Busca avançada



Criar

História

"A vida me interessava muito"

História de: Afra Suassuna Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Afra nasceu em Recife e em sua entrevista conta sobre as histórias de seus pais e avós pernambucanos. Seu avô materno foi governador e senador do Estado de Paraíba, foi uma das pessoas que participou do estopim da revolução de 1930. Conta à história de seu avô João Suassuna, que foi assassinado pela família de João Pessoa. Conta que teve uma infância boa, como optou por medicina e pela especialização por pediatria, como escolheu fazer saúde pública e trabalhar como agente de saúde em favelas. Fala sobre o funcionamento do Imip e sobre a evolução do programa de extensão comunitária. Acredita que hoje está sendo proposto para ela se tornar médica de saúde da família, e isto irá ampliar sua formação.

Tags

História completa

P/1 - Seu nascimento?

 

R - Meu nome é Afra Suassuna Fernandes, eu nasci em Recife na maternidade do derby em 8 de outubro 1960.

 

P/1 - Bom, eu queria saber também o nome dos seus pais e o que você sabe da origem deles?

 

R - Tá. Meu pai se chama Alcides Fernandes da Costa e minha mãe chama-se Beta Seles Suassuna Fernandes. Ambos são paraibanos. Meu pai é de uma cidade chamada Itabaiana e minha mãe de uma cidade chamada Taperoá. Meu pai é do brejo da paraíba, seria mais ou menos uma área que não é tão seca, e minha mãe é do sertão. A família do meu pai é de origem muito humilde. Minha vó paterna inclusive chamava-se Francisca, era analfabeta, né, e meu avô paterno era comerciante.

 

P/1 - Comerciante?

 

R - Comerciante.

 

P/1 - O nome dele?

 

R - Era filho de Manoel, e no sertão da Paraíba tem o hábito de colocar um apelido. Então era Zé Maneco.

 

P/1 - Zé Maneco?

 

R - Zé Maneco.

 

P/1 - Suassuna?

 

R - Não, Fernandes da Costa.

 

P/1 - Fernandes da Costa. Suassuna é da parte da mãe?

 

R - Suassuna é da minha mãe.

 

P/1 - Tá certo.

 

R - E ele... Bom, durante a vida toda ele transportou, ele era como se fosse um mascate. Ele transportava carga da Paraíba para o Recife, para João Pessoa, que na época a capital da Paraíba, sequer se chamava João Pessoa ainda, né? E com o correr dos anos a tropa de burro passou pra um caminhão e ele chegou a ter uma transportadora de cargas.

 

P/1 - Que tipo de cargas eram essas que ele tinha, que ele levava?

 

R - Eu acredito, acredito não, era muitos secos e molhados.

 

E - Secos e molhados?

 

R - Que ele transportava. E meu pai teve dez irmãos, muitos já faleceram. Minha mãe é de uma origem bem diferente, é de sertanejos, mas o meu avô materno foi governador da Paraíba, senador pelo estado da Paraíba e uma das pessoas que foi do estopim da revolução de 1930. Foi João Suassuna, ele foi assassinado pela família de João Pessoa e os fatos que envolveram meu avô materno são a história da revolução de 1930 no estado da Paraíba. Então a origem da minha mãe é bastante diversa. A minha vó materna chamava Rita, a família dela não tinha tantas posses, mas encarava a educação dos filhos de uma forma diferente. A minha vó chegou a estudar em colégio de freiras, foi alfabetizada e casou muito jovem com meu avô. E quando meu avô foi assassinado em 1930, lá no Rio de Janeiro, na época ele era senador e veio para o senado se defender das acusações de compra política que o envolviam no assassinato de João Pessoa. Ele foi assassinado nessa ocasião. Então minha vó ficou viúva muito jovem, com nove filhos. Minha mãe é a antepenúltima e tinha cinco anos na época. Esse fato marcou muito a vida da família dela, a família Suassuna. Bom, é isso.

 

P/1 - Você falou das origens serem bastante diversas, como é que se deu esse encontro, quer dizer, quando o seu pai casou com a sua mãe ele já era um dono de transportadora, ou seja, já estava no nível social, já tinha galgado ascensão social?

 

R - A família dele sim, né. Agora tinha uma particularidade, meu avô tendo a transportadora eles saíram de Itabaiana e foram morar em Campina Grande na Paraíba, é a segunda cidade do estado da Paraíba e meu avô começou a dividir com os filhos a coisa da transportadora. Meu pai foi o único dos irmãos que quis estudar. Não se envolveu na questão de comércio. Então ele é médico oftalmologista, tá? E ele conheceu minha mãe porque ele era colega de turma de um irmão de minha mãe, se chama Marcos e foi através desse vínculo de amizade com meu tio que ele conheceu minha mãe...

 

P/1 - E acabou em um belo romance.

 

R - E acabou namorando, casando e tal.

 

P/1 - Você falou também uma coisa curiosa... Bom, a gente não conhece tanto ____, situações de regiões típicas do nordeste, você falou da região do brejo, da região da seca. O que distingue essas duas regiões?

 

R - A região do brejo que é a Itabaiana, é uma região em que chove, tem umidade, bom para as plantações, são mais fáceis, então se planta. A população não é tão, digamos, sofrida quanto o sertanejo.

 

P/1 - Sei.

 

R - O sertão, as condições de vida são mais áridas?. E que pesem isso, né, a família do meu avô materno de João... Meu avô era advogado, ele também estudou, né, e era uma família de sertanejos, mas que tinha posses, tinha fazendas e tal.

 

P/1 - Essas regiões ficam em que situação geográfica no estado?

 

R - Bom, a região do brejo seria mais ou menos no meio do estado da Paraíba, e o sertão corresponde ao sertão do Nordeste. Na Paraíba, especificamente o sertão, eles chamam Cariri. Aí exatamente as diferenças eu não sei te dizer, porque eu conheço Pernambuco. Eu sei o que é litoral, mata, e sertão de Pernambuco, né? Então eu conheço um pouco da Paraíba, mas as definições geográficas e econômicas do estado da Paraíba eu não tenho muito domínio não.

 

P/1 - Afra. E a origem dos dois nomes, Fernandes e Suassuna, você sabe um pouco disso?

 

R - Fernandes é português, inclusive a família do meu pai é Fernandes da Costa.

 

P/1 - Certo. Bem português!

 

R - É bem português. Meus avôs paternos eram primos, mas eles são Fernandes da Costa. Já da Paraíba, do Rio Grande do Norte, eles migraram. A família dos meus bisavôs paternos são do Rio Grande do Norte e eles migraram por que razão eu não sei, para Paraíba, né? Meu avô e minha vó se fixaram lá, mas originalmente a família é da área de Moçoró, do rio Grande do Norte.

 

P/1 - Certo.

 

R - Certo. A da minha mãe não, eles são... Minha vó é de uma cidade chamada. Meu Deus! Eu não sei se é princesa, não de (Estevam?)

 

P/1 - De (Estevam?)

 

R - Minha vó é de uma cidade chamada (Estevam?), é um pouco após essa cidade de nascimento da minha mãe, que é Taperoá, tá? Meu avô é de uma cidade chamada Catolé do Rocha. A família Suassuna não tem ramificações, é uma família única. Então eles são de Catolé do Rocha. E eu não sei se eles tem alguma migração, originalmente a família Suassuna tem outro nome, também é Cavalcante. Eu não sei o nome todo não, mas houve um movimento no estado da Paraíba. Também eu não sei que século foi, se foi o século passado ou no anterior, porque algumas famílias de origem portuguesa resolveram mudar o seu nome pra nomes de origens indígena. E o Suassuna vem de Sussuarana e Sussuarana é uma onça. Tanto que tem brasão e tem o símbolo lá da onça, as coisas todas. Eu tenho um tio que trabalha muito com...

 

P/1 - Interessante que é um abrasileiramento da família, né?

 

R - É?

 

P/1 - Parece que deve ter tido uma carga de nacionalismo nisso aí?

 

R - Sem dúvida.

 

P/1 - Não foi uma decisão tão aleatória, né?

 

R - Em Recife tem... E eu acho que tem alguma coisa aí com algum título de nobreza, acredito que seja, porque em Recife tem uma avenida chamada Visconde de Suassuna. Então deve ter tido um Visconde que é Suassuna.

 

P/1 - Então o seu pai como médico, você já nasceu num ambiente em que medicina, saúde, era um assunto de casa, né?

 

R - É, e minha mãe tem três irmãos médicos.

 

E - Três irmãos, Nossa! Então uma família em que cuidar da saúde é uma tradição, né? E como é que você lembra da sua infância, e se ela já tinha alguma relação com isso ou não?

 

R - Não. Interessante porque meu pai, por ser oftalmologista, ele não era um médico _______, né? Então eu não me lembro de meu pai dando plantão. Me lembro de meu pai uma vez perdido na vida pra sair e atender uma urgência, quando tinha um acidente de trânsito, algum paciente dele que sofria algum traumatismo, e ele saía pra atender. A gente sentiu o seguinte: ele era aquela coisa ambígua, não vão ser médicos, mas no fundo desejava que... Então dos oito filhos eu e mais um irmão fizemos medicina.

 

P/1 - Você é qual? No meio?

 

R - Eu sou a sétima.

 

E - A sétima!

 

R - Sou a penúltima.

 

E - Bem na rabeira?

 

R - É. E esse irmão é o quinto, que é médico. Agora temos nome do pai, bem sintomático, e optou por fazer oftalmologia também, mais sintomático ainda. Bom, a influência paterna claro que pesa, não é? E outro dia eu estava pensando uma coisa interessante, vendo os filhos de atores da televisão já repetindo... Então essa coisa do ofício paterno, né? Historicamente também tem uma influência muito grande sobre as pessoas, né, você repetir a profissão do pai. É bem interessante isso. Bom, eu me lembro quando eu decidi que ia fazer a coisa de cuidar da saúde das pessoas, ou cuidar do corpo das pessoas, foi quando eu estudei ciências pela primeira vez. Então a coisa do funcionamento do organismo, a coisa da biologia mesmo, da ciência biológica, da ciência humana e essa coisa. Eu acho que tinha uns doze, treze anos e isso me encantou muito. Eu achei que fazer uma coisa pra área de biologia. Teve um tempo que eu disse: “Vou fazer biologia”, porque a vida me interessava muito. Depois eu não sei, essa coisa ficou meio indefinida, entre biologia, tanto que foi a minha segunda opção no vestibular. E teve um momento que eu comecei, até puxada por uma grande amiga minha que é a médica também, Luciana, da gente fazer tipo assistência de igreja. Eu comecei a trabalhar com comunidade a partir da igreja do meu bairro. O pároco da igreja é uma pessoa ligada a Dom Elder Câmara, padre Edvaldo, e foi uma pessoa de muita resistência dentro da igreja, no movimento da ditadura. Ele é uma pessoa dentro da igreja pernambucana muito progressista. Então em que pé que ele trabalhava? Numa paróquia de classe média alta. Ele tem, no bairro de casa forte, umas quatro ou cinco favelas que rodeiam, entende? Então ele começou a investir no trabalho com essas favelas e apesar de não frequentar a igreja nessa época, eu já não frequentava, se bem que foi ele que fez minha primeira comunhão, essas coisas todas. E Luciana, essa amiga minha que era muito ligada ao movimento de jovens da igreja, ela me chamou pra gente começar a fazer um trabalho, uma coisa muito empírica, uma coisa coisa solta, mas com uma visão bem interessante, era o seguinte: a gente trabalhava com crianças de rua. No bairro de casa forte tem uma praça muito bonita, é o centro do bairro, a Praça Casa Forte, então essas crianças durante o final de semana guardavam o carro na igreja para as pessoas que vinham pra igreja. O padre Edvaldo teve a idéia de trabalhar com esses meninos de rua que tomavam conta, guardavam os carros, ver que tipo de apoio o grupo de jovens poderiam dar a essas crianças. E a gente trabalhou, eu acho que durante quase um ano com esses meninos no bairro lá. A gente ia de dia de domingo. De manhã cedo, eles já estavam na porta da igreja. Perto da hora do almoço a própria paróquia oferecia um almoço pra eles, e a gente trabalhava algumas coisas, mas era uma coisa tão empírica, porque a gente não tinha nenhuma... Estavamos todos nessa época entrando na universidade, vestibulandos ou universitários. A gente tinha muita vontade de fazer aquilo, mas foi uma coisa que... Tinha uma orientadora, mas era mais uma orientadora religiosa, ela sentava, conversava com a gente, fazia meio que uma _____ das nossas ansiedades em relação a esses grupos de crianças. Mas a gente não conseguiu. Eu sinto que a gente não conseguiu fazer muito por eles, mas era um momento interessante, em que a gente lidava com essas vivência desses meninos de rua violentos, muitas vezes agressivos com a gente. Eles não entendiam muito bem o que a gente estava fazendo ali também (riso).

 

P/1 - Isso você estava com quantos anos?

 

R - Eu tinha dezessete anos.

 

P/1 - Eu estou vendo o seguinte, além da influência do lado médico da família, a família também é de muita tradição política, né? E que tradição política é essa? O que remonta essa tradição que vem do seu avô?

 

R - Bom, meu avô dentro da política paraibana ele era um conservador, né? Como eu disse, a família Suassuna na Paraíba tinha poder de terra, digamos assim. A família da minha vó...

 

P/1 - Eram usineiros?

 

R - Não, a Paraíba não tem tradição de usina.

 

P/1 - Não tem?

 

R - Pernambuco é que tem. Era fazenda mesmo, de criação de caprino e de gado. A família do meu avô era assim, só... Do ponto de vista político ela tinha esse peso, mas meu avô isoladamente foi o único político da família dele. Foi o único. Então ele foi deputado, não é, ele foi governador e depois ele foi senador. E depois da morte dele não houve ninguém que entrasse na política. A família da minha vó materna, é a família Dantas Villar, se aventurou várias vezes ao entrar na política lá em Taperoá, mas perdeu todas. O povo foi ruim de voto o tempo todo. Tem até muitas brincadeiras. Mas assim, para a família da minha mãe a morte do meu avô foi uma coisa muito marcante. Então minha vó, eu lembro até hoje, ela já é falecida, ela morreu bastante idosa, quando eu entrei em movimento estudantil, na época eu fazia centro acadêmico, ela é uma tremenda matriarca, e ela me chamou na casa dela: “Você não faça isso, tá certo? Isso é muito perigoso”. Estava ainda em plena ditadura militar, eu estudava e fazia movimento estudantil. Meu pai ficou subindo pelas paredes, né, porque ele tinha o temor muito grande que a gente se envolvesse em movimento estudantil, e eu e uma irmã, a gente... Essa minha irmã, é um pouco mais velha que eu... Entrei no movimento sindical e tudo, e minha vó foi aquela coisa assim... Ela tinha um temor tão grande de que repetisse o sofrimento que ela teve com a morte do meu avô, aí ela me chamou na casa dela: “Não vá, não se envolva...”

 

P/1 - Foi um trauma muito grande?

 

R - Muito, pra família toda.

 

P/1 - E o que representou para a família esse momento político? Como é que aconteceu?

 

R - Da morte do avô? Bom, foi uma coisa assim... Inclusive isso foi uma versão muito familiar da revolução de trinta, porque ele foi um epicentro dos fatos. As versões da história, eu estou falando da revolução de trinta, ia falar de... (riso) Bom, mas veja só, minha vó era prima de João Dantas, foi quem matou João Pessoa. Eu não sei se tu tem conhecimento da revolução de trinta, né? Ela era prima legítima de João Dantas, e meu avô da oposição a João Pessoa. Então imediatamente se vinculou a morte de João Pessoa, pelo fato de João, eram três Joãos, João Pessoa, João Dantas e João Suassuna, envolvidos na história.

 

P/1 - Foi o estopim? A morte de João Pessoa?

 

R - Foi o Estopim a morte de João Pessoa pra a revolução de trinta, né? E como meu avô era oposição, e era ligado a Washington Luís... Ficou muito marcante isso, né? A família do meu avô não, do meu pai não teve uma ascensão dentro... De transportador de carga pra um comerciante, uma coisa muito natural. A família da minha mãe não, houve um dissenso, né?

 

P/1 - Mas como é que se dá a morte do seu avô? Porque a do João Pessoa eu conheço o fato. A do seu avô eu não localizo...?

 

R - A do meu avô foi o seguinte: João Dantas matou João Pessoa por conta daquela... Ele era jornalista, João Dantas era oposição a João Pessoa também, ele vivia com a (Berenice?) eu acho que é o nome dela, e ela era separada do primeiro marido. Isso em 1930 era um escândalo, e quando João Pessoa começou a... Como jornalista a atacar... Quando João Dantas começou a atacar João Pessoa, houve... Bom, o que se diz é que foi a mando de João Pessoa, invasão da casa de João Dantas, roubo de cartas pessoais, documento entre ele, ela e (Berenice?). Isso foi a grande motivação de João Dantas matar João Pessoa em Recife. Como João Dantas era primo da minha vó e minha vó casada com João Suassuna, imediatamente se estabeleceu uma relação política. Então acredita-se, nunca ninguém provou que quem matou meu avô foi um pistoleiro pago, acreditasse que tenha sido... Aquela coisa de família, né?

 

P/1 - Famílias que estavam ali envolvidas...? Mas foi após a morte de João Pessoa?

 

R - Após a morte de João Pessoa.

 

P/1 - Muito tempo?

 

R - Não, meu avô morreu... Meu Deus do céu! Não sei quando foi a morte de João Pessoa, mas ele morreu em outubro de trinta.

 

P/1 - Bom, então após a revolução que... Ah! Não no período da revolução que foi?

 

R - Foi, ele estava sendo acusado. Foi um desencadear de fatos, uma coisa muito rápida. Quando começaram a acusar meu avô de envolvimento na morte de João Pessoa ele era senador e estava na Paraíba. Ele saiu da Paraíba e veio pro o Rio de Janeiro, porque o senado, capital era lá e ele foi pro senado para se defender. Ele estava colocando uma carta para minha vó no correio, saindo pra colocar uma carta pra minha vó, quando ele foi morto.

 

P/1 - Ah! Então ele foi morto no Rio?

 

R - No Rio. Ele nunca mais voltou a Paraíba. O que aconteceu? Foi morto e aí estava o estopim, estava em plena revolução de trinta e minha vó teve que sair da Paraíba. Ela, nessa época, morava em Taperoá. Nessa cidade que a família praticamente... Aliás, os últimos filhos nasceram lá. Meus outros tios nasceram em outra cidade no sertão da Paraíba e ela saiu de Taperoá porque havia uma revolta de algumas pessoas da cidade contra minha vó, querendo invadir a casa e tal. Então ela praticamente fugiu pra Pernambuco, e saiu nessa época. Os dois filhos mais velhos já moravam em Recife porque já estudavam medicina. Ela trouxe os outros sete, foi pra Pernambuco e... Passaram um tempo lá em Pernambuco pra depois ela ter condições de retornar pra Paraíba. Lá eles tiveram apoio de alguns amigos, amigos da família de meu avô e permaneceram um tempo lá.

 

P/1 - A sua avó é viva?

 

R - Não, faleceu. E a gente insistiu... Meu marido dizia: “Dona Ritinha, grava essa história, fale, conte essa história”.

 

P/1 - Eu estou aqui pensando… Se ela estivesse viva eu ia lá fazer entrevista. É uma preciosidade, né?

 

R - Mas tem um tio que conta bem essa história toda, ele é muito interessado nisso.

 

P/1 - Eu queria saber da relação do Ariano que é seu tio, irmão da sua mãe, tá certo? É pra gente não ficar muito dentro da história da família, senão a gente vai ficar duas horas só nas perguntas.

 

R - E olha que eu sei por alto, né?

 

P/1 - E eu sei que isso aqui é o resumo do resumo, porque é muita história.

 

R - É muito interessante.

 

P/1 - Mas eu não queria deixar passar para gente situar você também, né?

 

R - Claro.

 

P/1 - Vamos voltar para a sua história, queria que você me contasse um pouco da sua infância. Você já me falou da sua fase de juventude, adolescência e juventude. Fale um pouquinho da sua infância para buscar alguns elementos de vivência pra gente passar para a sua formação e entrar no Pacs.

 

R - Eu acho que eu tive uma infância de classe média alta, né, morando num bairro de classe média alta em Recife. Minha mãe começou a trabalhar muito cedo, por essa história toda vivida, eles tiveram uma quebra no padrão econômico, se bem que essa avó matriarca, eu acho que ela fez das tripas coração pra poder educar os filhos. Mas minha mãe começou a trabalhar muito cedo, com dezesete anos também. E todos os irmãos trabalharam muito cedo pra poder se manter mesmo. Minha vó não trabalhava, apesar de ter sido... Estudava, ela não teve nenhuma fonte de geração de renda a não ser a terra que ela ficou quando meu avô morreu. Depois foi vendido e ela pode comprar uma casa em Recife e toda família migrou pra Recife, mas a minha mãe quando casou optou por ser dona de casa. É de uma família muito grande, meu pai também, eles optaram por ter muitos filhos. Ela em dez anos teve oito filhos, mas teve alguns problemas. Tem alguns irmão que foram prematuros e por isso foi num período de tempo tão curto assim, dez anos ela teve dez filhos.

 

P/1 - Muito rigor na educação? Como eram seus pais?

 

R - Não, minha mãe é uma pessoa de cabeça muito aberta e minha vó… Pesa essa coisa dela ser matriarcona e tal, ela era uma pessoa mais liberal, até que meu pai, interessante. Ela tinha muito uma ascendência sobre o genro, meu pai muito grande, muito interessante isso também. Meu pai gostava muito dele. Bom, minha mãe sendo dona de casa. Ela é uma pessoa muito interessante, acho que ela é uma figura muito legal. Eu acho que é muito matriarca também, aquela mãezona assim, muito caladinha, muito na dela, mas ela é muito interessante. Ela se dedicou a casa, ela sempre costurou pra essa filharada toda. Ela que fazia as roupas da gente, mas a dona de casa, e a educação rigorosa pode ficar por conta de escola religiosa, né? Eu estudei durante dez anos numa escola de freiras, todas as minhas irmãs estudaram, várias primas estudaram. Porque tem essa coisa, deu certo com os primos, aí a família toda estudava lá. E a origem dessa escola é francesa.

 

P/1 - Que escola é?

 

R - Chama-se Colégio da Sagrada Família. É uma ordem francesa e nos primeiros anos as freiras, inclusive elas falavam em francês entre elas, tem aquela coisa meio... Muito tradicional e interessante que ela fazia, a opção da escola religiosa para as filhas. Os meus irmãos, são três, estudaram em escola pública e depois foi para escola de padre. Muito interessante isso também. Bom, meu pai é uma pessoa politicamente muito conservadora. Mamãe não. Ela tinha medo de se envolver na política, pra ela sempre foi muito pesado por conta... A política que matou o pai dela, na cabeça dela sempre foi isso, e quando meu avô morreu, como eu disse, ela só tinha cinco anos. Então ficou extremamente marcado por esse fato, mas ela sempre foi mais aberta do ponto de vista político _____, político. Meu pai não, sempre muito conservador. Ele é um homem muito inteligente, muito culto, ele tem uma cultura geral, meu pai lê horrores. Minha mãe lê menos, mas papai lê muito. Ele tem um conhecimento geral muito interessante. Ele lê história, lê economia, mas é uma pessoa, por opção, muito conservadora. A linha política que ele optou é muito conservadora, mas os dois eu acho que tem uma formação humanística muito forte. E minha infância foi, eu acho que uma infância de brincadeira, escola muito boa, convivência muito grande com a família. Essa família grandona assim. Eu tenho, um dia eu fiz as contas, são 65 primos legítimos. Que doidice um negócio desse, né?

 

P/1 - Festa de natal de vez em quando?

 

R - Essa coisa de conviver com os primos e tal não foi muito de brincadeira de rua. Minha irmã mais nova sempre foi muito da rua, a mais nova, a caçula de todos. Paula vivia na rua, tinha grupo disso, grupo daqui… Eu não. Eu era mais de estar em casa, eu gostava mais de estar lendo, uma vida caseira, eu acho que eu tive uma infância boa, né?

 

P/1 - Você se lembra de doenças? De alguma epidemia, de alguma coisa ligada a saúde na sua infância?

 

R - Ah! Várias doenças, né? Numa família de oito, então todo mundo teve sarampo, todo mundo teve catapora, todo mundo teve coqueluche. Eu me lembro tendo coqueluche, eu me lembro tendo catapora, e me lembro tomando vacina de pólio. Engraçado porque não existia campanha e eu tenho um tio que é pediatra. Então o tio Marcos levava a vacina. Eu me lembro tomando em casa as gotinhas. E me lembro tomando vacina contra varíola, que fazia... E de doença marcante, teve uma irmã que teve meningite, me lembro de uma irmã tendo hepatite, e as coisas assim de casa. Tenho uma irmã, uma dessas que foi prematura, ela nasceu muito precocemente, com seis meses e meio. Ela teve o que a gente chama de (poxia?), né? Faltou oxigênio no cérebro e ela ficou com deficiência motora. Durante anos, aproximadamente quinze anos, todos os dias minha mãe saía com ela pra fazer fisioterapia, mas felizmente o que afetou na parte motora... Ela tem uma vida normal, na medida do possível, né? Ela dirige, é professora da Universidade Federal de Alagoas e bom... Aqui ela é historiadora. E assim, o cuidado de minha mãe a vida toda talvez tenha influenciado um pouco algumas decisões que eu tenha tomado, mas é isso.

 

P/1 - Bom, a gente já viu pelas suas fichas a sua formação, então você opta por medicina, e como é que começa a sua carreira?

 

R - É, um tempo pensei, quando eu era estudante, primeiro eu entrei na faculdade achando que eu ia fazer cirurgia, né?

 

P/1 - Oftalmologia ou não?

 

R - Não. Acompanhei meu pai umas poucas vezes em cirurgia, na época que ele ainda operava, não é minha praia. Depois pensei em fazer psiquiatria. Tinha alguns amigos de turma que faziam psiquiatria e trabalhavam numa instituição, meio que revolucionário em Recife, em termos de psiquiatria e durante dois anos da minha vida acadêmica eu fui plantonista dessa instituição e achava que eu conseguiria trabalhar, promover a saúde mental das pessoas se eu fizesse psiquiatria. Bom, aí dei seguimento a isso: “Vou fazer psiquiatria”. Fiz concurso pra o maior hospital de psiquiatria de Pernambuco, é um hospital estadual. Comecei a acompanhar uma professora que eu tenho o maior respeito. Mas teve um dia, um fato que... Uma determinada paciente que eu digo: “Eu não vou conseguir transpor as dificuldades da psiquiatria, e eu acho que eu vou me frustrar mais como médica do que vou me satisfazer. Não vou conseguir superar as frustrações que a psiquiatria poderiam trazer pra mim”. Na falta de solução você consegue resolver muita coisa, mas muita coisa também você não consegue por conta do ambiente familiar, por conta do meio social. Então nessa época eu tinha começado a dar plantão em pediatria também pela influência de uma pessoa que é uma grande amiga minha hoje, era até muito mais ligada na época que eu comecei a dar plantão a minha irmã mais velha, e Márcia chamou pra trabalhar nesse meu primeiro emprego. Eu fui acadêmica de lá também.

 

P/1 - Qual é que era o emprego?

 

R - É do Hospital Infantil Jorge Medeiros. Os diretores do hospital são professores da universidade também, e dr. Luís Carlos, muito pelo desempenho do aluno na disciplina de pediatria, ele chamava pra ser acadêmico do hospital em que era um dos diretores, e por coincidência tinha essa amiga que era plantonista de lá. Fiquei inteiramente apaixonada pela pediatria, e nessa época eu estava já... Aquela dúvida, psiquiatria ou pediatria, coisas bem diversas, mas eu terminei optando pela pediatria porque eu fiquei literalmente apaixonada.

 

P/1 - Você já tinha se casado?

 

R - Tinha me casado. Eu me casei no quinto ano da faculdade. Meu marido é médico e sanitarista. As coisas que não são coincidência. Com essa decisão de fazer pediatria eu fiquei até meio assustada porque era praticamente o fim do quinto ano médico e só naquela hora que eu... Sexto ano é o internato, então eu vou ter que me dedicar porque várias colegas que decidiram fazer pediatria desde do terceiro ano de faculdade vinham estagiando e tal. Bom o Imip pra onde eu concluí o curso médico e decidi que eu ia fazer pediatria. Eu me formei em dezembro de 85 e janeiro de 86 já começaram a acontecer os concursos pra residência médica, né? E assim, no sexto ano eu tinha passado dois meses no Imip. Eu literalmente fiquei encantada com o hospital, não conhecia. Eu conhecia o Jorge Medeiros, mas não conhecia o Imip. O Imip é uma instituição filantrópica, e é fundamental que eu fale sobre o que é o Imip porque ele tem um papel assim: em termos de Brasil, fundamental na criação do programa de agentes comunitários de saúde. O Imip é uma instituição filantrópica, é privado e filantrópico, de utilidade pública municipal, estadual e federal. É referência nacional, regional, estadual, e no município de Recife é uma escola de formação de saúde da criança e da mulher. Então eu fiz concurso pra área no Imip, passei na residência médica e fiquei muito contente por ter passado lá. Fiz minha residência de dois anos. Foi um pouco mais de dois anos porque quando eu estava na metade do segundo ano de residência eu tive meu primeiro filho, e aí tive licença de gestação, e só concluí a residência um pouco depois da minha turma de residência.

 

P/1 - Você fez seu curso privado de pediatria?

 

R - Fiz em casa. Então o Imip teve uma coisa muito importante, muito marcante na minha escolha de fazer saúde pública, né? Em 1983 o Imip em parceria com a Unicef, começou um projeto e Tereza deve estar até detalhando mais isso, porque ela viveu essa época. Desde então o projeto de cooperação técnica entre Imip e Unicef - o escritório regional do Unicef é lá de Pernambuco - de implantar uma proposta de extensão comunitária do instituto materno infantil em algumas favelas da cidade do Recife. Essa proposta veio da conferência de Manhattan, foi em 1977 se eu não me engano, foi de onde saíram as propostas do ano 2000 sem miséria, várias instituições... A ONU via organização... A OMS [Organização Mundial de Saúde]. Várias instituições governamentais e não governamentais tiraram algumas diretrizes pra que chegasse ao ano 2000 sem miséria. Na área de saúde uma das diretrizes foi a formação daquilo, não sei se especificamente esse nome de agente comunitário de saúde, já que seria uma proposta pra implantar ações básicas de saúde nos países de terceiro mundo, né? Um desses países de terceiro mundo seria o Brasil. Umas das regiões do Brasil escolhida pela Unicef pra implantar foi o Nordeste, especificamente Pernambuco, e o parceiro convidado foi o Imip. Esse agente de saúde foi mais ou menos idealizado em cima de experiências que já existiam na China, do médico descalço, algumas experiências que existiam na América Latina, de trabalhar com pessoas leigas da comunidade que reassumiriam aquela figura do indivíduo da comunidade que toma conta da saúde das pessoas. Bom, então voltando a 1983, a Unicef? _____________, o Imip propõe essa parceria. Já tinham sido identificadas no município duas áreas de favela que demonstravam o interesse. Já tinham as lideranças comunitárias que faziam um pouco isso. Tem duas figuras extremamente importantes, o professor Fernando Figueira, presidente do Imip, foi o fundador. É um pediatra. Dentro da saúde em Pernambuco ele já foi reitor, já foi diretor de faculdade de medicina, já foi secretário estadual de saúde, e o Imip é uma instituição que tem 37 anos. A outra pessoa muito importante foi Stemberg Vasconcelos, é um pediatra que foi do Imip e posteriormente ele foi oficial de saúde do Unicef, na região. Então Stemberg foi na realidade a ponte Unicef e tantas outras pessoas se envolveram nesse projeto. De início a dra. Tereza Cristina Alves Bezerra foi convidada pra ser a coordenadora do projeto e é até hoje. Em 1988, quando eu acabei minha residência... Antes de acabar essa residência eu fui convidada pra ser médica pediatra em uma dessas favelas. Na época eu lembro bem que o convite me balançou muito. Eu gostava muito de uma enfermaria no hospital que era a enfermaria de... O terceiro andar do hospital - é um prédio que tem seis andares - o terceiro andar fica a enfermaria de crianças maiores, dos lactantes e das crianças ____. Eu gosto muito de criança quando ela já se comunica com você, já diz o que pensa, rebate o que você diz, e essas crianças sempre me encantaram. Essa enfermaria eu gostava muito porque a faixa etária desses meninos... E eu fui convidada por um dos ________, a permanecer nesse andar. Inicialmente como médica do andar, mas com possibilidade de preceptoria. Também nessa enfermaria eu recebi quase que ao mesmo tempo o convite de ir pra comunidade e eu fiquei assim: “Que é que eu faço?” A opção pela ciência, porque essa enfermaria do terceiro andar recebe pacientes ________, pro Nordeste, como eu digo, então todo o Nordeste está recebendo paciente e agentes fizer, respirar a gente respira é conhecimento médico científico. Mas eu tinha o outro convite de ir para a comunidade fazer uma coisa que era a intervenção na favela, né? Eu sabia que eu ia tratar diarréia, infecção respiratória, escabiose, que é a sarna, tratar o piolho. De alguma forma eu poderia intervir na comunidade. Eu achava que poderia trabalhando com agente de saúde - nessa época o programa já tinha cinco anos - interferir de alguma forma nesse ciclo de pobreza, doença, morte.

 

P/1 - Prevenção?

 

R - Prevenindo, né? Então, optei por fazer isso. Na época foi muito dentro do próprio Imip, os colegas de residência: “Mas você é louca? Você vai para a favela? Você não tem medo de assalto? Você vai ser roubada! Você tem opção de ficar no terceiro andar”. Que é uma coisa que as outras pessoas até desejavam muito. É: “Eu vou”. Pronto. Foi isso. Foi essa opção que eu fiz.

 

P/1 - E aí como é que foi essa opção?

 

R - Aí vê só: três dias que eu acabei minha residência, depois foi um fim de semana que tudo veio de repente na minha cabeça. Tereza chegou e disse: “Venha cá”. Era do Imip, mas sempre trabalhando fora. A gente não tinha muito conhecimento. Tinham duas colegas que já tinham acabado a residência, eram Cíntia e Lígia, elas eram médicas da emergência do Imip, também trabalhavam na favela e sempre me conheciam de movimento estudantil na faculdade, sabiam da minha participação em tudo e eu fui, elas foram minhas preceptoras, também na residência. Elas que disseram assim: “Acho que a Afra é uma pessoa boa pra Tereza chamar como pediatra”. E na verdade foram elas que indicaram. Aí Tereza: Você que é a Afra”? Eu digo: “É, sou”. “Olha, eu queria conversar com você, porque Cintia e Lígia me disseram que está acabando a residência agora, e eu tenho uma proposta pra lhe fazer, pra chamar pra comunidade”. E eu assim, com mil duvidas na cabeça, mas depois de três dias entrou no consultório no posto da comunidade, eu acho que na sexta-feira eu fui conhecer de tarde lá, Tereza me levou, me apresentou aos agentes de saúde, eu fui substituir Cíntia, porque ela fez uma opção, depois de sair da comunidade ela estava querendo se dedicar ao mestrado dela e tal, e eu fui substituir Cíntia, que era idolatrada pela comunidade. Então teve agente de saúde que quando eu cheguei disse: “Não pense que você vai substituir Cíntia não!” Eu digo: “Não, não quero, não vim substituir ninguém”. Mas aí a gente começou a trabalhar no ambulatório, uma coisa muito inovadora pra mim, no sentido de que eu tinha aquela vivência do Imip. O Imip atende uma população que também é favelada, só que ela vai para o Imip né? A gente não atende dentro da favela. Eu comecei a atender essas pessoas a cinquenta metros da casa delas, a cem metros da casa delas...

 

P/1 - Qual era a sua função ali exatamente?

 

R - Eu fui pra ser médica pediatra.

 

P/1 - Pra ser médica? Então como é que funcionava a estrutura do programa, nessa época?

 

R - Tereza já como coordenadora, mas também ela trabalhava como médica ginecologista, fazia parte de ginecologia. Tereza tem uma formação em medicina geral comunitária, mas ela tinha, ela fez uma, digamos, uma sub-especialização em toque ginecologia, então ela era além de coordenadora do projeto nessa comunidade de Santa Teresinha, ela era obstetra, e eu era pediatra. Nós tínhamos em cinco dias da semana, eu fazia atendimento médico mesmo durante três dias - um dia por semana era de reunião interna do grupo, né? Nessa reunião a gente conversava com os agentes de saúde, a gente discutia os problemas administrativos do posto, porque esse postinho de saúde é da comunidade, só que o gerenciamento é do Imip, tá? Então esse dia na semana a gente fazia de reunião interna, paravam as atividades do posto à tarde, pela manhã o funcionamento do postinho era normal, mas à tarde a gente se reunia, e uma vez por semana também, eram às terças feiras, nós fazíamos reuniões de rua. Então é o seguinte: cada um desse agentes de saúde trabalha com mais ou menos de 150, duzentas famílias. Ele se responsabiliza por essas famílias e uma vez por semana - eram na época doze agentes de saúde - uma vez por semana a gente fazia uma reunião nas ruas ou em uma das ruas daquele agente de saúde que tinha 150 famílias... Então nós saíamos do posto, íamos sentar no meio da rua ou na casa de alguém. Todo mundo levava sua cadeirinha e a gente ia conversar com mulheres e alguns homens sobre problemas de saúde, ou não. Muitas vezes a gente saía: “Hoje a gente vai conversar sobre aleitamento materno”. Aí tinha dado uma chuva tremenda na noite anterior, o Recife tem muitos canais né, muita água, então o canal tinha transbordado pra dentro das casas, quando a gente chegava lá, __________, uma situação terrível. “A gente precisa conversar sobre aleitamento, a gente deixa pra daqui a quinze dias, quando você voltar... Mas a gente está precisando decidir o que é que a gente vai fazer com o lixo que entupiu o canal e por isso transbordou, né, então…”

 

P/1 - Na própria comunidade discutir isso?

 

R - A própria comunidade discutia isso e a gente junto. Problemas... A gente saía pra discutir do problema do posto, mas na noite anterior tinha havido troca de agressão na fila do posto, porque não tinha vaga pra dentista, então a gente ia discutir com a comunidade sobre o que fazer para solucionar, já que só tinha um dentista. Comunidade extremamente carente. Então isso foi meu grande ensinamento de saúde pública. Eu vivi na prática, né? Eu não tenho uma formação específica de saúde pública, visto que eu fiz a residência de pediatria. É minha meta, não chegar aos quarenta anos sem começar o meu mestrado, mas ainda está um pouco distante. Mas foi muito isso, né?

 

P/1 - Do jeito que você está me colocando parece que estava funcionando muito bem o posto, me parece que são duas médicas que estavam lá atendendo a comunidade toda? Havia uma capacidade de atender a essa demanda, e isso estava funcionando? Porque em geral os postos que eu tive informação no modelo ideal, teriam um clínico geral para poder pegar os outros casos também. Como é que vocês filtravam? Era só na área de pediatria e ginecologia mesmo?

 

R - Era, era sim. Veja só: como eu falei a proposta inicial do Imip... O Imip é um instituto materno infantil, então ele trabalha a saúde materna infantil, né? Se você for lá no Imip, você não vai ver homens a não ser os pais que estão acompanhando seus filhos pra consulta, mas não tem a consulta do idoso, não tem a consulta da mulher que não está gestante, ou não no pré-natal, tá certo? Ele faz assistência materno infantil, mas não faz assistência... O clínico da mulher tem no Imip, mas não é o objetivo principal, se faz prevenção, tem cardiologia, tem vários especialistas que também atendem a mulher, mas não tem a figura do clínico geral no Imip. Porque atender a população materno-infantil... Porque as noções básicas de saúde são tão centradas na população materno-infantil? É quem mais adoece, morre. É uma questão de prioridade de política pública de saúde, né? Então o Imip optou por isso. Vamos voltar um pouco a história desse projeto de extensão comunitária do Imip. Falei a minha ____, no projeto, mas o projeto como eu disse a você, começou em 83. Para 88 foram cinco anos, né? Quando eu entrei no programa sendo médica, ia fazer assistência e as outras atividades do programa, ele já tinha cinco anos. Nessa comunidade especificamente que eu fui trabalhar, foi Santa Teresinha. Então hoje o Imip trabalha com nove comunidades, oito em Recife e uma em Olinda e a proposta do professor Fernando Figueira e do Orlando (Noff?), superintendente do Imip, fosse uma proposta de multiplicação, e que felizmente isso foi efetivo, né? Então o estado do Ceará, quando foi implantar o programa de agente comunitário de saúde, foi levado pelo Unicef pra conhecer a experiência do Imip e aí o estado do Ceará optou por uma política pública de saúde em que a porta de entrada do sistema de saúde fosse também o agente de saúde, isso em 1988, o projeto no Imip tinha seis anos já, então...

 

P/1 - Que coincidentemente você trabalhava com agente comunitário já, né?

 

R - É, mas o estado do Ceará, Secretaria Estadual do Ceará foi conhecer a proposta do Imip não por coincidência. É porque a Unicef tinha investido, e o escritório regional do Ceará, conhecendo a proposta do trabalho regional de Pernambuco, chamou o pessoal do Ceará que já estava motivado, interessado numa proposta nova.

 

P/1 - Porque estava acontecendo uma ampliação do projeto?

 

R - Aí, veja só. Foi isso. O estado do Ceará foi na realidade o grande divulgador porque ele optou, enquanto o Imip era uma proposta. A proposta era restrita. Na época eram cinco comunidades em que o Ceará conheceu a proposta do imip, eram cinco comunidades. O estado do Ceará optou. O governo estadual do Ceará optou por aquilo ser uma política de saúde pública do estado, isso em 89. Então em 91 o ministério da saúde, conhecendo a proposta do Ceará e com a entrada de cólera pela região norte, conheceu a proposta do Ceará e disse: “Vamos implantar agente de saúde não só mais no Ceará. Vamos levar a proposta pros estados do Nordeste e ver que vai querer implantar, no norte, e Nordeste”. Temos orgulho de dizer que essa coisa começou lá. Tenho muito orgulho de dizer isso. A evolução do programa de extensão comunitária de trabalhar com agente de saúde... Quando eu entrei já estava muito sedimentado, os resultados de impacto em coeficiente de mortalidade infantil, em redução de percentual de desnutrição e aumento de cobertura vacinal, coisas que jamais se imaginava numa favela sem você fazer nenhuma mudança estrutural urbana ou econômica,dos moradores daquela favela com ações básicas de saúde, ensinadas pelo agente de saúde, que são pessoas da comunidade. Ensinada por eles após eles receberem uma capacitação e isso comprovadamente você avalia cientificamente, fazendo pesquisa e dizendo: “Dá certo, o impacto é esse”. Isso foi que convenceu os dirigentes, os gestores públicos estaduais, e gestores federal, de que você trabalhar dessa forma poderia dar impacto indicadores de saúde. Assim, historicamente se investia no modelo atual, no modelo vigente, e que não tinha o impacto que veio a ter com agente de saúde.

(TRECHO INAUDÍVEL)

 

R - Fazia o antibiótico, né? Eu como pediatra, eu digo: Apesar de pediatra, de atender aquela faixa da população, atendia idoso, atendia gestante, tá certo? Fui um pouco do que hoje está sendo proposto pra médico de saúde da família. Então se eu sair de gerência de programa, porque hoje eu praticamente não clinico mais. Minha formação é de pediatra, mas faz algum tempo que eu não estou na clínica da pediatria, acho que eu não volto mais só pra pediatria, vou querer ser uma médica de família, e aí eu vou ampliar minha formação, que é da criança, né? Porque o pediatra é um clínico, um clínico da criança. Mas aí eu vou precisar fazer alguma coisa se eu quiser ampliar meus horizontes de trabalho na questão da assistência médica. Mesmo se eu for fazer isso, voltar a fazer isso, que deverei voltar porque não vou ser coordenadora eternamente. Isso é uma transição, é um período de transição. Bom, o outro ganho fazendo grande balanço da evolução do agente de saúde, com noções básicas de saúde, como eu disse a você, os resultados de impacto e mortalidade infantil, por exemplo, vamos citar exemplos concretos: nessas comunidades do Imip nos três primeiros anos de vida do projeto, a mortalidade infantil que era de 141 por mil nascidos vivos, numa área específica, você não pode tirar isso, porque Recife não é isso, tá certo? Mas naquela área de favela, em três anos baixou pra 104 por mil. Cobertura vacinal que a gente mede pelo número de crianças que são vacinadas e que estão com o cartão de vacina em dia a cada mês. A cobertura vacinal nessas favelas era uma coisa, 20% das crianças só, tinham cobertura vacinal em dia. Hoje 95%, pra gente é uma coisa rotineira, entendeu? Cobertura de pré-natal e um pré-natal de qualidade, porque o que a gente vê muito em relação à pré-natal é que as mulheres estão indo fazer as consultas, mas a qualidade das consultas do pré-natal deixa muito a desejar. Esse pré-natal de qualidade que é importante, né? Você evitar que essas mulheres tenham complicações no parto, que ela venha a morrer, que o bebê dela venha a morrer, né? Então isso significa que fez um bom pré-natal da gestação, o que se espera de uma mulher saudável, e um bebê saudável. Essa cobertura de pré-natal era o quê? 25%, 30%. Tem meses nessas comunidades que a gente chega a 100%. Todas as mulheres fazendo pré-natal. Por que? Porque tem uma pessoa, é o agente de saúde, que assumiu a vigilância, não mais a doença, mas a saúde daquela família.

 

P/1 - Como é que você consegue que eles façam isso? Que eles assumam?

 

R - O agente de saúde?

 

P/1 - É.

 

R - Bom, quem é esse agente de saúde? Ele é uma pessoa... Tem uns critérios pra ele entrar no programa, né? Então quando foi estabelecido esses critérios, o ministério da saúde até aperfeiçoou, mas é mais ou menos a mesma linha, ele deve ter mais de dezoito anos, saber ler e escrever, ele deve morar na comunidade em que ele vai trabalhar, isso é fundamental, a gente não pode abrir mão disso, ele tem que morar na comunidade em que ele vai atuar pelo menos dois anos, e ter uma disponibilidade de área, de trabalhar com aquelas famílias por oito horas. Após essa seleção, é muito interessante quando a gente trabalha com as lideranças comunitárias e quando a gente dá essa... Já sei quem vai ser na cabeça dele da liderança, ou ele próprio, porque ele já fazia esse papel de cuidar da saúde, ou ele diz: “Olhe, tem fulano, tem beltrano, tem cicrano, vamos fazer a seleção”. Então a gente faz uma seleção, é uma entrevista, tem uma pequena... Questões muito simples de noções básicas de saúde, sobre diarréia, infecção respiratória aguda, que qualquer leigo poderia conhecer. Perguntar dali e tem uma entrevista coletiva de todos os candidatos que estão se habilitando a uma vaga de agente de saúde.

 

P/1 - Quer dizer que vocês fazem... A indicação vem da própria comunidade? Vocês fazem uma reunião pra ver indicação?

 

R - É, a gente pede a comunidade que indique os candidatos, e nós fazemos a seleção. Não que eu digo: “Na época do Imip... Hoje as coordenações estaduais tem esse papel do programa de agente de saúde. Após a seleção cada grupo de trinta agentes de saúde é supervisionado e é instruído por um enfermeiro de formação universitária, necessariamente os municípios e o Imip. Na época, tinha um enfermeiro que fazia esse papel de acompanhar, supervisionar, e dar capacitação ao agente comunitário de saúde. Essa capacitação é de dois meses, são 320 horas mais ou menos, em cima das ações básicas de saúde da criança e da mulher. O agente de saúde tem que sentar pra estudar o quê? Diarréia, como prevenir, como tratar, o que fazer, quando referenciar. Ele sabe quando a criança está desidratada e ele não tem mais condições de acompanhar e que está na hora de referenciar pro posto de saúde, pro hospital, pra onde seja. Ele vai estudar infecção respiratória aguda, crescimento e desenvolvimento, saber identificar quando a criança está desnutrida, o que fazer, aleitamento materno e vacinação da saúde da mulher, questões relacionadas a gravidez, parto, o pós-parto, pré-natal, o que isso envolve o pré-natal, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, prevenção de câncer Sevic Uterino e de mama, planejamento familiar. Isso são grandes ações que o agente de saúde trabalha. Com a evolução, com o passar dos anos outros conhecimentos são gerados porque a necessidade da comunidade até dita isso. Vamos voltar mais uma vez ao exemplo do Imip. O Imip... Aí com essa estrada de quatorze anos de atividade, então o agente de saúde do Imip, pela própria demanda da comunidade, hoje ele trabalha a questão materna-infantil, mas essas ações estão tão sedimentadas que outros problemas começam a se sobrepor, hipertensão, diabetes, então os horizontes se ampliam. Em muitas das comunidades, hoje ligadas ao Imip, trabalham com o pediatra, obstetra, e a própria comunidade pelos outros meios de financiamento que ela própria conseguiu através da sua organização pra conseguir um clínico, tá certo?

 

P/1 - Vocês do Imip trabalhavam com um grupo menor... Muito mais localizado. Cresceu o programa, reduziu a eficiência?

 

R - Não, hoje o estado de Pernambuco tem 186 municípios. Desses 186, 146, tem o programa. São 6.200 agentes de saúde, dão assistência a um milhão de família. O estado tem, pelo IBGE, 1400 famílias mais ou menos, tá certo? E esse mundão de gente supervisionado por 285 enfermeiros. Esses 6.200 mil agentes de saúde, é claro que eu não posso hoje dizer que o trabalho do Imip foi tão pioneiro, que tem quatorze anos que está tão avançado. Eu não posso comparar ao município que a gente implantou o programa ano passado. Então as realidades, tem além de suas particularidades regionais, municipais, e comunitárias, cada comunidade é uma diferente da outra, mas é muito interessante isso. A gente acha que por ser um município é tudo igual. Não existe isso. Cada comunidade é de um jeito. Então a gente faz um esforço tremendo, né? E se hoje a gente está numa reunião, no momento de avaliação nacional dos programas a nível de estados, é justamente pra gente identificar essas dificuldades de acompanhamento, de supervisão, de avaliação, de impacto. Esse país tem quinhentos anos de doença, não dá pra em seis anos a gente achar que vai conseguir mudar tudo, mas a gente chega lá.

 

P/1 - Bom, pra gente já entrar num fecho, quais são os maiores problemas que você enfrentou nesse trajeto de trabalho com o PACS?

 

R - Do ponto de vista técnico e pessoal, a falta de uma formação universitária que me preparasse pra trabalhar com a comunidade. Não se admite que num país que tem 50% da sua população vivendo em favela, a formação das pessoas que trabalham com saúde e eu não digo só o médico, o médico, a enfermeira, odontólogo, psicólogo, qualquer pessoa da área de saúde não se preocupe com isso. Felizmente o que me faltou na formação universitária eu tive de ganho na minha formação de residência, que ainda assim o Imip já tinha um projeto, eu não... Não deu pra suprir essa necessidade. Bom, isto é do ponto de vista técnico. A dificuldade não é deu socialmente ser de uma classe completamente diferente, uma classe social completamente diferente que pesa, tinha uma vontade minha, coisas extremamente chocantes, totalmente diferentes do meu meio de vida.

(Falha da fita).

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+