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História

A vida de Ernestina Sylvestre Conti

História de: Ernestina Sylvestre Conti
Autor: Luiz Oliani
Publicado em: 11/04/2017

Sinopse

Nascida e criada em Araraquara, em uma colônia no olho d´água, onde viveu até seus 20 anos. Saiu casada de Araraquara para viver em São Bernardo do Campo com sua família, onde vive até seus dias atuais. Hoje viúva e com os filhos criados, tem como hobby a atividade física, com ela se realiza e aos 70 anos se sente mais viva do que nunca.

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História completa

Ernestina Sylvestre Conti, segunda filha do casal e neta de imigrantes italianos, nasceu em 2 de novembro de 1947 na usina de Serra d’água, em Araraquara-SP, estavam localizados no famoso “olho d’aguá” em uma fazenda de cana de açúcar e álcool da Usina Tamoio (a maior da região). A fazenda possuía uma grande estrutura, várias locomotivas e vagões que carregavam a cana cortada nas estações e transportava para a usina. Cada locomotiva puxava até 15 vagões de cana de açúcar das fazendas e dos sítios onde tinha a cana como fonte de renda e impulsionava a economia. Seu pai foi casado com Dona Maria, de outra usina: a de Zanéne, mas que tinha uma rua grande e uma enorme cachoeira que fazia a diversão entre as fazendas mais distantes, como a Usina Santa Cruz , todas de café.

 

Ao entardecer, deixavam a roça e passavam paralelo ao pasto com a vegetação baixa e cerca de arame. Ela descia antes e cruzava a linha do trem, passava por baixo da cerca e chegava no olho d’agua, uma nascente de uns 50 metros quadrados com água cristalina que borbulhava e muitos peixes. Ela ficava encantava com a água que atendia a família de seu pai, o seu Nardo. A água chegava na casa em canaletas de bambu que o seu Nardo escolhia  e cortava ao meio. Era fácil, pois esta planta é flexível, fibrosa e possui gomos de 30 em 30 centímetros. Alguns moradores fabricavam bolsas, cestos e jacás. Os jacás era usado para carregar espigas de milho após a coleta. Ela e seu irmão rebaixavam os gomos do bambu para a água escorrer nas canaletas e chegar ao destino, era preciso forquilhas para segurar as canaletas que eram fincadas no chão, a água chegava na terra onde a sua mãe batia a roupa. Esse lugar existe até hoje e é chamado de Morada do sol.

 

Seu pai fez cobertura uma estrutura básica de madeira o teto de bambu rachado ao meio e a cobertura de sapé que tem a altura de 1,50 . Suas folhas são finas e cortantes, precisa pegar com firmeza. Ela e meu irmão cortavam e fazíam feixes que levavam para a casa, esse capim que fica murcho para depois, em feixes do tamanho das mãos, iam arrumando em cima da estrutura de bambu, e depois outro bambu pra cima e a cada 40 cm apertava, amarrava com arame ou palha de milho seco umedecida , e esse tipo de cobertura também era feito no paiol, na cocheira, no estabulo , no celeiro , parte da mangueira dos porcos , no chiqueiro e nos galinheiros. Ali perto do tanque de roupa tinha um arranjo de tijolos na largura da lata de 20 litros no comprimento de 1 m de altura de uns 4 tijolos, onde se fervia a roupa e a água para limpar os porcos abatidos, lá se fazia sabão de sabonetes de mamonas, estas sementes secas estavam no chão embaixo das mamoneiras, as colhiam e levam ao terreiro, depois pisavam e as cascas saiam, ficando as sementes que eram selecionadas medidas e colocadas na lata com água, levando ao fogo adicionava soda caustica, fervia muito de experimentando na roupa o volume do sabão, estando no ponto era despejado em assadeiras e deixava secar, repartia a gosto, alguns pedaços eram dados para cunhados ou pessoas mais chegadas. Os porcos eram tratados e cuidados cada um em seu habitat.

 

Os de abate ficavam confinados no chiqueiro pequeno, coberto de sape, assoalho de madeira com dois cochos, um para água e outro para o alimento, esses animais ficavam confinados entre 4 a 6 meses comendo e bebendo água, no inicio ficavam bravos, mas o tempo ia passando e iam engordando e se acalmavam. Se alimentavam basicamente de milho, esse alimento assegurava a melhor qualidade da carne e banha, mas também comiam a beldroegua uma planta mole com muita água e folhas bem gordinhas, angu de fubá, frutas e lavagem. Os cochos eram lavados todos os dias , a água era trocada 2 vezes ao dia, engordavam muito que não se levantavam, após a seva iam para o abate, era necessário a força de 2 homens , esse animal era conduzido próximo ao tanque e o fogo onde as latas de água já estavam borbulhando de quente. O animal era colocado deitado de lado e uma pessoa ficava no traseiro segurando e o outro com o joelho em cima, levantava uma das patas dianteiras e com uma faca própria que inserida chegava ao coração, o sangue começava a jorrar, que era coletado para faze o chouriço. Não apresentando sinal vital era jogado em um caldeirão de água muito quente, com outra faca própria raspava todo o animal, as patas eram colocadas de molho em água fervente para tirar uma espécie de luva que saiam dos dedos, e o restante era lavado com agua fervendo, após o abriam em duas partes, colocando as pernas para cima e com cuidado iam abrindo da cabeça ao rabo, não podiam furar nenhum órgão, com especial cuidado a bexiga e intestino, esta parte pronta vinham a retirada dos outros órgãos e cada um tinha seu destino. O toucinho era retirado do couro do porco e levado a um grande caldeirão que derretia e vinha a banha, a carne era separada dos ossos, a nobre ficava em meio ao toucinho as não nobres ficavam em um caldeirão também com banha.  Nessa hora havia muita conversa a respeito do animal abatido , qualidade da banha , toucinho e carne na comparação com outros animais abatidos e com a alimentação diferente, quando realizávamos esse trabalho sempre vinha alguém ajudar, de forma esporádica. As partes que não gostávamos iam para o sabão.

 

As mães porcas ficavam com seus porquinhos em mangueiras grandes, chão de terra, muita água e lama que eles gostavam muito. Para formar um leitão, esses de festas, ficavam segregados com espaço bem maior, eles precisam se alimentar e se mover muito para não engordar. Cobertura de sape, comiam milho, frutas como goiaba, manga, abacate, beldroegua, angu e a água era de concha não lama. As criações de galinhas, tinham o galinheiro para dormir e guardar das raposas. Após a ordenha do leite o tratamento dos outros animais, as aves eram alimentadas 3x ao día de 9 a 8hrs, vinha o milho e a querel para os pintinhos, impressionante as galinhas que eram mais comilonas e mais gordinhas chegavam próximas as pernas da gente, estas botavam poucos ovos de 8 a 10 e quando punham era fora de seus ninhos, cacarejavam pouco e após botar também comemoravam pouco. Já as galinhas mais rebeldes, ativas , magras, exibidas, crista vermelha e pescoço comprido, eram mais exigentes, construíam seus ninhos sempre longe do galinheiro e da casa, precisávamos conhecer e observar a ausência dessa ave que colocava seus ovos , essas eram botadeiras natas, de 15 a 18 ovos. Elas chocando seus ninhos, vinham comer de a cada 48 horas, comiam, bebiam água e voltavam para chorar seus ovos, quase sempre nasciam todos os ovo, chegavam com sua ninhada com muita fome, nessa hora a tática era levar essa ave para ao galinheiro durante uns 2 dias ate segregada para esquecer o seu ninho. Todos eram criados, os pintinhos chegavam todos iguais, penugem amarela e a semana passava e suas características também, já apontando se eram frangos ou frangas, o tratador observava as frangas se o porte era baixa e gordinha ou magras e espinhentas, as magras eram selecionadas para a criação e as gordinhas e comilonas par ao abate.

 

O Olho d´água era mágico, as frutas limão, laranja, pera, lima, mexerica, vários jatobás, abacate, manga, banana ,fruta do conde, goiabas brancas e vermelhas, limão vários tipos em especial o pé de limão galego, esse era mágico, até a forma da árvore, tinha limão galego o ano todo, que servia a todos que lá iam pegar, ele era curativo, chegavam pessoas de 100km de distância, de outra fazenda para pedir e levar o limão do olho D’água do Seu Nardo. Chegavam e explicavam que o filho estava com barriga ruim e que esse limão era bom, conversavam trocavam as dores e experiências e sempre indicavam a trilha para chegar ao limoeiro, o impressionante que não quebravam um só galho, cuidavam e levavam somente os limões que precisavam. Vinha muita gente mesmo buscar e sua mãe sempre dizia “Quando precisar é só vir buscar, não é nada não" Muitas e muitas vezes as pessoas voltavam para agradecer e traziam o que tinham de melhor para dar a sua família. Muitos eram bem humildes e traziam pão e levavam mais limão por ser curativo, sua mãe oferecia as frutas que tinha, bananas de cacho, feijão , abobora, o mais belo era incondicional e o universo devolvia em forma de fartura e saúde, poderia falar do plantio e amarração de vassoura, milho feijão abobora, pepino, mandioca, arroz, bananas nanicas, prata e ouro. A parte mágica do olho D’água da Serra d´água é o limão galego, se existe milagres este faz parte da saúde daquele povo, da família e netos dos imigrantes italianos, portugueses e japoneses.

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