Busca avançada



Criar

História

A vida da gente teve muitas passagens

História de: Geraldo Vieira Bueno
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Geraldo nasceu e cresceu no campo, filho de pai agricultor. Quando criança, pensou em ser médico, mas o pai explicou que para estudar medicina era preciso "vender uma fazenda igual a do Zé Bachião", e então o depoente desistiu da ideia e acabou se afeiçoando ao trabalho na roça. Sua primeira saca de café foi vendida aos oito anos, formada pelos grãos que caíam no chão durante a colheita, e que Geraldo catava depois da escola. A venda foi feita pelo pai em carro de boi e o dinheiro deu para comprar "uma bicicleta e meia". 

Tags

História completa

Meu nome é Geraldo Vieira Bueno. Nascido em 10 de janeiro de 1959, em Nova Resende. Meu pai, o nome dele é Antônio Vieira Bueno. Ele nasceu no município de Nova Resende também. E minha mãe é Rita Bachião Bueno, nascida em Bom Jesus da Penha. O meu pai já é falecido faz 35 anos, era lavrador. A minha mãe ainda é viva, tá com 85 anos e mora na roça até hoje. O meu pai cultivava milho, feijão, café, tirava leite com pecuária. Então o serviço dele era de roça também. Era um sítio pequeno, mas era dele. Aqui na roça mesmo, perto da onde a gente mora. É bairro Penha de Cima.

Meu pai, toda vida, eu não lembro antes, mas pelo passado a gente vê que toda vida ele foi muito trabalhador. Que veio de uma família pobre, humilde, de pouca situação financeira, mas ele tinha muita coragem de trabalhar e trabalhava. Na época, há muitos anos eu o ajudei também, ele fazia a rapadura de cana-de-açúcar, fazia polvilho. Então ele plantava mandioca, plantava cana, fazia polvilho, tirava leite. Aumentou a propriedade com essa atividade na cultura na roça. Ele não tinha outra profissão. A minha mãe é de descendência italiana, que meus avós vieram da Itália. A minha mãe morava aqui na roça também e ajudava meu pai mexendo com polvilho, com cana-de-açúcar, essas coisas, rapadura. Então ela vivia na roça e ajudava meu pai na roça mesmo criando os filhos. E os filhos tudo aprenderam a trabalhar com o ensinamento do pai e da mãe. O meu pai era uma pessoa assim muito calma. A minha mãe também era, só que a minha mãe, italiano você sabe que italiano não são muito... Qualquer coisinha ele se lasca, ele se queima. A minha mãe até hoje tem o tipo dela, ela é viva até hoje, mas só que ela era mais um pouquinho nervosa. Mas meu pai não. Meu pai era muito calmo. Inclusive, nem meu pai, nem minha mãe não tinha inimizade com ninguém, nem com irmão, nem com parente, nem com vizinho. Então eles tinham um temperamento muito bom, muitas vezes até davam conselho quando tinha algum problema de família de algum vizinho, alguma coisa, eles interferiam pra não deixar fermentar a massa. Então eles faziam de tudo pra ver se ficava tudo em paz sem inimizade. Nós somos dez irmãos. Somos seis homens e quatro mulheres, mas o meu irmão caçula faz 19 anos que ele faleceu. Se ele estivesse vivo hoje ele estaria com 39 anos. Os meus irmãos, os homens, são tudo lavradores. Agora, as minhas irmãs mulheres, tem uma que mora em Areado, ela trabalhava com farmácia, só que eles têm sítio na roça e trabalham na roça também. Mas eles mexiam com farmácia. Mexeram muitos anos com farmácia, até aposentar. Agora, a minha família mora tudo na roça, todo mundo gosta de roça mesmo.

Meu pai desde antes dele casar, ele plantou um pouquinho de café. Tinha muito pouco, naquela época era muito pouca lavoura de café e começou a plantar café, foi plantando aos pouquinhos o café e continuou. Foi mudando o ritmo de cultura, porque mexia com rapadura, com polvilho, acho que ele começou a ver que o café e a pecuária era melhor que aquilo lá e foi deixando. Por isso que hoje nós não mexemos nem com polvilho, nem com cana-de-açúcar. Porque aprendemos a mexer com outra atividade, acho que foi o melhor.

Eu ajudava meu pai na roça desde os cinco anos. O meu pai moía, cana então nós pequenininhos já... Não era só eu, eu e meus irmãos, então nós já íamos cedo ajudá-lo a trabalhar. Mesmo que estudasse. Eu estudei em Nova Resende, estudei na roça até a quarta série, estudei na Petúnia, que são uns oito quilômetros, depois estudei em Nova Resende, que dava uns 11 quilômetros da casa do meu pai lá, ia e voltava todo dia. E voltava e ia ajudar a trabalhar, fazia o dever à noite com a luzinha de... Não era lamparina, não. Desde quando eu era pequeno meu pai já tinha um dínamo que gerava energia, sabe? Um gerador de roça, você não deve nem saber o que é isso. Então com água, tocava a turbina e a turbina gerava energia. Então já tinha, mas era muito fraquinho. A gente trabalhava na roça e à noite fazia os deveres pra o outro dia você ir de madrugada pra cidade.

Eu a ajudava o meu pai a tirar leite, capinava arroz, capinava feijão, que naquela época era tudo capinado na enxada. Plantava, mexia com gado, ajudava a arrumar cerca, fazia de tudo, ajudava de tudo. Só que era gostoso. Eu falo que a gente aprendeu a trabalhar novo, mas eu acho que valeu a pena, porque a gente aprendeu a dar valor àquilo que é da roça.

Eu tinha seis anos completos quando eu comecei a ir. Só que eu fui antes um pouquinho, mas não era matriculado, com os meus irmãos, que era bastante irmão, nós tínhamos bastantes irmãos. Então tinha uma escola na roça aqui, de vez em quando eu ia com eles e comecei a pegar o jeito lá na escola junto com eles. Ia mais pra brincar com as crianças. Depois com seis anos eu entrei, quando eu já entrei na escola com seis anos, eu já sabia ler e escrever. Com seis anos de idade. Inclusive, eu tenho muito que agradecer meus professores e professoras, que naquela época fazia o dever em casa, chegava à escola, o professor mandava ir lá ao quadro na frente pra apresentar o dever e eu gostava de apresentar os deveres, só que os professores algumas vezes davam chance pra mim, mas tirava outros. “Não, você sabe por que você vir cá, tem que vir o outro. Então sempre a gente teve esse elogio na escola. Quando ia fazer dever em grupo, aí o professor já escolhia: “Não, você vai fazer dever em grupo, mas com Fulano, Sicrano e Sicrano, que são mais atrasados, pra você ensiná-los. Então você tem que fazer dever com eles”. Mas pra mim tudo valeu, eu acho que foi bom, foi interessante na vida da gente.

Essa primeira escola rural não tinha energia, banheiro da época não tinha vaso sanitário. Tinha o banheiro, mas era com tábua, tudo diferente, e era uma lousa na parede, um quadro na parede, a gente escrevia no quadro. Quando tava chovendo não tinha vitrô, era janela, você tinha que fechar a janela de um lado e abrir do outro, se tivesse tempo de chuva, você ficava muito escuro lá dentro, sabe? Mas a professora passava o dever no quadro, você pegava e copiava no caderno o dever. Então era totalmente diferente. Isso é coisa de muitos anos atrás, mais de 40 anos atrás, 50 anos atrás, estamos assim. Então passava o dever, ela passava as contas no quadro, eu fui muito bom em Matemática. Ela passava as contas no quadro, quando ela terminava de fazer as contas, eu já tava terminando de passar para o caderno e já levando prontinha. Aí eu: “Professora, eu já terminei. Posso ir aí fazer uma?” “Não. Você não. Vem o outro. Você vai ficar por último, você vai vir corrigir” (risos). Era gostoso. Era uma sala de aula pra três classes: primeiro, segundo e terceiro ano. Que na roça não tinha quarta série. Então tinha três classes dentro de uma sala de aula. Só pra você ver que dificuldade que era de primeira. Isso aí é uma coisa que vocês não acreditam que não é do tempo de vocês, vocês não acreditam. As cadeiras eram tudo cadeiras muito ruins. Tinha umas cadeiras que tinham uns encostinho, outras nem tinham encostinho, era uma tábua, fazia um cavaletinho de tábua e ficavam quatro, cinco em cada cavaletinho daquele lá, escrevendo em cima daquilo lá. Nós dividíamos as turmas. Uma professora lecionava pra três classes: primeira, segunda e terceira série.

Então deixa eu te falar, a minha casa quando eu era pequenininho, a casa do meu pai era de barro e falava assim casa de pau a pique. Então fazia a estrutura da casa de madeira de esteio, fazia a cobertura e fazia tudo de pau a pique assim, depois punha bambu assim e rebocava. Então no começo foi. Depois que eu tava com uns dez anos por aí, aí meu pai arranjou um homem que fazia tijolo e jogou aquilo lá tudo no chão e fez de tijolo. Nossa, mas deu dó. Deu aquela pauzeira velha, aquela coiseira pra fazer pra fazer outra casa, sabe? Só que aquilo lá dava... Como é que é o nome do negócio que dava naquilo lá? Bem, como que é o nome daquele negócio que dá no sangue, lá? É barbeiro, aquele negócio de barbeiro lá. Foi por isso que o meu pai desmanchou a casa, que ele achou na trinca, dava aquela trinca de barro na parede, naquela trinca de barro ele achou um barbeiro. Só que graças a Deus nós nunca tivemos problema com Chagas, essas coisas, não. Aí ele achou, ele rebocou tudo de novo, retocou aquilo lá, colocou um veneno que na época chamava não sei se é BHC, sei lá, era um produto catingudo. Aí tinha um farmacêutico em Nova Resende, esse eu me lembro dele, ele se chamava Ranulfo. O farmacêutico falou assim: “Esse veneno é de colocar em broca de café, não pode colocar em casa de morada que ele não é pra colocar em casa, não. É aconselhável você desmanchar isso e fazer de novo”. Meu pai correu atrás e mandou o homem fazer tijolo e levantou outra casa de tijolo. Aí fez outra casa, aí ficou chique a casa que é de tijolo, já é rebocadinha e tudo. Aí colocou assoalho novo, tudo assoalho, sabe? Aí ficou legal a casa. Quer dizer, na época era legal, não pode falar hoje. A casa, essa que era de madeira tinha seis cômodos. E ele fez outra, ele tornou a fazer de seis cômodos de novo. Aí já fez banheiro, que nessa casa que a gente morava de madeira, de pau a pique, o banheiro era bacia. Não tinha banheiro assim, banheiro mesmo. Aí quando ele fez essa outra casa, aí já colocou chuveiro com serpentina. Aquilo lá foi uma novidade. Foi a primeira que teve na região aqui no nosso bairro, banheiro de serpentina foi o meu pai que colocou. Então todo mundo falava: “Nossa, mas que chique, colocando banheiro com serpentina”. Funcionava que era uma beleza porque tinha fogão de lenha. A serpentina, você não deve saber como que é. A serpentina são uns canos que saem da caixa, do reservatório, passam dentro do fogão e retorna na outra caixa, sabe? Você tomava banho na água quentinha, você tinha torneira de água quente pra lavar as coisas, era uma beleza. Era chique mesmo na época.

Era muito legal na infância. Eu nunca ganhei um carrinho de plástico, nunca ganhei um caminhãozinho, mas nós fazíamos. Então era carrinho de bambu, de sabugo que a gente fazia, fazia brinquedo pra gente brincar, meu pai morava num lugar meio torto assim, a gente fazia uns Troller de rodinha pra brincar. Brincava de carrinho de boi, como se fosse carrinho de boi. Só que o meu pai ajudava a gente a fazer, sabe? Então a gente tem que agradecer isso, porque ele ensinava a trabalhar, mas ensinava a brincar também. Então foi uma pessoa que não só exigia aprender a trabalhar, mas ensinava a brincar também as brincadeiras. Fazia os brinquedos tudo manual. Tudo com facão, sabe? E fazia tudo manual. É manual mesmo, não é igual hoje que você quer furar qualquer coisa, você pega uma furadeira e fura na hora. Você quer cortar qualquer coisa, você vai lá com motosserra dentro de dois segundos, uma circular, você corta aqui. Inclusive a gente tem isso em casa, mas naquela época era no serrote, cortava no serrote. Uma roda, ia fazer uma rodinha pra um brinquedinho, fazia um quadro no serrote, arredondava no facão. Era difícil, gente. Ele gastava tempo pra fazer aquilo lá, mas só que ele fazia pra ajudar a gente, incentivar a gente a brincar com aquilo lá. Mas era gostoso.

Quando eu tinha mais ou menos uns cinco anos, meu pai foi a Aparecida e comprou o rádio. Aí já tinha o dínamo que gerava energia. Ele foi a Aparecida e comprou esse rádio lá em Aparecida. Era uma semana pra ir a Aparecida e voltar, que ia de trem de ferro, pegava o trem de ferro em Monte Belo, ia até Monte Belo a cavalo, chegava a Monte Belo, Juréia que é distrito de Monte Belo, deixava o cavalo numa pessoa lá que alugava o espaço pra deixar o cavalo, ia de trem de ferro pra Aparecida. Era uma semana pra ir e voltar e ele trouxe o rádio. Trouxe e funcionou belezinha que o rádio era bom. Aquilo lá foi um show. Quando ele chegou lá em casa com aquela caixa, eu lembro direitinho, o rádio era um rádio grande assim, sabe? Chegou com aquela caixa, falou: “Eu trouxe o rádio de Aparecida”. Falei: “E agora pra por esse trem funcionar?”. Ele falou: “Não. Isso aqui vai funcionar belezinha. Ele funciona à pilha e à força. Se ele não funcionar de um jeito, ele funciona do outro”. Só que ele funcionou bem à força, aí não punha a pilha, que a pilha naquela época era difícil pra comprar. Era verdade, porque aqui na cidade se tivesse algum lugar que tivesse, não tinha mercado, eram só as mercearias, e não tinha. Depois quando fez uns três anos, acho que até as galinhas tinham rádio em casa (risos). Que aí todo mundo começou a comprar rádio, aí comprava a pilha, que não tinha energia, mas comprava a pilha. E era gostoso que aí um contava: “Eu ouvi uma moda assim, assim. Era gostosa a moda, ela falava isso...”. A pessoa ouvia a música uma vez, ela já sabia contar o que aconteceu na música. Tinha a Rádio Nacional, não sei se existe, de São Paulo, que tocava moda quase que o dia inteiro, a noite inteira, até meia noite. Então aí o pessoal ligava o rádio pra ouvir aquelas modas de antigamente, de Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, então são as duplas de antigamente. Era gostoso aquilo lá.

Quando a gente tava estudando eu falava que eu tinha intenção de ser médico. Aí sempre que eu falava isso, o meu pai falava assim: “Você sabe quanto fica pra ser médico? Tem que vender uma fazenda do tamanho da fazenda do Zé Bachião?” – aqueles parentes da minha mãe – “pra estudar um filho”. Falei: “Então já desisti. Não quero mais”. Ser médico é muito bom, mas que fica muito caro, fica. Só que ele nunca soube o quanto ficava esse caro que ele falava. Parei de estudar porque não tinha segundo grau na cidade. Só Muzambinho, só fora, cidade maior. Então o que ia fazer? Não tinha condição de o meu pai pagar e não tinha como a gente ir pra estudar por causa da situação que era na época. Então continuei trabalhando na roça e gostei.

Eu lembro quando vendi minha primeira saca de café. Deixa eu te contar como foi. A gente era criança, criança assim de uns sete, oito anos, mais ou menos, oito anos, aí eu falava que queria comprar uma bicicleta pra estudar, aí meu pai falou assim... Naquela época apanhava o café no pano, no redão, no pano, e sobrava algum grão que caía no chão, ele falou: “Então você vai catar café pra você comprar a bicicleta”. Eu chegava da escola, eu tava na quarta série, chegava da escola correndo, almoçava correndo, que a gente estudava de manhã, ajudava a minha mãe a fazer alguma coisa rápida pra ir catar café. Trabalhava duas, três horas por dia só catando café. E catei café até o que deu pra eu comprar uma bicicleta. Catei lá três ou quatro sacas de café em coco na época. Aí depois quem comercializava, quem levava pro comércio, era meu pai, eu falei: “Leva pra vender pra mim”. Aí ele levou a saca de café lá em Nova Resende pra vender. Naquela época não tinha trator, era um carro de boi, só que ele ia levar mais outras coisas em Nova Resende, levou no carro de boi e vendeu o café pra eu comprar a primeira bicicleta. Deu pra comprar uma bicicleta e meia. Como que eu comprei uma bicicleta e meia? Sobrou dinheiro que dava pra comprar a metade de outra bicicleta. Aquilo lá pra mim foi uma grande novidade, porque você vê, eu consegui comprar uma bicicleta nova de café que eu catei. Aquilo lá pra mim foi muito interessante saber. Depois daquela época eu já comecei a gostar, eu quis plantar café. Sempre eu falava: “Pai, eu quero plantar uns pés de café pra mim”. Ele falou: “O ano que vem você planta. O ano que vem você planta”. Isso foram uns quatro anos pra eu conseguir. Quando comprou o primeiro trator que eu consegui preparar um pedaço de terra, inclusive essa lavoura existe até hoje, você duvida? Só que ela não é minha, não. Hoje ela é na propriedade que é do meu irmão e ela tá em pé até hoje produzindo café. Ela deve ter uns 46, 47 anos.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+