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História

A Vida à Saúde Pública

História de: Suzane Bruns
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Suzane Bruns, nascida em 1959 em Ijuí, Rio Grande do Norte, teve uma educação alemã por toda infância. Formada em enfermagem, Suzane sempre se interessou pelo contato mais próximo com o povo, tendo decicado grande parte de sua carreira à saúde pública, mudando-se para Olinda, para o choque de sua família, para trabalhar com Dr. Celino Carriconde, "o médico das plantas". Nesta experiência, Suzane morou Favela de Cabo Gato, em Peixinhos, bairro de Olinda, criando uma proximidade muito grande com a população que atendia. Com esta e tantas outras experiências com saúde básica no campo e na academia, tornou-se supervisora do Programa Saúde da Família em Olinda/PE.

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História completa

P/1:.. 04 de julho de 1997, unidade da Saúde da família de Ilha de Santana, Olinda. Entrevista com Suzane Bruns, instrutora supervisora do PSF.

 

R: Isso.

 

P/l: Suzane, eu queria pedir pra você falar de novo seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R: Meu nome é Suzane Bruns, eu nasci em Ijuí no Rio Grande do Sul, no dia 30 de outubro de 59. 

 

P/1: E o nome dos seus pais?

R: Nilo Bruns e Ingrid Grants Bruns.

 

P/1: E que  eles faziam?

R: Meu pai era agricultor e plantava trigo e soja, atualmente é aposentado e a mãe sempre ficou em casa (risos).

 

P/1: Certo. E Suzane assim, o nome dos seus avós?

R: Do meu avô materno é Jonatann Grants e Emilie Grants e do meu pai Edmundo Bruns e Olga Bruns.

 

P/1: E você sabe aonde eles nasceram?

R: Na Alemanha, agora os meus avós maternos... paternos parece que foi em Erechim, Rio Grande do Sul, mas maternos foi na Alemanha não sei em que lugar certo.

 

P/1: Você sabe quando que eles vieram pra cá?

R: Em 17, na primeira guerra mundial, fugidos de lá. Depois no nazismo, aquela confusão toda aí eles vieram fugidos.

 

P/1: Certo. E você tem uma irmã?

R: Uma irmã.

 

P/1: E como é que ela chama?

 

R: Elisa. 

 

P/1: E ela faz o quê?

R: Ela é farmacêutica bioquímica e trabalha no município de Canoas no Rio Grande do Sul e a farmácia essas coisas né?

 

P/1: E Suzane, como é que foi a tua infância em Ijuí?

R: Em Ijuí foi uma infância bem tranqüila, éramos só eu e minha irmã. A gente teve uma infância bem confortável, nunca faltou nada, sempre tinha todas as nossas necessidades básicas atendidas, escola... como todo o vestuário, alimentação, lazer e tudo, né? Uma vida assim bem equilibrada e sem travessuras, sem muita coisa muito tranqüila. Depois eu fui pra Universidade, em São Leopoldo, na UNISINOS Enfermagem, quando eu me formei aí eu fui pra...fui fazer pós-graduação em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, em Porto Alegre... um ano, e após isso eu fui lecionar como professora e coordenadora de pesquisa e extensão na Universidade de Ijuí.

 

P/1: Certo. E voltando um pouco assim lá em Ijuí no começo ainda. Como é que era o cotidiano da tua casa assim, vocês tinham costumes...?

R: Principalmente alemão né? Até os 6 anos eu só falava Alemão, não sabia uma palavra em português. Quando eu entrei na escola eu comecei a falar português, assim costumes eram mais uma tradição alemã, né? Eu acho uma educação bastante rígida para os padrões atuais, tudo muito no certinho e assim... eu me lembro muito assim das festas, natal, páscoa eram coisas assim muito celebradas, muito comemoradas, mas assim, rotina não sei, eu não tenho muita... é tudo muito normal, dentro dos padrões (risos).

 

P/1: Nessas festas tinham comidas especiais alemãs, que quê era assim?

 

R: Tinha. Ah! o que eu me lembro... O meu Deus! As comidas alemãs tiveram... eu lembro de um tal de Strudel, esses panetones, coisas assim… Lembro que a minha mãe fazia uma geléia com carne de porco que eu não sei mais o que quê é que eu comia (risos). Era assim, eles faziam esses tipos de alimento, a páscoa era muito linda também, a mãe fazia aqueles ovinhos decorados e escondia. a gente tinha que procurar pela manhã. No natal tinham os sapatinho pra gente ver o que quê tem na botinha um dias antes depois natal, aí tinha todo domingo de ir na igreja, né? Nós íamos para igreja no natal, chegava em casa e tava o pinheirinho, a música de natal alemã, lógico, e aí tava aquela festa com a família. Era uma família pequena, minha mãe só tem uma irmã e o dos meus pais moravam em Santa Catarina, então era mais uma relação só essa irmã e 2 irmãos do meu pai que moravam na mesma cidade. Então é uma família grande mas pequena, porque naquela cidade tinha pouca gente.

 

P/1: E descreve a sua casa, como é que era aonde que você morava?

R: Aonde que eu morava? Eu morava bem no centro da cidade, era uma casa com 2 andares, um jardim imenso, tinha até uma piscina de pato (risos) que a gente fez piscina pra gente que o meu pai tinha pato, tinha galinha lá no fundo do quintal, uma horta. Eu tava contando que tem quase 20 frutas... árvores frutíferas na época, eu tinha uma casinha de boneca que era do tamanho de certas casas que eu ia encontrar aqui, que o meu pai fez pra gente, com sofazinho, poltroninha, mesinha com todos aqueles detalhes cortininha, porta... direitinho, mas até em melhor qualidade do que muitas casas eu ia encontrar aqui, sabe? Então... tinha essa casinha de boneca que eu me lembro muito bem, o quintal muito grande, a coisinha de lavar roupa para mim e para minha irmã brincar... garagem dos carros, aquela coisa assim, sabe?

P/1: Vocês tinham alguma atividade dentro de casa? você era responsável por fazer alguma coisa dentro de casa?

R: Não, sempre tinha pessoa que ajudava dentro de casa. A minha mãe não gostava não que a gente fazia era bagunça, aí ela não permitia, não. Fui começar mexer na cozinha ou coisa assim na época de Faculdade. Era obrigação de ajeitar as coisas, e quando a gente começou a entender ajeitar a cama, isso era obrigação da gente, aí não deixar os brinquedos bagunçados, enfim manter a ordem isso era, mas assim outras coisas limpeza, não, nada nem... cozinha, isso a gente não... ainda hoje eu não sei cozinhar, acho que em função disso (risos), muito pouco tô aprendendo com minha sogra.

 

P/1: E Suzane, qual que é a lembrança assim quando você entrou na escola, qual que é a lembrança mais forte que você tem assim?

R: Eu chorava muito. Eu lembro que eu chorava muito, e era 100% na educação alemã, eu me lembro até do jardim, eu era muito reprimida pela educação, aquela coisa bem rígida daí uma vez eu quebrei uma... não quebrei a cadeira, hoje eu vejo que não fui eu, a cadeira já devia tá assim de pé, eu quebrei e fugi do jardim, pulei o muro e fui me embora! Quando a minha mãe, perguntando, eu cheguei em casa minha mãe tava se arrumando pra me buscar, de cinco da tarde e ela ficou aperreada porque eu cheguei em casa e como é que eu vim sozinha, eram cinco quarteirões e com medo. Eu era assim, muito tímida, extremamente tímida, me escondia das pessoas, muito tímida... Muita repressão pelo estilo da educação, não se permitia errar né? Aí isso eu lembro e depois quando eu entrei no Colégio mesmo, na primeira série, aí então eu chorava muito, eu me lembro. Depois eu me adaptei me envolvia muito com esportes, vôlei, natação... Eu tinha bronquite asmática assim na minha infância até os dois anos, eu tive meningite e desde lá desencadeou um monte de doenças como a bronquite asmática. Eu me lembro que o meu pai dizia assim que, eles tiveram que vender as coisas dentro de casa para poder sustentar os meus tratamentos. Até os 7 anos eu vivia mais no Hospital em tenda de oxigênio, eu me lembro disso, as pessoas indo me visitar, não podia sair por... crises asmáticas. A mãe disse que duas vezes os médicos me desenganaram, agora eu acho que as coisas foram melhorando, veio um médico antigo que me tratava com antibiótico, eu estava era morrendo, eu já acho que já é pelos antibióticos e daí veio um médico novo na cidade, aí fui morar na praia um ano para poder pegar o ar mais úmido aí voltei pra minha cidade e até lá nunca mais tive problemas. Tive uma ou outra crise, com 17 anos foi a última que eu lembro.

 

P/1: Que cidade você foi morar na praia?

R: Na praia Tramandaí. Isso eu lembro que era assim muito cuidado, fazia vacina todo dia no braço, injeções depois foram parcelando. Então era muito assim...quando caia neve minha mãe não deixava eu ver a neve porque não podia sair para fora e queria... então eu ficava sempre dentro de casa, super protegida, qualquer doença a minha mãe já ficava louca, nervosa, aperreada,  né? Me batia porque ela ficava nervosa, porque eu já ia começar a adoecer de novo... (risos) era uma coisa assim a bichinha, tenho tanta pena dela quando eu penso hoje... até a gente como mãe sabe o que é. Daí foi nesse ponto assim bastante tolhido, mas foi assim uma época muito feliz, sabe, muito feliz eu tinha tudo o que eu queria.

 

P/1: Você teve meningite com quantos anos?

R: Nove meses.

 

P/1: Nove meses!

 

R: Nove meses, mas acho que foi viral, não foi bacteriana não, pelo que minha mãe conta...

 

P/1: E você sabe com que... como que você foi tratada?

R: Não. A mãe disse que eu já estava... ela tinha no meu colo, se percebeu minha moleira elevada, a fontanela e aí ela levou pra o hospital e eu não sei não, não sei não, como é que foi o tratamento, não sei nada...

 

P/1: E você e sua irmã, vocês tiveram assim essas doenças de crianças assim...

 

R: Tivemos... não...

 

P/1: Que quê vocês tiveram?

R: Tivemos catapora, caxumba eu tive até duas vezes. Eu só não tive Sarampo, eu tive Rubéola, já minha irmã teve Sarampo. Todas nós tivemos as mesmas doenças, só eu não tive sarampo e ela não teve a rubéola.

 

P/1: E como que vocês tratavam, você se lembra?

R: Não, não. A minha mãe não usava essas coisas de... que nem eu uso aqui... pra sarampo milho, chá de sabugo de milho de não sei... não, essas coisas não tinham... pelo menos ela não tinha esse conhecimento não, eu tenho certeza que esses chás essas coisas não eram usadas, não, isso eu lembro. Eram mais sucos, eu me lembro coisas assim repouso, abafado...  Cobriam a gente de roupa até e com febre e queimando e cheio de roupas de casacos essas coisas. Eu sei que ela botava pra tomar antes de dormir, botava cachaça com limão e mel e fazia eu tomar quente pra... e fazia eu tomar um suador debaixo da cama, isso eu me lembro. Ela me cobria todinha botava umas quatro, cinco cobertas em cima, eu suava que só. depois ela tirava... eu trocava a roupa e pronto, isso eu lembro que ela fazia... demais (risos).

 

P/1: Bom, e você estudou em que colégio mesmo?

R: Em Ijuí, Colégio Evangélico Augusto Pestana. Até o segundo grau, até terminar, desde o início o jardim até o fim nessa escola.

 

P/1: E você ia, freqüentava a Igreja Evangélica?

R: Freqüentava. Eu sempre tive uma vivência muito forte na igreja e a minha mãe sempre levava nos domingos na escola dominical. E a medida que eu fui tomando consciência da coisa eu mesma procurava o grupo de jovens, a igreja... na igreja evangélica também.

 

P/1: Fazia parte de algum grupo da igreja?

R: Fazia, parte do grupo de canto e de esporte. Canto e Esporte.

 

P/1: Que esporte tinha lá na Igreja?

R: Ah! Tinha tudo. Vôlei, ping-pong, tênis de mesa, basquete, atletismo também alguma coisa tinha, os meninos futebol, as meninas mesmo arranhavam, eu jogava vôlei (risos) só isso.

 

P/1: E me fala uma coisa, alguém na família te incentivava pra seguir alguma profissão?

R: Não. Aliás, minha mãe sempre queria, assim, medicina, essas coisas... Até brigou comigo quando eu optei por enfermagem e eu optei por enfermagem eu nem sei direito por que. Era muito novinha, não sei se até uma pirraça contra a minha mãe, também não sei, mas sei que realmente essa profissão eu me apaixonei quando eu depois fui fazendo o curso, né? Daí eu acho que foi a escolha certa pra mim, sabe? Mas minha mãe preferia que eu tivesse feito medicina, qualquer outra coisa dessas... Veterinária, engenharia que também já não é mais uma profissão bem remunerada. E minha mãe sabia disso, se preocupava com isso, ela sabia que era mais sofrida não era tão reconhecida, aí ela brigava, foi uma briga danada, mas... aí foi.

 

P/1: E me fala uma coisa, que quê mais te atraia o curso?

R: No curso?

P/1: É.

 

R: Acho que tudo, assim... no curso tudo, todas as áreas eu gostava eu... não sei, assim a parte de... as disciplinas como um todo eu gostava, eu só não gostava que envolvesse muita matemática, que matemática e física eu não sou lá essas coisas não, sabe? Nunca fui. Aí, por isso que eu fui também por essas áreas, viu, que eu tenho horror. Hoje me perguntam quais as coisas básicas. eu já não sei mais nem de matemática, não sei pra que lado vai. Mas assim, porque eu gosto dessa área química, biologia demais e então em  termos de disciplina todas as áreas, e eu gostava muito do atendimento assim principalmente na área de gestante, foi a área assim que eu mais me identifiquei. A parte também de psiquiatria eu gostei demais porque era mais, assim, que eu me identificava no tratamento com o público. Na hora dos estágios eu gostava muito dessa área, emergência também, criança também, era assim era isso que me... a parte que eu mais gostava era de estágio não era (risos) a teoria também, eu sempre fui muito estudiosa, sempre passei muito bem nas disciplinas sabe, sempre era muito estudiosa. E a entrada mesmo aqui na Universidade, tirava nota melhor que eu (risos) eu me lembro eu era danada. Eu não, eu sempre precisei estudar muito pra poder conseguir as notas boas certo.

 

P/1: Ela era mais velha ou mais nova?

R: Mais nova, 2 anos.

 

P/1: E ela fez o quê?

R: Farmácia bioquímica. Ela é muito inteligente, extremamente. Ela quase não estuda e ela capta as coisas assim, muito competente, demais. E eu já tenho que batalhar.(risos).

 

P/1: E aí o que quê te levou a fazer a pós-graduação em saúde pública?

R: Por causa disso, porque eu na época da faculdade eu já comecei a me envolver com favelas, trabalho em favelas, em comunidades carentes. Eu ia pra uma cidade vizinha nos sábados à tarde e fazia com um grupo de pessoas relacionados a igreja também e fazia esse trabalho... meu cunhado que hoje em dia é pastor, aí ele na época era só um amigo da gente, daí a gente ia lá e dava essa assistência. Eu na área de saúde que eu sabia, dava palestras e eu sempre gostei, na minha cidade também, apesar de eu tá vamos dizer... na Universidade eu que implantei todo esse trabalho de saúde pública, ele iniciou com a gente com essa equipe, então fiz todo o trabalho de implantação do serviço de saúde pública da Universidade. Aí então, porque eu já tinha essa vivência, além disso, eu ainda fazia por fora porque eu sempre me... Eu trabalhei muito com alcoólatras, na reabilitação de alcoólatras também voluntário. Na época de faculdade, depois ainda dessa aluna na minha cidade em Ijuí, depois que eu me fiz a pós-graduação voltei pra Ijuí, né? Então foi por isso, porque já me identificava a minha forma de ser, de pensar a vida, de pensar o relacionamento das pessoas, principalmente, isso daí foi muito importante.

 

P/1: Essa cidade que você ia aos sábados a tarde, qual que era?

R: São Leopoldo.

 

P/1: Lá tinha muito (inaudível)...?

 

R: Na ilha do leite. Aí tinha... era uma cidade muito carente, daí eu ficava dando palestras, se tinha um curativo e coisa eu tentava ajudar a resolver, sabe? Faculdade eu não tinha tanto conhecimento teórico, mas o que eu podia eu tava fazendo, participando da mobilização também da comunidade, pra tentar conseguir melhores recursos, saneamento básico pra eles do que eles necessitavam, aí participava do mutirão de lixo, do que precisasse do que aparecia lá… fazia teste de acuidade visual aqueles básicos que a gente tinha conhecimento...

 

P/1: Acuidade…?

 

R: Acuidade visual, aquele básico! As pessoas só olhavam as letras, se ele enxerga um determinado x e não se percebia mais, a gente já sabia que tinha uma deficiência e encaminhava. Coisas assim, sabe ?

 

P/1: E quais assim, em termos de... além dessa estrutura vamos dizer... de problemas sanitários, quais eram as principais... tinham endemias, epidemias?

R: Tinha. Eram assim as doenças... Na época não era muita coisa assim, que nem aqui, Leptospirose, mas o número de hepatite que tinha fases, mas principalmente as doenças no trato respiratório, de pneumonias, todo o clima do sul como é que era... aí pronto! Aí era mais isso que eu lembro. Lembro que teve a epidemia de sarampo numa época que a gente trabalhou junto com o pessoal do estado no combate, trabalhou com...  não me lembro mais, mas teve muita coisa teve. Eu só não lembro assim muito... era isso, hepatite, eu me lembro de hepatite, essas doenças infecciosas respiratórias e diarréias também, teve época de surtos de diarréia, febre tifóide teve também. A gente trabalhava a questão da água, saneamento, orientação de trato com a água, essas coisas da limpeza da higiene pessoal e ambiental.

 

P/1: Certo. E aí o seu primeiro trabalho foi como professora da Universidade de Ijuí?

 

R: É.

 

P/1: Já existia o curso em Ijuí?

R: Foi implantando né? Fui a primeira... do primeiro grupo de professores que implantou junto com a direção, coordenação. Que quando eu cheguei não tinha ainda... a minha disciplina que era lá pelo quarto período ainda não tinha nenhum professor, aí como eu tinha sido a única que tinha feito essa especialização aí me chamaram e daí eu entrei na Universidade e comecei a implantar a disciplina de Saúde Pública e Saúde da Comunidade e também daí logo me chamaram pra fazer parte da coordena... pra ser a coordenadora de pesquisa e extensão do departamento de Saúde que era composto pelo curso de enfermagem e nutrição, porque lidava com essa parte de projetos de implantação nas comunidades. Aí eu fiz aquela toda mobilização comunitária de diagnóstico de saúde da comunidade, a gente escolheu as comunidades mais carentes, assim como o conselho e tal. Aí eu fiz todo esse trabalho de implantação de postos de saúde tentando fazer a ligação assistente docente, docente assistencial. Então a gente tinha implantado aquele posto e os professores iam lá, faziam um estágio e aquelas famílias eram acompanhadas por todos os grupos até o fim da Faculdade. A medida que entrava o estágio, fazia por exemplo, era esse semestre psiquiatria e eles lá faziam aliás, obstetrícia, faziam obstetrícia, outro semestre era maternal infantil, eles acompanhava a criança e depois entrava na psiquiatria com a família como um todo, entende? então havia assim... foi um programa muito lindo, lindo, lindo. Até hoje minha mãe diz assim, que quando perguntam por mim lá, “eles sempre falam com tanto carinho de você”, que quando é que eu vou voltar? Então foi uma coisa muito linda,  mesmo. E também como coordenadora de pesquisa e estágio eu fiz um trabalho com os Secretários de Saúde dos municípios da região Noroeste do Estado, aí eu fazia a coordenação do trabalho com os Secretários de Saúde aonde que a gente procurava ver a carência de cada município, ver o que quê cada município pode oferecer, as necessidades de cada um, então um tentando trocar experiência com o outro, tentando se unir... não só saúde, aí incluía a parte administrativa, financeira, educação, saúde, infraestrutura, planejamento... Então aí a gente coordenava esse trabalho das prefeituras como um todo, eram 11 prefeituras.

 

P/1: Certo. E Suzane, você nunca trabalhou como enfermeira de hospital?

R: Não, trabalhei só alguns meses de enfermeira hospitalar. Eu não gostava porque você não tinha condições como enfermeira... Geralmente era uma enfermaria para uma enfermaria como um todo, duas enfermarias. Você fica muito tolhida naquele atendimento, você não tem nem condições de conversar direito com o paciente já que é tanta burocracia pra preencher e eu não gostava de ambiente fechado, eu gostava de andar de conversar. Eu não via sempre a pessoa como... aquela doença, só a doença, sempre via a pessoa como um todo, entende? Aí eu não gostava não, não gostava.

 

P/1: Que hospital você trabalhou esse período?

R: Hospital de Caridade de Ijuí.

 

P/1: Foi só aí?

R: É, foram só seis meses, foi pouca coisa.

 

P/1: Essa época Ijuí era que tamanho, assim, tinha quantos habitantes?

R: Se agora ela tem 100.000, na época tinha uns 60.000, 80.000 mais ou menos habitantes, que eu me lembro, eu imagino que vai até 100.000, pelo que ouvi falar, mas eu não sei não. Cresceu muito com a Universidade, cresceu muito e agora a Universidade tem vários outros cursos que na época não tinha. 

 

P/1: Bom então, você ia falar da tua adolescência, do grupo que você saia...

 

R: É. Eu era assim um grupo muito bom. Eu não tive envolvimento, por exemplo, namorado, eu não era uma pessoa de ficar namorando e então eu levava muito a sério. Me lembro de um namorado que eu namorei no Rio Grande do Sul só, depois namorei outro quando eu cheguei aqui e casei com o meu marido. Assim por exemplo, não era de namorar muito era muito ligada assim a esporte, eu sempre gostava de competir, ia competir pelo Colégio, a gente competia em outros municípios, a gente... a igreja eu saia, gostava muito de cinema, eu ia porque eu tinha meu carro assim que desde os 12 anos eu sabia dirigir.

 

P/1: Ah é?

R: Minha mãe logo ensinou, sabe? Aí eu logo, eu já tinha o meu carro,  mas eu tinha que driblar o policiamento, aquela coisa toda, mas cidade do interior dá pra quebrar o galho, todo mundo te conhece. Aí eu sempre tive muita autonomia de sair, de ir aonde é que eu quisesse, a minha mãe nunca me trancou. Eu podia ir para o clube, aí eu ia pro clube todo fim de semana, tem piscina... Às vezes até ia assim de tarde... cinema direto, o que apresentava de coisa assim, eu freqüentava. Não era muito de ir a baile, festinha eu não gostava dessas coisas, não... Festas de dança eu nunca fui muito ligada. Mas assim, eu era muito pacata mas era também muito dinâmica que eu sempre… eu ficava pouco em casa, eu sempre tava na rua fazendo alguma coisa, apesar que eu gostava de ficar em casa também, mas era sempre na rua fazendo alguma coisa. Era assim, era isso que eu fazia né? E os trabalhos na comunidade no fim de semana também, né?

P/1: Quais eram... Você falou de uma comunidade, tinham outras que vocês percorriam?

R: É, isso na época de faculdade tinha a comunidade Antonio Leite. Agora em Ijuí tinha uma outra comunidade, sabe que eu nem me lembro mais o nome? Eu sei é que tá... era perto do rio, eu não me lembro. Que era uma coisa pequena que ainda tava assim, o pessoal estava começando a se apossar daquele pedaço de terra, sabe? Muito pobre, muito em relação... é que os padrões de pobreza de lá são bem diferentes da pobreza daqui, por exemplo: a comunidade carente que eu tava trabalhando, Antonio Leite, não se compara com a miséria daqui, entende? Então era carente para os padrões de lá, agora essa aqui em Ijuí, eu comecei, era dos padrões daqui, realmente esse pedaço né? Aí então isso eu trabalhava, ia todos os fim de semana lá e passava o sábado a tarde, daí...

 

P/1: Sua mãe não tinha medo que você ia nesses lugares?

 

R: Tinha, mas não temia muito não, sabe que não! Ela às vezes ela falava: veja lá, cuidado! Mas era só isso, sabe. Ela me dava muito autonomia, ela sabia que eu tinha a cabecinha no lugar que eu não ia fazer besteira. Aí ela confiava muito nesse ponto, ela deixa fazer tudo ela nunca me proibia não de nada, que eu me lembre. Também a educação rígida valeu viu. (risos)

 

P/1: É. (risos)

 

R: É que assim, fui muito calma muito tranqüila, nunca fui de muito fazer presepadas né?

P/1: Certo. E aí você ficou em Ijuí lá como professora até quando?

R: Dois anos. Implantei o trabalho... depois que eu implantei daí veio uma proposta e eu disse assim: eu tinha vontade de ir pra um outro canto, fazer saúde de vez fazer saúde pública mesmo que eu já tava assim envolvida, mas tava num... eu queria assim trabalhar, morar numa favela, numa comunidade, pra sentir mesmo o que essas pessoas sentem, não é? Daí eu comecei a procurar eu fui pra Porto Alegre, na época de Faculdade estudei lá, voltei... daí eu comecei, mantinha os laços, eu ia quase todos os fins de semana para Porto Alegre ou de 15, uma vez por mês eu tinha que tá lá prá ver os meus amigos todos e a gente começou a se reunir. Um grupo que tinha as mesmas vontades, os mesmos desejos, né? Aí a gente se reuniu... Foi um rapaz, Daniel, que ele é americano mas que tava morando lá a uns anos já, que ele fez psicologia pastoral, aí tinha uma menina que tava se formando em farmácia bioquímica, Dirce, que tinha se formado em psicologia, uma outra menina que tava fazendo enfermagem e eu como enfermeira já. Aí conversando e eu já tinha escrito pra embaixada de Angola e Moçambique que eu tinha loucura pra ir pra esses cantos assim sabe, viver lá no chão mesmo, fazer esse tipo de trabalho. Minha mãe ficava horrorizada, escandalizada.

 

P/1: Por quê?

R: Porque a minha mãe é muito assim, ligada a parte financeira, material, né? E eu e minha irmã éramos bem o oposto, a gente rejeitava e ela ficava danada com a gente quando a gente pensava nessas coisas. Quando ela viu que eu tinha mandado a correspondência ela quase teve uns troços em casa sabe, porque achava um absurdo, ia largar todo o meu conforto, eu tinha tudo o que eu queria. E isso pra ela... e entendo como mãe hoje em dia, mas na época eu não entendia não: eu vou porque eu quero e eu gosto disso, eu tô bem, eu adoro a universidade, adoro o meu trabalho, eu sei que eu tô fazendo uma coisa... Mas eu queria fazer um trabalho mais chão, viver realmente como é que o povo vive, pra sentir mais e poder até ajudar mais. Aí eu me reuni com esse grupo e a gente foi alimentando isso. Aí esse rapaz e a menina que fez psicologia começaram assim: disse “olha, eu conheço um pessoal lá no nordeste, o rapaz andou muito já pelo Brasil inteiro, conheço o Dom Helder Câmara e eu não sei, eu acho que a gente podia fazer um trabalho que não fosse numa comunidade muito violenta tipo São Paulo e Rio que ali a gente... pra não se expor tanto e que ao mesmo tempo a gente tivesse uma organização comunitária, que a gente pudesse se integrar para desenvolver o nosso trabalho...”. E a gente foi pensando, pensando como é que vai se sustentar? Aí a minha igreja achou assim bem... acharam interessante uma proposta do trabalho da gente, e daí a gente fez um projeto e eles disseram que financiariam com um salário mínimo pra todos desse trabalho, mas se a gente quisesse, se precisasse de uma assistência à saúde a gente teria esse acesso, eles pagariam uma coisa... que se precisasse... Mas daria um salário mínimo que na época era alguma coisa, hoje em dia o salário mínimo não dá prá nada. Aí a gente disse: olha a gente financia, vários amigos... “nós nos comprometemos a financiar vocês desde que vocês remetam toda a experiência que vocês estão vivenciando lá para que possa enriquecer o nosso trabalho aqui ao nível de comunidade, como pessoas, como cristãos e tragam a experiência desse povo que a gente tanto ouve falar e que não é…”. Aí isso foi prá gente o máximo né?  E a gente: pronto!, a parte financeira tá resolvida então agora a gente tem que ver onde é que vai trabalhar, e eu tô… Aí Daniel, diz que andaram por aí um pouquinho pelo Brasil e acharam aqui melhor a receptividade, porque em primeiro lugar foram visitar Dom Helder Câmara através introduzidos por outras pessoas que eles já conheciam. Aí ele falou de um trabalho que era bonitos aqui em Olinda, que era em Peixinhos feito por Dr Celerino Carriconde, não sei se você já ouvir falar o médico das plantas, né?

 

P/1: Já.

 

R: Pronto. Daí eles conversaram com ele, realmente tinha saído uma equipe de freiras daquela comunidade e tavam precisando pessoas pra substituir. Aí pronto, eu disse, aí pronto, é da gente este espaço, a gente gostaria de trabalhar nessa comunidade. Aí a gente decidir isso foi num ano de conversa, de preparo, de ler muita coisa, de discutir com o grupo o que a gente queria, o que a gente não queria, mas isso dentro de uma visão bem de lá, sem conhecer a visão realmente da... nunca tendo vivenciado em saúde pública e vivido numa comunidade. Então, hoje em dia eu vejo como é bem dissociado da realidade que a gente tem né? Então a gente ficou esse ano todo se preparando e decidiu vir. Pronto. Pra cada um foi um caos na vida familiar. Porque eu larguei a Universidade, pedi demissão, pedi demissão da Universidade, eu só tinha um grupo de alcoólatras que eu trabalhava que era muito interessante, eu trabalhava em nível hospitalar e com os grupos toda semana e acompanhamento da família na chamada Associação Brasileira de Combate ao Alcoolismo, era também um trabalho voluntário. Com o psiquiatra também voluntário da cidade, um médico e com um grupo de alcoólatras que estavam já a muito tempo sem beber, tipo “alcoólicos anônimos”, não eram alcoólicos anônimos mas eram da associação brasileira. Aí eles assim fizeram de tudo pra gente não... pra eu não sair e aquele trabalhando andando... Até hoje, a minha mãe diz: óh Suzane aquele Jorge, às vezes que ele passa por aqui e pergunta por você, um outro também que era até empregado do meu pai que meu pai tinha uma fábrica de parquet, de tacos, isso eu esqueci de contar, que depois ele passou pra trigo e soja. Então era funcionário dele que era alcoólatra e que a gente recuperou e até hoje ele fala muito desse trabalho, quer dizer, são frutos e isso é que me deixa feliz, entende? Você batalha, batalha, vê o trabalho, não vê resultados imediatos, que saúde pública é assim: você luta, luta pra ver uma coisinha, mas só aquela vida que você salvou, que você estruturou, que você conseguiu ajudar, vale por tudo sabe, e é por isso que me gratifica a saúde pública, que eu não trato só a doença, é o povo como um todo nele na sociedade dele. Aí minha mãe ficou escandalizada que eu vendi o meu carro, botei tudo na poupança e vamos embora! mas minha mãe chorava, sabe, e eu… ia morrer.

 

P/1: O que ela sentia mais assim, você tá indo para longe? pelo fato do trabalho?

R: Pra longe. Com tudo. Primeiro porque eu estava abandonando a família, eu acho que ela sentiu que eu não estava dando valor a família, apesar que eu sempre disse que eu não ia ficar lá muito tempo.

 

P/1: Quantos anos você tinha nessa época, que você tava saindo?

R: Eu tinha... eu me formei com 21, eu saí de lá com 25. Aí eu me formei com 22, é, eu tinha saído com 25 no dia 9 de janeiro de 90. Quando eu cheguei aqui eu estava... de 85 que eu cheguei aqui dia 9 de janeiro de 85. Aí assim, ela sentia porque eu ia deixar a família, eu ia pra longe, segundo lugar tava deixando, tudo ela dizia “que quê adiantou a gente se sacrificar tanto por você, dá tudo pra você deixar, abandonar, não dar valor a nada, entende?”. Não que eu não dava, mas não era aquilo que me fazia feliz, né? Que quê adiantou tudo isso? Ela de repente se frustrou como um todo comigo, porque ela queria que eu casasse com um homem que tinha assim... que a minha mãe era muito ligada a questões materiais como eu já falei, sociedade, né? Queria que eu casasse com um médico, engenheiro, aquela coisa que toda mãe tem, aquele sonho e eu não queria nada disso e nem fazia questão (risos), não é? Tinha o meu namorado lá, mas as coisas andavam e não andavam, namorei 9 anos esse rapaz e acabou acabando. E daí ela queria assim que eu... dentro eu já tava tão bem na minha profissão lá, ganhava bem e tinha meu carro, tinha tudo, todo o conforto, eu tava saindo de lá abandonando ela... Foi duro, foi duro, eu tinha muita pena e hoje em dia se meu filho fizer eu acho que eu morro também eu... sei não, né? Eu não sei como eu tive coragem. E também hoje em dia... valeu a pena, mas se hoje em dia eu tivesse que fazer de novo eu acho que eu não fazia porque foi muito sofrimento. Na hora que você sai, você tem um sonho um ideal, mas na hora que você vai ver como é que é dura a realidade, aí você... te choca e isso foi muito importante pra mim e também para compreender e sentir melhor o povo, o que ele sofre e isso me faz sensível, a problemática toda e isso foi muito bom pra mim, mas sofri foi muito...

 

P/1: Você veio morar aonde?

R: Eu vim morar aqui em Olinda, em Peixinhos, na Favela de Cabo Gato.

 

P/1: Você foi pra favela, morar na favela mesmo.

 

R: Morar na favela mesmo.

 

P/1: Quantas pessoas vieram com você?

 

R: Cinco. Um rapaz e quatro moças. Aí a gente foi... como não tinha onde é que morar, a gente morou na casa da associação, mesmo. Era assim de taipa, em março com as chuvas ela caiu quase na cabeça da gente. Eu acordei e eu só via o barro começando a cair das paredes. E a gente trouxe assim, um mínimo de roupas, coisas básicas só, não tinha luxo, não tinha nada, comia fazia... tinha um fogãozinho lá a gente fazia a comida da gente sabe, banho não tinha chuveiro, era numa torneira. Então, por exemplo, ônibus eu não era acostumada a pegar ônibus, pisar na terra; terra eu sabia que era suja, contaminada e que eu sempre andava com o meu tênis, e aqui é muito quente eu estranhei muito o calor, aí tinha que andar de sandália, eu não agüentava o calor, aí a lama... isso me deixava assim doidinha sabe, me chocou muito. Me chocou assim... por exemplo, as muitas vezes eu ia pra Recife a pé eram 14 quilômetros, mas eu gostava de andar também mas não tanto. Fosse prá economizar passagem, mas a gente ia também porque queria, porque a população fazia isso também, não tinha passagem, andava. E a gente queria andar com eles, andava, tentava andar, tentava porque não conseguia, porque a gente sabia que tinha uma estrutura atrás se a gente precisasse. Então, conseqüentemente a gente não podia viver, mas procurava dentro da melhor forma possível tentar, vir passar pelos passos que eles também passa, vivenciar. Aí a casa caiu em março, aí a gente teve... ficou sem poder saber... daí cada um ficou na casa de um, de uma pessoa da comunidade uns 15 dias, aí alugo, conseguiu alugar uma casa que a comunidade financiou também o aluguel e que não tinha telhado nem no banheiro nem na cozinha, era um barato. A gente tomava banho olhando para aquela lua linda, pros coqueiros... era um maior barato. Eu adorava aquele banheiro, sabe, (risos) porque era ótimo. Então era assim, tinha toda a natureza dentro da casa da gente (risos), era muito interessante. Era casa de dois quartos, uma sala bem pequenininha, é como este posto aqui, essas duas salas desse posto, não era grande não. E lá a gente ficou muito tempo lá, ficou até o fim, foi até o fim. Eu fiquei um ano e meio morando lá. Nesse tempo cada um de nós começou assim, a procurar onde melhor poderia atuar, eu, em principio, como eu já trabalhava com... assim, eu tinha visão de saúde pública já tinha pós-graduação, me interessava muito o trabalho com o agente comunitário de saúde. Não existia...

 

P/1: Já existiam agentes de saúde aqui?

R: Existia na comunidade, aqui ... eu não sei se existia.... não, não existia com nome de Agente de Saúde, mas existiam pessoas na comunidade que já eles trabalham com saúde aí eu... tentei assim como eu tentei resgatar esse grupo que já trabalhava na área de saúde, tinham muitos analfabetos, eram nove mulheres e um homem, 10. Aí eu comecei a me reunir toda a semana com eles e eu adotava muito aquele livro do David Werner, Onde Não Há Médicos. Aquele livro... eu pegava o livro dele e para saber... como é que eu vou explicar assim.... eu queria fazer eles se apropriarem das questões de saúde deles, aí eu comecei a conversar, questionar o que é doença, porque eles não tem noção de doença entende, a maioria não tem. Eles convivem com aquelas doenças, convivem com aquela sujeira, convivem com as diarréias, aquilo pra ele é o dia-a-dia dele, comer de mão suja, aqueles hábitos básicos de higiene, então de banho de tudo. Então tentando em primeiro lugar, o primeiro passo foi de tentar mostrar para eles o que era doença, e porque essas doenças existiam. Mas sempre assim, numa metodologia que eu lançava as perguntas e eles questionaram, falavam, conversavam e eles mesmos chegavam a resposta. Eu tentava induzir entende, mas eu nunca chegava e dava aquela coisa didática de professora, era uma outra metodologia de resgatar deles a realidade deles e tentar aquilo transformar no saber. Então eu olhei e comecei assim: como é que agora eu vou explicar as doenças? Daí eu pensei assim, peguei aquele livro do David Werner, aí eu disse “bom, eles nunca viram um corpo humano aberto, como é que eu vou explicar o que quê é uma artéria o que quê é uma veia, o que quê é um coração…?”. O que para eles barriga é tudo a mesma coisa, não tem estômago não tem intestino, não tem fígado. Então pra eles até saber se uma dor localizada nessa região pode ser do fígado e não intestino, entende? Dor de barriga é o quê? Então, daí eu peguei... primeiro lugar eu peguei uma galinha que eu vi uma experiência em Casa Amarela de uma senhora que sabia dissecar uma galinha. Chamei essa senhora, aí eu peguei... a gente arrumou uma galinha, reunimos as mulheres todinhas e a gente foi conversar. Bom, abrimos a galinha demonstrei o fígado da galinha, a moela que era o estômago, as cores inclusive se fazem semelhantes, o intestino tentando mostrar olha, aqui é o intestino grosso é o intestino delgado, aqui acontece no intestino delgado os alimentos são assimilados para corrente sangüínea e aqui é onde é que são eliminados no intestino grosso. Mostrar o que é um nervo, aí o interessante eu pego a pata da galinha e daí eu pego o nervo ciático e na hora que a gente puxa ela faz assim... demonstrei o nervo. Porque quando a gente bate, pra ver os reflexos...

 

P/1: Ela retrai a parte...

 

R: Ela abre.

 

P/1: Ah!, ela abre.

 

R: É, a gente puxa e ela abre porque ela tá mole daí ela abre entende? pois eu puxava e ela abria, prá mostrar...

 

P/1: A ligação com...

 

R: É, então o interesse deles, eles começaram a entender que o corpo não era formado só de barriga, que existia um pulmão, como é que é esse pulmão... inclusive as cores são semelhantes. Aí a gente pegou dissecou ela todinha,  mostrou a caixa toráxica da galinha, o peito, como era da gente, pronto! Depois que eles entenderam a gente fez uma galinhada (risos) comeu a galinha todinha, elas preparam e foi a festa. Daí outro dia eu peguei uma criança e desenhei... um já grandinho, um adolescente e desenhei no corpo todos aqueles órgãos, como é que eu desenhei o pulmão, aí o coração fica no meio, não fica no lado esquerdo mas fica voltado porque é ponta do coração... Demonstrei na galinha como é que era o coração, eles já sabiam que era igual, parecido. Aí eu desenhei os intestinos tudo, o fígado, onde é que fica o pâncreas, daí o pâncreas dá a insulina, o diabético aqui, tem a casa do diabético como é que era que isso acontecia… Eles entendiam a parte de músculo, de nervos o que quê era uma artéria, uma veia pra eles saberem até a forma de socorrer em caso de sangramento arterial e sangramento venoso. Então isso foi a minha aula de anatomia e fisiologia e foi assim eu aprendi mais do que eles sabiam, foi fantástico. Depois a gente começou... e era analfabeta a maioria, por isso a gente não podia entrar em muitas... então eles entenderam que a gente pegou deles isso. Aí depois a gente fez, daí eu comecei com as doenças, daí eles trabalhavam muito com plantas eles têm, conheciam plantas medicinais, aí a gente entrava. Porque quê acontece a febre? o que quê acontece no nosso corpo quando a gente tem febre?, porque quê a gente só toma remédio a partir de 38º?, o que quê a gente faz antes?... Então eles mesmos, a gente ensinava a verificar pressão, então a gente conseguiu um tensiômetro para comunidade, eles sabiam ir ver uma pressão alta, pressão baixa. A gente começou... que uma farmacêutica que veio com a gente, ela começou a fazer remédios com Aroeira, Vaselina com Aroeira... Ela fazia os preparados dela lá, com umas pessoas da comunidade ensinando como preparar essas pomadas que até hoje a gente usa aqui também que a prefeitura de Olinda tem a parte de fitoterapia que é implantando também nos postos e a gente usa. Como fazer um lambedor, que a semente da Jaca e do Jerimum são vermífugos, aí a gente foi fazer de tira-gosto o vermífugo que a gente pega aquelas... o Jerimum é abóbora. A gente pega e assa ela assim na frigideira sem gordura só assa ela e depois põe sal, é um ótimo tira-gosto a gente comia isso e era um vermífugo, a folha de hortelã grande para folha de hortelã miúda pra giardia, para essas coisas todas. Então a gente tratava a comunidade assim, a gente difundia, cada um sabia um “por que” e a gente tinha o conhecimento teórico, eu tinha livros de plantas medicinais, eu já tinha... o Celerino também ajudou a gente e a gente foi fazendo. Aí meu trabalho foi esse de treinar essas mulheres, fazer visitas nas casas, fazia visitas nas casas, eu tentava ajudar no que eu podia. Aí a farmacêutica também ajudou nessa parte, aí a também a farmacêutica depois que eu saí eles... eu saí, fiquei um ano e meio morando lá, aí a farmacêutica ainda conseguiu... eles fazem até hoje exame de fezes, as próprias mulheres analfabetas elas conseguiram foi um projeto... microscópio vindo da Holanda, que um padre era da Holanda que trabalhava lá na comunidade também ele conseguiu, ela ensinou elas a verem os cistos, óvulos...

 

P/1: Fazer análise.

 

R: É, parasitológico é fezes, ascaris lumbricoide, o ascaris, então eles fazem o próprio parasitológico lá na comunidade e aí vai pro médico e eu trato com plantas medicinais... Esse trabalho continua lá ainda com outras pessoas, eu nunca mais... agora faz bem uns quatro, cinco anos que eu não vou mais para lá porque o trabalho não tem me permitido e com criança pequena desde que eu tive os meus filhos eu não tive mais tempo pra nada, né? Mas, antigamente ainda eu ia: fim de semana dava uma olhadinha lá no trabalho, no que precisavam mas aí eu tive que parar. E a que fez psicologia e essa farmacêutica também se envolveram com as prostitutas na Rio Branco, que é uma área de Cais do Porto, daí elas foram fazer um trabalho lá. O rapaz fazendo com... o Daniel começou com meninos de rua fazer o trabalho dele, mais fora da comunidade, daí eu fiquei mais dentro, e eles ficaram dentro mas fora, mas fora mas também ajudavam dentro…. Também o namorado de uma das meninas trabalhava com índios, a questão indígena. Aí ela também, a farmacêutica, ela começou se envolver com questões indígenas além das prostitutas. E pronto! de cada um aí foi encontrando a área que melhor se identificava e tentando batalhar nesse... a gente também ajudava, eu nas prostitutas nunca me envolvi porque a gente tinha que ir lá e tinha que fazer um relacionamento mais íntimo... Mas com os meninos de rua eu já ia nas organizações, nos movimentos que existiam e... a gente ia... fui até roubada por eles que (risos)... eles iam na casa da gente. Então a gente viu uma coisa bem chão assim com eles. A gente tinha o chimarrão lá, aí o chimarrão era um ótimo motivo para o pessoal ir pra casa da gente, sabe?

P/1: Porque?

 

R: Pra fazer... adoravam o chimarrão que era uma coisa diferente, né? Aí a gente fazia Jerimum salgadinho, né... Caroço de jaca parece o pinhão, conhece o pinhão, não é? 

 

P/1: Conheço.

 

R: Aqui o pessoal não conhece pinhão. A gente pega o caroço da jaca, cozinha como fica igualzinho o pinhão daí a gente fazia essas coisas bem simples porque a gente também não tinha dinheiro e tomava chimarrão e naquela história a gente ia ficava conversando debaixo do pé de coqueiro que tinha lá na nossa casa e ia. Pronto! Daí a gente fez esse trabalho assim, tinha os pontos negativos por exemplo, eu gostava assim bastante de ter a minha individualidade e isso era difícil numa comunidade assim, porque... Eu gostava de ler livro, na época que eu podia, tinha tempo para ler, adorava ler um livro principalmente romance… o policial, essas coisas não gostava muito da coisa histórica não, muito assim sabe... essas coisas não. Mas a gente não tinha, já a casa não era o teto até em cima, então a barulheira... as vizinhanças coloca música muito alta nas comunidades, era um barulho infernal. Às vezes era assim... tinha tiros, às vezes os marginais adentravam pela casa da gente pra sair do outro lado que a nossa casa tinha... quando a gente via era uma confusão entrando e eu, o que é “Meu Deus do Céu o que quê é isso?!”. E é a polícia, é a polícia e iam se embora... Agora, era um sufoco e quando começava o tiroteio daí eu ficava doidinha, me trancava. Nós nos trancávamos ou na casa onde é que a gente estava, porque é uma área bastante violenta! tem agente comunitário lá agora, tem o trabalho lá também agora. Então isso assim, agora teve uma coisa assim que achei fantástico: foi no dia de carnaval que eu vinha voltando do carnaval eram duas da manhã, eu disse hoje eu sou louca, hoje eu pensei... eu era muito louca, aí eu acho que passei pelo... justamente pelo embalo que se chama, embalo que é um beco bem acesso, um sobe e desce, é um beco de casas e ficavam os maconheiros e o pessoal todinho, daí eu passei ôh! Eu conhecia todo mundo, como vai tudo bem?, na-na-na. Hoje em dia eu não faria isso, isso é loucura, loucura não sei não...não sei, não... acho que Deus protegia a gente demais, sabe. Aí eles disseram de um dia, eu passei “tudo bom!”, aí um deles “quer um cigarrinho?”, eu disse “não obrigada, ó cuidado a saúde…!” a gente ficava falando aí eles tudo numa boa… aí ele disse “olha, nessa ninguém toca, nesse pessoal ninguém toca!”. Então eles mesmos protegiam a gente, com medo que fazia era as pessoas de fora. Que nem aqui mesmo, aqui eu não tenho medo dos marginais daqui, se você ver lá na sala tem um tiro no vidro, justo na sala onde faço o pré-natal e aí eu faço a citologia, tem... aqui do lado desse muro tem um tiro de 12. Então, do pessoal de dentro não me preocupo, me preocupo com o pessoal de fora, com os favelados de fora esses que são... Quando acontece vem a polícia encapuzada, é uma confusão, que isso aqui vira assim... é tiro pra tudo que é canto, sabe. Então é assim, outra área e mais são as mais violentas de Olinda, então a gente não tem que temer os de dentro, que os de dentro conhece você e seu trabalho, o problema são os que são de fora. Pronto, daí esse foi trabalho foi desenvolvido foi um ano e meio e assim…. e eu foi maravilhoso... foi a melhor experiência que eu fiz na minha vida, tive na minha vida, foi fantástico, aprendi demais. Agora assim, eu tava sentido... que eu sempre fui assim de estudar de me participar em congresso, seminário, a parte intelectual tava começando a ficar e eu tava sentindo a necessidade de ir para a Universidade, eu continuei indo até as pessoas do meu grupo começaram “Suzane, mas a proposta da gente é ficar aqui…” Mas eu não tô conseguindo só ficar aqui, eu preciso expandir porque eu tenho um outro conhecimento, eu não posso só me... também não sei como dizer o termo, de ficar enclausurada, só que eu... para minha saúde mental eu precisava, então eu comecei a me envolver e tal e nessa história toda eu conheci esse meu atual marido, né? Daí eu comecei a namorar, a gente começou a namorar, ele é advogado porque ele fazia Direito.

 

P/1: Como é que ele chama?

R: Ricardo. Aí ele assim, ele ia toda a noite na favela com a gente, ele ia me visitar de noite, de tardezinha porque não podia ser muito tarde… O pessoal o conhecia, mas a mãe dele ficava aperreada, “ele tá lá naquele mundo e assaltam o meu filho” e aquela coisa toda, era complicado pra ele e pra mim. Daí eu fico com aquelas... a gente começou a se envolver muito, pensando em casar… daí eu disse “mas como é que vai ser?” Daí a gente... daí surgiu o concurso para prefeitura de Olinda, disse “eu vou fazer esse concurso aí” eu fiz e passei! Aí depois surgiu o concurso daí eu fui trabalhar, daí eu continuava na favela mas trabalhando na prefeitura como... primeiro eu entrei, como eu tinha essa especialização, eles tavam precisando de gente para o setor de suprimentos de material, para saber além das compras de material que eles não tinham gente que sabia qual a gaze que tem qualidade, qual a marca... essas coisas todas. Então eu tinha que escolher, eu fiquei nessa parte de... na chefia da divisão de suprimento e compra de material e também de ver a qualidade, nessa parte principal era a parte administrativa. Depois eu passei pra coordenação de área, eu era responsável pela coordenação de postos de saúde, pra mim, geralmente, foi pra essa área que eu sempre vim. Aí comecei a me envolver em outras áreas que não administrativas, mudou de novo o governo, passei de realmente pra outra área aí passei no concurso do Estado, aí também já assumi Estado. Nesse meio tempo a família dele disse “olha Suzane não dá!”, ou sai ou não dá porque além do que o meu trabalho, eu já não tava mais... eu não tava mais conseguindo ficar só na comunidade e eles ficaram com medo. Daí a gente “não!  Então vamos casar”; Daí como já estávamos nos preparativos, compra de apartamento, aquela coisa toda eu saí e fui morar na casa dele, da irmã dele, até a gente comprar o nosso apartamento. Quando a gente comprou aí eu fui pro apartamento, disso eu saí da comunidade, nunca abandonei, mas eu procurava ir no fim de semana, mas aos poucos a gente vai... outras coisas vão aparecendo, outras coisas... eu comecei também me envolver muito com meu trabalho no Estado na FUSAM, assim...

 

P/1: FUSAM!

 

R: FUSAM é Fundação Nacional... não, Fundação de Saúde Amaury que é uma autarquia da Secretaria de Saúde do Estado. Daí... eu até trabalhei no setor de Epidemiologia, aí eu fiquei envolvida ali no trabalho, com as doenças Leptospirose, daí começou cólera no Estado...

 

P/1: Que ano foi isso que começou o cólera?

R: Cólera foi em 91 os primeiros casos, já em 92 começaram os primeiros casos do país na região Norte e Nordeste. Aí eu trabalhava na vigilância sanitária, fazia na coisa de... estabelecimentos de saúde... que tinham restaurantes, saúde tudo eu fazia fiscalização se podia abrir se não podia. E daí depois... e a Prefeitura de Olinda foi ficando, fui deixando mais assim porque fui me envolvendo, até que puxaram o meu vínculo pro Estado, o Secretário pediu para eu trabalhar só na cólera. Daí eu fiquei na coordenação de Epidemiologia para a cólera, no combate da cólera. Aí a gente começou... primeiro eu fui pra Amazonas, fiquei 15 dias lá aí eu já tava casada, já tinha casado mas não tinha filhos, demorei três anos para engravidar, a gente tentou opções e não tinha jeito (risos) quer dizer, ele fez tratamento, eu também aí pronto. Aí nesse período...

 

P/1: Que ano vocês casaram?

R: 89. 89 a gente casou. Aí a gente já estava morando em no Janga em Paulista, município vizinho aqui, sabe?

 

P/1: Como é que chama?

R: Janga em Paulista.

 

P/1: Janga.

 

R: É o bairro do Janga em Paulista.

 

P/1: Ah! 

 

R: É logo aqui depois de Olinda, próximo bairro, é próximo ao município mas é grudado. Então eu morava lá e a gente já tinha a casa montada e tudo, tudo estruturado agora, só querendo engravidar e não tinha jeito. Aí eu fui para o Amazonas, fiquei 15 dias lá na cidade de Atalaia do Norte onde a gente foi conhecer os casos de cólera, é um acesso lá foi de barco, duas horas e meia de barco, a volta foi só de helicóptero que não tinha nem barco para buscar a gente. Aí foi assim, a gente ficou... é a mesma situação da favela, para mim não fez diferença. O pessoal ficou doido tendo que viver naquelas condições, sem... o calor, sem água, banho podia ser só um por dia e olha... lá na canequinha, não é assim... uma situação bem precária de... até de comida assim, a coisa não... só tinha um restaurante lá que era... restaurante não, era uma casa que fazia comida pra fora. Então eu fui com médicos, enfermeiros, engenheiros para lá e eu na parte de saúde coordenando o grupo, a gente ficou 15 dias vivendo, ia para lá com o barco nas outras áreas vendo os casos de cólera, identificar, porque a gente nunca tinha visto cólera a não ser pela literatura, e fazer o combate epidemiológico. Eu fazia o rastreamento epidemiológico da cólera.

 

P/1: Como é que fisicamente se caracteriza o cólera, que quê acontece?

R: Cólera é diarréia, é diarréia. Diarréia intensa, pode dar de forma leve e moderada, mas o que a gente percebe mesmo é a diarréia intensa, vômitos, dores abdominais intensas, cãibras e a pessoa desidrata, ela chega a perder 10% do peso corporal em uma ou duas horas.

 

P/1: De uma a duas horas!

R: É. Ela se desidrata, ela perde o controle... ela começa a evacuar assim sem controle entende? então ela perde um a dois litros por hora no corpo. Então ela em poucas horas, a pessoa quando dá de forma grave  ela fica totalmente... aparência envelhecida, sabe as mãos de lavadeira que lava muito... fica aquela mão toda enrugada, os olhos encovados, aquele quadro de desidratação intenso e aí que a gente tem que ser rapidamente detectado para pessoa ter reidratação adequada para sair do quadro, porque senão tiver em poucas horas ela pode ir a óbito. Dá também de forma menos grave, mas no início de uma epidemia geralmente se apresenta mais essas formas graves, então a gente tinha.... as fezes, fezes não... o líquido que não era mais fezes de cor amarelo acastanhado, e vai virando branco que nem água de arroz e os vômitos iguais. Então inclusive em hospital a gente deita eles em cama fenestrada que tem um buraco que fica um balde embaixo que eles possam evacuar livremente, porque eles não conseguem nem perambular, andar de tão debilitados que eles ficam, e não conseguem porque se evacuam perdem o controle assim por exemplo, até neurológico isso. Então... eu me vi... fui ver isso e fazer o controle epidemiológico da doença e a gente começou a perceber que entrou via Peru.

P/1: É.

 

R: Entrou pelo Peru e começou a se alastrar, então ia para o... no  Rio Solimões, foi pro médio Solimões até entrar ao rio Amazonas e foi-se embora. Aí me chamaram pra ir pra o Peru, aí eu fiquei mais 15 dias no Peru. Fiquei na Colômbia um tempo depois eu fui pro Peru mais 15 dias, aí a gente trabalhou a parte epidemiológica lá, ajudando eles lá a controlar, foi gente de vários estados...

 

P/1: Porque quê foi prá lá?

 

R: Para ajudar a combater a epidemia lá e também pra gente ter o conhecimento da patologia, e como controlar ela porque a gente tava vendo chegar no Brasil, se alastrar na região norte. Por enquanto ainda tava lá no alto Solimões, já estava no médio Solimões que é o Tefé, na área de Tefé e dali pra Manaus é um pulo, né? A gente via pelo rio andando a doença sabe, interessantes os casos indo pelo mapa, é interessante. Então daí a gente foi pro Peru fazer esse trabalho também, ajudar eles no controle epidemiológico da doença, orientação... daí a gente fez lá a... que eles lá evacuam direto no rio no Peru e por isso que a coisa vai, as condições de saneamento... se aqui não existem, lá é que não existem mesmo, entende?!. São precaríssimas, inexistentes. Então a gente começou a fazer tambor para eles evacuarem dentro, eles tinham casas de palafita, defecavam o tambor ali, a gente via para depois trocar o tambor, aquela coisa... a orientação, parte educativa toda e com as equipes de saúde de lá. Veio gente de Lima do peru para conversar com a gente sobre epidemia e saber como trabalhar isso e a gente trazendo a nossa experiência também, tentando ver o que a gente podia fazer para não se alastrar no país. E isso foi o Ministério que... foi um trabalho do Ministério, o Doutor na época foi... foi o Alceni Guerra, foi nessa época toda. Aí que começou a ser introduzido no país o trabalho de agentes comunitários de saúde, começou no Amazonas em função da cólera. Foi nessa época que a gente começou até lá, que começou a aprender o que quê é um agente comunitário, qual é a proposta do Ministério. E lá a gente viu atuando, eles distribuírem hipoclorito, como é que eles faziam o registro de casas, orientações e a gente trabalha com eles, e a gente ia acompanhando e eles acompanhando a gente, né? Então começou através da cólera esse trabalho no país todo. E aí para mim foi uma experiência fantástica, né? Aí eu fiquei um ano nisso.

 

P/1: Um ano?

R: Um ano andando, março de... aliás quase um ano, março de 91 até fevereiro de 92 quando surgiram os primeiros casos de cólera aqui no Estado.

 

P/1: E aí o que quê aconteceu?

 

R: Aí foi um caos. Alastrou rapidamente, porque eu também trabalhava a noite no aeroporto fazendo o controle dos aviões que vinham dessas áreas epidêmicas, todos os pacientes de madrugada a gente fazia...

 

P/1: Aeroporto de Recife?

 

R: É, no aeroporto de Recife. Nós entrávamos em todas as aeronaves que vinham da região norte e nordeste, se era de Fortaleza e daquelas áreas para ver quem é que tinha tido diarréia, quem tinha vomitado. Aí a gente fazia coletava material pra fazer exame de laboratório, pra saber se tinha alguma aeronave que tinha... que daí a gente notificava o país, o Estado pra onde é que tivesse, ele tivesse indo, né? Se a gente tivesse identificado se a diarréia foi emocional, foi por alimento ou foi por cólera, daí gente fazia todo o controle a vigilância epidemiológica dele, equipe epidemiológica para saber. Aí a gente tentando evitar com que entrasse, mas sabe por onde que entrou? Por um município aqui do interior que tinha acesso a Fortaleza: Crato. Os caminhoneiros trouxeram, não foi por aeronave não, porque a bactéria também não vive... o período de incubação é só 5 dias, entende? Então o paciente pode de até algumas horas, até cinco dias apresentar a doença, se não apresentou, ele não estava doente. Então era mais fácil vir por aeronaves do que vir... mas os caminhoneiros trouxeram a bactéria. E daí começou casos de diarréia... os médicos em primeiro lugar não se aperceberam, por mais que a gente treinou aqui no município, pode?. Até dez a gente orientou, agora na hora da prática... os médicos... a gente treinou médico, treinou todo mundo, teve equipe é só prá treinar médicos e enfermeiros, teve equipe hospitalar. Mas na hora um caso de diarréia, um caso de diarréia mas de repente quando começou 10, 15 aí quando você vê que ficou 10, 15 aí já era, né? Daí não podia mais fazer nada entende? Aí já estava alastrado, aí para vir pra Recife e se alastrar pro resto foi numa hora, foi questão de dias. Porque o fluxo não é muito grande, né?

 

P/1: Muito grande né? Daí você ficou com esse trabalho do cólera direto?

R: Fiquei. Daí eu engravidei do meu menino. Acho que nessa confusão toda eu tava tão absorta com isso eu acabei engravidando. Aí eu tive problemas de ameaça de aborto, eu tive que me afastar da cólera, eu fiquei mais é interno, fazendo o controle epidemiológico interno, mas não lá na ponta. Eu comecei também a me envolver com outras doenças, leptospirose, febre tifóide, outras doenças diarréicas que apresentava e daí eu tive o bebê e me afastei. Aí como eu queria ficar mais perto da minha criança para poder amamentar aquela coisa toda, eu pedi meu vínculo de transferência para Olinda. Daí eu peguei um posto de Saúde do Estado e eu tinha já o vínculo de Olinda e fiquei trabalhando nos dois postos de Saúde, na Olinda na coordenação de postos e no Estado como... ah!, num posto de saúde, gerenciando um posto, né?

P/1: que posto que era?

  1. Assistente de Saúde de Barros Barreto. Que nem eu fiquei na gerência de equipe de enfermagem. Aí... é toda aquela parte assim administrativa que tem do posto que nem também vê, como pra funcionar, como tá o programa de tuberculose, de hanseníase, vacina, curativo, esterilização, prevenção… eu coordenava isso todinho pra ver se ele andava, tinha que andar. Então a parte mais assim, administrativa, pouco assistencial também, mas menos. Mas eu me esqueci que eu também entrei pra a Universidade aqui de Olinda, para a Faculdade de Olinda na área de Saúde Pública, também era outra Universidade que tava iniciando o curso de enfermagem, aí me chamaram porque eu era a única que também tinha... pelo que sabia eu era a única enfermeira no Estado que tinha pós-graduação em Saúde Pública, impressionante.... eu não sabia disso, não. Pra você ver a diferença, que quando eu fiz a minha pós-graduação lá no Rio Grande do Sul, Saúde Pública é uma disciplina. É uma área multidisciplinar, eu fiz a pós-graduação com engenheiros com assistente social, médico, enfermeiro, veterinário, “N” categorias profissionais. Aqui quando começou, na época que eu cheguei, pelo que eu soube depois era só permitido a médicos. E em 89 por ali é que permitiram uma enfermeira entrar nesse curso, e até hoje é só para médico enfermeiro, tá?. Eu não sei se já tá começando, não tenho certeza, mas acho que já tá começando sim, agora eu me lembro de alguma coisa que eu ouvi.

 

P/1: Porque quê engenheiro pode fazer esse tipo de pós-graduação?

R: Tem a parte sanitária aí, sanitarista ele. A parte de canaletas de tentar pegar a cultura deles, a realidade deles e adaptar na área de saneamento básico. Tem muito chão pra engenheiro demais. Agora eles pouco procuram porque não rendem dinheiro, não dá um retorno financeiro, sabe? e você só faz isso a nível de órgão público e órgão público paga muito mal e o salário é muito baixo, então ninguém quer, quer é como bico e como quer como bico não há envolvimento, não é?. Aí eu comecei na Universidade também a dar aula na enfermagem em Saúde Pública e na enfermagem em doenças transmissíveis, duas disciplinas lá nos sábados, que durante a semana tá tomado pela Prefeitura, por esse programa agora.

 

P/1: Quando quê você veio pra esse programa, quando você começou a trabalhar com agentes?

R: Pronto. Foi em 92, eu já estava grávida aí eu comecei... como eu tinha que ficar interna, meu estado  não podia me locomover por causa dessas ameaças de aborto, essas coisas todas que eu tive, essas complicações aí eu peguei novamente o meu vínculo de Olinda e me chamaram para eu ajudar nesse trabalho. Primeiro era o PACS, Programa de Agente Comunitário de Saúde, porque eu já tinha visto alguma coisa e aí começou... trabalhamos eu e mais 3 enfermeiras no trabalho todo implantação desse serviço aqui. Aí foi a parte de seleção de selecionar ACS, que foi feito pelo grupo do Estado mas a gente organizou essa parte toda burocrática que precisava, aí depois da seleção a gente começou o treinamento dos agentes comunitários de saúde que foi de fevereiro, que quatro dessas que trabalham aqui comigo fizeram na época, duas são novatas. 4 de fevereiro até novembro, outubro eu me afastei porque eu tive o bebê, daí a enfermeira me substituiu, que a gente deu todo esse treinamento pros agentes comunitários de saúde numa metodologia de larga escala, a mesma que usava lá na comunidade, mas só que livros dentro do Ministério, a gente adaptou pra nossa realidade. A mesma coisa que eu fazia lá comunidade assim, por isso encaixou assim tudinho, não é? Aí eu comecei a trabalhar, depois engravidei de novo, um ano depois logo engravidei de Clarinha, da pequeninha, e aí foi uma gestão complicadíssima, tive que me afastar da Universidade durante aquele período e sempre a par, meus partos prematuros... muita confusão. Eu não podia desenvolver muito. Eu trabalhava, mas assim com muita... eu não podia fazer visita domiciliar que era um trabalho que a gente tinha que fazer. Eu comecei a... eu assumi 30 e poucos agentes comunitários, mas eu ficava muito restrita a minha assistência porque eu não conseguia muito andar, porque a médica tinha proibido isso, né? Mas eu ficava, me reunia mais com eles e coisas breves eu fazia, então ficou um pouco limitado, eu me sentia frustrada também porque eu não conseguia ver realmente como é que o trabalho andava e eram só quatro enfermeiras. Não tinha gente prá substituir.

 

P/1: Essas 30 agentes de que... era de comunidade?

R: Várias áreas. Era aqui de Rio Doce, era os agentes de Rio Doce e agentes de Jardim Fragoso, eram 10 lá e 20 aqui. Então era todo o Rio Doce que é uma área muito grande, essa área é muito... enorme, metade de Olinda quase. Então eu ficava com as ACS aqui, aqui e lá e eu ficava durante os dias um lado depois noutro lado.

 

P/1: Você fazia reunião, treinamento? o que você fazia exatamente?

 

R: Reunião, treinamento, reciclagem, principalmente assim, treinamento. Eu participava de visitas mais próximas que não precisava me deslocar muito, subir morros com essas coisas, eu ia né? que nem aqui, eu já conhecia essa ala porque eu fazia as visitas, por isso que eu optei por aqui, porque eu já conhecia. Jardim Fragoso era muito subida, então eu tinha dificuldade, tinha muitos morros, mas inclusive eu fazia isso a médica ficava danada, que aí começava a contrações e eu ia pro hospital... ficava um, dois dias internada e voltava e lá... mas é o meu jeito, eu gosto entende. Daí é que a coisa quando a gente gosta a gente supera todas dificuldades.

 

P/1: (risos) Ninguém segura.

 

R: Aí eu fiquei... pronto. Eu tive o bebê e me afastei mais quatro meses. Quando eu voltei houve uma seleção, teve a seleção só que não permitiram... uma questão até política entre o governo, não permitiram que nós quatro enfermeiras participássemos da seleção para o programa de Saúde da Família, que eram bem melhor remunerado. Aliás nós não recebíamos remuneração por esse trabalho, era como funcionária a gente trabalhava, por isso também ninguém queria, porque é um trabalho mais desgastante e que poucos topam, né? Então a gente não recebia nenhuma gratificação a mais. Aí quando surgiu essa primeira seleção daí eu... o salário era bem melhor, aí não permitiram a gente fazer essa primeira seleção com as quatro primeiras equipes de Olinda, a gente ficou muito frustrada; foi uma confusão a gente arengou tanto com eles, né. Daí eles viram que era besteira, que a gente que já tava na área, era os primeiros a serem aproveitados para um programa que a gente já desejava há muito tempo e via necessidade. Daí houve outra seleção em novembro, aí eu continuava no posto de saúde e aqui na Universidade, daí... a gente fez a seleção, a gente foi aprovada, obviamente e tudo; era de currículo, prova e entrevista. Aí a gente foi aprovado, a gente podia escolher as áreas... os primeiros classificados. Como eu fui segunda aí eu optei logo por essa comunidade daqui porque eu já conhecia, eu já tinha maior conhecimento da comunidade da área, eu já... um maior, um trabalho mais integrado, a gente já tinha feito um trabalho de controle da dengue aqui dentro, o cólera nesse período deu... Botaram outra enfermeira pra Fragoso, que ficava muito pra mim e eu fiquei só nessa área em Rio Doce como um todo, mas eu me identificava em Ilha de Santana por conhecer mais o povo já e as ACS também, e era um grupo mais coeso. Aí eu optei pra vir pra cá e aí fazer esse trabalho, porque o PCF é diferente do PACS.

 

P/1: Que quê ele diferencia?

R: Porque o PACS, você como enfermeira instrutora você tem só mais um trabalho de instrução. Você faz visita domiciliar, agora mais... na época era tanto acesso que a gente não conseguia fazer também, ia nas casas de quatro em quatro meses, porque se você tivesse que acompanhar as 30, uma por dia você acompanhava dava um mês, você ia pras casas dela, dava umas 10 famílias que você conseguia ver numa manhã, não é? Então era mais um trabalho de supervisão do trabalho delas, não era aquela coisa integrada na comunidade porque você tinha muita gente, e você não tinha aquela referência contra referência, você trabalhava com a Unidade de Saúde, e você sabe como funciona as Unidades de Saúde Pública, isso é... não só aqui, é em todo o canto. O médico vai como bico, porque tem vários outros empregos, mal olha pra cara do cliente e ele vai dá um atendimento e vai se embora, uma hora, duas horas ele tá “ó”, na rua! não existe aquele comprometimento. Então você manda um paciente, o médico só atende àquelas 16 fichas e acabou!, nem pensar em atender um outro caso. A gente conseguia porque tinha um jeitinho, “ó doutor tá”... eu ia lá, levava quando eu sentia que a coisa era grave, por consideração a mim, mas isso se o médico quisesse, e como eu tinha um bom relacionamento dava pra ajeitar um e outro caso. Então não tem essa coisa referência contra referência, não havia um trabalho integrado comunidade com saúde, era mas não era, era aquela coisa mais impessoal... E o PCF não, a gente tá 8 horas aqui dentro, eu conheço praticamente todo mundo, eu sei as ruas, eu sei a problemática de cada uma, essa mãezinha que tava aqui eu acompanhei o pré-natal dela, por isso que eu tava brigando, você viu?. Eu acompanhei o pré-natal assim, por que ela vinha pouco, daí eu ia na casa e sabia como é que tava as coisas com ela, mas eu ficava... a gente ficava em cima entendeu? Agora tem o filhinho, acompanhei o filhinho os primeiros meses ela nunca mais veio, mas eu sei onde é que ela mora, sei que ela mora na Rua da Cajazeira, sei a casa dela, eu sei que ela tem oito filhos, entende? eu sei a problemática de vida dela. Então é uma coisa bem mais integrada, mais humanizada, aqui a gente não diz não, só quando não pode mesmo atender. Que nem a médica é prá atender 16, ela atende 20, 30... ela não tem coragem de dizer não.

 

P/1: Por dia?

R: Por dia?, por um turno!, por turno!, fora as visitas que ela faz a tarde. A gente trabalha muito, muito muito. Ela com certeza já passou 16 pacientes aqui, você já viu quanto tempo ela tá atendendo? E é atendimento com qualidade, ela procura o máximo fazer, entende? com preenchimento e fichas, tudo certo entende... A gente agora tá tentando reduzir para poder fazer melhor o controle, porque a gente... aqui a comunidade não aceita dizer não, se acostumaram mal, não aceitam.. A gente às vezes têm que até transportar o paciente pro Pronto Socorro que não tem ou às vezes não tem vale, às vezes eu dou meus vale-transportes... a gente dá o dinheiro pra ir, pra passagem. A gente usa o carro da gente, segunda mesmo nós levamos uma criança que tava praticamente morrendo aqui, a mãe chegou com uma crise de asma muito forte, ela já estava assim… perdendo a consciência... toda assim arosada, a gente levou na urgência, nós demos uma medicação que trouxe amostra grátis, esse nebulizador que a gente usa para nebulizar as crianças. É da casa dela, eu só não trago o meu da minha casa porque eu tenho duas crianças pequenas e que vive com problemas entende?, eu não posso... já ela são maior não usa com tanta freqüência, às vezes eu vou levar pro posto. Meu marido tem vontade de trazer, comprar um do dinheiro da gente pro posto, porque a prefeitura não dá essas condições, não tá dando. Agora com essa mudança de governo a gente tem tudo, graças a Deus! tá faltando o nebulizador só. Então a gente tá quebrando o galho do jeito que pode, porque a gente tem esse comprometimento, a gente não suporte ver alguém querendo... que tem aquela intimidade, aquela familiaridade, entende?. Não é aquela coisa impessoal, é uma coisa bem mais humana, um retorno que você acompanha aqui, vai na casa, faz o curativo na casa, a auxiliar de enfermagem também faz, ela tem um outro perfil, ela não aquele perfil de posto. Então você vê ninguém atende com grosseria, a gente trata como gente, como ser humano e não como... tem que atender eu tenho que ir me embora, não é. Então essa é a diferença. E a gente tá oito horas aqui, a gente faz visitas domiciliares e faz atendimento.

 

P/1: O posto aqui atende a...?

R: Olha, aqui são 14... nós temos um problema sério, nós temos 10.000 famílias de Ilha de Santana, na frente tem um mapa, depois se você quiser ver. A gente abrange só 1.200 famílias, foram cadastradas. Porque a gente não tem pernas, cada ACS é responsável por 200 famílias e um posto de PCF pra dá um atendimento do jeito que merece tem que ser de 1.000 famílias 1.200, a gente tem 1.200. Só que naquele outro posto chega uma pediatra agora em março, sem pediatra no outro posto... que Sandra tem a qualidade, tem a especialização de pediatria, mas ela atende adulto, só não atende ginecologia porque tem o ginecologista lá e a gente marcou um esquema de ele guardar uma ficha por dia pra gente aqui. Quando a gente precisa a gente pega aquela ficha e diz: olha, é mandado do PCF, mas se não teria que atender também ginecologia. Então e eu... onde é que eu tava? Sim, então a gente tá atendendo a comunidade como um todo, porquê? se você tivesse chegado antes eu via... eu tava aqui nessa sala eu vi: eu não vou naquele posto, aquele posto trata a gente como cavalo, trata a gente... aqui não, aqui a gente... Eu não tô falando assim não, é porque eu ouvi isso agora de manhã, entendeu? Por isso que eu tô me lembrando, e eles falam... pelo tipo de atendimento, é diferente é mais humanizado.

 

P/1: Eu queria que você me falasse uma coisa, que o quê você tava me contando antes da gente gravar, das florzinhas que você ganha dos presentinhos...

 

R: Ah! sim, bom aqui tem duas florzinhas que eu ganhei hoje e eles trazem isso. Me trazem mamão, eles não tem o que dá mas eles ficam tão gratos que eles trazem por exemplo… eu semana passada fui visitar uma gestante, uma que teve bebê, aí ela tem as lembrancinhas que ela dá prá todo mundo que procura, pois ela guardou uma especiais que ela faz diferentes, mais caras mas assim que custaram um pouco... bem simples, e eu mandei até lavar a semana passada a caixinha , daí que a gente coloca todas as lembrancinhas que elas dão pra gente, elas dão... essa aqui ela trouxe... procurou lá no fundo da gaveta a caixinha desse tamanho, coisa mais linda. Ela pegou e tirou duas, uma pra mim e outra pra agente comunitária, porque eram especiais entende? Então tem assim, essa coisa... o menino, esse menino... as crianças vem e abraçam a gente, às vezes a gente fica até assim, que tão... tem doenças, mas a gente não pode rejeitar, tipo assim escabiose, pediculose e a gente vai fazer o quê? A gente … mas é aquele carinho que eles querem expressar pra gente, me trouxeram mamão daí a gente faz aqui uma salada de fruta e distribui, trazem... aqui por exemplo, a parte de capinação o vizinho que faz espontaneamente não, vocês são boas demais eu vou e faço pra vocês. Hoje de manhã, “ó” essa parte aqui, a Prefeitura demora tanto pra vim fazer a manutenção que eles resolvem pela gente; “Ô fulano,você pode dá um pulinho lá, a gente tá precisando disso, será que podia fazer isso prá gente?” “Mas claro doutora!”, e lá vem ele, ele consertou isso, consertou a parte de encanação que tava… capinaram isso aqui essa semana, tava até os entulho lá na frente acho que já andaram tirando hoje. Assim, então... pega... até pregar os cartazes que a gente não tem tanta força, não tem um martelo aqui, eu pego uma arma que trouxe de casa (risos) daí não dá. Ele diz: não doutora, vou pegar um martelo. Eles ajudam e colaboram, entende?. É diferente. A gente traz brinquedo, deixa as crianças brincando enquanto dá atendimento que a gente faz grupos também. Aqui tem grupo de gestante, grupo de hipertenso, grupo de diabéticos, grupo de desnutridos, então vem as mãezinhas, a gente deixa as crianças, a gente traz os brinquedos de casa das crianças... Eu e Sandra somos essa maior, aí a gente traz eles ficam brincando enquanto isso a gente dá a palestra, dá todo o acompanhamento e coisas que as crianças... ah!, muitos querem vir por causa dos brinquedos que tem também. Aí… agora tem a gente tá enfrentando um problema, que é esse: a gente não tá dando conta do recado. A gente quer se deter mais nas famílias cadastradas pra poder fazer um acompanhamento melhor mas não tá conseguindo, por isso a nossa proposta.... esse líder comunitário que tava aqui era de pedir ao doutor Ivo que implante uma outra equipe aqui dentro, aumentando mais 6 ACS, mais uma equipe, acho que a parte mais carente de Ilha de Santana a gente cobre.

 

P/1: Quantos ACS tem aqui no posto?

R: Seis agentes comunitários.

 

P/1: Seis agentes. É uma equipe?

R: É uma equipe, uma equipe. Deve ser de cinco ou seis, no máximo seis, a gente tá com o limite máximo...é um médico, uma enfermeira, um auxiliar de enfermagem e cinco ou seis agentes comunitários numa equipe.

 

P/1: E Suzane, quais que são os principais problemas aqui da comunidade que vocês detectam de saúde ou faltas...?

R: Ahhh!!! Muitos! fome é o principal. A quantidade de desnutridos... quando você chegou eu até tava vendo com o líder comunitário a quantidade de desnutridos que nós temos. Eu nem sei agora, porque a gente mudou também, antes a gente dava leite porque a Prefeitura tem o programa do leite que a gente distribui pros desnutridos, então a gente tá distribuindo para a área toda e esse mês não só foi para os nossos cadastrados e o outro posto distribui para o restante. Aí a gente tava vendo... tendo seis, a média era de 40 desnutridos por seis, quatro vezes seis dá 240, a gente já teve em torno de 250, 260 que tem alguns desnutridos menores de cinco anos né? É muita coisa. Então o principal problema é a fome. Outro problema sério são as doenças, as dermatoses, problema sério: diarréias, infecções respiratórias agudas seríssimas, pneumonias, assim, muito sério, problema de asma de cansaço, que eles chamam aqui cansaço, asma...

 

P/1: Eles chamam de cansaço?

R: É, cansaço é asma. Muito, por causa do mofo. As casas não são secas são muito úmidas, são a maioria de barro, a poeira, telhado não tem, são casebres a maioria. Então elas não tem assim... aí... leptospirose, tá começando época de chuvas agora, a gente detectou 2 casos de AIDS essa semana.

 

P/1: De AIDS?

R: AIDS, tem 2 casos. Agentes souberam mas a comunidade ainda não está sabendo, está uma coisa assim por debaixo dos panos e as pessoas mesmos tão dizendo, mas a gente já sabe que tem esses 2 casos que... as ACS moram aqui então elas são ligadíssimas, tudo que se passa elas sabem, quem nasceu quem morreu, que quê foi. A violência é muito grande, estrupos... essa área... o pessoal que mora pra ali dos prédios, se você for  na casa de uma pessoa… olhe, Suzane... de noite, aquilo é um bang-bang aquela comunidade sua, é tanto do tiroteio. E é até de dia tem fases que nem... faz um mês, Sandra tava numa comunidade lá mais distante, de repente ela foi dobrando um... daqueles becos deu de cara com um encapuzado da polícia, disse “o que quê a senhora tá?! vá se embora que vai começar o tiroteio!” daí ela foi-se embora, eu tava numa outra área aqui, o vigia foi correndo atrás de mim, isso era 10 da manhã “Suzane vamos se embora porque vai começar o tiroteio”. Então... a violência é muito grande, e o alcoolismo, Ave Maria!, é demais; drogas também, muita droga e esses problemas maioria é por causa de drogas, tem boca de fumo aqui dentro. Aí então eles vendem as... pessoas de fora, geralmente passa uns caras que ficam assim olhando Meus Deus do Céu!, um carro desse tipo aqui dentro quando depois... claro que eu já sei que é drogas, que passa, entra né? Mas aqui ninguém sabe de nada e nunca viu nada e aí se souber.

 

P/1: É.

 

R: E a gente eles conhecem a gente e sabem, já perceberam que a gente não tá prá denunciar ninguém, falar de ninguém, a gente tá aqui por questão de saúde. A gente pega os gestantes que são... fumam droga, maconha, a gente sabe disso, elas não contam, algumas contam... Então tem todo esse trabalho, acompanhamento de criança também. Então o nosso trabalho é assim, integrado: pega a família como um todo mundo, se a gente vai numa casa fazer a visita a gente vê todo mundo, vê as condições, o que eu posso fazer na área de enfermagem eu resolvo, senão eu repasso pra Sandra, eu encaminho, ela vai fazer as consultas dela na casa, aí a gente acompanha os recém-nascido de risco, toda a criança que nasce com menos de dois quilos e 500 a gente acompanha. Da área de Jardim Atlântico favela, aí não. Então nós temos atualmente 11 recém-nascidos de risco que nasceram com menos de dois quilos e 500 sendo que sete moram aqui dentro e quatro são de fora, são do bairro, né?

 

P/1: Certo.

 

R: Então a gente acompanha isso até um ano. Você vai ver ali, a gente tem as fotos desses RN, se você quiser a gente leva você...

 

P/1: Aqui RN que chama?

R: RN, recém-nascido.

 

P/1: Ah! está.

 

R: RN de risco, recém-nascido de risco.

 

P/1: Certo.

 

R: Aí a gente acompanha essas crianças até um ano de idade com visitas quinzenais, as ACS tem um formulário que elas entregam de 15 em 15 dias, como é que tá aquela criança, se aumentou de peso, se as vacinas estão em dia, se a amamentação como é que tá. Então estimula o aleitamento materno, elas ficam em cima, a gente ensina como amamentar e explica, dá palestras... claro, muitas vezes é um entra aqui sai ali, mas que tem retorno, tem tanta... assim a gente, às vezes ela diz “Suzane, hoje eu salvei uma vida” a ACS diz e ela salvou mesmo, que se não tivesse sido ela... que nem... gestantes que aparecem, gestantes que elas vão ver a mãezinha, tinha leucemia com contrações com tudo em casa e não querendo ir para o Hospital porque o Hospital quando ela já tava... tinha ido de manhã o Hospital tinha mandado de volta e ela com leucemia passando mal. Aí a ACS encaminhou, arrumaram um dinheiro, passagem, arrumaram R$ 15,00 e mandaram. O bebê nasceu naquela mesma noite. E “Suzane a gente salvou essa vida hoje”, eu disse “salvaram mesmo!”. É isso que gratifica as meninas, porque elas dão tudo da vida e isso é literal, não é uma coisa assim... uma Utopia ou querer aparecer ou querer sabe, é a verdade, entende? Isso que gratifica as meninas também, elas conhecem todas as áreas, todas as pessoas e aqui o trabalho é bem aceito. Agora, porque a gente tá tentando reduzir um pouco o atendimento tá havendo confusão porque eles não querem aceitar, aí a gente diz assim  “por isso a gente tá querendo agora lutar para que venha uma outra equipe aqui porque a comunidade precisa”. Aí pronto, daí a gente faz assim terapia de reidratação oral aqui, também como na área, a entrega de soro, elas fazem na área, elas fazem o controle da dengue, vão nas casas ver onde é que podem ter possíveis focos, elas orientam; eu dou todo dia palestra aqui de manhã cedo, pelo menos meia hora é palestra enquanto que a médica não chega ou se ela chega e já começa a atender eu tô dando palestra lá. Daí eu saio da área.

 

P/1: Para quem você dá as palestras?

R: Para as pessoas que estão aqui.

 

P/1: Esperando...

 

R: Esperando atendimento, todo dia. Então a gente envolve, enfoca assim os principais assuntos, que nem agora é cólera e dengue, tá começando outro surto de cólera no Estado, então eu já tô conscientizando o uso... falta uso da água sanitária que a população esquece, isso deve ser uma rotina porque a água que eles têm não é boa, aí a gente... orienta a cólera, orienta a dengue, leptospirose, faz palestra do amamentação, os grupos de gestante a gente faz todo mundo, são 10 assim... em conjunto de 10 aulas entre aspas, onde é que envolve desde que elas entendam o corpo dela, o que acontece com o corpo delas, até...como cuidar do recém nato, como elas tem que cuidar da higiene dela, planejamento familiar, todas essas coisas... com o hipertenso a gente verifica a pressão, verifica semanalmente a pressão deles e uma vez por mês a gente reúne todo mundo, fala sobre a doença, a gente tem 290 e poucos hipertensos aqui, sendo que... isso nesse último recadastramento, mas eu acho que nem todos são hipertensos mesmo, eles tem momentos de pressão mas tem aquele hipertenso que tem que sempre usar medicação, aquele é o hipertenso. Então a gente tá tentando detectá-lo eu acho que não dá 297 que disserem que tinham pressão alta, mas acho que esporadicamente e não aquela freqüência né?

P/1: Porque essa pressão alta esporádica assim, momentos de hipertensão?

R: Ahhh!!, com certeza é emocional, com certeza é emocional, porque às vezes elas chegam aqui aperreadas, choram, a gente tem que conversar... Então a gente faz esse trabalho psicológico não é só... a gente conversa e tenta mostrar que tem jeito, que é assim mesmo, que a vida é assim mas que a gente tem que lutar contra essa realidade, que não se aperreie, se a gente puder, a gente ajuda, se não puder... encaminha, tenta ver o que a gente pode fazer dentro das possibilidades que muitas vezes não... dá prá fazer muita coisa e outras vezes dá... Aí a gente tenta ajudar no que a gente pode, dentro das possibilidades, né?

P/1: Você acha que depois que começou o PACS melhorou?

R: Muito, com certeza. E parece que já existem dados que diminui a mortalidade de recém-nascidos, diminui muito. A gente teve sete recém-nascidos que foram a óbito, tudo a nível de hospital, aqui só uma foi a óbito isso porque ela tinha Síndrome de Down, era prematura com Síndrome de Down, inclusive ela tinha... porque fizeram uma venóclise nela na região inguinal e a gente fazia curativo “aqui”, nem botaram na sala de curativo, pequenina recém-nascida e deixaram muito aberto no Hospital... Olha que coisa mal feita! a gente tratou, ela ficou curada e acabou morrendo por problemas cardíacos, porque Síndrome de Down, às vezes, tem problemas cardíacos, né? Tem outra RN síndrome de Down, da RN risco, agora tá gorda! e ela a mãezinha até hoje não aceita que ela tem síndrome de Down e ela tem todas as características e a mãe até fica meio assim com a gente, que a gente procurou mandar... mandou prá fisioterapia pra acompanhar, mas ela não levou e não aceita e tem raiva, por causa que a gente fala isso.

 

P/1: (risos).

 

R: E porque a gente tem orientado ela, mas a gente faz a visita na casa dela, a gente acompanha então, acompanha todas as crianças até cinco horas.

 

P/1: O Suzane assim, pra gente já tá encaminhando o final assim, bem direcionado agora que quê você acha, os equipamentos que a ABIFARMA doou para as Agentes Comunitárias que quê...?

R: Foi excelente!! Veio...

 

P/1: que quê aconteceu?

R: ... perfeito. As bicicletas, elas vem da casa delas até aqui, não dá prá andar dentro da área com a  bicicleta na nossa comunidade.

 

P/1: Porquê?

R: Porque a nossa é muita pequena, são muitos becos, muita coisa. Mas elas moram... algumas moram um pouquinho mais longe, moram na área mais... então elas vem com a bicicleta e isso é importante porque tem ACS que não mora, eu tenho uma ACS que não mora aqui dentro, ela mora ali adiante depois do canal, aí ela vem com a bicicleta e ela sempre chegava atrasada, tá chegando na hora agora, eu disse agora não tem mais justificativa, e é verdade. Assim, nesse ponto foi ótimo! elas já tavam pedindo a muito tempo, viu, bicicleta para se deslocar, a minha comunidade dentro não tem muitas condições mas as outras áreas precisa demais, tem áreas assim que só com bicicleta mesmo porque pra andar você tem marcar... já ir direto de casa pra aquele ponto porque senão você tem que andar muito pra ir pro posto e ir pra lá, então tá resolvendo o problema.

 

P/1: Porque quê elas passam no posto antes?

R: Porque a gente, eu marco com elas aqui de oito horas porque aí eu quero saber, eu faço todo dia visita domiciliar pela manhã com... a quem que eu vou acompanhar, eu já tenho mais ou menos determinado, mas às vezes, delas na visita da tarde quando eu tô aqui dando, fazendo consulta de puericultura  e pré-natal, elas me identificam algum caso que precisa mais de urgência da minha presença. Aí eu quero todo mundo aqui para saber o que fez direitinho no dia anterior, aí... porque eu acompanho só uma por vez, então as outras eu quero saber o que fizeram, o que não fizeram... eu rubrico no caderno o que elas fizeram, elas tem que anotar tudinho e daí se eu precisar eu acompanho, fujo da regra ou não, por dentro da norma na normatização da gente, aí é por isso que eu quero elas todo dia, e pra gente... às vezes uma coisa da Secretária, uma ordem expressa rápida, então tem que acionar todas as ACS, então elas tem obrigação. E a tarde também de duas horas, elas aparecem ficam danadas, mas dá jeito. Pra organizar né? E as bolsas aquilo... isso foi mais fantástico ainda, porque com isso a gente pode treinar as ACS, muitas delas não tem relógio porque elas moram na comunidade, algumas são carentes mesmo. Então elas não tem relógio, então aquele aritmético... como é que é?

 

P/1: Aritimer

 

R: Aritime tava...pelo que a gente tava...

 

P/1: Tem uma _____________ tic-tac, os seus agentes tic-tac.

 

R: Pronto. Aritime. Elas tão agora podendo nas áreas, identificando casos de (ira?), elas sabem quando a respiração está acelerada, quando não tá, então elas mesmo podem encaminhar, já ter algum procedimento, porque elas... não vão pro posto não, aí você tem que ir direto pro hospital, nunca esperam pela gente trazer ou o agente ir prá lá, a resposta é mais rápida pra gestante, elas podem também ver a altura uterina. Às vezes eu ajudo “olha, vocês podem ver isso porque isso”... não é função dela mas eu ensino porque...

 

P/1: Altura uterina?

R: É. 

 

P/1: Como é que elas fazem, elas medem...?

R: Elas medem o útero, a altura da barriga, então já sabe quanto tempo de gestação que muitas vezes as mães não sabem, daí elas chegam e falam, “ó Suzane, eu medi eu acho que  mais ou menos ela tá com tantos meses”, que as mães se enganam, menstruação não combina com altura uterina, aquela coisa toda ou assim a puericultura tá ensinando elas... o controle da cabecinha, do tórax, é uma coisa bem específica, mas quanto mais a gente puder difundir isso mais elas vão ter condições de prestar assistência, de medir a criança também com a fita métrica pra gente saber a altura e o peso se é compatível. A balança então foi a melhor coisa do mundo, porque a gente todo mês pesa todas as crianças até cinco anos, e a única balança que a gente tem é essa e a de pé, a infantil e a adulta.

 

P/1: Ah! tá. E tinha que vir até o posto.

 

R: E tinha que vir até o posto. Isso aqui no início do mês são 500 pessoas se aglomerando com criança, é a maior confusão. Que a gente não tinha. Aí agora, a gente já acertou porque chegou essa semana, já acertou, todas elas no início do mês vão nas suas aulas fazer a pesagem de dois em dois. Aí fazem a pesagem lá, já trazem no cartão o peso aí eu dou os tíquete de leite para as crianças que estão dentro do Programa Desnutridas e a gente acompanha com isso o crescimento, o desenvolvimento delas.

 

P/1: Quando que chegou o material?

R: Aqui em Olinda, segunda-feira... sexta-feira de tarde e eu distribui ontem prá minha turma, só ontem né? Mas já tão andando...

 

P/1: Mas você notou alguma coisa de...?

R: O quê!! Tão eufóricas. A jaqueta você não viu? Tão todas de jaquetas novas, que não tinham uma jaqueta, não tinham bolsas, só 2 das novatas tinham bolsas que ganharam no ano passado, mas as antigas há quatro anos atrás. Com o negócio da dengue de levar o veneno, o inseticida da dengue destruía a bolsa delas todinha... elas estavam sem bolsa, às vezes iam com sacola plástica de supermercado, aí elas iam sabe? Quando eu acompanhava era com aquelas sacolas também, eu botava alguns medicamentos, algumas coisas que eu precisava, o tensiômetro na sacola, elas tão… e porque principalmente porque é de costas né? que a outra bolsa que eles tinham era só de lado com uma alça e elas adoraram por causa disso. Agora a minha coluna (risos)... porque agora vai ficar melhor, até a forma de usar o peso pode equilibrar mais, e elas adoraram a bolsa, fantástico, não tem como dizer não, é a primeira coisa que a gente teve. Sério mesmo, pro trabalho das agentes comunitárias foi a melhor coisa, porque agora elas podem fazer alguma coisa, que nem agora elas ficavam limitada ao nosso trabalho, ao trabalho da unidade e alguma coisa pelo outro que elas viam, agora elas podem realmente botar em prática tudo aquilo que elas receberam de informação, de treinamento, que a gente tenta capacitá-las o máximo dentro da possibilidade delas, pra que elas desenvolvam e tenham uma ação mais rápida junto a comunidade, ao pessoal doente.

 

P/1: Certo. Suzane assim pra encaminhar pra o final agora mesmo assim, que quê você gostaria de realizar assim na tua vida ainda, gostaria de fazer. Qual que foi teu sonho?

R: Não sei. Eu tava dizendo pro meu marido esses dias que eu sou tão realizada, juro. Olha, isso não, isso é verdade profissionalmente agora eu sou, porque eu sempre desejei fazer esse tipo de trabalho e agora eu tenho condições de fazer, entende? Era o trabalho que eu imaginava de saúde pública e principalmente que tem o respaldo por trás de uma organização, Prefeitura, Ministério e tudo que dão respaldo tanto financeiro, que eu ainda acho que o salário não é compatível em relação ao que a gente trabalha que a gente trabalha muito. É desgastante, eu ando um pouco estressada pelo excesso de trabalho. Agora é o que eu sempre me propus a fazer a minha vida inteira, eu tô fazendo agora, eu tô realizada como enfermeira, como profissional de saúde pública sanitarista... sem mentira, eu tô realizada como mãe mais ainda... marido cuida da família também, não tem o que dizer eu não tenho… eu tava dizendo de brincadeira assim: eu tenho tanto a agradecer a Deus por tudo que Deus me deu, pela minha família pelo meu trabalho, porque é o que eu quero fazer, o que eu sempre quis fazer, que procurei a minha vida inteira e agora eu tenho, eu tô fazendo justamente o que eu queria e tendo um respaldo financeiro, porque essa parte influi muito ainda mais quando você tem filho, e agora eu tô realizada... sem nenhuma... assim de querer falar uma coisa que não é verdade, que é a maior verdade, é verdade. Não tenho mais nada não, eu disse pro Ricardo eu quero assim, eu tô ótima, é o que eu quero na minha vida (risos).

 

P/1: (risos).

 

R: Nem tão sério, que depende. Todas essas coisas depende de política e o meu medo é esse, a gente faz estrutura um trabalho estrutura toda uma equipe, uma comunidade, cria perspectivas prá vir na área política né? Eu acho que nem tão cedo, a não ser se a nível nacional acontecer mudança de governo, mas eu acho que esse trabalho tá sendo tão assim implantado, tá tendo uma resposta tão positiva a nível de Brasil inteiro que é assim, muita coragem destruir um trabalho desses, porque a própria comunidade tá se assumindo as suas questões de saúde com esse trabalho. Porque as pessoas que trabalham são da comunidade, tem um perfil diferente, é um perfil de sanitarista mesmo, perfil de generalista e que tem uma compreensão humana diferente, então...

 

P/1: Suzane, obrigada pela entrevista (risos).

 

R: (risos). Ave Maria!, mas ó... pode...








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