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História

A vida pitoresca de uma ginecologista

História de: Denise Damian
Autor: Raquel
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Denise é a filha mais velha de três irmãos. Sempre muito dedicada aos estudos, não admitia tirar notas abaixo de dez. Seus pais a inspiraram na escolha da profissão, em especial sua mãe, falecida em decorrência de um câncer quando ainda estudava para o vestibular. Estudou Medicina na UFRJ. Unimed e Cooperativismo. Unicred.

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História completa

Projeto Memória Unimed Rio Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Denise Damian Entrevistado por Aparecida Motta e Rogério Ferreira Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2004 Código: UMRJ_HV006 Transcrito por Viviane Fuentes Revisado por Deborah Belluzzo e Viviane Berkowitz Malaco P/1 – Boa tarde, Denise. R – Boa tarde. P/1 – Primeiro eu queria agradecer, em nome do Museu da Pessoa, você estar aqui para dar esta entrevista para o Projeto Memória Unimed Rio, e eu queria começar pedindo para você dizer seu nome completo, local e data de nascimento. R – Antes de dizer meu nome completo, local e data de nascimento, eu queria agradecer a vocês de terem me convidado. É uma honra muito grande estar aqui falando em nome da memória da Fundação Unimed, também falarei sobre os meus pais, o que é uma grande honra pra mim. Meu nome é Denise Damian, e que mais você quer saber? P/1 – Local e data de nascimento? R – Eu nasci no Rio, na época era Distrito Federal, mas agora é Rio de Janeiro. P/1 – Quando? R – A data? Ninguém merece isso [risos]. Tem que falar dia, mês e ano? P/1 – Sim. R – 12 de agosto de 1955. P/1 – Muito bem, Denise. R – Pôxa [risos]. Isso é maldade, cara. Você disse que ninguém ia saber disso. P/1 – Agora, Denise, eu queria que você falasse o nome dos seus pais e qual era a principal atividade deles. R – Meu pai: Charles Damian, médico. Quando ele faleceu, ele era presidente da Federação Nacional dos Médicos, ele partiu aos 30 e poucos anos de vida. Ele teve um problema físico, na verdade, ele era radiologista e aí teve um problema. Na época, não tinha aquela proteção de raio-X, e ele teve que operar a catarata muito novo. Ele ia se aposentar e o Nicola Caminha, que era chefe da cadeira de radiologia, convidou-o para continuar, mas na parte administrativa, daí ele partiu para o Sindicato dos Médicos e fundou a Federação Nacional dos Médicos com um grupo e, nessa época, tinham três sindicatos no Brasil, e quando ele morreu já eram 23 sindicatos no Brasil, e ele morreu presidente da Federação Nacional dos Médicos. P/1 – E sua mãe? R – Minha mãe faleceu muito cedo, com 49 anos, mas ela teve uma carreira brilhante. Quando ela faleceu, ela era professora-assistente da Faculdade Nacional de Medicina. Ela era médica e ginecologista. P/1 – Você conheceu seus avós? R – Conheci minhas avós, os meus avôs não, eles morreram eu não era nascida ainda. P/1 – Qual é a origem da família? R – Meu avô de parte de mãe, meu avô materno, alemão. Minha avó materna, italiana. Meu avô paterno, francês, daí vem o nome Damian, e minha avó paterna, libanesa. Graças a Deus, meu pai e minha mãe, brasileiríssimos. P/1 – Você tem irmãos? R – Dois. Uma irmã e um irmão. P/1 – Eu queria que você falasse um pouco deles, o nome e a atividade deles. R – Eu sou a mais velha, a minha irmã do meio é a Dóris Damian, ela se formou em engenharia e agora, recentemente, descobriu que o talento dela é ser professora de matemática, então ela voltou para a faculdade. Passou agora, ela me trouxe até. Tem que fazer agora um trabalho científico, né? Eu não sei o nome daquilo que a pessoa vai lá e fala na frente. E ela tirou dez no trabalho científico dela. Ela está fazendo matemática, é um trabalho interessante, ela vai trabalhar com autista, autista não, aquele que tem falta de atenção, não é autista, é outro nome. P/2 – O autista também tem falta de atenção. R – Não, mas é totalmente desligado. Dislexia! Disléxico. Ela vai trabalhar com disléxicos, vai tentar fazer um programa, trabalhar com informática, tentando ver se os disléxicos aprendem matemática, porque os disléxicos não conseguem aprender matemática, na maior parte das vezes. Ela ganhou uma bolsa, vai agora para o Rio Grande do Sul, ela está tendo o maior sucesso na matemática, professora de matemática. P/1 – Mas você disse que tem outro irmão. R – Meu irmão é engenheiro e ele mora em São Paulo. O nome dele é Cláudio Damian e ele nasceu em 1961, está fazendo agora 43 anos, e está muito bem lá em São Paulo, quer continuar em São Paulo, adora São Paulo, eu detesto São Paulo [risos]. Mas adoro meu irmão. P/1 – Eu queria que você falasse um pouco, eu vou te fazer algumas perguntas sobre o tempo que você era muito pequena. Eu queria saber onde é que você morava aqui no Rio de Janeiro? Como é que era a vida na sua casa, você tinha pais médicos, como é que era isso? R – Tem que perguntar pra eles como é que eles me aguentavam, porque eu sempre fui muito levada, mas eu era muito estudiosa também, então eles não podiam me dar bronca, porque eu sempre tirava dez, só vinha com medalhas da escola, então podia ser levada pra caramba. P/1 – Vocês moravam onde? R – Botafogo. Quando eu nasci meus pais moravam na Paulino Fernandes e, aos seis anos de idade, eu me mudei para a Voluntários. Na época, a Voluntários era uma rua de mão e contramão e passava bonde. Eu me lembro que, uma vez eu fui fazer a despedida do bonde, que ia ser o último dia que o bonde ia passar pela Voluntários, aí teve aquele passeio na Voluntários, de bonde, dando tchauzinho para todo mundo. Na rua Voluntários eram chácaras, não era como é hoje, tudo era chácaras, a gente criava codorna, a gente criava coelho, criava tartaruga, o que você quiser criar, a gente criava [risos]. Criava animal pra caramba lá. P/1 – Quando você era criança, mesmo na Paulino Fernandes e na Voluntários, eram casas? R – As duas eram casas. A Paulino Fernandes era uma rua sem saída, então a gente saía da escola e ia a pé, eu estudava no Pedro II, no Humaitá, eu ia até a minha casa. Não, na Paulino Fernandes eu não estudava no Pedro II, não, na Paulino Fernandes eu estava fazendo primário, aí era pertinho de casa. A gente saía da escola e ia brincar na rua, fazer amarelinha na rua, brincar de pique-esconde, subia em árvores, era a tortura, subir em árvores, os pais da gente ficavam desesperados, todos os pais “vocês estão subindo na árvore!” porque eles tinham medo da gente cair. P/1 – E você caiu e se quebrou? R – Não, nunca. Eu fui atropelada de bicicleta, mas nunca caí, nunca quebrei nada. P/1 – Você pelo visto era bagunceira mesmo. R – Levada, bagunceira não. P/2 – Qual é a diferença? R – Levada faz arte. Bagunceira faz bagunça. Eu não era bagunçada, as minhas coisas estavam todas arrumadinhas, tudo direitinho, eu estudava muito bem, eu fazia todo o meu dever, mas na hora de fazer arte, subir em escada, descer pelo corrimão que não podia, tudo que não podia fazer, a gente queria fazer. Era arte, não era bagunça, é diferente. P/1 – Nas tuas casas, nessas casas mais antigas havia quintal? R – Pra caramba! Era o que mais tinha. P/2 – Fala um pouco mais de como é que era Botafogo. R – Era tudo chácara, a gente conhecia todo mundo, todo mundo se conhecia, não tinha perigo da gente andar na rua, a gente brincava, corria, andava de bicicleta, ia para a casa do outro, plantava, eu plantei pé de manga, pé de nêsperas, plantei pé de maracujá, foi uns dez pés que eu plantei. Adorava suco de maracujá, era uma vida muito gostosa, vida de campo, como se tivesse num campo. P/1 – Como é que era o cotidiano da tua casa? R – A coisa que eu mais me lembro da minha infância é que, todo dia, às seis horas da tarde, faltava luz. Então era assim, não tinha televisão na época, o papai sentava na mesa, a gente ia jantar, o jantar era cinco e meia, seis horas, quando faltava luz a gente estava na mesa de jantar, aí papai contava história pra gente, ficava contando histórias, era uma vida diferente, mamãe trabalhava fora até uma da tarde, pegava a gente na escola e ficava a tarde com a gente, tomando conta pra gente estudar, orientando e tudo mais, seis da tarde estava todo mundo jantando, a gente ia dormir oito, sete horas da noite, oito horas a gente estava dormindo. P/1 – Nessa época seu pai trabalhava onde? R – Desde que eu me lembro, papai fazia política médica. Quando eu nasci, ele perdeu a primeira vista, então ele já foi afastado da radiologia. Naquele tempo ele não tinha perdido a vista, não, ele tinha operado a catarata, quando a minha irmã nasceu, três anos depois, ele perdeu a segunda vista, operou a segunda vez a catarata, e então desde que eu me entendo por gente, meu pai estava envolvido em política médica. P/1 – E sua mãe trabalhava onde? R – Mamãe era professora da Faculdade Nacional de Medicina e trabalhava no Moncorvo Filho, Instituto de Ginecologia da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. P/1 – A área dela... R – Ginecologia e Obstetrícia. P/1 – E você acha que, desde pequenininha, você teve alguma influência deles pra você seguir essa carreira? R – Desde os três anos de idade eu queria ser médica. Eu andava pela cidade, quando eu chegava na Praia vermelha, que tinha a Faculdade de Medicina, eu ficava super excitada com a ideia de que tinha uma escola de medicina lá, eu falava “escola meca, cola meca, eu quero ser meca!”. Eu não sabia o que era, mas eu queria ser. Sempre quis ser médica na minha vida. Se influenciou, influenciou muito bem, porque eu acho que eu não saberia ser outra coisa que não fosse ser médica, então eu agradeço que tenha influenciado. P/1 – Na sua casa havia uma educação que privilegiava alguns aspectos da religião ou da política? R – Na religião foi uma coisa muito engraçada, porque minha avó materna era protestante e minha avó paterna era católica apostólica romana, e aí, lá em casa tinha assim, um final de semana nós passávamos na família de mamãe, o outro final de semana, passava na família de papai, então no final de semana que era da família da mamãe, eu ia para a escola dominical e assistia culto, o padre não era padre, era pastor, falava em português e olhando pra gente e não se adorava imagens. No outro final de semana, que eu ia para a Igreja Católica, o padre era padre, falava em latim, de costas para a gente, e a gente tinha que adorar uma porção de imagenzinhas, dar moedinhas, acender velinhas, e não tinha escola dominical, que era divertidíssima a escola dominical, então eram duas religiões totalmente diferentes. O que eles tinham de comum era a fé em Deus e acreditava em Cristo, então eu acho que daí eu cheguei a seguinte conclusão: que não importa a religião que você tenha, importa que você acredite em alguma coisa. Então, se você tem fé e acredita e tem crença, já está válido, já está bom, porque isso cria parâmetros de vida, parâmetros de ética, parâmetros de moral, parâmetros de encontro familiar, o resto é bobagem. Você tem que ter fé e acreditar em alguma coisa. Até acreditar que não acredita é uma crença. A religião foi muito importante, foi eclética, fui educada de uma maneira eclética na religião. A outra coisa que você perguntou foi de política. Política foi uma loucura, porque meu pai era uma pessoa extremamente política, minha família de pai, eu fui descobrir, outro dia, que o Hino Nacional Libanês foi feito por um primo meu, eu fui descobrir, outro dia também, um primo meu era o braço direito de um desses presidentes da República que mandava matar e acontecer, eu não me lembro o nome... Artur Bernardes, pode ser? P/1 – Pode? R – Então era esse. P/1 – O popular Seu Mé, o apelido dele. R – É, ele matava todo mundo... P/1 – Não mandava matar muito não, mas era muito __________. R – Era ele que tinha uma pessoa de segurança que era um negão, altão, fortão? P/1 – Não, esse era o Getúlio. R – Então era o Getúlio [risos]. Meu primo era o braço direito do Getúlio e ele foi envenenado, porque descobriu alguma coisa lá, estava tomando a bebida e caiu, ele morreu, isso ninguém viu, ninguém sabe. Era do Getúlio que ele era. Então, já tinha uma história familiar e política, mas eu nasci numa época que começou, logo em seguida, a revolução. O maior pavor do meu pai era que eu gostasse de política e me metesse em política. Vários amigos dele sumiram, filhos de amigos sumiram, desapareceram, então ele não queria de jeito nenhum que eu me metesse em política e eu fui sempre muito curiosa por política, e aí eu escutava os telefonemas dele, ficava detrás da porta, escutando ele falar no telefone, quer dizer, a política que eu aprendi foi de escutar telefone dos outros [risos], do meu pai. Às vezes, ele sabia que eu estava escutando, aí ele falava “Denise, sai daí que você não pode escutar isso!” [risos]. Aí eu saía, depois voltava, mas saía na hora. P/1 – Você acha que isso, de alguma maneira, influenciou suas posições políticas hoje, quaisquer que elas sejam? R – Claro que sim, eu acho que a política é política da vida. Viver já é uma arte política, então você aprende a viver, aprende a ter critérios, noções de ética, de moral, de costumes, de hábitos, atos de conviver, isso a gente aprende em casa mesmo. A gente aprende política em casa. Agora, partido político, opinião política, isso você faz ao longo da sua vida, não necessariamente você segue os caminhos dos seus pais. Meu pai, por exemplo, ele achava que o bom para o médico. Primeiro, ele não queria que eu fosse médica, aí eu fui ser médica, depois ele queria que mesmo sendo médica eu tivesse uma emprego único com dedicação exclusiva, eu resolvi nunca ter emprego e tive meu consultório quer dizer, se eu fosse seguir o que ele queria [risos], realmente eu não seria o que eu sou hoje, mas uma das coisas que ele me ensinou muito, e mamãe também me ensinou muito, foi o seguinte: que a gente tem que fazer aquilo que faz a gente ser feliz, o trabalho pra gente não ter que ser trabalho, tem que ser origem de prazer. Então, se você consegue descobrir o que te faz feliz e consegue fazer aquele trabalho que te faz feliz com prazer, você vai ter sucesso, com certeza. Isso, eles me ensinaram. Isso, eu aprendi. P/1 – Seus pais eram felizes no trabalho deles? R – Eram felizes e orgulhosos. A minha mãe foi copeira da escola em que ela estudava. A minha mãe lutou muito para ser médica. Ela fez três ou quatro vestibulares, estudava de noite, trabalhava durante o dia, estudava de noite, e só tinha um par de sapatos para ir para a escola e para a faculdade. Ela não tinha dinheiro para ir para a faculdade. Da praia vermelha pra ir de ônibus, de trem ou de bonde, não sei qual era o transporte da ocasião, ela ia a pé. Ela morava aqui perto, no Cosme velho mesmo, e descia a ladeira aqui no Cosme velho, descia tudo, ia até a Praia Vermelha a pé e voltava. Quando o sapato ficava com aquele buraquinho na sola, na segunda ou terceira emenda, que não tinha mais como usar o sapato, ela chegava e comprava um outro. Ela tinha um vestido, ela lavava o vestido à noite pra usar no dia seguinte, de manhã, e ela se formou em medicina, foi uma das poucas médicas da turma dela. Naquela época, mulher ser médica era uma proeza, era uma coisa que não tinha. Na turma dela, eu não sei quantas médicas tinham, 10 médicas, no máximo. P/1 – Você se lembra o ano que ela formou? R – Deve ter se formado em 1950, 1952, por aí. Ela se formou entre 1950 e 1954, eu não sei exatamente que ano, até posso descobrir, mas não sei. Ela não chegou a catedrática, eu creio que porque morreu com 49 anos, mas ela com 49 anos ser professora assistente da Cátedra?! É uma mulher poderosa [risos]. O meu pai também era de origem muito humilde. Meu pai vendeu banana na feira, ele fazia aqueles carrinhos de madeira, tinha muita habilidade com madeira e vendia aqueles carrinhos de madeira. Também não tinha como ir de transporte pra escola e ia a pé, e morava aqui perto, em Laranjeiras. Agora, eles se conheceram na faculdade. Os dois, de origem muito humilde. Lutaram muito para chegar onde chegaram com honestidade e integridade, isso eu sei nem tanto por ter convivido com eles, porque meu pai morreu com 60 anos, não morreu tão idoso, morreu jovem para os padrões atuais. Então, hoje, o convívio que eu tenho com os amigos deles e com as pessoas que os conheceram é que eu sei o quanto que eles eram amados, o quanto que ele eram queridos, o quanto que eles tinham de integridade, de caráter, de ética, de moral. Eu tenho o maior orgulho. É o maior patrimônio que um pai pode deixar para o filho é a sua vida de honestidade e integridade, isso eu me orgulho muito. P/1 – Agora eu quero voltar a falar um pouco mais de você, eu quero que você lembre a tua primeira escola. R –Primeira escola? Colégio Santo Amaro, num colégio de freiras. Quando chegou no sexto ano, eram dez livros de Religião, um de História e Geografia, um de Português e outro de Matemática. A minha mãe falou assim: “Para, ela não vai mais ficar nessa escola. Ela não vai ser freira. Ela vai ter que ser profissional, vai ter que escolher um caminho”. Aí eu saí de lá, do Colégio Santo Amaro, só de meninas, que tinha que usar uma saia até o meio da canela e você não tinha contato com homem e era só freira. Era só religião. Tinha que entrar às seis horas da manhã rezando o Padre Nosso, para o Pedro II. P/1 – Mas o Colégio Santo Amaro era semi-interno? R – Era semi-interno, chegava lá às 6h da manhã e saía de lá às 6h da tarde. P/1 – E quem decidiu que você ia para o Pedro II? R – Minha mãe decidiu que eu tinha que sair do Santo Amaro, e aí então eu fui fazer um curso de admissão no Mozart, nem existe mais, era perto do Tabuleiro da Baiana. Nesse colégio, no Mozart, era assim, uma ala de meninos e uma ala de meninas, e ele era um professor que dava bronca na gente com varinha. Dava “varinhadas”. Pode ser? P/1 – Varadas. R – [risos]. Varadas na cabeça da gente, isso é uma estupidez, mas fazia isso, e daí do Colégio Mozart eu passei para o Pedro II, porque no Pedro II, não basta você decidir ir, você tem que passar no concurso, é como se fosse um vestibular daquela época. Aí eu passei no Pedro II, na primeira turma, com as melhores notas e fiquei lá porque era perto de casa, no Humaitá. P/1 – Você fez ginásio e científico? R – O ginásio e o científico no Pedro II. P/1 – Eu queria que você falasse como é que foi essa experiência do Pedro II. R – A experiência do Pedro II, inicialmente, foi traumática, porque eu tive que lidar com menino. Imaginou que coisa horrorosa que é isso? [risos]. Era um bicho que eu não conhecia, eu só conhecia meninas [risos]. Aí eu tive que lidar. Era um terror, eu não conseguia falar, eu não conseguia conversar, eu me sentia muito ameaçada, não era a minha praia, e como eu gostava muito de estudar, eu estudava muito, aí eu comecei a ser a melhor aluna da turma. Tinha um colega meu, o Aníbal, que era o segundo, era eu e ele, nós dois éramos os melhores da turma, tinha o Paulo também, era Paulo, Aníbal e eu. Então, acabou que a gente começou a se unir pelo estudo, e eu comecei a lidar com garotos através dos estudos, porque era quando eu, Paulo e Aníbal ficávamos trocando figurinhas. Só quem conseguia me acompanhar no aprendizado era o Paulo e o Aníbal, que estavam no mesmo nível de estudo que eu. A gente trocava ideias, começava a conversar. Passou-se um ano, dois anos, no terceiro ano eu não tinha mais medo de menino [risos]. Já estava acostumada com o sexo oposto. Foi um grande benefício que o Pedro II meu deu! [risos]. Além dos professores, que eram fantásticos, além do rigor com as matérias, era diferente no Pedro II. Eu estudava latim. Imagina, estudar latim e grego? Era francês, inglês, latim e grego, fora as matérias do tradicional. Tinha canto no Pedro II, era muito legal! Era uma outra vida, aí quando fiz o científico, eu fui para a cidade, para Rua Larga, Marechal Floriano, se eu falar Rua Larga [risos] vão pensar que eu sou velha demais. P/1 – Algum professor, particularmente, te marcou, você se lembra de algum deles? R – Vários professores. P/1 – Então me diz. R – Tinha o professor de latim, que eu adorava, não pergunta o nome porque eu já não consigo lembrar mais. Tinha o professor Verner, que esse eu me lembro, era de química. Aquele professor era um terror, todo mundo morria de medo dele, me marcou pelo seguinte, eu fiz uma prova espetacular, eu sabia toda a matéria, e aí ele me deu nove ponto nove e eu fui lá reclamar com ele. Como é que eu tinha acertado tudo e ele me deu nove ponto nove? Aí ele disse: “Só dou dez para Deus, então você tira 9.9”. Não entendi nada, mas eu resolvi não brigar com ele, [risos]. Porque devia ser uma coisa muito poderosa dar dez para Deus, e foi um nove ponto nove que eu fiquei feliz, porque eu chorava muito quando eu tirava menos que dez, menor que dez eu chorava. P/1 – Qual era a atitude dos teus pais? R – Eles ficaram horrorizados. Eles falavam: “Denise, você estudou!”. Meu pai, um dia, foi uma coisa engraçadíssima, para ganhar medalha, eu tinha que tirar dez em tudo, aí teve uma matéria que eu tirei 9.7, 9.8, aí eu perdi a medalha. Gente, eu entrei numa depressão! Eu chorava copiosamente, aí meu pai falava assim: “Minha filha, se você quiser eu vou na Rua da Alfândega, na Buenos Aires, e compro dez medalhas pra você, 20 medalhas pra você, 100 medalhas pra você, mas pára de chorar, não tem necessidade de você chorar por causa disso”. “Eu quero a medalha, eu não que você compre, eu quero ganhar a medalha!” [risos]. Eu queria tirar dez em tudo, não era cobrança dos meus pais, ao contrário, eles ficavam até preocupados com a minha reação de choro quando eu não tirava dez, e eu queria tirar dez em tudo, eu estudava para isso, sempre estudei para isso. Agora, recentemente, eu fiz um curso de MBA [Master in Business Administration] de finanças e eu não chorei porque eu não estou mais com idade de chorar, mas eu fiquei bastante triste, tirei nove e meio [risos]. Não mudei muita coisa, eu apenas compreendi que eu não ia conseguir tudo, que nem o dez, mas eu fui a melhor aluna da turma da IBMEC [Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais], e isso foi surpreendente, porque era um grupo de economistas e eu era a única médica da turma, aí um colega reclamou que a matéria era muito difícil, então o professor usou o meu exemplo: “Mas eu tenho uma médica que tirou 10”. Um colega meu, que sabia quem era a médica: “Olha, se você está falando de Denise, não adianta, porque ela não serve de parâmetro para nada”. Eu sempre gostei de estudar e eu quero sempre tirar dez, eu estudo muito, eu mereço tirar dez. P/1 – Como é que foi essa passagem da Humaitá para a Rua Marechal Floriano? R – Não foi muito difícil não, não tem nada de especial para contar não. P/1 – É porque aí já ficava longe de casa? R – Ficava longe de casa, mas ficava perto do Moncorvo Filho, que era perto da mamãe. Eu terminava o colégio, atravessava a Marechal Floriano, atravessava o Campo de Santana e ia almoçar com a mamãe lá no Moncorvo Filho. Eu ficava estudando lá até a hora que ela fosse embora para casa, ela me levava para casa. Foi onde eu aprendi a fazer compras na Rua da Alfândega, é muito bom comprar coisas lá, aprendi a comprar lá coisas baratinhas, aprendi a conhecer a cidade, eu gostei de estar na Marechal Floriano, foi uma abertura de vida para mim. Eu já estava com uma outra cabeça. Já estava com uma outra visão de vida. R – Na Marechal Floriano você estava fazendo o científico se encaminhando para medicina. Você já estava estudando para passar no vestibular? P/1 – Eu sempre estudei para passar no vestibular de medicina, nunca pensei em ser outra coisa, desde os três anos de idade. P/1 – Me fala do vestibular, como é que foi, foi difícil? R – Só teve uma dificuldade no vestibular, foi eu ter que lidar com a morte da minha mãe, porque foi diagnosticado o câncer dela no ano em que eu estava fazendo vestibular, então aquilo me ameaçou muito. Minha mãe morrendo, definhando, aquilo lá foi muito doloroso para mim, e aí eu não consegui, naquele ano, render tanto quanto eu tinha rendido ao longo da minha vida. Eu não conseguia me concentrar muito nos estudos e me criticava por não conseguir concentrar. Hoje, eu entendo que eu não tinha condições de conseguir, mas na época eu achava que eu tinha que conseguir. Então, eu não consegui passar entre os dez primeiros alunos da faculdade, só isso, eu passei entre os 40 primeiros. Um colega meu de turma, ele já até faleceu, ele dizia: “Denise, eu não merecia passar, você tinha que estar entre os cinco primeiros, você sempre foi uma excelente aluna, você tinha que estar”. “Não, mas eu passei, eu estou bem”. nessa época, o sonho da minha mãe era sobreviver até ver eu entrar na faculdade, e ela viu eu entrar na faculdade. P/1 – Qual faculdade? R– Nacional de Medicina. P/1 – Na Praia Vermelha? R – Não era Praia Vermelha mais, já tinham demolido. A revolução fez um grande favor ou um “desfavor” à nossa sociedade quando demoliu a nossa Escola de Medicina. P/1 – Então você estudou exatamente onde? R – Eu estudei na Santa Casa, no São Francisco e no (Fundão?). P/1 – Como é que era esse tempo de faculdade? Você fez a faculdade na época dos governos militares, como é que foi isso? R – Foi muito engraçado. O mais triste do Governo Militar foi no Pedro II. Quando eu estava no ginásio era assim a gente ia para a aula e: “Hoje não vai ter aula”, porque ia ter uma crise, uma greve, um treco qualquer, não ia ter aula: “Hoje, não pode ter aula porque não pode ter aula.” Na época que teve a revolução ainda tinha um Governo aqui na Rua Pinheiro Machado. Lá era o Palácio do Governo, era isso? P/1 – O Palácio do Governo Federal era no Palácio do Catete, mas isso antes de Brasília. R – Não, mas acontece que ainda tinha Política Governamental aqui na __________. P/1 – Sim, claro, mas é o Governo do Estado do Rio de Janeiro. R – Pois é, então, minha avó morava na _____ Dantas, e a gente não podia visitar a vovó, porque ficava aqueles tanques de guerra lá na rua, porque teve a revolução, teve o Golpe de Estado. P/1 – Isso em 1964? R – Não me pergunta, eu sei que ainda não estava funcionando Brasília, era aqui. Em 64? Exatamente, deve ter sido isso mesmo, eu estava justamente no ginásio, no Pedro II, foi a época mais difícil, 1964, 1970, por aí. P/1 – E na faculdade, como é que era? R – Na faculdade não teve problema, ninguém podia falar nada, ninguém falava nada, não se discutia nada, estava tudo certo. P/1 – Como é que eram os professores, as aulas? Como é que foi tua vida acadêmica? R – Foi ótimo. Todo mundo conhecia minha família, todo mundo conhecia meu pai e minha mãe, era o xodozinho da turma. Foi aí que eu descobri meu lado leonino, entendeu? P/1 – Como assim? R – Porque o leão gosta de aparecer, gosta de ser, gosta de acontecer, e lá eu acontecia [risos]. Primeiro, eu estava fazendo uma coisa que eu realmente queria fazer, que era medicina. Segundo, na faculdade que eu queria fazer, que era a Nacional de Medicina [risos]. Terceiro, é que era meu ambiente de vida, minha família, todo mundo se conhecia, eu estava no meu ambiente, eu estava na minha praia, então eu fui muito feliz na faculdade, grandes amizades, sempre fui boa aluna, foi tudo muito bom na faculdade. Eu tive muito orgulho de estar fazendo medicina na Nacional. P/1 – O período que você estava na faculdade coincide com o período em que seus pais fundaram a Cooperativa Médica ou eu estou equivocada? Porque a Cooperativa foi fundada em dezembro de 1971. R – Pois é, eu ainda não estava na faculdade. Eu entrei na faculdade em 1974. P/1 – Eu queria que você lembrasse pra gente, dissesse pra gente, se você tem alguma memória dessa época da fundação, se tinha reuniões, por exemplo, na casa de vocês, se as pessoas se reuniam para discutir estatutos ou a criação de uma cooperativa médica, como é que era? R – As reuniões, se não me falha a memória, elas eram na Sociedade de Medicina e Cirurgia, eu não participei de nenhuma, naquela época. Em 1971, eu estava com dez, 15 anos, então, eu estava entrando no científico. Eu me lembro de papai. Papai ia muito a reuniões o tempo todo, ele vivia em reunião. Eu me lembro que o Castilho, que tinha fundado lá o de Santos, tinha feito lá em Santos e veio para o Rio, na época era Comeg [Cooperativa de Serviços Médicos e Hospitalares do Estado da Guanabara], e eu me lembro que não era normal médico ter consultório. Naquela época o médico tinha o emprego lá, o Serviço Público, e eram poucos os médicos que tinham consultório. Minha mãe, naquela época, ela ia visitar cliente em casa, tinha uma bandejinha com sabonetinho do médico, toalhinha do médico, o paciente não ia no consultório como é hoje. Os serviços públicos eram muito bons, Servidores de Estado era um baita hospital, Lagoa, Ipanema, todos eles, seria injusto não falar de algum, então todo mundo procurava o Serviço Público. Assim como era o Colégio Público, ninguém pensava em colégio particular, as coisas mudaram muito nesses anos, então quando foi feita a Unimed [Confederação Nacional das Cooperativas Médicas], a Comeg, na época, poucos médicos tinham consultório e a Unimed ia estar atendendo médico no consultório [risos]. Papai não tinha consultório. Chastinet não mais tinha consultório. Bonfim tinha consultório e tem até hoje. Mamãe tinha, alguns médicos tinham, então era complicado você chegar e fazer contrato com firmas, porque as firmas queriam ver os consultórios: “Cadê os consultórios?”, e as consultas eram feitas no corredor da Unimed para não gastar o dinheiro da Unimed, [risos]. Não cobrava a consulta, era um brincadeira muito legal. A Fundação da Cooperativa foi realmente uma ação entre amigos, se não me engano, os três primeiros contratos da Unimed foram o Sindicato dos Médicos, papai era presidente, a própria Sociedade de Medicina e Cirurgia e o Conselho Regional de Medicina. Pegavam os funcionários e eles atendiam os funcionários ou no próprio hospital, ou até em corredor e tudo o mais, não se cobrava consulta para não onerar a Unimed e, muito frequentemente, se tirava dinheiro do bolso para poder pagar as contas da Unimed, era muito comum isso. P/1 – O que você acha que levou seu pai, o Dr. Chastinet, enfim, o Dr. Bonfim, e outros, eram 27, a tomar essa iniciativa, criar uma cooperativa de médicos? R – Eu acho que eles eram visionários. Eu, sinceramente, acho que eram pessoas, eu admiro muito as pessoas que tem capacidade de ver o futuro, e eu acho que essas pessoas tinham essa capacidade. Eu, outro dia, vi um discurso do papai, que se fosse lido hoje, seria atualíssimo, super atual. Ou o mundo não mudou nada ou essas pessoas tinham a capacidade de realmente ver, prever o que iria acontecer ao longo dos anos. O fato é que naquela época nós tínhamos um Serviço Público muito forte, a Previdência forte, e nada indicava que os médicos iam caminhar para o consultório, mas essas pessoas tinham uma visão social e, de uma certa maneira, já estavam vendo. Eu me lembro do papai e o Chastinet conversando, eles estavam vendo que ia ter medicina de grupo, que ia ter uma socialização dos médicos e não da medicina, eles separavam muito isso, que iam socializar os médicos, em nome da socialização da medicina, iam acabar socializando os médicos, então uma maneira da gente contrapor isso, contrapor a má remuneração médica, era termos o nosso próprio negócio, quer dizer, a gente ia ser dono do nosso próprio negócio. Se a Unimed seria nossa, nós iríamos estar vendendo nosso próprio serviço, eu não consigo imaginar se eles imaginavam que a Unimed ia ter esse tamanho que ela tem hoje, mas eu me lembro que eles falavam: “Nós temos que ser dono do nosso trabalho, a gente tem que ser dono do nosso dinheiro, a gente não pode deixar ninguém ser dono do nosso trabalho, ganhar dinheiro em cima da gente”. Eu me lembro que eles falavam muito isso, que eles queriam fazer a Unimed para que ninguém ganhasse dinheiro em cima do trabalho médico, a não ser o próprio médico. Eu me lembro que eles davam muita importância a isso, que é super atual. P/1 – Você certamente conheceu o Dr. Chastinet. R – Pra caramba. P/1 – Eu queria que você falasse sobre ele, como é que ele era. R – O Chastinet? Como é que ele era eu não sei, eu sei como ele era pra mim, porque dizem que ele era uma pessoa, e eu o vejo de uma outra maneira. Dizem que era super enérgico, terrível, que fazia e acontecia, comigo ele foi sempre um carinho muito grande. Eu sempre o admirei muito. Ele era um ídolo para mim. Eu acho que um pouco, é lógico que a gente não pode passar o amor que a gente tem pelo pai da gente para ninguém, mas o pouco do amor do meu pai eu acho que eu passei para ele, eu tinha nele uma figura querida, carinhosa, às vezes, um pouco irracional [risos], ou eu que era irracional e não conseguia entender ele, mas a gente conseguia discutir com ele de igual para igual, dizer que não, que ele estava errado. Diz que ninguém dizia pra ele que ele estava errado, eu cansei de dizer: “Eu não concordo com você não,”, e eu falava para ele numa boa, não acontecia nada. Ele dizia que eu era muito jovem: “Você é muito jovem ainda, você ainda vai aprender um pouco mais, você vai entender o que eu estou falando.”, tinha a maior paciência, ele era um carinho pra mim. P/1 – Desses fundadores todos, os 27, que você conheceu, além do Chastinet, você podia falar sobre alguma coisa, sobre alguns desses médicos já desaparecidos? R – Eu não conheço a lista dos 27, mas eu devo conhecer quase que todos os 27, porque eram pessoas contemporâneas de meus pais e, quando meus pais faleceram, na verdade, eles me adotaram também um pouquinho, a verdade é essa. Eu me lembro que tinha o Clube do Uísque, que todo mundo ia reunir nas quintas-feiras, no consultório do Narciso Radares, que é um dos fundadores. Lá não tinha mulher, só tinha homem, aí, um belo dia, eu apareci lá, eu fui a primeira mulher, e única mulher, a aparecer no Clube do Uísque, e comecei a frequentar as quintas-feiras o Clube do Uísque, então os filhos dos Sanderson que deve ter sido fundador, uma pessoa maravilhosa; Bonfim, nosso Bonfim, meu Bonfim, [risos]. Eu não divido ele com ninguém, um carinho, uma pessoa que me ajudou muito, ajudou muito a gente fazer a Unicred e até hoje está aí com a gente; o Celso Ramos, o almirante Celso Ramos, nosso almirante, uma pessoa ímpar; o Rocco, o Rogério Rocco também é uma pessoa fantástica. Quem mais? Miguel Cavalcante, foi fundador também? Foi também. Acho que todo mundo que você falou. O Cony foi fundador também? P/1 – Não, não foi não. Mas essa é a lembrança que você tem deles, como homens visionários? R – Sempre, e muito amigos, muito unidos, eu acho que para uma turma, é uma coisa que, eu sinto assim, é uma beleza de relacionamento, não sei se foi porque teve a revolução, não sei porque a situação política obrigou a isso, mas eles eram muito unidos. Eles eram muito unidos, era tipo assim: “Um por todos, todos por um.” Eles eram muito unidos, era uma coisa muito bonita. P/1 – A sua mãe acho que era a única mulher nesse grupo de fundadores. R – Era? Que máximo! [risos]. Eu não sabia, mas eu achei o máximo saber disso, está vendo? Já é mal de família ser a única mulher no meio de homens. P/1 – Agora eu quero voltar à sua vida acadêmica, quando você terminou a faculdade, você começou logo a trabalhar? R – Não, eu trabalhei desde os 13 anos de idade. Eu comecei como auxiliar da mamãe, eu fiz técnico de laboratório na época do científico, do ginásio, então eu fazia diagnóstico de gravidez, naquela época. Saiu do (Galimanine?) para Prognóstico 1, aí você fazia a urina, espera ter aglutinação ou não ter aglutinação, para dizer se era positivo ou negativo, me sentia toda poderosa naquele teste. Eu fazia os exames no consultório da mamãe. Depois eu passei a ser, eu fiz curso de instrumentadora, aí eu fui ser instrumentadora cirúrgica. P/1 – Antes da faculdade? R – Antes da faculdade. Eu trabalho desde os 13 anos de idade, sempre trabalhei. Já fiz de tudo nessa vida, vendi seguro. Você pode calcular o que eu já fiz, vendi seguro, vendi carro, porque minha mãe morreu, eu ganhava dinheiro, eu tinha minha remuneração, a instrumentadora ganhava 10%, eu ganhava 10%, eu tinha feito curso, eu era instrumentadora cirúrgica. P/1 – Então agora explica direitinho, eu quero saber essa sua trajetória. R – Ai, meu Deus do céu! É? Desde os 13 anos de idade? P/1 – Exatamente. PAUSA R –...Era a única mulher mesmo? P/1 – Eu acho que era, eu não tenho, eu não vi nenhum nome feminino... Ok, pronto? ...Denise, eu quero que você fale então, você estava falando que desde os 13 anos de idade você trabalha, então sua primeira atividade foi técnica de laboratório. R – A primeira atividade minha profissional foi ler os exames prognóstico da clínica da minha mãe. Eu ganhava dinheiro com isso, cada examezinho, eu ganhava meu dinheirinho. P/1 – E depois? R – Depois disso, eu fiz o curso de instrumentador, porque eu achei que podia ganhar mais, aí eu fui ser instrumentadora cirúrgica da equipe de minha mãe. Trabalhei com o Iglesias, também, trabalhei com outros colegas, depois eu tive um emprego como técnica em laboratório na faculdade. Depois eu fiz minha residência, fiz dois anos no Moncorvo, dois anos nas Pioneiras, aí eu fui fazer um trabalho na Campanha Nacional de Combate ao Câncer e depois eu não tive mais emprego. Eu tive meu consultório particular, que eu estou até hoje. P/1 – Quando é que você, na faculdade, resolveu a sua especialidade? R – Eu já queria ser ginecologista antes de entrar na faculdade Eu queria ser ginecologista obstetra antes de entrar na faculdade, já queria ser médica e queria ser ginecologista igual a mamãe. P/1 – Em que ano você formou? R – 1979. P/1 – Você é cooperada da Unimed Rio... R –1983. P/1 – É, queria saber por que tem esse tempo. R – Porque eu fiz dois anos no Moncorvo, quer dizer, 1980 e 1981, no Moncorvo e dois anos nas Pioneiras, 1982 e 1983, e eu montei meu consultório em 83. Para entrar na Unimed, você tinha que ter dois anos de residência e três anos de formada, naquela época era assim. Então, eu já tinha três anos de formada e já tinha dois anos de residência Eu estava na segunda residência, e já tinha consultório, aí eu entrei na Unimed. P/1 – O que você acha, o que você tem a me dizer sobre a diferença entre uma cooperativa de médicos e planos de saúde privados? R – Totalmente diferente. P/1 – Me explica, por favor. R – O produto do trabalho, quer dizer, o produto é o mesmo: plano de saúde, venda de plano de saúde. Agora, fora isso, tudo é diferente. Cooperativa é uma ação, já por si só é diferente na sua ação, que é uma ação cooperada, de trabalho médico. “O que isso significa?” Que os médicos se juntam para fazer uma cooperativa e eles vendem o trabalho deles, ninguém está vendendo o trabalho médico a não ser o próprio médico, e para você vender seu trabalho, você tem que ser dono, então você vende aquilo que você é dono. É totalmente diferente uma cooperativa, a proposta diferente, você elege o presidente, você elege diretoria, você é dono, você manda, também tem que obedecer tem direitos e deveres na vida. P/1 – Quais eram as dificuldades iniciais? R – Todas. P/1 – Por exemplo, nos anos 80 quando você entrou? R – Todas. P/1 – Em que sentido? R – Mercado. Não havia cultura de procurar consultório médico, você ia para o Hospital público, você não tinha uma coisa profissional. Era uma coisa que a gente fazia muito de ação entre amigos, porque o mercado era assim, o mercado era diferente, para vender o plano você tinha que ter um valor baixo, então não poderia remunerar a consulta num valor mais alto, porque senão você não era competitivo de mercado. Eram todos os problemas que uma empresa, que inicia num mercado desconhecido, tem. P/1 – Como é que os médicos viam a cooperativa? R – Depende de que grupo, porque tem um médico que é cooperado e tem um médico que é sócio da cooperativa. Porque o médico que é cooperado, ele sabe o que é ser sócio da cooperativa, eles sabem, eles têm deveres, elegem, podem ser eleitos, ele tem compromisso com a cooperativa, se a cooperativa estiver bem ou estiver mal, ele é co-responsável com a cooperativa, e tem um outro, que ele é cooperado só no nome, ele não é cooperante, ele é cooperado só no nome, ele comprou a cota porque ele quer ter cliente no consultório dele, tendo cliente está bom, não tendo, está ruim, o parâmetro de definição é ter cliente no consultório ou não. O outro grupo, que quer ver o cooperativo crescer, quer ver a cooperativa se desenvolver. P/1 – Você acha que essa “divisão” traz problemas para a Unimed Rio? R – Essa divisão traz problemas para a sociedade, não é para a Unimed Rio, porque a Unimed Rio é consequência de um grupo que se une societariamente. Se você não tem todo mundo com a mesma visão, ou até com visões diferentes, mas com o mesmo foco, fica mais difícil de administrar, mas aí que entra a cultura do país, a cultura cooperativista, tudo, é muito novo no país. A Cooperativa de Trabalho tem 30 anos agora, 35 anos, isso é muito pouco tempo para as pessoas terem cultura educacional, já ter nascido em berço. Você vai na Alemanha, as pessoas nasceram num berço cooperativo, o pai já era cooperativista, e as pessoas já sabem o que é cooperativa desde que nascem, aqui nós não temos duas gerações de cooperativistas, eu faço parte da segunda geração porque meus pais fundaram, mas foram 27 só que fundaram, são poucos os que têm a cultura. P/1 – Você pode falar alguma coisa sobre essa lei que regulamenta as cooperativas? R – A 5.764? O que você quer saber sobre ela? P/1 – Tudo que você puder me dizer. R – É uma lei quase perfeita, porque é uma lei que conseguiu sobreviver ao longo dos 30 e poucos anos. Ela foi feita em 1971/1972. Não, é isso, 1972, 1971? Você sabe? P/1 – Essa eu não tenho certeza. R – Mas ela tem que ser mudada, já é quase perfeita, mas não é perfeita. Alguns parâmetros, mas é uma lei que, por um lado, beneficiou e, por outro lado, colocou uma camisa de força no cooperativismo. P/1 – Em que sentido? Isso é importante você explicar para a gente. R – Como é que eu vou explicar isso? É um pensamento tão pessoal. Não sei se isso deve aparecer não, depois você corta. Eu acho que quando o Governo interfere em algum ato de uma sociedade em que ele não faz parte. Ele, de alguma maneira, pode estar prejudicando aquela sociedade, porque ele não está fazendo parte, ele não conhece as necessidades, então devia ser vedada a interferência do Estado na sociedade. Isso as pessoas fazem entre si, porque quando você quer crescer, de alguma maneira, você não pode crescer porque a lei não permitia, ela foi feita há 30 anos, por outro lado, quando você também tem essa interferência, esse é o lado ruim da coisa, o Governo está interferindo na regulamentação das pessoas, as pessoas resolveram reunir daquela maneira, aí vai o Governo e faz uma lei para aquilo, deveria ser vedado isso, agora, por outro lado, quando ele cria leis também, por exemplo, ele criou a Isenção do Ato Cooperativo, então o ato cooperativo, ele é isento de uma série de atributos, isso pode ser uma coisa boa, por um lado, porque você paga menos impostos, mas por outro lado, pode ser uma coisa restritiva, porque impede você também de crescer em alguns outros caminhos. É uma moeda de duas faces, tem o lado bom e o lado ruim da interferência do Estado na nossa sociedade. P/1 – Nos anos 80, como é que a cooperativa se apresentava ao público? R – Você já me perguntou isso. P/1 – Não, eu perguntei em relação aos médicos. Como é que vocês vendiam... R – Eu vou te dizer uma coisa, todo mundo que era usuário de plano de saúde Unimed, o usuário, porque para ele, ele está vendo que aquilo lá é plano de saúde, todo mundo que era usuário do plano de saúde adorava a Unimed, todos os meus clientes. Na época, eu tinha 90% da minha clientela era Unimed, todo mundo adorava, queria ser Unimed o resto da vida e não queria sair da Unimed de jeito nenhum, mas nós tínhamos muitos usuários, nós não tínhamos uma política de marketing agressiva, de vendas agressiva, não sei se é de marketing, mas é de vendas, nossa política de venda não era tão agressiva como é hoje não, mas o padrão de qualidade e atendimento era muito bom. P/1 – Não ter uma política de vendas agressiva, não ter tido, era bom ou ruim? R – Naquela época era o que tinha que ser. P/1 – Quando é que isso mudou? R – Quando mudou o mercado, quando muda o mundo, quando mudam as coisas. O mercado mudou, o mercado exigiu uma política mais agressiva de marketing, e nós temos hoje uma política agressiva e eficiente de marketing, muito boa, por sinal. P/1 – Eu suponho, posso estar enganada, que já lá anos 90 que houve essa mudança. R – É, é agora. Até porque também a globalização mudou muita coisa no país. Foi quando teve a globalização, você que é professora de história, não foi em 90, por aí? P/1 – Não, a globalização é um processo complexo... R – Mas começou a falar em 90, não foi? P/1 – Exatamente. R – “Tem de globalizar, agora vamos globalizar tudo”, não foi na época de 90? A Unimed tem essa característica. Ela consegue mudar com as mudanças, ela consegue se atualizar no mundo, porque antigamente se você falar em marketing, falar em vendas, falar em departamentos, isso não existia antigamente, as empresas eram administradas de uma maneira muito familiar, poucas eram aquelas que tinham uma administração profissional. E você repara que a maior parte das empresas, que tinha esse tipo de administração, acabou. Novas empresas surgem depois de um certo tempo, e a Unimed consegue ser uma nova empresa dentro da empresa antiga, guardando seus conceitos, eu acho que isso que é lindo do sistema, você pode renovar mantendo sua filosofia, o seu foco, mantendo sua filosofia inicial. P/1 – Dentro da cooperativa você começou a ter funções e direções ou de ir em conselhos quando? R – Eu entrei em 1983, eu posso dizer pra você que tudo que eu sou, profissionalmente falando, eu devo a Unimed, e não só profissionalmente, na minha vida também, porque eu me casei com uma pessoa que eu conheci na Unimed [risos]. Em 1983, eu entrei e comecei a ter clínica e me destaquei na clínica, e em 1985 eu fui convidada para fazer parte, para ser responsável pelo Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Comitê Técnico. Naquela época chamava Comitê de Especialidades, aí eu conheci meu marido, que ele era do Conselho de Administração. P/1 – Quantos conselhos tinham, isso é importante pra gente saber. R – Tinha a Diretoria, Conselho de Administração, Conselho Fiscal e o Conselho de Especialidades. P/1 – Esse era um tipo de gestão que você considerava hierarquizada ou compartilhada? R – Boa pergunta. Não sei te responder [risos]. Ai meu pai do céu! Para mim, ela era compartilhada, porque eu vivia com todo mundo, conversava com todo mundo, trocava idéia com todo mundo, eu não sei se era, não tinha uma definição de compartilhada, sempre foi assim de grupo, um trabalho de grupo. Tem a Diretoria que executa, quer dizer, o Conselho de Especialidades, ele não definia o rumo político da empresa, nem administrativo da empresa, ele se voltava para ver se os profissionais daquela especialidade estavam fazendo suas funções, e quem é que podia entrar, aí as pessoas pediam para entrar e a gente tinha que ver, tem quantos de formado, tem residência, não tem residência, a gente se envolvia com a administração da empresa. Isso era o Conselho de Especialidades. O Conselho Fiscal fiscalizava as operações da empresa, o da Administração dava orientações administrativas e o Executivo, executava. P/1 – A estrutura permanece a mesma? R – Mudou um pouco, porque agora não é mais Conselho de Especialidades, agora é Comitê Técnico, só mudou o nome, mas hoje em dia, continua aquele comitê que decide, que define, diz se aprova, se não aprova o ingresso de outras pessoas, quer dizer, o Administrativo, administra, o Executivo, executa e o Fiscal fiscaliza [risos]. P/1 – Depois dessa função, ou desse cargo que você tinha no Comitê, ou no Conselho de Especializações, você teve mais alguma participação? R – Conselho Fiscal. P/1 – Isso foi quando? R – Em 1986, eu entrei no Conselho de Especialidades, depois eu parti, passei em 1986 e 1990, eu fiz Conselho Fiscal, 1990, 1991. Então, eu tive a oportunidade de participar de um evento que se falou em Unicred, fiquei apaixonada pela ideia de Unicred [instituição financeira cooperativa]. Em 1992 estávamos fundando a Unicred, aí para desincompatibilizar, eu saí do Conselho Fiscal e fui para a Unicred, e estou lá até hoje. P/1 – Agora eu quero que você fale dessa Unicred, quem idealizou e o que é que é. R – Da Unicred? [risos]. Vai cinco fitas! [risos]. Você quer saber o que sobre ela? P/1 – Tudo. R – Eu estava no Conselho Fiscal, aí eu fui para o Paraná, na Convenção da Unimed com a visão no ano 2000, o foco era o ano 2000, naquela época, a gente estava em 1992, preparando a Unimed para o próximo milênio. Esse era o tema oficial da convenção. Lá eu escutei o Dr. Azevedo, que é do Rio Grande do Sul, falar sobre a Unicred, e eu fiquei encantada com a ideia de Unicred, eu estava no Conselho Fiscal, eu via que a gente tinha muita riqueza circulando na Unimed, e a Unimed nunca tinha dinheiro, todo o dinheiro que entrava saía para os cooperados e para as empresas, hospitais e laboratórios, então nunca a Unimed tinha dinheiro, entrava e saía, entrava e saía, só que esse dinheiro estava enriquecendo alguém, que não era do sistema, nem eram os médicos, então quando eu assisti à palestra do Azevedo, lá em Curitiba, eu falei: “Gente, é o que a gente precisa, é tudo o que a gente precisa, para poder, ao gerar recursos, enriquecer-se também com os recursos que a gente está gerando, temos que fazer Unicred!”, e aí eu comecei a fazer Unicred. Fiquei enchendo o saco do Bonfim anos a fio, ele: “Não, não, não.”, aí um belo dia, o Bonfim virou e falou assim: “Não e não.” e eu falei: “Consegui!”, “Conseguiu, como?”, “Bonfim, você falava 10 nãos, agora você só falou 2. Ganhei, já é sim, eu estou muito mais perto do sim do que antes.” [risos]. Ele começou a rir pra caramba. Mas quem dificultou a Unicred foi o Chastinet. P/1 –Por que? R – Primeiro porque ele, e eu acho que ele estava certo, dizia que a Unicred poderia vir a ser um monstro criado pela Unimed para destruir a própria Unimed, é uma coisa meio de terror, mas quando ele não gostava de alguma coisa, ele era meio terrorista mesmo. Então, ele dizia isso no sentido do seguinte, que na hora que você tem o poder econômico forte automaticamente esse poder vai querer exercer o poder político, e aí nós vamos acabar com toda nossa filosofia, e na nossa filosofia não é o dinheiro que traz o poder, é o trabalho das pessoas, no caso, dos médicos, o poder nosso está no nosso trabalho, e na hora que o poder econômico fosse mais forte que o poder do trabalho, automaticamente, ele ia querer destruir o poder do trabalho, então a gente poderia acabar criando um monstro, que era a Unimed, que poderia querer, no futuro, destruir o trabalho, e eu dizia que não, que era loucura, e ele dizia: “Denise, isso próprio do ser humano, o ser humano é assim.” e eu falava: “Não, não.”. Nova, a gente imaginava que o mundo é todo rosa, todo azul, sei lá, e hoje eu vejo que ele, eu ainda espero no fundo do coração que ele esteja errado, eu espero que a Unicred não venha a ser um entrave nas Unimeds. Não sei se você pode gravar isso não, mas isso pode acontecer. A gente já vê alguns atritos, já vê alguns problemas políticos entre Unimed e Unicred, se você acompanha a história, você vai ver que em determinados momentos que o poder financeiro foi maior que o poder político, o poder financeiro não aceitou ser poder financeiro, ele quis se tornar poder político. Também tem isso na história da vida, então por que seria diferente com as Unicreds? P/1 – Você vai me perdoar, mas eu ainda não sei exatamente o que é que é a Unicred, é uma espécie de banco? R – A Unicred é o banco dos médicos. A Unicred foi feita para ser o braço econômico-financeiro das Unimeds. O que é que acontece? Aquele: “Não, não, não, não.”, do Bonfim um belo dia virou sim, no outro dia, tão belo quanto aquele que o Bonfim disse sim, o Chastinet disse sim, e a gente fez a Unicred. O que era para fazer a Unicred? Pegar os recursos que a Unimed produz, recebe, administra dos médicos que recebem. Concorda? Então, esse recurso que antes ficava no banco, fica na Unicred e produz as riquezas do próprio médico, do próprio sistema. Você administra as riquezas que o sistema produz, em vez dos bancos administrarem, então é também uma cooperativa, tem também o perfil da pessoa e não do capital que a pessoa tem, e administra os recursos do sistema, só isso. P/1 – Foi criada quando? R – A Rio foi criada em 1992. P/1 – Isso é outra pergunta. Denise, então da mesma maneira como as Unimeds têm Unicred Rio, Unicred São Paulo e tem também, como as Unimeds. em todos os estados do Brasil? R – Tem. Todos. Do Oiapoque ao Chuí, e tem a Unicred do Brasil que congrega as Unicreds do Brasil inteiro. P/1 – E o seu cargo, qual é? R – Eu sou Presidente da Unicred Rio, que é aqui do município, e também Presidente da Unicred Central do Estado do Rio que congrega as Unicreds de todo o Estado, e na Brasil, eu sou Conselheira. P/1 – Você é uma médica com atribuições de uma economista de nível macro. R – É, e para isso, eu me especializei, eu fiz administração da GV [Getúlio Vargas], e fiz finanças na IBMEC, dois MBAs. P/1 – E como é que é isso, Denise, você é uma médica que é economista, ou uma economista médica? R – Eu sou médica. Me formei médica, mas pela necessidade, e para poder executar cada vez melhor as minhas funções me senti na obrigação, não foi obrigação, foi necessidade de estudar mais. Então, eu fiz administração na GV, adorei fazer administração na GV, mas terminei administração da GV e achei que ainda não estava tudo completo, estava faltando alguma coisa, não estava ainda com todo o domínio do nosso negócio, então, fui ver o que estava faltando, e eu vi que o que estava faltando era, justamente, o mais difícil, que era finanças, então fui estudar finanças. P/1 – No IBMEC? R – No IBMEC, aí eu achei que eu estava legal, que eu estou bem. P/1 – Me explica uma coisa... R – Agora eu vivo fazendo cursos, mas fazer uma outra pós-graduação, eu acho que não, só se fosse fazer marketing, mas eu acho que eu estou satisfeita com o que eu estou fazendo. Agora tenho que fazer cursos de atualização, de aperfeiçoamento, não sei se eu faço pós-graduação não [risos]. Que é uma loucura, madrugada toda estudando, não sei se eu tenho saco não [risos]. P/1 – Há algum modelo no nível internacional que a Unicred tenha se espelhado? R – A Unicred não, o cooperativismo brasileiro. P/1 – Sim. R – Eu vou te mostrar a parte ruim da lei porque, você repara, a cooperativa de crédito mais antiga da Américas está no Brasil, que é a Nova Petrópolis, tem 102 anos, agora, a mais importante está no Canadá, e é mais nova do que a nossa, então, quer dizer, no Canadá não tem regulamentação de como que as pessoas têm que se unir, elas se reúnem como elas querem se reunir, desde que ela não infrinja nenhuma lei, nada mais, e cresceram muito, as pessoas competem com (Dejardin?). Canadá, (Dejardin?) é fortíssimo os cooperativismo de crédito lá, e aqui no Brasil a gente ficou aí, nos anos 50, 60 ,70 sem poder fazer cooperativa de crédito, sem poder se reunir em associação cooperativista, porque a lei não permitia, porque o Estado não permitia, então a gente foi fundado, na época, por um padre jesuíta que veio da Alemanha como os princípios de (hifizing?) e nosso modelo segue o modelo do (hifizing?) alemão, (Dejardin?) também segue (hifizing?), então (hifizing?, (Dejardin?), e a gente, estão todos ali. P/1 – Você acha, então, que a Alemanha é um país que pode se dizer que tem um cooperativismo bem desenvolvido? R – De crédito? Alemanha, França, (Crédit Agricole?) na França? Gente do céu! 90% dos recursos de agricultura da França passa pelo (Crédit Agricole?), que é um cooperativismo de crédito, o (Dejardin?); na Holanda o (Rabo Bank?) nos Estados Unidos também, nós também temos um cooperativismo de crédito forte, tem vários. Normalmente, nos países que têm moeda estável, que são países fortes, de economia forte, sólida, você tem um cooperativismo de crédito forte, isso é o tradicional. P/1 – Eu quero te fazer uma pergunta sobre a estabilidade monetária, mas antes eu quero perguntar ao Rodrigo, se você quer fazer alguma pergunta, se eu esqueci alguma. Denise, você confia, então, como Presidente, digamos assim, de uma seccional da Unicred, ou da Unicred Rio? R – Não é seccional, a Unicred é uma empresa... P/1 – Tem razão, desculpe. Como Presidente da Unicred Rio, você acredita que a situação econômica, a estabilidade monetária, permite que você faça planos a mais longo prazo, você acha, não? R – O problema é saber se essa estabilidade monetária será a longo prazo [risos]. A gente faz vários cenários, a gente faz um cenário, o melhor para o país, que seria uma taxa de juros 6% ao ano, a gente colocando os juros de 3% ao ano, a gente teria uma taxa de juros dos 9% ao ano, então a gente trabalha com um cenário assim, mas também trabalha com cenários inflacionários, a gente é obrigado a trabalhar, não tem como prever o futuro, então, o que a gente tem que prever é como a empresa vai se adequar num futuro difícil de ser previsto. Se eu tiver com um cenário de economia forte, um país forte, com a moeda estável, como é que a cooperativa tem que fazer para estar bem neste período? Então, você vai, e tem o cenário, aí você vai fazendo vários cenários, um leque de cenários, um arco-íris de cenários, até chegar onde a inflação é muito alta, esse ‘onde a inflação é muito alta’ a gente já conheceu, tomara que a gente tenha que conhecer o outro lado, da inflação baixinha, porque pra gente é o melhor que seria para esse país, e eu acho que para o cooperativismo também. Muitas pessoas chegam a me dizer: “Denise, mas quando o país estiver com a moeda estável, que ele já está um pouquinho estável, quando estiver mais estável, que a Celic [Subsecretaria da Administração Central de Licitações] estiver lá embaixo, como é que nós vamos viver?”, eu digo: “A gente vai viver muito bem, obrigada, graças a Deus.”, porque se a gente sabe que o cooperativismo de crédito está forte, é muito forte nos países que tem uma moeda forte, por que aqui seria diferente? Não tem porque. P/1 – Está certo, Denise. Me explica uma coisa, como é que são as relações institucionais, se tem reuniões mensais entre Unimed Rio e Unicred Rio, como é que é isso? Completamente autônomo uma da outra? R – Na verdade, a Unicred foi feita para ser o braço econômico-financeiro da Unimed, eu nunca vi um braço autônomo [risos]. Eu acho que um braço andando por aí devia ser uma aberração da natureza, então o braço tem que seguir junto tem que seguir a cabeça. Ao longo dos anos, a gente tem frisado isso, se a gente perder o foco, a gente perde nossa razão de existir. Se a Unicred é para ser o braço econômico-financeiro, foi feito para isso, deu certo para isso, ela tem que ser o braço, então a gente acompanha sempre a Unimed, porque um braço tem que acompanhar o seu corpo. P/1 – Você sempre foi às convenções nacionais Unimed Rio? R – Sempre, até hoje eu não faltei em nenhuma. P/1 – Além daquela que você já mencionou, se não me engano no Rio Grande do Sul, teve alguma outra? R – Aquela lá foi de Curitiba. P/1 – Alguma outra marcante? Porque essa foi marcante. R – Teve uma marcante, mas foi marcante por uma coisa muito pessoal. A de Curitiba foi marcante acho que do ponto de vista institucional, como é que eu vi que a Instituição poderia se desenvolver. A de Fortaleza foi marcante por uma questão pessoal. Na época, eu estava no Conselho Fiscal da Unimed e, deixa eu voltar um pouquinho para trás. Eu fiz ginecologia porque minha mãe era ginecologista e porque eu gostava de ginecologia, mas as pessoas pensavam que eu fosse seguir a carreira universitária, igual mamãe, só que eu tinha pavor de falar em público, passava mal, e para fazer mestrado você tinha que dar palestras, dar aulas, e eu tinha um pavor, eu passava mal mesmo, eu tinha cólicas, e eu falei assim: “Não, eu não vou falar em público, eu não vou ser professora de faculdade, eu vou ter meu consultório, eu quero ser médica de consultório particular, é o que eu sei fazer, é o meu negócio.” e então eu fui pega no meu consultório para ir para a Unimed, eu não sabia que tinha eleição na Unimed, me pegaram lá e: “Ah, você vai ser, e tal”. Fui para Fortaleza e fui fazer parte de um trabalho de grupo, e o grupo decidiu que era eu que tinha que apresentar o resultado dos trabalhos da plenária final e eu: “Não, eu não posso.”, eu passei mal. Teve o intervalo do almoço, o grupo ia voltar e eu tinha que dizer se ia aceitar. Eu não queria aceitar de jeito nenhum, e eu fui para o almoço, e aí estava assim, o mundo desabando, e quando o mundo desaba todo mundo percebe. Eu estava assustadíssima, como é que eu ia falar? Ser a relatora dos trabalhos? Eu não sei falar em público. Eu detesto falar em público, e o Bonfim chegou perto de mim e falou: “Denise, o que é que está acontecendo com você?”, eu falei: “Ai, Bonfim, meu mundo desabou, eu não sei, eu vou ter que relatar um negócio do grupo, eu não vou relatar, eu passo mal, eu não vou falar nessa plenária, eu não vou fazer isso, eu vou embora.” [risos]. Aí ele deu um murro. O Bonfim, se você conhece ele, você sabe, gentil, uma coisinha singela. O Bonfim deu um murro na mesa que quase virou a mesa [risos]. Aí ele falou assim: “Você vai falar sim! Você vai falar, você vai enfrentar isso, você vai assumir, você vai ter que falar em público, você vai falar na plenária, o grupo não quer que você fale? Então você vai lá e vai falar.” Me deu uma bronca do tamanho de um bonde, aí eu: “Está bom, Bonfim.” Para ver se ele parava de fazer aquela confusão toda [risos]. Eu acho que eu estava mais com medo do Bonfim do que em falar em público. Eu falei: “O que vai acontecer agora?”. Aí terminou o almoço, fui lá para o grupo, e o grupo dizendo: “Você vai falar isso.”, sei lá, o relatório, fazer o resumo de tudo que foi falado, relatar os fatos, e eu tenho essa mania de querer fazer as coisas muito bem feitas, aí eu comecei arranjar transparência, não tinha transparência, eu tive que arranjar num outro hotel, fui no outro hotel pegar transparência, mas consegui fazer um negócio bem feito, e aí eu fui para a plenária mais segura, porque eu sabia que eu estava com um material bom e as coisas estavam bem feitas, morrendo de medo, porém segura. Eu tinha dois medos, medo do Bonfim dar a bronca se eu não falasse e medo de falar, então eu fiquei entre os dois medos. Fui lá, dei o recado, me aplaudiram, todo mundo veio falar comigo, porque todo mundo que sabia que eu tinha medo de falar em público, diz que eu falava muito bem, não sei o que, e eu acho que isso aí marcou minha vida, porque daquele dia em diante [risos] eu adoro um microfone, adoro falar em público, adoro. De Fortaleza para cá, eu não sou mais a mesma pessoa com certeza. P/1 – Essa foi uma convenção marcante mesmo. R – Pessoalmente foi, pra mim foi muito marcante, pessoalmente. P/1 – Dessa tua experiência importante, com o cliente no seu consultório, você tem alguma história pitoresca para contar pra gente, ou em hospital, ou alguma história pitoresca ligada a seus pais? R – Coisa pitoresca é o que a gente mais tem. Depois de uma certa idade, só guarda as coisas pitorescas da vida. Com o exercício da medicina, teve uma coisa muito emocionante, uma coisa que marcou muito a minha carreira. Eu era ainda residente das Pioneiras, no Moncorvo Filho, e era dia de meu plantão, eu era responsável por uma enfermaria e tinha uma paciente que tinha feito uma neovagina e uma outra com câncer de vulva, era uma enfermaria grande, mas tinha essas duas pacientes, que me obrigavam a ter mais cuidado. Eu estava lá embaixo no ambulatório, quando a paciente da neovagina foi lá embaixo me chamar dizendo que a paciente que estava com câncer de vulva estava passando muito mal, só que antes dela me falar que a paciente que estava com câncer de vulva estava passando muito mal, eu dei uma bronca nela muito grande, porque ela tinha acabado de ser operada e não podia estar descendo para o ambulatório de ginecologia, aí ela me explicou: “Não doutora, eu só vim porque era a Dona Ruth que está passando muito mal, ela está chamando pela senhora, a senhora tem que ir!”. Eu fui angustiada com a Dona Ruth passando mal. Eu cheguei lá, a enfermaria toda cheia de balão, bolo e presentes das pacientes. Era meu aniversário, e elas comemoraram comigo meu aniversário, eu chorei muito naquele dia, não sei se vou chorar agora, mas foi uma coisa muito emocionante, eram pacientes muito pobres, e elas todas se juntaram, compraram um pote de cristal, eu tenho até hoje lá em casa, aquilo lá não sai da minha lembrança, e eu dando bronca na menina porque desceu no ambulatório [risos]. Isso é uma coisa muito emocionante, foi assim que eu achei realmente que eu era uma boa médica, porque elas queriam dar um carinho de alguma maneira, e foi a maneira que elas encontraram de me agradecer. Mas coisas assim pitorescas, eu acho que de pitoresco, em medicina, sempre acaba mostrando a ignorância da paciente. Teve uma paciente que eu virei para ela um dia e falei assim: “Escuta, qual é o seu tipo de sangue?”, porque a gente perguntava o tipo de sangue para a paciente, aí a paciente falou: “Desse comum mesmo, doutora”, “Qual, o O Positivo?”, “Não, o vermelho mesmo” [risos]. Isso é uma coisa muito pitoresca. Uma outra coisa pitoresca, eu acho que todo ginecologista tem, é a gente passar supositório e a paciente fala assim: “Doutora, minha vagina está ardendo tanto depois que eu comecei a usar o supositório” [risos]. Isso, eu acho que todo ginecologista tem essa história para contar, mas essa do tipo de sangue ‘do comum, do vermelho’ [risos]. “Está bom, pode ir lá, fazer o exame e chega, eu não pergunto mais nada”, não falei isso para ela, mas pensei vou parar de perguntar porque ela realmente não está conseguindo alcançar o mínimo necessário, e algumas coisas assim. Eu trabalhei em prostíbulos, trabalhei muito em favela. Eu acho que no lugar que eu fiquei mais segura foi quando eu trabalhei em favela, com favelado, porque quando ia ter o tiroteio, eles avisaram: “Doutora, é melhor fechar o ambulatório porque vai ter tiroteio”, aí a gente ia embora. P/1 – Que favelas, Denise? R – Macaco, uma na Fundação Leão, eu não sei que nome era aquela na Leão XXIII, a do Macaco foi a que eu trabalhei mais tempo, um povo muito gentil, a gente sempre pensa que favelado é um povo, eles são muito gentis, muito carinhosos, fazem bolo, levam bolo lá para você, a ‘doutora do grupo’. Foi uma coisa pitoresca, do ridículo da ignorância do paciente, que eu não gostaria de estar falando disso agora, só essa do sangue que eu acho que é terrível. P/1 – E dos seus pais, você se lembra de alguma história ligada à fundação da Cooperativa? R – Claro. Fim do primeiro cd P/1 – Denise, você tem alguma história pitoresca dos teus pais ligada a fundação da Cooperativa? R – Na época da cooperativa. A cooperativa era muito pobre, e tudo tinha que ser feito com muito rigor, não é que hoje não tem, mas hoje nós temos muitos recursos, então pra você ter uma ideia, eles iam para algum lugar vender os planos, porque quem vendiam os planos não eram os vendedores, eram os próprios médicos, que conheciam alguém, que iam e vendiam, então tem assim, o contato da Denasa, o Juscelino Kubitschek que era o Presidente e, por algum acaso, o Juscelino Kubitschek também era padrinho do meu irmão, aí: “Ah, vamos lá no Denasa vender plano de saúde, eles querem fazer, mas eles vão visitar um consultório”, “Ah, vamos visitar o da Hela” e então, o papai falou com a mamãe: “Hela, põe lá no consultório, tira o quadro que tem lá e põe o Cláudio com o Juscelino Kubitschek” [risos]. Aí lá foi mamãe tirar o quadro e colocar o quadro com o Juscelino Kubitschek na parede do consultório. O cara de recursos humanos chegou lá, viu o quadro, do meu irmão com o Juscelino, e falou assim: “Ah, é o Dr. Juscelino?”, “É, ele é nosso compadre”, “Ah, então tá, vamos assinar o contrato” [risos]. Assinaram o contrato do Denasa rapidinho com a Unimed. E assim, coisas que são pitorescas do ponto de vista que a gente não imagina que alguém faça. Quando eles iam para alguma reunião fora, iam no carro de um, a gasolina quem pagava era outro e o almoço ou jantar era o terceiro, então eles dividiam as despesas, e tinha um que não tinha dinheiro nenhum, então ele não pedia prato, ele não pedia comida, ele ficava esperando que sobrasse comida dos pratos dos outros [risos]. Aí cada um dava um pouquinho, e ele comia também, era assim que dividia, um levava o carro, o outro, a gasolina, o outro pagava a conta e o outro só aproveitava de tudo [risos]. E era assim, tudo muito bem, obrigada, e graças a Deus! Eu acho que isso é uma coisa pitoresca e que mostra como que as pessoas eram unidas naquela época em torno de um ideal, de um bem comum. Uma outra coisa que aconteceu, não tem muito a ver com a Unimed, mas tem a ver com aquele momento, um médico que era uma liderança, ele morreu, e a viúva não tinha nem casa própria, todos os médicos se reuniram, cada um contribuiu com alguma coisa, médicos do Rio e fora do Rio, do Brasil inteiro, contribuíram, e conseguiu-se comprar uma casa para a viúva do médico. Isso é uma coisa que mostra como que aquele movimento, aquele grupo, era tão unido, tão certo de suas certezas, certos das suas ideias, dos seus ideais, que ele fazia de tudo para um ajudar o outro. Entendeu? Acho que isso foi uma coisa que a gente devia guardar para sempre, para procurar resgatar, inclusive, nós, mais jovens, deveríamos usar como exemplo, pra gente seguir, pra gente conseguir ajudar nossos próximos. P/1 – Você disse que casou. Você conheceu seu marido na Unimed. R – Meu ex-marido [risos]. Esquece, apaga. P/1 – Você não quer falar como é que foi isso? R – Eu fui eleita no Conselho de Especialidades, não me lembro mais. Comitê Técnico, e ele para o Conselho de Administração, e também foi pitoresco. Chegou assim, num jantar, eu achei que eu conhecia ele, que ele era presidente da Unimed de Belo Horizonte, e então ele veio falar comigo e eu virei: “Eu te conheço de Minas Gerais, não é?”. Eu jurava que ele era o presidente de Minas Gerais, de Belo Horizonte, e ele realmente tinha me conhecido em Minas Gerais, numa convenção de ginecologia e obstetrícia, o Congresso de Ginecologia e Obstetrícia, só que eu não me lembrava dele no congresso. Quando eu falei, eu imaginava que ele fosse o Presidente de BH, e ele, quando eu disse que eu o conhecia de Minas, ele achou que eu era apaixonada por ele, porque eu me lembrava do Congresso Ginecologia e Obstetrícia [risos]. Aí a gente começou a namorar. P/1 – E você tem filhos? R – Não, nunca engravidei. Eu e a minha cachorrinha serve? P/1 – Como é que chama sua cachorrinha? Porque eu tenho uma gata. R – Cindy [risos]. Quando ela faz arte, eu chamo ela de Cindy Crawford. P/1 – O que é para você ser médica? R – O sonho de uma vida. Eu sempre sonhei em ser médica. Um sonho realizado. P/1 – Qual é o seu maior sonho hoje? R – Não sei, eu acho que todos os meus sonhos já foram, estão ultrapassados. Eu sonhava em fazer Unicred, aí consegui fazer, sonhava que a Unicred ficasse forte, a Unicred hoje está forte, eu quero que fique mais forte ainda, eu quero maior integração [risos]. Eu acho que eu tenho um sonho, sim. Tenho um sonho que todos os sócios da Unimed, da Unicred, todos os nossos cooperados, realmente conseguiam entender o que é uma cooperativa. Eu acho que isso é um sonho, gostaria que todo mundo entendesse qual é a proposta do cooperativismo, não é só o cooperativo da Unimed, o cooperativo Unicred, é que todo mundo entendesse o que é cooperativismo como essência de vida, como forma de vida, eu acho que eu tenho esse sonho. Eu ainda eu vou lutar muito por isso, é uma questão de educação cooperativista, as pessoas entender o que é o cooperativismo, a proposta cooperativista. P/1 – Muito bem, Denise, eu quero saber o que você acha desse trabalho que a gente está fazendo, de resgatar a memória da Unimed Rio, de construir a história dela, o que você acha desse trabalho? R – Eu acho o seguinte, uma das coisas mais importantes da vida é a história que você tem. Uma empresa que não tem história, não é uma empresa. Fazer a história da Unimed, na minha opinião, é consolidar a Unimed como uma instituição, como uma entidade médica, eu acho que é muito importante a história, sem história você não tem vida. P/1 – O que você achou de ter dado essa entrevista para o Projeto Memória Unimed Rio? R – Ah, eu acho que é demais para mim, é uma honra muito grande. A Unimed é parte da minha vida, meus pais fundaram a Unimed, eu fiz minha clínica através da Unimed, eu hoje realizo um sonho, que é estar na Unicred, porque a Unimed me proporcionou, então poder vir aqui e falar um pouquinho da Unimed, falar um pouquinho dos meus pais, falar, nossa, é tudo de bom! É muito bom. P/1 – Então, Denise, mais uma vez, eu quero agradecer a você, em nome do Museu da Pessoa, sua excelente entrevista. R – Eu que eu agradeço, vocês que são geniais!
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