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A vida da gente era essa

História de: Antoninho Canal
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2014

Sinopse

Antoninho Canal nasceu e cresceu no Espírito Santo. Filho de agricultores, trabalha na terra desde criança. Estudou até o quarto ano primário e parou porque não havia outra escola próxima em que pudesse continuar os estudos. Pai e avô amoroso, sempre gostou de crianças e possui quatro filhos e três netos. Já foi meeiro e hoje possui uma pequena propriedade de café que administra em parceria com o filho e o pai, e onde toda a família ajuda no que for possível.

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História completa

Antoninho Canal. Dia de nascimento 27 de outubro de 1951 e o local de nascimento Domingos Martins, Espírito Santo. Meu pai é Armir Canal e minha mãe Isabel Canal. São do Espírito Santo. Domingos Martins também. Sempre forma agricultores também. Trabalhavam com café. Meu pai, minha mãe. Inclusive quando eu nasci, eu sou de oito meses, minha mãe foi juntar um café, guardou o café e na noite ela teve o parto e teve seu Antoninho, essa pessoa que tá aqui hoje. Foi uma senhora que era uma parteira mesmo na época, que tinha na região. Disseram que eu nasci pretinho. Tenho 12 irmãos. Tem uma irmã mais velha do que eu e eu, dos homens, sou o mais velho. São sete homens e cinco mulheres. Aí, tem dois falecidos, dois homens e o restante estão vivos, graças a Deus. Pai e mãe também. Meu pai com 88 anos e minha mãe com 84. Minha mãe sempre foi mais tranquila, calma, mas meu pai tinha... Até hoje mesmo tem um temperamento meio difícil. Ele é meio enérgico, sempre gostou de criar os filhos no... Então, a gente tem que agradecer isso também. Eu agradeço muito ele a isso por ter dado essa educação também pra gente, né? Que foi também que eu sempre fiz pros meus filhos também e graças a Deus estou vendo que ele teve um bom resultado.

Eu praticamente fui criado mais com o meu avô, em Domingos Martins. O nome dele é David Canal. Ficava mais com ele que até hoje as minhas tias lá, que tem duas tias solteironas, elas têm roupa minha lá de quando eu era criança ainda guardado em casa, nas casas delas lá guardadas, entendeu? Ah, era uma casa de madeira que nem antigamente fazia. De estuque, alta. Era tábua, assoalho de tábua, parede de barro, né? Fogão a lenha. Não existia naquela época geladeira, não tinha nada, fogão a gás, nós não tínhamos nada. Essa aí eu lembro ainda, era criança, eu lembro. Aí, meu avô também sempre foi agricultor, sempre plantou café também. Só que lá é mais morrado ainda do que aqui. Aí, ele subia capinando, eu junto com ele, quando descia eu vinha no pescoço dele. Aí, que eu passava a mão na cabeça dele, tinha a cabeça branquinha, eu falei: “Quando eu ficar velho também eu quero que a minha fique branquinha também”. Ainda vem de tradição de família mesmo. Isso aí ainda me recordo bem disso aí. A casa era dentro da propriedade dele mesmo. E tá lá até hoje ainda, existe a propriedade. Passava mais tempo com eles, porque moravam pertinho, né? É igual hoje, meus netos quase vivem mais comigo do que com os pais deles. Moram aqui pertinho, estão sempre junto com a gente.

Quando criança eu brincava de bolinha de gude. Era a brincadeira na escola que mais rolava mesmo, era brincadeira de bolinha de gude e estilingue, aquela de matar passarinho que hoje em dia a gente tenta proteger ao invés de... Mas era isso aí que era o brinquedo. A gente fazia com a borracha de pneu. A gente conseguia, era muito difícil também porque quase não existia carro. Quando a gente conseguia um pedacinho daquilo era uma fatalidade. Era uma... Passava o tempo com aquilo. Então, o que mais a gente usava mesmo era isso aí, o estilingue e a bolinha de gude. Escola então, na escola era bolinha de gude o que rolava.

A gente era acostumado na roça, desde pequenininhos sempre o meu pai levava a gente pra roça. Tinha que trabalhar junto com ele, como era o filho mais velho, então tinha que ajudá-lo também. Então, a gente já saía da escola, já também direto pra roça. Aí a gente ia pra escola, saía da roça, de manhã cedo a gente ainda ia pra roça antes de ir pra escola, que meu pai sempre levantou cedo. Aí a gente ia, dava o horário pra vir pra escola, a gente vinha, passava a mão nos caderninhos, ia pra escola, no horário do recreio a gente vinha em casa almoçar, que a escola ficava pertinho na época, aí dali voltava pro serviço. A gente ia e voltava a pé. Era uma escolinha até grande. Era também estrutura de madeira com os esteios, parede de estuque, de barro, assoalho de madeira. Era até bem organizadinha. Era ótimo. Era tudo junto. E uma professora só que dava essas aulas pra primeira a quarta séria. Tinha uniforme, tinha que ter. Era um calçãozinho escuro e uma camiseta branca, que era o uniforme. Calçado eu fui colocar calçado no pé com 18 anos. Nunca tinha calçado. Que a gente veio de uma família muito pobre mesmo, né? Mas graças a Deus sempre com dignidade. Andava descalço mesmo. Eu fui colocar o meu primeiro sapato com os 18 anos de idade, que eu calcei o primeiro sapato. Machucou-me os pés todinhos, deu vontade de jogar fora. Era descalço mesmo. Ia a igreja descalço. Eu fiz a minha primeira comunhão descalço. Na foto botou todos os meninos na frente, eu fiquei por trás porque eu tava descalço. Mas não tenho vergonha de falar disso, não. Graças a Deus faz diferença, não. Hoje, graças a Deus a gente tem pra se virar, mas a gente passou um período, mesmo quando a gente mudou pra essa fazenda, a gente teve um rapaz que ajudava a gente. Ele dava os cachos de banana, levava pra casa, minha mãe cozinhava e a gente vivia disso aí, uma farinha. Mas com muita luta e muita vontade a gente venceu na vida.

Nós trabalhávamos nessa fazenda. Entramos trabalhando a dia, em 70 a gente a gente plantou a primeira lavoura de café. Aí, graças a Deus, também aí a eles a gente têm que agradecer muito esse pessoal que deram liberdade pra gente trabalhar. Era tudo mata, a gente foi morar pra dentro de uma mata, num barraco tampado de casca de pau, e ali a gente começou. Depois fizeram uma casa igual essa aqui pra gente, e ali em 70 a gente começou a plantar café. Aí sim. Aí a gente multiplicou.

Eu saí da escola e já fui direto pra roça. Eu tinha muita vontade de estudar, mas naquela época a gente não tinha pra onde sair, família pobre também, não tinha estrutura nenhuma. A gente tava na roça mesmo. Estudei até a quarta série. Aí se quisesse estudar mais teria que sair pra cidade, né? E aí até a oitava série. E por isso que eu sempre gostei que os meus filhos estudassem. Sempre pedi pra eles estudarem. Hoje você viu ali, tem aquele que estava aí, já fez duas faculdades, Administração depois Direito. Tem a menina também formada em Contabilidade. Tem o outro filho meu caçula que é formado em Administração também, com pós-graduação. Graças a Deus todos tiveram...

Conheci minha esposa num casamento de uma irmã dela. A gente já se conhecia assim de vista, tinha um primo meu já casado com uma irmã dela. Aí num casamento de uma irmã dela foi que a gente passou a se conhecer. Um ano de namoro a gente se casou, foi em 75. Adquirimos a nossa família. O casamento foi na igreja, depois da igreja teve uma festinha que foi até o meu patrão que bancou a festa na época. Ele gostava muito da gente, então ele que bancou a festa. Ele deu o boi pra matar, deu a bebida, tudo. Bancou a festa. Foi muito bom. Foi lá na casa mesmo onde meu pai morava. Na propriedade mesmo onde ele morava, a gente morava. Aí foi feita a festinha. Casamos em São Gabriel, na matriz, e foi feita a festinha na roça, na propriedade. Foi churrasco. Mais a parte de churrasco, a bebida, a cervejinha, cerveja, refrigerante. Música era na sanfona, violão. E aí foi a festa durante a noite toda. O pessoal dançando, tinha um salão muito grande que era na tulha onde a gente largava o café foi a festa do casamento. Ali fez aquele salão grande e o pessoal divertiu ali dançando e festejando, graças a Deus foi muito bom.

Aí eu já tinha construído uma casa pra mim também. O pessoal da fazenda já tinha construído uma casa pra mim, já fui pra minha casinha. Teve minha casa. Eu tenho uma menina e três meninos. Foi logo depois que a gente casou já engravidou. Casamos em 75, dia 13 de dezembro de 1975, dia de Santa Luzia que a gente casou.

Ah, ser pai foi muito bom, né? Você ver uma criança, que eu sou apaixonado por criança, sempre fui. Eu sou uma pessoa apaixonada por criança. Quando eu era solteiro eu ia pra igreja com uma mulher que tinha um neném pra eu poder carregar. Sentava no banco da igreja perto de uma mulher que tinha uma criança pra eu segurar no colo. Então eu sempre fui apaixonado por criança. Só que eu não tive muito tempo pros meus filhos. Foi muito difícil. Praticamente não tive tempo pros meus filhos, que a gente trabalhava sozinho, quem se virava mais com as crianças era a mulher e ainda assim mesmo me ajudava na roça também ainda. Levava, em época de colheita, levava o menino pra roça, colocava dentro de uma peneira e ia apanhar café. A hora que tinha que dar o mamá ia lá dar o mamá, na hora que precisava trocar a roupa trocava. Formiga mordia, eles ficavam bravos. A vida da gente era essa, mas muito bom, graças a Deus.

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