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História

A vida em Movimento

História de: Julio Marcelino
Autor: Mauricio Dias Duarte
Publicado em: 17/04/2019

Sinopse

Nesta entrevista, Júlio César José Marcelino inicia falando sobre suas questões de infância e as relações com seu núcleo familiar durante seus anos iniciais, que se misturam as suas vivências junto ao espaço urbano, cadenciando entre histórias de casa e histórias da rua, além das questões despertadas a partir da observação de mundo dessa sua fase de criança. Na juventude as ações mais marcantes se relacionam ao mundo do trabalho e a Somaterapia, que passou a estudar e se envolver aos 16 anos, introduzindo-se a conceitos que hoje são importantes em seu trabalho. Ao sair da Somaterapia, há uma explanação sobre o início do envolvimento junto ao Movimento Cultural Penha e as atividades mais voltadas a cultura, tal como a palavra sugere, caminhando e se modificando para as atuais características que o Movimento assume hoje junto a comunidade, no bairro da Penha de França.

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História completa

Me chamo Júlio César José Marcelino, nasci no dia 17/02/1964; no interior de São Paulo, na cidade de Tanabi. Mas é uma nascida meio rapidinha porque a minha família morava em Fernandópolis, a minha mãe estava grávida e foi querer ter o filho junto da família dela, que não é em Tanabi, mas em uma cidade próxima. Então foi lá que eu nasci, depois voltei com poucos dias de vida, de novo, para a casa dos meus avôs que ficava em Fernandópolis.


 Eu conheci mais os meus avós paternos, dos que os da parte da família da minha mãe. Pelo o que a minha avó contou - a minha vó é de Caetité, na Bahia; e o meu bisavô, que eu cheguei a conhecer, tinha um irmão que trabalhava no interior de São Paulo, que veio para trabalhar em uma fazenda como meeiro. E aí lá em Caetité teve uma seca, e a minha avó com a família vieram como retirantes, porque esse irmão avisou ao meu bisavô que aqui estava melhor, então vieram de pau-de-arara, segundo minha avó conta, para essa cidade do interior - que não sei o nome dessa cidade, porque não sei se é Fernandópolis; é aquela região oeste em que tinha plantação de café na época. O meu avô, por outro lado, já tem uma outra história; ele conduzia gado, é mineiro, e nisso ele conhece a minha avó e eles casam na região do interior também de São Paulo. Sempre tiveram uma vida difícil, tiveram oito filhos, e entre esses filhos, o meu pai... O meu avô quando eu conheço ele, ele era um homem forte, se percebia que era um negro com mistura portuguesa, era um negro peludo, um cara forte; só que quando conheço ele, e passo a perceber ele já estava com problemas... teve um derrame. Porque quando ele casa, começa a ter filhos e larga essa vida - não sei se por mudanças no interior, e passa a trabalhar em uma pedreira, quebrando pedra. Aí, ele tem esse derrame e quando conheço ele, ou passo a lembrar dele, já lembro dele na cama, a gente ajudando ele a levantar, essas coisas, não é? E a minha família fica no interior até a década de 69, por aí. E aí tem uma tia que vem trabalhar em uma empresa aqui que era a Rhodia, em Santo André; depois ela traz a família aos poucos. Em um primeiro momento nós moramos na casa de um parente na Água Rasa, na Zona Leste, depois conseguimos alugar uma casa no Jardim Dona Sinhá, que é mais no fundão da Zona Leste


 Essa tia é a Tia Júlia, que é quem me ensina a ler a escrever, antes de eu entrar na escola; tem um papel fundamental, foi quem deu o carinho de mãe, e lembro do cheiro dela, porque ela chegava do serviço e me abraçava. Nunca assumiu o papel de mãe, mas sempre foi a mulher que representou a minha mãe. Apesar de que tinha a minha avó, mas era mais seca - a minha vó era aquelas baianas assim que te dava comida, banho e botava para dormir, e acabou. A minha tia já era a que contava história, trabalhava na Rhodia, lembro que ela trazia aqueles negocinhos de mel, para mim e a minha prima.


 Lembro de duas coisas marcantes que me levaram para esse mundo da leitura, que depois vai me levar para uma questão mais militante, política, não é? Na parte de trás da Vila Diva tinham uns canos da Petrobras que passavam ali atrás da casa, lembro que um dia... acordava cedo, acordei, abri o portão e fiquei sentado na calçada que estava para os fundos da casa, e vi um monte de caixa jogadas lá. Fiquei olhando, desci e comecei a abrir as caixas, acho que umas famílias que tinham mais posse, no final do ano, fizeram uma limpeza nas casas e jogaram as coisas fora, e eu comecei a mexer e achei um monte de livros e gibis, não é? Aí peguei esses livros e gibis para a minha casa, um monte. Porque olha onde veio a questão do meu pai - você perguntou do meu pai, mesmo sendo analfabeto, quando era pequeno íamos na banca de jornal, e ele comprava um gibi para mim, aprendi a ler, lendo gibi da Mônica, do Tio Patinhas; e quando vi esse pessoal que jogou fora as caixas, levei tudo para a minha casa, e coloquei embaixo da cama um monte de livros para eu ler, então comecei a ler gibi, tinham algumas revistas que falavam sobre coisas místicas, não lembro se era planeta; umas revistas americanas, seleção não sei do que e eu comecei a guardar aquilo e ler. Então sempre tive facilidade na área de humanas: português, redação, agora quando ia para exatas era terrível, na escola, não é?


Outro marco na minha formação foi quando conheci um amigo chamado Cascão, e eu tinha de 16 para 17 anos, era um cara que já militava no ABC Paulista, tinha família no ABC, então ele estava em contato com a formação da CUT, foi uma ação do PT na época, e ele trazia essas informações para a gente. Trazia outro tipo de música, ele era um pouco mais velho e começou a trazer informações ligadas a política, e a discutir questões da ditadura, estava no finzinho, e esse cara trazia informações para a gente, tanto de música, de MPB, de acampar, e aí já vai para uma outra experiência de vida, em que começa a sair de casa, viajar, fazer outras loucuras.


Olha, teve uma vez que eu, que maluco, eu arrumei uma namorada, e deu uma pirada na cabeça dela, sei lá, e eu arrumei, e a gente estava naquela coisa de que queria buscar coisa alternativa, e eu lembro que eu entrei em um lugar, não sei onde foi, que eu vi lá: somaterapia. E tinha o endereço. E era um endereço que era aqui no Brás, eu falei “vou lá”, fui lá ver o que era, e cheguei lá, era um núcleo anarquista, de um cara chamado Jaime Cubero, era ele e um outro anarquista, um desses caras eles eram espanhóis, e um deles foi contemporâneo da guerra espanhola que teve lá, eles já eram bem velhinhos na época que eu conheci eles, e entrei nessa questão do anarquismo, não é. Nossa, então eu fui ler Proudhon, fui ler os caras anarquistas, e conheci o pessoal da somaterapia. Só que quando eu conheci o pessoal da somaterapia, já era uma dissidência da somaterapia; não sei se você conhece a somaterapia do Roberto Freire, que escreveu aquele livro Sem Tesão Não Há Solução, e ele desenvolveu um método de terapia muito interessante, e eu achei que poderia ajudar essa minha namorada, e a gente vai fazer somaterapia, os dois, só que chega lá, eu fico e ela sai. E eu começo a fazer a somaterapia, só que é desse grupo dissidente do grupo, com a ideia anarquista muito ligada ao cooperativismo e também que trazia a questão da capoeira, que vinha a partir da pesquisa sobre o Reich, porque achava que as neuroses ficam na sua couraça, então tinha uma questão muito forte com o corpo.


Quando eu começo a conhecer, que eu vou conhecer essa turma, entra um outro cara que acha que a capoeira é necessária e ele traz um mestre de capoeira, que é um cara chamado Almir das Areias que é engraçado, nesse período eu já estava fazendo capoeira com outro amigo que era o Marcos, fazendo assim, eu gostava de capoeira, e ele traz esse mestre que é o Almir das Areias, um cara conceituado na capoeira baiana, que lutou com Suassuna, e que estava transitando nessa coisa corporal da psicologia também, e ele traz esse cara para ser o nosso mestre de capoeira. Com ele eu fico quase dois anos fazendo capoeira; ele tinha uma questão de capoeira de Angola, tinha toda uma questão muito legal na época, e eu me identifiquei bastante, tanto com o anarquismo da época, que então eu passei a também me orientar mais sobre essa questão anarquista, me identifiquei, e também com a parte da terapia, tanto que depois eu vou trabalhar com esse Décio, ele monta um espaço lá na Vila Mariana e eu vou trabalhar com ele, eles montam toda uma questão de autossustentabilidade, naquela época nem se falava em autossustentabilidade, não é? Mas ele traz uma agenda que a gente produzia, para vender, para ganhar dinheiro, e depois o espaço era autogerido; tinha toda uma questão que deu certo, essa parte que se estruturou melhor o grupo, a gente conseguiu ganhar um espaço para praticar no Sesc do Carmo, ali no centro. Até ali estava bem, quando a gente passou a autogerir, aí começaram os conflitos, e eu percebi uma coisa muito interessante: eu percebi que era uma terapia, mas era uma terapia para quem tinha condição. A terapia era uma coisa para os filhos de uma classe média alta, tinha um conceito legal, mas eu percebi uma questão étnica; eu, como negro, de origem pobre e querendo dar uma de classe média, e eu fui percebendo que eu não tinha condições financeiras, eu tinha que trabalhar.


Porque quando foi de fato para ir para o que é, o que a gente faz, por exemplo, o que a comunidade negra faz, tem os seus paus, tem as suas brigas, mas está ali trabalhando junto; eu percebi que quando foi para trabalhar o cooperativo mesmo entre um pessoal que têm outros valores, classe média, que então é trabalhar mesmo, não é só na teoria; você sai da teoria e vai para a prática, porque se eu não limpar o chão, se eu não fizer comida, se eu não for conseguir dinheiro para bancar o espaço, não rola. Eu não vou ter um pai que vai me mandar uma grana para me financiar. Eu não tenho quem me banque. Que é diferente quando você percebe que você tem pessoas que tem, mesmo que eu não trabalhe, mas eu tenho quem me banque, eu tenho uma outra tranquilidade. Eu não tenho quem me banque. Se eu caio doente, ou se eu vou preso, ou se acontece alguma coisa, sou eu por mim mesmo. Então eu não posso me dar o luxo de me aventurar com alguém que não entra de cabeça, porque eu sempre fico meio, “mas eu nunca fiz isso”, “não, eu não vou fazer isso”, ou então vem com todo um discurso teórico, só que na hora da prática, não vai. E você começa a perceber, coisas que eu só vim amadurecendo com o tempo, mas você percebe que você tem uma coisa, que não é oba oba, eu não vou sair da minha casa para morar em um espaço que depois se eu perco esse espaço eu vou voltar para onde? Eu não tenho para onde voltar, eu não tenho um pai que fale assim: “olha, eu tenho um apartamento livre, fica lá”, não é? E você começa a perceber, “eu não posso me dar o luxo de querer fazer um trabalho terapêutico que é maravilhoso, mas é para quem tem, porque de onde eu venho, meu povo está lá embaixo, morrendo no tráfico, morrendo de trabalhar, como meu avô que se estourou em uma pedreira, então eu acho que a condição é outra. Aí você percebe nitidamente a origem, de onde você é, tanto que o cara que era o meu terapeuta, a gente teve uma conversa, a casa que ele comprou, por exemplo, a família dele que era, olha que (maluco) [01:24:00], a família dele que era da região leste de São Paulo, que tinha fazenda de café, a mãe dele catou uma grana, deu para ele comprar uma casa à vista, ali do lado do museu Lasar Segall, quer dizer, puta de uma casa. Eu falei, “cara, talvez o meu bisavô trabalhou para o seu bisavô de meeiro lá na terra dele, ele nunca conseguiu comprar uma terra”, então é outra, “não, mas não é”, é, cara. Eu não posso me dar o luxo de viajar porque senão eu não vou sair disso, eu vou pirar nisso, porque muitos caras piram, acha que ele pode se dar ao luxo de viver, só que aí ele se esquece, e eu vi muito cara que entrou, achou maravilhoso, só que não banca, por que não banca? Porque não tem condição financeira, nem psicológica, nem social para bancar. Então a terapia é ótima, mas para quem está nessa classe social, quem não está tem que arrumar uma outra forma de ajudar, aí eu concordo, tem a capoeira, beleza, é uma coisa que dá para fazer; tem que pensar na sustentabilidade do indivíduo para poder tirar ele da sua neurose, senão você não tira.


Esse momento que eu estou falando da somaterapia, eu levo um amigo meu que é um percursionista, o apelido dele é Passarinho, e que esse Passarinho namora a irmã da minha primeira companheira, e ele é músico, percursionista, e o Passarinho toca em uma banda chamada Lua de Neon. Essa banda chamada Lua de Neon é de um companheiro nosso chamado Carlos Coelho, e o Carlos Coelho é um dos fundadores do Movimento Cultural Penha, então eu andando com o Passarinho, conheço o Carlos Coelho e eu começo a frequentar aqui a Penha também. E é o momento que eu estou nessa de estar discutindo a questão política, não partidária, mas toda essa discussão sobre o constructo social, e eu tenho um projeto nesse momento já, com relação a montar uma empresa de ecoturismo; a gente vem daquela época, 92, uma discussão sobre a questão ambiental, meio ambiente, todo esse momento da década de 90, e eu entro em contato com o Coelho que tem o Movimento Cultural Penha, só que nesse momento, o Movimento Cultural Penha está muito mais na mão desse Coelho, porque o Movimento Cultural Penha é da década de 85, tem um momento que ele surge com vários artista aqui da região, produtores de cultura, reivindicando esse espaço aqui, que hoje é um centro cultural, que era uma casa de cultura, que estava sem verba, estava precária, então eles começam a querer intervir na programação, participar mais desse centro cultural que era uma casa de cultura, biblioteca...


Em 2000, quando a igreja do Rosário é fechada, a Comunidade do Rosário procura o Movimento Cultural Penha, e aí que eu me dou conta da igreja do Rosário, ela estava abandonada, aí que eu olho para a igreja do Rosário. O Movimento Cultural Penha faz uma campanha para atrair o olhar da comunidade com relação a esse patrimônio, e a gente começa a fazer um trabalho mais ligado na questão patrimonial. Mas quem traz isso para o Movimento Cultural Penha sou eu. O Coelho, infelizmente, em 2003 falece, novo, ele tinha um problema de asma e apneia, ele era meio gordinho, teve uma crise de asma e a bombinha não funcionou, tinha acabado de ter uma inalação, foi para casa e caiu sem ar, até chegar a ambulância ele faleceu, o Coelho. Então a gente dá um tempo de dois anos, ele falece em 2003, já no Movimento Cultural Penha; o Movimento Cultural Penha já tinha virado uma ONG em 2002, porque, outra questão política: quando a Marta entra no governo, para fazer parceria com a secretaria você tinha que ser uma instituição, e o Movimento Cultural Penha tinha que criar uma diretoria, se restituir como uma ONG. A gente vira uma ONG em 2002, em 2003 o Carlos falece, e em 2005 a gente resolve trazer de novo o Movimento Cultural Penha, e quando a gente traz de novo o Movimento Cultural Penha, eu passo a ser o diretor do Movimento Cultural Penha, e o Movimento já ganha um outro formato, já estou na Universidade, então já ganha uma coisa mais de educação, porque vem a Patrícia que é educadora, que é historiadora; vem o Edison; aquela parte que era mais musical, que o Coelho corria mais na frente deixa um pouco para trás e vem mais ser agora uma coisa mais ligada à educação. Daí a gente passa a atuar mais efetivamente com a igreja do Rosário, além da igreja do Rosário a gente passa a fazer trabalhos ligados à questão da negritude, e aí...


Em 2009 e 2010 a gente andou fazendo algumas coisas, depois pra aprofundar as pesquisas a gente pega um projeto do VAI, que era para trabalhar atuando com essa questão da juventude, da festa do rosário, e então vem o nosso primeiro material que a gente publica, em 2011, que é sobre uma experiência que a gente fez com a igreja e com umas escolas da região, a gente registra isso e transforma em um livro. Em 2011 a gente assume a festa do rosário, até então tinha uma participação muito forte desse prédio aqui (CENTRO CULTURAL DA PENHA), que era a casa de cultura, esse prédio é fechado para fazer uma reforma, o pessoal que está aqui não quer mais tocar, brigam entre eles, e a gente se organiza enquanto comunidade do rosário, e passa a organizar a festa.


Pra essa composição vinha várias pessoas, por exemplo, o Carlos Casemiro, o avô dele foi zelador da igreja e foi da Irmandade de São Benedito, que foi a última irmandade que teve na igreja, tem toda uma relação com São Benedito e com o passado da igreja, ele é da família direta dessa irmandade, tem ele e o irmão dele. O Carlos foi rei da nossa festa, ele e a Celma, que é mulher dele. O seu Moreli por outro lado, é um descendente de italiano, branco, aqui da Penha, que nasceu aqui no Lago do Rosário, a família dele tinha casa aqui, então ele vivia brincando aqui na igreja, ele entra no seminário, se torna padre, vai para aparecida, roda algumas cidades do interior, se apaixona, casa, larga a batina, e volta para a Penha, e é psicólogo. Todos moradores da região da Penha.


Nós pensamos isso, primeiro que a gente não daria conta de fazer tudo sozinho, e foram demandas que foram surgindo, a gente partiu muito de um texto que tem uma fala do Teixeira Coelho, e ele coloca isso, que uma ação cultural que tem começo, meio e fim, você sabe como ela começa, mas você não sabe como ela termina, e o que a gente tem em mente é isso, que a gente faz uma ação cultural, a gente pensa um projeto, e vamos fazer o projeto, mas ao longo do projeto, ele vai se abrindo, ele vai surgindo outras oportunidades, que você vai buscando recursos para poder fazer, e vai se somando, até você terminar aquele projeto, quando a gente criou o seminário sobre a memória da região, a gente não sabia que ia surgir o Ururay, e surgiu, quando começamos a participar da comissão da festa do rosário, a gente não sabia que depois ia ter a celebração, ia ter o samba, o cordão, e um belo dia a gente começou a discutir como atrair as pessoas no carnaval, e daí saiu a ideia do cordão, e você não fazia ideia que ia fazer parte do cordão, ou seja, do Ururay, já está no cordão, daqui a pouco você está na irmandade do rosário, a gente não sabe. Desde o início, isso talvez venha da somaterapia, que é uma coisa que diz que sem tesão não há solução, eu faço as coisas para ter prazer, mas é claro que não tem só prazer, tem trabalho, dor de cabeça, quem trabalha na produção, não vê a hora de acabar logo e ver que deu tudo certo, mas o prazer depois de ver que você fez tudo aqui, e também tem os seus problemas de crise, as vezes é preciso reformular o projeto, ver se as pessoas estão na mesma sintonia, rever-se.


Eu acho que talvez pela minha infância, eu tive uma vida sem muitas normas e regras, é pensado, é calculado, mas é flexível, se precisar mudar, muda, se precisar acabar e começar, a gente faz, talvez isso seja da minha infância, eu fui livre, tive essa liberdade, por mais que depois foi doido, pela ausência de mãe, de dinheiro, mas eu sempre me cerquei de pessoas carinhosas, sempre tive poucos amigos, e amigos que eu trago até hoje, uns a gente brigou, mas se gosta mesmo não conversando, minha família, por mais que tenha brigas, dificuldades, a gente se gosta, e uma coisa muito boa que eu aprendi, foi a perdoar, como eu fico bravo, brigo, mas depois eu perdôo, mas se precisar brigar, eu não tenho problemas, mas depois a gente se perdoa, eu perdôo, eu não falo mais, mas eu perdôo e a minha vida segue.


Eu vejo uma coisa interessante, eu percebo que muitas das pessoas da comunidade do rosário, que fazem parte e se dedicam, é porque precisava de alguma coisa para fazer na vida, de estar participando de algo, principalmente o povo negro, hoje a nossa comunidade é muito negra, não só o negro, mas o simpatizante da causa negra, também tem os brancos que se identificam, não é um grupo fechado só de negros, apesar de a maioria ser negra, tem negros casados com brancos, é o brasileiro, ele tem essa oportunidade de ser protagonista se ele quiser, e eu acho que isso é o melhor, quando a pessoa se sente protagonista do que ela está fazendo, eu acho que o Movimento Cultural Penha proporciona que quem queira ser protagonista pode ser, participar, uma das melhores coisas que eu vejo é isso, não é nem querer salvar vida, melhorar a cabeça, tanto que esses dias me ligaram me perguntando se a gente trabalhava com idoso, com criança, e nós não somos, mas no nosso grupo nós temos idosos, temos crianças, mas não somos uma ONG assistencialista, nós somos uma ONG que a pessoa vem para poder trabalhar os seus demônios e ser feliz, eu acho que essa é a ideia.


Tem um cara muito maluco no nosso grupo, que é o Robson, o Robson é um senhor de 60 anos, fala pouco, tem quase 1,90m, e e aqui ele se encontrou, ele fala que ele é um cara que faz abayomi, que são umas bonecas negras feitas de tecido, conta que quando as crianças estavam no navio negreiro, para elas não chorarem, e para não serem jogadas no mar, as mães rasgavam os vestidos e faziam para elas brincar, e você compra para dar de presente, e ele produz isso, e com isso ele foi fazer abayomi no SESC, coisa que ele nunca imaginou, depois que ele foi rei da festa do rosário, ele foi rei de Divinópolis em Minas Gerais, ele foi lá, e o pessoal olhou para ele e viu que ele tinha alguma coisa, e ele é todo místico, ele é um cara que quando chega na igreja, ele coloca a bata dele, os colares, e é uma figura que todo mundo fica olhando, que tem uma presença, e ele fala que quando ele chega na igreja, ele entra descalço porque ele sente e energia do chão, ele tem umas conversas muito malucas, e hoje ele é um cara que ganhou uma outra vida aqui dentro do rosário, ele é respeitado, ele é um representante nosso em outras irmandades, coisa que ele nunca imaginou, hoje ele é esse cara, ele aprendeu a fazer abayomi, ele leva a barraquinha dele, e é aquele homem enorme fazendo bonequinha, e não tem linha, é só através de nós que ele vai construindo.


Isso é uma coisa, tem várias histórias, essas mulheres que são as pastoras do rosário ensaiam aqui, foram mulheres que nunca imaginavam pisar em um palco, elas cantaram no SESC Paulista, são avós, que hoje criam os netos, já criaram os filhos, e depois de idosas começaram a cantar, e hoje estão se apresentando em palcos que elas nunca imaginaram, olha o que é a vida dessas mulheres, que maluco, e foi através da irmandade, e todas são devotas de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, frequentam terreno de candomblé, são jogadores de búzios, e misturam tudo isso, curtem samba, funk, tudo o que colocar.


Eu acho que isso também é o movimento, o movimento da vida, que é esse processo de estar aprendendo, conhecendo e vivendo, se você parar, você morre. Essas mulheres, essas pessoas perceberam que elas podem estar em movimento, e ganharam vida, acho que esse é o sentido. A gente pode fazer essa leitura do Movimento Cultural Penha, que lá atrás era um movimento reivindicatório, e que ainda continua tendo essa função, mas se a gente for olhar de uma outra forma, é esse movimento, você só vai parar quando deixar de respirar, eu acho que é isso.

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