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História

A vida do pescador é de muito sofrimento

História de: Dilmo da Silva Roma
Autor: Fernanda Peregrina
Publicado em: 02/10/2013

Sinopse

Dilmo da Silva Roma relatou a vida difícil que teve como pescador em São João da Barra. Falou sobre a experiência de ficar vários dias dentro de um barco em alto mar. Relatou a dificuldade em comercializar o peixe. Mas, apesar de tudo, afirmou que ama o lugar onde vive.

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História completa

P/1 – Pra começar, Senhor Dilmo, eu vou pedir pro senhor falar o seu nome completo, de novo, aqui.

 

R – De novo?

 

P/1 – Pode falar.

 

R – Dilmo da Silva Rosa

 

P/1 – Tá certo, Senhor Dilmo. O senhor falou...  Tem quantos anos?

 

R – 53 anos.

 

P/1 – Cinquenta e três anos, tá certo? Senhor Dilmo, o senhor nasceu aqui mesmo em São Francisco?

 

R – Nascido e criado aqui mesmo, neste lugar, aqui mesmo.

 

P/1 – Nascido e criado aqui, desde sempre?

 

R – É, eu sou muito difícil de sair do lugar. Só saio pro porto, entendeu, pra pescar. Só, também. Mas negócio de cidade, assim, não conheço nada.

 

P/1 – O senhor conheceu seus avós, Seu Dilmo?

 

R – Não. Conheci mais ou menos.

 

P/1 – Mais ou menos? Qual deles o senhor conheceu?

 

R – Eu era pequeno.

 

P/1 – Pequenininho? Do que você lembra? Lembra de algum deles em específico? Do avô ou da avó?

 

R – Lembro.

 

P/1 – O que você se lembra deles?

 

R – Mas é coisa simples.

 

P/1 – Coisa simples... Pode contar coisa simples.

 

R – Pode falar?

 

P/1 – Era a comida dela? O que...

 

R – Ah, não, isso aí não conheço, não. Não cheguei nesse ponto. Quando eu conheci eles, eu era pequenininho. Meu pai e minha mãe, eu conheci mais ou menos também, entendeu como é que é? Porque quando eles morreram, me deixaram pequenininho.

 

P/1 – Eles morreram muito cedo?

 

R – Eu tenho poucas lembrança deles. É isso aí. Eu fui criado assim, entendeu? Eu posso falar o que eu sinto?

 

P/1 – Pode, pode. 

 

R – Pode? Então, eu fui criado na casa de um, na casa de outro, entendeu? Porque eu perdi meu pai e minha mãe muito novinho.

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha? O senhor se lembra? Era bem pequenininho?

 

R – Ah, eu devia ter uns nove anos mais ou menos.

 

P/1 – Entendi. O seu pai era pescador também?

 

R – Pescador, pescador mesmo. Ele era o rei dos pegadores de caranguejo.

 

P/1 – Pegava muito caranguejo? O negócio dele era caranguejo?

 

R – Muito caranguejo. Nós mesmos fomos sustentados com isso aí.

 

P/1 – Até os nove anos, você viveu com seus pais?

 

R – É isso aí. Eu também não tenho muita lembrança, meus irmãos que me contam, contam isso pra mim. Eu sou o mais novo da família.

 

P/1 – Vocês são em quantos irmãos?

 

R – Ah, eu tenho irmão... Eu devo ter o quê? Eu posso falar por parte de mãe e por parte de pai?

 

P/1 – Pode.

 

R – Eu devo ter uns 15 irmãos, mais ou menos.

 

P/1 – Uns 15 irmãos?

 

R – É, uns 15 irmãos. Mas, legítimos mesmo, só tem 2.

 

P/1 – Agora me fala uma coisa, Seu Dilmo: quando o senhor pensa na infância, o que você lembra? Lembra das brincadeiras de infância, brincadeiras de moleque? Do que vocês brincavam?

 

R – Lembro, lembro.

 

P/1 – O que faziam? Do que que vocês brincavam? Conta pra mim.

 

R – A gente brincava muito. Isso aí eu ainda sinto saudade, entendeu? Brincava muito no mato, não existia maldade. Eu posso falar tudo o que eu sinto? Posso?

 

P/1 – Pode

 

R – É isso, se permite isso, né?

 

P/1 – Pode.

 

R – Então, hoje em dia eu sinto falta disso, entendeu?

 

P/1 – Brincava de bola? Como é que eram as brincadeiras?

 

R – Bola, a gente não brincava, não. Brincava mais é de pião, jogar pião.

 

P/1 – Jogava pião?

 

R – Jogava malha, entendeu? A gente apanhava essas carteiras de cigarro, fazia em dinheiro, dobrava certinho. Eu sinto muita saudade disso. A gente tomava muito banho na lagoa. E fui muito sofrido também, minha vida foi muito sofrida.

 

P/1 – Agora, o senhor lembra a primeira vez que foi pro mar? De criança?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como é que foi? O que você lembra dessa vez?

 

R – Eu matei um peixe de um quilo e seiscentos gramas, deve ter uns 45 anos desde que eu comecei a pescar. Quando saí pro mar, apareceu um negócio igualzinho a umas moitas... umas moitas de mato. Eu era tão novo, que eu achava que a gente tinha que passar por debaixo daquelas moita de mato. Mas era mentira, era a barra do dia, entendeu? A gente trata aqui como barra do dia, vinha amanhecendo, entendeu? Mas eu lembro, quando eu era pequenininho, eu matei um peixe de um quilo e seiscentos gramas, uma pescada. Eu fui com um cunhado meu, eu era pequenininho. Eu tenho uns 45 anos de pescaria.

 

P/1 – O senhor contou que brincava na lagoa... E o senhor falou que cresceu na casa dos outros. Como era isso? Ficava um pouco na casa de um, porque quando o seus pais faleceram...

 

R – Aí eu morei com meu cunhado, entendeu? Ele também morreu, nesse mar aí. Aqui, nesse mar nosso, tem muitas pessoas que já morreram. Vivendo assim da pescaria, entendeu? Pegava um mar bravo na hora de entrar dentro da boca de barra, aí, o barco tombava, morria muita gente. Morreu muita gente mesmo. Eu fui criado assim, na casa de um, na casa de outro, entendeu?

 

P/1 – Como era a cidade nessa época? O que você se lembra daqui? Como é que era isso daqui?

 

R – Ah, isso aí era um... meu Deus!

 

P/1 – Era muito diferente do que é hoje?

 

R – Tá doido? Não pode nem comparar, não. Não existia casa, não.

 

P/1 – Como eram as casas antes?

 

R – Quem tivesse uma casa de tijolo, de telha, tá doido? Era muito rico. Eu vou dizer uma coisa pra você, fui muito criado mesmo também _________, minha mãe viveu carregando água pra casa dos outros. A gente antigamente bebia essa água aí do rio. Minha mãe vivia disso, entendeu? Ela tinha um problema no estômago, sentia muita dor no estômago e nessa época, eu e meu irmão, a gente ajudava ela. Botava um pau nas costa, entendeu? Eu, o menor, botava uma ponta de um pau aqui e meu irmão lá atrás. A gente carregava um balde, dois baldes, ajudando sempre.

 

P/1 – Ela levava a água pras casas das outras pessoas?

 

R – É isso aí, mas levava água pra quem podia pagar por essa água.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Entendeu como é que é? Uma pessoa que já tinha uma coisinha, entendeu? Aí, dava um trocadinho. Ela levava uma comidinha pra aquele pessoal, você entende como é que é? 

 

P/1 – Entendo.

 

R – Se eu contar minha vida pra você, poxa! Minha vida foi muito sofrida. Eu vou dizer uma coisa pra você, em toda a cidade... meu Deus, eu me admiro muito! Eu tenho duas filhas, uma com nove anos, outra com sete, meu Deus! Não vivo com essa mulher, não... Como você perguntou se eu era casado, eu não sou casado. Isso aí...

 

P/1 – Você tem dois filhos. Entendi.

 

R – É isso aí. Então, hoje em dia, elas vivem uma vida tão boa, pela vida que eu já vivi. Eu já dormi em casa de estuque. Você já ouviu falar disso?

 

P/1 – Explica o estuque... a casa de barro, né? Explica isso. Como é feito o estuque?

 

R – Estuque é o modo que é essa parede aí, no pau. A gente vai botando umas varinhas, depois vai pegar o barro, e vai fazendo assim, pra evitar o frio, entendeu? Evitar a chuva.

 

P/1 – E as varinhas, você pega no mangue?

 

R – Ahã, as varinhas a gente cortava no mangue. A gente cortava no mangue, cortava outro tipo de madeira, entendeu como que é? Mas chegavam as madrugadas, pegava um temporal, já aconteceu isso comigo, o barro... a gente trata aqui de barro, você sabe o que é barro, né? Hoje o povo fala de outro tipo de barro, hoje o nome é outro.

 

P/1 – Mas, quando chovia, ele começava a sair?

 

R – Meu Deus, para! Não tinha coberta em uma época dessa, cobertinha muito... Eu sofri muito, meu Deus, o barro caía em cima de mim nas madrugadas. Poxa, partia de um lugar, saía de um lugar, ia pro outro, a mesma coisa, entendeu? Poxa, se eu contar a minha vida, meu Deus. Olha, já sofri muito na minha vida. Sabe o que é sofrer? Eu admito, eu tô com 53 anos, admito que uma pessoa foi mais sofrida na vida do que eu. Se eu pudesse falar a minha vida toda pra você. Pra você, não, pra vocês aqui, poxa vida, meu Deus. Acho que eu...

 

P/1 – Vamos por partes, eu vou ajudando o senhor. O senhor tava falando da infância, né? Seu pai faleceu por conta do mar também? Como foi?

 

R – Não, ele quase não pescava, ele era mais pescador da água doce.

 

P/1 – Mais pescador de água doce? Qual é a diferença do pescador de água doce pro pescador de água salgada?

 

R – Ah, pescaria de água salgada é muito sacrificada. O cara fora, leva 10, 15 dias de mar, entendeu? Dependendo, ele leva até mais. O outro já pesca aqui na beira, todo dia tá em casa. Pesca outro tipo de camarão, pega outro tipo de pesca.

 

P/1 – Seu pai, então, era pescador de água doce?

 

R – De água doce. Ele pegava muito camarão de água doce, pegava muita pescada, muito robalo. Aqui mesmo, nessa beirada desse mangue aqui, antigamente.

 

P/1 – Quais eram os peixes que mais davam?

 

R – Robalo, tainha, entendeu? Eles pegavam de facão, eram muitos dentro desse mangue daqui.

 

P/1 – Quando o senhor fala que pegava de facão, como é que era? Explica pra mim.

 

R – É porque sempre tinha água, e de peixe, tinha fartura. Quase ninguém, era muito pouca gente a morar aqui.

 

P/1 – Tinha poucas casas?

 

R – É, isso aí, podia contar as casinhas. Era uma aqui, outra lá, e assim mesmo, casinha assim, de estuque.

 

P/1 – E as pessoas se falavam?

 

R – Não existia telha, não exista taboa. Já conheceu, sabe o que é taboa? Então, muitos usavam sapé. O que você perguntou?

 

P/1 – As pessoas se falavam, apesar de morarem longe umas das outras?

 

R – Eram umas pessoas muito unidas. Hoje... eu não me conformo com a vida que hoje em dia a garotada vive. Tá doido? A garotada hoje em dia, quero dizer, garoto de 15, 16 anos, o que ganha bota na droga e, não sei, eu sou muito contra essas coisas e acho que é porque eu não fui criado assim.

 

P/1 – As pessoas se reuniam na casa dos outros? Ou se reuniam pra contar história?

 

R – Ai meu Deus, para, para. Eu mesmo já brinquei com muita... Hoje as mulheres da minha idade... a gente brincava no mato às 10, 11 horas da noite uma lua que... Eu sinto falta disso tudo, eu sinto falta dessas coisas, ainda, acredita?

 

P/1 – Mesmo que não tivesse iluminação dava pra brincar?

 

R – Tá doido? Era dia outra vez, era uma tranquilidade. A gente não tinha maldade. Menina mesmo, com 15, 14 anos, a gente com 16, 14, brincava. Meu Deus, não existia maldade. Brincava agarrados um com o outro, ninguém tinha maldade. Hoje...

 

P/1 – E tinha festa? Tinha festa de São João?

 

R – Ah, tinha muita festa.

 

P/1 – São Sebastião?

 

R – Só vou dizer uma coisa pra você: tinha, não, tem ainda. Não vou dizer muita coisa de festa pra você, por que eu sou uma pessoa que não é disso, não. Sou uma pessoa muito caseira, gosto dos meus negócios muito direitos. Como naquela hora que você chegou ali. Eu já ia sair pra uns negócio aí, como eu ajo, gosto dos meus negócios direitos. Não sou de festa, não gosto de Carnaval. Não gosto dessas coisas, não gosto de nada, não gosto de forró, eu sou uma pessoa... Não sei, eu mesmo nem me entendo, porque... não sei. Porque eu sou um cara muito caseiro, gosto dos meus negócios muito... Eu sou daquele tempo, daquele povo antigo, daqueles de 90 anos, eu sou desse tipo.

 

P/1 – Quando o senhor fala que o senhor é organizado... Como era a rotina em casa? Como era de pequeno? Tinha hora pra comer? Todo mundo comia junto?

 

R – Isso. A gente vivia comendo coisa de roça mesmo.

 

P/1 – Tinha roça? Então tinha roça, essas coisas?

 

R – Antigamente, tinha muito essas coisas. Hoje em dia, ninguém tá querendo mais isso.

 

P/1 – O que se plantava na roça? O que tinha na roça? O seu pai e a sua mãe tinham uma roça ali perto? Como é que era?

 

R – É, todos eles tinham sua rocinha, entendeu como que é? Todos eles. Eu mesmo tô desta idade, nesta praia mesmo, nesta areia seca mesmo, eu tenho ali um pedacinho de terra que eu rocei escondido, porque não pode assim, negócio... Como se diz?

 

P/1 – Entendi.

 

R – Sabe como é que é? Roçar este mato, negócio de Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], esses negócios... Tem uma rocinha ali, tem batata plantada, entendeu como que é? Eu tenho mamão.

 

P/1 – Pra sua alimentação?

 

R – Isso aí, eu como, eu dou pros outros, sempre gostei daquele jeito de antigamente. Ó, se eu estiver errando alguma palavra aí, vocês me desculpem porque eu não tenho leitura, não sei ler e não tive...

 

P/1 – Isso que eu ia perguntar. Escola, não tinha escola?

 

R – Eu não tive. Naquela época, eu não tive, vivi muito sofrido, trabalhando com minha mãe, eu e meu irmão, sofremos muito.. Nós não tivemos essa liberdade, não tivemos essa chance, entendeu como é que é? Nós fomos muito sofridos. Eu sou ainda. Eu tenho duas filhas, não vivo com essa mulher, mas chego junto com essas duas meninas, não sou aquele pai de fazer e abandonar, não. Pode ir lá no morro, no morro que eles moram, que o prefeito deu, vai lá e pergunte a ela. Tá doido? Eu sou um pai que... poxa!

 

P/1 – Seu Dilmo, me conta uma coisa, falando da infância, qual era a coisa que o senhor mais gostava de fazer quando era pequeno?

 

R – Eu gostava de tudo, tudo era bom naquela época. Não sei, era uma lagoa boa pra gente tomar banho, a gente brincava muito, era uma garotada... jogar pião, jogar malha. Tudo era gostoso. Brincar de roda com as meninas. Juntava um (rodero?), poxa, coisa linda, coisa muito linda esse negócio de botar a mão no olho, você entende? Poxa, uma brincadeira de.... Brinquei muito, já brinquei muito mesmo. Muito gostoso.

 

P/1 – Eu gostaria de perguntar um pouco mais da pesca. A gente começou a falar do seu pai, você falou que na época dele era diferente, tinha mais peixe...

 

R – Diferente.

 

P/1 – O que mais era diferente na época dele? O jeito de pescar era diferente?

 

R – Diferente, era diferente. Não tinha comprador. Pegava o peixe e salgava, entendeu? Aí a gente salgava, a gente, não, ele. Naquela época, eles salgavam o peixe deles, aí iam vender nos vizinhos. Iam vendendo e consumindo eles mesmo. A gente mesmo, a família mesmo, ia consumindo e ia vendendo pra comprar o que comer. Isso aí. Então, a vida era assim. 

 

P/1 – E quem comprava esses peixes?

 

R – Tinha um cara aí, esse cara é vivo ainda. O nome dele é Efraim. Ele era motorista de ônibus, ele viajava pra Campos. Aí, nesse meio tempo, ele comprava o peixe e levava pra lá. O negócio é esse aí, ele que comprava esse peixe do nosso pai.

 

P/1 – E aí, o jeito de preservar era salgando?.

 

R – Salgando, salgava muito.

 

P/1 – Onde que guardava?

 

R – Aí já tinha um lugar pra botar. Salgava, botava dentro de casa, na casa toda... Não tinha ninguém... Não tinha esse negócio de hoje.

 

P/1 – Não tinha TV, não tinha...

 

R – Meu Deus, não tinha nada disso. A gente, talvez, dormia naquela salmoura daquele peixe, naquela água salgada, pra gente não tava dizendo nada. Hoje se você vai pra casa de um... não digo vocês, isso é modo de falar, entendeu? Mas, se vai na casa de um ou de outro, nego já quer reparar o que fulano tem. Antigamente não tinha nada disso, não. Antigamente, a gente... tá doido? Só tinha uma coisa boa, que a gente comia tudo com... como se diz? Com sabor, entendeu? Sabor, eu não sei nem falar essa palavra, como você... hoje mesmo, ó...

 

P/1 – Era um gosto diferente, né?

 

R – Tá doido? É uma coisa que tinha, como se diz, te dava...

 

P/1 – Dava energia.

 

R – Isso aí, você entendeu como é que é. Era uma coisa que você tirava, não vinha com remédio. É aí que eu quero chegar, nesse ponto. Você plantava, ali mesmo você comia. Você sabia que você tava comendo uma coisa... Eu mesmo tenho essas coisas plantadas, sem remédio. É isso aí que eu quero dizer pra você.

 

P/1 – E seu Dilmo, dava pra viver da pesca nessa época?

 

R – Dava nada, tocava roça também. Aí tocava roça, não era só no peixe, não. Plantava uma mandioquinha...

 

P/1 – Aí, uma parte do dia ficava trabalhando na roça, outra parte...

 

R – Certeza. Um pouco de cada coisa, o negócio é isso aí. O negócio era assim. A vida da gente foi muito sofrida, a minha mesmo já sofri muito, meu Deus.

 

P/1 – Como seu pai fazia pra comprar outras coisas que vocês precisassem, por exemplo, se precisasse de um arroz? 

 

R – Tinha essas vendinha, eu lembro, isso aí eu lembro. Quando a gente chegava lá, a gente tratava de negócio com o caixeiro. Caixeiro, que eu quero dizer, é o dono da vendinha. Aí pegava, enrolava aqueles negócios, fazia assim, enrolava. Era um quilo, meio quilo. A gente comprava muitos negócios de cem gramas.

 

P/1 – Vocês trocavam por peixe?

 

R – Trocamos. Tinha coisa que a gente vendia aquele peixinho, vendia pra comprar aquelas coisas na venda, isso aí. E tinha uma rocinha pra comer um aipim, uma batata, tinha tudo, era bom.

 

P/1 – Do caixeiro, normalmente, o que vocês compravam lá com ele, na vendinha?

 

R – A gente comprava tudo, tudo tinha. Se você me perguntar da onde vinha, eu não posso te responder por que eu não sei, mas tudo tinha.

 

P/1 – Tinha roupa?

 

R – Tinha mais era sal. Sal, não, quero dizer, tinha... não era sal refinadinho, não, era sal grosso. Muito sal grosso. Não tinha aquele sal fino.

 

P/1 – Era uma vendinha, então?

 

R – Era uma vendinha, mas tinha tudo, entendeu? Da onde vinha eu não sei te responder, mas tinha.

 

P/1 – E aí, nessa época do seu pai, eles usavam barco pra pescar? Como é que era?

 

R – Ah, não, usava mais era negócio de batelão.

 

P/1 – O que que é o batelão?

 

R – O batelão é um bicho igual aquele negócio lá, um caíque. Batelão é aquele negócio que a gente tinha que remar, tinha que ter um remo, entendeu como é que é? Canoa.

 

P/1 – Aí, cabem quantas pessoas no batelão? Você falou batelão, ir remando...

 

R – Aí tinha que ter o batelão, entendeu? Não tinha nada de motor, essas coisas, não. Não existia barco, não. Era um negócio feito com facão. Eu cansei muito dessas coisas.

 

P/1 – O caíque, fazia em casa mesmo ou vocês compravam?

 

R – Fazia em casa mesmo.

 

P/1 – Como era fazer em casa?

 

R – Isso aí, já tinha o fazedor.

 

P/1 – Ah, tinha uma pessoa.

 

R – Igual estaleiro. Como hoje em dia tem estaleiro, antigamente tinha um homem pra isso, que já sabia como fazia. Ninguém sabia, mas tinha ele que sabia.

 

P/1 – Todo mundo comprava sempre com o mesmo homem?

 

R – É isso aí. Quando não podia comprar, apanhava emprestado. O negócio é esse, apanhava emprestado porque a gente não podia comprar, entendeu como que é?

 

P/1 – E aí, pensando mais na vida do senhor, como é que você aprendeu a pescar? Já saiu pescando, começou remando, qual a primeira coisa que você faz pra aprender?

 

R – É aquele negócio. Essas coisas são a mesma coisa que uma escola, né? É a mesma coisa quando você vai aprender a andar. Você vai engatinhando, né, vai...

 

P/1 – Devagarzinho. 

 

R – É isso aí, vai andando mal... É a mesma coisa quando a gente vai... Quando é criança pequenininha que tá aprendendo a andar.

 

P/1 – Criança, por exemplo, começa só remando?

 

R – É isso aí, a gente vai remando aos pouquinhos e depois a gente aprende.

 

P/1 – E qual o... Você aprendeu com seu pai, você aprendeu no rio doce primeiro, né? Aprendeu a pescar...

 

R – Não, isso aí eu não aprendi com meu pai, não. Eu aprendi já com meu cunhado. O meu pai já era morto há bastante tempo, entendeu? Eu vim aprender mais um pouquinho com meu cunhado.

 

P/1 – Esse seu cunhado ensinou você a pescar onde? Você saiu a primeira vez, você falou que pescou o peixe...

 

R – Lembro. Mas você quer que eu lembre o que?

 

P/1 – Que você descreva pra mim. Conta pra mim, você acordou cedo?

 

R – Ah é, acordei cedo, muita emoção pra querer ir pro mar, pequenininho. É a mesma coisa quando você vai fazer um...

 

P/1 – Passeio.

 

R – Você entende? Aquela emoção. Poxa! Não dormi direito, sabe? Mesma coisa, é isso aí. Não dormi direito. Pra mim, o outro dia amanheceu, o dia de ir pescar. Cheguei lá na Barra, uma coisa linda. A gente saiu, o mar muito mansinho. O mar uma coisa linda, azulzinho. Isso aí, poxa, é isso aí, aquele negócio que eu tô falando pra você. Agora vê aí o que posso mais te responder.

 

P/1 – Você me falou já dos peixes, nessa época. Aí, que tipo de pescaria você fazia nessa época, quando o senhor começou?

 

R – A gente pegava mais era pescada.

 

P/1 – A pescada, como é que é? É com rede? É tarrafa?

 

R – É, pescada é com rede, com tarrafa, não. Com rede e com linha. A gente pescava de linha. 

 

P/1 – Pescava de linha?

 

R – Anzolzinho. A gente ia lá pro Arão de baleeira. O nome é baleeira, o bichinho com dois remo. Ali mesmo tem embarcação, esse tipo de baleeira.

 

P/1 – Entendi, a baleeira, a diferença pro caíque, é que ela tem dois remos. 

 

R – É isso aí. Trabalha também com caíque com dois remos, entendeu, mas se tiver duas pessoas. Agora baleeira, uma pessoa só mesmo resolve. É como eu fui pescar com ele assim, de baleeira.

 

P/1 – Então, a primeira foi com anzol?

 

R – Era, pescaria de anzol. Hoje existe tipo de pescaria aí que...

 

P/1 – Não acaba mais, né?

 

R – Tá doido? Mas é o que tá acabando com a produção nossa, é isso aí. Porque, antigamente, isso aqui, o peixe vinha andar aqui ó. Hoje tem peixe, mas é peixinho miudinho. Antigamente, o que eu quero dizer, muitas raças de anos atrás, tinha peixe grande aí. Não tem, por quê? Por conta do barulho dos motores. Vão procurando outros lugares mais...

 

P/1 – Porque aqui na comunidade sempre foi uma pesca de menor quantidade, né?

 

R – Sempre foi. Aqui é muito pouca pescaria mesmo. Agora tem pescaria lá pro Arão, mas a turma não vai pescar quase. É, pesca _______ Plataforma, entendeu?

 

P/1 – Agora Seu Dilmo, me conta um dia de pesca. Como é que é? Sempre vai e fica 15 dias?

 

R – Quinze dias.

 

P/1 – Normalmente, como é que é? Você vai e fica 15 dias? Me conta como é o processo.

 

R – É, fica 15 dias. Tem dia que fica menos. Depende do tipo, tamanho do barco, entendeu? E depende do tipo de pescaria. Ó, na época do dourado...

 

P/1 – Qual é a época do dourado?

 

R – Janeiro, fevereiro. Nego vai lá, leva oito, nove dias e vem logo embora.

 

P/1 – E vai sozinho?

 

R – Não, vão cinco homens em um barco, cada um tem seu lugarzinho de dormir. O pescador fica mais acordado do que dorme. Muito pouquinho dormir. Quinze dias...

 

P/1 – Pesca de noite, então?

 

R – Nesse sofrimento é dia e noite. Tem as horazinhas que você vai dormir, mas quando você acorda, acorda todo ruim. É muito sofrimento. A vida do pescador é de muito sofrimento mesmo.

 

P/1 – Sol muito forte, o mar muito agitado.

 

R – Água salgada no mar, água salgada em cima, e muito vento. Muito sofrimento. A gente fica sem tomar banho. Tem barco aí que você leva 15 dias de mar, você toma dois, três banhos por viagem em 15 dias, 20 dias. Mas tem barco aí que você leva 10 dias porque não tem onde botar um depósito de água pra tomar banho. Barco pequeno. E a gente fica 10 dias.

 

P/1 – Nesse caso, por exemplo, do dourado, você fica de 10 a 15 dias. Tira qual quantidade? Sai quanto peixe? Muito?

 

R – Eu não posso nem te explicar direito, porque uns matam um bocado bom, outros já matam menos. O ano passado deu muito dourado. Este, já não deu quase nada.

 

P/1 – Mas a quantidade, eu não tenho a menor ideia. Dez quilos, 15 quilos, é muita coisa?

 

R – Umas quatro toneladas, mais ou menos.

 

P/1 – Quatro toneladas?

 

R – Quatro toneladas. Na safra dele, boa mesmo, se mata isso. Agora, tem barco grande aí que mata até mais, dez, mas isso é barco grande.

 

P/1 – Aí, quanto maior o barco...

 

R – Que leva mais de mês fora, entendeu como é que é? O negócio é esse aí. E leva mais de mês.

 

P/1 – Então o senhor, a maior parte da sua vida, pescou no mar? A maior quantidade que pescou foi no mar?

 

R – Mar. Meus documentos, eu recebo o negócio de defeso.

 

P/1 – Agora seu Dilmo, deixa eu voltar um pouco pro mar. Então, o senhor me contou que tem esse jeito de pescar, que vai com o barco grande, aí pesca com rede, pesca grandes quantidades.

 

R – Agora você tá dando risada, a figura que tá saindo na foto aí [risos]. Eu sou um cara desconfiado demais.

 

P/1 – Então, a gente tem essa pescaria de grande quantidade, também tem uma com anzol. Tem outros jeitos de pescar?

 

R – Tem.

 

P/1 – Que outros jeitos tem de pescar no mar?

 

R – Aqui tem de tudo. É um espinhel de arraia, a gente pega bagre, pega arraia, pega pescado. A gente pega todo tipo de peixe aqui.

 

P/1 – Agora, no mar, o melhor jeito de pescar é rede?

 

R – É, pro dourado. É isso aí.

 

P/1 – O jeito, né, a forma?

 

R – A maioria pesca mais é de rede, aqui na Barra.

 

P/1 – E o que o senhor mais gosta? O senhor gosta de pesca... Assim: “Ó Gustavo, o jeito que eu mais gosto de pescar é...” É como?

 

R – Você quer que eu diga uma coisa pra você… Eu já vivo esgotado de pescaria, eu já vivo cansado de pescaria. Se eu pudesse, nem mais lá eu ia, mas a gente que é pobre, precisa. Mas, eu mesmo...

 

P/1 – Hoje em dia você ainda precisa ir pra pesca?

 

R – Com certeza. Vivo disso, a gente vive disso. Eu pesco direto. Eu mesmo… Em certas coisas vocês… Esse é o modo de eu falar, eu mesmo já tenho que mirar uma rede minha que tá aí na praia. E eu atrasando meu lado aqui, de repente peixinho caiu lá, já estraga. Eu tenho que chegar na hora certa. Por isso que eu me amarrei mais quando ela foi ali falar comigo.

 

P/1 – Mas se o senhor precisar sair, o senhor avisa.

 

R – Eu me amarrei um pouco porque eu tinha que mirar essa rede. Já tá na hora de eu ir lá mirar essa rede.

 

P/1 – A gente já libera o senhor.

 

R – Senão o peixinho que tiver lá estraga. Agora tem como você perguntar alguma coisa mais? O difícil era começar.

 

P/1 – O senhor me explicou que tem barcos que vão cinco pessoas, por exemplo.

 

R – Cinco pessoas.

 

P/1 – Como é que vocês dividem o dinheiro? Como é que faz? Dividem tudo igualmente? Como é que divide?

 

R – Ali, uma comparação. O barco faz dez mil reais livres. Cinco são do barco e cinco são dos camaradas. Mil reais cada um. 

 

P/1 – Ah, entendi.

 

R – Entende como que é? Aí, em comparação...

 

P/1 – O barco é de alguém?

 

R – É, o barco é meu, eu vou ganhar seis mil, entendeu? Eu vou ganhar minha parte e vou ganhar a parte do barco, e quatro mil é dos outros camaradas, tá entendendo?

 

P/1 – To entendendo. E hoje quem são... quem compra o peixe hoje em dia? Que o senhor falou que hoje...

 

R – É um cara de... eu não sei se é do Rio, é do Rio. Acho que é Bacalhau, um homem chamado Bacalhau, muito rico mesmo.

 

P/1 – E ele sempre compra? Qualquer quantidade ele sempre...

 

R – Ah, vai tudo pra lá. De todo lugar vai tudo pra lá, só vai pra lá. Só esse cara que é muito rico, muito rico mesmo.

 

P/1 – Ah, ele vem aqui na comunidade?

 

R – Ele é muito difícil. Só ele tem um frigorífico ali, lá no Ingá. 

 

P/1 – Ah, então leva pro frigorífico?

 

R – É isso aí. Tinha muitos aqui, mas muitos quebraram. Roubaram muitos pescadores, depois acho que Deus deu, entendeu, pesou um pouco no dedo dele, é isso aí. Voltaram à mesma coisa: pobres. Hoje em dia, vivem procurando posto, igual à gente, procuram um posto de saúde. Antigamente, a gente não fazia isso, tinha médico particular. Hoje eles voltaram a isso – não é falando na vida deles, não. 

 

P/1 – É que mudou, né?

 

R – É isso aí. Porque eles fizeram mal feito pra gente, hoje eles voltaram à mesma coisa, a ser pobres igual à gente.

 

P/1 – Com esse frigorífico, vocês conseguem negociar o preço, ou tem um preço já definido?

 

R – Ah, não, eles botam o preço que eles querem. Lá a gente come –isso é comparação, esse é o modo da gente falar. A gente come na mão deles. E fora o roubo que esse dono do frigorífico tem aí.

 

P/1 – E não tem outra alternativa?

 

R – Ah, não. Aqui tem mais é corte de cana, corta cana, e tem assim, você pescar de baleeira, botar uma redinha na praia como eu boto, porque já tá esgotado de pescaria aí de fora.

 

P/1 – Mas aí essa pescaria menorzinha, o senhor faz pra se alimentar?

 

R – Ah, nada, é fraquinha.

 

P/1 – Por exemplo, esse peixe que você pega nessa rede agora, é pra você comer?

 

R – É.

 

P/1 – Não dá pra vender, por exemplo, né?

 

R – É, quando tem muito a gente vende.

 

P/1 – Entendi. Aí depende da temporada.

 

R – Depende, mas quando... Mas eu sou uma pessoa que não vive só disso também, não. Eu vivo fazendo meus negócios, faço uma coisa, faço outra, pra sobreviver.

 

P/1 – Eu esqueci de perguntar uma coisa pro senhor. Como é que você sabe o horário pra sair pra pescar? Por exemplo: “Ah Gustavo, hoje não dá pra ir pescar porque hoje tá ruim”.

 

R – Ah, não, sai assim mesmo. Comparação: você põe uma rede lá, você vai ter que mirar aquela rede. Se você não for mirar, o peixe vai estragar. 

 

P/1 – Mas você consegue olhar a maré e falar: “A maré tá boa”?

 

R – Ahã, a gente vive disso aí. Como eu acabei de falar com você, agorinha mesmo. Pra eu mirar a (val?) – sabe o que é a (val?)? É eu mirar a pé, dentro da água, lá pelo mar. A maré tá boa, a maré tá sequinha pra ir lá. Mas, se demorar umas duas horas mais ou menos, eu não posso ir lá porque a maré já tá cheia. Aí, eu já não vou conseguir ir lá onde tá aquela rede.

 

P/1 – Mas você sabe por que você aprendeu. Não é no jornal, em nenhum lugar.

 

R – Ah, não, isso aí eu não sei de nada. Se é a hora que a maré vai encher, se é a hora que ela vai vazar, entendeu como é que é?

 

P/1 – O senhor sabe por experiência.

 

R – Com certeza, experiência minha mesmo. Eu não tenho inveja disso aí, não. Tenho lição pra dar a qualquer um e a muitos pescadores aqui na Barra que dizem que são pescadores, que não sabem nem o que é a hora que a maré tá enchendo, que a maré tá vazando. Eu tenho experiência nisso tudo.

 

P/1 – Agora a gente falou bastante de antes e depois. O que que mudou hoje em dia em relação à pesca. Como é que era? Você já me falou como era antes. O que você acha que mudou? Por exemplo: o comprador, a gente já viu que mudou, né? Hoje tem um só, hoje tá mais difícil.

 

R – O que mudou é que a pesca escasseou muito mesmo, não pode nem comparar, eu sei, aqui é muito difícil.

 

P/1 – O que é difícil? Quando o senhor fala que é mais difícil?

 

R – É difícil porque... Como que eu posso dizer? Se você pega um peixe, a gente quase não tem comprador pra comprar, tem que ir a ele, lá ele bota o preço que ele quer. É isso aí que eu digo a você. E aí que fica difícil. Tem um frigorífico só. Se tivesse uma porção, não dizia nada, mas é um só que a gente tem, é obrigado a ir para aquele lugar e ali eles botam o preço que eles querem na mercadoria da gente. A gente pega, mas ali botam o preço que eles querem.

 

P/1 – Senhor Dilmo, o senhor tem alguma relação com os outros pescadores? 

 

R – Tenho.

 

P/1 – Como é essa relação com os outros pescadores?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Vocês se dão muito bem? Tem amizade? 

 

R – Temos.

 

P/1 – Tem alguma organização? Como é que é?

 

R – É, isso aí.

 

P/1 – Por exemplo, se você vê que tem peixe no mar você avisa: “Ó, hoje o mar tá bom”.

 

R – Ah, não. Pescador não faz isso com ninguém. Eu sou um que eu não tem isso, não, nunca. Tô cansado de falar pros meus amigo, nunca tive isso. Nunca tive olho grande na minha vida. Sabe o que eu quero? Foi pra quem que eu tava explicando isso aí? Eu não sei pra quem que eu tava explicando isso aí. Na semana mesmo eu expliquei. Acho que foi ontem mesmo, eu falei: “Sabe o meu negócio, é o que? É viver bem com todo mundo, com os meus negócios direitos, pra não achar ninguém que fale mal de mim”. Ó, aqui tem esse homem aqui, esse homem é muito (encravado?). Ele não fala mal de Deus porque ele não conhece Deus, mas fala de todo mundo. Mas vá ali e pergunte a ele se ele fala, se eu tenho alguma coisa pra falar dele, se ele tem alguma coisa pra falar de mim. Ele mesmo tá cansado de falar comigo: “Dilmo, daqui da praia, eu conheço o bom e o ruim, mas de você, eu nunca ouvi falar isso assim de você”. Então, é como eu digo pra você...O pescador, meu Deus, aqui na Barra tem muito pescador desse tipo, entendeu? Se vai lá, faz uma pescaria boa, ele não diz. Se ele fez uma pescaria boa aqui, ele não vai dizer pra você que ele fez pescaria boa aqui, não. Ele já vai inventar outra mentira. Isso aí eu não gosto nem de ficar falando porque fica ruim eu ficar falando essas coisas, sabe como é, que isso aí fica aquela parte dele, eu quero fazer a minha parte, entendeu?

 

P/1 – Entendi. Tem alguma organização de grupo? Por exemplo, vocês se juntam pra levar o peixe juntos?

 

R – Ah, não. Não tem nada disso não. Isso aí é comparação. Eu vou lá mirar minha rede. Se eu pegar uns dois peixes, se eu quiser ir lá no frigorífico levar, eu pego a minha bicicletinha, boto na minha bicicletinha e levo.

 

P/1 – E vai sozinho?

 

R – É. Chegou um barco de fora, o barco já sabe onde ele vai botar aquele peixe. Aí vem outro de novo, vai fazer a mesma coisa. Aqui é assim.

 

P/1 – Já teve alguma associação de pescadores?

 

R – Não, nunca teve. Estavam reunindo pra fazer isso aí, mas não sei. 

 

P/1 – Não foi pra frente?

 

R – Não foi pra frente por nada. 

 

P/1 – Dá pra viver da pesca hoje em dia?

 

R – Dá mal, mas dá, pra quem sabe. Eu não sei, eu vou dizer... Eu não sei, eu não posso nem falar isso porque eu não tenho nada com a vida dos outros...Porque aqui, vou ser sincero com você, essa pescaria aí de fora, que leva 10, 12 dias de mar, pra quem sabe ganhar um dinheirinho e economizar, dá. Mas a maioria aqui na Barra... na Barra não, em todo lugar, aqui ainda é devagar. Negócio de droga, entendeu? Tem nego que sai aí pra fora, pô, não adianta nem falar essas coisas porque entendeu como que é? Poxa, eu jamais... Tenho filho homem, já tenho filhas casadas, dou bom conselho aos meus filhos.  Homem ainda... um filho que eu tenho, homem, dou conselho a ele, tá com 20 e poucos anos, dou conselho a ele, jamais... Agora, eu acho uma coisa muito errada, ir lá pra fora, dar um duro disgramado para...

 

P/1 – Você acha, então, que os jovens têm vontade de ser pescador ou eles não se interessam mais? Os mais jovens?

 

R – Ah, tem. É aquele negócio, aqui na Barra vai ser sempre assim. Os novos vêm chegando e vão sendo pescadores. Aqui na Barra é isso aí, não vai procurar outra coisa não porque não sei, não tem um emprego bom, aqui é um lugar assim, aqui só dá pescaria e acabou. Não tem emprego, não tem nada, não. Se você quiser... não quiser pescar, você tem que cortar cana. Você tem que pegar uma enxada, trabalhar de ano a ano. Se você não quiser pescar. Agora, se você quiser pescar, você com 14 anos, com 13 anos, como acontece muito por aqui, nesse lugar mesmo acontece muito. Tem muito menino novo, aí, pescando.

 

P/1 – E seu Dilmo, qual a importância da pesca na sua vida?

 

R – Qual a importância? Como... eu não posso nem te explicar isso. Eu acho que o importante pra mim é sabe o quê? É saber que eu vou pegar aquele peixe lá e comer ele na hora. Um peixe vivinho, um peixe que, tá doido? Eu sou... tenho 52 anos, dou minha vida por um peixe, gosto muito de peixe. Ó, fala em um frango... para, para. Essas coisas assim eu não gosto de nada. Eu gosto muito é de comer um peixe. Puxa, adoro um peixe. Meu Deus, gosto muito. O mais importante pra mim é isso aí, é o peixe. Agora, de pescaria, eu não posso dizer o que é importante. Tudo bem, me dá o pão de cada dia, posso dizer que é sofrido, é. A pescaria é muito sofrida, meu Deus. Você pensar direitinho... eu vivo na água salgada, mas eu não gosto da água salgada. Aqui tudo bem, eu vou ali, miro a rede, venho pra casa, tomo banho, ensaboo na água doce, mas lá, você saber que você leva... você com quatro dias já sente seu corpo, se você botar a língua no seu corpo assim, meu Deus! É o mesmo que você tá botando a boca no sal e eu me sinto mal com aquilo. E quando a gente vai dormir, encosta a perna uma na outra, a gente sente o corpo da gente todo salgado. Aquilo ali me adoece todinho. Então, isso pra mim não é importante. O importante, que eu digo pra você, é comer um peixe fresquinho.

 

P/1 – O senhor falou que aqui tem vários problemas. Se o senhor pudesse mudar alguma coisa aqui, na comunidade, aqui em Barra, o que você mudaria? O que o senhor acha que tem que mudar ainda?

 

R – Ah, tem muita coisa. Aqui precisa mudar muita coisa. Meu sonho, olha, tem coisa que se eu falar, meu Deus!

 

P/1 – Mas conta, conta seu sonho que agora eu fiquei curioso. Qual o seu sonho?

 

R – É ter um hospital muito bom aqui na Barra, porque nós não temos. Ter uns aparelhos. Eu mesmo, faz um bocado de tempo que eu to doente, eu sinto que eu to doente. Eu tenho um problema, eu não sei se é problema de coluna, eu não sei se o meu problema é dos rins. Eu sei que sinto uma dor. Não sei se eu fui muito sacrificado nisso aqui, porque eu pesquei muito de baleeira… você vê que meus braços são cheios de... Ó, isso aqui, o pedaço de carne que tem aqui de tanto... Desde novinho comecei... como se diz?

 

P/1 – Um músculo?

 

R – Musculação, eu já fiz demais. Mas eu tenho um problema aqui nas minhas costas, mas você sabe, se tem uma pessoa, eu vou dizer assim, relaxado, que não se cuida, sou eu. Gosto de cuidar. Se eu souber que tem um filho meu doente, meu Deus! Eu tiro a minha roupa do corpo pra vender, pra socorrer aquele filho. Mas eu mesmo, não. Eu tô sofrendo e tô calado. Mas o meu sonho é isso aí. É uma coisa que nós não temos aqui no nosso lugar, um hospital bom. Isso aqui é um sofrimento, meu Deus. Ó, eu mesmo, to extraindo os dentes, vou colocar uma dentadura. De hoje que eu to arrancando os dentes, é de hoje. Faltou anestesia. É de hoje. Agora eu tenho que deixar chegar dia 25. Eu tenho o quê? Mais de dois meses que não arranquei nenhum dente, faltou anestesia. De dois meses pra cá... eu falei dois dias ou dois meses?

 

P/1 – Dois meses.

 

R – De dois meses pra cá eu não arranquei nenhum dente, faltou anestesia. Tem uns dois meses que não tem anestesia. Agora você pensa direitinho, que lugar é esse? Você entende? Lugar bom, amo esse lugar. Sabe por quê? Porque não tem violência. Eu amo esse lugar, sou nascido e criado aqui, e eu acho que vou morrer aqui. Amo esse lugar e tô cansado de falar pra todo mundo, amo esse lugar só por isso. Como eu vejo, na televisão, tanta maldade por aí. Eu não concordo com isso. Olha, ontem mesmo assisti a uma reportagem aqui em Vitória, pra esses lados de Vitória, logo na entrada, não sei, dentro de uma semana morreram não sei quantas pessoas, o repórter falando lá. Eu gosto deste lugar por isso. Aqui, nego usa suas drogas, mas são pessoas da paz, são pessoas esforçadas no serviço e lá fora não, você sabe o modo que é. É nego roubando uma sandália de outro pra comprar droga, matando a vida do ser humano, eu sou muito contra isso. Então, amo esse lugar por isso. Meu sonho é ter um hospital. Puxa vida!

 

P/1 – Senhor Dilmo, faltou te perguntar uma coisa: tem alguma lenda, alguma história de boto? Tem alguma lenda aqui?

 

R – Tem o quê?

 

P/1 – Tem alguma lenda?

 

R – É o que, isso?

 

P/1 – Contar uma história, por exemplo, o boto. O boto cor de rosa, tem alguma história?

 

R – Isso aí eu não posso te explicar porque...

 

P/1 – Não conhece, não tem problema.

 

R – Eu conheço boto, sim, mas desses, assim, comuns, que a gente tem aí. Basta que venha aqui na beirinha da prainha. Agora, de outro tipo, você...

 

P/1 – Entendi.

 

R – Entendeu como é que é? Muita tartaruga, isso aí tem muito. Agora, outras coisas, se você me perguntar, eu não sei nem te explicar.

 

P/1 – O senhor falou dos seus filhos. Como é que foi pro senhor? Como é ser pai?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Qual é a sensação de ser pai?

 

R – Eu sou um cara que, não sei, amo meus filho. Isso eu posso responder com essas palavras. Sou muito amoroso com meus filhos. Dou tudo pra eles. Não dou o que eles precisam, porque eu não posso. Toda noite, quando eu vou dormir, eu peço muito a Deus por isso. Eu peço muito a Deus, agradeço muito a Deus, por eu saber que eu tenho uns filhos, uns filhos que, eu quero dizer assim… Tenho um filho homem e duas mulheres já casadas, fora essas duas que eu tenho, que são pequenas. Eu sinto orgulho de saber que elas não tem vício nenhum. Não carregam maldade na cabeça, no coração. Nós vivemos muito bem. Elas são legais comigo eu sou legal com elas. Eu sou tudo pra elas, e elas são tudo pra mim.

 

P/1 – E o seu filho homem, por exemplo, o que ele faz? 

 

R – É pescador também.

 

P/1 – E você é feliz por ele ser pescador?

 

R – O que a gente pode fazer? Não pode fazer nada. O ramo é esse. Ele não tem leitura também. Eu não tive situação pra botar ele em um... entendeu como é que é? Estudou um pouco, mas novo casou, arrumou família, aí foi obrigado a procurar a pescaria, o sacrifício. Minhas duas filhas, elas sabem um pouco. Mas, não é dizer que sabem muito. Logo casaram, mas é isso aí. Fui muito contra, sei que eu não sou uma pessoa perfeita, mas não gostava. Queria uma coisa direita pras minha filhas. Queria que elas casassem assim com idade, mas foi ao contrário, novas mesmo casaram. Mas eu amo meus filhos, amo mesmo.

 

P/1 – Vou terminar agora. Preciso só de mais três perguntas. Deixa eu perguntar, então. Se você pudesse mudar alguma coisa na vida do senhor, mudar alguma coisa na vida do Dilmo? O senhor mudaria alguma coisa? 

 

R – Mudar do quê? Mudar de situação?

 

P/1 – Se falar assim: “Eu preferia não ter sido pescador, ou eu queria…” Se pudesse mudar qualquer coisa, o que você mudaria? Ou o senhor falaria: “Não mudaria nada, Gustavo”.

 

R – Não, tô satisfeito, já tô na idade... Eu agora não penso em mudar mais nada, não. Eu só penso em mudar pros meus filhos, pros meus netos. Se tivesse, igual eu tô falando pra você, um bom emprego no nosso lugar... Mas, tem coisa que eu penso: ter muito bom emprego, mas é onde vem a maldade, onde vem a morte. Rola dinheiro, entendeu como é que é? Então, acho que nosso lugar é bom por isso, porque quase não tem emprego e a bandidagem não procura esses lugares pobres. Então, eu me sinto...

 

P/1 – Seguro aqui?

 

R – Poxa! É tudo o que eu tenho na minha vida. Você entendeu o que eu tô falando pra você?

 

P/1 – Entendi.

 

R – Eu, quando levanto da cama, quando eu boto os pés no chão, eu agradeço muito a Deus por isso. E como vejo muita mãe desesperada perto dos seus filhos, chorando, perto das suas filhas, umas mortas, outros presos. Então, eu me sinto muito feliz com isso.

 

P/1 – Como que foi contar sua história Seu Dilmo, como é que você se sentiu contando um pouco da sua história pra gente?

 

R – Ah, eu me sinto bem.

 

P/1 – Gostou?

 

R – Poxa! Me sinto muito bem. Eu tinha vontade de desabafar. Eu tenho muita coisa pra contar da minha vida, muito sofrimento. Tá doido? Eu tenho muita coisa, mas eu me sinto muito... Eu sou uma pessoa muito envergonhada, eu não sei porque que eu tô falando. Ó, pensei em me esconder. Se você souber como que eu sou... Eu, quando pego um peixe... época de verão aqui, no Carnaval, isso aqui lota de gente. Dá muita gente de fora. É gente do Rio, é gente de Campos, vem gente de todo canto pra cá. Eu pego meu peixinho, eu escondo. Uma coisa que eu podia ganhar melhor, eu não ganho, com vergonha de vender o peixe. Aí, de lá pra cá, na hora que você falou comigo, pensei assim? ”Disgramado do Nilson. Ele não quis dar essa entrevista pra esse pessoal aí, me botou. O que eu vou responder, meu Deus? O que eu vou falar?”. Cheguei, falei com ele: “Pô, Nilson, esse negócio aí de você botar uma bomba?”. “Não, Dilmo, porque eu estava isso, estava aquilo, eu vou fazer um serviço”. Mentira. Eu também tinha o meu serviço, era, como se diz? Precisava mais do que o dele, porque o dele é fazer aquele negócio de tijolo e o meu é o peixinho. Se estiver lá vai estragar, entende como é? Se você souber o prazer que eu tenho, tá doido! Nunca aconteceu isso comigo. Eu me sinto bem, me sinto muito bem mesmo. Só não quero que você repare alguma falha, não repara mesmo. 





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