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História

A vida em um bairro industrial

História de: Maria Martinha Torres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2010

Sinopse

Maria Martinha Torres nasceu em 30 de setembro de 1923, em Madre de Deus, no Pernambuco, em seu relato conta sobre sua infância, juventude e detalha como era morar em um bairro industrial, onde trabalhava e aprendeu o oficio de tecelã. Posteriormente criou grupos para atividades da terceira idade e voltou a estudar, entrando na Universidade Claretianas, vivendo o que considerou “o melhor tempo” de sua vida.

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História completa

P/1 – Eu queria que a senhora falasse o seu nome completo, o local e data do seu nascimento.

 

R –  Maria Martinha Torres... Data do nascimento, né?

 

P/1 – Local e data.

 

R – Vila Industrial, São Paulo...

 

P/1 – A senhora nasceu na Vila Industrial?

 

R – Não nasci em Madre de Deus, que eu falei... Ah, tinha que ter falado assim... Tinha que ter falado aonde é que eu nasci, né? Tá vendo eu já tô atrapalhando tudo aí. Eu nasci no município de Madre de Deus, Pernambuco.

 

P/1 – Em que data?

 

R – Dia 30 de setembro de 1923.

 

P/1 – Dona Maria, qual é o nome dos seus pais?

 

R – José Balbino Bezerra e Martinha Maria da Conceição.

 

P/1 – Conta um pouco para a gente sobre os seus pais. Qual era o trabalho que o seu pai fazia?

 

R – Meu pai era... Bom, ele era agricultor, depois nós fomos trabalhar na indústria. E a minha mãe ficava em casa, era doméstica.

 

P/1 – E a senhora tinha irmãos?

 

R – Nós éramos nove, agora somos cinco, porque quatro já foram para o “não combinado” como fala o coisa, né?

 

P/1 – E a senhora é das mais velhas, a do meio...

 

R – Eu sou a mais velha de todas, a mais velha.

 

P/1 – A senhora sabe como os seus pais se conheceram?

 

R – Eles se conheceram morando muito perto um do outro, meu pai quando casou com a minha mãe tinha sido viúvo. Quando nasceu o primeiro nenenzinho, a mulher dele morreu. Era prima da minha mãe. Aí ele casou com a minha mãe. Então eu sei dele, o meu pai... O meu pai era o mais novo também da família da minha avó. Era um homem elegante, ele gostava de andar de gravata, era uma pessoa muito educada. E é um cidadão, de verdade. A minha mãe já era um pouquinho mais “braba”, mas meu pai nunca... Eu conto uma história do padre aí quando eu fiz uma leitura lá, ele gostou da leitura e falou: “Onde você aprendeu?”. Eu falei: “Aprendi...”... Não tinha escola, morava em um sítio, na roça. Então meu pai que me ensinou a ler. Com seis anos eu sabia ler, escrever, rezar e dançar forró, meu pai que ensinava isso pra gente. Ele gostava de forró, fazia baile em casa pra nós, levava a gente para o baile... Ele era uma pessoa que sabia muito respeitar as pessoas.

 

P/1 – Conta para a gente como era essa casa que vocês moravam lá em Madre de Deus?

 

R – Era uma casa grande, tinha três dormitórios e mais umas salas pequenas que davam para a rua. A sala de jantar era a sala grandona e tinha cozinha. Era assim a nossa casa, no meio da roça, no meio do sítio.  Era ali que a gente morava. Que eu falo assim que eu comecei a trabalhar com a enxada, eu tinha cinco anos de idade. Ficamos vinte anos na roça. Daí eu já tinha casado. Casei com dezoito anos, com dezenove anos meu filho nasceu, o primeiro. Tive oito filhos também com ele. Faleceu dois, tenho seis. E a Fátima, essa que está aí comigo, é a penúltima, não teve... Tive ela e depois tive mais três filhos. Eu tive cinco filhos homens, morreram dois filhos homens. Eu tenho três filhos homens e três filhas mulheres vivas, né? Que ela também já é viúva, a outra  mais velha do que ela já é viúva também. Ficaram trinta e poucos anos casadas, depois ficaram viúvas.

 

P/1 – Mas vamos voltar um pouquinho, depois a gente fala sobre os filhos e netos e o seu casamento. Vamos voltar lá para Madre de Deus. A senhora falou da casa, do sítio, que começou a trabalhar bem cedo. O que vocês plantavam?

 

R – Algodão, feijão, milho, mandioca, era isso, a plantação do norte era assim. Agora acho que modificou, mas na nossa época era assim. Era mandioca, feijão, chamava feijão de corda, a gente chamava, aqui no sul chama feijão de vara, que tem as vagens grandonas. Plantava também abacaxi, mandioca, feijão, milho. As plantações de lá eram essas. Na minha época era só abóbora, melancia, que a gente carregava o sacão de abóbora na cabeça de longe [distância]. De mandioca também, para fazer a farinha lá na casa de farinha. Hoje é tem a tecnologia, naquela época nós ficávamos lá torcendo no... Torcia... Tinha um... Levava a prensa, colocava ali a massa de molho naquele... Caititu, que era como chamava o ralo de ralar mandioca. Depois torcia na prensa e ia para o forno para fazer a farinha, ficar lá mexendo, fazia o bijú, fazia a tapioca, com a massa da farinha. Porque a tapioca é um polvilho tirado da mandioca, quando tá assim secando na prensa, que cai aquela... Tem um coxo grande, fica aparando aquele caldo da mandioca. Dali daquele caldo que é retirado a massa de fazer a tapioca.

 

P/1 – A senhora contou que ia à casa de farinha. Essa casa de farinha era de vocês ou era de outro sítio?

 

R – Não, era de outra pessoa, todas as pessoas que moravam na redondeza faziam farinha ali naquela casa de farinha.

 

P/1 – E seu pai pagava pelo uso da casa de farinha?

 

R – Acho que dava uma porcentagem da farinha mesmo para o homem, para o dono da casa de farinha.

 

P/1 – E a senhora falou que o seu pai plantava algodão, plantava abacaxi, melancia... Ele plantava para a sobrevivência ou para vender?

 

R – Era para a sobrevivência. Vendia um pouco, mas como eram pessoas pobres, elas plantavam pouco também, então era mais para comer em casa mesmo. Mas vendia... O algodão era para vender, já o feijão, o milho, a farinha fazia também... Eles colocavam na feira para vender, um pouco, mas deixava para a gente ficar... Porque o inverno lá é diferente... O inverno no norte é diferente daqui do sul. Então tinha que guardar para ir até... Se colhesse bem, porque nós estamos no sul porque... Por causa de falta de chuva lá, né? Se colhesse bem aí dava para passar o ano inteiro até vir a outra colheita. Se não tinha que comprar, tinha que ir comprando. O meu pai quando acabavam as coisas em casa, ia cortar cana no sul de Pernambuco. Porque ele morava no... Fala Cariri, Cariri que fala, ou Rincão, assim é que eles falam. Então eles tinham que ir para o sul de Pernambuco cortar cana, ficava o mês inteiro, andando a pé ficava, nem sei quantos dias, andando a pé porque não tinha nenhum transporte. Não tinha estrada, não tinha nada. Então eles iam andando a pé, dormiam no caminho, ficavam três dias e três noites andando para chegar lá e também para voltar para casa. Era assim que ele fazia. Ele não, os pais de família, para cuidar dos filhos tinham que fazer isso. Então, era uma vida bem dura.

 

P/1 – E o algodão vocês vendiam já pronto ou...

 

R – Não, ensacadinho do jeito que colhia na roça já vendia. Vendia porque já tinham aqueles lá [pessoas] que tinham aquelas máquinas de... Falava máquina de (_____?), eles falavam. Tiravam a semente e depois já passavam para outro para fazer o fio. Aí eles faziam aquelas pastas com algodão e depois vendiam para fazer o fio. Já era outra pessoa. Os agricultores que plantavam vendiam tudo com a semente mesmo, ensacava tudo com a semente e vendia.

 

P/1 – E a senhora falou que era a mais velha, né?

 

R – Eu sou a mais velha.

 

P/1 – Todo mundo trabalhava no campo, na roça?

 

R – É. Eu como fui a mais velha... Bom, todo mundo trabalhou, trabalhou porque não tinha professor, como eu falei que não tinha, só depois veio uma professora de Caruaru. Daí a gente trabalhava na roça, quando chegava em casa... Na roça não, ia para a escola, quando chegava em casa, almoçava e ia para a roça colher feijão, colher o algodão, carpir o mato lá da roça. E todo mundo tinha que trabalhar, não tinha jeito.

 

P/1 – E as brincadeiras? Que horas eram as horas das brincadeiras?

 

R – É, a gente tinha um tempinho de brincar, tinha um rio que passava perto, a gente ia para o rio nadar, era assim que a gente fazia, tinha as brincadeirinhas da gente brincar. As bonequinhas de sabugo do próprio milho, tinha boneca de pano. Minha filha, essa daí, tá ganhando pela prefeitura de Santo André fazendo boneca de pano. Naquela época a gente fazia as bonequinhas com o sabugo do milho mesmo, a gente fazia o vestidinho e brincava com aquilo ali.

 

P/1 – E seus irmãos são quantas mulheres e quantos homens?

 

R – Eu só tive dois irmãos homens, o resto foram todas mulheres. Éramos nove, minha mãe teve onze filhos, morreu duas pequenas, o resto se criou e agora estamos em cinco mulheres. Somos o trio dos oitenta, que eu falo porque somos as três mais velhas e as duas mais novas que ficaram. Os do meio morreram.

 

P/1 – E a senhora estava falando da escola. Então no início não tinha escola e depois veio a professora de Caruaru, né?

 

R – É, veio uma professora de Caruaru. Para aprender a ler o pai da gente que soubesse ia ensinando para os filhos.  Aí vinha assim... Eu lembro bem que eu tive um tio avô, era irmão do meu avô, que sabia ler bem, ele era professor e ele ganhava da prefeitura. E depois não sei por quê... Aí veio aquela professora formada mesmo de caruaru, ficou numa fazenda lá e a gente ia pra fazenda andando, uns 15, 20 minutos para chegar à escola... Ela dava aula até de bordado, de catequese ela dava aula também, tocava muito bem o bandolim, nossa a gente... Aquela professora era um amor, viu? Pretinha ela era! Ela queria me levar para Caruaru para me formar como professora, aí a minha... Não o meu pai, minha mãe não deixou eu ir e eu sou frustrada por causa disso até hoje, por isso que eu fui parar na faculdade.

 

P/1 – Conta um pouco mais dessa escola. Então ela dava aula nessa fazenda e vinham as crianças da redondeza para ela dar aula?

 

R – Da redondeza, vinham para aula. Eu estava com doze anos quando eu aprendi... Já sabia ler um pouco mais, então já comecei ensinando aquelas crianças da redondeza. Aqui mesmo no interior de São Paulo, que nós quando viemos para cá ficamos um ano e três meses, por aí. Até escrevi o nome em um caderno para não me esquecer. A Fátima já nasceu aqui em Presidente Bernardes, aqui em São Paulo, para lá de Presidente Prudente. Nós ficamos numa cidadezinha, mas também na agricultura, ficamos um ano e meio. Que eu até ficava com muita raiva do meu marido porque ele nos levou. Eu já era profissional em tecelagem, ele quis passar para lá, nós ficamos um ano e três meses e ali eu dava aula também para as crianças da fazenda.

 

P/1 – Depois a gente vai explorar esse lado de quando a senhora veio para cá, mas vamos voltar lá para Madre de Deus ainda. A professora... Era uma sala só, dava aula para todo mundo junto? Como é funcionava essa escola?

 

R – Naquela época a aula era os meninos para cá, as meninas para lá, era separado. Depois foi que... Mas com pouco tempo já ficou mista, as crianças todas juntas. Era assim que era a aula, mesmo quando era a professora formada naquela época, ainda era assim, os meninos ficavam de um lado e as meninas do outro. Não ficava junto, assim como é agora, que fica todo mundo junto. Então era assim que a gente dava aula e que as professoras formadas também... É que eu não me lembro mais que ano que ela... Ela ficou vários anos lá com nós, mas eu não estou lembrada que ano que ela saiu dali. Eu fiz o primário e saí, mas ficaram outras continuando.

 

P/1 – A senhora fez até o primário então com essa professora?

 

R – É, o primário, que naquela época era quatro anos. Até não faz muito tempo que mudou. Então, depois como eu não virei professora aí tinha uma... Você fez a pergunta e eu estou misturando, né?

 

P/1 – Não, tudo bem.

 

R – Então, a gente tinha aula bíblica, tinha não, nós temos aula bíblica, eu sou católica, mas nós tínhamos aula bíblica também. Aí era uma freira, ela dava aula para nós, ela fez faculdade de teologia na mesma faculdade que é um colégio de padres ali em Higienópolis. Ela fez teologia, dava aula para nós e um dia ela fez uma pergunta assim para nós: “Qual foi a coisa que frustrou vocês e a coisa que vocês lembram que...”. Assim que a gente gostou mais. Porque a gente tem sempre uma coisa que a gente gosta, mas vai morrer com aquilo, né? Ou ruim ou má, mas a gente... Aí eu falei assim quando foi para eu dar a minha resposta: “Eu sou frustrada porque eu não fui uma professora formada.”. Ela pegou e falou assim: “Vou te levar para o colégio.”. Lá para o de Higienópolis onde ela estava, né? Aí ela me levou para lá, eu fiquei três anos lá. Eu não estou mais lá porque o meu filho adoeceu, tive que cuidar dele e sai. Mas também é muito longe porque... Não é porque é tão longe, o transporte para a gente passar a Ricardo Jafet ficava entupidinha e a gente ficava duas horas no trânsito para chegar em casa. Daí eu peguei e falei: “Não dá para ficar”. Eu tenho as coisas para fazer em casa também. E até hoje a coordenadora: “Bilosa!”. Ela me chama de Bilosa, não é Maria não. Até na escola eles aprenderam a me chamar desse apelido: “Bilosa, volta!”. Eu fui para a festa junina agora, na faculdade, me convidaram. “Volta Bilosa!”. Eu falei: “Vânia, você foi em casa e você sabe como é longe daqui até lá, né?”. Ela mora aqui na... ela mora aí na Ana Rosa essa coordenadora. Mas o metrô tá chegando pertinho de casa, eu falei para ela: “Quem sabe eu volto ainda Vânia!”.

 

P/1 – Aproveitando então eu vou perguntar, por que esse apelido Bilosa?

 

R – Esse apelido de Bilosa é... Naquela época que eu nasci as avós ou os avôs eram quem colocavam nome nos netos, não eram os pais não, eram os avós. E a minha avó paterna, a mãe do meu pai, colocou o meu nome de Maria. Porque era assim, o meu pai chegava da roça – isso era a minha avó que sempre me contava, a minha avó materna, ela sempre contava para mim. Dormia na rede, não tinha berço. Naquela época não tinha berço, ainda mais na roça, né? Ela falava assim pra mim, que quando o meu pai chegava da roça, ele ficava na beira lá da cama dele sentado me olhando assim. E aí quando a minha avó me pôs o nome de Maria ele pegou e deixou de olhar na minha cara, ele não gostava do nome Maria.  Aí ela pegou e colocou esse apelido em mim. É uma coisa rara, o pessoal acha engraçado, né? Na escola me chamavam de Martinha, depois quando descobriram que eu tinha esse apelido – vocês vão ver no livro. Eu trouxe dois livrinhos para dar para você. Vocês vão ver que é Maria Martinha Torrres Bilosa na frente. Até depois aí todo mundo onde eu chego é Bilosa. Tem gente que fala assim: “Dona Bilosa”. “Dona não, é só Bilosa. Só Bilosa, não me chama de dona não!”.

 

P/1 – Ah então vou chamar você de Bilosa.

 

R – Pode chamar Bilosa, não tem problema.

 

P/1 – Mas tem algum significado esse Bilosa?

 

R – Então, o significado foi esse só.

 

P/1 – Mas assim, não significa alguma coisa específica?

 

R – Não, eu acho... O meu pai... Não sei se dá para eu contar isso, se você vê que tá... Tira fora depois. A madrinha dele... Naquela época quando ia batizar o neném levava duas madrinhas, chamava de apresentar e de vela, para segurar vela. Aí a madrinha do meu pai se chamava Maria e ela brigava muito com o marido dela porque ele gostava muito de ficar andando com as outras mulheres, ele era meio bígamo. E a outra madrinha do meu pai era irmã dele, a irmã mais velha, porque o meu pai era o mais novo da família, eles eram cinco, né? A irmã mais velha foi madrinha dele, chamada Maria, e o meu tio... Nossa! Tinha dia que ela saia com o cacete para bater nas mulheres que ele arrumava. Então, meu pai achava... Ele falou isso para minha avó, falou: “Depois que ela crescer quando casar, vai ficar brigando, como as minhas madrinhas, eu não quero esse nome nela!”. Aí ela pôs esse apelido. Foi por causa disso daí. Por causa das brigas dos padrinhos dele, do meu pai.

 

P/1 – Aí ficou Bilosa. E como é que eram as brincadeiras? A senhora falou de nadar no rio. Que outras brincadeiras entre os irmãos, entre vocês lá. Que tipo de brincadeiras vocês faziam lá na roça?

 

R – A gente brincava de roda, naquele tempo tinham as cirandas de rodar. Até hoje tem quando tem as festas juninas por aí na faculdade, na igreja mesmo, dança de roda assim, né? A gente dançava de roda, cantando as cantigas de roda que tinha naquela época. Cantava aquilo, improvisava uma coisinha que colocava no meio daquilo, ia cantando e ia rodando assim. Principalmente quando chegava o tempo da festa junina.  Aí rodava em volta da fogueira. Mas sempre tinham as brincadeiras para a gente brincar, a gente ia à casa das primas, brincava uma com a outra, assim que a gente fazia as brincadeiras.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma música de roda desse tempo?

 

R - “Eu tava na peneira, eu tava peneirando, eu tava no namoro, eu tava namorando” [canta]. Isso aí era uma cantiga de roda. A gente improvisava alguma coisa no meio e voltava a cantar esse refrão. Era muito gostoso, mas era muito dura aquela vida, viu?

 

P/1 – E a senhora estava falando da festa junina, né? Na região da senhora... Ah desculpe, de você... O que tinha de mais importante no São João? O que era mais interessante na época do São João?

 

R – Bom, interessante... O mais interessante era quando a gente... Quando vinha a colheita, que a gente fazia pamonha, fazia... Lá chama canjica, que o curral chama é canjica, não é... O mungunzá... Canjica que chama aqui que é do milhinho duro a gente chamava mungunzá, né? Tem esses nomes... No norte tem esse nomes, essas coisas assim. Pamonha não, era pamonha mesmo. Enquanto tinha colheita tinha festa para tudo quanto é lado. Eu estou falando pra você... Falei para você do forró que fazia. Então o forró meu pai levava a gente assim: ele colocava, falava “butiquinha”, ele armava um barraquinha assim e fazia os bolos de mandioca feitos na palha de bananeira., se vocês soubessem como é gostoso, com leite de coco, com ovo e manteiga. Ele levava aqueles bolos pra vender lá. Ele levava a gente para o baile e ficava nas barraquinhas vendendo bolo e café. Então, e eram assim, as festas, o divertimento era assim desse jeito. Sempre tinha forró, quase todo sábado tinha, numa casa ou em outra. Ele levava a gente. E fazia em casa também pra gente dançar. Ele gostava muito do forró. Engraçado que chamavam samba, eu nem me lembro se tocava samba naquela época lá, porque o samba é do Brasil, a música brasileira é o samba, né? Só que o forró tá por todo o lado aí agora. Então, naquela época chamava baile, agora chama um monte de coisas, é balada, é não sei mais o que. Mas naquele tempo chamava o samba, a gente dançava um agarradinho no outro. Meu marido não gostava de dançar, mas tinha que dançar porque eu gostava. Os divertimentos eram assim, mais naquele baile no sábado que as pessoas iam para dançar, faziam aquela festa muito gostosa com cachimbo de mel de abelha. Você sabe o que é cachimbo de mel de abelha?

 

P/1 – Não.

 

R – É... Aqui chama caipirinha, né? Coloca limão na pinga e açúcar. Lá era mel de abelha com a pinga, aí chamava cachimbo de mel de abelha. Eu chamava de cachimbo de mel de abelha. Era a bebida que o povo mais bebia. Ficavam “bebinho” também. Tomava cachaça, pensava que não, mas ficava.

 

P/1 – Bilosa, qual era a distância da casa de vocês ao centro da cidade, era longe?

 

R – Para a gente chegar à cidade onde tinha igreja, missa que batizava, que casava, que [fazia] tudo, nós andávamos três horas... Não tinha transporte. Nós andávamos três horas a pé para chegar lá. Eu não sei quantos quilômetros que a gente andava. Quem tinha cavalo ia a cavalo, quem não tinha ia andando a pé. A segunda-feira era o dia da feira, onde vendia o algodão, as coisas que eu falei para você. Então minha avó ia toda a segunda-feira e me levava. O pior era que a gente enchia o…  A gente chamava alguidar, uma coisa de barro... Feita de barro, assim uma bacia feita de barro, ali colocava banana, laranja, as frutas, para levar para casa. E comprava carne ali naquele lugar. Se não, matava um boi, quem tinha boi matava. Criavam mais carneiro e cabrito. Mas tinha gente que tinha fazendas, tinha as vacas também, tinha o gado. Então matava um boi, a gente comprava, depois matava um cabrito e a gente comprava, ou a gente matava e vendia também. Para a carne [comer], tinha as caças também, tinha as caças no mato que as pessoas caçavam com espingarda, que hoje é proibido. Tinha os cachorros para pegar os tatus. Cachorro que pegava tatu. Era assim, era desse jeito que a gente vivia.

 

P/1 – E como é que era a alimentação de vocês? O que vocês comiam no dia a dia?

 

R – Então, era feijão, arroz... Arroz não, não tinha arroz, comia arroz em festa, né? Quando tinha o casamento, quando chegava à festa junina também fazia o arroz, matava o peru, para fazer... Não cozinhava o arroz com óleo, cozinhava ele só com água, depois colocava a gordura do frango – o frango nós chamávamos de capão, porque eram todos capados. Nasciam os pintinhos, quando eles estavam... Dava para pegar o grãozinho dele, já afundava lá atrás da bundinha e tirava, aquilo lá era tudo capado. Agora o frango engorda rápido, porque dá muita coisa para ele, naquela época, demorava uns seis meses para eles poderem ficarem adultos, pra gente matar. Eu capava eles para eles engordarem, é assim que fazia. Mas criava bastante galinha, peru. E porco, criava porco também. Matava o porco, vendia para todo mundo ou dividia assim pedaço para um, pedaço para outro.

 

P/1 – Então vocês comiam o que? A carne, farinha, feijão...

 

R – Feijão com farinha de mandioca, não tinha arroz. Carne seca, jabá, que a gente fala, né? Comprava o jabá na feira e levava para... E a carne de sol, tem a carne de sol, aqui em São Paulo também tem. Comprava a carne de sol na feira para levar para comer em casa, mas não era muita não, porque o dinheiro também era pouco. Quer dizer, a gente vivia assim. Ovo, que pegávamos das galinhas. Era assim que a gente fazia... O leite... O leite tirava das vacas, das cabras, da ovelha não. Das cabras, da vaca, tirava o leite. Aqueles que tinham as vacas vendiam o leite para a gente, comprávamos meia garrafa. Oh, a criança se criava com meia garrafinha de leite. Comprava aquela meia garrafinha de leite para dar para a criança... Papa, fazia papinha de farinha e vivia passando na boca da criança, não tinha mamadeira não, era só a papinha que fazia.

 

P/1 – E a senhora falou que a cidade ficava a três horas de distância, né?

 

R – A cidade era Santa Cruz de Taquaritinga. De vez em quando eu passo lá, porque agora lá tem muita indústria de costura. Eles vêm vender aqui em São Paulo mesmo.

 

P 1 – Mas Madre de Deus pertencia a Santa Cruz de Taquaritinga, era um distrito ou era uma outra cidade?

 

R – Não, já era outra cidade. Outro município.

 

P/1 – E para vocês irem à igreja, então, vocês demoravam três horas?

 

R – Três horas, para feira... Para ir para feira e para ir para a igreja. Para a festa de natal era lá na cidade, a gente ia, andava três horas para chegar, festa de ano novo assim também.

 

P/1 – E festa de padroeiro, tinha alguma festa?

 

R – Tinha, chamava novena. Aqui novena faz nove rezas, é uma novena. Lá era... Tinha São Sebastião, tinha Nossa Senhora... Põe tanto nome que eu nem estou lembrada a de lá como que era mais. Pra gente a novena durava a noite inteira. Aí o papai ia com a “butiquinha” dele e também com os bolos de mandioca. Fazia a novena, podia ser de qual santo que fosse, tinha uma fogueira. Então o pessoal ficava. Tinha o zabumba [tambor] com pífaro [flauta], tocavam a noite inteira inúmeros pífaros. Tinha aquele senhor que tocava o pífaro e outro que batia a zabumba, não tinha outros instrumentos não, era só a zabumba e os pífaros mesmo pra... Isso aí era para as novenas, para a festa do padro... Do santo que tinha no sítio, tinha várias. Se não me engano, acho que tinha umas cinco novenas por ano assim. A gente ia para a novena procurar namorado, arrumar namorado. Eu comecei a namorar com o meu marido quando eu tinha treze anos de idade. A piadinha que eu ia falando era isso, falei só que a gente namorava, não ficava, né? Casava todo mundo virgem, não tinha esse negócio de ficar não. A mãe ficava em cima ali que... Que não deixava nossa! Se falava segurar a vela, ficava ali mesmo com a gente e ele tinha namorar em casa, tinha que ficar... Eu fiquei cinco anos namorando para poder casar, casei com dezoito, né? Namorei com ele tr... Bom, foi o primeiro namorado, pode dizer que paquerava um pouquinho antes, mas era coisa de criança mesmo. Porque a piada que eu ia falando para vocês era isso, na época que a gente agora... Ah, você não me fez essa pergunta por que eu vou responder...

 

P/1 –  Não, mas pode contar. Eu ia justamente perguntar sobre o seu namoro.

 

R – Então, a gente vê as meninas começando a namorar com treze anos, doze anos, dez anos, já engravida, já não sei o que. A minha sobrinha... Eu tenho uma sobrinha que ela é artista. Agora era está acompanhando o Peninha, Pena Branca, ela é percussionista. Só que ela dá aula de violão também e trabalha para a prefeitura com criança de rua. Então ela foi para o Ceará esses dias, chegou anteontem, ela mora lá na Bresser, comprou um apartamento e mora lá sozinha. Ela chegou e falou: “Mas quanta prostituta que tem no Ceará, é menina de doze anos com aqueles barrigões. E elas ficam na rua limpando carro...”. Que nem aqui os meninos fazem, entregando revistinha. Aí os meninos vem e brigam: “Ah sua rapariga, porque não sei o que não sei o que...”. E metem a mão um no outro, ficam rolando no meio da rua, brigando assim. Ela falou: “Mas tá cheio, cheio!”. Eu falei: “No meu tempo a gente tinha que ir de véu branquinho sem nenhum preconceito, né?”.

 

P/1 – Mas conta para gente então, como é que a senhora conheceu o seu esposo? A senhora começou a namorar com treze anos, né?

 

R – Sabe que o meu esposo era primo legítimo da minha mãe? Lá era primo com prima, tio com sobrinha, que casava naquela época. Era pouca gente que tinha, então fazia isso aí. Que nem eu falo, hoje eles falam que o parente não pode casar com o parente, porque os filhos nascem com problema e não sei o que, mas era... Acho que não vi ninguém com problema lá não. Acho que a mais problemática sou eu que sou muito faladeira, né?

 

P/1 – Que é isso! Como é que era o nome dele?

 

R – Era José, José Torres Filho o nome dele, do meu marido. Era primo legítimo da minha mãe. A minha mãe pegava a vassoura e saía correndo atrás dele: “Vá para você ver!”. “Você tá aí segurando na mão da Bilosa?”, ela falava para ele.

 

P/1 – E aí vocês namoraram cinco anos?

 

R – É eu tinha treze anos e ele tinha dezoito.

 

P/1 – Ele era mais velho então, né?

 

R – Ele era mais velho do que eu e era o mais novo da fa... Eu era a mais velha da família, minha família. E ele era o mais novo da família dele.

 

P/1 – E ele trabalhava com o que? Ele também trabalhava na agricultura?

 

R – Todo mundo trabalhava na agricultura, mas lá tinha um... Fazer corda, corda de caruá, porque a fibra para fazer a corda... Agora eles fazem com aquela outra... Sisal,  sisal que chama. A fibra era caruá, que é uma planta do mato, se arranca do meio da mata aquilo lá. Então eles tiravam a casaca dele, ele é espinhudo, dos dois lados tem espinho. Tirava aquele espinho com aquela casca dele e aí botava para secar. Depois... Eu ia torcer a manivela lá de rodar a cordinha. Porque a corda são três cordinhas enroladas.  A corda de... Corda, de amarrar as coisas assim. Aí eu ia para lá pra moer na... Ele era preguiçoso quando ele era jovem, a mãe dele batia nele porque ele não queria moer o “cambitinho” lá e aí me chamava para eu ganhar um tostão por semana parece, por semana ou por mês, não estou lembrada. Para ficar mordendo e moendo aquilo lá para fazer a corda. Então eles negociavam com essa corda também, eles iam buscar aquele material nas fazendas longe e ficavam a semana inteira no meio do mato também para arrancar aquilo. Beneficiar, tirar aquela casca, deixar secar para trazer. Depois trazia e as mulheres, as filhas mulheres, a mulher que fazia a corda. Tinha o engenhinho, que era aquilo em que eu moía que tinha aquele cabinho que ia à máquina.  Aí... E lá mais no fim, eu não sei quantos metros agora ficavam, uns três quatro metros. Tinha outro lá na frente que tinha outro, chamava o cambito, amarrava as três, os três... Primeiro fiava, de um em um, moendo o cambitinho e fazendo o cordãozinho. Depois aí botava naquela outra engenhoca que ficava lá atrás com uns três, quatro metros lá e já ficava o outro de lá moendo e passando a lançadeira, porque no tear a gente... Porque eu trabalhava na tecelagem, o tear tem a trama lá dentro e vai tecendo o tecido. E a corda não, tinha também a … Tinha três aberturas, colocava cada fio daquele numa abertura daquela e aí ia moendo um lado... Eu que trabalhei bastante com isso... Não bastante, porque depois eu casei e aí fiquei um pouquinho mais fazendo isso daí... Mas aí fiquei... Não sei quanto... Namorava com ele e tinha que a minha sogra ficar segurando a vela, para não... Então, aí eu moía... Quer dizer, um moía assim e aquele de trás moía ao contrário, que era para a corda ir torcendo, para fazer a corda, né? Com isso... Eles negociavam muito... Meu pai nunca fez isso daí, nunca foi para fazer isso não, mas o meu sogro ia com os filhos homens para essas fazendas também andando a pé e depois trazia aquele feijão deste tamanho na cabeça até em casa. Andavam um dia, sei lá, andavam um dia para chegar em casa com aquele feixe de caruá, é o nome da planta mesmo, é uma erva que nasce no meio das matas e eles iam lá arrancar. Na nossa região não dava isso daí. Era mais longe. Lá em Santa Cruz de Taquaritinga, que eu estava falando, já dava. Já eles iam e ficavam... Ali também que eles iam comprar as coisas para comer. Ele tinha esse material também para a sobrevivência também.

 

P/1 – E o casamento como é que foi?

 

R – O casamento... A gente já tinha uma igreja perto de casa, nessa fazenda que tinha a escola construíram uma igreja, era a igreja de São João. Ali que nós casamos. Ia a pé também para o casamento, andando quinze, vinte minutos a pé, a noiva arrastando o véu e lá vai arrastando até chegar à igreja. Uma vez por mês o padre ia de Caruaru para lá, rezava uma missa, fazia os casamentos, os batizados. Era uma vez por mês que ele ia. Então foi... Mas teve uma festa com carne de porco, com sarapatel, com peru, com tudo isso, teve a festa também, né? Era assim... Quando eu casei ainda não tinha nem... Tinha noiva que ia a cavalo, quando era mais longe, né? Ela ia a cavalo para se casar. E toda de noiva, vestida assim a caráter, mas ia montada no cavalo, não montava... Não usava calça, então ela montava de lado assim, chamava... Não chamava sela, chamava o sião [sela para moças montarem de lado]. Era uma cela mesmo, mas ela tinha assim um negócio assim que era para segurar para não cair. Então a noiva ia lá segurando aquela coisa lá e ia até a igreja para casar. O noivo ia no outro cavalo separado. Ela ia sozinha no cavalo dela.

 

P/1 – E quando a senhora casa senhora vai morar onde?

 

R – Quando eu casei onde eu fui morar? Ele construiu casa para nós. Porque era uma fazenda assim no meio do... Cada um tinha... A maioria tinha o seu sitinho. Meu pai tinha o sitinho dele, o meu avô já tinha... Os meus avós já tinham o sítio deles também. Então construíam as casas assim. Agora não, você sabe que já faz... Eu cheguei aqui no ano de 52, eu estava confundindo. Ontem a Fátima falou: “Mãe, eu estou com cinquenta e três anos.”. Ela foi a primeira que nasceu aqui em São Paulo, nasceu em Presidente Bernardes, como eu falei. Nós chegamos no ano de cinquenta e dois aqui. Não tinha nada lá ainda. Agora não, tem eletricidade, tem transporte, tem tudo. Eles fazem irrigação, eles fazem plantação. Se chove colhe, se não chove também eles tem as... Eles fazem as irrigações e eles... Tem vezes que passa na televisão, cada cacho de uva deste tamanho que eles colhem lá, tomate eles plantam com a irrigação. Só que teve muito protesto lá, vocês devem estar lembrados daquele bispo que ficou não sei quanto tempo por causa do rio São Francisco, né? Que a água é mais puxada de lá. Porque como eu falei, onde eu morava tinha o rio também, de água doce, porque a maioria dos rios de lá é água salgada. Em Santa Cruz de Taquaritinga a água do rio é salgada, eles têm açude, para beber a água, fazer a necessidade que precisa, lavar roupa, fazer tudo. Esse nosso não era salgado, não era uma água bem docinha que nem aqui, mas dava para beber. Quando secava, cavava um buraco, chamava cacimba, no meio do rio, às vezes ficava bem fundo... Era conforme... E pegava... Ficava pegando água ali até chover para o rio encher de novo, mas não ficava muito tempo cheio, porque chovia pouco. Então, mas agora eles tem as irrigações, tem o meu sobrinho que ele vai sempre lá e ele fala que eles tem televisão, igual a gente. Ele falou: “A mesma coisa que a gente tem aqui eles têm.”. Naquela época era o “tamburetinho”, aqui é o banquinho, que fala. Lá a gente chamava de “tamburete”. Tinha o banquinho e tinha o banco grande para sentar, pra... Na escola tinha aqueles bancos grandes que nem banco de igreja. Era assim, tinha a mesa, cada um tinha a sua mesa, todo mundo... No almoço todo mundo rodeava em volta da mesa. Agora cada um pega o seu prato e vai para o sofá, para frente da televisão.   Eu não deixo a mesa, eu falo... Eu tenho dois filhos que moram comigo, que são os solteiros, tem um que está cursando direito, tá com quarenta e nove anos, tá no quarto ano de direito, no ano que vem ele termina se Deus quiser, né? Então, eles pegam o prato, vão para o sofá, eu fico na mesa e eles não ficam na mesa comigo.

 

P/1 – Bilosa, a gente estava falando então do início do seu casamento. O seu marido construiu uma casinha no sítio do seu pai ou do pai dele?

 

R – No sítio do pai dele.

 

P/1 – Como é que era essa casinha?

 

R – Era quarto, sala e cozinha, né? Depois o meu pai foi o primeiro a ir para a indústria, para a Indústria Paulista, (_____________?), o dono da loja Pernambucanas.  E ainda fiquei lá... A minha sogra não queria que o meu marido saísse de perto dela.  Aí eu fiquei... Ficamos lá ainda um ano, um ano e pouco, depois eu fui para a indústria também, mudamos todo mundo para aquela indústria. A gente trabalhou lá, eu trabalhei seis anos na indústria, e depois viemos para aqui para São Paulo.

 

P/1 – Mas vocês mudaram então para Paulista? Para a cidade Paulista?

 

R – Indústria Paulista, era Indústria de Tecidos Paulista. Tinha duas fábricas bem grandes. Aí não tinha... Ninguém morava nas suas casas, as casas eram todas da firma, o hospital era da firma, o sindicato era da firma, tudo da firma.

 

P/1 – Mas em que cidade que é?

 

R – Cidade era... Cidade Paulista, Pernambuco, pertinho do Recife.

 

P/1 – Perto ali de Olinda, né?

 

R – É perto... A gente para chegar... Saía de Paulista, para chegar ao Recife mesmo passava em Olinda primeiro.

 

P/1 – Então a senhora falou que tinha uma vila operária, é isso? As pessoas moravam lá na casa da...

 

R – Todo mundo morava... As casas... Agora não, me falaram que... Porque eles morreram, os donos, aí ficou a filharada lá e venderam as casas, as pessoas compraram... As pessoas que moravam nas casas foram comprando, né? Então agora não é todo mundo, se tem algum ainda da indústria, né, mas muita gente já mora na casa própria, né?

 

P/1 – E conta pra gente como é que era essa vila operária.

 

R – Era asfaltada... Naquele tempo não era asfalto, era paralelepípedo mesmo. Tinha luz elétrica, tinha água encanada, não nas casas, a gente... Eles colocavam o chafariz, chamava o chafariz, assim na... Passava dois quarteirões eles deixavam o chafariz. Então a gente pegava água dali do chafariz. No tempo que eu saí de lá, porque depois eles encanaram a água, né? Era... A gente pegava água no chafariz para lavar roupa, para tomar banho, para tudo.

 

P/1 – E eram muitas casas?

 

R – Era grande a cidade, era bem grande. É porque eram duas firmas bem grandes mesmo. Eram todos alemães solteiros, então... Tinha só uma irmã deles que era casada. Na Segunda Guerra Mundial nós já estávamos lá, foi na década de quarenta, nós já estávamos lá. Então teve aquele... Aí as pessoas fizeram muita baderna, muita bagunça, quebravam as casas deles, quando acabou a guerra. O pessoal falava assim: “Eles chegaram puxando cachorro aqui então...”. As casas deles eram todas mansões, casas muito bonitas. Não tinha geladeira, mas eles... Toda manhã cedo tinha aquele caminhão que vinha e deixava o gelo na porta deles.  Eles tinham um prédio, eles eram todos solteiros, né, só tinha essa casada, né? Eles moravam todos naquele prédio, nos apartamentos assim. Não almoçavam em casa, eles tinham as empregadas, mas eles iam almoçar no Recife, de carro, levava o cachorro dentro do carro e ia almoçar lá no Recife. Assim que fazia. Depois iam morrendo e o quarto [ficava] que nem um museu, deixavam roupa tudo ali... Até hoje tem alguém que ainda faz isso, né?  Morre um da família e deixa como um museu ali as coisas. Eles faziam desse jeito. Mas eles não eram maus, mas falavam... Quando  nós chegamos lá falavam para nós que eles matavam operário quando não tinha... Quando eles faziam qualquer mal, sei lá, se quebravam as coisas deles na indústria, não sei, que eles mataram várias pessoas, esses alemães. Eles tinham... Era as caldeiras, naquela época a firma rodava com caldeira de lenha, não era óleo, depois é que os filhos deles foram casando com americanos, com pessoas assim. E colocaram a caldeira a óleo, quando eu sai de lá já era a óleo, não era mais lenha. E eles tinham aqueles, muita... Quilômetros e quilômetros de plantação de eucalipto para tirar a madeira para queimar na caldeira. O meu marido trabalhava na caldeira, colocando a lenha no buraco lá para queimar.

 

P/1 – Ele trabalhava na caldeira e a senhora trabalhava como tecelã, né?

 

R – Era, como tecelã.

 

P/1 – Conta pra gente o trabalho como tecelã, como é que a senhora começou a trabalhar e tal.

 

R – Eles engraçado, eles davam seis meses de aprendizado para a gente aprender, né? Porque não tinha igual agora tem o SENAI, tem as escolas que ensinam profissão, naquela época não tinha. Então a gente... Eu mesma ensinei a várias pessoas, a gente ensinava, não tinha... Mas mesmo assim, antes de a gente pegar o tear, a gente ficava três dias aprendendo só dar o nó, só emendar aquele nozinho, sabe? E os pagamentos eram por semana, toda semana tinha feira lá também, aí tinha peixe, tinha de tudo que a gente quisesse comprar. Tinha a igreja deles também, tinha missa no domingo, faziam os batizados todos lá, aí a gente não precisava ir longe, ia pertinho, né? Nós morávamos numa casa, tinha um córrego, do outro lado do córrego tinha a maternidade, o hospital. Então, e era... o que foi mais que você perguntou?

 

P/1 – Perguntei como a senhora começou a trabalhar lá.

 

R – Ah sim! Então depois aí a gente foi, ficamos seis meses trabalhando só com um tear, porque era para aprender, né? Depois ele passava para dois, aí depois foi modernizando, começou a pôr os teares automáticos e aí já uma pessoa só trabalhava com quatro, seis, doze. Agora os meus netos falam: “Vó, como que o tecelão vive? Porque a gente chega lá, o cara aperta um botão no computador e a firma roda todinha sozinha.”. Eles falam: “Como é que o tecelão vive, né?”. Já não tem mais, acho que nem tem mais, porque... Naquela época era assim, eu apanhei, problema nas minhas costas com vinte e quatro anos de idade por causa do tear ser desse jeito aí. As polias deles ficavam em cima, daí passavam aquele cano assim e ficavam as polias, descia da polia aquela a … A correia de couro e pegava a polia da máquina embaixo e puxava assim. Então se ela perdesse o breque, porque ela quebrava, né? Tinha o mecânico de arrumar as máquinas. A gente era tonta, ficava segurando aquilo ali que eu machuquei minhas costas e até hoje eu vivo com esse ciático aí que só Deus sabe, né? Mas depois foi modernizando e até que virou o que é hoje, igual o meu neto falou, que ele é estilista, desenhista de indústria. Ele vai para a França, vai para a Itália, vai não sei para onde, que a firma manda. Primeiro o patrão ia com ele, depois ele começou a ir sozinho e trabalha desse jeito. Ele trabalha na indústria e dá aula na Santa Marcelina lá em Higienópolis mesmo, lá ele estudou. Estudou moda. Então ele dá aula de desenho, desenho também artístico, moda, essas coisas ele dá, ele é professor disso daí.

 

P/1– Mas conta pra gente, voltando lá para a indústria, a senhora teve algum acidente além desse problema nas costas? Algum acidente com tear?

 

R – É, eu machuquei assim como eu falei, me esforçando para segurar, porque o breque quebrava e ela ficava girando a urdideira [aparelho de fios de tecelagem], que são os fios. Ia descendo e enrolando sem ser pano, porque ela não estava com aqueles dois braços batendo para empurrar a lançadeira, né? Eu me acidentei assim, lá naquela indústria. O meu acidente foi esse. Naquela época não tinha direito trabalhista, porque foi na época de Getúlio Vargas que vieram os direitos, nós já trabalhávamos lá, quando ele começou a assinar os direitos trabalhistas, a licença maternidade. O décimo terceiro já foi daqui em São Paulo que vinha (___________?) tudo, essas coisas já foi daqui, né? De lá não tinha, tinha só a licença maternidade, tinha férias também, nós ficávamos de férias também, não eram trinta dias, eram quinze dias de férias. E se a gente ficava doente eles mandavam para o hospital em Recife, porque essa... Esse hospital que eu estou falando, perto da casa onde nós morávamos, era só maternidade. Os médicos ficavam ali mesmo, antes mesmo de ter o hospital já tinham os médicos que assinavam os papéis pra gente poder trabalhar, que a gente tirava licença médica, para ter o neném. Eram os médicos todos pagos pela indústria, o padre da igreja era pago pela indústria, o “organdista” era pago pela indústria, tudo era da indústria. Mas acabou, foi acabando isso daí também, agora eles têm ainda, mas tem várias outras indústrias. Esse meu sobrinho que vai lá, ele fala pra gente, ou às vezes alguém que escreve pra alguém de família que tá por aqui, né?

 

P/1 – Só uma pergunta, essa vila operária tinha algum nome?

 

R – Era Cidade Paulista, eles falavam: a Cidade Paulista. Lá era Cidade Paulista e o nome da indústria também era Paulista, porque foi um paulista que fundou a cidade lá, fundou a … Foi ele o fundador de tudo... Acho que era um técnico e de certo eles levaram daqui para lá, né? Então...

 

P/1 – E a senhora trabalhou quantos anos lá?

 

R – Lá eu trabalhei quase oito anos, quase, não chegou a oito anos não. O resto eu trabalhei aqui em São Paulo mesmo.

 

P/1 – E por que essa decisão de vir para São Paulo?

 

R – Eles também começaram... Como eu falei, quando a indústria... Quando os americanos chegaram lá eles foram modificando tudo e aí eles foram mandando embora aquelas pessoas, que era muita gente que trabalhava com a madeira, que ia cortar madeira no mato, carregava. Eles tinham a água encanada desse chafariz, como eu estou falando, era tinha... Saía do meio daquela... A fonte era no meio daquelas matas lá, sabe? Tinha... Chamava uma levada com o rio de água... A água lá era docinha, era bem docinha.  Tinha a levada que era de água potável para a gente beber e tinha o outro rio que era para jogar que nem o rio Tietê, era tudo cheio de esgoto lá dentro, era tudo poluído, passava no meio da cidade isso aí. A vala da gente beber água dentro da mata aqui lá, aqui acolá eles tinham uma guarita, tinha um guarda que ficava ali para não deixar pôr sujeira dentro da água, né?

 

P/1 – E aí...

 

R – Agora eles devem de ter água encanada direto de assim...

 

P/1 – E aí a decisão de vir embora por quê?

 

R – Ah sim você perguntou. Isso aí então era... Era porque... O meu marido foi o primeiro mandado embora, ele ficou um ano e três meses no Rio de Janeiro, ele e o meu irmão. Depois ele... Aí a família dele, os irmãos, mudaram tudo para o interior de São Paulo, por quê? Por causa da seca lá. Então eles vieram para o interior de São Paulo, trabalhavam como meeiro [agricultor que trabalha com terras de outra pessoa]. Tinha o dono da fazenda lá que eles... Eles não tinham que trabalhar... Plantavam só algodão, não tinham nem a soja ainda, era só algodão. Então eles plantavam algodão, em volta da roça a gente plantava milho, feijão, arroz, essas coisas assim, coisas pra gente comer. Não podia plantar nada, nem um pé de milho no meio da roça não podia plantar, só  o algodão. Agora é soja, mudaram para soja, mas ainda tem algodão também.

 

P/1 – Então seu marido veio porque os irmãos já estavam...

 

R – É por causa dos irmãos que vieram embora, depois veio a mãe também. Ela nunca morou na cidade, ela veio pro meio da roça lá no interior de São Paulo, lá em São Durvalina. São Durvalina já era uma cidadezinha que foi formando, né? E a gente ficava na roça mesmo. Mas ficamos um ano e pouco e aí já a minha família... O meu pai tinha vindo embora aqui pra São Paulo e já com todo mundo que ficou lá, minhas irmãs, meus irmãos que vieram tudo pra cá, daí eu também vim pra cá pra trabalhar na indústria.

 

P/1 – Então a senhora ficou primeiro lá no interior de São Paulo.

 

R – Fiquei, fiquei um ano... É, um ano e três meses nós ficamos lá. Nesse intermédio nasceu a Fátima.

 

P/1 – A senhora já tinha filhos nascidos lá em Pernambuco?

 

R – Eu tive quatro em Pernambuco e quatro aqui em São Paulo. Aquele que morreu que faz... Dia oito fez sete anos que ele faleceu, ele foi o primeiro que nasceu aqui na cidade, foi ele, nasceu na Santa Casa de Santo André. Porque as indústrias daqui também eram assim os médicos delas, da indústria, para assinar os papéis pra gente quando era para começar a trabalhar, ou pra gente pedir a licença como eu falei, quando estava de maternidade. Ou qualquer problema que não era um problema sério de precisar internar, eles mesmos cuidavam lá mesmo na cidade.

 

P/1 – E quando vocês vêm do interior de São Paulo para São Paulo vocês vão morar onde?

 

R – Nós ficamos morando no Ipiranga, que nós fomos trabalhar na fábrica, a Indústria de Tecido Jafet, que tem aquele lá que... Oh como eu esqueço o nome dele! A mulher dele é que tá tentando entrar na prefeitura outra vez, né? Largou ele, né, como é? O Suplicy, que  é Matarazzo, né? Ele é dessa família dessas indústrias. Eles tinham indústria em São Caetano, tinham indústria no Ipiranga, tinha... Eles tinham várias indústrias também, indústria de óleo, para óleo, para tecelagem, até não sei se uma na Mooca que era de sapatos, se eu me lembro era deles também, do Jafet. O Museu do Ipiranga, aquelas mansões que tem por lá, que ainda tem, né? Eram deles, eles moravam ali, quase todos eles moravam ali perto do Museu do Ipiranga.

 

P/1 – E essa indústria era de tecelagem também?

 

R – De tecelagem também.

 

P/1 – Seu marido também trabalhava lá ou ele trabalhava em outro lugar?

 

R – Aqui em São Paulo, quando ele entrou no Jafet, morava na casa da firma também. Ele trabalhava na fiação lubrificando as máquinas, o serviço dele era pôr óleo nas máquinas, ele era lubrificador.

 

P/1 – E a senhora era tecelã?

 

R – Eu tecelã. Só que depois o Jafet fechou, quando ele ia aposentar ele trabalhava numa firma que chamava Colauto, eu nem sei se ela ainda existe. E ela foi... Primeiro foi lá dentro do prédio do Jafet aonde era a tecelagem, onde tinha a fábrica de colchão, tinha várias fábricas, né, menor. Só que depois eles construíram na Vila das Mercês, lá em Sacomã, pegado [junto] no Sacomã. E aí quando ele aposentou ele trabalhava lá na Vila das Mercês, na indústria de... Era cola... Era para automóvel, cola e tinta.

 

P/1 – E vocês moraram no Ipiranga nessa vila da fábrica, nessa casa da fábrica, até quanto tempo?

 

R – Depois é... Porque era assim, quando a família era nova onde tinha mais funcionários a mais, a gente tinha que morar junto. Moramos acho que dois anos... Porque era prédio de apartamento também, na rua dos Patriotas, até hoje tem lá, os prédios. Também as pessoas depois compraram, são proprietários mesmo, cada um tem o seu apartamento. Nós saímos primeiro e aí não compramos. Porque nós compramos lá na Vila Industrial e construímos, faz cinquenta e sete anos que eu moro naquela casa. Mas eu estou falando muito aqui, vocês estão me distraindo, porque eu passei um nervoso tão grande esses dias que eu fiquei doente. Tem um cortiço na frente da minha casa e já morou muita gente boa lá, quando tinha bastante emprego eles moravam ali, mas trabalhavam. E agora mora gente que não quer saber de trabalhar, não quer saber de nada, tem a renda mínima do governo, né? Então eles ficam ali e ali eles fumam droga e eu não quero que fume droga na minha porta, eu estou numa briga danada com eles lá. As crianças ficam batendo bola, porque é muita criança, quebrou o portão, eu mandei arrumar e quebraram de novo. Agora quando faz... Eu nem sei que dia foi, se foi no dia que eu vim na festa junina, subiram em cima da casa e o meu quintal é quase todo coberto, nosso terreno tem vinte metros de comprimento, assim. São só seis metros porque eram de doze, naquela época a gente ganhava muito pouquinho ainda, estava criando filho e aí eu dividi [casa] com o meu cunhado e a minha irmã, nós moramos pegado. Eles fazem muita arte e a gente reclama e as mães não falam nada. Eu liguei para o conselho tutelar semana passada, amanhã que eu vou saber a resposta, que eles foram lá... Porque a gente não está aguentando. De idoso mesmo, que fundou ali, tem eu, a minha irmã e uma vizinha que mora na frente que é mais... Quando nós chegamos, ela já morava ali, ela é mais velha do que eu. Ela é sogra da minha sobrinha, né? Então a gente não tá aguentando, eu falei... A gente fala, ainda a dona... Olha, ele pegou até no sono coitado, de tanto eu falar... A dona do cortiço ela mora no Jabaquara, é viúva e ela fala que ela tem um processo para tirar eles de lá, mas até agora... Não é porque eles moram em cortiço, porque eu o que mais me fixei na faculdade foi em voluntariado, eu sempre gostei de trabalhar como voluntária. Trabalhei bastante tempo com criança, quando não era terceiro setor, que agora é, lá da comunidade. Agora é a prefeitura que sustenta eles e a Nossa Senhora do Bom Parto lá do Tatuapé, paga o salário de... Tem as que são voluntárias e tem as que ganham salário, então é terceiro setor. Eu trabalhei muito tempo com eles, depois que eu aposentei, que já faz trinta anos, eu fiquei cuidando de velho da minha qualidade, da minha idade assim. Então eu fiquei... Eu me fixei no voluntariado, que tem as pedagogas que elas ensinam voluntariado, dá aula para isso aí, que eu passei... Foram muitas disciplinas que nós passamos, porque elas são professoras doutoradas, elas são formadas assim, são aposentadas, são todas da PUC essas professoras da Faculdade Claretianas, perto da Santa Casa São Paulo.      

 

P/1 – Vamos depois retomar essa história da universidade da terceira idade. Então a senhora falou que compraram esse terreno e construíram essa casa, né? E nessa época vocês estavam ainda no Jafet, não?

 

R – Nós trabalhávamos no Jafet quando...

 

P/1 – Nessa época que compraram a casa.

 

R – Quando compramos nós trabalhávamos no Jafet.

 

P/1 – E depois quando fechou a fábrica vocês foram trabalhar onde?

 

R – Aí ficamos traba... Oh, você sabe que quando eu aposentei eu tinha dez firmas na minha carteira, porque eu tinha a maior vontade de ficar dez anos na firma, nunca fiquei, nunca fiquei. Sempre quando ia chegando os dez anos eu era mandada embora, a firma pequena também. Depois chegou mais para o fim e eu fiquei com pressão alta e aí as indústrias que tinham médico não me pegavam, porque o médico não assinava o meu papel. Eu tive que trabalhar em indústria pequenininha. Aposentei com pouco, eu era aposentada, mas passou para salário mínimo, porque foi caindo tudo. Eu trabalhava  nas firmas pequenas que pagavam pouco, né? Quando eu aposentei eu tinha saído de uma indústria de seda, trabalhando com seda que é levinha, que é limpinho. Assim, para uma fábrica de estopa, para fazer cortina de fio de linho, outras era ráfia parece que eles chamavam com fio, né? Era um produto tirado da madeira mesmo, não é que nem o caruá assim que era aquela erva assim, era tirado do... O linho também era uma madeira, tirado da madeira, tira fibra pra fazer linho. Então aí eu trabalhei... Eu tinha até marcado o nome de umas que eu me lembrei, que eu fui procurar na carteira, mas a minha carteira está muito velha já... Até marquei no caderno, falei: “Porque quando eu me esquecer já...”. Trabalhei numa chamada Anibi Aduba... Adubi o nome dele parece, ele era turco, era na Mooca... Quando eu aposentei eu trabalhava no Belenzinho, nessa fábrica de estopa. Também a seda demorava bem muito para acabar o fio da lançadeira, a trama. E a estopa era vap vap vap. Eu já estava mais velha, eu não aguentava, a minha produção era pouca. Então, foi ali que eu aposentei, no Belenzinho, quando eu... A fábrica... Ah, eu esqueci o nome... Eu trabalhei numa que chamava Lafaiete, essa daí era indústria de tergal, quando apareceu o tergal era gostoso também para trabalhar lá. Depois ali eu saí, fiquei dois, três meses em casa, depois... Porque eu tinha que operar as varizes. Fui trabalhar nessa Abud também, já era quatro teares que a gente tocava, não era automático, a gente tinha que puxar a mão mesmo. Eu tentei até voltar para a Lafaiete. Aí dali eles mudaram... Era no alto da Mooca, eles mudaram para o Tatuapé, já encostadinho na Penha. Então eu ia, eu trabalhei ali também. Eu sei que trabalhei em fábrica de lenço, também é complicadinho, mas era gostoso também de trabalhar. Então eu... Mas quando eu aposentei eu trabalhava nessa Abud que era de estopa, mas era estopa para fazer cortina, sabe, era fábrica de cortina. Ali que eu me acidentei e quebrei dois dedos do pé, quebrou que ficou pendurado, porque como é um artigo pesado, eles colocam uns pesos grandes atrás. O peso tinha quinze quilos, dessa altura que ele ficava, caiu em cima do meu pé e eu me acidentei ali faz... Quando eu voltei para trabalhar dali há um mês já aposentei. Eu estava... Minha aposentadoria já estava pra... Também só foi mesmo ela completar e eu sair, porque... Só que eu podia estar trabalhando até hoje, né?

 

P/1 – A senhora falou da questão da produção, vocês ganhavam pela produção ou era um  salário fixo?

 

R – Era produção, a gente tinha que dar produção. Eles tentaram me por como chefe para ganhar por hora, mas eu não gosto de mandar, não gosto de ficar mandando nas pessoas, sempre eu fui de pedir mesmo. Até hoje quando eu quero coisa eu falo, por favor, peço né, não fico... Não gosto, nunca gostei de mandar, meus filhos nunca me deram trabalho assim, trabalho mais porque eles ficaram com (outra?). Agora hoje graças a Deus não são mais, né? E me deram mais trabalho assim, mas de precisar eu estar batendo neles não, nunca me deram trabalho não. Eu trabalhava fora. No começo, minha cunhada cuidava dos pequenos, porque eram muito pequenos ainda. Depois aí um cuidava do outro assim, ficava o… O maior, porque naquela época trabalhava com quatorze anos, né? Completava quatorze ia trabalhar, o outro menor cuidava, ia cuidando dos outros. A Fatima foi quem trabalhou menos em indústria, porque das três mulheres ela foi a última, então ela ficava em casa com os três que nasceram depois dela, que eram pequenos. Ela trabalhou um pouco só em loja na cidade e não trabalhou... Não chegou a ficar assim trabalhando como operária não.

 

P/1 – Eles já começavam logo cedo trabalhar, todos eles?

 

R – Era quatorze anos.

 

P/1 – Tudo em fábrica também?

 

R – Em fábrica também. Na época da repressão... Ainda ontem eu estava falando em casa, por causa das crianças lá que eles não são crianças, são adolescentes, né? Subiram na casa e desceram... Levaram o pequeno, desceram pra baixo e pegaram a minha... Não era coisa de importância, não, era coisa velha que eu já podia ter jogado no lixo porque agora tem aqueles negócios de vender lixo, né? Mas eu ia deixando ali, não joguei, eles falam assim que eles foram pegar para vender porque era lixo, mas ia saber se tinha lixo? Porque a minha casa é toda murada em volta e somos todos vizinhos, tem um vizinho do lado, tem a minha irmã do outro lado e é tudo casa... Elas não são pegada porque eu falei... Foi até... Como eles constroem sobrado agora, eles fazem emendado um no outro, eu falei: “Podia ser tudo emendada uma na outra”. Tudo tem o seu corredor de entrada, né? E aí que se o murro é mais baixo, as crianças aproveitam e falam que vão atrás da pipa, mas não é. Eles iam atrás de ver como que podia entrar para pegar as coisas. Não entraram na cozinha porque a menina gritou, eles já estavam abrindo a porta da cozinha para entrar, a minha vizinha do lado gritou e aí eles pularam pra fora. Se eles me abrissem a cozinha, eles me carregavam muita coisa de dentro de casa.

 

P/1 – A senhora estava falando negócio da repressão.

 

R – Então, a pressão subiu, até hoje eu me trato de pressão alta. Acho que já faz bem uns quarenta anos que eu tenho pressão alta, trabalhando como... No fim, precisei trabalhar em indústria pequena que não tinha médico para assinar o papel, pegava [contratava] assim que a gente chegava... Só que era assim, naquela época a gente saia de uma indústria hoje, amanhã já estava na outra. Tinha serviço para todo mundo.

 

P/1 – E quando é que dá o envolvimento da senhora nessas atividades da terceira idade?  Que a senhora começa a estudar na faculdade?

 

R – Na terceira idade, quando eu formei o grupo com a assistente social lá de Vila Prudente, mesmo ela... Eu já trabalhava, já fazia... A gente já fazia o trabalho artesanal na igreja, no salão da igreja. Aí um dia ela... Uma pessoa falou pra ela: “Ah, estavam formando o grupo...”. Porque os grupos de terceira idade estão acho que com doze anos agora, né, era o começo. Aí elas falaram pra ela: “A Bilosa, é faladeira, ela é não sei o que, ela é dinâmica, ela... Vai lá falar com ela!”. A assistente social foi lá e falou comigo pra eu formar um grupo. Eu formei o grupo, mas só que não tinha cobertura da prefeitura, nem do estado, nem nada. Era tudo voluntário, né? E aí… O peso... Assim, juntou bastante, umas quarenta pessoas, eu tenho naquelas cartelas lá, não sei se entrou ela... Que nós fomos pra cidade dos velhinhos em Itaquera, que a gente ia lá com o ônibus, a prefeitura dava o ônibus pra gente passear, era o único beneficio que a gente tinha, porque outro a gente não tinha. Quem tem convênio com a prefeitura, ou com o estado, recebe material para fazer trabalho e tem mais alguma coisa. Agora estão até pagando pra... Esse ano estavam procurando... Que a Fátima perdeu uma oportunidade dessa... Quem cuida do grupo é gente mais nova, ganha mil e quinhentos reais por mês, pra cuidar do grupo. Nós fazíamos ginástica, mas como eu, por causa do problema da coluna, aprendi a fazer muita física, eu sabia, pegava e passava para elas também. Depois uma professora de yoga, que é formada em yoga, ela é professora mesmo da escola lá perto de casa, mas ela tem... Ela tem também essa profissão de yoga. Ela ia lá dar yoga para nós, um dia por semana, quando acabava o horário dela da escola, ela ia dar aula para nós. Então, e a gente ficava... Fazia os trabalhinhos, fazia bailinho, ia pro (Frederrache?) lá no... Ali perto do hospital de (________?). A gente ia lá para os bailes assim, de vez em quando, eles faziam um baile e a gente ia, era tudo de graça. As assistentes sociais sempre preparavam. O meu troféuzinho eu ganhei lá. Lá no (Frederrache?). Foi acabando porque também aí tem o (Zeli?) perto de casa, que tem parquinho, assim tem brincadeira e tem também os professores de física, né? Aí elas foram mais passando pra Lapa, também a praça dos (Zeli?) é maior para fazer caminhada. Aí foi acabando e aí eu já fiquei no outro grupo. Só que esse outro grupo eu trabalhava, era um centro de convivência, tinha te... Como é que fala? Telemarketing, telecenter, né...

 

P/1 – Telecentro.

 

R – Que tem os computadores para ensinar. Eu fiquei dois anos lá, quando faltava dois meses para o ano terminar, para chegar as aulas, eles mandaram os funcionários para outro lugar, porque tinha os funcionários da prefeitura. E fecharam lá, diz que vão fazer um centro de referência para o idoso, mas até agora... A informática ainda tá lá, mas os trabalhos assim de bordado, crochê, coisa assim, pintura, não tem mais, acabaram, porque eles tão pra outro... Tem uma até que fazia dezessete anos que ela trabalhava lá, ela tá trabalhando na Vila Prudente junto com as assistentes sociais. Foi acabando assim, mas eu fiquei, tem um grupo que eu fiquei pra eu fazer os meus trabalhos, porque quando eu aposentei eu falei: “Pra mim eu já perdi uma coisa da vida, né?”. Que a gente quando aposenta a gente acha que a gente já tá diminuído, tá ficando inválido. Eu falei: “Não vou parar desse jeito, eu vou fazer trabalho com a ...”. É gente... É mulher de favela, né? Mas só que agora elas pegam as cestas na igreja e não querem saber de trabalho para trabalhar. Nem no cortiço, pelejei para elas irem comigo e elas não quiseram ir.

 

P/1 – E quando é que a senhora começa a estudar na Universidade Claretianas?

 

R – Do ano 2000 eu fiquei até o ano de... Até o fim de 2005. O curso era de dois anos, lá é particular, mas eu ganhei bolsa do próprio reitor do colégio. Até hoje ele fala pra mim, quando o vejo: “Quando quiser voltar está aberto!”. Porque lá é particular, as professoras são da PUC, elas fizeram mestrado e arrumaram lá com o padre lá, que é coordenador, o quarto andar para a terceira idade, né? Então elas ficam ali, elas pagam os funci... As professoras mesmo, que o funcionário tem que fazer a limpeza, com o dinheiro que elas ganham das alunas que pagam.  Porque Higienópolis é um bairro muito rico, todas velhas ricas que ficam lá, a pobretona só era eu lá no meio delas, mas elas gostavam de mim, até gostam ainda, quando eu vou lá é uma festa. Então, e eu fiquei lá quando... O curso é dois anos, naquela época era semestral, agora é ano mesmo, é por ano... Quando acabaram os dois anos, elas deram o certificado, mas a gente passa... Eu pass... Na minha época, agora também deve ser a mesma coisa, a gente passa por todas as disciplinas que tem numa faculdade. A coordenadora lá é professora de informática,  a primeira aula era de informática. Depois quando eu cheguei lá, a a segunda aula era fonodióloga, as meninas estavam fazendo estágio. Daí elas saíram, entrou no lugar delas nutricionista. Depois tinha a de... Mas é tem... Sempre tem cinco ou seis professores lá, né? Em seguida entrou uma de desenho artístico, eu sou ruim pra desenhar! Eu falava pra ela: “O que o meu neto na cabeça, na minha não tem nada!”. Eu falava pra ela, né? Então, é... Economia, Folclore... O professor de Folclore vinha lá de Itaquera para dar aula. Ele era muito bom. A professora de História, historinha, não... Professora de História era uma pedagoga, ela era até assistente social, ela que era a professora de história para história, História do Brasil, né, pra gente. E tem outra pedagoga que até hoje está lá, professora Eva, muito boa, nossa! Quando eu chego lá é aquela festa com ela. Tem o professor de Geopolítica também, desde que começou... Começou no ano de 2001, na metade do ano, eu entrei no ano de 2002. O professor de geopolítica até hoje está lá, é um professor excelente, dá uma aula assim... Ele parece que coloca um disco na vitrola, mas aquele homem fala... Ele trabalhava na Caixa Econômica, mas só que ele já tinha faculdade, aí ele fez doutorado e foi dar aula naquela faculdade, está lá até hoje. Lá que eu aprendi... Com ele que a gente aprendeu porque que dá terremoto, porque que dá maremoto, porque que dá as coisas, porque todas as coisas... Ele é Geopolítica, mas não é política partidária. Quando entrei estava a guerra, tinha começado aquela guerra lá com o aquele lá dos Estados unidos, como é o nome dele agora?

 

P/1 – Bush.

 

R  – Bush. Então, aí as aulas ele focalizava aquilo, ele contou que o Paraguai até hoje é clandestino porque teve uma guerra com o Brasil, eles provocaram o Brasil e eles perderam na guerra de 30, parece que eles falam. E até hoje eles ainda não conseguiram se reerguer para não ser clandestino. Isso aí a gente vai aprendendo e a gente não é uma pessoa formada, mas a gente aprende... Não aprende muito porque a cabeça mesmo não dá, mas de vez em quando eu vou lembrando das coisas, daquilo que ele falava que o maremoto... O terremoto... O maremoto que nem desse do Japão e do Chile. Do Japão foi... Naquele outro lá pegado com o Japão... Ai como eu me esqueço das coisas! Que deu esse negócio aí de... Terremoto mesmo, né, é terremoto que fala, né? Que ele falava para nós: “A Terra gira, ela gira dez mil anos, porque é só a Terra que gira e nenhum astro gira, é só a Terra.”. Falou: “A Terra vai girando, ela tem laje embaixo lá de segurar a água do mar, né?”. Ele fala assim: “A Terra vai girando, vai girando, e as terrinhas pequenininhas vão escapando, vão escapando, quando chega dez mil anos aí chama...” Térmico, não sei o que térmico, aí as pedras uma bate na outra e é isso que dá o terremoto, né? Então, que eu falei assim: “Ai, eles tem sempre que fazer trinta anos que tinha dado”. Eu falei: “Eles deviam saber que o lugar é assim, devia não morar lá, né?”. Morar em outro lugar, né, por outro lado, né? Eu aprendi assim que tem a história do dilúvio na bíblia e eu aprendi que o dilúvio não foi uma chuva, foi o mar que avançou, por isso que Noé foi ao barco e protegeu os dele, os animais que tinham, que não precisou ser feito, que a gente fala, Deus fez tudo em sete dias. Então não precisou Deus formar de novo um casal, um casal de cada espécie. Porque foi o mar que avançou e levou embora tudo, que nem, não faz muito tempo que deu aquela chuva e deu também o mar na África em um país aí... É que eu esqueço o nome do país da África, que deu... O mar avançou, morreu muita gente.

 

P/1 – Bilosa, quantos netos, filhos... Netos e bisnetos você tem?

 

R – Neto eu tenho nove e bisneto eu vou fazer oito bisnetos agora, porque a nora dela está grávida, a minha bisnetinha menor é aquela que tá na fotografia, mas vai chegar outro. Ela já tem três crianças, agora vai ter mais uma. Foi o primeiro filho dela que casou, que ela tem mais o outro casado, que tem a minha bisnetinha mais novinha que é filha do filho dela, é do mais velho. Que ele tem mais um filho solteiro e tem a minha neta que tá com quinze anos, que é a minha neta mais nova.

 

P/1 – A senhora falou que mora com dois filhos, né, com os dois solteiros?

 

R – Com dois filhos, não casaram porque eles viviam. Não casaram por isso, chegaram a namorar, tudo, mas não casaram e ficaram solteiros até hoje, tem... Esse que tá na faculdade, é o mais novo e tem o outro encostado a ele, que adoeceu do fígado com cirrose por causa da bebida, só faltou mesmo morrer. Ele mesmo fala... Ele tratava no hospital... Tratava no hospital e trata ainda no Hospital Vila Alpina e numa... Numa “gastrologista” [gastroenterologista] do posto de Vila Prudente. Então ele às vezes está brincando com alguém e fala: “Eu só me faltou me pegar pela perna e me jogar para o outro lado.”. Porque o Hospital de Vila Alpina divide com o cemitério, né? Ele brinca falando isso, só faltou isso, que os médicos não davam vida para ele de jeito nenhum. Então ele perdeu muito do INPS e não conseguiu nem entrar na Caixa... Nem encostar na Caixa... Trabalha vendendo de ambulante na cidade, vendendo as coisas de ambulante, mas está se tratando ainda do fígado. E assim... Ficaram solteiros. Os dois que ficam comigo são eles. Talvez, o meu filho quando acabar a faculdade quem sabe ele casa, né? Ele tem uns papinhos lá com as mulheres, o telefone fica horas e horas conversando. Traz a fotografia dela em casa pra gente ver, mas... Ele nunca falou que está namorando com ela, mas ela liga pra ele, ele liga pra ela, quem sabe casa, né?

 

R – (Pausa) Graças a Deus toda a firma que eu saí me pagou, né? Teve uma que ficou com o processo, mas eles me pagaram depois. Ficou o processo de todo mundo, porque ele fechou a firma, mudou para outro lugar, fechou a firma e nós tivemos... Fomos mandados embora em um dia só, né? Aí teve que por um processo porque ele ficou meio mole, mas... Entrei pelo sindicato e recebi. Nunca teve problema assim.  Acidente na firma também não tive, só tive esse do pé e uma vez (______?) também foi um acidente numa indústria que eu trabalhava em Santo André, essa daí... Chamava Ipiranguinha, é uma que eu esqueci, chamava Ipiranguinha a indústria, também fechou... Foi acabando a tecelagem, as indústrias de São Paulo, tem pouca indústria. Ontem estava passando na televisão as cidades do interior tão crescendo porque as indústrias mudaram mesmo, os que têm indústria pequena, mudaram para o interior. Estava passando na televisão ontem que tem cidade que tá crescendo mesmo, que tem serviço pra todo mundo. E aqui em São Paulo nós que ficamos na mão, muita gente desempregada e... Meu filho, esse que trabalha, que está na faculdade, é funcionário da prefeitura de Mauá. Ele trabalhou quinze anos no Banco Itaú, depois ficou um tempo desempregado, foi mandado embora e ficou um tempo desempregado. Aí ele foi fazendo concurso, a primeira que... Ele fez para a prefeitura, fez para o estado, fez para o Banco do Brasil, Caixa Econômica, todos ele fez concurso, mas a primeira que chamou foi a prefeitura de Mauá e ele tá lá. Agora ele tá tentando com os papéis para ver se ganha bolsa... Porque ele paga a faculdade. Para ver se ganha bolsa da prefeitura para terminar a faculdade.

 

P2 – E você Bilosa, como é que era a sua relação com os seus amigos de trabalho?

 

R – Muito boa.

 

P2 – Vocês saíam muito, vocês eram próximos?

 

R – Pra mim... Eu não saía porque [tinha] muito filho, a gente trabalhava na indústria e em casa. Era dois ser... A gente trabalhava dobrado. Mas eu sempre fui muito assim de abraçar as pessoas, agora na igreja eu falo para as crianças: “Vocês não me chamam de vó Bilosa, não me chamam...”.  E até outro... Eu fui comprar carne essa semana e o homem falou assim, acabou de dar a carne, depois falou: “Tia”. Eu falei: “Não, me chama de...”. Perguntei quantos anos ele tinha, ele falou que tinha vinte e dois. Falei: “Então me chama de vó, não me chama de tia”. E as mulheres na comunidade que tem de sessenta anos para baixo são minhas filhas, eu falo pra elas, né? Apesar de que o meu filho já tá com sessenta e cinco, o mais velho. E as crianças me chamando de vó, eu abraço um, abraço outro. Até mesmo as crianças do cortiço a gente ajuda eles também, dá as coisas. Passa a mão na cabecinha deles, dou balinha, dou docinho, dou coisas, só... Agora, esses dias, estou com raiva e não estou dando não. Mas eu sou muito, às vezes... Teve uma indústria que eu trabalhei, era de seda, fui trabalhar perto de uma mulher assim e elas... Porque a gente trabalhava por produção, aí tinha... Tem aquelas que são mais ambiciosas e ficava puxando, né, pra... Aí ficava às vezes de briga mesmo, ficava brigando. E quando eu ficava perto delas, passava o tear lá perto, eu ficava brincando com uma, brincando com outra. Elas falavam: “Mas você, por que você é assim?”. Aí elas pegavam amizade uma com a outra que estava de mal porque eu falava: “Não é pra ser assim, a gente tem que tá junto, a gente tem que ter amizade uma com outra.”. Eu sempre fui desse jeito assim. Com meus vizinhos não tem essa de ficar brigando com o outro por nada. Agora também os vizinhos são mais gente que a gente nem conhece, porque compraram as casas, né, do pessoal ou que morreram os donos, ou a família pegou e vendeu a casa. Mas a gente tenta sempre ter amizade. Amizade é muito... Pra mim eu acho que a gente tem sempre que amar um ao outro.

 

P/1 – Bilosa, se você pudesse mudar alguma coisa na sua vida... Você falou que tem uma frustração de não ter sido professora, mas, além disso, você gostaria de mudar alguma coisa se pudesse?

 

R – Se eu pudesse mudar as coisas, agora eu vou na política, né? Eu acho que tinha que mudar era a política, negócio assim... Como é que fala? Instituição, sei lá, que fala, né, assim... Porque a gente tá vendo muita sujeita na política. Foi o que eu falei lá pra eles... A dona lá da casa do cortiço foi lá domingo, eu falei com ela, olha o que ela respondeu pra mim: “Mete bala!”. Eu falei: “Nós não somos bandidos dona Laura, nós não temos arma em casa”. “Então chama a polícia”. Eu falei: “Eu não chamo a polícia também, porque a gente vê agora toda gangue que pega a polícia tá no meio”.  Eu falo... A gente fica assim desprotegido, essa insegurança. Então eu acho que tinha que mudar em primeiro lugar a educação.  Mas eu... Ainda sábado nós tivemos uma reunião lá na comunidade, a reunião de família, aí eu falei: “Olha, a gente, o pai é o primeiro professor, o primeiro catequista...”. Eu falei: “Tem que educar as crianças, bom humor, ensinar eles porque os nossos valores se perderam...”. Primeiro todo mundo falava por favor, obrigado, dá licença, não sei o que. Hoje em dia não, ficam com essa história de tio, que as professoras da faculdade, a pedagoga Eva fala: “Eles chamam a gente de tio com segundas intenções. Eu não quero que me chamem de tio, eu quero que me chame de professora.”. Porque elas mesmas veem que a educação tá muito... E eu não acho que as professoras que são ruins, né? É o jeito da época que nós estamos, sei lá se é insegurança, se é... E também o INSS que nós trabalhamos tanto e ganhamos tão pouco, porque o meu filho ganhava bem mesmo, ele trabalhava na FORD, ele ganhava seis salários mínimos e se aposentou com três salários.

 

P/1 – Mas e na sua vida, se a senhora pudesse mudar alguma coisa e voltar no tempo, a senhora mudaria alguma coisa?

 

R – Eu acho que eu não tinha que mudar alguma coisa na minha vida não, porque a minha família é uma família tão... Eu ainda não sei dizer, eu falo na igreja, minha família é a melhor coisa que Deus me deu. A família não só os filhos, mas os netos, que são a coisa mais linda do mundo pra mim. Me ajudam em tudo, pagam convênio pra mim, pagam remédio, paga... Esse meu neto aí que é estilista, me dá a cesta básica dele cheinha, fechadinha do jeito que ele recebe, para ajudar, porque como o meu filho está na faculdade e ele não está podendo ajudar em casa, o dinheiro vai para a faculdade... Eles me ajudam em tudo, eu não compro roupa, eu não compro nada. Eles me arrumam coisa da casa, trocar piso, banheiro, coisa, é os filhos que fazem isso. E a família os outros, meu genro, meus dois genros que morreram eram dois amores para mim. Minha nora é filha de japonês, pra mim, é a mulher melhor do mundo, ela faz favor pra todo mundo, ela vai ajuda a gente. Então assim, mudança pra mim eu acho que eu estou realizada na minha vida, estou no fim dela também. Outra coisa que me realizou também foi a faculdade, que eu cheguei a escrever o livrinho, que eu trouxe aqui os dois para dar para vocês. E foi uma coisa que me realizou. Então eu... O meu marido ele não era ruim pra mim, ele era meio assim, mas ele era bom, era bom pai, bom marido, né? Ele morreu... Eu sofri bastante com a bebida dos filhos, como eu falei, mas eles graças a Deus... Um morreu por causa da bebida. E os outros deixaram, isso me deu um alivio tão grande que eu acho que pra mim mesmo, eu falei... O professor de Filosofia da faculdade um dia em uma aula ele foi falando de felicidade, né? Foi dando a aula e... Ele fez a pergunta assim, o que é felicidade para nós, para todos nós darmos uma resposta. As mulheres começaram, ricas que são aquelas mulheres, formadas... Uma falava assim: “Ah eu, a minha felicidade é viajar, é ir para a Turquia, pro Japão...”. Pro Japão não, ela não tinha ido pro Japão não, para os Estados Unidos, não sei pra onde. Aí eu esperei até a última falar e eu fui a última pra falar, né? Eu falei: “Eu tenho pouca coisa, mas eu sou muito feliz.”. O professor falou: “A sua filosofia é essa daí.”. Então, porque o que tá me atrapalhando... Não é que eles atrapalhavam não, mas agora eles subiram na minha casa e eu fiquei com muita raiva, porque a gente os ajuda e depois eles... Menina, adolescente, né? A mãe ontem passou por mim assim, que ele estava lá para a casa da avó, ela falou: “Pede desculpa para a Bilosa.”. “Eu não fiz nada”, ele falou pra mim assim. Ele fazia desaforo pra mim, assim com a bola, quando ele era menor. Inclusive jogava a bola, aí ele fazia o gol do meu portão da garagem. Ele ia pra lá, pro lado de lá e botava o menor no gol, quando eu falava, ele chutava assim eu, como se ele tivesse me chutando, né? Aí ele fazia que ele não estava chutando a bola, que ele estava chutando a mim. Eu fui... No fundo eu o conquistei, né? Ele é muito... Tem o menor, ontem eu falei, quando a mãe dele falou isso pra mim: “Mas porque que o Gabriel é tão bonzinho e ele é desse jeito?”. O outro menor do que ele, né? Ele já tá adolescente, deve ter uns quinze, dezesseis anos já, o menino, ele pegou outros lá, pegou o pequeno e subiu. A mãe do pequeno que me contou dele. Já hoje a minha vizinha da frente que gritou que eles correram, falou pra mim... Ela falou dona Maria comigo, né? “Dona Maria, fecha a porta da cozinha”. Estava fechada a porta, mas eles estavam tentando abri-la para tirar as coisas de dentro de casa. Então, aí eu falei... O que eles levaram lá eram as coisas... A gente tinha alguma coisa que a gente precisava, mas é coisa sem importância. Eu fiquei com raiva deles entrarem lá em cima da casa, quebrarem as telhas, eu já mandei arrumar o telhado várias vezes, eles sobem em cima falando que é para ir pegar a pipa, mas não é. Eles estavam procurando um jeito de entrar. Porque eles se drogam e aí não sabem o que estão fazendo.

 

P/1 – E Bilosa, o que você achou de ter vindo aqui contar a sua história pra gente?

 

R – Nossa, pra mim foi a coisa... Foi a glória, foi a melhor coisa... Eu sou muito faladeira, eu gosto muito de falar, né? Com isso que eu me distraio, com isso que eu formo grupo, eu gosto de ser... De fazer o serviço voluntário assim, como eu falei eu não gosto do (_________?), mas assim voluntário, cuidar das pessoas carentes eu gosto, né? Então aquilo eu vou... Quando eu me junto com as senhoras de idade lá, que são do centro de convivência que agora tá numa escola, os trabalhos. Aquilo ali me distrai tanto que a gente conversa, a gente dá risada, né? E quando eu vou assim, para um lugar que me convidam para eu ir, nossa eu me sinto muito feliz!

 

P/1 – Então a gente queria agradece-la por ter vindo aqui hoje e ter contado a sua história pra gente.

 

R – Eu é que agradeço a vocês que... A minha filha falou pra mim, eu pensava outra coisa da... Assim, porque ela tá fazendo um curso na OAB, ela me falou o nome do curso como é que é, né, que ela trabalha fazendo trabalho de artesanato para a prefeitura de Santo André, aí ela tá fazendo esse curso, ela falou o que era... Aí eu estava pensando que era uma coisa assim para entrar no curso dela. Eu não conversei com ela como que era. Depois ela me mostrou o papel, aquele o folder, que vocês tem aí. Como que é? É o Museu da Pessoa, né? Aí eu falei... Aí ela falou: “Mãe, é assim, assim, assim, alguém vai levar mais alguém lá e não sei o que”. Porque eu estava pensando que era para o curso isso daí. Nossa pra mim é muito gostoso conversar. Eu gosto de conversar outras coisas assim, mas aqui era para eu contar. Eu tenho o meu livro que eu fiz... Um livrinho, né, um livrinho, que é a ata nossa que ele não (_______?). Porque cada aluno tinha que contar uma história da... Não, era assim, era para contar uma historinha da vida, de quando nasceu até aquela idade que estava. Então, umas fizeram só com fotografia, eu como eu tinha aprendido um pouquinho de informática, hoje em dia o meu filho toma conta da internet lá no computador, que foi o meu neto que me deu, o filho da Fátima. Ele trabalha com... Ele se formou na faculdade naquele negócio de informática. Ele montou o computador e me deu, o computador... Aí o que precisa ele faz, vai conserta a impressora, tudo ele dá pra mim, as coisas que precisam do computador, né? Então aí a gente... Eu peguei e fiz um livrinho assim com fotografia, mas tem a… Assim na fotografia tem um escrito daquela fotografia, o que eles são, ou a idade deles...  Mandei encadernar na... Que ele é furadinho, o livro não, é livro mesmo que eu... Contando a história do nosso bairro, cinquenta anos de bairro, de comunidade. Tem as pessoas que me ajudaram, assim, porque quando... Eu sabia que tinha que pegar alguém que contasse história, porque nós tivemos muita luta para o bairro ser o que é hoje, mas o padre que tem a história da comunidade também, pegou e mandou eu procurar um professor de história, o professor falou pra mim, quando eu fui lá falar com ele: “Você precisa arrumar vinte pessoas para contar, cada um contar uma história para por no livro, né?”. Não chegamos a arrumar as vinte não, mas aquelas pessoas que lutaram pelo bairro contaram a história e tá no livro. Foi assim, um livro feito com várias pessoas, que até o padre Vidal fala: “A Bilosa foi a coordenadora do livro”. A ideia foi minha, eu inventei, porque a professora de gerontologia da... Que era professora de gerontologia na faculdade é gerontologia, né? Ela falava assim para nós: “Olha, o idoso não perde a memória, ele perde a percepção das coisas. Ele começa lá no canto cochilando, não presta atenção em nada e vai esquecendo, esquecendo.”, né? Eles falam... O de filosofia falava: “Depois a pessoa, se ele tiver gente que ajude ele, assim a família, vai falando as coisas, vai se lembrando, porque aquilo tá gravado, não perdeu a memória.”. Aí elas falam, precisa escrever, precisa fazer um livro, precisa... Que nem o mal de Alzheimer que não tem cura, os cientistas iam lá fazer palestra. Aí no outro dia, ela que levava o cientista, a gerontóloga, né? Falava assim: “Olha, vocês leem, em perpétua leitura e escreve, que não dá mal de Alzheimer, que o neurônio vai funcionando”, né? Então eu... Eu ainda faço umas poesias assim quando... Eu estava... Quando a gente fez a primeira poesia, a professora queria que a gente fizesse, não era poesia, uma história em cima dos fenômenos naturais: o sol, alua, as estrelas, a chuva... Eu peguei um texto... Ela deu numa aula um texto de Fernando Pessoa e eu era mais devagar, as outras são formadas, sabem das coisas. Eu demorava para pegar a história da... Pegar... Interpretar a história, o texto. Elas faziam uma historinha, né? Teve uma festa junina que ela pediu a história do folclore junino de cada região, de cada estado assim, eu fiz em poesia... Porque naquela historinha de Fernando Pessoa, um dia eu ia sozinha no ônibus, porque eu ia sempre com a freira quando eu ia pra casa. Eu ia cochilando, aí me entrou uma poesia na minha cabeça, são cinco versinhos, tá no livro, né? Entraram aqueles cinco versinhos na minha cabeça, eu cheguei em casa, eu jantei e aquilo não saia da minha cabeça, eu tomei banho, jantei, eu fui deitar, eu... Duas horas da manhã eu levantei, passei no caderno aquilo, aí eu dormi. E dali eu fui inventando, eu trouxe uma... Eu estou com uma aí que eu fiz do carnaval, a poesia chama “Carnaval”. Eu fui fazendo aquilo porque o neurônio da gente vai funcionando e a gente não esquece tanto... A minha mãe ela morreu faltando cinco meses para cem anos, mas ela com noventa anos esclerosou e sofreu tanto, deu tanto trabalho. Eu falei a gente... Eu sempre eu falo, eu queria morrer assim, pá cai. Para não ficar dando trabalho para os outros e nem sofrendo também. Porque eu vi o meu marido sofrer, quando era a minha mãe com a esclerose daquele jeito, né? E a gente leva... Eu sei que a faculdade pra mim foi o melhor tempo da minha vida.

 

P/1 – Então Bilosa a gente queria agradecer, muito obrigada.

 

R – Obrigada vocês, viu?

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