 

R – Sim. Uma das brincadeiras que fazia muito era brincar de escolinha. Eu brincava de escolinha com os meus irmãos. Costumo dizer, quando falo sobre Educação, sobre toda a minha trajetória de educadora, costumo dizer que o meu primeiro, o meu primeiro sucesso veio junto com o meu primeiro fracasso. Porque aos oito anos de idade eu dava aula para os meus irmãos. Já estava no grupo escolar, já sabia ler. Escrevia e lia bem. Os meus irmãos estavam ainda analfabetos, criancinhas, eu sentava e brincava de escolinha. Eles adoravam. Fui uma ótima professora. Consegui ensinar meus irmãos a escrever, fazer contas e tudo, não consegui ensinar a ler. Não tinha um método, não sabia como fazer isso. Para mim foi um fracasso muito grande não ter conseguido que eles entrassem para o grupo escolar lendo. Frequentei Grupo Escolar Rodrigues Alves até o quarto ano e foi excelente. A escola pública era maravilhosa naquele tempo. Depois já com, na quinta, seria minha, uma quinta série, naquele tempo era primeiro ginasial, passei para o Rio Branco. Colégio Rio Branco. Porque não havia ginásio, que seria a continuação no fundamental, não havia nas escolas públicas. Estavam começando com o primeiro ginásio estadual, mas era muito longe de casa. Morava no Jardim Paulista, isso era na zona do Glicério. Então não tinha como ir para lá. Meu pai nos pôs no Colégio Rio Branco. Fizemos, eu fiz ginásio e colégio. Ou seja, a segunda parte do que é hoje o fundamental e o colegial fiz lá. Mas tive uma base fantástica. Saí, o Rio Branco é um bom colégio, sempre foi. Eu saí do grupo escolar com uma carga de informações e tão boa aluna, eu e meus irmãos, fomos ótimos alunos no Colégio Rio Branco. Porque, realmente, a escola pública preparava a gente, muito, muito bem para isso.

 

P/1 – E...

 

R – Você perguntou se... Ah, então, essa minha atividade brincar com as crianças, brincar com, de teatrinho muito, brincar de escolinha muito. Eu gostava muito de contar histórias. Lia muito desde menininha. Meus pais incentivavam muito as nossas, a nossa leitura. Especialmente meu pai trazia para casa tudo que era livro novo de criança. Então acompanhei toda a produção do Monteiro Lobato. Cada vez que o Monteiro Lobato publicava um livro, papai trazia e nós líamos muito. Então eu lia muito. E minhas amigas não liam. Não tinham o hábito da leitura, talvez por falta de um estímulo em casa. Então lia muito e contava as histórias para elas. Engraçado, né?

 

P/1 – Na escola, você tinha essa, esse incentivo à leitura no Rio Branco teve ainda, que você tinha em casa?

 

R – Não, no nosso tempo não. A escola era muito mais tradicional, tinha aquela programação mais ligada a um conhecer, a um saber de Gramática, de fazer composições, que chamavam. Você tinha composição para fazer em casa. Dá lá um tema a gente tinha que fazer. Mesmo no grupo escolar. Nós tínhamos gravuras, tínhamos que olhar para aquelas gravuras e inventar uma história com aquela gravura. Aprendi muitíssimo bem no grupo escolar a diferença entre uma descrição e uma narração, sabe? Era uma coisa incrível. Que coisa, nvejo hoje alunos meus não sabem, não percebem o que é que você faz num texto que é descritivo e o que é narrativo.

 

P/1 – E esses seus alunos atualmente são adultos, jovens?

 

R – Eu dou, dei muita aula particular. Eu nunca trabalhei no sistema escolar fora de casa, fora. Sempre fiz essa educação paralela à escola com alunos deficitários, gente que não vai bem na escola e que precisa de reforço. Com reforço escolar, sempre.

 

P/1 – Você, com essa paixão desde pequena de teatro, escola, você disse que é arte educadora.

 

R – Hoje sou.

 

P/1 – As duas coisas se juntaram, né? Isso você acha que influenciou desde pequena essa paixão na sua vida profissional hoje?

 

R – Ah, sem dúvida. Sem dúvida, sem dúvida. Eu ouvia muita música. Depois, na adolescência, li muito. Li uma coisa por vontade própria, por uma descoberta própria, li Machado de Assis aos 14 anos. Apaixonadamente. Todos os livros de Machado de Assis li aos 14 para os 15 anos. Então fiz muitas leituras. Eu lia muito, muito incentivada pelo pai, pelo meu pai. Foi, sem dúvida, isso influenciou. Mas a minha primeira faculdade foi Letras. Fiz Letras e era uma paixão muito grande. Tinha uma paixão muito grande pela França, pela cultura francesa. Então desde sempre a minha opção foi sempre fazer alguma coisa ligada à Europa. Letras Neolatinas foi o que fui fazer, que hoje não tem mais esse nome. Foi ótimo, porque hoje falo francês e italiano um pouco, espanhol bem e o português. Eram as línguas que nós tínhamos. Essa primeira faculdade foi de Letras. A segunda faculdade, já aos 40 anos, voltei fiz vestibular na USP, entrei para a ECA e fui fazer Teatro. Porque aos 21 anos fui convidada para fazer cinema, entrei para a Vera Cruz e fiz um filme. Fiz uma participação num filme. Mas os meus pais, naquele tempo, ser atriz era assim uma coisa horrorosa. Os meus pais ficaram muito magoados, muito aborrecidos. Foi uma zona, um pedaço tétrico na minha casa. Três meses sem comunicação com eles. Eu tinha só 21 anos. Eles realmente ficaram muito aborrecidos com essa minha entrada. Aí eu desisti, parei. Mas fiquei frustradíssima, né? Porque queria muito ter feito carreira de artista de palco mesmo e não fiz. Então aos 40 anos, acho que um pouco por essa frustração, porque sempre gostei de dar aula, adoro dar aula, adoro. Desde os meus oito anos eu sou professora.

 

P/1 – É, desde os oito anos.

 

R – Uma vez lá em, numa entrevista lá em Cuba, nós tivemos um Congresso de Arte Educação e me perguntaram sobre a minha carreira de professora. Eu falei: "Acho que nasci com um giz na mão." Sou do tempo do giz e adoro giz. Adoro mão de giz, cheiro do giz. Adoro giz.  Então acho que nasci com o giz na mão, realmente.

 

P/1 – Como era o seu cotidiano na faculdade, quando você fez Artes Cênicas, que era o que você queria? Você já estava com 40 anos. Você já era casada ou não?

 

R – Já, já, já.

 

P/1 – Como era a sua vida?

 

R – Entrei para a faculdade, é, entrei, a segunda faculdade fiz aos, entrei com 42 anos. Os meus colegas, meus coleguinhas eram coleguinhas mesmo para mim. Tinham 20 anos, tinham a idade dos meus filhos. O meu filho mais velho tinha essa idade. Também estava entrando na faculdade. Eu tive muitos filhos. Tive quatro filhos e depois ainda adotei uma menina. Tive cinco filhos. Meus filhos já estavam entrando na faculdade, estava entrando junto. Então os meus colegas tinham a idade deles. Logo enturmei. Assim, mas de 40 anos a gente é muito criança ainda. Hoje olho para trás: "Meu Deus, era uma menina." Daí fiz a faculdade com muita alegria. Porque foi um tempo maravilhoso da minha vida. Foi onde realmente pude somar uma coisa nova que era conhecer arte. Tem uma história até engraçada que é verdadeira (riso) super verdadeira. Entrei para a faculdade aos 20, fiz Letras. Uma vez, já aos 60 anos, fui fazer um curso de, Oratória não, de Locução. Locução, só a parte de locução mesmo. Queria entender o microfone, como se fala em microfone, o uso do microfone. Aprender a lidar com aquilo para poder melhorar aulas que sempre dei de fala, de oratória e tudo, para alunos. Quando eu, cada um se apresentou, o que já tinha, cada um contava o que é que tinha feito, a história de vida. E eu contei que tinha feito: "Olha, aos 20 anos fiz uma Faculdade de Letras, porque queria saber como é que a turma escrevia no passado. Aos 40 entrei para a Faculdade de Comunicações para saber como é que a gente se comunica hoje. E agora, aos 60, está na hora de fazer um curso de Teologia porque preciso saber como é que vou me comunicar com o homem lá em cima. (risos) Tá na hora de começar a pensar na comunicação que vou ter que fazer com alguém lá, me cobrando." (risos) Foi muito engraçado porque foi no primeiro dia isso. No dia seguinte cheguei na aula, na escola da noite, lá, foi no Senac. Quando cheguei à noite veio uma jovem de braços abertos, abraçar, muito festiva: "Ah, que bom que a senhora chegou e não tinha, sabe, soube que nesse, estou encantada de conhecer a senhora. Porque já soube que neste curso tem uma velhinha sensacional." (risos)

 

P/1 – Depois de tantas coisas, né?

 

R – Acho graça quando dou curso costumo brincar com meus alunos: "Espero que vocês também um dia cheguem a ser velhinhos sensacionais, porque..." (risos)

 

P/1 – Que ótimo.

 

R – E isso já faz tempo, 60 já faz tempo. Já estou com 78 hoje.

 

P/1 – Olha só, mas na faculdade como é que era o seu cotidiano com filhos, eles tinham bom, 20 anos, mas...

 

R – Foi um acordo que fiz com eles. Quando falam: "Mãe, você tem que voltar a estudar." Eles próprios me estimularam. "Vai fazer um pós-graduação, você tem que voltar a estudar. Você não pode ficar parada. Ficar dando aula particular em casa. Isso é muito pequeno. Tem que renovar." Eu disse: "Bom..." Eles todos já entrando para a faculdade, os mais velhos. Evidente que eles tinham já uma visão de mundo, muitos estavam vendo que tinha um potencial e parado. Que fui uma dona de casa full-time. Mãe daquele bando de filhos e tudo. Esposa também. Meu marido também era um homem à moda antiga. E aí disse: "Bom, tudo bem. Vou fazer, mas olha aqui todo mundo: marido filhos, todo mundo, prestem bem atenção. Vou fazer, mas a hora que tiver uma prova e tiver um filho com febre, vou fazer a prova. Concordam?" "Meu, a gente se vira pode deixar." "Tá bom, vocês vão concordar porque escola é uma coisa muito séria. É claro que uma doença grave a gente não vai, você tem que fazer opções na vida. Mas uma febrinha, uma viagem, não sei o quê, a escola vai estar em primeiro lugar. ______. Vocês concordam?" Todo mundo concordou. Então deu para...

 

P/1 – Cumpriram o contrato.

 

R – Cumprimos. Foi maravilhoso. Maravilhoso porque foi numa época em que meu marido estava já nos últimos anos de vida. Porque ele tinha um problema renal muito grave. Tinha, fazia hemodiálise várias, muitas vezes. Tinha um repouso muito prolongado de manhã, que não podia sair da cama. Foi uma época duríssima. A escola foi para mim a minha terapia. Porque aquela juventude toda, cheia de projetos. Eu era muito jovem, 40 anos você sabe que a gente é muito jovem ainda. Mas apesar disso, naquela época tinha 20 anos mais que os meus colegas. A escola foi uma terapia para mim muito grande. Porque não chegava despejando problema não. Ia para lá para realmente olhar para frente, olhar para o futuro, olhar para o novo. Fiz excelente escola. Eu fiz a minha escola foi excelente. Porque não estava lá para brincar nem para fazer vida universitária. Já tinha feito isso. Esse pedaço já tinha vivido. Queria realmente aprender.

 

P/1 – Lá você teve a oportunidade de experimentar o palco, o curso te deu esse prazer?

 

R – Ah, sim, muito, muito, muito. Nossa, todos os nossos trabalhos, porque fiz Teatro mesmo, a parte de Teatro. Só que o teatro, dentro do Teatro Educação a gente tem que fazer todo, cumprir uma série de cadeiras: Direção, Atuação, Dramaturgia, tudo. Fiz muita expressão corporal. Foi um mundo novo que se abriu para mim. Porque fui fazer muita expressão corporal. Fiz Expressão Corporal com Maria Duschenes, que é uma mulher que marcou a história de São Paulo.

 

P/1 – Com certeza.

 

R – Fiz aulas com Klauss Vianna, com o Viola, com o Ivaldo Bertazzo muito, muitos anos de Ivaldo também, trabalhei com ele. me especializei bastante em Laban, gosto muito da metodologia do Laban e trabalho muito com o Laban nas minhas aulas de teatro. Dei muito curso de teatro depois. Quando saí da escola trabalhei muito com teatro, mas sempre dentro do que nós já conversamos, essa educação paralela que não é a educação, que você disse, não é a educação formal e informal. Acho que tudo é formal. (riso) Tudo é. Apenas uma está na escola outra não está na escola, mas tudo é educação permanente. Trabalho muito com essa área. Que até eu aprendi com os técnicos, os especialistas em Educação do Sesc, uma vez que ouvi palestra deles. Essa coisa que não sabia, hoje se chama Educação Permanente. É a continuidade dos estudos para além da escola. Eu estou ligadíssima. Sou membro permanente da Educação Permanente. Eu, se você perguntar a profissão, vou te dizer: "Estudante." Vou morrer com faixa de estudante.

 

P/1 – Que ótimo.

 

R – Ah, sim, porque se não for isso a gente não progride. Você precisa todo o tempo da vida estar fazendo cursos e estar se especializando, se melhorando. Especializar não sei se é o caso, porque sou generalista. Tenho uma, sou geminiana.

 

P/1 – (riso)

 

R – É uma, não sei se é uma desgraça, o que é que é. (risos) Ser geminiana.

 

P/1 – Você citou pessoas importantíssimas da área de Movimento e Dança, que não eram da USP.

 

R – Biodança com o Toro, fiz muita Biodança.

 

P/1 – O Toro. Agora, dentro da ECA tem algum professor que te marcou muito no curso dentro dessa educação formal?

 

R – Nossa, nossa, maravilhosos. Fui aluna de Clóvis Garcia, que é ainda hoje um, ele está com muita idade já. Ele é um pouco mais velho, pouquinho mais velho que eu. O Clóvis é um professor de Teatro, História do Teatro maravilhoso. Fantástico. De uma lucidez fantástica, didático, muito articulado, com conhecimento assim profundíssimo. Fui aluna de Miroel Silveira, grande nome também do teatro. Do Jacó Guinsburg, que ainda hoje é um homem de, muito importante na Perspectiva, na editora. Ah, tive professor já, nossa, o Timochenko Wehbi, Renata Pallottini, Maria Alice Vergueiro.

 

P/1 – Grandes atores.

 

R – Fantástico. Maria Alice Vergueiro abriu o mundo para mim. Depois ela saiu, deixou de ser professora para vir, voltou para ser só atriz. Mas a Maria Alice Vergueiro foi a primeira pessoa que me disse o que é teatro para criança. Eu achava que teatro infantil - como levava meus filhos - achava que teatro infantil era aquele que todo mundo berra, grita, fica histérico para mostrar onde é que a bruxa se escondeu e não sei o que. Depois aprendi com a Maria Alice que o teatro é bom, infantil é bom quando a criança fica vidrada em silencio, grudada no palco. Esse é o teatro bom. Não precisa ficar berrando. Ela pode estar caladinha e paralisada, fascinada, hipnotizada com o palco. É o bom teatro. Porque realmente envolve a criança na história, nessa coisa mágica. Foi aí uma coisa, disse: "Ôpa, então não é ficar berrando?" "Não, não é." e passei a trabalhar, quer dizer, dei uma guinada na minha visão de teatro para criança. Porque não trabalho com teatro infantil, trabalho com o ator e acho que, com certeza, a vida é um teatro permanente. Nós estamos o tempo todo na passarela. Você está passando, no dia seguinte alguém te diz: "Eu te vi ontem." "Ah, é? Puxa, como é que eu estava, hein? Como é que será? Como é que estava meu cabelo?" (risos) "Será que eu desabotoei ou não abotoei? Estava de sapato, de tênis? Estava de pé no chão? Como é que eu estava?" porque, né?

 

P/1 – Claro, a vida, né?

 

R – A vida é uma passarela permanente.

 

P/1 – Agora, na sua época de faculdade você teve um contato com uma geração que era a dos seus filhos e você era aluna também. Você se integrou muito bem porque era uma grande causa sua, fazer o teatro, Artes Cênicas. Como era o cotidiano? Você saía com os seus colegas, faziam trabalhos em grupo com esses jovens?

 

R – Fazíamos, fazíamos. Até foi muito engraçado. Uma vez nós fomos fazer uma pesquisa, um trabalho de campo em Campos do, em São José dos Campos lá no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Fomos almoçar num lugar, um bando de gente. O pessoal da cidade viu que nós não éramos de lá. Então uma senhora virou para a outra e falou assim: "A professora com os alunos." (risos) Sempre pelo fato de eu ser mais velha, achavam que era professora.

 

P/1 – Eram os colegas.

 

R – Mas foi excelente, porque tive colegas, fui muito, me entrosei muito. Até era uma coisa complicada porque quando elas faziam aniversário, eu ia às festas e não me entrosava com os pais delas. Eles me chamavam, sentava. Eu não tinha muito assunto. Mas para ficar com as meninas, com as jovens também ficava sem graça. Porque dá umas distorções assim.

 

P/1 – Voltando um pouquinho, como você conheceu o seu marido? Onde vocês começaram a namorar?

 

R – Então, conheci meu marido aos 21 anos. Exatamente na hora que tinha acabado de entrar para o cinema. Meu marido era português muito tradicional. Ele também de braços dados com os meus pais batalhou para eu não continuar no cinema. Ele falou assim: "Eu estou apaixonado, quero casar, mas não com uma atriz. De jeito nenhum." E aí eu, talvez, não tenha confiado no meu talento. Porque não sou a única pessoa para quem aconteceu isso. Muitos atores tiveram que brigar em casa para serem atores. Acho que não confiei que eu teria talento. Ou não pus a, o futuro que era uma interrogação, com a certeza de que se abandonasse a família, largar... Meu pai e minha mãe foram taxativos: "Não vai fazer de jeito nenhum." E meu marido também. Nós éramos namorados, noivos. Então fiz essa opção pelo casamento. Foi muito bom, muito bom. Tivemos um casamento muito bom. Duraram 25 anos, depois ele faleceu. Daí é que comecei, aos 50 anos, a renovar todos esses quadros, a poder ter a liberdade de escolher e voltar para aquilo que queria fazer.

 

P/1 – Você já falou do seu trato com os filhos, tem uma coisa muito interessante de vocês. Para você o que é que é ser mãe com tantos filhos?

 

R – Foi sempre maravilhoso. Eu fui, tive, criei una rotinha de vida com os filhos que foi prioritária. Realmente foi uma dedicação full-time para os filhos. Tinha um programa de todas as manhãs, eu morava, sempre morei no Alto de Pinheiros. A minha sogra e o meu sogro eram pais de filho único. Meu marido era filho único. Eles moravam a dois quarteirões da minha casa. Todas as manhãs da minha vida eu saía a passear de carrinho de criança para fazer uma visita para a sogra. Para a sogra ver o netinho. Todos os dias. Raríssimas vezes não ia. Púnhamos a vida em dia, conversávamos e tudo. Fui muito amiga da minha sogra, muito. Meus sogros foram pessoas muito finas, muito bem educadas e a minha sogra era uma princesa. Mulher fantástica, ela me ensinou a ser sogra. Me ensinou muito. Foi de uma solidariedade comigo como se fosse a filha. Eu ia todos os dias com as crianças para visitá-la. Primeiro um, depois ia um no tico-tico outro no carrinho. Depois um no tico-tico, um na bicicletinha, outro no carrinho. (risos) Assim fui desdobrando até os quatro e até os cinco. Porque quando entrou a minha filhinha daí o mais velho já ia para a escola. Mas todas as manhãs, ritual era dar um passeio com eles, me dedicava a manhã toda. Como é que desenvolvi minha vida sempre? As manhãs totalmente dedicadas aos filhos, à tarde eles iam para a escola ou ficavam dormindo. Eu tinha sempre uma empregada que me ajudava com as crianças. Nunca tive babá full-time. Sempre tive o prazer de criar os filhos, de estar com eles, viver junto deles. Meu marido também sempre quis choferar as crianças para a escola todos os dias, porque ele achava que era o momento que ele podia estar com as crianças. Meia-hora, porque quem trabalha o dia inteiro chega à noite o filho já está indo para a cama. Então ele, aquela meia-hora enquanto levava para a escola era importante para ele conversar, trocar idéias com os meninos. Ele foi super bom pai e acho que fui uma boa mãe também. Tinha lá os meus ataques, de dar uns tabefes. Hoje não pode mais, né?

 

P/1 – (riso) Hoje, na sua vida profissional que você trabalha até hoje muito, quando você conta, essa parte da Arte Cênica você diz que usa não só dando aula, mas você lançou um livro também que são outras coisas que você trabalha.

 

R – É, mas aí já são outras coisas. A minha vida foi se desdobrando. A história é um desdobramento que levou anos fazendo. Vamos dizer que teria, tenho um certo domínio da língua portuguesa como Gramática, como construção, escrever corretamente. Tudo, que é uma profissão de uma vida inteira fazendo correções de teses, corrigindo trabalho de aluno. Procurando ser uma professora que abre esse mundo da magia da palavra. A palavra para mim, a Literatura e a palavra, sem dúvida nenhuma, é um jogo. É o jogo, é tão importante quanto o jogo teatral, o jogo de cartas, o jogo como jogo. No sentido real da palavra jogo. O jogo da palavra para mim é uma coisa fascinante. A Literatura é exatamente a expressão artística que brinca com a palavra. Brinca, até é engraçado que a gente fala brinca, em português é diferente de jogar, brincar e representar. A palavra play, jeu em francês, play em italiano, em inglês são palavras que dizem exatamente essas três coisas. Você joga, você brinca e ao mesmo tempo você faz teatro. Faz o jogo artístico. Acho lindíssimo. Procuro passar para o aluno não o pavor da Gramática, não o pavor da Análise Sintática, mas a importância disso para que o seu pensamento venha mais rico. Floresça mais. Tenho tido sucesso nisso, por isso. Porque é, entro por outra porta, não pela porta da obrigação. Então, você fez uma pergunta que perdi.

 

P/1 – Em relação ao seu livro se Artes Cênicas...

 

R – Não, como é que as coisas se desdobraram. A minha primeira fase de vida foi brincar com a palavra. Sempre essa idéia do jogo verbal da Literatura. Depois quando fiz teatro, porque tinha certeza que por aí tinha um acréscimo, tive muita preocupação com o corpo. Passei a fazer muitas coisas corporais. Muita aula de dança, expressão corporal, biodança. Tudo isso para que? Para enriquecer uma linguagem corporal para poder acoplar aquilo que já trazia, era a palavra. Você vê que se desdobra. Quando estava terminando esse trabalho tinha uma preocupação muito grande, por quê? Aos 40 anos já percebia no meu corpo, já tinha 40 coisas que os meus colegas de 20 não percebiam. Eram erros de alguns professores em cima de exercícios mal dados. E aí comecei a me preocupar com a parte de corpo muito na linha mesmo cientifica. Então "Por que é que esses exercícios estão errados?" Então fui fazer um curso de Ergonomia com, Ergonomia Prática. Com o professor, com o Doutor José Knoplich, que escreveu um livro muito bom, tem 70, 80, edições. Nem sei quantas. É "Viva bem com a coluna que você tem." É um livro para leigos. E o José Knoplich, Doutor Knoplich dava um curso no Hospital do Servidor Público na parte de Medicina Social, mostrando para os seus pacientes de coluna como é que a coluna da gente é. A anatomia da coluna e a fisiologia. Ou seja, como ela é e como ela trabalha. Quais são os grandes erros que nós fazemos no cotidiano. Fui perceber onde é que estavam os erros do trabalho corporal. Fiquei quatro anos depois dando aula no Hospital do Servidor Público com pacientes de coluna. Acabei, sempre com a supervisão, fui voluntária lá, com supervisão do Doutor José, que trabalhava nessa área de Medicina Social com pacientes de lombalgias, dores de qualquer forma de coluna. Nesse trabalho de muitos anos aprendi a lidar com um instrumento, um material de vídeo, de slides e de exercícios para melhorar essas posturas corporais. Ou seja, Ergonomia na área de Postural. Então um pessoal da Ford me conheceu e convidou para ir a Ford. Veja um novo desdobramento. Criou uma porta que se abriu na Ford Indústria e Comércio, na FIC, que é uma Ford americana. E fui trabalhar com funcionários que fabricam rádios. Que têm, tinham muitos problemas de tendinite. Tudo por más posturas e maus esforços, chama LER, Lesões por Esforços Repetitivos. Então fui trabalhar nessa área, fiquei, tinha, já tinha quatro anos de servidor público fui trabalhar mais quatro anos. Quer dizer, foram oito anos só de ergonomia. O resto ficou meio de lado.  Na Ford, trabalhei com operários, com uns 2.500 operários. Porque durante quatro anos eu fiz, dei curso de Posturas Corporais para eles. Acontece que nesse meu jeitão de trabalhar com gente de teatro fazia uma coisa muito mais abrangente. Trabalhava com alguma coisa na linha também da autoestima. Porque tem uma relação muito grande entre a postura de uma pessoa, como é que ela tem a postura corporal e a vida. Então nós, o nosso corpo ele expressa a nossa revelia como é que a gente está por dentro. E é uma, é um caminho de duas, de vai e volta. Tem duas mãos. Assim como, quando a gente está mal por dentro a gente expressa no corpo, se trabalhar o meu corpo para mandar para dentro uma mensagem: "Vamos lá, vamos sair dessa." Eu, evidentemente que também crio o caminho de volta. Então nessa relação comecei a trabalhar e isso criava naturalmente a autoestima com esse pessoal que precisava disso. Lidando um pouco com essa área de desenvolver, perceber que aquela dor não era só do trabalho, não era só lá dentro que acontecia. É em casa também nos exercícios mal feitos, no trabalho mal dirigido, direcionado na linha corporal dentro de casa. Um dia as pessoas saíam da aula tchans. Andando, toc, toc. Duas mil e quinhentas, em geral, mulheres, desses dois mil e quinhentos operários, dois mil eram mulheres. Eram vários cursos todos os meses, vários. Turmas de 30, 35. Quatro anos você pode imaginar que foi gente à beça. E saíam da aula muito animadas. As meninas andando assim com uma postura correta. "O que é que acontece nessa aula que essa mulherada sai desse jeito?", com autoestima muito levantada e tudo. Aí uma pessoa viu isso e falou assim: "Eu queria esse curso aqui para as minhas secretárias." "Ah, tá bom. Vamos lá. Por que não?" Imagine, secretária tem montes de problemas. Principalmente hoje por digitação e posturas erradas também. Fica, cria uma série de problemas o computador. E sentada, vida sedentária também. Tá bom, vamos trabalhar. Daí o meu novo empregador, já era de uma outra empresa, disse assim: "Você não daria também um pouquinho de aula de..." Eu já vinha trabalhando há muito tempo com relações humanas de empresas. Era também um setor que fazia. "Você não daria também um pouco dessas relações interpessoais, de etiqueta, de comportamento, comportamento mesmo, etiqueta empresarial?" Claro, está tudo baseado em Psicologia, a gente... Bom, enfim, desdobra que desdobra, acabou criando um curso chamado Marketing Pessoal. É exatamente uma coisa bem abrangente. O seu papel dentro da empresa qual é. Se é gerente, é secretária. O que você é dentro da empresa. Então desde a postura adequada, as relações interpessoais de chefia, com os chefes, com os clientes. Daí comecei a dar curso para vendedores na área de Marketing também. Comportamento, sempre na idéia que vem de longe: comunicação, palavra, jogo verbal, relações e teatro da vida. Não que eu sugira para as pessoas serem dramáticas e teatrais. Cada um tem o seu estilo. Um fala mais suavezinho, outro fala mais, minha mãe chamava espaventada. É uma palavra que eu acho que é italiana, né? (risos) Quando era criança mamãe dizia assim: "Você é muito espaventada. Calma." Eu sempre fui isso que ela falava? Espaventada. Eu hoje sei que é dramática. Mas é natureza. Nunca falo com duas palavras o que eu posso falar com dez. (risos) Então adoro falar. Você já viu, né? Então é isso, quer dizer...

 

P/1 – E trabalhou com esse conjunto então.

 

R – Esse conjunto de coisas.

 

P/1 – Corpo, Marketing Pessoal.

 

R – Aí roupa. "Você fala sobre roupa?" " Posso falar, não sobre moda. Eu só posso falar para as meninas não irem com a barriguinha de fora numa empresa, que não entra, não passa nem na porta." Vai de tênis e calça jeans numa empresa de publicidade. Mas não vai querer entra num banco tradicional de calça jeans rasgadinha. Muito bem rasgada pela grande empresa que rasga no lugar certo. Não adianta, você não entra numa empresa onde o porteiro anda de luva, ______. Onde existe todo um homem de paletó e gravata _____, não dá. Não vou citar as empresas, mas há empresas onde vou trabalhar que é de um rigor, um formalismo total. Então essa menina não pode ir de barriguinha de fora, de tênis, sandalhinha rasteirinha não dá. Comecei a trabalhar com essa, na linha de Marketing Pessoal, dando essa adequação de roupa. Criou-se esse curso, sabe? Daí pediram: "Você não daria comportamento à mesa?" "Tá bom, dou." E esse livrinho saiu, é uma cartilha sobre comportamento à mesa. Mas tenho escrito muito também sobre Educação, sobre Arte Educação, é isso.

 

(pausa)

 

P/1 – Bom, Esther, você estava falando sobre o desdobramento de vários trabalhos, coisas que você fez profissionalmente. Você estava começando a falar que também escreve em Arte Educação. Artigos, né?

 

R – Artigos mais e coisas assim, ligados à Arte Educação. Faço muito correção de teses. Então estou muito ligada também a pessoas que estão em produção, também produzindo.

 

P/1 – Então hoje todo esse desdobramento está...

 

R – Você vê que é tudo ligado. Uma vez um, o meu filho, um dos meus filhos era pequeno e alguém perguntou para ele: "O que é que sua mãe faz?" Ele falou: "Eu não sei como é que chama. A minha mãe gosta tanto de ensinar que ela ensina como ensinar." (risos)

 

P/1 – Entendeu tudo.

 

R – Bonitinho né?

 

P/1 – Muito. Entendeu tudo. (risos)

 

R – "Ela ensina como ensinar." E uma vez eu estava dando um curso para professores, a gente chamava isso de Técnicas Pedagógicas Dinâmicas. Um nomão.

 

P/1 – É.

 

R – Técnicas Pedagógicas Dinâmicas. Exatamente mostrando esse jeito de ensinar, era novidade. Hoje precisa até tomar cuidado para não carregar demais: dinâmica de grupo, técnicas mais dramáticas e tudo. Eu estava dando aula numa escola, passou uma alunazinha pela porta, olhou. Eu estava na porta enquanto os alunos faziam, os professores alunos, faziam como um trabalho. Ela olhou, viu um monte de professores dela lá também: "Nossa, os professores estão aí? O que é que eles estão fazendo? As tias estão aí, o que é que elas estão fazendo aí?" Eu falei: "Estão tendo aula." "Mas quem é que está dando aula?" Eu falei: "Eu." "Ah, você é a tia das tias?" (risos)

 

P/1 – Tia das tias é o máximo.

 

R – A tia das tias não é o máximo? Bonitinho.

 

P/1 – Agora, você lembra seu primeiro dia de trabalho entre todos esses que você teve?

 

R – Com oito anos.

 

P/1 – Com oito anos?

 

R – Sentada no caixotinho, punha o caixotinho no chão e eu sentava numa cadeirinha mais alta e dava aula para os meus...

 

P/1 – Para os seus irmãos.

 

R – Primeiro dia de trabalho. Trabalho remunerado.

 

P/1 – Sim, isso.

 

R – Foi muito bom, 17 anos. Estava no colegial já entrando quase para a faculdade. Tive o meu primeiro aluno pago. Uma pessoa, uma professora me pediu para dar aula, imagine só, de Latim e Francês para um garoto. De, ele estava com 11 anos e eu tinha 17. Fiquei sabendo que ele é um grande juiz aposentado hoje (riso) ele já se aposentou e eu ainda estou aqui na maratona, na ativa. É engraçado, né? É, ele foi o meu primeiro aluno.

 

P/1 – Você ia à casa dele?

 

R – O meu primeiro dinheiro... Não, ele vinha à minha casa.

 

P/1 – Desculpa.

 

R – O primeiro aluno que tive foi ele.

 

P/1 – E foi seu primeiro dinheiro.

 

R – O primeiro dinheiro. Ai, que coisa gloriosa. Saí, fui com o dinheirinho, fui para a cidade, porque naquele tempo ia-se para a cidade. Tomava um bonde, sou do tempo do bonde. Sou do tempo de cada coisa que você nem sabe. Tinha um bonde na Rua Pamplona. Tomava o bonde. Fui com 17 anos, meu dinheirinho, fui para a cidade e comprei um rádio. Ai que glória. Aquele rádio foi o meu primeiro, a primeira compra que fiz, com o primeiro dinheiro que ganhei trabalhando. Foi glorioso.

 

P/1 – O que você mais gostava de ouvir no rádio naquela época?

 

R – Ouvia muita música clássica, muito. Sou de uma geração, lamentavelmente, muito castrada politicamente. Porque nasci em 29. Cresci enquanto cresceu o Estado Novo e o Getulião. Então Getúlio abafou toda a juventude do meu tempo. Quem não foi abafado foi muito massacrado, houve muita tortura, muita coisa que a gente sabe naquele tempo. Não vou discutir se ele foi bom, se ele não foi bom, as coisas que até ficaram boas do Governo Getúlio. Mas houve o massacre do pensamento. Então fui criada numa época getulista, americanizada, ouvindo música americana, cantando Frank Sinatra, Bin Crosby, as Andrews Sisters. Quer dizer, eram as pessoas do meu tempo. Dançando. Não era twist nada disso. Naquele tempo era foxtrot, era swing e era blues. O blues era uma forma de a gente grudar nos namorados e ficar grudado. Porque não podia ficar grudado, nem de mão dada. Só namorado ficava de mão dada. Quando a gente tinha uns tchans, tinha que dançar grudado. Daí dançava, daí nem encostava o rosto. Ficava quase, aquele calorzinho. Era o máximo que podia. O blues servia quando, estava o clima alguém lá na festa tocava um swing, daí a gente tchan, tchan.

 

P/1 – Para separar. (risos)

 

R – Para separar.

 

P/1 – Como é que vocês se vestiam naquela época no cotidiano e quando ia dançar?

 

R – Bom, na minha, em criança os vestidos eram presos aqui, rodados. O grande, a grande glória era ter um vestido bem rodado para quando a gente rodasse o vestido ficava assim, reto. Mas de mocinha, na minha época de mocinha apareceu uma coisa chamada new look. O new look foi uma revolução na moda que acabou com os vestidos, com o que estava acontecendo há muito tempo, há muitos anos. E foram lançados roupas uns pulôveres enxutinhos, umas saias rodadíssimas e sandalhinhas. Que hoje são as rasteirinhas. Sandália sem salto nenhum, não me lembro como é que chamava isso. Mas eram umas sandálias, esqueci o nome, tinha um nome na época. Eram umas sandalhinhas assim baixinhas, sem salto nenhum. Parecia uma sapatilha, quase.

 

P/1 – Sapatilha, né? Usava sapatilha.

 

R – Parecia quase uma sapatilha. Mas tinha um nome que esqueci agora. Aquelas saionas rodadas. Cabelos foram cortados, muito cortados. A gente usava, passou a usar uns, as corajosas, que sempre fui. Fazia, saía coisa, adorava já sair fazendo. Cabelo bem curtinho, bem coladinho assim. Então foram, usei boina na faculdade. Boina. A glória.

 

P/1 – Para dançar também eram vestidos rodados com o foxtrot?

 

R – Muita roda, muita coisa. Dançava muito.

 

P/1 – E os meninos?

 

R – Terno e gravata. Eles iam, o Rio Branco obrigava terno e gravata. Os rapazes morriam de calor. Olha do que vocês escaparam. Puxava a gravata, abria o paletó, a gravata aqui. Não podia tirar o paletó. Abria a camisa e soltava o nó da gravata.

 

P/1 – Suando, dançando.

 

R – Suando. Terno, gravata, sapato. Tênis era só para esporte. Ah, esse foi um tempo massacre para a criança. Também hoje está muito avacalhado. (risos) Mas entre uma coisa e outra, quem sabe a gente um dia acha o equilíbrio.  A adequação da roupa. Agora, essas coisas antigas, até acho, tenho um amigo muito engraçado que disse assim, alguém perguntou se ele usava computador. Ele falou: "Espera aí. Nasci num tempo que a gente escreveu numa lousa." Chamava lousa. Igualzinho a lousa de quadro-negro assim, era pequenininha, era verde. A gente tinha um lápis giz que a gente escrevia assim. Tinha a pontinha, a gente escrevia. Era o nosso rascunho e apagava. "Eu nasci no tempo da lousa, dei um duro danado para aprender a trabalhar com caneta. Aquela que molhava, caneta com tinteiro mesmo. Depois surgiu a caneta chupando a tinta e surgiu a Bic. Sinda estou me acostumando com a Bic. (risos) Você quer que eu use computador?" Quer dizer, ridículo. Mas é uma brincadeira engraçada. Acho fantástico o que tive, o meu caminho, a minha geração não eu, o que a minha geração teve de percorrer para chegar ao computador hoje. A gente se comunica, fala, escrevo tudo, faço tudo pelo computador. Chegar à internet hoje, também não vai dar para chegar muito mais. Tem coisas que já não dá mais para entender. Mas chegar à internet hoje, uma pessoa que tem quase 80 anos como eu, até gente de mais idade do que eu, lidando com a internet. Tem muita gente que já desistiu. No meio do caminho já falou: "Ah, isso não dá.", mas chegar a isso, realmente o percurso foi muito grande. Porque nasci no tempo do lampião de gás. Quando mudei para a minha casa na Alameda Franca, no Jardim Paulista, que tinha, nessa, uma casa onde morei muitos anos, toda a minha adolescência, toda a minha infância morei nessa casa. Ficava na Rua Alameda Franca, entre Pamplona e Nove de Julho. Essa rua era iluminada por lampião de gás. E me lembro que havia garoa em São Paulo. Uma garoa que dançava. Isso era muito bonito. Porque a gente fala em garoa você pensa uma chuvinha caindo. Não, a garoa de São Paulo era uma coisa muito poética. Não era bom para a saúde, ficava tudo tuberculoso, mas era. Século 19 todo mundo tuberculoso por causa da garoa. Mas era, ainda em 1932, quando mudei para lá, ainda havia aquela garoa que ficava no ar assim, dançando no ar. Ficava fascinada olhando para o lampião de gás com aquela garoa na frente. Ela não caía, ela ficava umedecendo, sabe? O vento tocando. Era uma coisa muito bonita. Vinha um camarada todas as noites, a gente ficava brincando na calçada, em frente à nossa casa e vinha um camarada com a vara muito comprida que ele acendia. Abria com a vara, ele tinha um gancho, abria. O lampião tinha um metal, ele soltava o ganchinho lá em cima, levava o foco para o ponto de, a chamazinha e acendia o lampião de gás todas as noites. Não via apagar porque era de madrugada, não sei, acho que apagava sozinho. Não sei como era. Acendia o lampião de gás na minha rua, olha que coisa. Eu saí do tempo do lampião de gás, dessa lousa para escrever, da caneta da tinta e hoje...

 

P/1 – Ao computador.

 

R – Por isso é que a outra falou que ela quer ser uma velhinha sensacional. (risos)

 

P/1 – É sensacional essa história.

 

R – Porque é um caminho. Você não pode parar, porque senão, diz o Zé Simão, que a gente vira poste. Quem fica parado é poste.

 

P/1 – (riso) Vira poste. Agora, vários teatros foram sendo inaugurados em São Paulo. Inclusive os públicos da prefeitura. Década de 40, 50. Escolas de bailado.

 

R – Acompanhei todos.

 

P/1 – Pois é, você continuou...

 

R – Sempre frequentando.

 

P/1 – Foi frequentando mesmo assim, naquela fase que não, era proibido, mas você continuou e foi frequentando até hoje?

 

R – Não, porque não havia teatro, não houve proibição. Que primeiro houve a fundação dos primeiros grupos de teatro: Madalena Nichols, Clovis Garcia, Tatiana Belinky muito envolvida, Paulo Autran. Toda essa gente funda. O Boldrin que está aí hoje foi desse começo também do teatro. Bom, havia lá uma porção de gente que o primeiro grupo de teatro, depois acabou virando, acabaram vindo outros, os comediantes vieram do Rio, e vieram, criaram-se muitos grupos até acontecer o Teatro Brasileiro de Comédia. TBC acompanhei todo ele muito de perto. Frequentava tudo do TBC, mas o TBC era muito italiano. E eu conheci por causa da escola, a gente teve alguns contatos com alguns diretores italianos e me aproximei muito de lá. Eu vi muita coisa muito boa sendo feita no TBC, mas com aquela linha europeia. TBC foi um teatro muito italiano. Com muita força de um teatro europeu. O que houve a grande revolução do grupo que criou o Teatro de Arena. Esse teatro começou a, já a nota principal dele era fazer um teatro brasileiro, de formação com autores brasileiros, gente brasileira e contra aquilo que estava acontecendo que a gente estava se europeizando cada vez mais. Foi uma maravilha. Frequentei tudo também do Teatro Arena, acompanhei muito movimento. Só que aí aconteceu, todo o problema dos governos que se sucederam, que acabaram acontecendo nesse militarismo todo desenfreado. Então já esse prenúncio de coisas contra qualquer manifestação mais socialista. E aí acho que para dar um depoimento correto teria que ser uma pessoa realmente envolvida no teatro dentro. Era a espectadora. Eu acho que quem está lá dentro é que pode falar com propriedade disso. O que nós víamos era isso. Um teatro de, revoltado contra uma série de coisas que estavam acontecendo. Não só no formal do teatro, mas também politicamente. E acabou, acabou. Todo mundo sendo, muita gente sendo, o teatro sendo invadido, ator apanhando, gente sendo mandada embora. Enfim, daí o desdobramento no tempo da, do militarismo, daí foi terrível. Mas ele teve um papel muito importante. Então acompanhei, realmente, a formação desse teatro.

 

P/1 – Hoje você vai ao teatro ainda?

 

R – Muito. Vou. Mas hoje sou apaixonadíssima por cinema. Muito mais do que por teatro. Porque gosto muito de teatro, mas acho que o cinema é uma arte empolgante. O que há de filme, coisas fantásticas sendo feitas. Cinema nacional é maravilhoso hoje. Cinema é para mim hoje é a arte que mais frequento, mais participo como espectadora. Tenho feito alguns vídeos (riso) de vez em quando. Brinco de fazer alguns vídeos. Comprei câmera. Fui fazer curso de, no Senac, de câmera, de vídeo também. Porque queria saber como é que se filma. Faço algumas experiências às vezes. Não tenho intenção nenhuma de ser cineasta. Mas tenho uma curiosidade muito grande de ver como é que funcionam as coisas. Sou geminiana.

 

P/1 – (risos) Para a gente finalizar, você...

 

R – Tenho 25 cabeças, não duas. (risos)

 

P/1 – É, mais?

 

R – Eu tenho um amigo que fala assim: "Cuidado para você não ser especialista em conhecimentos gerais."

 

P/1 – (risos) Grande especialista.

 

R – "Especialista em quê?" "Nada."

 

P/1 – Tudo.

 

R – E nada. Fico flutuando por cima de tudo. Mas é, pago com prazer esse peso do meu signo.

 

P/1 – É bom, né?

 

R – Essa característica, não vou dizer que é peso. Eu gosto de viver assim.

 

P/1 – E você contou para nós antes um pouquinho que você tem netos.

 

R – Tenho.

 

P/1 – Quantos netos você tem e se você...

 

R – Onze.

 

P/1 – Onze netos. Como é ser avó para você?

 

R – Olha, o primeiro neto foi, realmente, um deslumbramento. Assim, essa sensação de que a gente se prolonga no futuro,  você se sente parte de uma cadeia humana. Então meus, minha avó que não viu o meu neto, que seria a bisavó dele. É curioso isso. Quem não viu o meu neto e eu que não vou ver os netos do meu neto. Mas essa sensação de que a vida é toda feita de cadeias, me sentir elo de uma cadeia humana. Isso foi uma coisa que me impressionou muito.

 

P/1 – E você vai...

 

R – E foi. Mas depois os netos vão nascendo, e a vida dos jovens hoje não é mais uma vida dependente de avós. Porque sempre trabalhei também. Trabalhei depois, na minha segunda metade de vida. Quando meus netos vieram foi exatamente quando tinha começado a trabalhar. Que só comecei a trabalhar depois dos 50 anos. Fiquei viúva com 49 anos. Com 50 comecei a trabalhar e trabalhar com cargos remunerados, fora de casa e tudo. Trabalho muito como voluntária de obra social também, até hoje. Eu trabalhei sempre muito. Então acho que não fui aquela avó de fazer lata de biscoito, receber neto e passar o dia inteiro tomando conta de neto. Levei muito a teatro, levei a cinema, ia buscar na escola muitas vezes. Mas a vida, os meus filhos tinham uma vida muito organizada já em relação à vida familiar deles e não, não me usaram muito, sabe? Porque era uma vida toda muito bem plantada. E também cada filho meu optou por dois filhos só. Então não é muita gente.

 

P/1 – São 11 netos.

 

R – Onze.

 

P/1 – Bom, para a gente terminar, você gostaria de contar mais alguma coisa em especial?

 

R – Não, acho que tem bastante material já para você aí, fazer o vídeo.

 

P/1 – E como é que foi para você dar essa entrevista?

 

R – É um mergulho no passado. É um mergulho nas coisas que a gente gosta. Depois, provavelmente, vou dizer: "Puxa, podia ter contado aquilo, mais aquilo outro." acho que existe, todos nós temos os nossos véus que a gente não tem o direito de se desnudar totalmente. Porque ao desnudar-se você está desnudando pessoas à revelia delas. Então há coisas que ninguém pode contar com tanta intimidade, a não ser a gente que realmente faz isso e que acaba machucando muita gente que está à volta. Tenho só direito de falar das minhas coisas até onde elas são minhas. Mas não teria direito de abrir para o mundo, através de internet, de entrevista pública, não tenho, não me vejo com o direito de abrir nada que possa trazer prejuízos ou mexer na imagem que cada um tem de si, das pessoas com quem convivo. Então acho que foi por aí. Ficou, ficou bem.

 

P/1 – Que bom. Nós agradecemos você vir compartilhar sua história conosco e é isso. Sempre bem vinda.

 

R – Tá bom. Obrigada a vocês pelo convite.

 

(FIM DA ENTREVISTA E DO CD)

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