Busca avançada



Criar

História

"A vida é um entrelaçamento de circunstâncias"

História de: Nilton Freixinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2005

Sinopse

O Coronel Nilton Freixinho nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de março de 1920. Quando era adolescente, dava aulas ao filho de Eurico Gaspar Dutra. A partir desse contato com o General, se interessou pela vida militar e escolheu ser soldado. Entrou para a Escola Militar, com grande êxito. Com 27 anos, ainda capitão, já era professor de muitos majores. Foi aluno de Castelo Branco. Teve uma relação bastante próxima com Ernesto Geisel, que lhe apresentou outras figuras do Exército Brasileiro. Costa Cavalcanti, apresentado por Geisel, tornou-se amigo de Freixinho e foi a partir daí que Cavalcanti convidou Freixinho para trabalhar em Itaipu. Desde a construção da Usina, Frexinho esteve por dentro de quase todos os processos que aconteciam lá dentro. Após o fim da ditadura, Nilton Freixinho é o único militar que ainda trabalha na Usina. 

Tags

História completa

P/1 - Coronel Freixinho, eu vou pedir pro senhor falar o nome completo do senhor, o local e a data de nascimento.

 

R - Local?

 

P/1 – E data de nascimento. 

 

R - Bom. Eu sou carioca. Nasci no subúrbio de Ramos. Meu pai é filho de português e brasileira. Minha mãe, filha de italianos. Quando eu nasci, o Brasil estava naquela Revolução dos Tenentes, mas na minha casa, o meu pai nunca foi, não olhava para política. Nunca se falou em política na minha casa. Meu pai, logo depois da Revolução de 30, faleceu jovem. A minha mãe, filha de italianos rigorosos, passam uma carta: “Filha minha, viúva, não fica sozinha.”  Deu ordem ao meu tio, médico em Manhattan, para mandar 10 mil dólares e num navio de primeira classe, de segunda classe, embarcamos para Nova York. Minha mãe viúva, moça bonita, italiana e meu irmão mais velho. A nossa entrada em Nova York, em Manhattan, naquela época, era rigorosa como é hoje, nós fomos escrutinados pelo departamento de imigração. E o meu tio, médico em Manhattan, brasileiro, médico em Manhattan, assumiu o compromisso de nos apoiar em Manhattan. Depois de dois anos, três anos, a minha mãe ficou horrorizada com a vida da meninada no Central Park. Nós morávamos na rua 116. Eu já estava na gang. Já estava na gang. O chapéu todo cortado, moedas... A minha mãe disse: “Vou criar meus filhos no Brasil.”

 

P/2- Que idade o senhor tinha?

 

R - E comunicou ao meu avô. O meu avô deu um puxão de orelhas nela. Ela já tinha trinta e tantos anos. O meu tio financiou a volta, e chegamos aqui no Brasil. Eu devia ter uns dez a onze anos. Minha mãe, naquela época não havia aposentadoria não havia nada disso. A única coisa que ela tinha era um dinheiro que o meu tio e o meu avô mandaram da Europa e dos Estados Unidos. A primeira preocupação dela foi eu fazer o exame de admissão para o ginásio dos Maristas, Externato São José, na rua Barão de Mesquita. E ela, para nos sustentar, ficou sendo costureira. Fiz o ginásio. A cabeça é boa. Fui um dos primeiros de todo curso. No quarto ano – eu não completei o ginásio – eu já tinha amizade com a família do General Eurico Gaspar Dutra, que era Ministro da Guerra. E eu era professor do filho dele, meu colega de ginásio. O General Dutra me perguntou uma vez, num almoço: “Oh Freixinho, o que você vai fazer na vida?” Eu disse: “Eu quero ser militar.” Aí a Dona Santinha, que era a esposa do General Dutra, falou: “Oh Freixinho, faz um curso, e nós botamos você no Banco do Brasil.” Eu disse: “Não. Eu quero ser soldado.” 

 

P/1- Por que o senhor queria ser soldado? O que o atraia?

 

R - Eu vou dizer a você. Eu, quando ia àquelas paradas, eu vibrava. Quando eu via aqueles soldados: um, dois, um dois... Aquilo me fervia no sangue. Coisa de garoto. Coisa de garoto. Então, eu fiz o exame de admissão para a Escola Militar do _______ 1200 candidatos, 90 vagas. Fiquei entre os 10 primeiros. Aí, fui fazer a Escola Militar, e no segundo ano, na Artilharia, na Artilharia, olhem isso aqui, era o capitão Ernesto Geisel meu comandante. Capitão Ernesto Geisel. E quando nas escolas de fogo, exercícios, a gente ficava cadete, o Ernesto Geisel, o alemão, mandava um enfermeiro passar com uma bandeja com algodão com glicerina, para botar nos ouvidos. E nós garotos: “Isso é coisa de fresco.” E aqui está. Não só como cadete, como na vida de um oficial de Artilharia, dei 35 mil tiros. É minha herança da profissão. Terminada a Escola Militar Aspirante, eu fui classificado em Curitiba. Eu escolhi. Eu sou um dos primeiros da minha turma. Podia ter servido no 9º RAM, na praça Osvaldo Cruz. Mas eu tinha dois companheiros, amigos, mal colocados na turma que não podiam ir para lá. Então, fomos para Bacacheri, que tinha um quartel de Artilharia. Bacacheri. Aí foi que eu conheci a minha primeira esposa.  Isso nós estamos na década de 1940, 1941.

 

P/1 - Em Curitiba?

 

R - Curitiba.

 

P/1- Por que o senhor escolheu Curitiba?

 

R - Por que eu escolhi Curitiba? Razões da minha mãe. Dinheiro para avião, eu não tinha, e procurei saber se tinha ônibus. Antigamente era uma estrada velha, lá pela Ribeira e uma jardineira que sacolejava. Então, eu digo: ”Eu vou para lá e se minha mãe precisar, eu pego um ônibus e venho para cá, apóia-la.” Então, dei a razão para você, porque eu escolhi Curitiba. Em Curitiba, conheci Maria de Lourdes Correia, Gomes Correia, tivemos um namorico, e em Curitiba aconteceu o seguinte: eu era tenente, com 24 anos de idade. O Ministro da Guerra abriu um concurso vago para a escolha de Comando do Estado Maior do Exército. Éramos eu e o Virgílio Távora. Ouviram falar em Virgílio Távora? O Távora serviu no CPOR, e eu no Bacacheri. Me inscrevi no concurso, mas também no concurso para a Escola Técnica do Exército, Instituto Militar de Engenharia. Fiz os dois concursos. Na hora de eu ser aprovado pelo Estado Maior na inscrição para a escola do Estado Maior, o chefe do Estado Maior vetou a minha candidatura. Por que? Porque faltavam dois meses de arregimentação. Dois meses. Aí, eu ainda era casado com a Lourdes. A Lourdes olhou para mim e viu a minha aflição. Ela passou um telegrama para o Ministro da Guerra, General Dutra, e não me disse nada. Um dia, eu estava no Bacacheri, telegrama do Quartel General da Quinta Região, que não era lá onde é hoje. Era na rua do Riachuelo: “Venha aqui.”  Eu fui lá. “De ordem do Ministro da Guerra, o senhor vai fazer o concurso, e as questões chegam essa semana. Então, o senhor vai se arregimentar para completar o tempo no 9º RAM, lá na praça Osvaldo Cruz. Fiz o concurso. Ele mandou fazer. Passamos eu e o Virgílio Távora.

 

P/1- Como é que o senhor ficou sabendo?

 

R - Agora uma coisa importante na minha vida. Aí que eu conheci o Ney Braga no 9º RAM e no 3º RAM. Ney Braga. Sei que é do Paraná. Ele era do Paraná. Vocês ouviram falar na Revolução de 1993, o circo da Lapa, dos gaúchos que vieram. Ouviram falar? Duas famílias daqui, os Lacerda - ouviram falar dos Lacerda? – e o ______ de Braga. Aquela degola em Curitiba foi violenta. Abriram fogo: Ah Ah.  E as duas famílias ficaram anos sem entender. Ódio de família, porque uma ficou de um lado e outra ficou do outro. Eu cheguei no quartel lá. O Ney pouco falava com Lacerda. Eu tenho um fundo humanitário. Não nego. Eu ficava desolado. Como é que eu ia trabalhar, com as duas famílias se entenderem, e contribui para a pacificação das duas famílias do Paraná. O Ney ficou tão reconhecido, que ficou amigo. O Ciro também. A mulher do Ciro está viva ainda em Curitiba. Aí o Ney… Ficamos amigos. Aí, o Ney foi servir lá em São Paulo, Itu, com a primeira mulher que teve tifo, e ela morreu. E ele com uma filharada, o Ney tem uma filharada do primeiro casamento. No dia do casamento, antes do casamento, falou: ”Oh Freixinho, você vai ser meu padrinho de casamento com a Lúcia(?).’  Então, fui padrinho de casamento também. Aí deixei _____ matriculado na Escola de Comando Estadual do Exército, fui o segundo aluno da turma, fui convidado para ser professor, capitão, com 26 anos de idade. Os meus alunos eram majores, tenente coronéis e coronéis. O Ney Braga e o Costa Cavalcante – estou dizendo isso para vocês verem o que é a vida. A vida é um entrelaçamento de circunstâncias. Eu sempre me deixei levar pela onda. Estou certo? Pela onda da vida. Nunca reagi. Sempre flutuei. O Ney e o Costa Cavalcanti foram meus alunos na Escola de Comando do Estado Maior. Houve uma disputa entre os dois, os dois de alta capacidade. O Ney sofria de hepatite, e tinha uns acessos de dor de cabeça tremendos. Os dois estavam empatados. No dia do exame o Ney, verde, e falou: “Freixinho, eu não vou poder fazer essa prova.” “Você vai fazer a prova.”  Fez a prova, mas não foi bem. Então, o Costa Cavalcanti foi o primeiro, e o Ney Braga o segundo. Eu estou contando para vocês, para vocês jogarem para frente. Então, a minha vida estava girando; Eurico Gaspar Dutra, Costa Cavalcanti, Ney Braga, e aí veio da guerra Humberto Castelo Branco. Humberto Castelo Branco. Tenente Coronel. 

 

P/1 – Posso fazer uma pergunta pro senhor?

 

R - Pois não. 

 

P/1- Como que a dona Lourdes conhecia o coronel Dutra?

 

R – A Lourdes?

 

P/1 – É. para ela ter essa intimidade de mandar um telegrama...

 

R – Eu vou dizer a você.  A Lourdes, até quem não conhece a história vai ouvir, é uma grande esposa que eu tenho. Uma grande esposa. A Lourdes morava Ali na rua Dr. Muricy. Vocês conhecem Curitiba? Não conhecem não?

 

P/1- Um pouquinho. 

 

R - Vocês não conhecem, coisa boa. Dr. Muricy, esquina da rua 15. Vocês são de São Paulo, não é? Tenho grandes amigos em São Paulo da minha geração. Não vou entrar em São Paulo. Ela morava num edifício na esquina da Dr. Muricy. Eu pegava um ônibus para ir pro Bacacheri no almoço, era uma hora da tarde. Já voltando pro quartel. E ela lá de cima, sapecamente me dava adeusinho. Eu caí na ratoeira. Aí, marcamos encontro no clube Curitibano. Ouviram falar no Curitibano? Aí dançávamos, o rostinho colado, essas coisas de garoto.  Então, conheci a Lourdes assim. Ficamos noivos, mas eu não tinha dinheiro para montar casa. Ela ficou com a pulga atrás da orelha: “Um dia esse canalha vai embora, e vai deixar a provinciana aqui.” Mas não. Eu liguei pro General Dutra, e ele me classificou na Portaria de Santa Cruz, que tinha casa. E aí eu fiquei juntando um dinheirinho para comprar os móveis e tudo o mais. Quando tinha tudo isso, passei um telegrama para Lourdes e digo: “Tenho o dinheiro, pode comprar os móveis.” E casamos. Pronto, respondi à sua pergunta?

 

P/1- E ela conhecia o Dutra?

 

R - Se ela conhecia?

 

P/1- O Dutra. para ter mandado um telegrama...

 

R - Ela?

 

P/1- É.

 

R - Então vou contar como é que ela entrou. Na semana que eu casei, eu fui visitar o General Dutra na rua Gustavo Sampaio, e a dona Santinha. E apresentar minha esposa aos meus amigos. E aí então, a Lourdes ficou mantendo relações estreitas com a dona Santinha, que era a esposa. Respondi?

 

P/1- Respondeu.

 

P/2 – E quando o senhor soube que ela mandou o telegrama… O senhor não sabia que ela tinha mandado o telegrama ?

 

R - Não sabia.

 

P/2- E quando o senhor soube, qual foi a sua reação?

 

R – Ah... Uma briga lá em casa. Na rua Riachuelo, nós morávamos num apartamento. “Quem foi...” Porque eu naquela época... Hoje, os homens são diferentes. Vocês são diferentes. Na minha geração, o homem era o dono da casa… A Terezinha fica _____ olhado para mim. Homem era o dono da casa. Eu disse: “Quem foi que autorizou você a passar esse telegrama? Por que eu era um homem independente.” Ela começou a chorar e disse, “Eu não aguentava ver a sua tristeza.” E nos abraçamos. Respondi à sua pergunta? Então, o Castelo Branco entrou na minha vida. Outro personagem entrou na minha vida. Fez-se uma amizade muito sólida, muito firme entre Humberto Castelo Branco e Freixinho. Muito firme. A dona Argentina, ambos já morreram, nós fomos amigos como poucos são. Ele era comandante do Estado Maior e me levou para ser assessor dele. Houve um incidente como o Lott. Um aluno... O Lott… Ele atacou a política do Lott, que era a favor da força ___ Aí, eu já entendia de política. Aí o Lott virou-se para o Castelo, em baixo: “O senhor não comanda a Escola do Estado Maior. Vou lhe transferir para Belém do Pará. E mandou o general para lá. E no dia seguinte ele manda me chamar, o Lott, no gabinete: “Major Freixinho, o senhor vai comandar os cadetes.” Fui para Academia e formei 400 oficiais da Artilharia. A cúpula do exército, hoje quatro estrelas hoje, foi meus cadetes. O _____ comandante do exército e todos de quatro estrelas foram meus cadetes.  E tem por mim o maior apreço possível. Aí vocês vão me perguntar: “Mas por que parou a carreira em coronel e não saiu general?” Eu vou contar para vocês. E quem me botou em Itaipu. O ano de 1964 para esse país foi um desastre. Deus queira que não volte. Deus tinha que abençoar essa geração, iluminar o Lula. Iluminar o Lula. Se o Lula ganhar... Não é pelo Lula não. O Lula… É o grupo que cerca. Naquele entrevero com o João Goulart, nossos companheiros queriam depor o João Goulart. Aí eu falei com o Ernesto Geisel, o _____ que era o Ministro da Guerra e eu digo: ‘Eu já participei de tanta coisa, que eu acho que não é bom para mim depor o João Goulart.” Eu era comandante de uma unidade da Vila Militar, porque o Ministro da Guerra, General _______ me chamou e disse: “Coronel Freixinho, o senhor é um disciplinador. Vai comandar na Vila Militar.” Isso foi antes de 31 de março. Eu fui. E aí, eu conversei com o General Castelo. O General Castelo era um democrata. Contra a intervenção dos militares no poder civil. Sem condição. Eu conversei com ele. Ele era chefe do exército. Um dia o telefone toca: “Dona Lourdes, o Freixinho está aí?” “Tá.” “Eu vou aí a uma hora da tarde.” Eu era comandante na Vila Militar. Tenente coronel. Uns 40 e tantos anos _____ Ele foi lá. Conversou comigo de uma às seis da tarde. Eu digo: “General Castelo, eu não entro nisso. A solução é o “impeachment” do João Goulart. Vamos trabalhar juntos, os congressistas, eu posso dar a minha opinião, o senhor pode dar a sua opinião, e mandamos o João Goulart passear.” E botamos o vice presidente, que deve ser.  Ele disse: “Ah Freixinho,eu quisera fazer isso. Mas seus companheiros não querem.” Eu digo: “Então, eu fico onde estou. Dentro da lei e da ordem, em busca de uma solução legal” No dia 31 de março, o homem lá de Minas Gerais se precipitou, porque não era para fazer ____. O Magalhães Pinto, político, queria ser Presidente da República, jogou os militares naquele negócio todo. Então, o João Goulart, um bom homem, um gentleman, despreparado para o poder, pegou um avião e foi embora. Aí, o Costa, Ministro da Guerra, o comandante da revolução... Não o Costa Cavalcanti, o Raul Costa, botou o Orlando Weinmann de comandante da Vila Militar. O Orlando foi lá e __ primeiro me chamar.____”Freixinho, como é que vão as coisas aqui?” “Já dominei a rebeldia dos pára-quedistas. Está tudo..” “E no seu quartel?” Ninguém pergunta nada. O que o coronel Freixinho vai fazer? Aí o Orlando que era comandante da Primeira Divisão de Infantaria: “Freixinho, você vai ficar aqui.” Quando foi dia dois de abril, um zum zum zum, e o Costa chamou o Orlando Weimann e disse: “Eu vou tirar o Freixinho do grupo de Artilharia do Osório” E o Orlando Weinmann: “Primeiro você me tira e depois tira o Freixinho.” O Costa tirou o Orlando Weinmann, botou na Primeira Região Militar e me tirou, e me exonerou do grupo de Artilharia. E eu passei o comando para um daqueles revolucionários. ______ Apareceu lá um grupo de majores, invadiu a unidade e eu disse: “Esse verde oliva que eu uso é o mesmo que o seu. Não vamos meter os militares em coisas de política. Nós somos um exército permanente. Deixa que os políticos se entendam.”

 

P/2- Eu queria lhe perguntar como é que o senhor ficou sabendo do golpe? Que tinha sido concretizado. Alguém telefonou pro senhor? Como é que foi? 

 

R - Como é que?

 

P/2 - Como é que o senhor ficou sabendo que o golpe tinha sido desencadeado?

 

R -   Que eu fiquei sabendo que os comunistas iam me tirar?

 

P/2 – Não. Do golpe. Como é que o senhor ficou sabendo na noite de 31 de março. Como é que o senhor ficou sabendo?

 

R - Fiquei sabendo da...

 

P/1- Do golpe. Que havia sido desencadeado o golpe?  

 

R - Fiquei sabendo...

 

P/2 – Que havia sido desencadeado o golpe militar. 

 

R – Ah. Fiquei sabendo?

 

P/2 - Que o general Kruel tinha já mobilizado ___ Como é que o senhor ficou sabendo disso? Alguém telefonou?

 

P/1- Quem contou pro senhor, na noite do dia 31.Quem comunicou pro senhor?

 

R - Quem?

 

P/1- Quem comunicou?

 

R – Quem comunicou ao Castelo?

 

P/1 e P/2 – Pro senhor? Quem comunicou? Quem avisou do golpe?

 

R – Quem comunicou comigo? Da Revolução de 1964?

 

P/1 e P/2 – Isso.

 

R – Ah. Ah. Vocês são brasileiros. As sete da manhã, chega um major na missão militar americana. Porque o material que eu tinha era do acordo Brasil-Estados Unidos. E o major era... Nós tínhamos uma relação. Ele disse: “Coronel Freixinho, acabou o governo João Goulart.” Foi ele quem me disse. Eu disse: “Como é que você sabe?”  “Ele pegou o avião e já foi embora.” O senhor precisa alguma coisa? E eu sei norte americano. Eu trabalhei três anos nos Estados Unidos na escola do comando do estado maior. Nós somos amigos, mas aqui dentro quem manda é o Brasil. respondi à sua pergunta?

 

P/1 – Muito.

 

R - Eu não soube por brasileiros. Eu soube por um oficial da comissão mista Brasil - Estados Unidos.  Então a partir daí... Eu já cheguei. Onde é que eu estou? Eu já cheguei em 1964. Foi difícil de aguentar. Deu tristeza _____ Esse povo não merece isso. O que há no Brasil, vocês que são jovens, é que a gente não tem um Estado. Não tem capacidade de atender a demanda desta faixa de pobreza.  Não tem. Então às vezes... Que era o sonho do pessoal da esquerda. Caminhava para comunização com a União Soviética, ou então à direita, que só pensava em si. Então naquele período, depois da Revolução de 1964, esse é que foi o grande drama. Período militar que chamam. Os homens que foram para lá eram altamente capacitados. No poder militar. O próprio Costa que era beberrão e jogador, depois era um homem competente.  O Castelo nasceu para ser estadista. Nasceu para ser. E uma vez, lá no palácio, uma noite, chorou na minha frente “Freixinho, eu não posso fazer o que eu queria. Fizeram eu assinar o AI5”, ouviram falar no AI5? Vocês conhecem isso?

 

P/1 e P/2 – Conhecemos. 

 

R - Aí, entrei em contato com outro personagem da minha vida, o general Reinaldo de Almeida. A minha vida é Reinaldo de Almeida, que eu tinha conhecido aqui em Curitiba, casado com Aracene (?) dos Tourinhos. Vocês não conhecem o Paraná. Ele era subchefe do Estado Maior de Exército. Me levou para ser secretário no Estado Maior do Exército. Eu era coronel. E aí eu conheci o Joel Malan(?) ele, meu amigo – já ouviram falar nele? É o filho do José Américo.  E tentou me projetar de todas as maneiras. Nas cerimônias públicas ele: “Vem comigo.” Dava o braço comigo, me carregava. Dizia: “Eu estou com o guarda chuva aberto porque o Freixinho é que é o general.” Enfim, um companheiro nosso que foi meu aluno e tinha raiva de mim, porque eu dei uns “regulares” para ele nas provas. O Frota. Era o Ministro. “O Freixinho não sai general.” Aí vieram me avisar: “Você não vai ser general.” Um era o Médici, por coincidência. E aí uns companheiros nossos que estavam lá na presidência da república, o Freixinho, sabe o que o Médici disse? ”Se a gente faz o Freixinho general, ele vai lutar pela democracia. E vai criar um problema para nós. Então o Freixinho não sai general.” Então, antes que outros passassem à minha frente, eu pedi transferência para reserva.  Cheguei em casa de Brasília, de copeiro(?) No mesmo dia de tarde, vi o Joel Malan que era chefe do Estado Maior: “Freixinho, vem aqui, na empresa do Rui Barreto, na rua da Quitanda”. Um exportador de café solúvel. Cheguei lá e o Rui Barreto: “Coronel Freixinho, o Joel Malan disse para o senhor vir para cá, que o senhor vai ser diretor executivo da empresa.” Então fui três anos diretor da empresa Café Solúvel Exportadora.

 

P/1- Café...

 

R – Três anos. Aí é que eu aprendi o comércio internacional.  Isso foi nos jornais, que o Brasil vai aumentar a exportação, É dificílimo. É difícil. Está gostando? Então, eu abro os jornais e o Médici assina o acordo com o Paraguai para a construção da hidrelétrica binacional.  E o Geisel… E aí então é que o Freixinho ficou nessa _______ O Costa me chama e: “Seu Freixinho...” Eu conheci o Costa muito, tinha sido meu aluno, depois ________ era o comandante _______ “O alemão disse que é bom você vir para cá. Você vai ser o acompanhamento físico financeiro do projeto. Eu digo: “mas você vai também?” “ Não. Você inventa o que você vai fazer.” Ele só disse para mim: ‘Freixinho, vai falar com o Figueiredo. O Figueiredo te espera.”  ____ era... Como é que chamava aquele negócio? ____ Do campo militar do planalto. Aí o Costa “Vai falar com o Figueiredo porque ele quer saber. Porque ali as fofocas andam...” “Onde está o Figueiredo?” “Está na casa um São José.” Aí eu fui lá. O Figueiredo estava com um problema na coluna e a mulher dele: “Oh Freixinho.” O Figueiredo: “O que quer comigo?” “O __ me telefonou. Você tem que ir. É um prazer para o governo te nomear para Itaipu. Freixinho, eu tenho grande admiração por você. Até logo.”  “Até logo.” E assim, vim para esta famigerada Itaipu. Contei a história para vocês?

 

P/2- Freixinho, o que o seu pai fazia?

 

R -  A lembrança que eu guardo do meu pai: um bom vivant. Gostava muito de um rabo de saia. A minha mãe, sempre com um lenço amarrado na cabeça com enxaqueca. E eu: “Por que será que ela tem enxaqueca?” Hoje eu entendo. Era raiva das andanças do meu pai. Não nasceu para trabalhar _____ a coleção de fotografias que eu tenho, eu devia ter trazido fotografias de quando eu tinha seis anos. Tenho caixas de fotografias. Fazia fotografias da minha mãe... A minha mãe ficava danada. Mandava ela pentear e botar aquelas travessas e se pintar. Era o hobby dele, fotografia.  Outro hobby foi quando apareceu o rádio. Ele já estava doente do coração. E havia uma disputa lá em Ipanema entre os radioamadores. E ele vinha com o radiozinho dele, montado por ele. Mandou importar da Alemanha, máquinas para fazer rádio, magnetos. Eu vi em filme isso _______ então, outro hobby dele foi ______. Mas nunca faltou dinheiro em casa. Ele era um relojoeiro de alta qualidade. Só trabalhava em relógio Patek Philippe .Esses relógios vagabundos? Não! Era a casa _____ que trabalhava com o Patek Philippe, e o que ele fazia? Ele trabalhava duas ou três vezes por semana, pagavam bem. E em casa sempre teve comida e a gente sempre vestidinho.  Disse quem era meu pai? Então meu pai era isso: um “bon vivant”. Morreu doente do coração com 30 e poucos anos de idade. Sempre cumpriu com os deveres familiares e é lógico que ele era homem. Não podia ver um rabinho de saia. É diferente do filho. O filho não (risos) Respondi quem era meu pai? Pronto.

 

P/1 – Em quantos irmãos vocês eram?

 

R - Éramos três. O primeiro, Dante, faleceu com quase dois anos de idade. E aí minha mãe teve um segundo, que chamou de Dante outra vez. Um ano depois, nasceu o Nilton. Mas eu não era para ser chamado Nilton. Era para ser chamado de Milton, porque minha mãe tinha paixão por um artista, Milton ______ Então ela queria que o filho dela se chamasse Milton. O homem lá do cartório era meio surdo e botou Nilton. (risos) E só fomos descobrir que eu era Nilton, quando fomos tirar o passaporte para os Estados Unidos. A minha família me conhece por Milton. (risos) Eu não vou contar aquelas peculiaridades que minha mãe dizia. Não vou contar. 

 

P/1 – Ah. Conta!!!

 

R – (rindo muito) Ela tinha uma paixão. Queria ter uma filha. E a filha não chegava. Mas foi melhor para ela, porque eu como homem cuidei dela até a morte, morreu com 90 e tantos anos. A Terezinha já estava comigo. Eu cuidei dela até o fim. Uma filha não faria isso. E foi bom para ela. Pronto?

 

P/1 – Pronto. Tem mais alguma coisa?

 

R – Como eu conheci a Terezinha?

 

P/1- Não. Depois (risos) Eu tenho umas curiosidades ainda. Quando o senhor leu no jornal o acordo do Brasil com o Paraguai, o que passou pela cabeça do senhor? O que o senhor achou desse acordo?

 

R - Bom, quando eu abri o jornal e vi o Médici assinando com os ______ eu não tinha naquela época um background no setor energético. Eu não fazia idéia. Eu só acompanhava de vez em quando o Otávio, o engenheiro Otávio que queria desviar as águas do Salto de Sete Quedas indo fazer lá em Guairá, trazer para o território brasileiro e fazer uma usina enterrada, tipo usina de Paulo Afonso, e nos jornais eu lia que o Paraguai exigia que o Salto de Sete Quedas de acordo com o tratado de após a guerra do Paraguai, pertencia também ao Paraguai. Quando entrei para Itaipu, era essa nebulosa que estava nessa época. Só depois é que eu fui me aprofundar no assunto. Respondi? E agora, a Terezinha?

 

P/1- (risos) Então fala sobre a Dona Terezinha. 

 

R – Terezinha?

 

P/1- Então fala como o senhor conheceu dona Terezinha. 

 

R - Eu com a Lourdes e minha filha... Vocês não perguntaram da filha. Eu tive uma filha. Está viva. Eu morava em Copacabana, na rua Raimundo Correia. Casado, major com meus 30 e tantos anos, sem dinheiro para olhar paras mulheres.  E aí naquela rua tinha uma casa de sapatos, e tinha uma garota, que eu passava e ela olhava para mim. Eu não cortava ali, alimentava os olhares. E os anos foram passando. Passando. Fiquei viúvo, sozinho. Falei: “Aquela cangaceira me serve.” (risos) não serve. Aí, telefonei para casa do _____ dela. Ela desceu rindo para verificar. “Sobe e desce que vamos sair juntos. Tem 10 minutos.”  (risos) Em 10 minutos ela estava toda pintadinha, quentinha e entra no meu fusca. Ah. Se meu fusca falasse! Ela tinha automóvel também, mas ela preferiu o meu fusca, e os meus fuscas. E aí começou. Estreitamos as relações, e hoje ela é minha grande companheira. Vocês vão perguntar porque ela é Terezinha Oliveira e não e não é Terezinha Freixinho? Por causa da minha filha. Isso eu disse para Terezinha olho no olho: “Se eu casar com você, a minha filha não receberá a pensão do exército.”  E ela precisa. Teve um casamento infeliz, já era da geração nova, não soube construir a vida dela, meteu-se a fazer uma empresa de exportação na esperança de que seria uma exportadora igual ao pai. Faltou-lhe qualidade. Entrou pelo cano. Eu ajudei a liquidar a empresa exportadora, e ela hoje vive com o guarda chuva do paizinho, do queridinho. Eu é que sustento. Ela tem uma filha, a filha está casada. Eu não sei nem se ela oficializou o casamento. Compararam um apartamento agora, fizeram uma reforma muito bonita. Já moram juntos há muito tempo. Fizeram um casamento espetacular. Onde foi? Em...

 

[interrupção]

 

R - Aí eu pego a identidade: “Por que você não está com o nome do seu marido?” Ela disse para mim assim: “Porque a gente combinou.” Não precisa dizer. Vocês são jovens, as mulheres hoje são diferentes. Vocês hoje tem uma concepção diferente da vida. Respeito. Tenho pena das mulheres jovens. Tenho pena. Mas não vamos culpá-las. São as mulheres novas... E o mercado de trabalho favorável à mulher, é o único responsável. O dinheirinho no bolso. Diz pro macho: “Thank you, very much.” Você paga. (risos) É diferente. Respondi?

 

P/1- Respondeu.

 

R – E agora vamos fazer a excursão. Já chegou. 

P/1- Já chegou. 

 

R – Vamos fazer por que está na hora. 

 

P/1 - Está na hora? (risos) Queria saber uma coisa antes.  Era a primeira vez que o senhor estava vindo pra Foz do Iguaçu, ou o senhor já conhecia Foz do Iguaçu antes?

 

R – Antes? Não. Eu não conhecia. Ah! Quando eu era instrutor da Escola de comando do Estado Maior, nós fizemos uma viagem de estudos, almoçamos aí no batalhão, tem um batalhão aí na avenida. Estava vindo do Batalhão.  E depois nós fomos visitar as cataratas do Iguaçu. Eu estava aonde? Na Escola Superior de Guerra. Tanto que eu tenho uma fotografia, eu estava olhando as cataratas do Iguaçu, eu era tenente coronel, e estava assim com o dedão, limpando as fossas do nariz. E o almirante fotografou e disse assim: “Oh Freixinho, olha aqui a foto, tirando o pão do forno.” Está a fotografia lá em casa. (risos)

 

P/1- O que o senhor achou? Quantos anos o senhor tinha nessa época? Quantos anos o senhor tinha?

 

R - Na época dessas coisas? Eu estava na Escola Superior de Guerra, na quadra de 50 e tantos anos.  

 

P/1 - E como era Foz do Iguaçu nessa época?

 

R - Uma província. Nós passamos na Av. Brasil aqui, uma província. Nós fomos almoçar no Batalhão. Era uma província. Uma província.  Era na década de 1960 mais ou menos… Era uma província. Uma província. E hoje eu vi que... Nesses seis anos que eu não vou aqui, que salto que deu. 

 

P/1- O fato de Itaipu estar nessa tríplice fronteira, o pessoal militar tinha alguma preocupação com isso?

 

R – Como? 

 

P/1 - Itaipu está na fronteira do Brasil Paraguai. Tinha alguma preocupação militar?

 

R – Do grupo militar?

 

P/1 – É.

 

R - É uma pergunta interessante. (pausa)  Não subestimem o nacionalismo dos paraguaios. Respeitem-no. É um sentimento arraigado de pátria. Vocês que não conhecem a história da Argentina e do Paraguai, é difícil. Aquele paraguaio que não aceitou a invasão dos portenhos de Buenos Aires, ele que sonhou em criar a nação guarani. Isso é perene. Então, o Solano López, estava certo a meu ver, na intenção dele. Ele era um homem viajado. Ele sabia que uma nação que não tem uma base territorial extensa, não subsiste. Todas aquelas províncias, do outro lado do rio Paraná,  aqueles governadores não falavam espanhol, ou falavam espanhol misturado com guarani. Tudo era... Então, ele imaginou criar uma nação incorporando aquelas províncias e o Uruguai. E fazer um grande Paraguai. Esse foi o sonho dele. Cometeu um erro no processo estratégico de fazer. Primeiro, ele mandou um emissário à Dom Pedro II, pedindo a mão da princesa Isabel pra casar. Sabiam dessa?

 

P/1 e P/2 – Não. (risos)

 

R – Porque unindo as duas coroas... A austríaca: “Não senhor. Não caso com aquele camarada não. Eu quero casar com um francês.”  (risos). E Dom Pedro II negou. Aí ele tomou a decisão de fazer a guerra. Então chamando a maldita guerra. E falam que é guerra contra o Brasil, não. A guerra é, de todas as províncias da Bacia do Prata, contra o Lopes. A Argentina hoje existe por causa do nosso dinheiro pra sustentar as tropas e a guerra lá em território. Mitre foi um homem muito maior. Falam em San Martin, mas San Martin é ______. Eu passo pela estátua de San Martin e digo “Oh seu bobalhão.” O Mitre não. O Mitre fez a Argentina. Às nossas custas. Então, o Solano Lopes criou esse problema. O Brasil fez a guerra. Foi triste. Muito triste. E o ruim que eu acho é que aqueles oficiais e sargentos de Assumpção trouxermos as moças todas de Assumpção, _________ Vieram todas para o Rio de Janeiro. Essa é uma  mágoa que eles tem lá. Então, a história rolou, rolou, rolou, e nos planos do exército sempre se considerou uma possível guerra do Paraguai, Argentina e Uruguai contra o Brasil.

 

P/1- Nessa região?

 

R – Naquela região ali.  Era um plano estratégico do exército em fazer face a essa guerra, porque o Perón, agora entra o Perón, porque o Perón, com sonhos grandiosos,  aliado à Alemanha, estimulou os nazistas de Santa Catarina. Porque também em Santa Catarina, o pessoal não falava português. Só falavam alemão. Então Hitler e a corriola dele se juntaram com o Perón e pensaram então num sonho de apoiar a Argentina e o Paraguai e tomar conta de todo o Brasil, tal e coisa. Então agora, as coisas estão aí pra vocês. Então, quando chegou a esse ponto lá em Itaipu, a nova geração, inclusive eu, seria mais esperta.  Eu era oficial do Estado Maior. A Argentina não tem mais capacidade de fazer guerra contra o Brasil. E com os paraguaios vamos fazer o contrário: “Mi caro amigo.” Vamos trazê-los para o nosso lado. Então, quando eu estava no exército, o Figueiredo ia… Por que não trás o Paraguai pro nosso lado? Respondi a sua pergunta?

 

P/1- Respondeu.  Obrigada.

 

R - Acabou? Está na hora de fazer a excursão. 

 

P/1- Está na hora. 

 

R – Êta mundo. É uma vida.

 

[continuação]

 

R – É o complemento, para encerrar. Então eu gosto...

 

P/1 – Isso. (risos) A gente ficou com algumas dúvidas. Quando o senhor chegou aqui, o cargo do senhor era gerente...

 

R - Acompanhamento físico-financeiro.

 

P/1 - Quais eram as atribuições do senhor no dia a dia mesmo?

 

R - As atribuições?

 

P/1- Isso.

 

R – Quando eu fui para assessoria do Costa Cavalcante, o Costa disse para mim: “Freixinho, vê lá esse negócio da programação para acompanhar.” Eu digo: “ Mas como é que você quer que eu faça?” “Invente.” Então, a primeira coisa, eu me enfronhei em todo ambiente da negociação do traçado. Me enfronhei nas primeiras providências da Eletrobrás para a construção de Itaipu, me enfronhei na programação inicial. E conversando com os diretores, percebi que eles tinham certas dúvidas que poderiam aparecer. Então eu disse: “Oh Costa, o que eu posso fazer para ajudar, é acompanhar a programação, e quando eu pressentir qualquer desvio, ou ameaça de desvio, eu digo a você. Você naturalmente como está no dia a dia, deve também perceber. Mas o meu testemunho vai servir para reforçar a sua posição.”  Então, o que houve, é que eu mesmo criei a função. E o Costa me deu os empregados necessários para eu exercer a função. Então foi uma criação minha, mas com o guarda chuva do Costa. Ele nunca me perguntou o que eu ia fazer. Repito que quando o Presidente Geisel vinha aqui, já com o Ney Braga, e o Costa, o Geisel perguntava ao Costa: “Como é que vai o Freixinho?” E o Costa: “Ele só fala comigo quando as coisas vão ruins.” E o alemão: “Então ele vai muito bem.” Então, esta foi a função. Eu criei a função. Não tinha título, não tinha nada. Eu é que me auto intitulei. Eu era o responsável pelos relatórios de todas as palestras do Costa Cavalcante e do Ney Braga, em função da função que eu criei. Respondi?

 

P/1- Respondeu. Mas eu fiquei curiosa de uma coisa: Vocês chamavam o Presidente Geisel de “alemão?”

 

R – Entre nós companheiros.  Era uma coisa respeitosa.

 

P/1- Carinhosa.

 

R - Respeitosa. Porque eram três irmãos: era o Orlando, que foi Ministro da Guerra, o Ernesto, era um patrimônio. Eram quatro irmãos. O Orlando, que foi Ministro da Guerra. O Ernesto que chegou a Presidente da República. Um coronel do exército que foi meu comandante no CPOR de Curitiba, na rua Riachuelo, apagado militarmente porque tinha problemas de família, os filhos eram relapsos. E o outro, um irmão civil, altamente solicitado pela sociedade de Porto Alegre.  Então, no exército nós tínhamos grande admiração por eles, principalmente quando houve a guerra contra o Hitler, 1939 a 1945, eles adotaram uma posição discreta. Era muito forte o sentimento germânico neles. Muito forte. Mas eles adotaram uma posição muito discreta. Se afastaram de todas as funções que pudessem ficar no palco. Terminada a guerra, o respeito por eles cresceu muito. Então “alemão...” Vou contar para vocês: O Geisel e o Ernesto se picavam na Presidência da República. O Ernesto dizia que o Presidente Castelo Branco devia ter certeza, mas com tudo fechado. Sala trancada. Vocês não sabem o que é governar esta República. Eu vejo esses candidatos. Tenho pena deles. O Garotinho, os outros, estão pensando uma coisa, e é outra. Então, respondi do “alemão?”

 

P/1 – Respondeu. Agora outra dúvida. Quando o senhor chegou aqui, aonde o senhor foi morar?

 

R - Ah, eu não morei aqui. Eu vivia em cima de avião. Era o Costa, a Maria Helena, secretária do Conselho de Administração e o Freixinho. Nós vínhamos aqui constantemente. O Costa... Aí, a sede era no Rio de Janeiro, e a burra do dinheiro, com o Mário _____ estava lá. Ele não podia sair de lá. Então, eu não morei aqui. Eu vinha aqui com o Costa, e vinha aqui sozinho. E ia a São Paulo para conversar com o Lino, com o Moacir Teixeira da área Financeira, e vinha aqui conversar com o Rubens Viana. Então eu recolhia os anais, ficava um ou dois dias no Hotel Bourbon(?), pegava o avião e voltava. Aí, botava tudo no computador, “brummmmm”, e saia o produto. Respondi sua pergunta?

 

P/1- Respondeu. Agora, na palestra do senhor, o senhor falou que a energia elétrica é um recurso aproveitável.

 

R – A energia velha ou renovável?

 

P/1- A energia renovável. O que o senhor quis dizer com isso? 

 

R - Eu te digo. O petróleo não é renovável. Vocês sabem a origem fóssil do petróleo. Acaba aquele poço, acabou. Acabou.  A energia renovável é a energia eólica. O vento não para. E a energia solar, renovável. A água, que aciona as hidrelétricas é renovável. Por quê? É um ciclo. Passa por evaporação, o calor leva, faz as nuvens e volta tudo, cai outra vez na terra. Então, é renovável. Não para. E vocês iam perguntar: “E agora, por que está...” O porquê, por que? Porque o homem está depredando a cobertura vegetal. ______ está diminuindo. O que aconteceu, o que está acontecendo na Europa, vocês estão acompanhando? É coisa cíclica. Como vocês são muito moças, talvez vocês peguem… Ainda pode haver uma era glacial… Não vão pegar não. Uma era glacial. Porque uma inclinação do eixo da terra se passou de frações de um milésimo de segundo, modifica tudo isso. Eu acho graça que esse pessoal do meio ambiente fica zangado comigo. Querem controlar a natureza. Então, respondi o que é renovável? Então, o petróleo, quando acaba um poço, não tem mais nada.  Acaba o gás, não tem nada. Então renovável é que vai estar sempre nova.

 

P/1- Agora, uma pergunta de leigo. Quando a água passa por esse gerador, depois ela vai para onde?

 

R - No caso de Itaipu?

 

P/1- Ahã.

 

R - Importante é o acordo com o Paraguai, com a Argentina. É muito importante. O rio Paraná depois que passa a fronteira tripartite, vocês já foram lá? 

 

P/1- Vamos ainda. 

 

R - Precisa ir lá. Fazer continência lá para aquele mar. Aqueles desbravadores foram formidáveis. Então, depois que passa a Foz do Iguaçu, a água continua. Logo embaixo, tem um projeto de construção de uma hidrelétrica argentino-paraguaia. Logo abaixo. Os paraguaios querem uma altura de… Posso contar isso para vocês? Paraguaios e argentinos. Mas aí, a Argentina é que falava. O Paraguai ia na onda. Exigiram da diplomacia brasileira uma certa altura. Essa altura ia diminuir o potencial aqui. Então foi uma longa negociação. No final, os argentinos aceitaram e pôde se fazer essa Itaipu com essa altura e com essa capacidade. Mas não acabou. Lá em baixo, mais para baixo, tem outro aproveitamento argentino-paraguaio. Ouviram falar de Yaciretá ? Então, dizem que está andando. Dizem que está andando. Então eles, a Argentina e o Paraguai também, já estavam... O fluxo da água aqui, que é para não secar para eles lá embaixo. Para alimentar a deles. Lá embaixo a altura de queda é muito pequena. É de baixa capacidade. Então, a diplomacia brasileira conseguiu também entrar num acordo. Então, o rio Paraná, ele alimenta bairros de São Paulo. Vocês sabem, não? Vamos entrar nele? Vamos entrar. Eu estou falando de Guaíra para baixo. Eu não falei do Salto… Porque isso é outra história. Então, o rio Paraná alimenta Itaipu, deve alimentar esta usina Paraguai - Argentina e dizem (dizem) que já está alimentando a usina de Yaciretá, que é argentina e coisa. Então, eles controlam o fluxo do rio Paraná e da foz do Iguaçu. O rio Iguaçu é chave para eles. Porque dá um caudal forte e a gente não tira proveito. Quem vai tirar proveito do rio Iguaçu, que vem da Serra do Mar, quem é? Argentina e Paraguai. Respondi tua pergunta?

 

P/1 – Respondeu. (risos)

 

R - Pronto! (risos)

 

P/1- A mesma água que passa por Itaipu vai...

 

R – Passa por ____ desce, recebe as águas do Rio Iguaçu, deverá acionar as turbinas dessa projetada usina Argentina-Paraguai e dizem que já está acionando as turbinas de Yaciretá. E depois prossegue. Mas aí já não tem mais altura. Acaba. O grande... Ocorreu quando se fez essa barragem. É que a gente recorreu. Eu não tenho elementos para... A Argentina exigiu segurança para em caso de um acidente nessa barragem. O caudal desceria e ia afogar a cidade de Buenos Aires em dois minutos Mas aí a segurança demonstrou que essa barragem era segura. Eu desci lá em baixo. Depois. 

 

P/1- Mas, eles tinham medo mesmo, os argentinos?

 

R - Tinham medo. Eles quiseram saber da segurança da barragem, porque era a segurança deles. E essa barragem é segura. A não ser que... Essa área não é sujeita a terremotos. Então, são duas… Para vocês saberem, ___ vão conversar melhor do que eu. São duas camadas de basalto. Vocês ouviram falar em deslizamentos? Vocês sabem que a América do Sul já esteve colada com a África? As placas tectônicas deslizam. Então as placas, esse basalto, são sujeitas a deslizar se não forem  “costuradas” lá em baixo. Com pinos. Eu desci uma vez e não tive mais coragem de descer. Para segurar o deslizamento das camadas. Um trabalho de engenharia notável. Então isso mostrou que o Brasil está tomando todas as providências para que a barragem fosse efetivamente uma coisa segura. E ela é segura. Foi construída com todo o rigor técnico, para evitar qualquer desastre. Eu, do que eu já li do mundo, os acidentes de barragens são comuns. De rupturas, de grandes enchentes. Na China principalmente. De afogar vilas e mais vilas. Mas, eu acredito que o Rubens Viana deve dizer a vocês quais foram as seguranças para que essa barragem inspire confiança, e como ela foi construída. Respondi? Pronto.

 

P/2- O senhor falou na sua palestra, o senhor exaltou a criatividade dos operários.

 

R - Falei...

 

P/2- Exaltou a criatividade e a improvisação dos operários. 

 

R - Ah… Dos operários...

 

P/2- Eu queria que o senhor contasse...O senhor disse que eles davam sugestões. Eu queria que o senhor contasse como era.

 

R - Algum caso típico. (pausa) Esses homens que fizeram Itaipu não eram neófitos. São Paulo, com aquelas hidrelétricas no rio Tietê, foi que preparou esses homens. Então, quando eles chegaram aqui, eles tinham uma visão, porque já tinham participado antes. Então, quando havia qualquer coisa entre eles lá, eles diziam: “Mas lá, no rio tal, quando nós fizemos a hidrelétrica, fizeram assim, assim, assim. Isso com o rio.” E o Rubens Viana pode dizer a vocês muito melhor a experiência dos barrageiros, e a contribuição deles. Tem agora aí uma placa, um painel de um paranaense sobre o barrageiro. Depois eu quero ver. Tem que fazer uma homenagem constante ao barrageiro. Eu vinha aqui as três da manhã, dois, três graus abaixo de zero, aqueles todos trabalhando com ardor. Eram aquelas criaturas abrindo, escavando... Não tem cara em greve. Incansáveis. A greve foi… Foi outra coisa. Respondi tua pergunta?

 

P/1- Se o senhor fosse traçar o perfil de um barrageiro, o barrageiro de Itaipu, o perfil. Como ele é? Como homem. 

 

R - Como homem, o barrageiro?

 

P/1 - É.

 

R – Como homem? (pausa) Engraçado, eu nunca vi uma reivindicação de operário barrageiro. Ele é extremamente devotado ao trabalho. Eu ficava admirado. Ele como homem, prestava uma colaboração ao Estado, à nação brasileira, notável.  Eu quando vejo esses camaradas aí, fazendo cursos demais, eu digo: “Que bobagem.” Aqueles barrageiros vieram todos saber fazer, fazendo. _____ Aqueles motoristas enfrentando o frio, morreram vários. ____ agarrar as rodas, a pedra jogada feito um projétil, batia num barrageiro e matava. Mas, eu digo a vocês, que tudo o que se fizer em louvor do barrageiro que construiu aqui e construiu em São Paulo, é pouco. Não foram os engenheiros. Eu disse na minha palestra: “A história se faz com homens e circunstâncias.” Homens e circunstâncias. Em Itaipu, teve circunstâncias favoráveis. Hoje não se encontraria mais. Circunstâncias. E homens. Tanto os de cima, como os do meio, como o pé de poeira lá em baixo, foram grandes homens.  Respondi? Que mais? Acabou?

 

P/1- Eu tenho mais uma. Nos 17 anos que o senhor trabalhou aqui, esteve aqui dentro do cotidiano, que momentos foram mais marcantes para o senhor?

 

R - Para mim?

 

P/1- É. Emocionantes...

 

R - Dois momentos: primeiro eu quero dizer para vocês que este empreendimento existe pela associação de dois grandes homens. No Brasil, Costa Cavalcante, e no Paraguai o engenheiro Enzo de Bernardis(?). Ele era Diretor Geral Adjunto. Italiano. Zelando pelos interesses do Paraguai a fundo. Foi a associação desses dois homens, altamente educados, mas cada um preservando os interesses nacionais respectivos.  Problemas difíceis. Uma dupla ciclagem. Vocês não podem imaginar. No Paraguai é 50. Aqui é 60. Aí, um brasileiro muito malandro, mandou propor aos próprios eles passarem para 60 e a gente pagava tudo. Não aceitaram. Por que? Por que não aceitaram? A Argentina é 50 e eles têm a usina em baixo e a outra em Yacyretá. Então, eles não tinham interesse por que iam pegar extensão. Então, a dupla ciclagem retardou a encomenda dos equipamentos financeiros em parte, até que aceitassem como ia fazer. E nos momentos difíceis, o José Costa Cavalcante e o de Bernardis(?), primeiro se reuniam os dois sozinhos, combinavam, acertavam as arestas. Aí reuniam a Diretoria Executiva. Mas quando entravam na Diretoria Executiva, os dois já estavam de braços dados. Então eu digo que, o que mais me impressionou foi a capacidade desses dois homens. Eu dizia para o Costa: “Você é um herói. Que saco você tem.” Ele dizia: “Nós vamos chegar lá. Vamos chegar lá.” Alisava arestas. Então, um momento que me impressionou muito foi o modo de trabalhar desses homens grandiosos. Jamais abriram mão dos interesses deles. Procurando um denominador comum. Um outro momento, eu não sei se afetivo, foi no momento que o Costa Cavalcanti teve que deixar Itaipu. E por incrível das circunstâncias, quem estava cogitado para ser sucessor do Costa, era o meu grande amigo Ney Braga. Eu, amigo dos dois. O Ney foi de uma... Não foi coisa de... Foi coisa de governo. Coisa de governo. O Ney era um político que tinha voto no Paraná. E o Costa Cavalcanti só tinha o voto do Freixinho. Está claro? (risos) Está claro. Então, um momento triste foi quando o Costa Cavalcanti, num almoço no hotel Bourbon, ele viu que precisava, que ele ia ser... E o Ney Braga, que era meu amigo, falou: “Freixinho, vamos trabalhar para o Costa ficar?” Eu digo: “Isso é coisa de vocês que são senadores, deputados. Eu não meto a mão nessa cumbuca.” E aí a questão de voto com o governo federal teve é que foram as coisas. Então nesse almoço no Hotel Bourbon(?), estava presente o senador Richa e o filho dele, candidato também. E o Richa lamentou a saída do Costa. Eu fiquei emocionado. Com a saída, o Costa estava magoado. Ele não queria sair, ele queria completar o.. O Ney foi de uma grandiosidade notável.  E o governo tirou o Costa e botou o Ney Braga. No primeiro encontro com o Ney Braga, ele me falou: “Você fica onde estava fazendo o que você estava.” Tinha vários militares. Ele mandou embora todos os militares. E eu fui o único que fiquei. Então, esses são os dois momentos de relações humanas. Entre o Costa Cavalcanti e o Enzo de Bernardis. Outro, a grandeza do Ney e a grandeza do Costa. E foi nesse almoço é que o Costa disse a famosa frase “ ___ return” O sonho dele era voltar para completar aquela questão. Inclusive, a questão da complementação da aposentadoria, que chapéus se tirem para o Ney Braga. Foi o Ney que fez os estudos de auditoria. Eram todos negativos por causa do pequeno número e o decréscimo no número de empregados. Então em função, depois de um certo número de anos a firma não teria receita para bancar os empregados. Você é de São Paulo ______. O Ney foi valente. O Ney era político. O Costa era político também, mas político de outra coisa. O Ney era político olhando a urna. O Costa era um político que não olhava a urna de Pernambuco. Era político de nível de combinações estadistas. São dois homens... Já morreram. Tiveram grande apreço pela minha pessoa. Nunca perguntaram para mim: “Como é que você vai fazer?” “Já fez Freixinho?” Acabou. Não tem mais nada. E olha a hora. 

 

P/1- A última. O que o senhor achou de ter sido convidado para dar essa entrevista, falar do senhor, sobre a experiência do senhor para o Memorial dos Trabalhadores? Eu queria que o senhor falasse de coração. 

 

R - Foi uma oportunidade porque eu estava com dois chapéus, e eu como historiador, vou dar um exemplo. “O povo que não tem história já morreu e não sabe.”  E, “O que não se escreve, não existe.” Então foi uma oportunidade para eu trazer a minha convicção como historiador profissional. Acabou. Não tem mais nada.

 

P/1 e P/2 - (risos)

 

P/2 - O senhor gostou?

 

R – Eu sinto que foi a grande oportunidade. Seis livros que eu escrevi e agora eu olho para trás como escritor profissional e digo: “Fiz bem em me devotar do ostracismo.” Vocês me deram essa oportunidade, de São Paulo e do Paraná. Bom, acabou.

 

[palmas]

 

R – Ninguém vai vaiar? (risos)

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+