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História

A vida em uma imagem

Sinopse

Em uma entrevista que integrou o processo da realização do filme " Pessoas-Contar Para Viver" Marco Del Fiol um dos diretores do filme revela através da sua vida como a realidade e a ficção podem fazer uma fusão. Em um ambiente de classe média e estruturado, Marco é arrebatado pelas imagens desde a infância até encontrar no Vale do Amanhecer um Sol onde preto velhos, constelações familiares trazem revelações profundas e surpreendentes sobre a sua existência, o seu amor, trazendo cenas tão profundas que poderiam até estar em um dos seus filmes.

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Uma vez eu ía sair com o meu pai e saí com os sapatos trocados, quando eu voltei e minha mãe parou pra ver ela reparou que meu pé estava cheio de bolhas. Ela curiosa perguntou o porque eu não tinha reclamado... Teve uma vez que eu tive pneumonia e tive que tomar injeção, na hora que eu ia tomar injeção eu fiquei pensando o porque estaria reclamando? O que Jesus tinha passado ali na cruz, o tanto que ele tinha sofrido, sido pregado, estado com uma coroa de espinhos e eu ali reclamando de uma injeção? Que escândalo que seria. E assim ficava em silêncio na injeção, e também o que eram umas bolhas no meu pé perto de um encontro com meu pai.

Meu pai foi uma pessoa criada em hotel, ele morava num hotel, então tinha um contato com línguas, sotaques que lhe atravessavam costumes diferentes que batiam a sua porta e partiam na noite seguinte. Esse fascínio com o diferente acendeu no espírito do meu pai uma grande sede de viagem e fez ele passar por vários lugares e lugares assim diferentes, ele foi pro Irã na década de 80, pro Japão, tudo a trabalho, e aquilo me maravilhava. Ele assinava a revista National Geographic, eu nunca li nenhuma matéria que saiu lá, mas as fotos me pegavam de um jeito, aquilo pra mim era simplesmente a bíblia. Pelo lado do meu pai, a minha vó era católica e ela tinha aquela Bíblia grande assim com as bordas douradas e abria aquilo e tinham vários quadros renascentistas, tal, com as cenas bíblicas. Pra mim era como a National Geographic. Eu ficava vendo aquelas imagens, a sequência das imagens e tudo muito forte, tinha o Daniel na cova dos leões, Moisés abre o Mar Vermelho, as 10 pragas, o irmão mata irmão. O pai que vai sacrificar o filho porque Deus falou que ele tem que matar o filho e no final, era uma prova, isso sim é uma prova, não saber que o M tem quatro pernas ou tem três, como era na minha escola, aquilo me chamava muito.

E tudo o que eu sempre quis era ser bíblico, queria ser atropelado pela vida, eu queria que a vida me tomasse da mesma forma que toma uma árvore e a árvore, quando tem a cerca, ela cresce em cima da cerca. Essa coisa que eu tinha quando eu era criança: “Cadê a vida?”, cadê esse negócio que toma as pessoas e que arranca de um lugar e leva pro outro? Que faz o cara atravessar deserto, abrir o Mar Vermelho, eu queria isso, queria a experiência de estar vivo, essa intensidade, uma intensidade .interna e não externa. Queria ter profundamente essa experiência religiosa, que é essa religação, esse contato com a força da vida, com esse assombro, com essa possessão. Eu quero ser possuído pela vida, porque Deus é a vida e a vida é Deus.

Nasci em Curitiba, e morei em Brasília que era uma cidade incrível para criança, porque tinha gente de todos os lugares então todo mundo é estrangeiro. Esse primeiro contato com essa coisa da religião, acho que foi pra mim no Rio de Janeiro. Eu acho que até essa coisa dela me levar para ver o filme de Jesus era um pouco isso, de andar procurando igreja no Rio e ver Jesus porque na Presbiteriana não tinha imagem. E na adolescência eu falei: “Eu vou fazer Cinema”. Com essa coisa de mudar de cidade, porque às vezes, a gente mudava assim bruscamente do nada, então, eram rompimentos. Era um corte seco, não tinha uma fusão: E aí eu sabia que onde a gente fosse, ia ter um cinema. Então, cinema era meio a minha igreja, sabe, minha mãe procurava igreja e eu procurava cinema e o cinema era essa luva, esse lugar que você sentava, era escurinho, você não via ninguém, aí você via um filme, você sonhava de olho aberto, via as fotos. Qualquer cidade que eu tivesse, ia ter um cinema, até em Tatuí tinha cinema, como que não ia ter cinema em Brasília? Como que não ia ter cinema no Rio? Então, o cinema era a minha igreja. Eu me trancava ali e via aquelas histórias incríveis que nem tinha na Bíblia. Juntava, as fotos vinham todas seguidas, inteiras, e eu ficava vendo aquelas histórias.

Lembro a primeira vez que assisti Fellini, era Amarcord, lá pela 1 da manhã e a televisão era próxima de mim e fazia um tunelzinho da minha cama com a Tv com o meu cobertor azul e ia assistindo aquilo, então eu experimente aquele estado de assombro. O assombro que a imagem proporciona, porque não era encaixotado, enjaulado, era uma liberdade que eu desejava experimentar. E o menino tava entrando na puberdade, e ele ia andando encontrava o touro, e o touro longamente respirava e lhe transmitia uma força, e era esse o estado da virilidade, da potência, da passagem pra vida adulta, tudo em uma única imagem. Essa é a imagem da minha adolescência.

 

E nessas de trabalho audiovisual Às vezes tinha que virar noite dentro do trabalho, e virando noite atrás de noite e trabalhando muito, uma vez eu estava bebendo uma Coca e tava sentindo um gosto meio esquisito, quando eu cheguei no fim da coca eu vi que tinha uma bituca de xigarro ali... Como que chegou a esse ponto? De eu beber uma coca inteira com uma bituca ali dentro e só perceber no final, realmente estava desconectado.

As desconexões vem com reconexões, uma historia quando eu estava na faculdade e já trabalhava, fui chamado pra fazer um making off da travessia de um balão no Itaimbézinho, ali na fronteira com o Rio Grande do Sul. Era acampando com o rio perto, as nuvens pareciam formar um glacê e o campo de visão era algo que tava mexendo comigo, ao final do processo tínhamos que escrever um texto sobre o que a gente tinha vivenciado e apesar da experiência ter me tocado eu fiz um texto um pouco cínico sobre a experiência. Já o outro fotógrafo que era um cara na dele, que parecia ser super duro fez um texto totalmente se abrindo revelando como a natureza tinha lhe tocado profundamente e transformado a sua forma de olhar as coisas, e puxando uma sinceridade no olhar e na sua visão sobre o mundo. Eu que tinha sentido uma coisa parecida, mas havia me escondido por trás de um texto cínico fiquei com vergonha e ao mesmo tempo instigado de ver um homem que tinha todas as suas questões, o seu trabalho prático, que podia até ser fechado, mas que se abriu com tanta sensibilidade, e não era uma mulher, um homem. Talvez era isso que eu precisasse expressar e ser e não sabia que podia.

"Você era muito aguardado aqui, demorou, mas você chegou" foi isso que o Preto Velho me disse quando sentei de frente pra ele no Vale do Amanhecer. Eu já estava trabalhando lá tinha um tempo com a minha mediunidade, mas nunca tinha passado como paciente. Paciência. Tudo tem o seu tempo, a gente não sabe o que foi em outro tempo, e já tinha um tempo que eu estava sem ficar com ninguém quase 10 anos sem nada nessa parte amorosa. E na casa um espírito incorporou numa mulher e me trouxe a mensagem de que em outra existência eu havia matado a mulher dele na frente dele e sabe-se lá quantas outras do povo dele, e quem não deixava nada acontecer na minha vida amorosa era ele, e eu muito comovido falei pra ele ver como estava a minha situação, ele disse que sabia, que eu era outra pessoa e que a partir dali ele e o povo dele iam perdoar, porque eu era diferente. E foi aí que conheci Minom.

 

Eu estava trabalhando em uns projetos com a Jasmin e a Minom era irmã dela, ás vezes ela mandava mensagem de trabalho após as 18 horas, só que eu as 18 encerrava meu trabalho, não respondia nada de trabalho de jeito nenhum após as 18. Ela não gostava nada, mas aos poucos em outros projetos fomos tendo uma cumplicidade no olhar até que um dia saímos pra jantar e contei toda essa minha história da espiritualidade que eu ia viajar pra trabalhar numa casa e ela ouviu tudo e mais que isso se interessou. O tempo passou e eu nervoso há quase 10 anos sem ficar com ninguém direito em um lançamento de prêmio fui no hotel dela e comecei a falar que não ia dar certo, que eu era complicado e etc... Ela rindo disse que eu era a primeira pessoa que discutia relação sem dar um beijo. Nos beijamos. Na outra vez que eu vi quando estava com ela, meu olhar atravessou o tempo e iudo que íamos viver. Ainda estamos vivendo.

E um pulo foi o filme da Marina Abramovich. Uma amiga estava trabalhando com ela, eu disse que qualquer coisa podia me procurar, nenhuma outra produtora tava entendendo direito o que a Marina queria. Essas oportunidades batem na porta 1 x a cada 20 anos, não deixei passar. A Marina veio, tomávamos o café e 4 dias depois estávamos numa longa jornada de uma experiência espiritual atrás da outra. Será que finalmente estou sendo possuído pela vida? Que ela está me tomando como toma uma árvore?

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