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História

A vida em cores

História de: Zélia Ramos de Stefano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/07/2020

Sinopse

Nos anos 30, Zelia enfrenta dificuldades para conseguir o direito de estudar, sendo sempre questionada: “Para quê estudar? Vai casar mesmo”. Tais impedimentos são vencidos com a insistência e o desejo de Zelia pelos estudos. Aos 20 anos, Zelia casa-se com seu vizinho Ítalo e tem três filhas: Suzana, Cristina e Maria Lúcia. Após o falecimento do marido, Zelia volta para os estudos e viaja o mundo.

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História completa

Papai era juiz de Direito, eu nasci em São Roque, que foi a última cidade onde ele foi juiz de Direito. Depois, como meus irmãos precisavam entrar para faculdade, mudamos para São Paulo. Papai era meio bravo, se fizesse uma malcriaçãozinha podia saber que ele... Eu lembro uma vez que ele me deu uma bengalada na perna, ele andava de bengala, não porque precisasse, mas era pose.

Mamãe era descendente de espanhóis, era Perez, né? Era meio brava, até quando eles tinham alguma briga e coisa, que eu era criança, eu lembro de papai dizendo: “Espanhola brava”. Ela era tipo de espanhola brava mesmo.

Tinha um irmão chamado Isaque, que queria muito vir para São Paulo, queria, queria mas coitado, Isaque veio para São Paulo e eu não me lembro dele porque eu era muito criança quando ele morreu, mas aí tinha o Paulo, Heitor, Luís, Flávio, Mariazinha, Edith... Era uma família bem grande.

Paulo era meu irmão predileto porque meu irmão, Flávio, tinha tido ataques quando era criança pequena e ficou meio deficiente, então não me punham na escola porque eu era dois anos mais nova, mas eu era muito mais esperta que ele por conta desse problema, então não me punham na escola para eu não aprender para não passar o Flávio. Mas aí meu irmão Paulo me punha no colo, sentava assim na mesa e lia as historinhas para mim e eu fui aprendendo a ler com ele, eu amava demais esse irmão, nossa, era um amor.

Eu fui para escola bem tarde, eu já tinha 10 anos quando entrei para o externato São José, mas eu era a primeira da classe, porque Paulo, esse irmão querido, tinha me ensinado a ler e a escrever, então quando tinha qualquer coisa no primeiro ano me chamavam para ir para o segundo ensinar as meninas do segundo ano as coisas que eu sabia, por causa desse Paulo meu irmão.

Depois, eu queria continuar estudando, mas aí diziam: “Para quê estudar? Vai casar mesmo”. Mas eu insisti, insisti e entrei no Liceu Pasteur, entrei em primeiro lugar. Cheguei em casa e contei: “Entrei na escola em primeiro lugar”. “Ah, que bom”. Não fizeram festa nenhuma. Aí papai foi fazer matrícula, quando chegou lá disseram: “Não, ela entrou em primeiro lugar o senhor não paga matrícula”. Aí papai veio para casa e teve festa, guaraná. E isso me magoou muito. Quer dizer, pelo meu entender, eu entrei em primeiro lugar, eu merecia tudo aquilo, mas não, só depois quando não pagou, aí teve festa, isso me magoou muito, muito mesmo, o resto da vida.

Eu gostava de estudar, eu lembro que eu ficava andando pelo quintal da minha casa estudando em voz alta, com livro, lendo, lendo, lendo... A única matéria que eu chorava era matemática, porque matemática, depois de bem mais velha, eu vi que matemática não era o bicho de sete cabeças, mas no primário, para mim, era, era um bicho de sete cabeças, eu ia mal em matemática. Eu lembro de uma vez eu chorando no Pasteur, e o diretor que era um francês, falava: “Ô, coitadinha, tão bonitinha, não chora, mas vai casar mesmo, não precisa matemática”.

Eu lembro também de pular corda, com a amiguinha Ofélia, na rua Baltazar Lisboa, a gente pulava corda, era uma maravilha. Aliás, eu entrei na escola porque essa amiguinha - que era vizinha ali, que meu irmão namorava a irmã mais velha - entrou na escola, eu a vi passar de uniforme e eu falei: “Eu quero ir para escola, eu quero ir para escola”. Aí eu entrei na escola, ela era mais nova que eu, porque me seguravam, mas eu entrei na escola já sabendo ler, escrever.

Meu marido era oito anos mais velho que eu, eu tinha 16, ele tinha 24, né? Só namorava assim de brincadeira, para cá, para lá, ele não ligava muito para mim e eu ficava toda [chateada]. Aí eu comecei a namorar um primo, que era apaixonadíssimo por mim, a mãe dele, irmã de mamãe, falou: “A Zelia está namorando o Luís? Se ela está brincando com ele, ela mata ele, porque ele é apaixonado por ela”. Mas não matei, não. Eu namorava para provocar o que foi meu marido depois, o Ítalo.

Quando eu comecei namorar meu primo, ele me viu saindo de braços dado com o primo e coisa e tal, aí ele se apresentou. Aí o Ítalo se formou em medicina, então foi lá em casa e falou: “Eu gosto da Zelia, a senhora já sabe”. Aí então oficializamos um namoro. Mas esse namoro durou bastante tempo, até mamãe dizer: “Olha, acho que está na hora de vocês se casarem”. “Ah, mas eu não posso porque eu tenho pai, tenho mãe”. “Não, vocês casam e vêm morar aqui”, porque os chamegos estavam ficando um pouco perigosos, aí nos casamos e ficamos morando na casa de mamãe papai.

[Nós tivemos três filhas] a Cristina, Suzana e Maria Lúcia. Cristina era a mais velha e era muito quieta, ficava muito sozinha. Suzana era uma espoleta, engraçadinha, muito engraçada, deitava na cama, gordinha, batia na barriga, assim, eu chegava lá para tirá-la da cama, ela estava sempre rindo. Depois veio a Maria Lúcia, que foi boazinha também, foi muito bom.

O Ítalo, meu marido, era sócio do Rotary Club, lá tinha um casal que nós conhecíamos, que era o Maximiliano Ferber e a mulher dele, a Catarina, a gente até sentava junto na mesa. Aí meu marido morreu e a Catarina morreu, aí juntamos os trapinhos. Mas não moramos juntos, nós viajávamos muito juntos, com ele eu fui para a França, eu fui para Grécia, eu fui para o Egito, Maximiliano foi um ótimo companheiro, ele era dez anos mais velhos que eu, mas as viagens maravilhosas que eu fiz foram com ele.

Eu fui para a Grécia, porque eu já tinha lido coisas da Grécia, das Termópilas, Cavalo de Troia, aquelas coisas maravilhosas, então eu fui conhecer esses lugares. Me impressionou a Grécia, quando eu vi as Termópilas, aquela coisa antiquíssima, contavam aquelas histórias de gigantes, essas coisas, a Grécia era maravilhosa. Eu fui para França, conheci bem Paris, o interior da França.

Estudei na USP, mas isso depois de viúva. Era Universidade Aberta para Terceira Idade, então era muito bom porque não precisava fazer lição nem nada. Tinha gente que tomava nota de tudo, eu batia no peito e dizia assim: “O que entrar aqui e aqui é o que me basta. Não vou ser professora, nem nada, eu vim aqui para ver as aulas, assistir as aulas, ouvir as aulas, mas não vou fazer nada com isso”. E foi muito bom fiz vários cursos na USP.

O que eu gostei na minha vida foi ter ido para o Egito, até hoje eu lembro, aquela coisa, aquele areal imenso, o Rio Nilo, eu andei de barco no Rio Nilo. Maravilhoso, fomos desde onde ele deságua, então nós subimos o Nilo, fomos até às Pirâmides, desci a Esfinge, que diziam que ela falava: “Decifra-me ou eu te comerei”, era uma imagem, parecia um bicho, com as patas enormes, assim, era um monumento grande, antiquíssimo, a cabeça parecia a cabeça de um cachorro, porque tinha um narigão para frente, umas orelhas, era a Esfinge aquilo ali, imenso, imenso.

Meu pai recitava um verso assim: “Quem passou pela vida em branca nuvem e em plácido repouso adormeceu, quem não sentiu o frio da desgraça, quem passou pela vida e não sofreu, foi espectro de homem, e não homem, só passou pela vida, não viveu”. E é uma verdade, a vida a gente tem que passar por tudo para dizer que viveu.

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