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A vida pode ficar melhor!

História de: Paulo César dos Santos
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Recordação do início da carreira na companhia petrolífera e das passagens pelas cidades de São Sebastião do Passé (BA) e Rio de Janeiro (RJ). Os desafios encontrados para trabalhar sem atacar o meio ambiente. Brincadeiras e trotes com os novatos. Horas de lazer com certa variedade. Explicação de como eram as greves na plataforma.

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História completa

Projeto Memória Petrobras 

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Paulo César dos Santos

Entrevistado por Marcia de Paiva

Garoupa, 26 de janeiro de 2005

Código: UNBC_CB005 

Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha

Revisado por Letícia Manginelli dos Santos

 

 

P – Boa tarde. 


R – Boa tarde. 


P – Gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga seu nome completo, local e data de nascimento. 


R – Paulo César dos Santos. Caçapava, 2 de dezembro de 1962.


P – Paulo, conta pra gente como foi o seu ingresso na Petrobras. 


R – O meu ingresso na Petrobras foi um ano, saí da escola técnica em 1983. Fiz concurso público em São Paulo. Ao ingressar na companhia, passei três meses treinando, fazendo um curso em São Sebastião do Passé, um mês no Rio de Janeiro. E depois já vim, já assumi em Garoupa já. Trabalho na área de instrumentação. 


P – E o curso que você fez logo que você entrou era o curso...


R – Preparatório pra, já tinha um curso técnico e...


P – Mas era uma preparação geral?


R – Preparação específica na área de instrumentação pneumática. 


P – Aí você veio direto já pra Garoupa?


R – Direto pra Garoupa. Trabalhamos lá seis meses em terra, em documentação, preparando documentação da unidade. Quando foi montado o módulo definitivo, em 1984, aí já comecei a embarcar, e estou na unidade até hoje. 


P – Conta pra gente como foi esse princípio de Garoupa, que você falou que começou logo, teve o módulo definitivo. Você já veio embarcado nesse módulo? Como foi?


R – Já embarquei quando o módulo definitivo já estava montado. Foi em meados de 1984. No início é tudo muita novidade. Tinha, jovem ainda, tudo muito grande. Tinha flotel do lado.


P – Vocês dormiam no flotel?


R – Dormia no flotel e trabalhava na plataforma.


P – E como é que era a vida de embarcado, pra você que era um rapazinho, chegando? Qual foi a primeira impressão que você teve assim dos primeiros dias que você passou embarcado? Você se lembra?


R – No início não teve muita dificuldade não porque era muita novidade, muita coisa grande, muita coisa. Tudo que você olhava era muito grandioso. Tudo novo, muito novo. A expectativa de entrar em produção, tudo isso consumia o seu tempo. As dificuldades do regime de trabalho apareceram com cerca de um ano ou dois anos depois. Até passou um período de turbulência. Depois estabilizou. Aí acostumou com o regime de trabalho. Aí até hoje eu acho que nem se acostuma com outro mais. 


P – Você gosta de trabalhar embarcado?


R – Ah, já me acostumei.


P – Paulo, conta pra gente também assim, nesse período que você entrou, estava ainda começando toda essa grande aventura da Petrobras com águas profundas. O quê que vocês pensavam nessa época sobre isso, o quê que se falava? O quê que você, qual era a expectativa também?


R – Eu acho que, depois que, a expectativa era mais das pessoas que estavam fora do ambiente de trabalho por saber o quê que era isso aqui. Não se imaginava. As pessoas não imaginavam o quê que era. Então, a expectativa eu acho que formava mais na gente da curiosidade das pessoas que conviviam com a gente, em querer saber o quê que era. Você explicava, não tinha. Hoje em dia é mais divulgado. Mas antes não tinha, as pessoas tinham pouco conhecimento do que era isso aqui. Até hoje não entendem muito bem. Isso aqui é uma cidade. À noite, se você olhar aqui, você vê uma cidade. É luz, tudo aceso. Mas, nesse sentido aí. Acho que o que cativou mesmo era mais a curiosidade de outras pessoas  no sentido de saber o quê que era, como era isso. 


P – E hoje você está trabalhando. A sua área é...


R – Manutenção. 


P – Como é que é ser coordenador de manutenção? 


R – Coordenador de manutenção. 


P – Como é que é coordenar a manutenção de  uma estrutura também assim, pra gente que é de fora, tão pesada, tão complicada? O quê que mudou também nesse seu trabalho ao longo desses anos todos?


R – O grande desafio hoje é você trabalhar de forma procedimentada, pensando no meio ambiente, na segurança. Sempre isso está em primeiro lugar. É difícil você, na prática, de vez em quando, cumprir todos os procedimentos. Mas é a nossa premissa. A gente tem forçado muito isso. E o grande desafio hoje é sempre estar cumprindo os procedimentos pensando na segurança, no meio ambiente, não deixando o lucro, a produção, de lado. Mas o grande desafio hoje, desafio nunca. Acho que a propaganda da Petrobras, ela é bem, foi muito feliz. Porque todas as etapas que tiveram durante esses 20 anos aí, sempre tinha um desafio novo, uma política governamental com uma tecnologia nova, uma mudança de  rumo. E a gente vem, graças a Deus, superando esses desafios aí. 


P – Você tem assim um, você pode contar pra gente alguma história que tenha te marcado? Ela pode ser engraçada ou interessante. Alguma coisa que tenha ficado pra você assim, desses anos de trabalho todo aqui em Garoupa. 


R – Em termos profissionais, técnicos? 


P – O que você quiser escolher. 


R – Eu acho que, pela primeira pergunta que você fez aí, a gente pode, sobre o costume, como começou, como contar como as pessoas viviam no início. Ninguém estava habituado com o regime de trabalho ainda. Uma coisa nova. As brincadeiras fora do meio de trabalho foram muito grandes. Então, no costume até hoje em dia, nem pode-se pensar em fazer uma coisa dessas, dar um banho no companheiro, de água. Tem os procedimentos. 


P – Os trotes?


R - Aquelas brincadeiras iniciais, os trotes, não cabem de jeito nenhum dentro ________. 


P – Você passou por um trote?


R – Todo mundo passou na época. 


P – Qual era o seu?


R – Os trotes era o banho, as armadilhas que se faziam pra dar banho na pessoa. Inclusive tem uma que é, acho que é famosa aí, que tinham duas pessoas que sempre estavam preparando ali um trote com uma cadeira. A pessoa chegava, ficava toda desestabilizada na cadeira. Aí o pessoal lá arquitetou um plano. E era muito difícil, que eles trabalhavam só na área administrativa, não saiam na área operacional. O pessoal arquitetou um plano pra conseguir pegar os dois. E aí, inventaram que tinha uma baleia aí fora, perto da plataforma. As pessoas saíram desesperadas pra ver a baleia, no fim ele estava esperando era um banho. Tomaram o banho. Esse trote ficou bem conhecido. Isso ajudava muito naquela época. Até se ambientar ao regime de trabalho, passava o tempo. Tinha muita brincadeira desse tipo. 


P – Paulo, o quê que você gosta de fazer nas horas de lazer, quando você não está trabalhando?


R – Folgar. 


P – Não, aqui dentro. O quê que é o seu lazer aqui dentro?


R – O lazer é muito variado. É muito variado no sentido de que, pela limitação que você tem em fazer as coisas, caminhar, assistir uma televisão, assistir um filme, escutar uma roda de música, tocar. Isso aí varia muito. 


P – Vocês tocam também?


R – Tem, tem bastante gente aí que...


P – Violão?


R – Violão, tem guitarra, tem... Então isso aí é muito, vai mais da paciência e da imaginação de você ir administrando a situação de forma que você, não se torne rotina alguma coisa que você vai, ela se tornar rotina e você não vai mais agradar, gostar daquilo. Então, é difícil especificar exatamente, “Ah, não, faço isso, faço aquilo, faço aquilo”. Não dá pra especificar isso. Você tem que ter uma, ficar navegando aí nas suas opções. 


P – Tá certo. Paulo, você é sindicalizado?


R – Sou. 


P – Você, desde quando que você é?


R – Desde que entrei na empresa. Acho que foi automático. 


P – E você participou assim de algum movimento, reivindicação?


R – 1990 assim, participei. Depois eu não participei mais não. 


P – E você participou, como é que era participar dentro da plataforma? Tinha, também, pessoas...


R – Tinha grevistas, tinha. Em 1989 nós fizemos aí um, acho que foi 1989, não lembro a data exata, uma greve, um movimento forte. 


P – O quê que vocês estavam reivindicando?


R – Ah, especificamente já não sei mais. É aumento salarial, plano de cargos, esse tipo de coisas assim. E também era, pelo que a gente entende, é totalmente diferente você fazer um movimento dentro da unidade, numa plataforma, ou fazer um movimento grevista, no caso, dentro de uma plataforma de petróleo, do que uma em indústria. 


P – Mas dava pra fazer greve numa plataforma?


R – Da, da. Mas se faz greve em plataforma. 


P – Chegou a ter?


R – Já chegou a ter. Fecha os poços, para a produção. Mas até...


P – Faz a greve aqui dentro mesmo?


R – Aqui dentro mesmo. 


P – Então tá. Paulo, tem alguma outra história que você gostaria de deixar assim registrada?


R – Tem tantas histórias. Formar uma agora, assim de lembrança, eu não tenho. Não sei, pode ser que eu lembre no decorrer da entrevista. Se eu lembrar eu te falo. 


P – Paulo, deixa eu te perguntar também mais uma coisa desse seu trabalho. Garoupa está fazendo 20 anos?


R – 20 anos. 


P – E você está aqui desde o princípio?


R – Do módulo definitivo, desde o princípio. Não do acompanhamento do projeto, mas do startup, da pré operação e operação, sim. 


P – Mas a própria estrutura da plataforma mudou, né? 


R – A estrutura básica não. Acomodação, os módulos. 


P – O quê que mudou? 


R – Mudou muitos painéis de controle. Os equipamentos permanecem os mesmos ainda. Foram modernizados alguns, mas a estrutura básica alterou pouca coisa. Mas alterou o módulo de acomodação aqui, que fizeram quadra de esportes, esse tipo de coisa. Mas basicamente, vamos dizer 80%, permanece a mesma coisa. 


P – E Garoupa, ela recebe, ela é uma unidade...


R – Garoupa é uma plataforma central. Ela recebe de várias outras plataformas, trata o petróleo e bombeia pra terra. 


P – Ela recebe de quais plataformas? 


R – Ela recebe do Pólo Nordeste, do Pólo Norte, e vai receber Viola agora. Gás de Albacora passa por aqui. E do Pólo Nordeste é pago Vermelho 1, 2 e  3, Carapeba, ______. 


P – Então ela mudou um pouco essa característica dela também, de só produtora pra...


R – Ah, sim. No início ela só recebia do Pólo Norte, Namorado. 


P – Ela, já no início ela já era receptora?


R – Ela já recebia. E depois, aí ela começou a receber das outras. Hoje em dia o forte dela é processar o petróleo recebido por outras e enviar pra terra. A produção dela já está em declínio aí. 


P – E, Paulo, você acha que ela está precisando, com 20 anos, qual é a, tem uma teoria que tem uma durabilidade, uma plataforma. Você acha que ela está precisando de uma reforma? Ela tem um papel importante aqui, de toda essa tradição dela de ser a primeira. Você acha que ela está precisando dar uma reformada? O quê que você pensa aí? 


R – Bom, em termos operacionais ela é fundamental. Não tem como o Pólo Nordeste mandar pra terra sem Garoupa. A não ser que se faça outras, dê outras condições operacionais pra esses sistemas. Ela continua recebendo investimento no sentido dessa característica dela, de mandar pra terra. Agora vai receber gás de Roncador. Está pra receber Viola, e tem uma outra formação aí, aqui perto da área, que ela vai receber esses poços mesmo. Então ela, acho que o programa de abandono dela está já mais pra 20 anos aí pra frente, se não for 30 anos. Necessariamente ela, sem manutenção, ela não vai sobreviver. 


P – Vocês estão com algum plano? 


R – Existe plano. O ativo está preparando um flotel já pra 2006, pra entrar no, a plataforma ter mais condições de sofrer essa manutenção. Porque, com a capacidade de vagas que ela tem, as obras de manutenção que ela necessita, ela passaria aí mais dez anos pra ser executadas. Então tem a previsão de um flotel, uma plataforma flutuante que encosta do lado, aplaca esta e dá todo o suporte em termos de vaga, outros apoios logísticos aí, para a manutenção da unidade. 


P – Então tá. Paulo, você tem mais alguma outra história que você gostaria de deixar registrado?


R – Eu garanto pra você que a hora que eu sair daqui eu vou lembrar um monte. 


P – Isso faz parte. Você já lembrou de uma que foi engraçada, da baleia. E, enfim, então eu queria também perguntar o que você achou da iniciativa do sindicato de estar fazendo esse projeto, e se você gostou de ter vindo participar. 


R – Agora a pouco mesmo a gente estava conversando lá embaixo. É uma coisa importante. Porque a gente corre o grande risco, o comentário que a gente estava fazendo, a gente corre o grande risco de um dia aposentar e parar e olhar e falar: “Oh, trabalhamos 20 anos, 25, 30 anos, num lugar que não existe mais”. Porque, se por um motivo ou outro, resolver abandonar a plataforma, ela vai deixar de existir. Então, eu acho que é uma iniciativa muito importante, não só pra Petrobras, até mesmo pras pessoas que estão participando disso.


P – Fizeram essa história. 


R – Pelo menos ficou o registro em algum lugar. 


P – Então tá, Paulo. Eu queria agradecer a sua participação, você ter vindo colaborar com a gente. 


R – A gente que agradece. 


P – Obrigada. 


R – Tá bom. 

 

- - - FIM DA ENTREVISTA - - -

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