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História

A vida é muito rápida

História de: Juarez Moreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Em sua entrevista, Juarez conta sobre sua infância em Guanhães, o amor pelo violão trazido cedo por seu pai, a vida em meio a LP’s e o cotidiano da família. Descreve sua casa, o clima interiorano e sua opção por engenharia em Belo Horizonte. Conta sobre o centro da cidade nesta época, repleto de cinemas de rua e bares onde artistas famosos tocavam sempre. Comenta sobre a dificuldade de ser músico no Brasil, o lançamento de seus discos, a vida de turnês e seus rituais enquanto músico.

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História completa

Eu só fui aprender música já velho, já cursava inclusive Engenharia Civil. O curso, em relação à teoria musical, é pesado: cálculo, integral, diferencial, entendeu? Eu já fazia Engenharia, mas estava querendo e planejando um dia largar para ser músico. Mas eu precisava dar uma satisfação ao Sistema e estudar Engenharia, porque em plena ditadura, se você não estuda você é vagabundo. Então, em 1970 eu saio do colégio estadual e vou para a escola de Engenharia em Belo Horizonte. Fiquei ali na praça Afonso Arinos, na Avenida Pedro Álvares Cabral, 217, apartamento 1002. O centro era encantador, porque era outra época, você tinha tudo muito leve, apesar da época de ditadura. A gente acabava que tinha todo tempo do mundo. Era cheio de cinemas! Nós fomos ver um filme, a Belle de Jour, o Hitchcock - eu costumo dizer também que fui salvo pelo cinema - de tarde, das duas às quatro, era maravilhoso. Era uma cidade ainda pequena, uma cidade paroquial, e você podia ir à casa dos amigos sem avisar: "Ah, fulano, estava passando por aqui". E parava lá para tomar café. Tinha o Cine Pathé. Inclusive é o nome do meu último disco - com aquela letra do Murilo Antunes - que fala um pouco dessa coisa da gente no cinema, desse encantamento. O Cine Palladium, que hoje é o Teatro Sesc Palladium; tinha o Cine Guarani, ao lado da minha casa; o Cine Metrópole; tinha o Cine Ajax; Cine Tamoio; tinha o Cine Pathé… A época do cinema era uma coisa. É, eu fui tocando. De certa forma, eu não podia falar que queria ser músico profissional, porque o Sistema não queria: "Você é louco, vai mexer com música?". Então o pessoal pensava que eu tocava violão por hobby e distração. Eu estava fazendo Engenharia, fazendo o que minha família pediu para que eu estudasse, então eu estudava. Quando chegou no último ano, falei: "Não vou fazer, não quero, não tenho vocação para isso". Meu pai não gostou, minha avó perguntou: "Por que você não formou?" Por uma razão simples: se eu me formasse, eles me arrumariam um problema. O Sistema te arruma um emprego, porque a profissão de músico é muito difícil. Eu me lembro de um dia em que eu encontrei com um músico que tinha largado essa vida para ser engenheiro e ele estava muito triste. Ele me viu tocar em 1976 ou 1977, me chamou em um canto e falou assim: "A gente tem que fazer o que gosta, eu não toco mais, por conta de ter um salário na empresa. Eu comecei até a adoecer, então, eu lhe aconselho… Eu sei que música é difícil, mas eu lhe aconselho a fazer o que você gosta". Foi um rapaz que eu nunca mais vi, mas na época ele estava vivendo um conflito, porque ele tirou a música da vida dele e aquilo fez mal para ele; ele estava deprimido. Eu lembro que ele falou: "A vida é muito rápida".

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