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História

A vida de Espedita muda quando ela chega ao trabalho

História de: Espedita Saldanha dos Santos
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Espedita jogou tudo pro alto, como ela mesma diz, pra acompanhar o marido na luta pela terra. Ela se tornou uma liderança, e lutou com o marido até conseguirem o assentamento, onde hoje tem sua casa e o restaurante comunitário.

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História completa

Meu nome, Espedita Saldanha dos Santos, nasci em Missão Velha, Ceará em primeiro de fevereiro de 1963. Na minha infância comecei também muito cedo a trabalhar na lavoura. Com oito anos de idade, morava com meus pais, depois minha mãe teve um problema muito sério de doença, a gente ficou com os avós, continuei com meus avós até casar. Continuei trabalhando na roça, não tive muito estudo porque na época não incentivavam as pessoas em ter o estudo que tem hoje, então eu continuei capinando, plantando, fiquei na lavoura. Com minha mãe, aprendi a fazer o frango caipira, polenta, bolo. Os doces não são como os dela, mas eu tento fazer (risos). O doce de banana.

Na colheita do arroz, que era época da lavoura, a gente cantava, que chamava os versinhos. Pra colher o arroz cantando. Ali passava o dia inteiro cantando, a gente cantava pra passar o dia. E não ter tristeza porque às vezes a água dava no joelho, colhendo aquele arroz. O borrachudo picava as pernas. Então minha avó dizia: “Quem canta seus males espanta. Vamos cantar”. Então a gente cantava.

“Ih, nós dançamos muito” “Mas como, que vocês não saíam de casa?” “No terço, lá onde nós íamos rezar, nós íamos dançar” “Ahhh, mas se eu soubesse que vocês não iam, eu não deixava vocês irem num negócio de rezar”. Aí lá namorava, paquerava. Paquerava escondido. Forró de pé de serra

Eu tava noiva por estar mesmo, mas não gostava muito não. Ele passou, eu fiquei olhando, ele me olhou também. Eu falei: “Hum, achei a minha tampa”. Eu falei: “Esse eu não tinha”. Entrou na casa da irmã dele e ficou de olho também, ele viu, trocamos olhares. Achei esse rapaz, casamos, só alegria. Tivemos seis filhos, estamos juntos até hoje. Antonio. Eu tenho duas filhas e quatro filhos.

Estudei só a primeira série, no Mobral eu tinha 12, 13 anos. Aprendi a fazer o nome, conhecer as letras, mas não sei... Tem palavra que eu leio, pequena, mas nem todas.

Casei e fui direto pra Araras, tinha uns três anos de casada, meu marido perdeu as terras que tinha, que era de herança. A terra era da avó e tinha muito herdeiro. E pra dividir a herança teve que vender. O pouco que tocou pra ele, só deu pra comprar uma casa na cidade, então, ele ficou muito desgostoso e veio pra Araras.

Então Araras foi a solução, porque tinha primo que morava aí. Já tinha três filhos. Primeiro ele veio, arrumou trabalho, arrumou casa pra morar e depois de um ano foi que eu vim. Fui cuidar dos filhos, da casa e dele. Porque tinha dó de deixar, não tinha creche que era sítio também. Aí fui encontrar frio, muito frio na época, as culturas eram diferentes. Mas eu fui me acostumando.

E ele veio trabalhar, cortar cana, era carteira registrada, tinha emprego a cada seis meses; seis meses tinha emprego, seis meses ficava fazendo bico. Em Araras, surgiu o acampamento. Tinha o Sindicato dos Trabalhadores e fizeram reuniões durante seis meses pra quem queria um pedaço de terra. Meu marido, como tinha o sonho da terra, que ele tinha perdido na mocidade, falou: “Essa é a hora da gente ir”, falei: “Vamos” “Vamos”. A gente decidiu. No começo nós fizemos 16 mudanças de barraco. Já tinha os seis filhos, tudo pequenininho. A gente fazia o barraco de lona. Chegava, tirava bambu, tinha lona, comprei uma lona muito boa, fazia os barracos e morava. Deixei casa, deixei tudo pra trás.

Eu pensava assim, que tava naquela vida porque eu queria, a gente conversou e eu concordei de ir. Tinha um sonho de conseguir a terra. Aí a gente ficou na luta nove meses. Nós estávamos na certeza, era sofrido, mas nós estávamos na certeza que íamos pegar a terra. Eu já tinha jogado tudo pro alto, emprego, casa, tudo. Nós estávamos ali pro que der e vier. Ficamos os dois desempregados. Pra sobreviver, a gente fazia campanha de alimentação nas ruas.

Num dia que chegou a liminar que a gente tinha que sair e a gente já tava muito cansado de fazer mudança, aquele dia eu ajoelhei, eu e mais outras senhoras e pedimos a Deus que a gente tinha que achar uma solução, porque já estava cansada de fazer barraca, desmanchar. Aquele dia que a gente desmanchou essa barraca, não tinha solução, o que ia ser de nós. Aquele dia marcou muito porque estava todo mundo, eu ajoelhei, fechei meus olhos e fiz uma oração, pedi a Deus ter misericórdia e mostrar uma solução porque eu tava envolvendo meus filhos que não tinham nada a ver com isso, eram inocentes, aquilo me marcou muito. E a gente foi pra beira de uma pista.

Acampou de novo, ficamos lá um par de tempo, bem, até cansamos, já tava sócio da beira da pista. Mas lá era aquele sofrimento porque o povo passava, já era na divisa de Minas, o povo passava e xingava. “Ô seus vagabundos, vocês querem terra pra vender! Vocês não vão pegar terra nunca!” “Ah, vão trabalhar seu bando de marginal!”. A turma passava e xingava. Ficamos uns três meses nessa pista, a turma dizia: “Vamos sair daqui, que aqui não vai ter futuro nenhum”. A gente foi conversando e soube desse horto aqui.

“Agora nós achamos o lugar ideal”. A gente veio, pegou varinha de pescar, disfarçando, né, porque os sem-terra são perseguidos. O povo fala que o sem-terra é ruim, mas ele é perseguido quando tá na luta. Vem muita gente querendo usar a gente... Eram umas oito horas da manhã, o pai da minha nora falou assim: “Vamos pegar umas varas de pescar, um garrafão de água, um sacão e nós vamos pescar”... Viemos aqui ver. E chegamos aqui porque tinha foto daqui, tinha tudo que puxou pela internet. Nas secretarias em São Paulo tinha foto, tinha tudo e nós falamos: “É lá que nós vamos”. A gente veio, entrou por cima, andou tudo e falou: “Aqui dá pra fazer uma reforma agrária”. Aí a gente veio.

Eu era uma das lideranças porque nós estávamos comendo tudo na mesma panela, passando o mesmo frio, dividindo a mesma comida, fazendo a luta pra todos. “Eu já perdi tudo, já perdi emprego, já perdi as amizades que tinha porque fui mandada embora por causa daqui, porque minha patroa não queria nem me ver mais. Então agora, se o nosso sonho é terra, vamos sonhar”. Ficamos, dos 300, 21 famílias. Porque tem desistência. Quando começa frio, necessidade, xingamento, as portas começam a se fechar, as pessoas não aguentam a pressão e vão embora. Tem que ser forte. A gente fez uma frase assim, o rapaz falou: “Vamos fazer uma frase pra nós” “Vamos ser forte, ocupar e resistir, nunca desistir” (bate mão em punho).   

Se você queria esse sonho, tem que fazer ele ficar vivinho como uma flor bem bonita. Sempre tem que estar florido porque problema vem mesmo, vem à tona, vêm vários pepinos pra descascar e você tem que saber descascar e fazer a salada bem feitinha. A minha vida, um pedaço de mim está nesse lugar. Eu lembro todas as lutas lá do fundo do baú que passou. Eu não tenho canseira, eu não tenho dor na perna. Eu chego aqui, a minha vida se transforma. De coração mesmo, eu amo esse espacinho que foi o primeiro espaço que nos acolheu quando veio pro assentamento, foi esse pedaço. Eu amo esse pedacinho aqui, eu amo de coração porque foi a minha primeira morada.

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