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História

A vida toda na Fazenda do Pinhal

História de: Leonor Pereira de Amaral de Barros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2005

Sinopse

Descrição do nascimento na fazenda, e sobre a infância passada no local. Os divertimentos da juventude, com os bailes e sambas que ocorriam na fazenda. O cotidiano do local e as atividades domésticas na fazenda, sem energia elétrica e nenhum outro conforto. As visitas do mascate que vendia aviamentos, tecidos e outras miudezas. A avó. As quadrilhas e outras danças. As cidades que visitava quando criança, em especial, Itirapina. O trabalho na fazenda "São Carlos do Pinhal", de propriedade dos fundadores da cidade. As histórias que lá viveu. As atividades de parteira e o primeiro casamento. A administração da fazenda. Os casamentos que teve. A relação com a avó.

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História completa

*R/2 – Virgínia, filha de dona Leonor

  

P/2- Bom, dona Leonor, primeiro a gente quer perguntar... começar perguntando o seu nome inteiro.

 

R - Ah, o nome inteiro meu é esse daí, é Leonor Pereira do Amaral de Barros.

 

P/2 – E onde e quando que a senhora nasceu?

 

R - Aí que tá agora...

 

P/2- Conta a história que a senhora lembra...

 

R - Ih!... Pra lembrar a história?

 

P/1 - A senhora nasceu numa fazenda?

 

R - Ah!... Lembrar a história agora que é duro, viu?

 

P/2- A senhora nasceu na fazenda?

 

R - Na fazenda, ô! Na fazenda, eu nasci. Eu me lembro que foi na fazenda, e estava ainda apanhando café. Quando... mas agora, a data que eu não sei?

 

P/1 - E que dia ?

 

R - O dia é que eu não sei também.

 

P/1 - Não tem problema. E o a senhora lembra da fazenda, quando era criança? Como era?

 

R - A senhora quer saber dos nomes?

 

P/1 - Do nome, ou das pessoas...

 

P/2- De tudo!

 

R - Então, morei lá na fazenda do Ney Vieira, morei na fazenda do Zeca, no Taída, no Madeira... tudo fazenda. E aquele tempo era tudo criançada... criança queria saber de andar brincando. Queria saber de andar brincando... fazendo... Agora a senhora vê, só AIDS que tá aí ? Mas naquele tempo não tinha. Naquele tempo, a gente fazia fogãozinho, fazia comidinha, brincar com boneca. E passava o dia, a gente nem via. Agora não. Agora você vê que é tudo diferente. E depois que eu, graças a Deus, que eu cresci, falei: "Tá bom, agora sou gente!" Aí, coitada de mim! Não podia, porque eu não tinha quem me dava um vestidinho,... Nossa Senhora, uma roupa dessa daqui, aquele tempo pra mim era um vestido de seda! Eu não queria passar nem perto do velório nem na porta ali, pra mode não me sujar.

 

P/2- E quantos irmãos? A senhora tinha bastante irmãos?

 

R - Não. Não tinha. Tinha Sebastiana, Francisco, Maria,... esses era o meus irmãos que eu tinha no caso. Agora, as meus irmãs que eram formada... a Antônia, a Júlia, Benedita, Luclídia... essas já eram casadas. Já eram casadas. Mas se eu ganhava um vestidinho que nem se põe numa filha, não queria relar nem naquela porta ali! Quando chegava dia de Sábado, já aprontava ele, assim, lascava pro baile! Entrava às 8 hora, saía 5 hora, pro sol das vezes já estava amarelando, aí que o sanfoneiro parava, aí que a gente saía do salão, que era só pedra. Porque nós não tinha esses negócios... dançava no chão!

 

P/2- E o vestido, a senhora tinha? Como que ele era, o vestido?

 

R - Ah, o vestido era de chitinha!... Parece que nem tem mais agora daquelas chitinha de fazer enxovalzinho pra nenenzinho.

 

P/2- Que cor ele era? A senhora lembra?

 

R - Lembro, era branco usado com aquelas florzinhas meio azulzinha, cor de rosa,... e pensa que era costurado na máquina? Era tudo aqui, ó!

 

P/2- Tudo na mão?

 

R - Tudo na mão.

 

P/2- Quem costurava?

 

R - Tudo na mão, porque a minha irmã tinha máquina, e já avisava. Falava: "Ó, vocês não vão ponha a mão na minha máquina, que vocês não sabe!" Eu falei: "Tá bom, nós não vai mexer." Então, ficava sentada na beira da cama de noite, e costurando aquele vestidinho. Fazia bem franzidinho assim, e compridão até aqui assim, quase na sola do pé, e a manga que nem esse daqui, bem comprido,... o colarinho também abotoado por aqui assim,... ficava bonito! Falava: "Vai dançar baile aí!"

 

P/1 - E onde era o baile?

 

R - Aqui tinha o salão de baile. Tinha salão de baile aqui, primeiro.

 

P/1 - Ah é?

 

R - Tinha! E onde... quando eu não era daqui, quando eu voltei tinha salão de baile também, porque tinha bastante gente na colônia. Então, os patrões deixava sempre um lugar pra fazer barraca, pra fazer... que tinha o salão de baile, tinha onde a mulher que dançar samba.

 

P/2- Ai, que gostoso!

 

P/1 - Já tinha samba?

 

R - Já tinha! Ô!

 

P/1 - É mesmo?

 

P/2- E dançava a noite inteira?

 

R - A noite inteira! Ah... eu não dancei samba em terreirão, ai! Porque era assim, as patroa também eram muito boa, né? Então, se vinha violeiro era violeiro, vinha sanfoneiro era sanfoneiro, e se vinha o batedor de caixa pra mulher dançar samba era tudo assim, cada um no lugar dele. Aí no terreirão aí. Era bonito, aí primeiro. Agora que acabou tudo! Mas era bonito!

 

P/1 - E quem ia nesses bailes?

 

R - Quem levava?

 

P/1 - É.

 

R - Era minhas irmã. Minhas duas irmã. Lá pro Broa... Ah... quanto que eu dancei! Agora não.

 

P/1 - Mas pra ir no Broa ia no mesmo dia? Como era?

 

R - Ia no mesmo dia, fia! Nós ia... porque tinha casinha por aqui, né? Então, quando chegava ali pras 5 hora, a gente tirava a abençoada daqui ó, a enxada! Ia em casa, e não é que nem primeiro, que... tinha isso daí, banheiro. Se não queria ir banhar no rio, carregava a água em casa, colocava na bacia, banhava em casa. Tomava banho, se aprontava, daí a gente batia no pé! Levava o calçado numa sacolinha...

 

P/2- E ia descalça?

 

R - Chegava lá, lavava o pé, calçava o sapato e caía nesse baile.

 

P/2- E a pé daqui até lá era muito longe? Ou não?

 

R - Não era muito pertinho, porque daqui lá no Broa! Conhece o Broa?

 

P/1 - Ô!

 

R - Então!

 

P/1 - É longe!

 

R - Daqui lá no Broa nós ia dançar baile.

 

P/1 - E voltava a que horas?

 

R - Ah... Pra voltar não tinha hora, porque o domingo não trabalhava, né?

 

P/1 - Ah!

 

R - Pra voltar, não tinha hora. Mas quando chegava em casa, Nossa Senhora! Eu mesmo ia fazendo cada pulo assim. A desgramada... já morreu, mas eu falo, que a desgramada das vez deixava o café pra torrar de domingo, pra pôr ele pra fazer: "É que o café tá pra torrar!" Falava: "Ai, minha Nossa Senhora da Aparecida!" Ainda se fosse um pouquinho de assim de café, aquelas latas assim de... cheinha e aqueles tacho desse tamanho assim, ó, a gente torrava ele naquele forno desse tamanho! Filha de Deus, depois que torrava, que ele esfriava, enchia uma lata de querosene cheinha, ainda sobrava mais um pouquinho,... e era tudo aqui, ó! Vocês conhecem o modo de pilar?

 

P/1 - Conheço.

 

R - Então! Era tudo socado no pilão, e passado na peneirinha...

 

P/1 - Pra moer o café?

 

R - Pra moer o pó. E de vez em quando, ainda que chegava e fazia assim: "Mais por que você está escolhendo tanto?" "É pra mode ver se não tá pondo nenhuma quirela no meio do pó." Ai, o que é que foi sofrer? Vai tomar banho!

 

P/1 - E isso depois de voltar do baile...

 

R - Nossa Senhora!

 

P/2- ...de manhã?

 

R - Então!

 

P/1 - Ô, dona Leonor, mas vamos voltar um pouquinho nas crianças. Vocês brincavam do que? De casinha...

 

R - Brincava de casinha, brincava de maria-esconder, fazia comidinha, e... era brincadeira. Nossa, era sim! Então...

 

P/2- E boneca? A senhora fazia boneca?

 

R - Senhora?

 

P/2- A senhora fazia boneca?

 

R - Uh... se eu fazia boneca! Pregava uma tábua das vez nalgum lugar assim, ponhava aquele boneco tudo encarreiado assim nas tábua. Era bonito! Porque agora não, agora você vê, tudo é... ah... mudou tudo, né?

 

P/2- E como fazia as bonecas?

 

R - Fazia de pano. Quando era tempo de milho verde, sabe, que nem fazia aquelas bonecas ficar com o cabelão assim... aquelas bonecas de milho.

 

P/1 - Aquele cabelo de milho?

 

R - Amarrava a fita ou uma tira de pano... Ah, era boneca... falei: "Ai minha nossa Senhora!"

 

P/1 - E como é que era a sua casa quando a senhora era criança?

 

R - A casa?

 

P/1 - É.

 

R - Ah... a casa depois que começou isso daqui, filha, era tudo... a senhora não chegou vê, né?

 

P/1 - Não.

 

R - Nossa Senhora da Aparecida!

 

P/1 - Mas como é que era.... dentro de casa?

 

R - Dentro de casa! Dava pra carregar a água na... naquela época não tinha água também assim... era tudo no rio, bica, né? Ia buscar, reguava tudo, todinha a casa, depois cortava esses ramo com a vassoura de alecrim, amarrava a vassoura, varria aquela casa todinha, e ficava bonita a terra, né? Mas era tudo dia aquela vida! E agora, pra encher os balde de água? Que os balde era tina, e os barril desse tamanho assim, ó!... Levava oito lata de água. Todo dia tinha que encher aquilo lá, porque de noite aquelas panela grande de ferro, tudo queimada do fogão, tinha que ariar... era tudo ariadinho, que a minha mãe era... Nossa Senhora! Foi bom pra ela, porque ela, graças a Deus guardei tudo aqui! Ela falava assim: "Não deixa... não quero uma sujeira na panela!" Então, ela já prontava  uma lata dessa de dois quilo, desse tamanho assim ó!... Ela prontava. Moía aquele sabão de nós lavar roupa, colocava ali dentro, a cinza fazia aquele angu, e lata já morava lá no canto do fogão, que era  pra mode ... e tijolo,  pra mode  ariar as panela. As panela ficava tudo limpinha.

 

P/1 - Com tijolo que ariava?

 

R - É! Então, tudo limpinha ficava as panela. E depois, uma coisa puxa a outra, e depois que casei, que fui morar com a minha sogra, meu sogro era muito exigente, tá bom falei: "Ah, tenho o costume da minha casa, eu vou fazer aqui também, né?" Aquelas puta panelona da minha sogra desse tamanho assim, ó! Saltava alto assim o carvão!

 

P/1 - Ahn!!!

 

R - "Ai meu Deus do céu! Como é que faz com essas panela?" Aí já peguei uma faca, deixei ela no jeito, assim de água, e meu sogro veio de lá, e eu rapando a... "Ô Regina, fala pra Leonor não rapar a panela, que a panela. desse jeito a panela fura!" Aí minha sogra falou pra mim... falei: "Olha Regina, mas estou acostumada lá em casa. Lá em casa a minha mãe me deu isso daí pra mim!", falei "não vai furar, porque quando a senhora vai comprar uma coisa na loja, não vem com uma manchinha, assim!" Pode ser uma panela de ferro, mas comprei ela lisinha, Falei "Ah, ela já tá dessa altura de carvão!" Rapei umas duas vezes, depois falei: "Quer saber de uma coisa? Eu não vou falar mais nada." Limpava tudo as panelas de ferro, punha tudo em cima do fogão pra enxugar, né? Daí  ponhava  na... não tinha esses negócios assim, era tudo prateleira, tudo tábua. Com cavalete, enroscava tudo ali em cima. A minha sogra num instantinho acostumou com o meu jeito, né? E comecei conquistando pra combinar, né? E morei um ano e quatro meses com eles.

 

P/1 - Com eles?

 

R – Um ano e quatro meses, depois de casada. Um ano e quatro meses. Depois não encheu mais o saco com folhinha de italiano vazia. E pra passar roupa? Ai minha....

 

P/1 -    Como era?

 

R - ...Nossa Senhora da Aparecida! Enchia dois ferro, punha... enchia o fogão de sabugo, depois quando estava aquela brasa, enchia aqueles dois ferro, quando aquele primeiro estava apagando, a gente pegava o outro, começava a passar aquela água com óleo... aí na fazenda eu fiz essa vida. Três anos passando roupa.

 

P/1 - É mesmo?

 

R – Ai, minha Nossa Senhora...

 

P/1 - O sabugo era o carvão?

 

R - Era o carvão!

 

P/1 - Ah!!!

 

R - Era o carvão. Ainda que...

 

P/2- Aqueles ferros?

 

R - Ô!

 

P/1 - Chamava ferro mesmo, ou tinha outro nome?

 

R - A senhora não chegou vê?

 

P/1 - Sei. Eu conheço. Mas tinha outro nome?

 

R - Não, era ferro mes...

 

P/1 - Era ferro mesmo.

 

R - É.

 

P/2- Abria assim...

 

R - ...É isso.

 

P/2- ...colocava dentro, fechava....

 

R - É, é. Depois fechava. Um tinha uma rodinha assim de prender. O outro já tinha assim uma flanela, né? É. Ai, que vida de cachorro! Tá louco!

 

P/1 - Ô dona Leonor, e a senhora estava falando da sua vózinha ? Da sua vó?

 

R - Da vó?

 

P/1 - É.

 

R - A senhora fala o que eu estava falando do jeito dela dá conselho pra gente?

 

P/1 - É. Isso.

 

R - Então. Ela dava conselho pra gente assim, ela falava: "Olha...", porque ela tratava na paredinha (riso) Ela falava: "Olha na paredinha! Vocês não acompanha, vocês não vai...", com essa conversa assim, assim, assim... "porque isso daí não presta, isso daí é sujeira...", e eu guardava tudo na cabeça. Então, tinha a minha irmã que  tava  desse  tamaninho  assim, que foi que a minha avó levantava, falou: "Ô Leonor, você escutou o que a vó falou?" Falei: "Ah, escutei sim." Ela: "Ah, não escuto não. A vó tá caducando!"

 

P/1 - Mas por que ela estava caducando?

 

R - "A vó tá caducando! Eu não vou ainda mais no baile. No baile quando eu f..., for no baile, a senhora arruma uns dois namorado!" Falava: "Ai eu não, Deus o livre guarde!" Falei: "Eu não vou fazer esse erro não. Não vou fazer esse erro não."

 

P/2- Ela falava pra senhora arrumar dois namorados?

 

R - Ô! E arrumava mesmo. Arrumava dois namorados no mesmo baile.

 

P/2- E essa avó era quem? Era avó do lado do seu pai ... era mãe do pai, era mãe da mãe...

 

R - ...da mãe da minha mãe.

 

P/2- Da mãe da sua mãe.

 

R - É, é. Ela era  baixotinha  assim, chamava Fabiana. Agora, a cabeça dela tava que nem essa cortina aqui, ó! Branquinho. Mas a senhora vê! Ela fazia um bolo de fubá que a senhora comia, lambia o beiço! Fazia uma comida que só vendo! Então ela morava com a nora, né? A nora agora nem não tenho mais, aquelas concha de ferro desse tamanho assim, e já tinha a lata de querosene cheinha de banha de porco... a minha tia chegava lá, enfiava aquela conchona desse tamanho assim, tirava as medidas,  ponhava  lá na panela. Aí ela falava assim: "Ô, Parmira, mas porque esse mundo de gordura que você tá pondo na panela?", "Ai, Fabiana, é  pra mode  refogar o arroz!" Falei "Eu refogo o alho com o arroz com duas colher de gordura. E você põe uma concha!". O arroz dela tava  pegando,  tava  nadando, filha!

 

P/2- E ela era sua bisavó , então, na verdade? Por que ela era avó, ela era avó...

 

R - Não. Era avó mesmo!

 

P/2- Era mãe...

 

R - Era avó. Era mãe da minha mãe.

 

P/2- Ah tá!

 

P/1 - E a senhora falou que ela veio da África, foi isso?

 

R - É. Veio da África, é.

 

P/1 - O que ela contava?

 

R - Contava muitas coisa, né?

 

P/2- Ela contou como ela veio?

 

R - Não. Mas a gente nem num ia atrás, não é mesmo? Agora, eu gostava de escutar conversa dela depois que eu já  tava  menina moça, né?

 

P/1 - O que a senhora lembra que ela falava? Quer dar uma paradinha? Quer dar uma paradinha pra tomar uma água?

 

P/1 - A senhora falou que o seu pai era sanfoneiro, é isso?

 

R - É.

 

P/1 - Ele só tocava sanfona?

 

R - Ah, o meu pai ele, todo o sábado ele ia pro forró dele. Todo sábado. Com a sanfona. Ele era um baiano enxuto, assim, forte, então a minha mãe falava assim: "Mas nunca vi baiano regateiro!" Ele falava "Ah, Cidoca você não vai porque você não quer!" Ela falava: "Ai eu não, fico cuidando da minha casa de noite". Porque ainda tinha o meu irmão Bastiano e minha irmã Maria, que era pequenininha, "fico cuidando com as minhas crianças aí, você desse jeito, as minhas menina tá tudo perdido de dançar baile, agora Leonor também já está no mesmo caminho!" Ele falou: "Ah, quando estava desse tamanhozinho já me aprontava!" E ia junto! Ia!

 

P/1 - Com o seu pai junto?

 

R - Ô! Que nem ele que era sanfoneiro, né? Ah, chegava lá, pegava essa sanfona, era até 5 hora do outro dia. E nós junto.

 

P/1 - E a senhora... quantos anos tinha? Era pequenininha?

 

R - Eu tava... eu tinha o tamanho de uma, sabe? Desse tamanhozinho assim, ó!

 

P/1 - Olha!

 

R - Aquelas desgramada não foram!

 

P/1 - Tinha o que... uns doze aninhos, doze, dez anos?

 

R - Uns dez, é.

 

P/1 - E com quem a senhora aprendeu a dançar?

 

R - Meu pai que me ensinou.

 

P/1 – Ah, é?

 

R - Foi ele que me ensinou a dançar... que agora, valsa, xote, quadrilha... foi meu pai que me ensinou.

 

P/1 - Qual a senhora gostava mais?

 

R - Uh... eu gostava mais da valsa e xote.

 

P/2- E ficava... dançava com outro par? Por que era um par?

 

R - Ô!

 

P/2- É.

 

R - Dança quadrilha, é uma dança muito bonita, né?

 

P/1 - É ?

 

R - Pode ser tudo parceiro, né? Também não se vê mais nada. Nós de primeiro, num casamento era engraçado, se não tinha quadrilha, parece que já ia uma pessoa só pra poder marcar a quadrilha. É num casamento, né?

 

P/1 - No casamento?

 

R - No casamento. Era tão bonito. Só que agora acabou tudo.

 

P/1 - Está bem diferente.

 

R – Tudo mesmo, Nossa Senhora!

 

P/2- E todo mundo dançava quadrilha nos casamentos?

 

R - Dançava.

 

P/2- Olha só!

 

R – Dançava, sim. Era bonito quadrilha! As meninas nunca ouviu, né?

 

P/2- Não.

 

R - Mas como que é bonita a quadrilha, viu?

 

P/1 - E dna. Leonor, a senhora é católica?

 

R - Graças a Deus! Graças a Deus!

 

P/1 - E ia à igreja, quando trabalhava na fazenda? Quando era jovem?

 

R - Uh!... Graças a Deus!

 

P/1 - Ia depois do baile?

 

R - Ô!

 

P/2- No Domingo? Era no domingo que a senhora ia?

 

R - Era. Domingo, é.

 

P/1 - E tinha igreja aqui na fazenda, ou era...

 

R - Aqui ainda tem. Tem ainda, Zinha?

 

R/2 - Tem.

 

R - Tem!

 

R/2 - No primeiro do mês tem missa.

 

P/1 - Ah é?

 

R/2 - É uma que nós não tem aqui.

 

P/1 – Aí, que lindo!

 

P/2- E os seus pais também eram católicos?

 

R - Ô!

 

P/2- Eram?

 

P/1 - E procissão? Tinha procissão?

 

R - Senhora?

 

P/1 - Procissão? Dos santos...

 

R - Tinha aqui, Zinha? Quase acabou tudo, Zinha?

 

R/2 - São João mesmo, tava tão bonita, nossa!

 

P/1 - E tem festa sempre?

 

R – Tem!

 

P/1 - Todo ano?

 

R/2 - Todo ano.

 

P/1 - Olha!

 

R - Uma festa que você precisa de vê! Esse ano foi uma beleza!

 

P/1 - E veio muita gente?

 

R/2 - Veio. Nossa! Encheu!

 

P/1 - O meu marido ele faz... ele é o padre todo ano lá em Minas.

 

R - Ah....

 

P/1 - Ele faz o casamento. Todo ano.

 

R/2 - É?

 

R - Mas, tá vendo? O seu marido?

 

P/1 - É.

 

R - Viu? Tá vendo? Então...

 

P/1 - E dona Leonor, a senhora costumava ir na cidade? Como é isso? Passear... essas coisas.

 

R - Ah, a cidade é mais fraquinha, o que eu andava mais era aí em Itirapina. Depois que eu passei pra cá, aí que eu ia na... por causa que a cidade é bem grande.

 

P/1 - É.

 

R - Mas Itirapina era pequenininha. Agora já aumentou mais. E Rio Claro também, mas Rio Claro não... ai meu Deus, porque acostumei já com uma tia minha que eu olhava o menino dela... ai mas que vida! Eu falei: "Não vejo a hora de ir embora! Tem oito meses". Não sei, tem as minhas criança lá, mas eu não vou lá em Rio Claro.

 

P/1 - É mesmo? A senhora não gosta?

 

R - Gosto. Mas sabe que essa cidade que eu gosto mais daqueles lado é Campinas.

 

P/1 - Campinas?

 

R - Campinas. Ai como eu acho uma cidade, parece que é uma cidade baixa, né?

 

P/1 - É.

 

R - Mas Rio Claro não vai. E tenho os meus filhos lá, sempre fala "ai vou buscar a mãe lá pra ficar uns par de tempo" Falei "ixi!!! Falava assim: "uns par de tempo? Só se vocês for buscar eu sábado, quando for domingo vocês levar embora.

 

P/2- E quando a senhora era novinha... a senhora ia? Quando a senhora tinha uns 18 anos, 20 assim...

 

R - Não ia não. Não ia não.

 

P/2- Não?

 

R - Ficava por aí mesmo. Sempre trabalhando! Também não tinha folga, né? Porque trabalhava dia de semana era na roça, e de domingo era em casa. Sempre tinha roupa pra lavar, tinha café pra torrar, sempre tinha uma coisa, né? E não tinha folga pra sair.

 

P/1 - E na roça a senhora trabalhava do que? O que fazia?

 

R - Na enxada.

 

P/1 - Na enxada?

 

R -  Ponhava  a vagabunda aqui, ó! Assim...

 

P/2- O que é que era vagabunda? A enxada?

 

R - Ponhava  cinco e tirava cinco.

 

P/1 - Nossa! Cinco da manhã?

 

R - É. E eu ia a 5 da tarde, que nós pegava... carpia cinco hora e largava às 5 pra ir pra casa.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Carpia café, carpi de tudo.

 

P/2- Mas carpia à noite, o café?

 

R - Não!

 

P/1 - 5 da manhã.

 

P/2- Ah... Pegava 5 da manhã, largava 5 da tarde!

 

R – Isso, é. É.

 

P/1 - E a que horas vocês almoçavam?

 

R - Senhora?

 

P/1 - Almoço.

 

R - O almoço era sempre ali pras 9 hora, né? Não tinha horário, porque a hora que dava fome a gente ia almoçar. Mas tinha que pegar comida em casa, porque cedinho vinha era só com café, um pão, e depois quando dava ali umas hora ia arrumar o carrinho e ia buscar, aí nem não tinha essa marmita, era aquelas lata de banha...

 

P/1 - Ah.

 

R - ...aquela cesta desse tamanho!  Ponhava  tudo ali dentro, trazia na cabeça... e ai passava o dia e a gente não cansava, e não cansava, e nem não via o dia passar, né?

 

P/1 - Aí, 5 da tarde acabava o trabalho...

 

R - ...acabava o trabalho, ia em casa, tinha que buscar água no ribeirão, e a água na bacia pra lavar o pé.

 

P/2- Ia tomar banho no rio também?

 

R – Ah, ia sim. A gente tomava banho no rio, porque não tinha banheiro dentro de casa, né? Ai, minha querida! Deus que me perdoe!

 

P/1 - E como era tomar banho no rio? Tomava de roupa e tudo banho no rio, ou tirava toda a roupa pra tomar banho?

 

R - Tudo assim... que nem só se fosse mulherada, né?

 

P/2- Ahn...

 

R - A gente tirava tudo a roupa. Agora, quando tinha, sabe, uma rapaziada mais... já era diferente, né? Ah, aquela velha não deixava não: "Vocês vão me buscar água lá no rio, e lava dentro de casa." A velha não deixava não!

 

P/1 - Não deixava?

 

R - Mas de jeito nenhum!

 

P/1 - E lavar roupa? Também lavava no rio?

 

R - Lavava no rio também. Lavava no rio, sim. Já a mulher já tinha... cada um tinha um varal, mas varal assim desses de fora a fora. Cada um que tinha o varal lá perto , já ensaboava aquela roupa, depois tornava a bater pra acabar com sabão, aí depois batia, torcia, e ai ia dependurando. Quando subia pra casa aquelas roupas já  tava  quase seca, né? Se não, deixava lá secando, e depois ia buscar.

 

P/1 - O varal era perto do rio?

 

R - Perto do rio!

 

P/1 - Ah!

 

R - Perto do rio.

 

P/1 - E colocava a roupa pra quarar?

 

R -  Ponhava! Porque tinha o quarador assim, na grama, né? Nós  Ponhava  pra quarar.

 

P/1 - E não tinha nenhum produto, era só sabão?

 

R - Só.

 

P/2- E fazia com banha.

 

P/1 - O que mais a senhora lembra, fazia o sabão, moía o café, torrava o café... O que mais? Fazia lingüiça, comida...

 

R - Fazia lingüiça, salgava o toucinho, ponhava tudo assim no... a gente ficava lá comendo, ponhava assim em cima do fogão. Lingüiça, toucinho, aqueles de gado deixava já tudo separado: o que era couro, tirava tudo a gordura, e daí salgava bem aquele couro, enrolava assim, ó! Depois dependurava  tudinho. E se queria deixar uns quatro ou cinco pedacinhos de toucinhos, retalhava tudo eles assim com a faca, ó! Depois ponhava pra secar. Lingüiça era a mesma coisa. Agora não.

 

P/1 - E antes não tinha geladeira, né?

 

R - Não tinha. Não tinha nada!

 

P/1 - Como fazia pra conservar?

 

R - Ah, filha! Como é que fazia? Tinha que terminar tudo aquilo lá.

 

P/1 - Ahn.

 

R -  Pra mode  deixar coalhar,  pra mode ... amarrava um... joga isso tudo de sal naqueles saco branco, já vestia aquele saco branco naquela lata com carne ou com gordura, e  ponhava  outro pano em cima, e  ponhava  umas tábua pesadas em cima... fazia assim  pra mode  não perder nada, né?

 

P/1 – Ah, é?

 

R - É. Pra não perder nada.

 

P/1 - Colocava um saco de... a lata dentro de um saco?

 

R - É.  Ponhava  o... a lata assim, né? Aí vinha com aquele saco, vestia assim...

 

P/1 - Na lata.

 

R - Na lata. Depois, colocava outro pano assim em cima da boca da lata e ponhava uma tábua assim em cima.

 

P/1 - Tá.

 

R - Ficava aquela gordura, que era uma beleza! E a carne também.

 

P/1 - E conservava bem?

 

R - Conservava. Não juntava uma sujeira!

 

P/1 - Olha!

 

R - Agora, se tiver uma coisa dessa daí, né?

 

P/1 - Nem deixam.

 

R - Ah, não.

 

P/2- E a água pra beber, era de bica?

 

R - Água pra beber era no pote,. Não tinha essas coisa assim.

 

P/2- Filtro.

 

R - Não.

 

P/2- E de onde pegava essa água pra beber?

 

R - Pegava do... pegava tudo do rio mesmo!

 

P/2- Tudo do rio?

 

R - Tudo do rio! Ô!

 

P/2- E bebia água do rio?

 

R - Então. A gente colocava no forno. Coava aquela água e ponhava no pote. Ninguém tinha dor de barriga, ninguém tinha dor de estômago. Agora... a senhora já pensou?

 

P/2- Vou beber água no rio agora, eu morro se seu beber!

 

P/1 - Mudou muito, né?

 

P/1 - Ô dona Leonor, tinha alguma coisa que precisava comprar na cidade?

 

R - Senhora?

 

P/1 - O que comprava na cidade?

 

R - Ah, a gente comprava na cidade... a senhora quer ver o que é que a gente comprava mais na cidade? Comprava mais na cidade era o açúcar. Pó de café tinha, né? Gordura tinha, sabão, as mulheres assim... matava porco, ou usava barrigada de vaca, já fazia aquele tachão assim, e fazia aquelas vara de sabão. Era tudo conhecido, era parente. Cada um fazia aquela tachada de sabão, era aquele montão assim, aqueles pedaço assim de sabão e dava pra outro. E era assim, usava muito pouca coisa da cidade.

 

P/1 - É.

 

R - É pra fazer a comida. É... aquele tempo, não. Aquele tempo era só pra fazer aquela saladinha. Comprava muitas... comprava pouca coisa na cidade. Farinha de trigo, os sal, o açúcar, arroz a gente colhia, feijão colhia, né? E porco também matava bastante. Quando não matava, outro matava. Comprava pouca coisa .

 

P/2- Era?

 

R - Carroça.

 

P/2- Era carroça da fazenda?

 

R - Era carroça! Porque não tinha o caminhão, essas coisas... Agora não, agora é rapidinho, alguma coisa tá lá e tá aqui, né?

 

P/2- É.

 

R - De primeiro, não. De primeiro era carroça. Criei as fiarada, mas tinha carrocinha, tinha burro... quando era pra limpar o arroz já colocava o saco de arroz... a gente já ia limpar, porque precisava de negócio de lá e não sei quem pegava, comprava, trazia.

 

P/1 - Tinha que ir pra cidade pra limpar o arroz?

 

R - É. Pra limpar o arroz.

 

P/1 - Onde que limpava o arroz?

 

R - Na máquina. Tem que ser uma máquina de limpar, né?

 

P/1 - Tem.

 

R - Tem. Tem.

 

P/1 - Era lá no centro que levava?

 

R - É!

 

P/1 - Ah!... E tinha o dia especial que ia lá pra comprar essas coisas?

 

R - Não, não. Qualquer dia que ia, né? Fora sábado, que sábado não precisa, né?

 

P/1 - Sagrado.

 

R - É, é. Mas assim, no meio da semana, qualquer dia, qualquer uma hora podia pegar e ir.

 

P/1 - Olha! Tinha aqueles moços que vinham vendendo coisas aqui na fazenda? Que chegava com uma mala cheia de coisa? A senhora lembra disso? Chegou a vir gente aqui?

 

R - Não. Você não alembra, Zinha? Não, né?

 

P/1 - Às vezes vem uns moços com umas malas que tinha retrós, linha...

 

R - Não, não, não.

 

P/1 - Não? Não vinha aqui?

 

R - Não.

 

P/2- E essas coisa de costura pra fazer roupa, vocês faziam as roupas mesmo?

 

R - Fazia.

 

P/2- E dava pra...

 

R - Pra corte de pano assim? Ainda que nem meu finado, meu marido mesmo, a gente não comprava... comprava lá no Bichara. Já comprava as mala com quase tudo dentro. Se era um corte de pano, ele já comprava um corte, ou se era redondinho comprava duas peças... é xadrez, e então ele já comprava a malinha completa. Aí, quando chegava aqui, a gente molhava os pano, deixava secar, passava, e ia as costureira costurar. Porque costurava tudo na mão, né?

 

P/1 - Ahn.

 

R – Então, tinha as costureiras aí que costurava roupa pra eles. Camisa, calça, agora vestido  pras  menina aqui. Camisinha pra molecada, sapecava tudo assim, ó!

 

P/1 - Vai comprar?

 

R - Sonhei com aquela dor que dava, uma por entrada.

 

P/1 - E se trocava o dedal?

 

R - Continuando até agora! É que das vez eu falo assim: "A mão tá irritada mesmo quanto que..." Mas não vai, não. Se eu ponho a fita, tenho de empurrar às vezes com esse daqui!

 

P/2- Com esse dedo!

 

R – Então, já pega de uma vez aqui, ó! Agora, não. Agora, Graças a Deus, que essa luz que tá iluminando nós quatro aqui, tenho minha máquina lá que larga o pé, num instantinho costura... não tão nem aí.

 

P/1 - Quando a senhora aprendeu a costurar com máquina? Quando a senhora ganhou a máquina?

 

R - A máquina foi assim... então, quando eu morava no Botafogo, tinha uma menininha até aí, mas é tudo do compadre Vito!

 

P/1 - Ah, sei!

 

R - A Ana falava assim pra mim: "Ô Dona Leonor, por que é que a dona Leonor não arruma uma máquina?" Eu falava: "Ai, Ana, não vai dá, porque com essa criançada pequena é duro pra mim comprar uma máquina." Ela falou: "Eu tenho uma maquininha desse  tamaninho  assim, ó! Eu vou falar pra minha mãe, se a minha mãe me dá ela  pra mode  eu dar pra senhora." Eu falei: "Dá não filha, você também precisa, né? Se a sua mãe deixar vender, eu compro." Ela falou assim: "Não! Eu vou dar pra senhora, porque quando a gente tá com dor de barriga ou com lombriga, nós corre aqui pra senhora benzer. Então, eu vou dar uma maquininha pra senhora." Aí ela pegou uma maquininha desse tamanhinho assim, mas era aqui! Da manivela.

 

R - Tive tempo com aquela maquininha, depois Deus ficou com dó de mim, graças a Deus! Aí conheci uma de Singer, mas era de rodar também. Não era a pé. Depois, vai dali vai daqui, Deus me deu outra força pra mim, aí um dia eu fui na cidade, fui lá na casa do... da máquina, com o General conversando, aí falou com ele da máquina, ele falou: "Ô! Tem uma máquina aqui, só que vai ser por..." Aí troco de volta. Ai eu falei: "Ai, moço volta não dá para mim dá, não." Ai ele falou: "Tá bom! Que jeito que a senhora vai fazer?" Eu falei: "Eu dou um jeito. Eu trago ela aqui." Ai levei aquela da Kelly e fiz a troca. A pé, porque a máquina é boa pra danar, e ela é antiga, não é daquelas que tem agora, né? Ela é boa pra danar, minha máquina.

 

P/2- A senhora benze?

 

R - Eu benzo, graças a Deus...

 

P/2- É?

 

R - Graças a Deus!

 

P/2- Como assim? Como ...

 

P/1 - Quem é que ensinou pra senhora? Como era?

 

R - Olha! Deus que me mandou essa Graça, né?

 

P/1 - É?

 

R - Graças a Deus!

 

P/2- E como descobriu que benzia... como foi?

 

R - Foi assim... Porque a minha irmã, acho que me acabou de me criar, ela era parteira, ela era benzedeira... então ela benzia num copo d água e falava... aí quando as mulherada, porque todo o dia ficava assim, um trazia criança, outro trazia... falei: "Vem cá, como é que você faz benzer?” Ela falou: "Você tá muito xereta!" Aí, eu peguei também e comecei. Ia lá no fogão e trazia aquela brasa,  ponhava  no... falei: "Mas essa daqui não desce! A dela desce, né?" Mas não é. É por causa da reza, né? Deixava o copo dessa altura assim de carvão. Terminava, guardava cada pedra assim. Aí foi indo, foi indo, graças a Deus! Aí comecei a benzer com a avó. Aí, mas depois eu falei: "Vou largar mão disso daí" Aí foi que peguei mais sério ainda Aí, graças a Deus, aconteceu aquela graça, depois que eu fui pra pegar a nenê. Aí... mas quanta crianças eu não peguei nessas mãos, não cortei umbigo!

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Graças a Deus!

 

P/1 - A senhora fazia o parto?

 

R - Fazia o parto. Graças a Deus! Com essas duas mão aqui! E essa luz que me alumia. Dessa menininha mesmo aí, ó!

 

P/1 - É?

 

R - Todo o meus filho, tudo ela cortou umbigo !

 

P/1 - É mesmo?

 

P/2- Quantos filhos foram?

 

R/2 – Doze.

 

R – Doze.

 

P/2– E nasceu tudo aqui?

 

R – Tudo. Graças a Deus!

 

P/2- E tudo a senhora que fez?

 

R - É. Todos, graças a Deus!

 

P/1 - Que beleza, heim!

 

R - São tudo forte! Cada  baita   homão! Cada  baita  mulherzona! Graças a Deus! Ainda assim mesmo, depois desse último casamento aí, ainda peguei quatro. Só que eu falava assim, porque quando nós mudou daqui, fomos numa chácara e descobriram que eu pegava criança, ai eles vinham me buscar. Às vezes buscava de caminhão, tinha umas menina que falava: "Eu não vou porque eu não conheço a pessoa, né?" Eu falava: "Agora, fica muito bonito eu ir junto com você." Eu falei: "Mas você vai! Você fica dentro do caminhão e eu vou lá. Quem sabe se você dormir aí, num instantinho desocupa, né?" Ai! Deus era tão bom! Quase que eu via ele na minha frente! Chegava lá, a mulher logo já paria, né?

 

P/2- Ahn...

 

R - Depois desocupava, pegava o caminhão, virava pra trás.

 

P/1 - Ô dona Leonor, e como que a senhora aprendeu a fazer parto?

 

R - Ah, não sei! De certo foi uma Graça que a Nossa Senhora Aparecida me deu, né? Eu, filha, se eu for falar pra você, a senhora vai falar: "A dona Leonor tá contando mentira... ...já tá caducando!"

 

P/1 - Imagina!

 

R - Olha! Eu peguei só o meu... meu mesmo, cortei de quatro. Nascia, meu marido com medo, porque o pai dele era forte e gordão, e falava: "Joana, eu não estou sentindo bem." Falei: "E agora?" Falei: "E agora?" Falei: "Agora já tem água lá no fogo, você me traz aqui as coisas que tá preparado, porque eu já tinha a minha tesoura preparado, a minha linha preparado pra amarrar o umbigo, falei: "Você vai lá e me traz." "Ei, meu Deus do céu você vai me fazer arte aí, vai me matar?" Falei: "Ah matar coisa nenhuma! Ah, esse já foi, agora vai sair!"

 

P/1 - A senhora teve quatro sozinha?

 

R - Sozinha! Eu e Deus.

 

P/2- Como foi?

 

R - E um casal ainda que foi dois gêmeos.

 

P/1 - Os gêmeos?

 

R - É...

 

P/1 - Sozinha a senhora teve os gêmeos?

 

R - No dia de Natal.

 

P/2- E o marido ajudou? Ou ele desmaiou?

 

R - Ele ficou num estado de nervo, né? Então. Aí ele me ajudou, falava: "Agora você traz a bacia." Trouxe a bacia, apanhou ali, trouxe a água, colocou ali, e eu arrumei a criança, enxuguei... ah... fiquei bem folgada.

 

P/2- E como foi? Nasceu, a senhora conseguiu pegar?

 

R - Uh! Graças a Deus!

 

P/2- Nossa!

 

R - Graças a Deus! De ter contado muito, pra muita pessoa falar: "Ah, eu não acredito, Dona Leonor!" Falei: "Ah, então. Se não acredita... mas é a verdade, né?" É verdade!

 

P/2- Olha só!

 

R - Graças a Deus! E não morreram nenhum, nem os meu, e nem do que eu peguei dos outros. Saia lá pra Catuava, ia lá pro Capão do Feijão, que agora é um sítio lá, aí nas Duas Águas, tudo pegar nenê. E não tinha... porque não que nem agora que tudo é rapidinho, às vezes ia de a pé.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Vinha a pé!  Às vezes que eu  tava  daqui assim pra baixo, cheinha de carrapicho, ajudando meu marido colher mantimento, lá no... falava": "Ih Joana, lá vem vindo um homem. Alguma coisa ele vem vindo fazer!" Falei: "Se vir atrás de mim, você fala que não dá pra mim ir." Ele falava: "Ai meu Deus do céu, eu não tenho coragem pra falar aquilo... que você não vai." Ah, chegava: "Ô Seu Zacarias, vim aqui eu incomodar o senhor, ver se o senhor deixa a dona Leonor ir lá, que a mulher não tá passando bem." Eu fazia assim com o dedo! Era a mesma coisa...

 

P/2- Assim, né?

 

R - Aparecia lá em casa, rapava com carrapicho Eu pegava minhas coisas que já estava tudo preparada, pegava e ia. Ah, chegava lá, graças a Deus! Mas Deus era tão bom! Quase que via ele na minha frente! Num instantinho a mulher tinha nenê, já vinha embora. Graças a Deus! Agora, não. Agora a senhora vê, tudo no hospital, né?

 

P/1 - É.

 

R - Tudo no hospital!

 

P/2- E como era? O nenê nascia e enrolava o nenê, aqueles que fazia... enrolava assim o nenê?

 

R - Nenê nascia, a gente cortava o umbigo. Depois banhava ele, enxugava bem enxugadinho, aí que ia...

 

P/2- ...enrolar ele.

 

R - É. Ai que ia vestir a roupinha, né? E agasalhar ele. Então... (risos) E olha que agora mesmo aparece uma mulher buchuda.

 

P/1 - A senhora faz o parto? (risos) E a senhora era conhecida quando era uma boa parteira aqui? O pessoal vinha já pra falar com a senhora? Já vinha direto? Quando  tava  grávida já queria que a senhora fosse lá?

 

R - Uh! É, que nem a gente trabalhava tudo junto, tinha vezes que nós  tava  trabalhando, vinha um: "Ah dona Leonor, vamos amolar a Dona Leonor." Falei: "Ih, o que vocês vão me amolar?" "Olha, Dona Leonor, tá assim, assim, assim. Tá em tempo! Dá pra dona Leonor ir pegar?" Eu falava: "Ah, eu não sei. Deus é quem sabe." E já ficava marcado.

 

P/2 - E benzer? A senhora benzia. Benze também... benzia nenê pra tirar quebranto, essas coisas...

 

R - Ô!

 

P/2- A gente também, se a gente quiser? É mesmo? Pra arrumar namorado?

 

R - Uh!

 

P/2- Até hoje a senhora faz essas coisas, ou parou?

 

R - Não. Eu não parei, não. Eu não parei porque não é mais pra mal não. Agora, se fosse pra mal, né? Deus o livre guarde! Mas pra bem... só se não vim procurar, a gente não vai atrás, né?

 

P/1 - Ô dona Leonor, e como conheceu o seu marido?

 

R - O primeiro?

 

P/1 - O primeiro.

 

R - Foi num baile, né? Porque foi assim... aqui tinha muito baile. Ele morava lá no Broa, e eu morava lá em baixo. Então, tinha um leiteiro que vinha de lá trazer leite aqui na estação do Conde pra embarcar perto de São Carlos. O carroceiro. Então, quando tinha baile aqui, já ficava por ali bem perto do caminho, e já falava pro homem: "Você há de fazer um favor pra mim?" "O que, Leonor?" "Falar pro João que vai ter baile no sábado aqui, se dá pra ele vim, pra ele vim." Ai ele veio uns dois bailes, quando foi no de três, nós acertemos o casamento.

 

P/1 - Já combinou?

 

R - Ô!

 

P/1 - E ele veio falar com o pai da senhora?

 

R - Não...

 

P/1 - Já tinha falecido.

 

R - Veio falar com o meu cunhado, né? O meu cunhado achou ruim. Falou assim: "Ei! Já vai arrumar amolação dia de Domingo, dia de sábado!" Falei: "Não, não é amolação nenhuma!" Falei: "Amolação é essa daí! Porque eu tô avisando, você está falando que é amolação, então o negócio é o seguinte, se vocês não quiser, o trem tá passando aí, ó!... e o dia que ele vim aqui, nós pega o trem. Nós vai lá pra São Carlos, ai o senhor tem que ir lá dar fim no casamento, porque você não é meu pai, você não é meu padrinho, você é cunhado, né?"

 

P/1 - E ele?

 

R - Ai ele pegou, conversou, respondeu assim meio seco, né? Ai veio meu sogro. Ai veio meu sogro e conversou com o meu cunhado. Ai ele falou: "Ah, seu Zacarias! É que agora a gente não pode, não sei o que..." ficou falando: "...não, seu Carlos! Pode deixar tudo pra lá, porque eu visto ela do pé à cabeça", meu sogro falou pro meu cunhado, né? Aí ele falou: "Não, mas dá um tempo!" Ele falou: "O tempo que eu vou dar, seu Carlos é quatro meses.

 

P/1 - Vichê!

 

R – É, quatro meses, o tempo que eu vou dar. Ai ficou assim... quando ele foi embora, ele disse: "Eu vou estragar esse casamento de careta" Eu falei: "Olha aqui! O senhor não tem nada que bater com a língua nos dente, que o senhor não me compra um vestido que presta, só compra  chitinha  ai na venda", porque tinha a venda de seco e molhado, como diz o ditado, né? Tinha comida e tinha roupa. Ia lá e comprava aquela  chitinha  vagabunda que tava dependurado, lá  pra mode  fazer vestido, que eu falei: "O senhor não me dá um vestido que presta, e trabalho que nem uma condenada com a enxada aí! Que eu falei: "Agora o senhor ainda quer encher o saco aí! Aí, com quatro meses, graças a Deus, casei. O meu sogro me deu desde a meia do pé, foi o meu sogro que me deu. Então, e vivi com ele um ano e quatro meses, graças a Deus! Sempre trabalhando, mas contente, porque eu não me esqueci!

 

P/1 - Como era o seu vestido do casamento?

 

R - Aquele tempo usava aqueles branco cetim, daquele cetim branco. Então, o meu vestido foi daquele lá, e bordado daqui da cintura até na barra, bordado assim!

 

P/2- Quem fez o bordado?

 

R - Ô!

 

P/2- Você?

 

R - Ô!

 

P/2- A senhora?... Como era o bordado que a senhora fez? Como era o bordado, qual que era o desenho?

 

R - O bordado era assim, tinha quase que nem esse cordão aqui branco, né? Uma linha bonita e uma linha grossa. E era assim tudo de zigue-zague, né? Era bonito o meu vestido!

 

P/2- E onde foi o casamento?

 

R - O casamento foi na Catedral, lá em São Carlos. E a festa foi lá na fazenda do Broa Dançaram a noite inteirinha. Comeram e beberam a noite inteirinha, porque os meus tio me ajudou também. Aquele tempo usava trazer aquelas latas grande, de 20 litros de doce de mamão, doce de abóbora, leitoa, cabrito... meus tio me ajudaram muito no que era pra mim. E eu da minha casa levei uma mão tampando assim!

 

P/1 - Ainda bem que os outros ajudaram, né?

 

R - Ô!

 

P/2- E foi uma comilança! Porque só com o que a senhora falou....

 

R - Levei dois pedacinho de lençol desse tamanhinho, assim! Então minha sogra falou assim: "Ô Leonor, você traz... você abre a sua mala..." A mala era de zinco, que era umas mala pesada, vocês não chegaram a ver aquelas mala?

 

P/1 - Não.

 

R - Foi mala que nem zinco! Minhas coisa estava ali dentro. O que tinha de grande, tinha uma colcha branca desse estampo assim, e foi minha irmã Chica que me deu, coitada, e dois lençol só cabia... cabia só assim meio no meio da colcha. A minha sogra falou: "Ô Leonor, você tira... você abre a mala, porque eu, com a comadre Faria...", que era a minha tia, né? "... nós vai arrumar a sua cama sexta-feira! E eu falei: "Onde que eu vou por essa minha cara agora, onde que eu vou enfiar? Onde que eu vou enfiar minha cara agora?" (risos) Aí, num instantinho, a mala... elas duas ficaram lá lidando, mas a minha sogra era que a minha filha, assim! A minha sogra, sabe o que ela disse Ela disse: "Você que fica dando risada, viu minha filha?

 

P/1 - De bom humor?

 

R - É. Ai ela veio na cozinha e falou: "Ô Leonor, só que o lençol está curto demais na cama! "Falei: "Ah!" Este foi a primeira... a primeira vergonha que eu passei. Ai ela tirou da mala dela, tirou aquele mundo de aquela que estava no guarda-roupa,  tirou da mala dela um lençol, forrou minha cama... levei dois travesseirinhos assim! Sabe do que... estava enxertado do que? Daquele capim manteiga... dois travesseirinho. Parecia tudo cheiro de defunto. Desse tamaninho assim! Arrumaram a cama, né? O colchão de palha ficou bonito! Ficou dessa altura assim!

 

P/2- Nossa!

 

R - Ai que vergonha, minha Nossa Senhora da Aparecida! Agora, a colcha deu porque a colcha era  grandona , ainda eu virei tudo. Mas agora, o lençol era dois do lado assim, só no meio da cama.

 

P/1 - Mas hoje tem lençol grande e a gente fica brigando, né?

 

P/2- Fica puxando!

 

R – Olha, agora eu estou dormindo sozinha, arrasta no chão! Ei, vida dura! Das vezes eu vejo, a gente tá cheio e tá reclamando. Falo: "Eu é que tenho que contar o que eu passei, Nossa Senhora da Aparecida do céu! Só eu que passei, eu que sei! Ish... e trabalhando! Nunca fui vagabunda, graças a Deus!

 

P/1 - Ô!

 

R - Nunca! Graças a Deus!

 

P/1 - E a senhora, quando trabalhava lá no cafezal, como era? Tem época de colheita... como é que é isso? Porque a gente é da cidade, não conhece. Em que época planta, colhe?

 

R - Então. Se planta milho, planta feijão... aquele tempo quase não plantava o arroz. Era tudo comprado na cidade, né?

 

P/1 - O arroz?

 

R - Aquele tempo, a planta mais era de feijão, milho, abóbora... até mandioca a gente plantava na rua de café, né?

 

P/1 - Ah! Na rua mesmo? Pra aproveitar?

 

R - Na rua, assim, ó!

 

P/1 - Ah!

 

R - Até mandioca a gente plantava. Muitos plantava mandioca, batata, batatinha... o que queria! Plantava na... então como era assim... em coisa que era pra vender, colocava maduro, a gente escolhia e  ponhava  tudo nos monte, né?... Depois vinha buscar. Era assim. Agora, o café, não. O café é diferente o que a gente faz, a roda nele, desliza, depois varre ele, abana, ensaca, leva no carregador, é... dá outro trabalho. Dá mais trabalho de colher o café do que o mantimento que a gente colhe, né?

 

P/1 - É? Mas assim... Como é que tira o café da árvore?

 

R - Tem que puxar assim a...

 

P/1 - Balançando mesmo?

 

R - Balançando! Vai rachando! Tem que puxar assim ó, com a mão!

 

P/1 - Até cair?

 

P/2- Aí ele cai tudo!

 

R - É porque ele dá numa rama, né?

 

P/1 - Ah!...

 

R - Então, a senhora pega, vai abrindo...

 

P/2-     Puxa assim? É, é. Vai abrindo... Vai abrindo assim o pé de café e vai puxando a rama e a fruta vai caindo no chão. Depois ela está no chão, aí a gente com um rastelo a gente varre, ai vai com a peneira, coa ele todinho! Ai vai colocando no saco, aí a gente vai (arrumando?) assim no caminho.

 

P/1 - E aí tem que colocar pra secar?

 

R - É, é.

 

P/1 - No terreno.

 

R - Aí vem no terreno, lava...

 

P/1 - Ah, lava?

 

R - Lava! Ai põe pra secar.

 

P/1 - Quanto tempo leva pra secar?

 

R - Quer dizer... o tempo  tando  bom, não leva quinze dias pra secar o café. O tempo estando bom, né?

 

P/1 - Que nem hoje, não!

 

P/2 - Hoje ia demorar!

 

P/1 - Quinze dias?

 

R – É, uns quinze dias fica torradinho! Ai vai na máquina... limpa, né?

 

P/1 -    E aí que torra....

 

R - Aí. É. Aí que limpa ele, aí que torra, aí que faz o pó de café.

 

P/2 - E mói.

 

P/1 - Aí fica um cheirinho gostoso, né?

 

R - Nossa Senhora! Ah, o café é uma beleza, viu!

 

P/2 - E fazia logo que terminava já pegava um pouquinho pra fazer café em casa, ou não?

 

R - Já!

 

P/2- É.

 

R - Ô! Tinha...

 

P/2- Fresquinho, então?

 

R - Então, tinha... porque era assim... tudo que colhia o... que era colono que colhia o café, quando era no final que terminava a colheita, porque tinha escolha, né? Daquela escolha... aí o patrão já dava um tanto pra cada um de café. Então, as mulher quando  tava  assim quase acabando, elas pegava, já levava sempre em casa um pouquinho de café, limpava ou no tijolo ou numa pedra,  pra mode  não fazer barulho, né? Torrava ou na caçarola, ou na frigideira pra fazer o pó de café. Mas tomava um tantinho assim de café, ficava sustentada, né? Ô! Ficava sustentada!

 

P/1 - É uma delícia!... O que mais que se plantava, dona Leonor?

 

R - Na roça?

 

P/1 - É.

 

R - Na roça, a planta que tinha, filha, era mais o milho mesmo, e era o feijão, né? Milho, feijão... o arroz quase não plantava. Mas o que a força dava, dava pra plantar. Agora mandioca, batata... tudo se sabe plantar!

 

P/2- E fruta assim... Tinha?

 

P/2- Fruta.

 

R - Ô! Precisa ver!

 

P/2- É.

 

R - Ô!

 

P/2- Mamão...

 

R - Plantava também.

 

P/1 - Agora... A senhora falou que comprava tecido na vendinha de secos e molhados.

 

R - Ô!

 

P/1 - Onde era essa vendinha?

 

R - Aqui na... no Conde, aqui!

 

R - Na estação perto do Conde.

 

P/1 - Ah na estação... Perto da estação de trem?

 

R - Isso, isso!

 

R - É ali, é! É ali.

 

P/1 - E quem tomava conta dessa vendinha?

 

R - Ali tinha o... até ele era compadre meu, o que tomava conta da venda.

 

R - Então. Era um armazém grande! E ali tinha de tudo! Tinha calçado, tinha roupa e tinha comida. Só que não se plantava, daí faltava qualquer uma coisa precisava ir correndo lá. Se era roupa, comprava roupa, calçado, comida...

 

P/2- E quem era o dono da venda? A mesma pessoa que era...

 

R - Não, não, não! Aquele era outro, chamava Cristiano. Até era meu compadre.

 

P/2- Ah sim....

 

R - Chamava Cristiano.

 

P/2- E de onde ele comprava as coisas, a senhora sabe?

 

R - Não. Às vezes vinha de fora... de São Carlos mesmo, né?

 

P/2- De São Carlos.

 

R - Agora. Eu não quero ficar morando em Araraquara! Nós já tá velho, compadre. Quer dizer que a sede era daqui. Porque ele tinha o armazém lá. Era ele que tomava conta.?

 

P/1 - Era da fazenda, será?

 

R - É.

 

P/1 - Pertencia à fazenda?

 

R - Ô! Pertencia à fazenda aqui!

 

P/1 - Ah, tá!

 

R - É que nem fala fazer o estação do Conde do Pinhal é daqui! É.

 

P/1 - E como que senhora pagava isso? Levava dinheiro já? Ou se não, se não tinha dinheiro, se ele tinha confiança, a senhora ia lá, fazia a despesa ali, trazia de carroça ou então o cavalo, que jeito que dava?

 

R - Depois a senhora ia pagar. Era assim? Pagava no final do mês?

 

R - Era no final do mês, é. É.

 

P/2- Olha só!

 

P/1 - E quem freqüentava lá? Todo mundo? Quem ia lá na vendinha?

 

R - Nossa! Não faltava gente. Ia gente de todo o lugar, daqui...

 

P/1 - De várias fazendas?

 

R - É. Várias fazendas. Era sortido lá, viu?

 

P/2 - E da fazenda? O que é que a senhora sabe da fazenda? Porque é uma fazenda importante aqui, né?

 

R - Aqui é. Aqui a fazenda foi muito boa! Ainda é boa porque a gente está vivendo aqui, né?... num lugar de saúde, lugar de calma... Um lugar muito bom aqui.

 

P/1 - Aqui é. É lindo, né?

 

R - Veio os meu filho tudo aqui! Graças a Deus! Um lugar muito bom. As patroa eram muito boa.

 

P/1 - Quem eram os patrões aqui?

 

R - As patroa daqui era... quer dizer, a rainha daqui era a Condessa, né?

 

P/1 - A Condessa?

 

R - A Condessa que é a patroa mesmo daqui. Foi tia d....

 

P/1 - Qual era o nome dela?

 

R - Ana Carolina, né? Ana Carolina, que ela chamava. Depois, tinha a... a não sei se era filha dela ou nora dela... tinha a Dona Antônia, tinha a Dona Elisa, tinha a Dona Cota, tinha a dona Candinha. Era tudo mulherada, mas eram muito boa, viu? Agora acabaram tudo!

 

P/1 - O pessoal não mora mais aqui? Esse pessoal não mora mais aqui?

 

R - Não mora. Quem tá morando aqui agora, é só a dona Helena, Zinha?

 

R/2 - É a dona Helena, Seu Mamberte. Tem bastante herdeiro ainda, né?

 

P/1 - É?

 

P/2- São herdeiros da Condessa...

 

R/2 - É. São... Acho que são neto da Condessa. São os neto da Condessa.

 

P/1 - E o que a senhora sabe do Conde? Quem ele era... o que ele fazia....

 

R - O que eu sei daqui do Conde?

 

P/1 - É.

 

R - Ih. Daqui do Conde, menos de trabalho, graças a Deus! Olha! Quem planta primeiro, filha, você olhava aquele tempo de planta, você olhava esse terreno aí não tinha lugar pra pôr planta!

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Era arroz, era feijão, era milho... Era de tudo,... tinha nesse terrerão aí! Tudo plantava... Porque tudo plantava, né? Era almeirão... então quando era tempo de colheita ficava, que era uma beleza ali!

 

P/1 - Ah!!!

 

R - De mantimento, né? E graças Deus, eu morei aqui. E eu com o finado do meu marido 55 anos, criei minhas filharada, mas... nós colhia mantimentos... Tinha vez que precisava desocupar! Tirar o mantimento velho pra por o novo.

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Graças a Deus!

 

P/1 - De tanta fartura? Era fartura, mesmo? Tinha bastante?

 

R - Era fartura de tudo. A senhora vê, aqui ninguém chorava negócio de mistura, feijão um arroz... Ninguém chorava, não!

 

P/1- Olha só!

 

P/2- E o Conde morava aqui também, ou só a Condessa ficava e ele ficava mais fora?

 

R - Ele eu não cheguei a conhecer. Ela eu cheguei a conhecer, porque a menina mais velha minha... tinha um ano que ainda ela teve aqui, que ela veio visitar nós, ela ainda foi a companheira da Condessa. E quando ela foi acompanhar a Condessa pra São Paulo, ela estava dessa altura, Zinha? Quando ela foi acomp...

 

P/2- Dama de companhia.

 

R - É. Ela foi pra Poços de Caldas, foi pro São Paulo. Aí depois chegou lá ela teve bom estudo, graças a Deus! Estudaram ela, graças a Deus! Aí ela chegou lá com...

 

P/1 - Ele tinha casa aqui e tinha uma casa na cidade.

 

P/2- Tinha uma casa na cidade.

 

R - Ah, na cidade ele tinha casa, mas eles moravam.... eles moravam aí, casado.

 

P/1 - Ficavam mais aqui!

 

R - Iam casar, morava aí, porque ela estava assim, que ela olhava assim na mãe dela... enxergava tudo as  veinhas  assim da mãe. A fala dela  tava  lá no fundinho. Ela dava... quando ela começava dar risada, a senhora via que ela ficava só assim, ela  tava  dando risada. Ela dizia: "Não sai saia ô mãe", então....

 

P/1 - De tão fraquinha que ela estava?

 

R - É porque ela estava muito  veinha, né? Mas ela já era muito mal. Quando chegava tempo de festa, ela já ficava lá na janela, ficava dando doce, dinheiro, então: "Não molecada,  pra mode  desfazer  docês, nem da sua mãe, nem do seu pai.” Então, as crianças ficava tudo no terreno ali, ela lá na janela, e lá ela pegava e jogava as coisas  pras  crianças, né? Então... E se tinha uma mulher que estava assim esperando nenê... Ah, elas pegava, ia pra cidade, mas trazia enxoval completinho!

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Completinho  pras  crianças. Então... Ele não era ruim não.

 

P/2- E escolinha? Eles chegaram a montar alguma escolinha aqui? Já teve escolinha?

 

R - Tem, ainda tem.

 

P/2 - Tem ainda?

 

R - Tem.

 

P/2 - Pras crianças da fazenda, é?

 

R - Tem. Tem escolinha ali, sim. Tudo parado, porque acabou.

 

R/2 - Parou, por que não tem criança, né?

 

R - É, quase não tem criança.

 

P/1 - É ?

 

R - É.

 

R/2 - De primeiro, tinha bastante criança, vinha aí pra escolinha. Ainda tem?

 

P/1 - A senhora estudou lá na escolinha?

 

R/2 – Eu, não

 

P/1 - Não?

 

R - Não. Só minha criançada.

 

P/1 - Ah tá!

 

P/2- Eles estudaram?

 

R - Estudaram. Aí, depois terminaram em São Carlos. Hoje já cresceram, arrumaram serviço e ficaram lá trabalhando.

 

P/1 -    Não mora mais ninguém aqui só a... a Isabel que mora?

 

R - É, só a Isabel. Mas no fim de semana eles vem tudo pra casa. (risos) Nossa, os meus neto cada moço que só vendo, os que mora na cidade! Mas não descuida da gente aqui. Tem o telefone, eles não descuida. Quando não é cedo é de noite, qualquer uma hora que dá um tempo, tão perguntando.

 

P/2- E a Senhora sempre fala que tinha bastante gente, com bastante família que morava aqui. Tinha quantas famílias ?

 

R - Nossa Senhora! Como que tinha gente aqui, viu? A Colônia lá... a Colônia do Conde lá, era uma colônia comprida, que tinha gente que queria vim morar aqui, vieram aí da fazenda, aí eles ficaram com dó, falava: "Puxa vida! Uma família tão boa e não tem casa." Fizeram uma casa até no fundo de um pátio lá,  pra mode  pôr uma família lá, de tanta gente que tinha. Botafogo era cheia, Capuava era cheia, a colônia do Conde era cheia. Aqui, camarada via que era colônia de italiano , era assim ó! Não tinha lugar pra mexer com o dedo. Tudo aqui... Até desse muro aí tinha casa.

 

P/1 - É mesmo?... Eram várias colônias?

 

R - É. Várias...

 

P/1 - Botafogo...

 

R – Botafogo, é. Botafogo ainda tem.

 

P/1 - Ainda tem?

 

R - Tem!

 

P/1 - Outra é Capuava...

 

R – Capuava. colônia do Pinhal.

 

P/1 - A Colônia do Pinhal?

 

R - É, é.

 

P/2- E é tudo da fazenda do Conde do Pinhal?

 

R - Era tudo daqui, é.

 

P/1 - Nossa!... Quantas pessoas será que moravam aqui?

 

R - Vai saber, né? Mais era primeiro era só nós, Isabel?

 

P/1 - Olha só!... E hoje a fazenda ela continua com café?

 

R - Não tem.

 

P/1 - Não tem?

 

R - Acabou tudo!

 

P/1 - É cana-de-açúcar?

 

R - Acabou com tudo!

 

P/2 - Não tem mais nada então de roça... nada mais?

 

R - Não.

 

R/2 - Tem lugar que vão plantar café nessa... nessa parte aqui que está perto da...

 

R - Ah, eu vi!

 

R/2 -Plantar café ali.

 

P/1 - Ai que gostoso!... Mas demora o pé pra crescer, né?

 

R - Demora! Uh, se demora!

 

P/1 - Quanto tempo demora, dona Leonor?

 

R - Ah, acho que leva mais de uns seis, sete meses não é não, Zinha?

 

R/2 - Não! É mais, ué. Até ele crescer...

 

R - Ô!

 

P/1 - Até dar os frutinhos...

 

P/2-     E ainda vocês... alguém de vocês ainda trabalha ali na casa?

 

R/2 – Eu, não!

 

P/2- Não trabalha mais?

 

R/2 - Não trabalho mais.

 

P/2- A senhora trabalhava lá, né?

 

R/2 - É.

 

P/1 - Olha só!... E tinha senzala aqui? Senzala?

 

R - Ô!

 

P/1 - O pessoal que veio trabalhar de fora morou na senzala? Chegou a morar?

 

R - Acho que não, né?

 

P/1 - Foi desativada?

 

R/2 - Isso daí eu não sei não.

 

P/2- Quando a senhora veio pra cá já não tinha mais escravo nenhum?

 

R - Não tinha não, não, não!

 

P/2- Nenhum?

 

R - Não tinha mais, não.

 

P/2 - Não?

 

R - Era uma limpeza! Não tinha mais não.

 

P/1 - E a senhora ouvia falar dessas histórias de escravos?

 

R - Não.

 

P/1 -    Não?... Ninguém falava mais nada?... Só tinha italiano aqui?

 

R - Ahn?

 

P/1 - Só tinha italiano?

 

R - Puxa!

 

P/1 - Tinha muito italiano nessas colônias?

 

R – Ô, se tinha!

 

P/1 - É? Que nem essa novela agora?

 

R - É... que nem essa novela. Então.... ô!

 

P/2- Tudo os  italianada?

 

P/1 - E eles eram diferentes?

 

R - Ah era, né?

 

P/1 - No que eles eram diferentes?

 

R - Eles eram muito esganado, não é não, italiano?

 

P/1 - Fala alto!

 

P/2- Esganado?

 

P/1 - E eles moravam nessas colônias?

 

R - Morava.

 

P/1 - Olha só!... É que a gente ouve falar tanto, né? Aqui em São Carlos tem muito italiano... Tem mais o que assim... Tem espanhol que...

 

R - É... aquele outro negócio, dos...

 

P/1 - Os alemães?

 

R - Não, os japoneses!

 

P/2 - Japonês.

 

P/1 - Tem bastante?

 

R - Tem. Agora eu vou com os meus neto pescar ali no Castelo, Nossa Senhora! Eles chegam que nem boi bravo lá na beira do rio, menina! Ô  japonesada  sem educação! Vem por riba da gente, com a vara assim, eles passava a vara deles por riba da... da vara da gente pra pegar peixe!

 

P/1 - Nossa!

 

R – Ai, meu Deus do céu!

 

P/2 - A senhora ainda vai pescar?

 

R - Vou!

 

P/2 - É mesmo?

 

R - Vou com os meus neto! Eu tenho um neto que sempre me leva eu lá no Castelo pra pescar. Esses tempo agora ele não foi, porque ele está trabalhando quase direto com o Antônio, Zinha?

 

R/2 - É! Trabalhando à noite!

 

R - Ele sempre me leva!

 

P/1 - Ai, ai...

 

P/2- Desde pequeninha a senhora pesca, assim...?

 

R - Vou lá, fico sentada, pego cada peixão, né?

 

P/2- Tem então sorte pra pescar! (risos)

 

P/1 - E hoje dona Leonor? O que é que a senhora faz de dia? O que gosta de fazer? Como é o seu dia?

 

R - A senhora fala...

 

P/1 - Como é o seu dia ? A que horas a senhora acorda... O que a senhora gosta de fazer?

 

R - Ah, eu gosto de fa... eu  tando  parada assim... Ah, eu gosto é de trabalhar na minha agulha, assim... Faço crochê, amarro minha toalha, faço meu tapete... hoje mesmo eu acabei de fa... estou quase acabando de fazer o meu tapete, falta só um pedacinho pra mim de terminar. Ah, eu não paro não!

 

P/2- E cuida das plantas, das flores? A Senhora planta... essas coisas? Cuida...

 

R - Ô!

 

P/2 - É?

 

P/1 - E a senhora falou que casou de novo? Casou a segunda vez?

 

R - Eu casei de novo, porque eu falei... pensei assim, e eu falei: "De eu ir morar com nora, nora tem dia que está com o buxo virado, capaz de falar qualquer hora uma besteira, e eu não vou guardar na minha videira. Agora, eu fui falar também: "Aquela velha lá é minha irmã, mas nora só gosta de ir trabalhar, porque ela não vai trabalhar?" Falei: "Eu não pedi ir!" Falei: "Olha, quando você vê que eu estou ench..." Estou falando que é pra você ver. Quando eu vejo que a minha cabeça não vai, não está dando, mas  pra mode  mim dirigir, leva eu lá no asilo. Quer dizer, no asilo é lugar de gente velho! Leva lá!" "Não! Deus me livre, a mãe ir lá! A mãe vai morar comigo!". Falei: "Eu morar com nora? Não vou, não! Deus que me perdoe! Não vou, não!"

 

P/1 - Aí senhora resolveu casar de novo?

 

R - Aí eu casei, fi... duas.

 

P/1 - Ah!!!

 

R - Quando cortou um dedo, ele ia indo muito bem, depois cortou a metade da perna, aí ele já acabou. Depois cortou assim... deixou só um pedacinho assim da perna... Aí ele já ficou morto de uma vez. Não foi mais!

 

P/1 – Ai, que dó!

 

R - Falei: "Ah, quer saber de uma coisa!... Vou pegar meu canto, vou pegar minhas lingüiças pra torrar em outro lugar? (risos)

 

P/1 - E a maior parte da vida a senhora morou aqui na fazenda?

 

R - Aqui na fazenda! Ôpa, aqui! Então aí... com ela aqui tomando conta, vai fazer uns três anos já, não faz Zinha?

 

R/2 - É.

 

R - Morando com ela.

 

P/1 - E a senhora morou uma época no Broa?

 

R - Não. Morei mais é aqui...

 

P/1 - Mais aqui?

 

R - É... mais aqui, é!

 

P/1 - E Araraquara? A senhora passou um tempo lá em Araraquara?

 

R - Eu fiquei... eu fiquei dois anos lá... irritada, né?

 

P/1 - Por que?

 

R - Não se dava lá... e tenho minha filha lá, meus neto tudo e chegava dia de Domingo: "Ah vamos lá ver a vovó!" Eu olhava e falava: "Ih, tudo aqui, parece que tem uma tristeza que não sai daqui de dentro!" E sempre falava pro meu marido, falava, ó: "O dia que eu for receber o meu pagamento lá em São Carlos, se ele não aparecer tal hora assim, assim... Você pode esquecer, que eu já vou lá pro ponto.”

 

P/2 - Que eu fiquei lá, você volta pra lá.

 

R - Eu vou lá na casa da Zinha!

 

P/1 - Foi assim mesmo? A senhora veio pra cá...

 

R - Ai eu... peguei e voltemos pra cá. Aí acostumei, voltemos pra cá, parou pouco tempo Deus tirou ele, né?

 

P/1 - É. E aí a senhora voltou pra fazenda aqui?

 

R - Aí voltei. Estou aqui com ela.

 

P/1 - É lindo aqui, né?

 

R - Ô!

 

P/1 - O que a senhora mais gosta aqui da fazenda? Que lugar acha mais bonito?

 

R - Eu gosto aqui da sede, ai depois a gente quando está... o meus neto fica tudo aqui, nós sai a andar, que o pomar é imenso de grande, né? Vai andar lá pro pomar, e distrai a gente.

 

P/1 - Aqui é muito lindo. A senhora quer falar mais alguma coisa que achou que a gente esqueceu?

 

R - Eu sabia que a senhora vinha aí.

 

P/1 - A senhora que fique à vontade também! Se quiser falar alguma coisa que a gente esqueceu de perguntar...

 

R - Não!

 

P/1 - Não?

 

R - Já falei bastante, nossa Senhora!

 

P/1 - Quer contar alguma coisa da sua avó? Quer contar alguma história engraçada da sua avó?

 

P/1 - Outro conselho que ela dava?

 

R - Ô!

 

P/2- Qual mais conselho que ela dava pra senhora?

 

R - Conselho que ela dava era assim, falava: "Olha, vocês quando sair de casa cedo, vocês nunca volta à noite em casa, porque vocês não têm casa, vocês estão na casa dos outro!" Eu falava: "Tá certo vó!" Ela vinha: "E outra, que vocês são menina mulher, vocês não têm de bater no perna pra Colônia, que aprende só o que não é preciso e acontece coisa que às vezes sai da... fora da boca, aí fica tudo com raiva  d ocês ! Vocês nunca faça isso daí!" Eu escutava, agora a minha irmã falava assim: "Ah! Minha irmã é bobo de ficar escutando conversa da avó. A avó está caducando!" Eu penso que pra mim ela não estava caducando, porque tudo o que ela falou que eu guardei aqui ó, graças Deus, acompanhei, e foi bom pra mim, graças a Deus! Eu não achei ruim, não. A minha irmã Maria falava que ela estava caducando. Eu gostava do que ela falava.

 

P/1 - Ela era muito brava?

 

R - Não. Não era brava. A senhora vê que foi uma pessoa que morreu com 105 ano, devia ser umas seis horas por aí assim, ela falou pra minha tia que era nora dela, falou: "Miriam, eu vou  ponhá  um pouco de água no fogo, vou tomar um banho e vou descansar." Aí, minha tia falou: "Olha Fabiana, a senhora não está descansando porque a senhora não quer! A senhora já fez tudo!" Ai ela pegou, abriu a mala, tirou as roupa dela todinha, pôs em cima da cama,... naquela tempo usava camisa, mulher usava camisa,  camisona  comprida, né? Então! Ela pôs tudo em cima da...

 

P/1 - Pra dormir?

 

R - É.

 

P/1 - Aquele camisolão comprido?

 

R - É, é. Ela pôs tudo em cima da cama, e levou a bacia lá, banhou, se enxugou, trocou e deitou. Ai a minha tia falou: "Ué... tia Fabiana faz tempo que entrou no quarto e não saiu..." Ah, ela foi lá ela já estava preparada, estava durinha assim, ó!

 

P/1 - É mesmo?

 

R - Mas deu um trabalho, pra ninguém  ponhá  mão nela!

 

P/2- Ela soube....

 

R - Ela mesmo se banhou, ela mesmo se trocou... minha avó não deu trabalho!

 

P/1 - Olha que coisa!

 

R - Não deu trabalho de jeito nenhum!

 

P/2- Parece que ela adivinhou.

 

R - Então, é... Com 105 anos.

 

P/1 - E o que ela contava assim... do tempo dela, que ela era jovem... assim... ela... A senhora lembra de alguma coisa que ela contava?

 

R - Olha, o que ela contava era tudo coisa assim... coisa antiga, né?

 

R - Tudo coisa antiga, o negócio de comida, canjica... a minha avó contava, né?

 

P/1 - Como fazia canjica, essas coisas?

 

R - É, como fazia canjica. Então a canjica é assim: a canjica a gente soca o milho, depois deixa ele de molho, e levanta tudo aquela pelinha, a gente lava, aquela pelinha sai, a gente coloca ele na... no caldeirão, põe pra cozinhar, a água dele fica grossa..." E é verdade mesmo. Aquela água dele fica grossa, depois ai a gente, pra mode comer ele, a gente coloca um pouco, não muito açúcar, coloca um pouquinho de açúcar, um pouquinho de leite pra comer a canjica, né? Então. E agora a senhora vê, mudou tudo, né? Mudou tudo. De primeiro a gente socava ele no pilão,  ponhava  de molho, aquela casquinha saia tudo, depois lavava aquela casquinha , saia tudo, né?

 

P/1 - É.

 

R - Agora não. Agora do jeito que vem, a gente lava já põe no fogo, já manda, já manda.

 

P/2- E colocava o milho inteiro, ou raspava e colocava só os... as coisinhas do milho?

 

P/1 - Não.

 

P/2- Colocava a seme...

 

R - Não. Só...

 

P/2- A espiga inteira?

 

R - É, é!

 

P/2-     É?

 

P/1 - Olha só!

 

R - É isso daí! Outra vez a gente conta mais coisa.

 

P/1 - Com certeza! Adorei estar aqui com a senhora, queria agradecer por estar conversando com a gente, ter dado entrevista, tudo...

 

R - Ainda mais que estou com gripe, hein?

 

P/1 - Mas isso não tem problema, não. Queria agradecer mesmo a senhora de ter ajudado a gente no trabalho.

 

R - Obrigado!

 

P/2- Muito obrigada!

 

P/1 - Obrigada mesmo!

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