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História

A vida é imperdível

História de: Regina Maria Paschoalucci Liberato
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2015

Sinopse

Descendente de chineses e italianos, Regina Maria conta como foi crescer em uma família multicultural. Relembra as brincadeiras de rua durante a infância em Osasco e o tempo de escola em que fazia de tudo para tirar a nota mais alta e agradar o pai. Recorda as escolhas que precisou fazer para ajudar a família durante a adolescência e a luta até conseguir o próprio consultório de Psicologia. Depois de uma grande crise, começou a dançar e viver cada dia como se fosse o último. Quem vê a alegria e o amor de Regina pela vida mal pode imaginar tudo que ela já enfrentou.

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História completa

P/1 – Regina, vamos começar por você falando o seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Regina Maria Paschoalucci Liberato, São Paulo, três de março de 1957.

 

P/1 – Regina, seus pais nasceram em São Paulo também?

 

R – Nasceram em São Paulo. Os dois, né? Os meus avós é que cada um veio de um lado. Um veio da Itália, outro... São descendentes italianos e o lado da minha mãe são descendentes de chineses.

 

P/1 – Chineses?

 

R – É.

 

P/1 – E por quê, você sabe, tanto de um lado e do outro por que eles vieram para o Brasil?

 

R – Os dois lados vieram pra procurar melhores chances, situação de sobreviver. Eram muito pobres, o meu avô veio de Cantão, o chinês, e trabalhava...

 

P/1 – Chama Cantão a cidade?

 

R – Cantão. É.

 

P/1 – Como?

 

R – Cantão. E trabalhava aqui, em pastelaria aqui em São Paulo. Eu me lembro de ir muito com ele ao centro nas pastelarias dos amigos deles. Eu adorava comer coxinha.

 

P/1 – Onde que era a pastelaria dele?

 

R – Ele não tinha. Eram os amigos que tinham e ele ia trabalhar nas pastelarias dos amigos. Ele passou a vida trabalhando um pouco com comida. No final da vida dele ele andava pela casa dos filhos fazendo o almoço nos domingos. Ele era velhinho, já cabelinho branquinho e ia fazer comida na...

 

P/1 – Seu avô pai da sua mãe que é chinês.

 

R - O pai da minha mãe é chinês.

 

P/1 – E a sua vó também?

 

R – A minha vó eu não conheci. Do lado da minha mãe, a minha vó eu não conheci.

 

P/1 – Mas ele casou na China ou casou aqui?

 

R – Casou aqui. Casou com uma portuguesa aqui. Mas ela morreu cedo e aí a minha mãe, que era a irmã mais velha, cuidou dos irmãos. Até minha mãe acabou casando mais tarde. Naquela época não era esperado, era esperado que as mulheres casassem mais cedo. Ela casou depois dos trinta pra cuidar de todos os irmãos e depois poder ficar livre pra se casar. Por sorte conseguiu, né? (risos)

 

P/1 – E por parte do seu pai?

 

R – Por parte do meu pai eram italianos. O meu pai era filho único, a minha vó era uma madonna, uma italiana forte, mandona, muito passional, gostava de dramas. A minha casa era uma dicotomia terrível, porque de um lado era muito vivo, muito passional e o outro era zen, cheio de calma e de rituais. A gente aprendeu a viver aí no meio dessas duas turmas, dessas tribos diferentes.

 

P/1 – Seu pai fazia o quê?

 

R – Meu pai era ourives. Meu pai era uma pessoa muito interessante, acabou sofrendo muito na vida, mas ele era um artista. Fazia joias muito bonitas, muito... Era um artista, mas era muito frágil, muito vulnerável. Parou de trabalhar muito cedo por conta de ter sido frustrado na profissão dele e deprimiu. Meu pai foi uma pessoa complicada.

 

P/1 – Como que ele conheceu a sua mãe?

 

R – Ah, eles dançavam aí eles se conheceram dançando. Eu nasci no domingo de carnaval. Eles estavam atrás de um bloco e aí a minha mãe achou que tava na hora, era hora do parto, foi pro hospital, meu pai esperou que eu nascesse e depois foi pra rua de novo atrás do bloco. Eles gostavam de dançar, o que era interessante porque meu pai era muito machista, então quando se casou a minha mãe não podia mais usar pintura, esmalte. Ele a conheceu dançando, exuberante. Os dois gostavam muito.

 

P/1 – E a sua mãe fazia o quê?

 

R – A minha mãe, eu acho que era secretária. Ela tinha um trabalho que ela não achava muito importante, trabalhava por trabalhar e depois quando casou parou de trabalhar. A minha mãe é muito filha de oriental mesmo. Ela gostou de ficar muito influenciada pela cultura oriental. Gostou de ficar em casa cuidando dos seus filhos, servindo a vida familiar, dedicando-se ao meu pai. E aí ela parou de trabalhar, nunca mais trabalhou.

 

P/1 – Quando eles casaram eles foram morar onde?

 

R – Quando eles casaram eles foram morar no Itaim Bibi aqui. O meu avô, pai do meu pai, teve um derrame logo cedo. Então a minha vó e o meu avô foram morar com eles porque ele era filho único. Então eu me lembro, as minhas lembranças de infância incluem meus avós paternos.

 

P/1 – Como que foi?

 

R – O meu avô teve um derrame.

 

P/1 – Logo que a sua mãe...

 

R – O meu avô era alfaiate. E aí, logo depois que eles casaram, ele teve um derrame, ficou paralítico e não podia mais trabalhar. Então os dois foram morar junto com o meu pai e com a minha mãe.

 

P/1 – Nessa casa de Itaim?

 

R – Nessa casa de Itaim Bibi.

 

P/1 – E foi nessa casa que você nasceu?

 

R – Eu nasci lá.

 

P/1 – Até quanto tempo você morou lá?

 

R – Pouco tempo. Porque com três anos eu fui pra casa... Depois a família acabou se cotizando e ajudando meu pai e a minha mãe a comprarem uma casa. Aí eu tinha uns três anos quando eu fui morar nessa casa que eles compraram e que eles viveram a vida inteira. Eu vivi até os trinta... Eu saí de lá pra morar sozinha um tempo e depois me casei.

 

P/1 – Que bairro que era lá também? Itaim?

 

R – Não. Osasco. Chamava Vila Yara lá.

 

P/1 – Que lembranças você tem dessa casa? Era você e mais irmãos?

 

R – É. Eu tenho dois irmãos. Tenho um menino, José, e uma menina que é a Márcia. Eu sou a mais velha, a Márcia é a do meio e o Zé era o mais novinho. Da casa onde eu nasci eu me lembro de um corredor muito comprido e me lembro de casinha que as crianças brincavam, entravam dentro, era muita criança, então devia ter muitas famílias morando no mesmo lugar. Não sei, uma vila, alguma coisa assim. Eu me lembro do barril da berinjela que a minha vó fazia, berinjela curtida, né? Então eram aqueles barrilzinhos de tábua assim, a gente sabia que a berinjela tava boa quando o barril estourava, porque criava um gás dentro, acabava estourando. Essa é a lembrança que eu tenho de lá. Agora, nessa outra casa, na de Osasco, era muito bacana porque quando a gente foi pra lá era terra. Era uma casa simples ainda e era tudo terra. Não era asfaltado e também tinham muitas crianças e a gente brincava muito, muito, muito. Minha infância foi muito gostosa. Eu tenho boas lembranças delas. As melhores lembranças ficam aí na minha infância.

 

P/1 – Que brincadeira, você se lembra das brincadeiras?

 

R – Ah, a gente tinha um monte. Eu tinha um vestido de dança, de tule vermelho, que eu não gostava, mas servia pra negociar com os meninos, porque eu gostava muito mais de brincar na rua. Tinha um menino próximo que era vizinho, que adorava aquele vestido. Então eu negociava: eu dava o vestido pra ele, emprestava o vestido e ele me emprestava as bolinhas de gude que eu ia pra rua brincar.

 

P/1 – Ele gostava do vestido?

 

R – Ele adorava o vestido. Ele adorava o vestido. Uma história complicada porque o pai era militar e ficava muito bravo com algumas singularidades dele. Então era tudo muito escondido a troca das bolinhas.

 

P/1 – Ele era teu amigo?

 

R – Era superamigo. Era superamigo. Criança não tem um pingo de implicação com relação a isso, né? Troca um vestidinho de tule por bolinha de gude sem problema nenhum, de maneira muito tranquila.

 

P/1 – Como que era na sua casa, quem exercia a autoridade? Seu pai, sua mãe?

 

R – Então, meu pai parou de trabalhar muito cedo. Eu tinha treze anos quando ele parou de trabalhar e aí eu tive que sair pra rua pra poder ter um trabalho, pra poder ajudar na casa. Porque minha mãe não trabalhava e meu pai... Bom, ele trabalhava numa empresa, convidaram pra montar uma joalheria, ele ajudar a montar, ele foi. E aí lá nessa joalheria ele foi ludibriado de alguma forma que eu não me lembro bem como. Eu era muito pequena e era muito traumática a história de começar a trabalhar muito cedo. A gente praticamente não tinha essa ideia da vida, a gente brincava muito, então era muito solto na rua. Eu me lembro de cuidados em relação à criança uma vez que eu, brincando na rua, tinha um limoeiro cortado e eu me machuquei no limoeiro e à noite estava lá com um ferimento enorme, tive que passar o dia no hospital esperando pra fazer teste de tétano, né? Eu lembro de cuidados em caso assim, né?

 

P/1 – Extremos?

 

R – Em ápice, né. Porque senão a gente se virava na rua. As crianças, uma ajudava a cuidar da outra. Então meu pai parou de trabalhar e a gente teve que se organizar pra ir trabalhar. A autoridade assim, a autoridade dele era uma autoridade questionável, porque pra nós ele era... Ele bebia também, era complicado. E a minha mãe não exercia um poder que pudesse se sobressair a ele. Então nós mesmos é que fazíamos essa administração mais... Se a gente pudesse dizer, vivia uma autoridade compartilhada. Tinha que sobreviver e cada um de nós sabia mais ou menos como fazer isso.

 

P/1 – Com quantos anos você entrou na escola?

 

R – Nossa, eu entrei na escola... Na minha época não tinha, a gente também não tinha... Os pais não tinham essa preocupação com escola antes do Ensino Fundamental. Então a minha escola eu fui estudando sem... Andando na escola naturalmente, né? Tinha acho que então sete anos. Não eram seis. Sete anos.

 

P/1 – Que lembrança você tem desse período da escola?

 

R – Nossa, escola... A gente morava, as casas ficavam aqui num plano e tinha uma descidona. A escola ficava próxima de casa. Todos nós estudávamos juntos, conheciam juntos, né? Eu gostava muito de estudar, estudar pra mim era um jeito... O meu pai adorava... Era assim, eu me lembro que na escola tinha um distintivo de líder e eu lutava por aquele distintivo até não poder mais pra poder levar pra casa e mostrar pra ele. Meu pai era assim, se eu aparecesse em casa com um boletim nove e meio ele dizia assim: “Ah, minha filha, nove e meio que bom, mas tão pertinho do dez, né? Porque você não se esforçou mais um pouquinho pro dez?”. Então eu queria me sobressair, que era um jeito de conseguir a atenção dele, ele gostava disso. Eu me lembro, eu tinha um amiguinho que chamava Gabriel, judiação. Numa época a gente disputava esse distintivo de líder aí e eu vivia com ele. Numa determinada época eu perdi o distintivo de líder pro Gabriel, judiação, que não conseguiu ficar com o distintivo de líder de tanto que eu chorava, por que como que eu ia chegar em casa e dizer que eu tinha perdido o distintivo? Eu me lembro que ele veio em casa à noite, ele foi embora pra casa com o distintivo, veio à noite com o distintivo na mão pra me dar pra eu voltar pra casa com o distintivo. Ele abriu mão do distintivo do líder. Ele era também um... Mais pra frente ele me emprestava livros, porque eu não tinha possibilidade de comprar o livro. Eu tinha que passar na sala dele, pegar o livro com ele pra poder ir pra minha sala. Era livro de inglês.

 

P/1 – Você gostava de estudar?

 

R – Adorava estudar. Adorava estudar, adoro hoje estudar também.

 

P/1 – Quais as matérias que você gostava? O que você gostava?

 

R – Nossa, eu gostava de Matemática. Adorava Matemática, gostava de Português, eu não gostava de Física, Química. O meu Ginásio... Naquela época a gente fazia o Primário, a Admissão, o Ginásio e o Colegial. O meu Ginásio era um Ginásio experimental. Era uma escola pública e era um formato experimental. Eu me lembro, a gente não tinha notas, só tinha conceitos, não sabia quando tinha provas e eles incluíram várias matérias que naquela época não era comum no Ginásio. Então tinha Filosofia, já tinha Psicologia e educação do lar, técnicas de escritório. Eu gostava, também gostava de técnicas de escritório, a Psicologia e Filosofia, eu adorava, porque a gente podia desenvolver um pensamento lá, podia opinar. Lia, o professor era muito bacana, lia e pedia a opinião da gente. Eu era jogadora de voleibol, então representava o Ginásio naquela época. Tinha onze anos e me lembro de chegar pro meu pai e pedir pra ele pra poder tirar a identidade porque a gente viajava pra jogar em outros lugares, outros estados e precisava ter documento pra poder se locomover. Então era jogadora de voleibol, adorava jogar. Pulava o muro da escola pra jogar na pracinha. Era um inferno, era empesteado, Ginásio e Colégio era um problema grave. Só não fui problema grave porque eu ia bem na aula, passava, então... Mas tinha... As artes eram essas: cabular aula pra jogar em algum lugar, passear e fazer almoço na casa de alguém. A gente fazia ponche de champagne com pêssego. Chegava na escola de fogo. Na aula de educação do lar, nossa, a professora fazia...

 

P/1 – E você disse que você começou a trabalhar com treze anos. Você trabalhava e estudava?

 

R – Eu comecei a trabalhar... Então, nessa época eu estudava, jogava vôlei e aí eu tive que ir atrás de um trabalho. Com treze anos não é nada fácil você achar um lugar pra trabalhar. Então eu trabalhei relacionado ao voleibol ainda. Daí com quinze eu tive que procurar um trabalho de fato.

 

P/ 1 – Relacionado ao voleibol, como é que era?

 

R – Era no DEF. Departamento, Federação de Esportes e trabalhava como assistente geral de escritório, né? Era um jeito de se ganhar um pouco de dinheiro.

 

P/1 – Mas você ia à tarde? Passou a estudar à noite?

 

R – Não. Eu estudava à noite e ia de manhã até o comecinho da tarde. Depois eu ia pra escola. Eu passei a estudar à noite cedo, porque precisava ter o dia liberado. Mas aí eu jogava, trabalhava e estudava. Aí passou a não dar mais pra eu jogar. Isso foi dolorido pra mim porque eu adorava o voleibol. Aí eu tive que procurar um trabalho que me desse mais recurso. Eu me lembro que eu tirei a carteira profissional e aí eu fui percorrer uma rua em Osasco que tem muitas empresas, aí um cara da (Eternit) falou: “Menina, você é muito nova. Vai embora pra casa”. Falei: “Não posso. Tenho que achar um emprego em algum lugar”. “Então vá ao Bradesco”. Pode falar o nome?

 

P/1 – Claro.

 

R – “Vá ao Bradesco, lá é um lugar onde pega muita gente”. Eu fui e acabei arrumando um emprego lá. Fiquei trabalhando lá em vários lugares, fiz várias coisas lá porque fiquei um tempo bom, acho que sete, oito anos trabalhando lá.

 

P/1 – Deixa-me voltar um pouquinho. Você teve algum tipo de formação religiosa em casa?

 

R – Eles eram católicos, mas não praticantes. Eu fiz primeira comunhão, frequentei o catecismo. A gente não ia à igreja, não havia essa obrigatoriedade. A gente ia quando achava que queria ir por um motivo qualquer. Um adulto que levasse a gente. Minha avó que morava junto adorava fazer programas com as crianças à tarde, então ela levava pra alguns lugares, às vezes era pra igreja. A maior parte das vezes não era pra igreja, a maior parte das vezes a gente ia a um campo de golfe que tinha perto de casa pra pescar girino, pescar peixinho, jogar bola, correr no mato, ir com ela.

 

P/1 – Vocês passeavam em São Paulo?

 

R – Não. Era só Osasco. Em Osasco e naquele lugar, Vila Yara, quando era pequena. Depois quando comecei a trabalhar foi um pouquinho mais pra dentro de Osasco. Passeava em São Paulo quando algum parente vinha buscar e a gente ia e voltava sem identificar direito o percurso onde era São Paulo.

 

P/1 – Qual que é o primeiro lugar que você se lembra de São Paulo?

 

R – Nossa, meu Deus... Itaim Bibi, que foi lá onde eu morei primeiro. Olha, não tenho ideia. Acho que Pinheiros. Ah, sim. Pinheiros e centro, porque ia passear com meu avô. Eram os dois lugares que tinham mais concentração dos amigos deles, mas não porque fazia algum passeio específico ou mais constante. Constante a gente ia pra Pirapora do Bom Jesus, meu pai ia e levava a gente. Tinha que se arrumar, colocar vestidinho, lacinhos e tudo e pegar um ônibus e ir até Pirapora.

 

P/1 – E aí esse emprego em que você entrou, no Bradesco, o que você fazia lá quando você foi pra lá?

 

R – Então, trabalhava em escritório, né? Eu lembro que fui trabalhar num lugar que chamava caixa, que fazia o controle financeiro das pessoas que trabalhavam dentro. Era o Bradesco que é o núcleo primário deles lá na Vila Yara, que é um lugar... A matriz. E aí trabalhei nessa área que era mais financeira. Depois fui caixa executivo, fui gerente, daí eu me aposentei... Não. Eu saí do Bradesco, não adianta falar que me aposentei no Bradesco, eu saí do Bradesco, depois fiz um concurso na Caixa Econômica Federal. Porque eu precisava estudar, eu queria estudar, queria fazer faculdade e eu não tinha, se fosse fazer faculdade quem teria que pagar a faculdade era eu mesma, e no trabalho que eu tava não era bom, não era suficiente. Eu fui fazer esse concurso pra poder ganhar mais e entrar na faculdade. Fiz as duas coisas ao mesmo tempo. Aí eu trabalhei na Caixa Econômica Federal por vários lugares.

 

P/1 – Passou no concurso?

 

R – Passei no concurso e na faculdade, que era faculdade de Psicologia.

 

P/1 – Onde você fez?

 

R – Na Vila Mariana. Eu saía de Osasco...

 

P/1 – Como que é o nome da faculdade?

 

R – É Faculdade Paulistana de Ciências e Letras. Hoje é universidade.

 

P/1 – E você tinha alguma expectativa na sua família pra que você seguisse alguma carreira ou você escolheu Psicologia, por quê?

 

R – Não. Eu escolhi Psicologia porque gostei de Psicologia logo no Ginásio, a gente tinha essa matéria. Meu pai não tinha nem expectativa que a gente estudasse para alguma coisa. Muito cedo ele abriu mão disso. Mas eu fui fazer Psicologia porque eu gostei da matéria, gostei de Psicologia logo cedo. Eu achava que isso era o que combinaria. Pelo contrário, meu pai achava que era, quando eu resolvi fazer Psicologia, ele achava que era uma área que não ia: “Você vai fazer aí? Não vai ganhar dinheiro. Você precisa sobreviver, precisa trabalhar num lugar onde você possa ganhar dinheiro suficiente pra sobreviver”.

 

P/1 – E aí você fez a faculdade de Psicologia trabalhando na Caixa. Como é que foi esse período da faculdade?

 

R – Fiz. Nossa, é complicado porque eu saía de Osasco às seis. Eu trabalhava o dia inteiro, saía de Osasco às seis, pegava a faculdade das sete e meia até as onze, onze e meia e depois pegava o ônibus, porque não tinha carro aquela época, pegava o ônibus de volta da Vila Mariana pra Osasco. Eu saía de lá umas onze e meia e chegava em casa uma hora, por aí. Fiz isso a faculdade inteira que foram cinco anos.

 

P/1 – E como é que eram os amigos, os cursos?

 

R – Quando eu entrei eu achei o curso meio chato. O primeiro ano de Psicologia é básico, é uma formação muito teórica, eu tinha uma expectativa de ser uma coisa prática. Imagina. Era uma ilusão, como se eu pudesse já trabalhar sem estudar antes. Mas depois no segundo, no terceiro ano as coisas foram ficando mais interessantes e eu gostava muito da faculdade. Os amigos eram bacanas, eu tinha um grupo grande. Naquela época nem me dava conta de cansaço, porque deveria ter, né? Trabalhava o dia inteiro e depois ia pra escola. Era exigente, eu tinha muita leitura, a gente estudava muito. Então eu vivia com o livro embaixo do braço lendo no ônibus, andando na rua lendo. E variavelmente caía porque não pisava no lugar certo, tava lendo enquanto andava. Mas eu gostava muito, eu gosto muito de estudar e gostava muito.

 

P/1 – E você tinha uma expectativa de seguir alguma carreira ou continuar na Caixa, já que você era concursada?

 

R – Então, na Caixa eu não tinha, não, nenhuma expectativa de carreira lá. Na verdade trabalhar lá era pra poder manter a vida e poder fazer o consultório dar certo. Investir num lugar onde eu pudesse ir devagar conquistando espaço. Aí foi isso que eu fiz. Trabalhei lá durante um bom tempo, o período todo, a gente tinha possibilidade de escolher trabalhar meio período, e depois eu fui trabalhando meio período lá, meio período no consultório até que o consultório ficou firme o suficiente pra eu trabalhar mais no consultório do que lá. Mas isso deu tempo de me aposentar.

 

P/1 – Ah, você se aposentou na Caixa?

 

R – Eu me aposentei. Naquela época se aposentava com vitne e cinco anos de trabalho, aí eles tiveram um plano de demissão voluntária e eu saí no plano de demissão voluntária e continuei trabalhando no consultório.

 

P/1 – Com quantos anos você se aposentou? Cedo.

 

R – Nossa, eu acho que tem dez anos que eu me aposentei. Não. Eu acho que eu me aposentei com quarenta e seis anos, por aí. Eu me aposentei cedo porque comecei a trabalhar cedo e me aposentei depois de vinte e três anos de trabalho. Então eu me aposentei cedo. Foi o último ano da aposentadoria... Logo em seguida a lei da Previdência Social mudou.

 

P/1 – Voltando um pouco, você trabalhava, estudava, e namorado, diversão?

 

R – Ah, eu me divertia muito. Eu comecei a namorar muito cedo. Eu tinha onze anos quando eu comecei a namorar.

 

P/1 – Foi seu primeiro namorado?

 

R – Foi.

 

P/1 – Como foi? Quem é que era?

 

R – Nossa, era um menino lindo da escola e todo mundo ficava muito interessada nele. Eu não tinha um pingo de ideia do que era namorar, onze anos, né? Mas como todo mundo, todas as meninas ficavam muito ligadas nele. Moreno, alto, lindo. Imagina, quase que um príncipe encantado. Um namorico bobo. Depois com catorze anos namorei, aí namorei... Eu namoro por muito tempo e sempre namorei. Tanto que quando eu me separei eu achei muito estranho ficar sozinho porque tinha ficado trinta e dois anos me relacionando com alguém. Então aos catorze eu comecei a namorar um cara que era muito mais velho do que eu e que aí queria se casar. Mas eu, quando resolvi me casar que tinha quinze, dezesseis anos, fui falar pro meu pai, ele não deu nenhuma atenção em relação a isso. Achei chatérrimo e aí desmanchei o namoro. Logo em seguida fui namorar outra pessoa que fiquei mais oito anos. Eu namoro longo.

 

P/1 – E você se casou, você disse que depois se casou.

 

R – Eu me casei. Depois desse namoro eu tive outro namorado que fiquei muito tempo e depois na Caixa eu conheci meu ex-marido, que agora já não sou mais casada.

 

P/1 – Como que você o conheceu? Você se lembra do primeiro dia que você o viu?

 

R – Eu me lembro que eu fui ver um jogo de vôlei, porque alguém lá tinha descoberto que eu tinha jogado vôlei e queriam me mostrar a turma da Caixa que jogava vôlei. Ele tava assistindo e aí a gente conversou sobre voleibol, mais tarde eu fui trabalhar numa agência onde ele trabalhava. Aí foi que a gente ficou mais próximo e acabou se interessando um pelo outro. Eu namorava há oito anos outra pessoa e aí terminei esse namoro e comecei a namorar ele.

 

P/1 – Pra ficar com ele?

 

R – Pra ficar com ele.

 

P/1 – Apaixonou-se.

 

R – É. Nós tínhamos uma relação muito boa, muito interessante.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu já tinha mais de trinta. Vinte e nove, trinta.

 

P/1 – E ele?

 

R – Foi em 1998 que eu me casei. Eu o conheci em 1994. Ele tinha a mesma idade que eu, era um pouco mais novo que eu, meses mais novo que eu. A gente namorou alguns anos, acho que dois anos e daí resolvemos casar. Ficamos casados...

 

P/1 – Até então você morava em Osasco?

 

R – Não. Eu já tinha saído de Osasco e tinha ido morar em São Paulo. Porque quando eu comecei a trabalhar na Caixa, felizmente eu tinha um chefe que era muito bacana e me incentivou a comprar um apartamento. Foi o primeiro apartamento que eu comprei, um apartamento pequenininho em Pinheiros. Aí eu acabei indo morar lá, saí da casa do meu pai, fui morar lá que era mais perto de tudo o que eu fazia.

 

P/1 – Que rua?

 

R – Cardeal Arcoverde. Eu adorava lá.

 

P/1 – Como é que era a Cardeal?

 

R – O meu apartamento era pequenininho.

 

P/1 – É como é hoje?

 

R – Não. Não é. Não era. Aquele lado de Pinheiros é mais tradicional, né? Então não tinha esses badalos todos que tinha em Pinheiros. Era um bairro que tinha muito comércio e ficava... Eu trabalhava na Pedroso de Morais, a Cardeal é a rua debaixo. Então morava superpertinho. Eu morei lá um tempo, daí eu me casei, fiquei lá um tempo, uns dois anos e depois nós compramos um lugar em Cotia. Fui morar no mato. Morei lá dezessete anos num condomínio de pequenas chacarazinhas.

 

P/1 – E por que vocês escolheram Cotia?

 

R – Ele nasceu em Cotia e a gente tinha o sonho de morar fora de São Paulo. Então a gente foi morar lá em Cotia. Achamos um lugar, um terreno que era bom e enquanto a gente comprou o terreno e ia construindo, fomos morar numa casa alugada lá perto. Acabamos ficando com a casa e vendendo o terreno, o carro, tudo que a gente tinha pra poder comprar essa casa que a gente morou bastante tempo, e morar lá.

 

P/1 – E filhos você teve lá? Você teve filho? Não teve filho?

 

R – Não tive filhos. Eu tive várias gravidezes que eu perdi. Eu tinha placenta prévia, porque tinha mioma e não ia até o final. A gravidez que eu fui até um pouco mais eu fui até uns seis meses. Seis não. Cinco meses. E aí eu perdi, foi a última gravidez que eu decidi não tentar.

 

P/1 – Quantas vezes você tentou?

 

R – Acho que foram cinco vezes. Cinco vezes de gravidezes confirmadas, não é? Porque a gente tentou muitos anos e aí essa última como eu tive uma atonia uterina na mesa, eu tive um choque e as pessoas que estavam lá da minha família ficaram sabendo, já tinham sido avisadas que era possível que eu não voltasse porque eu tava com uma pressão de dois por zero. Então foi a primeira experiência de quase não retornar pra vida. Eu nem tinha ciência disso porque quando eu saí da sala cirúrgica, a hora que eu saí, o meu ex-marido tava esperando e disse: “Volta. Volta que eu to te esperando”. “Mas que cara louco. Claro que eu vou voltar. Eu vim com ele, não vou com ele?”. Eu tava saindo de lá pra ir pra UTI porque tinha perdido muito sangue e tava numa condição ruim de prognóstico, fiquei na UTI durante muito tempo. O meu médico que me assistia disse: “Não quero mais te acompanhar. Eu não vou tentar mais. Essa pra mim é a última vez”. Aí eu desisti, não quis mais ter, achei que lutar pela minha vida era a opção naquela hora.

 

P/1 – E aí você se separou por quê? Vocês se separaram depois de quanto tempo?

 

R – Nossa, eu me separei depois... Nós ficamos juntos vinte e um anos. De casada eu tinha dezoito anos. Eu me separei em 2006. Separei-me porque...  A gente se dava muitíssimo bem, era muito junto e durante um bom tempo eu trabalhava muito.

 

P/1 – No consultório.

 

R – No meu consultório. E eu trabalhava em São Paulo e morava em Cotia. Então levava duas horas pra ir, duas pra voltar. Eu voltava muito tarde pra casa, ele reclamou muito. Não me dei conta disso no meio do caminho, um pouco mais pra frente descobri que ele tinha tido um relacionamento com outra pessoa que trabalhava com ele e descobri que eles tinham tido uma filha juntos. Aí foi quando eu me separei.

 

P/1 – Ele escondeu de você a filha?

 

R – Foi.

 

P/1 – Quanto tempo?

 

R – Quando eu descobri tinha um ano e meio. A menina tinha um ano e meio. Mas descobri assim porque achei que tinha alguma coisa estranha, comecei a procurar... Porque eu sou muito sossegada, não acho que a vida é boa quando a gente fica muito estressada, não gosto de estar em relações que eu não possa me sentir segura. Eu comecei a achar que o relacionamento não era tão mais seguro assim e comecei a procurar. Aí descobri o relacionamento e depois ele me contou que tinha uma filha desse relacionamento. De uma pessoa que trabalhava com ele, que eu conversava muito constantemente. Não acho que... Durante muito tempo, quando eu soube disso, eu me separei. No ano que eu me separei, foi 2006, eu me separei em março de 2006 e em junho de 2006 eu tive o meu diagnóstico de câncer de mama. Então eu tinha perdido nesse ano absolutamente tudo. Tinha perdido minha família, minha saúde, minha casa, porque eu já não podia ficar sozinha lá em Cotia. Eu morava numa casa que era grande e no meio do mato, de bosques. Eu ficaria sozinha naquele lugar sem ninguém. Pessoas muito longe, os vizinhos moravam muito longe porque também tinham pequenas chacarazinhas. E aí eu tinha que vir pra São Paulo pra fazer meu tratamento, poder dar conta do que naquele ano tava aparecendo.

 

P/1 – Como é que você soube? Como é que você teve o diagnóstico?

 

R – Eu já sabia que alguma coisa não andava muito bem, porque eu me sentia mal e tinha um nódulo...

 

P/1 – Já antes da separação?

 

R – Antes. Antes da separação. Eu tinha um nódulo no seio direito que, quando a gente pesquisava, ele sinalizava como benigno. Eu era radicalmente contra tirar qualquer coisa que não fosse necessária tirar no corpo. Eu queria entender, lidar, fazia homeopatia. Então eu tinha, naquilo que eu sabia, eu tinha um nódulo benigno. Mas quando eu fazia a pulsão, que é um dos exames, ele dava a fibroadenoma, que é um tumor benigno, mas o centro dele era um tumor maligno. Eu só fui descobrir mesmo depois. Mas eu acho que tinha a ver mesmo com os últimos anos do meu casamento, porque depois que eu soube do que tinha acontecido nós resolvemos ficar juntos ainda. Eu tinha uma ideia de que talvez Deus tivesse me dado uma possibilidade, a vida, o destino, Deus, tivesse me dado uma possibilidade de ter uma filha de uma maneira torta. Ele não queria sair de casa, a sustentação disso era que queria manter o mesmo relacionamento e eu fiquei durante três anos dessa maneira. Eu acho que foram três anos definitivos pra minha doença. Anos de muito sofrimento.

 

P/1 – Por que ele continuava tendo relação com a outra?

 

R – Não. Eu não sabia. Ele continuava e eu não sabia. Mas isso não foi o que interferiu. Mas conviver com a menina, conviver com a história. Eu não achava que tinha cabimento uma história dessa na minha vida. Eu me casei, a minha mãe me ensinou que casamento era pra sempre. Meu pai tinha dado muito trabalho à ela, era alcoólatra, ela tinha muita dificuldade com ele, mas continuava. Eu aprendi com ela que casamento era algo, independente de ser uma mulher que vive na modernidade, pra mim o casamento era pra sempre. Eu acho que fiquei mais tempo do que eu deveria de fato ficar.

 

P/1 – E quando você teve o diagnóstico... (troca de fita)

 

R – Eu me lembrei agora de uma lembrança de família quando a gente era pequenininha. A gente fazia nhoque juntas, as mulheres na cozinha, né? Então a gente entrava na cozinha, tinha música, ela tomava vinho, as pequenas não podiam tomar vinho, tomavam suco de uva que era pra fingir que era o vinho e a gente fazia nhoque. Ela fazia a massa, minha mãe amassava, eu fazia os rolinhos, a Márcia cortava e colocava o dedinho pra fazer o nhoque. Era uma festa, né? Eu lembro, puxa, tão pouco dinheiro, tão pouca possibilidade, a gente tirava energia pra comemorar juntas, as mulheres, pra fazer parcerias. Porque quando você precisa se defender da vida, todo mundo pega na mão do outro e tenta ir junto. Era um domingo divertidíssimo, mesmo dentro de casa, mesmo com poucas possibilidades. Era legal.

 

P/1 – Regina, quando você teve o diagnóstico você foi sozinha, você tava com alguém, onde é que foi?

 

R – Então, eu tava me sentindo...

 

P/1 – Você disse que você já sabia.

 

R – É. Eu tava me sentindo mal, fraca, frágil, eu achei que alguma coisa tava acontecendo. Aí um amigo que é médico me viu e ele falou: “Meu bem, você reze pra ser um diagnóstico, pra ser um tumor benigno. Porque senão nós estamos com um problema sério”. E aí quando eu fui fazer os exames, eu fui pra fazer os exames, o primeiro exame deu de novo um tumor benigno. Mas a gente resolveu então fazer biópsia, tirar, abrir e tirar um pedaço pra ver o que era e acabou achando... Eu fui com uma amiga que era sócia no consultório. Eu me lembro, eu sou muito determinada quando tem que enfrentar alguma coisa, eu sou lutadora, né? Então eu me lembro de sair do meu consultório, eu fui pro médico que era umas duas quadras. Eu entrei, tava com ela, eu entrei sozinha quando ele me falou que eu tinha câncer, quando eu saí de lá eu tinha que, naquele trajeto entre o médico e o meu consultório, tinha que determinar o que eu ia fazer. Então eu vinha firme. Ela não conseguia andar, minha amiga. E eu dizia assim: “Mas eu tenho que chegar rápido. Você tá me atrasando”. Ela falava assim: “Mas eu não consigo andar. Eu tô tão impactada que eu não consigo andar”. Eu precisava vir puxando ela até o consultório. Quando cheguei ao consultório, eu sentei, escolhi um médico, pensei: “Bom, quem que eu quero?”. Então quando eu cheguei ao consultório...

 

P/1 – Porque você ia escolher, você tinha uma opção. Não era mais esse seu amigo?

 

R – Não. Esse meu amigo não era oncologista.

 

P/1 – Ah tá. Ele que te levou, aí você tinha que escolher o onco.

 

R – Ele me viu inicialmente, porque era amigo, não porque era médico.

 

P/1 – Aí você foi procurar pra tratar.

 

R – É. Aí eu escolhi um médico que eu conheci, que sabia que era uma pessoa...

 

P/1 – Era do seu convênio?

 

R – Era doce. Era. Por acaso era do meu convênio. Mas por acaso eu também tinha um pouco de dinheiro guardado, o que foi ótimo, porque quem tem câncer, infelizmente ainda hoje, pra ter boas opções precisa ter um pouco de recursos financeiros. Ainda hoje. Eu trabalho nessa área. Eu falo que Deus me treinou antes e me mandou a prova depois, porque eu já trabalhava em psico-oncologia no consultório há...

 

P/1 – Já era a sua especialidade.

 

R – Há mais de dez anos. Então eu cheguei no consultório e escolhi um médico. Liguei pra ele, perguntei se ele podia me atender, ele disse que sim. Na segunda-feira eu tava... Era sexta isso. Na segunda eu tava lá fazendo o plano já do meu tratamento. E comecei a fazer quimioterapia durante um tempo.

 

P/1 – Aí você escolheu um médico...

 

R – Escolhi um médico, escolhi a clínica, porque eu precisava de uma boa clínica também pra poder fazer o tratamento, comecei a fazer quimio. Você vê uma coisa, as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Era quase que impossível eu pensar a respeito da minha separação, porque eu precisava decidir tanta coisa, tanta coisa pra sobrevivência que isso ficou em segundo plano. Até aí eu já tinha entendido muito mais coisas do que eu entendia, comecei a aceitar. Eu sempre fui de personalidade muito forte, muito determinada e a onipotência junta aí muito fácil. Então o ano de 2006 me dobrou a coluna e me fez experimentar, negociar com a vida, que era o mais grave pra mim. O mais grave pra mim naquela hora não era ter desmontado o casamento, já tinha sido, há anos, três anos atrás, desmontar o casamento era quase impossível de aceitar. Mas o diagnóstico do câncer aí era sentar do lado da morte e conviver com ela durante um tempo. Eu sabia que era um prognóstico complicado pra mim. Então eu tive que fazer quimioterapia antes, nós fizemos quatro sessões de quimioterapia antes. Depois eu fiz uma cirurgia, mastectomia, depois eu fiz mais quatro sessões de quimio. Depois eu fiz radio e depois, até hoje que já faz cinco anos, eu fiz hormonioterapia que é um tratamento adicional. Mas esse ano de 2006 eu tinha que sair, eu saí de Cotia e vim morar em São Paulo na casa de uma amiga minha que me acolheu em São Paulo oito meses, fiquei na casa dela, viabilizando um tratamento. Depois, eu fui procurar uma casa pra mim então. Achei uma casa e trouxe um pouco dos meus bichos de lá, porque lá nós éramos protetores de animais. Então eu tinha muito bicho, planta, eu vivia muito na terra. Eu sabia que aquilo, você vê, é uma coisa, eu sabia que aquilo ia me dar uma base importante. Depois eu fui usar, muito tempo depois, a estrutura de viver com a natureza, de me relacionar com ciclos naturais e saber que a vida funciona com vida, morte e renascimento todos os dias. A natureza me deu essa possibilidade de enfrentar o que vinha depois.

 

P/1 – Que bichos você tinha?

 

R – Nossa, eu tinha gato, cachorro, papagaio, periquito, cavalo. As crianças do condomínio iam lá e falavam assim: “Tia, posso entrar pra conhecer o minizoológico?”.

 

P/1 – E aí, quando você veio pra cá, você trouxe quais bichos?

 

R – Eu trouxe alguns. Porque lá eu cheguei a ter cinquenta cachorros em canis separados pra cuidar, né? Porque como protetora a gente era lar transitório, né? Então às vezes o bicho ia pra lá pra gente cuidar pra depois poder encaminhar. Aí quando eu vim a São Paulo pra mim era terrível ficar em um apartamento. Então, quando eu comecei a procurar casa pra mim, eu comecei a procurar um apartamento. Mas aí eu ia direto pra janela buscar algum lugar pra eu sair do apartamento. Eu disse: “Bom, então tem que ser uma casa”. Só que casa é muito mais complicado, mais caro. Segurança é outra coisa, eu ia morar sozinha, eu tava fazendo um tratamento. Enfim, eu acabei achando uma casa muito interessante que eu fui negociar. Logo que eu fui negociar o cara nem quis ouvir: “Não. Você vai morar sozinha? Aquela casa não é pra você, tem muita exigência tal”. Aí passaram alguns meses e a casa diminuiu o preço, a casa era pra mim mesmo, acabei ficando com ela. Aí eu trouxe três cachorros de lá, trouxe dois gatos, mas um deles... Os dois já morreram e agora tenho outro, outra gatinha. Trouxe os papagaios e alguns passarinhos que eu tinha lá, também vieram pra cá.

 

P/1 – E aí durante esse tratamento, quer dizer, você desenvolveu algum aspecto religioso, tipo de espiritualidade?

 

R – Eu sempre fui muito espiritualizada. Independente de não ter religião, a natureza me deu isso, uma condição de interiorizar e de acreditar em algo muito maior do que eu, de saber que as coisas acontecem com um propósito diferenciado, né? Então eu já era bastante espiritualizada e o câncer me deu muito mais aprofundamento nisso. Quem tem câncer convive com o dia. Pra você conviver com o próximo dia, você precisa ter esperança. Com esperança, pra você vislumbrar alguma coisa pra frente, você precisa ter muita ajuda, muito suporte, muita ajuda. Ajuda de pessoas, de coisas, de objetos, do divino, de tudo que puder caminhar com você. Eu não acho que é só câncer. Eu acho que são as grandes crises, né? As crises que trazem a dimensão humana, a dimensão de que você de fato não é absolutamente nada se estiver sozinho, se estiver desconectado do mundo, do universo.

 

P/1 – Isso que você fala, que você falou um pouquinho lá atrás, que você teve que começar a negociar com a vida.

 

R – Novamente.

 

P/1 – O que é esse negociar com a vida? É isso?

 

R – Pra mim isso é... É. Pra mim era como um renascimento mesmo. Eu precisava me encontrar de fato, saber o que eu queria da vida de fato, se eu queria mais. Porque tudo era questionado naquele momento. Se eu queria ficar casada ou não. Se eu queria me casar, por que eu queria manter um casamento? O que tinha me feito ficar lá tantos anos numa condição que eu não acredito? Eu acredito que amores tem tempo definitivo mesmo. Alguns duram mais tempo, outros duram menos tempo, mas eles acabam. Então aceitar... Eu menos chorei pelo... O que eu menos chorei foi pela perda da pessoa, do marido. Mas me doía muito não ter montado uma família, de me separar e me ver sozinha.

 

P/1 – E a sua família, seus irmãos, quem te deu apoio nessa hora? Os que mais te apoiaram?

 

R – A minha mãe é muito dirigida, né? Então ela me chamou e disse: “Você decida o que você quer e nós vamos estar com você”. E estivera mesmo. A minha sorte é essa, que eu tenho muitos amigos e a minha família, foram eles que me carregaram cada momento. Eu me separei e a partir daí nunca mais tive nenhum contato, nem com meu ex-marido, nem com a família dele.

 

P/1 – Nunca mais?

 

R – Não.

 

P/1 – Ele soube da sua doença?

 

R – Soube.

 

P/1 – E ele apareceu?

 

R – Não. Eu acho que tem um contexto todo aí. Eu acho que tem vergonha pelo que tinha acontecido. Acho que tinha uma história mesmo impossível de contemporizar pra todo mundo. Havia de ter uma quebra aí pra que as coisas se organizassem. Os caminhos já tinham se partido e a gente tava com medo de seguir o caminho partido. Mas a minha família foi super em cima... Meus amigos... Eu não tenho nada que não seja um grande tesouro. Dentro dele moram todos os meus amigos que foram absolutamente presentes em tudo o que me aconteceu. Eu não ia a médico sozinha, eu não ia à quimioterapia sozinha. Meus pacientes me faziam, quando eu ia fazer quimioterapia...

 

P/1 – Você continua com consultório?

 

R – Eu continuei. Bom, eu sobrevivia daquilo. Eu não sei fazer outra coisa profissionalmente que não a Psicologia. Então eu tinha uma tarefa. Eu tive que contar a eles o que tava me acontecendo e tentar lidar com isso com cada um deles. Na época foi o que eu resolvi fazer, falar com cada um deles. Eu ia ficar careca logo em seguida, ia aparecer de peruca, ia inchar, né? Eu já não acreditava muito nessa coisa da neutralidade terapêutica. Aí acreditei muito menos porque não tinha essa possibilidade, a vida não tinha me dado essa possibilidade. Então eu tive que falar com todos eles. E aí quando eu ia pra fazer quimioterapia eu tinha que levar caixinha, porque tinha livro, água de coco, tinha comida feita pela mãe que era pra eu comer, tinha santinho e... Como chama? Esqueci. Alguma coisa que era representativo pra pessoa, fugiu a palavra, que era representativo pra pessoa e ela queria me dar...

 

P/1 – Um amuleto.

 

R – Um amuleto. Isso. Queria me dar pra que fosse junto. Eu ia de caixa pra quimioterapia, tinha que pôr na janelinha tudo que era pra mim... Tinha Ipod com várias músicas gravadas e no meio do Ipod...

 

P/1 – Bacana, né? Acho que é uma força.

 

R – No meio tinha alguma música que eu gostava. Então eu tinha que ouvir pra achar as músicas que elas tinham colocadas no meio do Ipod. Eu adoro a Ciranda da Bailarina do Chico. Então, invariavelmente, tinha em vários lugares essa musiquinha pra mim.

 

P/1 – Qual que é a Ciranda?

 

R – É assim: “Todo mundo tem um primeiro namorado...”. Então sempre tinha essa musiquinha dentro do Ipod em algum lugar. Eu tava tão agradecida por viver... Eu tava tão agradecida por ter outra chance de viver que naquela hora não me importou mais aquilo que eu tinha perdido. Eu sabia que ia ter que conquistar de novo, eu ia ter que conquistar outra história, outra condição de vida. Isso dependia de mim, não dependia de mais ninguém naquela hora. Eu tinha achado outros recursos, porque até aí eu tinha vivido dentro de um casamento. Eu ia pra casa e vivia lá o sábado, domingo. Agora tinha outros recursos. Meus amigos, eu nunca ficava sozinha em casa, sempre tinha um programa pra fazer, sempre tinha alguém passando na minha casa e me pegando. Eu me distraía muito. Eu tinha quatro perucas. Eu me distraía com as perucas fazendo chapinha, colocando bobs. Então sempre à noite quando a Maria Helena, Lelê, minha amiga que eu morei na casa dela, chegava, eu tava sempre mexendo em alguma peruca. E comecei a achar interessante brincar um pouco com o que eu tinha conseguido com o corpo. Então pendurava coisinhas na careca, porque... Calor. É horrível peruca. As mais vazadas, no calor peruca é terrível, é quente à beça. Então eu tirava e trabalhava sem. Até aí os meus pacientes já estavam muito adaptados, eles tinham preocupação, então quando eu ia à alguma quimio que eles queriam saber: “E aí? Foi? Fez?”. Até hoje é assim. “Fez seus exames periódicos? Qual é o resultado?”. Eu nem tenho chance de esconder isso, né? Pra mim era decente compartilhar, já que naquele momento eu vivia uma singularidade que me colocava muito próxima de quem sofria também. E era muito evidente, não tinha como fazer com que isso ficasse não evidente. Então eu acabei vivendo muito de afeto, foi uma época muito amorosa, as pessoas foram muito afetivas comigo, foram muito acolhedoras. E passou. Eu fiz a minha primeira... A mastectomia, eu fiz em setembro de 2006. Eu comecei a quimio em julho de 2006, a maste eu fiz em setembro de 2006 e aí tinha tanta gente no meu quarto que quando o médico entrou, falou: “O que é isso? Isso tá parecendo uma festa”. Elas jogavam baralho. Eu voltei da cirurgia e eu volto da cirurgia alegre. Eu volto falando, falante. Então eu falava assim pra elas: “Escuta, eu sou doente, alguém tem que me dar atenção”. Elas diziam: “Fica quieta”. E jogavam carta. Cheio. Lotado dos meus amigos no quarto. Os meus médicos sempre sabiam que quando fosse dar algum resultado tinha que dar pra mais gente.

 

P/1 – Que hospital que você tava?

 

R – No Oswaldo Cruz que é uma delícia de hospital. Porque eles me deram uma ala, a ala velha. Eu tava na área, né? Então conhecia médico, conhecia enfermeira, conhecia hospital, tudo. Eu tava na ala velha que tem uma varanda e dá pra um jardim com passarinho. Era uma delícia lá. E o hospital é muito bacana.

 

P/1 – Regina, você falou que você já tava nessa área de Psicologia voltada pra essa área de Oncologia. O que mudou, quer dizer, a sua vida mudou muita coisa, conforme você tá falando, mas profissionalmente, no trato mesmo com essa questão da Oncologia, antes e depois que você teve o diagnóstico?

 

R – Olha, eu não sei te falar o que ficou em pé. Tudo modificou. Eu tenho muito mais, hoje em dia eu me sinto mais livre, sinto mais verdadeira, sinto muito mais presente nas coisas que eu faço, o consultório também é uma delas. Isso me deu uma compaixão, uma possibilidade de viver, de sentir aquilo que o outro vive, aquilo que o outro passa, muito mais rápida. Eu me sinto muito menos envolvida com julgamentos hoje em dia. Eu levo muito mais tempo pra julgar porque eu consigo compreender melhor enquanto não julgo. É mais fácil entender o sofrimento e pequenas singularidades no sofrimento de alguém, né? A dor de quem vive determinada crise é muito própria daquela pessoa. Ninguém consegue entender com o seu referencial. Você precisa ter ouvido pra ouvir o outro. Isso foi muito mais fácil pra mim. Eu não acredito que tenha cura fora da pessoa. Eu acredito que as relações ajudam que você encontre dentro de si os seus fatores curativos. Aí os médicos e os medicamentos, os procedimentos, tudo vem nessa mesma linha. Então eu acho que quanto mais verdadeira você é com o outro, mais fácil do outro encontrar aquilo que ele busca dentro de si. Eu me sinto mais inteira, mais plena no trabalho e na minha vida. Eu perco muito menos tempo com besteiras e desperdícios de vida, de energia. O câncer me ensinou que esse é o último dia da minha vida. Igual o cara lá da Ecosport, da propaganda do Ecosport que ele levanta e fala: “Hoje é o último dia da minha vida”. Ele vai dormir e no outro dia ele levanta e fala: “Hoje é o último dia da minha vida”. Eu faço isso comigo todos os dias. Logo depois de cair de joelho. Eu acordo e caio de joelho pra agradecer, porque viver é imperdível.

 

P/1 – Se você tivesse que mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que você mudaria?

 

R – Eu não mudaria nada. Nada. Nada. Tudo o que... Quando eu penso no meu pai, penso, puxa, passei tantos anos, enquanto ele era alcoólatra eu não saía de sábado de casa porque eu sabia que ele ia cavar uma briga com a minha mãe e que eu teria que... Alguém teria que defender a minha mãe, interferir, eu ficava em casa. Ele parou de beber e de fumar os dezessete últimos anos dele e isso foi bárbaro pra relação dele com todo mundo, inclusive comigo. Mesmo vivendo o que eu vivi com ele, ter ido trabalhar muito cedo, ele me ensinou a trabalhar. Eu não tenho problema de trabalhar hoje. Eu vou trabalhar e consigo fazer com que o meu dia seja um dia produtivo. Eu acho que isso a gente aprende tanto com as facilidades quanto com as dificuldades da vida. A minha separação me ensinou a olhar pra dentro da relação, pra ver que as coisas que acontecem num relacionamento não têm a ver com uma pessoa só, tem a ver com o relacionamento. Essa culpabilização que a gente faz não leva à nada, só não deixa a gente ver coisas mais amplas pra gente poder topar outros relacionamentos. O câncer me ensinou a viver. Sentar pra discutir com a morte me ensinou que a vida tem um valor imprescindível. Quando eu terminei a quimioterapia, foi no final de 2006, eu tinha que começar a radioterapia. Eu falei pro meu oncologista: “Eu não vou começar agora. Eu quero me dar um presente, eu vou pra Patagônia”. Tinha um cruzeiro pra Patagônia, falei: “Eu vou viajar. Eu quero ir pra Patagônia e depois que eu voltar eu faço a radioterapia. Dá tempo?” “Dá. Pode ir”. Eu fiz uma viagem tão importante pra mim, numa natureza bruta, selvagem, com mensagens da vida em relação ao que tem de disponível pra gente. Aquelas coisas todas, a gente pode ir e olhar, estão lá, a gente não paga um dinheiro pra isso, a não ser pra efetivar a viagem. A natureza tá lá disponível. Nem o câncer não tiraria. Eu não tiraria. Eu acho que destino é uma coisa perfeita. Ele vem e vai levar você por caminhos tortos ou direitos praquele lugar que você tem que ir. Tortos é quando a gente se debate, né? A gente briga, briga, briga e acaba caindo naquele mesmo lugar, mas com mais dificuldade. Não mudaria nada.

 

P/1 – Quais são os seus sonhos...

 

R – Talvez uma coisa eu repensaria. Eu quis adotar uma criança e não fiz. Não fiz porque o meu parceiro não queria a adoção, não concordava com a adoção e eu tinha me prometido que eu prefiro morrer, na hora que eu tiver morrendo, eu prefiro que eu diga: “Eu me arrependo de ter feito, de ter feito, de ter feito”. Eu não sei o que vai acontecer comigo se eu me arrepender de não ter feito alguma coisa, né? Então eu teria adotado uma criança. Embora, hoje, eu trabalhe com criança e trabalhe com cuidado. Isso me preenche a maternidade muitíssimo bem, mas eu teria me envolvido mais com a ideia de adotar uma criança.

 

P/1 – Quais são os seus sonhos, o seu sonho, seu grande sonho?

 

R – Nossa senhora. Eu tenho tantos agora que me permitiram, porque eu tenho um bilhete azul de vida. Tenho o sonho de ser verdadeira comigo, de não perder o meu lugar, o meu trajeto, por nada nesse mundo. Não ser seduzida por nada nesse mundo, nem por poder, nem por dinheiro, nem sedução, nem por amor. Que eu possa caminhar um caminho verdadeiro. Eu espero que eu me dedique pro meu próximo, porque eu não consigo imaginar que a vida possa acontecer isolada. Eu acho que a gente é uma ligação grande e precisa trabalhar pra isso. Eu gostaria de quando for morrer pensar: “Puxa, eu acho que fiz a diferença em alguma coisa”. Acho que eu queria viajar mais, conhecer mais e mais lugares. São esses.

 

P/1 – Como é seu cotidiano fora o consultório? Você disse que exerce atividades na Oncoguia.

 

R – Então, eu trabalho muito, mas também por causa do câncer eu descobri a dança. Então, quando eu saí do câncer, eu fiz uma mastectomia radical num ano. No outro ano eu fiz um implante de prótese, eu não fiz imediatamente, e no outro ano eu fiz a auréola e o bico do seio, que a gente resolveu fazer em partes que era mais garantido, que seria melhor. Eu fiz uma cirurgia muito radical. Aí tinha que passar pela radioterapia, há um risco da radioterapia também... Bom. Eu saí com o corpo todo mutilado, muito cortado, muito estranho, porque você passa a não ter a sua própria mama. Tem próteses pra você se organizar. Uma coisa é você colocar prótese pra estética e a outra é você restaurar algum pedaço do seu organismo. A restauração não tem nada a ver com a estética. A restauração muitas vezes você vai atrás de uma possibilidade de ter de novo, não é bonito, é o que dá pra se fazer melhor. Eu tinha me prometido isso. Então, quando eu saí desse tratamento todo, eu resolvi procurar alguma coisa pra me integrar de novo com o meu corpo, pra entrar em harmonia com ele novamente. Aí resolvi dançar. Fui fazer dança de salão. Então, hoje em dia eu danço, danço de segunda, de quarta, de quinta e de sábado à tarde. Então eu danço há três anos e pouco, eu danço muito. Com isso a gente sai, passeia, tem um grupo, uma rede social de mais de duzentas pessoas que trocam informações aonde tem baile, tem dança, viagem com baile, viagem com dança. Eu saio pra me divertir. Hoje é quinta, o sapato é de dança. Ele já saí de casa assim porque no final do dia eu vou dançar com os meus amigos até meia noite, uma hora, depois eu vou...

 

P/1 – Aonde vocês dançam hoje, por exemplo?

 

R – Num lugar que chama Buena Vista. Ali na Vila Olímpia, Atílio Innocenti. Esse lugar de quinta-feira se reúnem os professores de dança e os alunos de dança. Aí é dança de salão, porque nos outros dias é um dia forró, no outro é samba de gafieira. Na quinta-feira é dança de salão, então a gente pode dançar todos os ritmos e todos os amigos da dança se encontram lá. Então de quinta eu vou ao Buena Vista. De quarta a gente faz aula particular de dança, é um grupinho que faz lá no meu consultório à noite.

 

P/1 – Seu consultório fica aonde?

 

R – Na Maestro Chiaffarelli que é uma travessinha da Estados Unidos. Eu vou ao cinema, eu vou ao teatro, eu saio, passeio, faço coisas que qualquer pessoa deveria fazer.

 

P/1 – Que lugares de São Paulo você curte passear?

 

R – Eu adoro parque. O Parque Ibirapuera pra mim é demais. Eu adoro ir pra lá, andar de bicicleta, passear por lá. Eu adoro a Avenida Paulista. Eu acho que São Paulo, eu dou aula em vários lugares do Brasil, toda vez que eu chego, eu sou muito curiosa, então toda vez que chego, eu penso: “Ai meu Deus, que bacana, lá tem uma praia. Eu vou descer, eu vou ver”. Quando eu chego e aporto, alguém me pergunta: “Nossa, você é de São Paulo, né? Que bárbaro. O que tem de bacana lá acontecendo agora?”. Então eu acho que São Paulo é um lugar que não existe em nenhum outro lugar. A gente tanto pode viver... Existem mil tribos, você pode fazer coisas diferentes, encontrar com pessoas diferentes num espaço pequeno, né? Eu gosto de ir ao cinema. Eu acho que na Avenida Paulista moram todas as pessoas desse universo, cada uma de um jeito. Adoro lá. Eu gosto da Vila Clementina, onde eu moro, que é um bairro e tem supermercadinho, frutaria e a gente pode andar com os cachorros na rua, encontra gente pra bater papo. Eu gosto da urbanidade também. Eu fui assistir no final de semana no Teatro Alfa, eu fui assistir o grupo O Corpo. Eu tive uma emoção tão gigantesca naquele espetáculo. É uma coisa tão linda e disponível pra gente, né? É porque é São Paulo. Só tem aqui, no Rio e em Minas, porque eles são de Minas. Eu acho que aqui a gente encontra... Eu adoro o Centro, adoro a Praça da Sé com aquele ar de história, né? O que eu mais gostei desse projeto é exatamente a questão de você poder contar a sua história. A gente monta histórias todos os dias. A gente não conta história todos os dias pra si mesmo. Quando fui fazer a leitura das fotos pra poder trazer pra mostrar, eu vou me dando conta das coisas que eu já vivi. Eu acho que a gente tem problema seriíssimo de cultura porque não tem história. História é uma coisa bacana. Eu acho que em vários lugares de São Paulo cheira história. Adoro a Livraria Cultura. Assistir o programa do Gikovate, quando o Gikovate grava o programa dele na Livraria Cultura. Ou sentar, eu vou com a minha amiga Dora na livraria, a gente senta na lanchonete pra comer alguma coisa, pega livros de poesia e fica lendo livro de poesia uma pra outra. Aqui a gente tem tudo em qualquer lugar. O Villa Lobos, o Parque Villa Lobos, eu adoro. Gosto mais de andar de bicicleta lá do que no Ibirapuera. Gosto mais de andar a pé no Ibirapuera do que lá. Agora tem ciclovia, a gente pode andar no meio de carro.

 

P/1 – O que você achou, você já falou um pouco, mas como foi pra você contar a sua história nesse programa aqui no Museu da Pessoa?

 

R – Olha, eu não tinha um pingo de ideia do que isso... Eu achava que ia ser algo, mas eu não tinha um pingo de ideia das coisas que iam acontecendo comigo enquanto eu fui me preparando pra vir. Quando eu fui pegar as fotos pra olhar e montar, essa sensação de ter construído, de ser algo com substância, com consistência. De saber que olhando pra trás tanta coisa já aconteceu, coisas boas e coisas ruins e a gente sobrevive, né? O ser humano tem uma força, uma força, um compromisso com a vida que a gente não sabe de onde sai, sai de lugares e lugares e lugares que a gente não tem nem ideia. Eu não conhecia o museu. Eu nunca tinha visto o Museu da Pessoa. Eu soube porque a Luciana me pediu então pra vir e eu fui olhar. E achei, quando eu entrei na casa, tava comentando, aqueles bonequinhos pendurados, a gente existe porque montou uma história sobre si. A humanidade viveu contando histórias. Deixando como legado história de um pro outro, de um pro outro. Eu achei uma delícia poder construí-la pra mim, vê-la se desvelando na minha frente. Fiquei feliz. Fiquei contente.

 

P/1 – Obrigada, Regina.

 

R – Obrigada eu.

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