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História

A vida em terra firme

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Nurievi Minguta dos Santos Peçanha fala de sua vida como professora e atuante na comunidade de pescadores de São João da Barra (RJ). Infância como filha de pai pescador e mãe costureira ao lado de cinco irmãos. A corrida por médicos para tratar a irmã que nasceu com problemas de saúde e deficiência mental. Fala de sua história de amor que demorou dez anos para acontecer. Alcoolismo na comunidade.

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História completa

P/1 – Então Nurievi, pra começar eu vou pedir pra você falar seu nome completo.

R – Nurievi Minguta dos Santos Peçanha.

P/1 – E a data do seu nascimento?

R – 23 de março de 1979.

P/1 – E você nasceu aqui mesmo, Nurievi? Você nasceu onde?

R – Eu nasci em Ponto de Cacimbas.

P/1 – Você ficou lá na infância e depois veio pra cá?

R – Não, o Ponto de Cacimbas é uma localidade que tem aqui, onde tem o Hospital Manoel Carola, que é o hospital do município. Eu nasci e sempre morei aqui na Barra, mas passei uma temporada fora.

P/1 – Você conheceu seus avós Nurievi?

R – A minha avó por parte da minha mãe conheci, mas eu tenho uma vaga lembrança dela porque eu tinha cinco anos quando ela faleceu. A minha avó por parte de pai eu já conheci mais um pouco, quando ela faleceu eu já tinha uma idade um pouco mais avançada e deu para eu guardar bem e ter um pouco de contato com ela.

P/1 – Que lembranças que você tinha dela de infância, de ir na casa dela, de comidas que ela fazia?

R – Olha só, a minha avó por parte de pai morava em Arraial do Cabo, então ela sempre viveu mais lá do que aqui, não tinha muito contato direto. Com a minha avó por parte da minha mãe a gente já teve mais aquele contato porque ela morava em uma localidade bem no interior mesmo, que se chama Barão, que é a Tipity. Lá a gente tinha mais contato porque a minha mãe ficava muito lá. Era roça mesmo, era bolandeira que o pessoal fazia farinha. Por ter convivido pouco com ela, devido a minha idade e porque ela morreu com 49 anos, eu lembro de algumas coisas, vagamente.

P/1 – Você falou dessa coisa da bolandeira. Explica um pouco mais o que é a bolandeira.

R – Bolandeira era uma fábrica de farinha, tinha o pessoal que trabalhava lá fazendo farinha, raspavam mandioca pra fazer a farinha. Até hoje tem a farinha da Tipity, eu não sei se vocês já viram. Não funciona como antigamente, mas existe ainda. E lá a gente geralmente ia de charrete, o pessoal gostava muito porque era o meio de vida deles, também era uma diversão. A gente ia muito de carona na charrete porque quando a minha avó começou a ficar doente, passando mal, a minha mãe largava tudo e ia socorrer. E a gente ia porque o pessoal era conhecido, a gente embarcava na charrete e ia junto [risos]. Mas, lá era um lugar muito agradável, sabe? Passava uma paz. Eu lembro que a casa da minha avó era uma casa de estuque, de palha, e tinha uma árvore grandona perto da casa dela, era muito legal... a gente se sentia muito bem lá na minha vó.

P/1 – Você falou um pouco da casa da sua avó. Me conta um pouco da sua casa de infância, como era a casa que você nasceu, que você cresceu.

R – [risos] A minha casa... eu posso dizer que já morei numa casa melhorzinha, né? Mas meus pais e meus irmãos chegaram a morar numa casa de estuque. Estuque é aquela casa que bota as varinhas assim, todas trançadinhas, que geralmente eles faziam com vara de mangue fininha. Eles iam no mangue e tiravam as varinhas... Isso era antigamente, quando podia fazer isso, hoje em dia já não pode mais devido ao meio ambiente. Eles tiravam, pegavam o barro pra poder embarrear, aí pintavam de cal e colocavam taboa. Eu até cheguei a morar, pouco tempo, mas eu cheguei a morar em uma casa de estuque com taboa... às vezes ventava muito. Eu tenho um irmão que adorava fazer a casa, derrubar as paredes pra fazer isso, porque era rapidinho. Meu pai pescava, meus irmãos foram crescendo, foram ajudando. A minha mãe sempre costurou, hoje em dia ela não costura mais, mas antigamente a profissão da minha mãe era costureira... quer dizer, a gente trabalhava no frigorífico limpando peixe. Aí, depois nós fomos fazendo outra casa, mudamos, colocamos telha. Eu ainda morei um período em uma casa que o chão era aquele, não era cimento, era barro mesmo. Eu cheguei a morar em uma casa assim, eu lembro disso. Antigamente a gente era mais feliz, apesar das dificuldades a gente tinha momentos felizes, entende? Eu acho isso muito importante na vida, por mais dificuldade você passe, você ainda consegue ser feliz… porque quando a gente tem Deus no coração da gente, as dificuldades e as lutas vêm, a gente pode chorar, mas depois a gente está sorrindo novamente.

P/1 – Nurievi, você tava falando um pouco do seu pai. Você sabe por que eles vieram pra Barra? Eles já eram daqui, como foi isso?

R – Olha, a minha mãe morou aqui, mas ela não nasceu aqui. Ela nasceu em um lugar que eu não conheço, é perto da Tipity, onde o pessoal chama de Luís Alves. Eu não sei muito bem onde é a localidade, mas é pra lá também. O meu pai na realidade era daqui também, era lá do lado do Espírito Santo, era de Iconha quando ele nasceu, mas acho que veio pra cá novo.

P/1 – E saneamento básico, energia elétrica? Nesse começo vocês já tinham, você viu chegar, como era? R – Não, não tinha energia elétrica aqui. Poucas casas tinham energia elétrica. Aí, como minha mãe ficava costurando à noite na lamparina, e a gente ficava muito junto, no outro dia ela tinha que lavar o meu cabelo. Todo dia tinha que lavar meu cabelo porque era loiro e ele ficava preto de tanta fumaça da lamparina. Depois de um tempo que foi ter energia elétrica. A água, geralmente a gente usava do rio.

P/1 – Como era essa água do rio? Todo mundo fala que o rio era mais limpo.

R – Era. O rio era mais limpo, não tinha tanta poluição, tanto esgoto.

P/1 – Você lembra de ver chegar os postes, de chegar a luz elétrica? Você falou que eram poucas casas que tinham luz no começo, né?

R – No início, no início, eu acho que não tinha em nenhuma... não posso nem te falar porque não me lembro.

P/1 – Não tem problema. Você já falou um pouco do seu pai e da sua mãe. Me conta um pouco da sua mãe. Você falou que ela era costureira. Com quem ela aprendeu? Como ela era, como você lembra dela de infância?

R – A minha mãe? A minha mãe sempre foi uma guerreira. Ela costurava muito, o meu pai bebia muito, então, ela... Apesar dele ser o homem, ela era praticamente o esteio da casa. A gente sempre se espelhou muito na nossa mãe. Ela costurava pra fora, às vezes ela tinha encomenda e virava a noite costurando, a noite toda pra poder ter ali o pão de cada dia pra colocar dentro de casa... porque nós somos em seis irmãos, dois homens e quatro mulheres, então, ela sempre lutou muito. Nós passamos muita dificuldade, quer dizer, eu não passei tanta dificuldade na minha vida.

P/1 – Você é a filha mais nova?

R – Eu sou quase a mais nova porque depois veio a minha irmã, a Rosana, que é especial, que pegou o meu lugar, então, perdi o posto de caçula e ela ficou no lugar [risos]. Mas, minha mãe fala que a minha família, os meus irmãos, passaram muita dificuldade na vida, entende? Então hoje, o que a gente tem, o que a gente vive, não é uma vida de rico, mas, graças a Deus, a gente tem uma vida tranquila em que não há necessidade de passar pelas dificuldades. Hoje a gente pode falar que se a gente tiver de ajudar alguém, a gente ainda tem condições de ajudar... antigamente a gente tinha necessidade de ser ajudado, mas hoje não, graças a Deus... eu glorifico a Deus por isso. Mas nós passamos muita dificuldade, sim. A minha mãe era costureira, mas antigamente aqui na Barra dava muita peruá, então, ela costurava e limpava peixe no frigorífico, às vezes passava a noite toda limpando peixe no frigorífico.

P/1 – Você ia desde criança pro frigorífico?

R – Ia. Desde criança. A gente ajudava. Todo mundo lá ajudava, meus irmãos, minhas irmãs, nem todas, né, porque...

P/1 – O frigorífico era só mulher ou todo mundo limpava peixe, como era?

R – Não, todo mundo... homem, mulher... porque era o que dava mais sustentabilidade, sempre tinha peruá. Hoje praticamente não existe mais peruá, a peruá está escassa, mas eu posso dizer que a peruá, aqui na Barra, matou muita fome de muita gente.

P/1 – E você me falou que sua mãe era costureira. Ela costurava pra quem? Costurava em geral para outras pessoas ou costurava para alguma empresa, como era?

R – Não, pra comunidade mesmo. Não costurava para empresa não, era pra comunidade mesmo.

P/1 – Você me falou já um pouquinho do seu pai. Ele era pescador… conta um pouco mais sobre ele.

R – Meu pai era pescador. Quer dizer, meu pai, logo no início da vida dele, era tratorista, ele trabalhava para um senhor, que também já faleceu. Mas assim, a parte da vida do meu pai, mesmo, foi sempre a pescaria, né? Ele pescava e tomava conta de um barco… ele sempre pescou.

P/1 – Na sua lembrança ele já é pescador?

R – Já, já. Eu sempre lembrei dele pescador. Eu tava até comentando um tempo atrás aí com mamãe, eu lembro que uma vez ele foi botar caída, ele colocou tanto cação… pegou um cação enorme, e aí os barcos tiveram que ir até a boca da Barra para aguardar ele chegar e esperar ele entrar, com medo do barco virar.

P/1 – Nurievi, a gente entrevistou muitos pescadores. Mas tem esse outro lado que é ser a família, né? Como é ser a família do pescador, quem fica na terra no final das contas? Não saber se volta, com todas as angústias, como é essa relação?

R – Olha, geralmente quando o pescador sai pro mar, quando meus irmãos saem pro mar... quer dizer, hoje eu só tenho um irmão que pesca e o meu esposo. Porque hoje o meu pai já não está mais aqui, vai fazer oito anos agora em junho que ele foi atropelado e ele aguentou. Mas é sempre assim, às vezes, a gente está em casa, o tempo tá bom. De repente, cai um vento sul, o vento muda, aí fica todo mundo preocupado. Porque a gente vê várias situações de pessoas que vão lá pra alto mar, e somem. Então, sempre tem aquela preocupação, né? Eles saem pro mar, mas a gente fica em terra pedindo a Deus pra que eles possam retornar. Eles não estão pescando assim, no caso a minha família, meu irmão e nem o meu marido, eles não estão pescando tão longe igual o pessoal que pesca lá fora, na plataforma. Mas, se acontece alguma coisa, mesmo que não seja um parente nosso mais chegado, mas alguém da comunidade, deixa a gente triste porque todo mundo é conhecido e isso realmente mexe com a comunidade… sempre há essa preocupação.

P/1 – Me fala um pouco como esposa, porque aí é a relação mais próxima. Ele chega a ficar mais de um dia fora no mar, ou ele volta rápido?

R – Quando ele está pescando camarão ele vai e volta todos os dias, mas quando ele está pescando lá fora, ou está pescando de rede, 12 dias, 15 dias no mar. Porque quem pesca lá fora, pescaria de fundo, leva geralmente esse tempo. E ele sempre pescou muito em Cabo Frio, então ele levava até 1 mês para vir pra casa.

P/1 – E aí como é, passar um mês?

R – Olha, nos primeiros dias a pessoa fica assim: “Poxa”... Aí, quando passam uns cinco dias a pessoa vai se acostumando, quando já vai demorando mais, a pessoa já vai falando: “Ó, você não vem!?” Mas ele parou de pescar lá fora, ele não pretende mais pescar lá fora.

P/1 – Entendi. E tinha algum hábito na sua família? Por exemplo, horário de comer tinha que todo mundo ficar junto, tinha algum costume, você lembra, em casa?

R – Não! Não me lembro, não, nunca teve assim. Pescador não tem muito horário de comer, né? Às vezes, ele sai de madrugada, às vezes chega cedo antes do almoço, às vezes chega depois do almoço, então o pescador em si, a família do pescador, acho que não tem muito esse hábito de sentar todo mundo, se reunir.

P/1 – E de criança como era a rotina na sua casa? Era um pouco o que você falou, não tem muita rotina por causa do pescador... Mas vocês que ficam, por exemplo, os irmãos, vocês iam pra escola, tinha horário pra acordar, não tinha escola, como era?

R – Não, tinha escola. A minha mãe sempre teve essa grande preocupação de colocar a gente na escola. Ela nunca deixou de falar: “Eu vou tirar o meu filho”. Só um irmão meu que deixou de estudar para trabalhar e ajudar em casa, mas ele ainda conseguiu chegar até a oitava série. Teve um que não gostava de escola, mas mesmo assim, também sabe ler e escrever. Só a minha irmã que é especial e não sabe ler, mas ela sabe fazer o nome dela, e isso já é uma grande vitória pra gente, né? Mas essa preocupação da minha mãe do filho estudar, ela sempre teve. Quem tem mais formação sou eu e minha irmã, os outros não terminaram os estudos, mas a minha mãe sempre teve essa grande preocupação.

P/1 – Nurievi, deixa eu te perguntar uma coisa, mas você fica à vontade pra não responder. Você falou bastante da sua irmã especial, com carinho. Como é, quais são as dificuldades? Porque uma coisa que todo mundo fala é a ausência de hospitais, de uma estrutura aqui. E como é pra cuidar da sua irmã? Como foi ao longo desse tempo?

R – Olha, no início foi muito difícil. Eu posso dizer que a minha irmã é um milagre de vida, sabe? Foi um milagre de Deus, mesmo, ela estar hoje entre nós. Ela nasceu, e quando ela tava perto de fazer um aninho, teve uma crise convulsiva. Aí, foi pro hospital, ficou internada, e depois dessa crise ela teve várias outras crises. Fazia exame, minha mãe correu muito, andou muito com ela, teve muita dificuldade... minha mãe passou uma temporada em Arraial do Cabo morando lá, fazendo tratamento, e cada dia, cada hora era um remédio. A gente nunca conseguia ver um remédio certo pra ela, porque ela tinha crise direto. Depois de muito tempo mesmo, mamãe conseguiu tratamento com uma doutora em Campos, que foi a doutora Márcia, foi onde ela conseguiu o medicamento certo pra minha irmã, que é o Depakene, graças a Deus. Mas ela já tomou vários tipos de remédios. Depois que a minha irmã nasceu, nossa família ficou bem mais ligada, ficou bem mais unida. O meu pai era apaixonado por ela, nossa, meu pai chorava demais quando ela passava mal... todo mundo, né? Então, uma vez ela passou mal, no desespero - porque as crises que ela tinha eram muito feias, não era qualquer pessoa que tinha estrutura pra ver - então saiu todo mundo desesperado, do jeito que tava. E eu lembro que um dia meu irmão foi parar em Campos descalço, com uma bermudinha e sem camisa. E tinha um ônibus da Viação Gargaú que saía de Campos uma hora da manhã. Precisou um policial vir com ele na rodoviária pra colocar ele dentro do ônibus pra explicar pro motorista que ele não era nenhum bandido, e que ao chegar aqui iria dar o dinheiro da passagem, porque ele nem tinha. Então, eu lembro disso, foi uma coisa muito marcante. Quando minha mãe fala você percebe que ela fica muito emocionada. E também teve um período, que Rosana tem um problema de fígado e passou muito mal, ela foi à beira da morte. Ali foi o desespero da família. Quando minha mãe era mais nova, era evangélica, aí ela se afastou. Eu sou evangélica, graças a Deus. E quando aconteceu isso com a minha irmã, Deus ia levar ela, ela foi à beira da morte. E meu pai se desesperou, mas Deus livrou ela da morte pra mostrar que Deus é Deus, ele é Deus do passado, do presente e vai continuar sendo Deus. Por isso que eu falo que ela é um milagre de vida porque o médico falou um dia assim pra minha mãe: “Olha, quando ela crescer, ela pode pegar o cérebro dela”, porque ela tem o cérebro incompleto, mas aquela falha fez ela ficar especial. Agora, por qual motivo, a permissão de Deus ela ter ficado especial, isso não incomoda a gente em nada.

P/1 – Mas aí ela tem alguma...

R – Não, não. Você olha pra ela, e vê que ela não é uma pessoa normal, a fisionomia dela, o jeito dela falar. Ela não fala assim solta como a gente, ela fala algumas coisas erradas, tipo criança pequena. Mas ela conversa, ela anda, fala muito, se você parar pra conversar com ela você leva umas duas horas e ela falando direto, entendeu?

P/1 – Hoje em dia ela vive bem aqui?

R – Vive, vive. Ela não vive tão bem porque tem as dificuldades na questão de uma escola especial pra ela, né? Aqui a gente não tem uma Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais], nem sei se lá em São Francisco está funcionando ainda. A minha mãe já passou muitas temporadas no Espírito Santo para colocar Rosana na escola, né? Porque lá em Marataízes ela é matriculada numa Apae muito boa. Hoje Rosana está sem estudar novamente porque não tem uma Apae... Minha mãe não vai colocar minha irmã em um ônibus para São Francisco. Jamais. Ela já fica assim falando: “Ah, eu tenho que voltar pra Marataízes pra Rosana poder estudar”. Porque aqui nunca, ninguém, político nenhum se interessou por isso, em querer fazer uma Apae, pelo menos uma sala. Eu não digo construir uma Apae, mas pelo menos uma sala, em uma escola, para um professor trabalhar com criança especial porque não é só ela que tem, aqui em Barra tem várias crianças. Mas nunca vi um político se interessar por isso.

P/1 – E Nurievi, deixa eu te perguntar uma coisa. Você falou bastante dessa relação com os irmãos. E como era a infância, as brincadeiras, como vocês se relacionavam? Brincavam de rua, do que os irmãos brincavam?

R – Olha, eu sempre fui o xodó dos meus irmãos, né? Antes da minha irmã nascer, depois ela pegou o meu lugar. Mas a gente brincava muito. O meu irmão, o Tonho, sempre foi muito levado, muito arteiro, sempre foi muito bagunceiro. Uma vez ele quebrou a perna em três lugares, aí foi pra Campos para engessar.

P/1 – E seu pai contava história? História de pesca, história de alto mar?

R – Ah, ele sempre contava. Meu pai amava muito os filhos dele, mas ele não tinha aquela coisa de estar ali junto, de estar: “Ah meu filho, senta aqui”, de conversar, de fazer um carinho. Mas se um filho dele ficasse doente e acontecesse alguma coisa, isso acabava com ele, acabava a estrutura, ele só ficava chorando. Ele era muito sentimental, ele tinha muita preocupação com os filhos. Apesar da bebida dele, ele tinha essa preocupação com os filhos. Ele sempre amou muito os filhos, do jeito dele. Mas o meu pai também não terminou a vida dele bebendo, ele largou a bebida quando os filhos eram pequenos, antes dele morrer, já tinha mais de 18 anos que ele não bebia.

P/1 – Agora deixa eu aproveitar pra te perguntar uma coisa. Essa coisa da bebida é muito forte aqui na comunidade? Você percebe que é um problema, é uma questão?

R – É, é sim. É uma situação bem complicada, existem muitas pessoas na comunidade que bebem demais. E a gente sabe que a bebida sempre traz uma parte agressiva, existe sim uma boa parte da comunidade que tem problema com alcoolismo, em Barra.

P/1 – Em geral são os homens?

R – Em geral são os homens.

P/1 – Eu queria que você me contasse agora as primeiras lembranças de escola, de ir pra escola, como foi?

R – Ih, chorava demais! Meu Deus, chorava muito na escola. Eu lembro, se não me falha a memória, a minha primeira professora, eu acho que foi Ilka. Mas eu chorava demais. Eu nunca fui assim: “Nossa, sou apaixonada pelos estudos!”, mas sempre estudei, eu nunca perdi série, eu sempre passei. Só teve uma vez que eu fiquei de recuperação em Geografia, e eu quase matei o professor também, né? Porque eu falei pra ele que se eu perdesse, ele ia ver só, porque eu perdi por um décimo, ele me levou pra recuperação por um décimo. Aí, eu falei pra ele: “Se você fizer eu perder, o senhor vai ver só” [risos]. Ele até deu a matéria pra estudar e na prova de recuperação eu tirei 84. Fiquei toda boba em casa, quando eu cheguei. Mas lá em casa, meus irmãos sempre foram muito estudiosos, nunca perderam série.

P/1 – A escola era um lugar especial, um lugar onde vocês brincavam mais, um lugar de tranquilidade?

R – Era um lugar tranquilo, às vezes era tranquilo, às vezes dava vontade de não ir pra escola. Quando a minha irmã Rosana fazia tratamento, que a minha mãe ficava mais fora e o meu irmão trabalhava aqui na Barra de carpinteiro... às vezes quando eu não queria ir pra escola, ia pra casa da minha tia Lúcia. Tipo, eu entrava às onze horas na escola e ele chegava em casa às onze e meia para almoçar. Eu saía, ia pra casa da minha tia, fiz isso várias vezes, aí meio-dia e meia, quando ele voltava pro serviço, eu voltava pra casa. Ele achava que eu tava na escola, mas eu não tava. Eu tava na casa da minha tia porque eu não queria ir pra escola, mas mesmo assim, eu nunca perdi.

P/1 – A escola em si já tinha o prédio, era pequena, como é que era a escola?

R – Não. A escola era o Ana Nunes, não tinha todas aquelas salas, né? Porque agora acho que fizeram mais duas salas, não me lembro.

P/1 – Mas já era essa escola?

R – Era, mas não era desse jeito. Antigamente não tinha ar condicionado na escola, não tinha ventilador, depois de algum tempo que teve ventilador. As salas não eram forradas. Hoje, em vista do que a gente teve, a escola tá um luxo, né?

P/1 – E curiosidade, o que te levou a fazer magistério, Nurievi?

R – Falta de opção.

P/1 – Falta de opção? Você tinha vontade de ser professora, não tinha…?

R – Não. Não. Eu não tinha vontade de ser professora.

P/1 – Quando você fala nas opções, quais eram as opções que tinham pra um adolescente?

R – Só professor mesmo, não tinha outra opção de profissão aqui na Barra. Ou você se formava professora ou você ia parar de estudar porque não tinha outro curso, outra formação. Muitas pessoas se formaram em outras especialidades porque eram pessoas que tinham melhores condições de vida aqui em Barra e saíam, iam pra Campos, iam para outros lugares. Mas isso era quem tinha condições, não a gente, filhos de pescadores. Pro filho do pescador, das famílias mais sacrificadas, a opção era professor. Não que eu não goste da profissão, eu já trabalhei como professora, eu já fui professora do Pet...

P/1 – Mas acha que pode dar opção.

R – Isso. Eu já trabalhei em creche, mas eu posso te falar que a profissão de professora não é a profissão dos meus sonhos. Eu me formei professora mesmo por falta de opção, eu não tenho opção, então eu vou ter uma profissão que é professora. E eu já exerci a profissão.

P/1 – E você sabe por que acabou o magistério em 97?

R – Eu não sei muito bem, não. Agora magistério só tem em São Francisco, pra cá não tem mais. Agora é o Ensino Médio, formação geral, que eles falam.

P/1 – Aí a adolescência, como foi a adolescência aqui na cidade Nurievi? Vocês tinham lugar pra sair? Ou ainda era muito difícil, como foi? Você já trabalhava?

R – Já, eu já trabalhava. Na minha adolescência, a maior parte do material de escola quem comprava era eu. Porque minha irmã tinha problema, o dinheiro da família era praticamente pra gastar com ela, em médico e tudo. Eu sempre fui muito independente. Eu sempre gostei de trabalhar, eu sempre gostei de ter o meu dinheiro, sabe? Eu nunca gostei muito de depender de papai, de mamãe... Até hoje, né? Eu não gosto de depender do meu marido. Eu gosto de ter o meu dinheiro, eu gosto de trabalhar e ter a minhas coisas, entendeu?

P/1 – E o que você fazia na adolescência?

R – Eu já trabalhei em casa de família, e eu já trabalhei limpando peixe em frigorífico, já limpei muito peixe em frigorífico, muita peruá e muito camarão. E quando eu não trabalhava no frigorífico, trabalhava em casa de família… E também nunca me envergonhei de falar que eu já trabalhei em casa de família, nunca. Hoje eu posso ter uma profissão porque trabalhei nas casas de família e limpando peixe.

P/1 – E Nurievi, você falou do seu marido. Agora, eu queria saber como você conheceu o marido.

R – Ah, ele, Neném, ele é uma pessoa muito especial pra mim. Teve um período na minha vida que eu passei por uma dificuldade muito grande, mas Deus colocou ele no meu caminho para mostrar que nem tudo o que acontece na vida da gente acontece por acaso, sempre tem a permissão de Deus. Ele sempre foi muito amigo do meu irmão, muito. Ele sempre fazia muito barquinho, eles dois, então eles ficavam lá. Mas eu sempre fui muito amiga dele, eu nunca tive interesse nenhum nele, nem outros interesses a não ser de amizade. Só que ele olhava pra mim com outro interesse, com outros olhos. Aí, uma vez ele chegou assim perto de mim, eu não me lembro mais, ele que refrescou a minha memória... Eu estava passeando assim na rua, aí ele chegou perto de mim e perguntou se eu queria namorar ele, coisa de adolescente. Aí, eu falei assim: “Ai. Ah, vou pensar”. Mas nesse pensar, se passaram dez anos e eu esqueci de dar a resposta. Eu esqueci, nem me lembrava mais disso. Então, ele ficou aguardando. Aí, ele casou, se juntou com uma mulher e teve um filho.

P/1 – Quando você reencontrou ele?

R – Passou, ele teve um bebêzinho, o Mateus, que hoje mora com a gente. Eu passei um período fora, em Marataízes, com minha mãe. Quando um dia, ele começou a ir na igreja, depois ele passou a ser membro, fazer parte da igreja. Aí, um dia ele me chamou pra conversar. Ele foi e falou. Mas eu sempre fui muito fechada pra essas coisas, eu sempre queria pular fora, não gostava de tocar em assunto assim. E um dia ele foi e falou. E eu: “Ahhh”. Ele perguntou o que eu achava da nossa amizade, o que eu via. Eu falei assim: “Ah, eu vejo você como meu amigo, né, Neném, poxa eu tenho você como meu amigo”. Aí, ele falou assim: “Mas eu não quero ser só seu amigo”... Ele foi e falou: “Vou te fazer uma pergunta novamente” “Que pergunta?”. Ele falou: “Poxa, eu quero que você seja minha namorada”. Eu falei: “Vou pensar”. Aí, ele falou assim: “Vou ter que aguardar mais dez anos?” Aí eu falei: “Nãoooo”. Depois, ele sempre estava ali insistindo. Eu tinha uma colega, a Stefani, hoje ela não mora mais na Barra, mas ela falou assim com ele: “Neném, se você não tomar a iniciativa você vai levar mais dez anos aguardando a resposta dela”. Então, ele que praticamente tomou a iniciativa. Nós começamos a namorar. Nós namoramos por um período e depois nós decidimos nos casar, a gente foi no cartório, tudo com a permissão dos nossos pais, colocamos os papéis no cartório para os proclamas, tudo direitinho, e depois teve o nosso casamento.

P/1 – E faz quanto tempo já que vocês estão juntos?

R – Dia 27 de maio fará oito anos que a gente se casou. Graças a Deus, eu posso falar assim que Neném foi um presente de Deus na minha vida, entendeu? Ele é apaixonado pela filha dele, por Ester... a gente tem uma menina de cinco anos, a Ester. É a coisa mais linda do mundo, tá?

P/1 – Como é ser mãe pra você?

R – Ser mãe para mim é muito interessante, porque eu nunca quis ser mãe. Eu sempre achei que se eu fosse mãe um dia, ia morrer na hora do parto [risos]. Eu tinha isso comigo, eu tinha pavor. E eu tenho um problema de ansiedade muito grande. Ter que aguardar uma criança nascer, depois de nove meses, era o fim para mim, era um absurdo. Tanto que, quando eu engravidei, soube que estava grávida já com quatro meses. Foi incrível. Minha irmã fala com minha mãe que Deus deu a filha de acordo com a mãe. Ester foi super calma. Ester recém-nascida nunca acordou de madrugada, eu nunca tive problema com ela de madrugada, porque as pessoas dizem que ser mãe é padecer no paraíso, né? É acordar de madrugada, cuidar de filho, dar mamar. Gente, eu nunca tive problema com a Ester, ela dormia a noite toda. Então, quando eu fiquei sabendo que estava grávida, foi até engraçado porque o médico tinha me mandado fazer uns exames, eu fiz uma porção e não tinha acusado nada. Depois eu fui em um outro médico e apareceu. Ele perguntou por que eu tava fazendo os exames, eu falei só que tinha dado uma infecção. Ele falou assim: “A sua infecção é um bebezinho”. Eu falei: “Ahhhh?”. Aí eu já estava com quatro meses. Eu tinha essa preocupação, tanto é que eu ficava apavorada só em achar que...

P/1 – Pudesse acontecer alguma coisa.

R – É, quando eu fosse ganhar, fazer uma cesárea. Meu Deus, acho que eu morria! Saber que eu ia levar uma injeção, cortar minha barriga... Tanto que a minha opção foi ter normal. E eu não me arrependo de ter tido normal. Então, hoje se você me perguntar se eu quero ter mais filhos, eu vou te responder assim: “Eu, Nurievi, não pretendo mais, a não ser que seja da vontade de Deus”. Não que eu tenha arrependimento de ter tido ela, porque filhos são bençãos de Deus, então graças a Deus que eu tenho minha filha. E minha gravidez foi tranquila, eu nunca tive enjôo, eu nunca senti nada, nunca tive vontade de comer nada. A única coisa que eu tive vontade de comer, já pertinho de ganhar, foi uva. Sempre que passava um carro vendendo uva aqui, meu irmão saia para comprar. Então, eu dou graças a Deus pela minha família.

P/1 – E Nurievi, eu queria falar agora um pouco mais sobre a colônia. Primeiro, eu queria que você explicasse o que é esse espaço, pra quem não conhece. Primeiro, contasse como você conheceu, como você veio parar aqui.

R – Ah, tá. A minha trajetória na pesca foi o seguinte. Apesar de já fazer parte da pesca de outro modo, de ser família de pescador, de ser filha, irmã, esposa, sobrinha... Aqui na Barra uma vez formaram uma Associação dos Pescadores, que hoje está inativa. Então, eles precisavam de uma pessoa pra trabalhar. E citaram meu nome lá, aí o rapaz, que era o presidente, veio me chamar para trabalhar. Eu fui, comecei trabalhando na associação, mas eu sempre fazia serviços pra colônia, a gente tinha essa parceria. Não os dois presidentes, porque os dois presidentes não tinham muita parceria, mas eu até tinha parceria com o presidente da colônia. Aí funcionou por um período e depois parou, por questões de política.

P/1 – Explica pra quem não sabe qual é a diferença, o que a colônia faz e o que a associação fazia?

R – A associação trabalha em prol da comunidade, da localidade, aqui em Barra. E uma colônia trabalha pelo município todo. Por quê? Só pode ter uma colônia no município, não pode ter outra. Associação você pode ter várias, pode formar uma aqui, pode formar uma em Lagoa Feia, pode formar mais do que uma aqui, mas é em prol da comunidade. E a colônia não, a colônia é em prol do município, da parte costeira onde há pescadores e onde a colônia atua.

P/1 – E você falou que a associação está inativa hoje, como foi a trajetória dessa associação aqui de Barra até ela parar de funcionar, como foi isso?

R – Política.

P/1 – Política?

R – Política. A associação começou, mas também se tivesse um pouco de força de vontade de determinadas pessoas...

P/1 – Tinha muita gente envolvida, os pescadores?

R – Tinha uma porção de gente envolvida, mas eu lembro teve uma eleição e o que aconteceu depois? O prefeito mandou cortar o meu pagamento porque eu recebia pela prefeitura, e o presidente da associação não se incomodou de procurar, eu ainda trabalhei três meses de graça pra associação, depois parei.

P/1 – Você definiu de um jeito legal, né? Que a associação trabalha em prol da comunidade. Você percebia, durante o tempo que ela existiu se tinha união, se conseguiu começar algum trabalho?

R – Pouco.

P/1 – Foi muito rápido. Quanto tempo durou a associação?

R – Ai, eu não me lembro, não. Mas não tanto assim...

P/1 – E Nurievi, já estou chegando mais pro final. E sonho pessoal seu, você tem algum sonho?

R – Meu, pessoal? Sei! Um carro [risos]. Eu quero, se Deus quiser, até o final do ano realizar esse sonho.

P/1 – Tá certo. E só pra encerrar, queria perguntar como foi contar um pouco dessa história, como você se sentiu, como foi a entrevista?

R – Foi bem, foi tranquila. É importante, né? Eu acho que é muito gratificante a gente ter uma coisa marcada, falar da família, falar da vida profissional, das dificuldades. Porque às vezes as pessoas que vêm de fora olham assim: “Ah, é tranquilo”, mas nunca pararam pra perguntar como foi sua vida no passado, entende? É importante, eu acho legal a gente às vezes resgatar, parar pra conversar com alguém, contar um pouco da história de vida, porque muitas vezes as pessoas acham que a vida da gente é fácil. Mas não é, nós passamos por muitas dificuldades. Eu tive dificuldades na minha vida, o início do meu casamento teve muita dificuldade... quando eu fiz um mês de casada meu pai faleceu. Então, a nossa família ficou muito desestruturada, foi cada um pra um canto. Eu fui pra Cabo Frio, passei uma temporada lá… Mas, graças a Deus hoje nós estamos firmes, unidos, mais do que nunca. Claro que irmão sempre tem diferença. Mas a gente tá um pouco espalhado, um está em Marataízes, outro está em Macaé, mas a gente tem aquela ligação, a gente é muito família, entende? A gente pode estar separado agora, mas se falar: “Olha, precisa vir, tá acontecendo isso”. Vem todo mundo. Os filhos de mamãe, todos, são apaixonados por ela. A nossa mãe também é apaixonada por nós. Então, hoje, como a gente não tem mais o nosso pai, eu falo que a minha mãe é o esteio da família. Eu não gosto nem de pensar de um dia eu perder minha mãe, sabe? Mas, tirando isso, é muito importante, é interessante falar um pouco da vida, da família, da profissão. E eu gosto. É isso que eu gosto de fazer, apesar de ter problemas... Mas eu me sinto realizada, eu me sinto bem fazendo esse serviço. É muito bom quando você ajuda o próximo, e alguém chega pra você e fala: “Caramba, eu consegui aquilo! Obrigado!”. É muito satisfatório. Isso deixa a gente feliz, levanta a auto estima, deixa a gente feliz da vida. Nem sempre você é reconhecido pelo trabalho que faz, mas o pouco que recebe é muito satisfatório.

P/1 – Tá certo, Nurievi. Eu queria te agradecer, obrigado!

R – Muito obrigada!

 

FIM DA ENTREVISTA

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