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História

A viagem que é recordar

História de: José Antonio Lucindo Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/12/2004

Sinopse

Filho caçula dentre os cinco irmãos, José Antônio se recorda da dura e feliz infância, do gosto pelos estudos e do picolé de coalhada da pequena cidade de Araguari, sua cidade natal. Com a precoce perda do pai e para ajudar a mãe, costureira, lembra-se da divisão de tarefas da casa e da busca por condições financeiras melhores. Medalhista pelo Segundo Batalhão do Exército de Araguari, foi nos trabalhos árduos que encontrou as maiores dificuldades. Empenhado nas tarefas que lhe eram atribuídas e já em Uberlândia, conseguiu o emprego na CTBC e aproveitou a oportunidade para crescer na empresa, além de conhecer e fazer amizade com pessoas de todos os setores.

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História completa

P/1 - Boa tarde, senhor José Antônio.

 

R - Boa tarde.

 

P/1 - Eu queria, por favor, que o senhor dissesse, para começar, o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - José Antônio Lucindo Alves, eu sou de março, dez de março de 1957, sou natural de Araguari.

 

P/1 - O nome do seu pai e da sua mãe?

 

R - Minha mãe Corina Martins Alves, meu pai José Lucindo Alves.

 

P/1 - Qual era a atividade do seu pai?

 

R - Lavrador.

 

P/1 - Aonde, lá em Araguari?

 

R - Em Centralina, ele era lavrador na zona rural de Centralina.

 

P/1 - Centralina é perto de Araguari?

 

R - Não, é perto de Monte Alegre, para a frente de Monte Alegre, no caminho que faz Uberlândia-Itumbiara.

 

P/1 - E você chegou a conviver com ele lá na área de lavoura?

 

R - Não, meu pai morreu eu era pequeno, estava apenas com quatro meses de idade.

 

P/1 - Ele plantava o que?

 

R - Ele era mais... Ajudava na roça. Porque ele não tinha bens assim, ele ajudava o pessoal a fazer plantação e na colheita.

 

P/1 - E que tipo de cultura era?

 

R - Geralmente arroz, por aquele lado lá se planta muito arroz, mais era arroz.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - Minha mãe [é] costureira, desde menina aprendeu a costurar com a mãe dela e ficou, inclusive... Foi o que sustentou a gente até a gente se entender por gente mesmo, a gente ter autossuficiência.

 

P/1 - O senhor chegou a conhecer os seus avós?

 

R - Não, não cheguei conhecer meus avós, inclusive nem meu pai, nem meu próprio pai cheguei a conhecer.

 

P/1 - Mas sabe de onde seus avós vieram, se eles eram...

 

R - É uma família de Sacramento, da cidade de Sacramento, inclusive meu pai nasceu em Sacramento; de Sacramento eles se mudaram para Centralina. Essa é uma história que a minha mãe conta que, realmente, a família veio de Sacramento.

 

P/1 - E se mudaram por força da lavoura também?

 

R - Isso, questão da lavoura.

 

P/1 - E os avós do lado materno?

 

R - Os avós do lado materno são de Araguari. Também era agricultor, lavrador e, inclusive, minha mãe nasceu em um povoado perto de Araguari, que se chama Ararapira, e com o passar do tempo ela – já mocinha – mudou para Araguari, porque precisava trabalhar. Trabalhou como doméstica em Araguari até conhecer meu pai, que foi em uma visita em Araguari e encontrou ela lá.

 

P/1 - Na verdade você cresceu numa casa em que a cabeça de família era a mãe...

 

R - A mãe. É porque meu pai morreu quando eu era muito pequeno, e nós éramos mais quatro irmãos, no total cinco, e eu o filho mais novo desses cinco. Logo que meu pai morreu na cidade de Centralina – ele faleceu em Centralina – minha mãe mudou para Araguari com cinco filhos, todos homens, e eu era o mais novo desses. Não cheguei a conhecer meu pai, inclusive foto dele, tudo mais, se perdeu no tempo, eu não cheguei a conhecer nada dele.

 

P/1 - A sua mãe costurando e sustentando a família. E quando é que você traz uma primeira lembrança da casa onde moravam, lá em Araguari?

 

R - Eu trago lembranças de uma casa pobre, pequena, sem forro, sem nada, mas com quintal muito grande, sabe? Lá tinha o quintal muito grande o qual a gente plantava até... Plantava milho, plantava feijão, plantava mandioca. Era assim que a gente tirava o sustento quase que daquele terreno, inclusive hortaliça, alface... Alimentos de hortaliça nós tirávamos de lá, inclusive, até para vender e manter a família, como um todo.

 

P/1 - Quer dizer, todos os irmãos ajudavam e trabalhavam nessa produção?

 

R - Não, tinha só dois que ajudavam, os mais velhos trabalhavam fora para ajudar no gasto da família.

 

P/1 - Morando juntos?

 

R - Morando junto.

 

P/1 - A partir do momento que você começa a crescer um pouco, como é que era o cotidiano ali da casa, as suas obrigações, as suas...

 

R - Basicamente eu ficava... Como a minha mãe sempre dizia, que ela queria eu mais para estudar, sabe; ela visava um futuro melhor para mim do que assim... Meus irmãos eram mais velhos e tinham que trabalhar mesmo para... E ela tentava passar o serviço de casa para mim, que era lavar ‘os trem’, passar pano no chão, esse tipo de coisa. E eu sempre estudando, ela sempre queria ver eu bem formado, não é?

 

P/1 – Como é que era a sua primeira escola, que lembrança o senhor traz dela?

 

R - Eu trago lembranças do meu primário, que eu fiz lá em Araguari, em duas escolas. Fiz lá no Padre Damião, Grupo Escolar Padre Damião, e no Grupo Escolar Costa Sena, onde eu tirei o diploma de quarto ano, que para mim foi assim, o máximo, porque eu gostava de estudar. E eu tirei com a média bem acentuada, que eu me lembro que na época a gente tinha que fazer também o curso de admissão antes de começar a primeira série, que chamavam de quinta, hoje é quinta, aliás. A gente tinha que ter esse curso de admissão, e eu estudei na parte da manhã o quarto ano e à noite admissão, só que não podia fazer admissão quem não tivesse quarto ano completado. Mas acontece que eu fui empurrando a diretora, a professora e tal, que eu vou apresentar o diploma e vou e vou, e fazendo os dois paralelos. Aconteceu que eu passei no quarto ano com uma boa média, acima de oito, e passei na admissão. Não passei com a média muito boa, que foi cinco e meio, mas consegui passar nos dois, isso me deixou muito realizado.

 

P/1- Algum dos seus irmãos já tinha atingido esse ponto de estudo?

 

R - Inclusive na admissão, quando eu estava na admissão, meu segundo irmão mais velho chegou a fazer essa admissão junto comigo também, ele passou com a média acima um pouquinho da minha, mas eu fiquei satisfeito de ter passado nas duas, fiquei.

 

P/1 – Está certo. Nesse período do primário, do então primário, tem alguma professora que tenha lhe marcado?

 

R - Tem, tem duas professoras que me marcaram bastante, uma foi na terceira série, que se chamava Cleontina, ou Leontina. Eu lembro o nome dela direitinho, uma senhora já de idade, morena, muito boa. E na quarta série, quando eu tirei o diploma... Inclusive a gente tinha até uma disputa na sala, de ver quem tirava a melhor média, a gente que gostava muito de estudar. Então eu tinha uma disputa com determinados colegas, e quando eu tirei esse diploma, fiz questão de tirar uma fotografia da entrega do diploma junto com a minha professora, que se chamava Eliane Coutinho do Oriente, eu tenho o nome dela todinho, porque marcou bastante.

 

P/1 - O que essas duas professoras tinham de especial?

 

R - Eu não sei. É a dedicação, parece, que ela tinha com a gente, de incentivar a gente a estudar. E dava aquela força, então eu gostei muito, assim, foi marcante para mim.

 

P/1 - Pois é, a gente tem aí um garoto ajudando em casa, estudando... E como é que eram as diversões, as brincadeiras?

 

R - É, hoje eu vejo os meninos brincando com bicicleta, com patinete, com... Na minha época não tinha nada disso. Na minha época eu lembro que eu mais o meu outro irmão – logo acima de mim –, a gente ia nessas oficinas que trocavam óleo de carro e pegava uns filtros grandes assim, que trocava de filtro de óleo para fazer rolete, fazer de carrinho. Punha uma tábua em cima... Aquilo ali para a gente era diversão. E bola, a gente era meio ruim para jogar bola. A gente, por ser menor, o pessoal não gostava de pôr a gente no time, aí geralmente sobrava o gol para gente. Eu comecei, inclusive... Eu jogo às vezes até hoje um pouco no gol, através disso. Porque eu era o mais novo e o pessoal não deixava eu jogar na linha mesmo, então eu ia para o gol, e pegou. Inclusive, depois eu fui procurar, conversando com minha mãe, tudo mais, ela falou: “não, o seu pai era goleiro”. Você vê? Então isso parece que já estava no sangue a coisa. E gostei da ideia, bato uma bolinha até hoje no gol. Bola a gente não tinha, assim. Quando a minha mãe... Mal dava para o sustento. Às vezes, antigamente tinha umas bolinhas pequenininhas assim de plástico, com uns desenhos, parece zebrado, não sei se você chegou a ver dessas bolinhas, muito maneira; então muito difícil, mas aquilo para mim era a glória. Eu ganhava uma bolinha daquela, ficava irradiante, eu achava muito bom. Interessante.

 

P/1 - Me diga uma coisa, a casa que vocês moravam, como é que era a rua, como é que era o bairro?

 

R - Era perto de uma chácara, na época... Agora, hoje até já asfaltaram, mas era de terra, não tinha asfalto. Era uma rua bastante movimentada, com caminhões, porque tinha a segunda companhia do batalhão que passava mais ou menos nessa rua nossa, e era assim, uma casa bem simples mesmo. Ela era meio isolada, porque o terreno era muito grande, coisa de... Hoje, para se ter uma ideia, hoje tem um deposito da Brahma, fizeram um depósito imenso lá, então era um terreno bastante grande. Era uma vida assim, na periferia, muito sofrida, mas a gente era satisfeito, a gente era alegre, porque criança, não é? Na época que a gente tinha esse terreno muito grande, de um lado tinha um turco, a mulher dele chamava dona Adélia, e lá eles plantavam muitas frutas: jabuticaba, banana. A gente arrumava um tempinho para ir lá e pegar uma fruta, pegar uma coisa; era só com cerca de arame, então a turca saía brava lá, aí a gente corria. Aquela coisa de menino mesmo, roubar manga, jabuticaba, esse tipo de coisa.

 

P/1 - E a cidade, como era a cidade para os garotos, quando iam?

 

R - A cidade, assim, a gente... Eu tinha uma tia que morava de frente à casa da minha mãe. Essa tia minha ajudava muito, porque via as dificuldades da gente, ela tinha mais condições do que a gente, então ela ajudava bastante assim, em termos de alguma coisa para comer, esse tipo de coisa; roupa, às vezes, calçado. E a minha vida eu vivi em torno daquilo ali. Eu não era muito de sair, às vezes eu saía para buscar... Porque a minha mãe costurava, saía para buscar aviamento para minha mãe, zíper, botões, no mercado velho lá em Araguari. Aquilo, para mim... Eu ia a pé e voltava como se fosse normal, hoje eu já tenho ido lá e imaginava a distância que era para mim quando eu era menino, e aquilo hoje a gente vai de carro, e a gente vê, realmente... Porque para mim, na época, não era nada. Eu ia lá, buscava todos esses aviamentos para minha mãe, para as costuras, e voltava satisfeito. Eu ia lá... Inclusive, esses tempos atrás eu estive lá em Araguari, nesse mesmo mercado velho, que hoje também é um ponto de ônibus. Fui matar a saudade, porque eu chegava lá nesse mercado velho e comprava os aviamento tudinho, e sempre deixava... Tipo o quê hoje? Uns dez centavos, vinte centavos para eu comprar um picolé de coalhada, que eu adorava picolé de coalhada. Esses tempos atrás, agora, coisa de dois, três meses atrás, eu estive lá, passei nesse supermercado, fui lá ao mesmo local, falei: “vou chupar um picolé de coalhada” (riso). Então isso, resgatar o passado.

 

P/1 – E tinha picolé de coalhada?

 

R - Tinha picolé de coalhada. Eu fiquei muito satisfeito. Assim, 20 centavos, 30 centavos, falei: “poxa, como é barato, não é?” E na época era um sacrifício conseguir dez, 20 centavos.

 

P/1 - Na verdade a sua mãe trabalhava o dia inteiro, ainda cuidava da casa...

 

R – O dia inteiro, até à noite. A casa ficava por conta minha e do meu irmão, acima de mim, o primeiro, para a gente lavar, passar e arrumar a casa. Inclusive, meu irmão, mestre-cuca, eu acho que ele ficou um mestre-cuca de tanto treinar na cozinha, porque acabou ficando cozinheiro de mão cheia.

 

P/1 - A comida eram os próprios garotos que faziam?

 

R - Erámos nós mesmos que fazíamos a comida. A minha mãe o tempo todo costurando, até à noite às vezes, então era uma vida para ela muito apertada, muito apertada.

 

P/1 - E que tipo de cardápio tinha normalmente na casa?

 

R - Só o básico mesmo, sabe? Inclusive eu conversei com meu menino esses tempos, eu ficava assim... Às vezes o menino pega e deixa sobra de carne no prato, esse tipo de coisa; eu ficava revoltado, falava: “oh gente, eu passei uma vida tão difícil, eu vejo vocês deixarem pedaço de carne aí. Tanta gente precisando...”. E nós tínhamos um caldeirãozinho que eu lembro direitinho dele, um caldeirãozinho pequeno, tudo amassado, e minha mãe me dava, às vezes... Eu não sei nem o valor. Antigamente, como era cruzeiro... Hoje seria o que, 50 centavos? Pegava esse caldeirãozinho e ia pegar 50 centavos mais ou menos de banha de porco no açougue para fazer o almoço. Era uma coisa muito regrada, muito... Então, quando eu lembro... Tinha essas linguiças defumadas em forma de “u”... Quando sobrava um dinheirinho, minha mãe mandava eu comprar uma metade daquela, que ele cortava a metade, fazia um pedaço para cada. Então uma coisa muito regrada, muito...

 

P/1- E como é que você continuou os seus estudos nessa situação difícil?

 

R – Eu, como sempre gostei de estudar... Inclusive minha mãe... Eu acordava de manhã para ir para a escola, e eu tinha dó de chamar minha mãe, porque eu via a labuta que ela... Aquela batalha dela, não é? No fundo lá a gente plantava muita coisa, e lá no fundo tinha um pé de favaca, não sei se você já viu, é uma planta que a gente faz um chá dela. Eu ia lá nesse pé de favaca, apanhava algumas folhas, fazia um chá, acendia o fogo... Inclusive, na época que nós ganhamos um fogão a gás - porque não tinha fogão a gás –, foi uma festa! “Oh, não precisar acender mais fogo no fogão de lenha”, porque aquilo era uma trabalheira danada, e fumaça, e tudo. Eu ia lá nesse fundo do quintal, apanhava essas folha, fazia o chá, às vezes ia no armazém lá perto, ficava algum 50 centavos, alguma coisa assim para comprar um pão. Eu ia lá, comia esse pão, tomava o chá e ia para a escola, nem chamava a minha mãe, porque eu via que ela estava cansada, e eu não gostava de incomodar.

 

P/1- Aí você fez o primário até...

 

R – É, eu fiz o primário, terminei o primário no Grupo Escolar Costa Sena. Aí fiz admissão no Padre Damião, parece, e depois, quando eu fui fazer a quinta série, tinha que fazer um exame de seleção, chamava exame de seleção, e nesse exame de seleção só fazia a matrícula quem fosse aprovado. Eu fiz esse exame de seleção, também me saí muito bem. Inclusive, eu fiz em um colégio que na época era difícil, que era no ginásio Santo Antônio, lá em Araguari. Passei, fiquei muito satisfeito e fui fazer a quinta série, que chamava primeira série do segundo grau; chamava, aliás, primeira série, não é?

 

P/1 - Do ginásio?

 

R - É, do ginásio, isso. E fui fazer nesse ginásio Santo Antônio. Lá eu entrei em uma banda – tinha a fanfarra lá –. Eu, vendo o pessoal tocar instrumento, me interessei, entrei na banda para tocar corneta, não sei nem como é que chama, para desfilar sete de setembro. A gente ensaiava na pracinha ali de frente, inclusive era um colégio de padres, o Ginásio Santo Antônio, acho que ele nem existe mais. E de lá já estava em construção lá em Araguari, na época, o Polivalente. Eu me interessei em entrar no Polivalente, porque uma escola nova, disse que tinha laboratório e tudo mais, eu me interessei. E tinha o mesmo caso, tinha que fazer também exame para entrar lá. Eu parti para fazer esse exame para entrar lá também e consegui passar, fiquei também... Falei: “Está bom! Está ótimo!”, fiquei satisfeito. E comecei, da sexta série em diante eu fui fazer no Polivalente. E me lembro, me marcou muito lá também a diretora, porque a diretora era uma coisa fantástica, uma mulher de um metro e 90. Eu tinha pavor dela, aquela mulher tocava o negócio com mão-de-ferro mesmo. E forte, e grande a mulher. Inclusive ela falou: “eu sou de Uberaba”. E eu imaginava assim, Uberaba uma cidade muito grande, porque eu não conhecia, entendeu? Essa mulher tocava a escola com mão-de-ferro, e eu falava: “Meu Deus, se eu cair na mão dessa mulher eu estou frito”, então eu procurava também sempre... E lá eu arrumei uma amizade, um... Acho que se chama Antônio Guilherme, inclusive, coincidentemente depois a gente se encontrou no exército. Nós fizemos uma amizade tão grande lá... Inclusive foi até meio prejudicial, porque o que aconteceu? Eu comecei ir para o fundo da sala, e quem vai para o fundo da sala perde a atenção e começa os estudos... As notas começam a cair. Inclusive tinha um método de avaliação lá no Polivalente que eu achava muito interessante, a sexta série e a sétima, para mim, foram bastante proveitosas. A sétima nem tanto, mais a sexta. Depois que eu comecei a amadurecer, que eu vi que aquela amizade estava me prejudicando nos estudos, aí comecei a me afastar um pouquinho. Mas o sistema de avaliação deles era um sistema de gráfico. Eles colocavam o nome de todo o mundo, colocavam as nota em gráfico e colocavam no vidro da sala, virado para o lado do pátio, onde a gente tinha o recreio. Aquilo lá incentivava a gente, falava: “Oh, o fulano olha lá aonde é que está, ó o fulano, ele está lá em cima, ele é bom nisso, é bom naquilo”. Eu acho que é um método que me incentivou muito também, sabe? Aquela disputa, eu sempre gostei de disputa. Eu olhava lá, em geografia eu era ótimo, então o meu gráfico ficava só lá em cima: “Ah, o Zé Antônio, o Zé Antônio da sétima F...”, então isso marcava bastante, eu gostei desse tipo de avaliação que eles fizeram.

 

P/1 - Uma avaliação pública, não é?

 

R - Uma avaliação pública, você ficava lá... Aí ficava: “realmente ele é...”.

 

P/1 - E tocando os estudos em paralelo dando força na casa...

 

R - Isso, sempre assim, estudando. Inclusive, quando eu fui para o polivalente, minha mãe fez uma camisa para mim branca que tinha até o símbolo da escola Polivalente, e a camisa era de um pano parecendo seda, porque naquela... Era o seguinte: ela fazia costura para muitas pessoas, e sobrava retalho; desses retalhos ela aproveitava, fazia camisa para a gente, fazia uma bermuda, fazia... Essa camisa eu lembro que ela fez para mim, era um pano muito bom, então eu dava um valor nessa camisa. Eu chegava da escola, a primeira coisa que eu fazia era pegar essa camisa. Eu punha de molho no sabão em pó e ia almoçar; acabava de almoçar, ia lá, lavava ela, punha para o outro dia ela estar branquinha de novo. Eu achava bom, essa camisa era uma camisa que eu dava muito valor a ela.

 

P/1 - Mas tinha algum trabalho além do trabalho doméstico?

 

R – Tinha. Minha mãe, como ela costurava, ela fazia roupa desses retalhos pequenos, fazia roupa de criança, fazia bermuda, short, camisinha, esses ‘trens’, e me punha para vender. Eu comecei a ir às casas vender essas roupas e comecei até a ter certa freguesia, porque aí comecei a passar... Eu já tinha os locais certos. Falava: “Eu sei que naquela casa o fulano compra, ele tem criança pequena, compra”. E comecei, assim, a ajudar um pouco também. O que eu não gostava muito é que às vezes a pessoa demorava para pagar e minha mãe me apertava, falava: “Cadê o dinheiro?”, aí eu tinha que ir atrás e... E falava: “Não, ele não está lá hoje”. Inclusive eu lembro direitinho, o meu melhor freguês lá era um eletricista, um eletricista industrial, e eu chegava lá, às vezes – ele viajava muito –, eu chegava lá e falava: “Olha, hoje ele não está”. Geralmente eu ia lá de sábado, porque eu sabia que ele ia estar em casa, e a esposa dele falava: “Olha, ele não está, mas chegando aí a gente vai te dar o dinheiro e tal”. Então ele era o meu freguês de carteirinha. Vendia também... Como eu te falei, o quintal nosso lá era muito grande, vendia chuchu... Eu lembro direitinho, eu tinha um coador de macarrão grande assim, usava um coador de macarrão grande, eu enchia de chuchu e saía vendendo. E vendia tudo, vendia tudo. Tanto é que aí a minha mãe, dando aquela força: “Oh, você é bom para vender, você conhece disso, você vai que dá certo”. Porque depois desse chuchu eu arrumei um senhor lá que fornecia pudim. Pudim redondo assim; ele cortava... Aí eu conversando falei: “Mas eu não tenho dinheiro”, ele falou: “Não, você vende, o que você ganhar a gente reparte, o lucro a gente reparte”, e vendia. Com esse dinheiro que eu ganhei, eu já pensei o seguinte: “E se eu comprar esse pudim inteiro e eu mesmo vender?” Eu já pensei, já queria ganhar mais. Aí eu falei com ele: “Quanto é que é um pudim desse?”, ele falou: “ É tanto”, aí eu expliquei para ele: “Olha, eu estou querendo comprar um para eu vender”, ele falou: “Tudo bem, se quiser ser meu freguês, eu vou vender para você e você revende”, aí eu já comecei a  fazer isso. Só que é o seguinte, lá ele tinha o jeito dele de partir. Eu levei para a minha mãe, para ver se dava para pegar uns pedaços a mais, porque o pedaço dele era muito grande, você entendeu? Aí eu ia vender pelo mesmo preço. Minha mãe arrumou um jeito lá, e só sei que rendia de dois a três pedaços a mais, quer dizer, já era uma coisa a mais, já era um dinheirinho a mais. E comecei com isso e fui. Só que depois ele expandiu mais o negócio, parece, e não quis mais me vender. Ele estava vendendo em alta escala, aí eu saí do ramo, não teve jeito de eu competir mais com ele.

 

P/1 - De todo o modo, tínhamos ali um potencial vendedor, de talento. (riso) E aí, saindo do pudim foi fazer o quê?

 

R - Aí eu voltei para vender roupa para a minha mãe (riso) novamente. Fui até... Nessa época, inclusive, foi até ela... Minha mãe, desde quando ela largou do meu pai, ela não arrumou ninguém. E outra, filho homem, assim, parece que vigia mais a mãe, tem muito ciúme, então minha mãe nunca tinha arrumado outro. Acho que para sair dessa filharada foi difícil, não é? Aí ela foi visitar uma amiga dela em Coromandel e conheceu um senhor lá. Na época a gente ficou meio revoltado e tal, eu até que nem tanto, eu era menor, mais pequeno, não ligava muito para esse tipo de coisa; mas meus irmãos mais velhos ficaram meio revoltados, porque não pode, aquilo ficou... Mas deu certo, ela casou com esse que é meu padrasto hoje e mudou para Coromandel. Nessa mudada os filhos se esparramaram, porque os mais velhos não concordaram. Meu irmão mais velho saiu, foi para Teresina, no Piauí, o abaixo foi para Brasília, servir na PM [Polícia Militar] lá, e um outro irmão meu foi para Brasília junto com ele também. E ela já estava prestes a mudar. Antes de ela mudar, esses meus irmãos saíram primeiro, aí eu fiquei dividido entre minha mãe e meus irmãos, eu fiquei realmente dividido, aí eu resolvi também seguir meus irmãos, eu não quis ir com minha mãe, porque eu falei: “eu não sei como que é esse cara lá e tal”, eu já imaginei dessa forma, eu imaginei o padrasto outra coisa. Foi então que eu resolvi ir para Brasília, porque eu já estava com o propósito de servir a Aeronáutica lá em Brasília. Eu era invocado com avião, piloto, esse tipo de coisa, então eu estava pensando em servir a Aeronáutica lá em Brasília. Fui para Brasília, só que lá eu... Pensando uma coisa, mas lá bem diferente, cidade bem maior do que Araguari, uma capital, então eu fiquei totalmente perdido. Inclusive tem um fato interessante que eu fui para lá... Como a gente não tinha recursos, tinha um trem que fazia Campinas-Brasília, um Bandeirante, ele passava em Araguari meia noite, ia até Brasília. Eu peguei esse trem para ir para Brasília, aí logo que chegou em Brasília... Antes de chegar em Brasília, a viagem foi terrível, porque meia noite, quando foi coisa de cinco horas da manhã, quase entrando no Estado de Goiás, em Anhanguera por aquele lado ali, tinha caído uma barreira. Não sei como é que era lá, só sei que o trem ficou muito tempo parado, coisa de duas, três horas. Depois que a gente partiu de viagem, que seguiu, demorou muito a chegar em Brasília de trem, terrível! Então nós chegamos... Para você ver, eu saí meia noite, eu cheguei lá quatro horas da tarde, em Brasília, estava todo quebrado. E outra, passava naquele restaurante lá virando o rosto para o outro lado, porque não tinha dinheiro para comprar nada. Tinha aqueles vagões-restaurante, aquilo ali tinha que passar olhando para outro lado. Chegamos quatro horas em Brasília, a primeira coisa que eu vi a hora que eu desci na estação ferroviária foi um Jumbo daquele 747. Eu nunca tinha visto coisa igual, porque lá é perto do aeroporto, e ele estava bem baixo. E fiquei fascinado com aquilo. Eu, fascinado por avião, fiquei fascinado olhando aquele imenso avião, aí eu falei: “Poxa, eu acho que vim no lugar certo”. Só que eu achava que Brasília era igual Araguari, igual Uberlândia, uma cidade... Mas acontece que Brasília, nós fomos morar na cidade satélite, quer dizer, não é... Brasília tem o plano piloto, e as cidade satélites, Sobradinho, Planaltina – em volta –, Taguatinga. Eu lembro que a gente pegou um ônibus tipo coletivo para ir, e o ônibus foi aquele tanto de gente. Quando ______, ele estava saindo já do plano piloto para ir para Sobradinho, que era onde os meus irmãos estavam. Só que, a hora que eu vi o ônibus saindo, já pegando, parece que, a zona rural, eu fiquei apavorado, falei: “Não estou entendendo, eu estou em Brasília”. Olhei e falei: “Não, é Sobradinho”, aí eu soltei uma puta mineirada lá dentro do ônibus, falei: “ué, esse trem não vai parar mais não?” (riso) Nossa, todo mundo que estava dentro do ônibus falou assim: “Oh, esse é matuto da gema mesmo, esse é mineiro da gema”. Então lá eu fiquei assim, eu queria enterrar a cara no chão de vergonha, porque todo o mundo olhou e falou “ôh...”, eu soltei aquela mineirada lá dentro, falei: “puxa vida, hein?” Aí nós chegamos lá aonde o meu irmão trabalhava, onde meu irmão estava, morava... Lá é tudo nome de quadra, quadra 11, quadra 12, quadra... Para achar foi um Deus nos acuda. Quando a gente conseguiu achar já estava de noite. E eu fiquei cansado, fiquei exausto com aquela viagem. Inclusive eu deitei... Cheguei, a hora que conseguimos achar a casa do meu irmão... Porque lá é tudo na base de barraco de madeira e o telhado de folha de zinco, então aquilo... É uma panela de pressão aquilo lá. E outra, chega lá, tem seis, oito beliches em um cômodo daquele; é cozinha, quarto, banheiro, é tudo junto, aquilo é uma loucura. Mas para mim, eu falei: “Eu quero é deitar”, eu estava morto, eu não queria nem... E deitei. Lembro que eu deitei, eu estava tão cansado com aquela viagem que aquele barulho do trem “tá tá tá tá”, aquilo ficou em mim até na cabeça, sabe? Eu acordei no outro dia ainda cansado, nossa. “Vou demorar uns três dias para esquecer essa viagem.” Aí fiquei com esses meus irmãos lá em Brasília, e com o propósito de servir a Aeronáutica, só que eu comecei a ver tanta dificuldade lá e tanta... Porque eu fiquei meio com medo da coisa, eu fiquei meio espantado.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Por causa daquela correria, eu não era acostumado com aquele tipo... Morava em um bairro em Araguari muito pacato, então fiquei assustado com tudo aquilo. E morte daqui... Ceilândia Norte, tinha um programa lá que se chamava – lembro até hoje, na rádio Alvorada – Os Cobras da Notícia, e era só notícia de que matou em Ceilândia, matou não sei o que. Aquilo foi ficando... Falei: “Nossa, isso aqui é uma loucura, não é para mim esse negócio aqui”. E resolvi, então, voltar. Falei: “Vou arriscar ir à Coromandel na casa do meu padrasto (riso), ficar junto com a minha mãe”. E voltei para Coromandel. Lá em Coromandel eu peguei um servicinho assim de primeira mão só para... Porque eu queria me manter também, eu fui com propósito do seguinte: que eu não queria ficar na dependência da minha mãe, porque ela já estava com meu padrasto e eu ia... O padrasto ficar me sustentando? Eu não queria esse tipo de coisa.

 

P/1 - Como era o nome dele?

 

R - Alameu Rodrigues de Alcântara. E eu não queria esse tipo de coisa, falei: “Não, não quero ninguém me sustentando, eu quero ter meu próprio dinheiro, porque a hora que eu tiver que sair, como é que eu vou fazer?” E comecei a trabalhar lá em um viveiro de café, muda de café, esse tipo de coisa. Mas coisa assim, sem registro, sem nada, ganhava por dia. E comecei a trabalhar, e nesse meio tempo ele montou um açougue, aí falou para mim: “Oh, se você trabalhar no açougue para mim, eu te dou um... A hora que você precisar dinheiro para alguma coisa... Isso aí é para a gente, é para nós aqui”. Aí eu resolvi topar, falei: “Então eu vou largar esse viveiro lá.” Só que eu comecei a trabalhar com ele, ele tinha um sócio, ele montou esse açougue em sociedade, e eu vi que a coisa estava meio de mal para pior, um negócio que não ia dar muito certo, porque o sócio dele era meio malandrão. Eu não quis envolver, eu não quis entrar no meio, então resolvi trabalhar novamente. Foi aonde eu arrumei meu primeiro emprego. Inclusive, até a fotografia que eu tirei – que tem na carteira profissional até hoje – nossa! Que coisa terrível! Horrível. Cinco de maio de 1975 foi o mês que eu estava, veio aquela placona assim, com a data. Aí eu já tirei a minha carteira profissional e ingressei na (Fujiwara Sato?), que é uma empresa beneficiadora de calcário.

 

P/1 – Lá em Coromandel?

 

R – É, lá em Coromandel. Mas era muito pesado esse serviço, porque eu estudava à noite lá, Escola Estadual Joaquim Botelho, lá em Coromandel. Eu voltei a estudar, porque nesse ínterim eu tinha parado de estudar, quando eu fui para Brasília eu tinha parado de estudar. Então eu comecei a estudar ali novamente, comecei a fazer oitava série lá nesse colégio. Eu estudava à noite até quase 11 horas, e começava nesse serviço lá meia noite, 11 e 30. Era um trabalho pesado.

 

P/1 - Como é que era esse serviço?

 

R - Era operador de máquina. O pessoal ia lá com o caminhão caçamba ou com pá carregadeira, enchia com aquelas pedras de calcário grande, punha lá dentro dessa caçamba; a gente puxava uma alavanca lá e ia triturando essas pedras, caindo em um moinho, moendo essas pedras, virando pó. Aquele barulhão, aquele pó, quando saía de lá você ficava... Via só o olho, estava tudo branco. Aquilo lá... Um pó terrível.

 

P/1 – Não tinha proteção?

 

R - Sem proteção nenhuma. A única coisa que eles davam lá para a gente era leite, era obrigado a tomar pelo menos meio litro de leite para você tirar aquilo, desintoxicar um pouco. Então eu já saía de lá em torno de oito horas, sete horas, sete e pouco da manhã, mas cansado, cansado. Inclusive a gente nem dormia direito, porque eu ia tentar dormir durante o dia mas o sono não sustentava. E eu pensei: “Esse serviço está muito pesado para mim, está muito complicado”, mas mesmo assim eu continuei nele certo tempo, até eu conseguir me alistar em Araguari, no exército em Araguari. Eu voltei e me alistei em Araguari, e me apresentei lá no início de 1976, foi quando eles fizeram a seleção e me escolheram para servir o exército.

 

P/1 - O senhor foi servir aonde lá Araguari?

 

R – Eu fui servir no Segundo Batalhão Ferroviário, lá em Araguari. E eu, com essa luta toda, eu vi, já tinha sentido como a vida é difícil, então eu não tinha... Eu não queria voltar para Coromandel. Eu servia em Araguari e morava no Quartel, que eles falam laranjeira, eu era laranjeira, servia lá e morava lá. Em algum fim de semana que dava – porque o dinheirinho era pouco que pagava – eu ia na casa da minha mãe, quase de mês em mês. E lá no exército eu me dediquei muito ao esporte, comecei a me dedicar muito ao esporte e comecei a... Inclusive lá eu fiz, depois que eu passei o período de recruta, o curso de cabo. Fui aprovado no curso de cabo e entrei para a equipe de corrida do exército. Inclusive eu fiquei sendo um dos melhores lá, eu [era] bastante esforçado, tudo o que eu pego para fazer eu sou muito dedicado, quando pego, pego com amor, com afinco mesmo, porque eu quero ver o resultado daquilo, isso eu tenho comigo. E eu comecei a me destacar no meio da equipe, inclusive, acima de mim só tinha um lá, chamava cabo Cadino, que eu me espelhava nele, porque ele era fora de série o cara. Eu só não consegui superá-lo, mas eu sempre procurava estar junto e treinar junto com ele e, sabe, nisso eu fui selecionado para ir correr em Brasília. Em Brasília, em agosto, tem a corrida do soldado lá, de todas as unidades militares. E eu fui convocado, entre 22 eu fui convocado, que seriam 20 que iriam correr e dois ficariam na reserva. E eu me lembro que nessa corrida lá eu peguei o bastão acho que em segundo, é um revezamento quatro por mil, eu peguei o bastão acho que estava em terceiro, mais ou menos, terceiro quase segundo, eu me lembro que eu peguei esse bastão, corri todo... Alcancei, passei o segundo; faltava coisa de 150 metros mais ou menos para chegar na linha de chegada, eu consegui ultrapassar o primeiro e entregar o bastão em primeiro. Isso me deixou vibrante. Eu me esforcei tanto, mas tanto, que quando eu entreguei o bastão para o atleta seguinte eu comecei a vomitar só aquela bile, porque eu tinha me esforçado muito. Mas isso me deixou bastante... O meu foi o segundo melhor tempo, isso me deixou também bastante satisfeito, porque aquele esforço que eu fiz foi recompensado. A equipe toda me elogiou depois e, inclusive, dentro da unidade, na época que eu servi, em 1976, eu obtive o maior número de medalhas, obtive 16 medalhas. Então eu era um atleta participante, realmente a coisa deu certo.

 

P/1 – No exército, além da dedicação ao esporte, qual era a tua atividade formal mesmo?

 

R - Depois que a gente voltou dessa equipe de corrida, começou a distribuir os soldados para as unidades; como eu já tinha sido aprovado no curso de cabo, eu um destacamento para uma cidade em Goiás, que chama Goiandira. O Segundo Batalhão Ferroviário mexe com construção de ferrovias. Eles me destacaram para essa unidade em Goiandira e eu fui tomar conta de um depósito de cimento em Cumari, uma cidade que se chama Cumari. Lá chegavam vagões de cimento e tal, e eu exerci essa função lá, de administrar esse depósito de cimento, porque lá chegava um volume muito alto, que uma ponte que a gente fez lá que ligava de uma montanha a outra... Chegava lá coisa de dez vagões de cimento, cada vagão 840 sacos de cimento, era um volume muito alto, aí eu administrava esse depósito.

 

P/1 - E tinha uma equipe?

 

R - Não, é porque era o seguinte, o pessoal que trabalhava lá para a gente eram os civis, então o militar ficava mais ou menos só para coordenar a coisa. Quando tinha que descarregar, carregar alguma coisa, eu comunicava ao engenheiro, encarregado da obra, ele juntava o pessoal civil, em torno de 20 pessoas, 30, ia lá, descarregava e carregava para a obra novamente.

 

P/1 - E morava onde nessa localidade aí?

 

R - Esse depósito era em Cumari, e o quartel, a unidade nossa era em Goiandira.

 

P/1 - Ia e voltava?

 

R - Ia e voltava todo dia.

 

P/1 - Era distância grande, ou não?

 

R - Coisa de 17 quilômetros, mais ou menos, 20 quilômetros, não mais do que isso.

 

P/1 - Certo. E essa vida no quartel, essa vida...

 

R - Depois que eu fui para o trecho, como eles falavam – a gente falava ‘ir para o trecho’ –, aí eu já comecei a relaxar um pouco, porque eu não estava praticando mais esporte e, inclusive, eu arrumei uma namoradinha lá também (riso), aí pronto, aí eu abandonei de vez mesmo. Mas sempre... Bola sempre eu joguei. Eu não quis mais é voltar para Araguari. Inclusive teve outra convocação depois, no ano seguinte, que eu fiquei lá um ano, seis meses e 21 dias no exército, no ano seguinte da corrida lá em Brasília, agosto, eles me chamaram. Como eu tinha um currículo bom lá, eles me chamaram para começar para formar nova equipe, para começar os treinamentos, e eu, mediante aquela namorada que eu tinha lá... Porque eles me tiraram da unidade de lá e me voltaram para Araguari de novo. Eu fiquei contrariado com aquilo, então comecei a fazer corpo mole na equipe. Mas acontece que o sargento que tomava conta da equipe, ele me conhecia, ele falou: “eu conheço seu potencial, você não é isso que você está apresentando”, e eu tentando de toda a forma ludibriá-lo. Só que quando saiu, era em torno de 30 soldados, mais ou menos, e iam só 22, e quando saiu a classificação, eu não estava no meio dos 22, o que para mim foi uma felicidade imensa: “eu vou voltar lá para a minha namoradinha.” Mas só que aí ocorreu o seguinte, o sargento, sabendo disso, ele anunciou os 22 e depois fez uma ressalva: “e [para] comemorar, para celebrar essa equipe e tudo o mais, nós vamos levar um cara que se dedicou sempre e tal... Eu sei que o cara é muito bom, nós vamos levar o Lucindo – que era o meu nome de guerra lá –, nós vamos levar o Lucindo como roupeiro”, aquilo para mim foi uma punição, ‘puts’! Quer dizer, ele me sacaneou de vez: “você não quer ir de um jeito, você vai de outra forma”. Eu fui como roupeiro, mas fui contrariado. Quer dizer, isso serviu de lição também, de uma forma que eu falei: “não, realmente se eu tivesse me esforçado, eu estava lá de outra forma”, e realmente acabei indo como roupeiro, não teve escapatória, não teve como.

 

P/1- E essa estadia no exército foi até quando?

 

R - Foi de 76 até na metade do ano de 77.

 

P/1 - Essa experiência como roupeiro te deu algum tipo de...

 

R - Me deu, isso foi uma lição que eu aprendi que a gente não deve... Se realmente aparece uma oportunidade para a gente, a gente tem que agarrar, porque às vezes a gente pensa que os outros não percebem as coisas, e esse sargento realmente me mostrou toda, sabe... Inclusive ele não cobrava os tempos, ele só falava: “Lucindo, o que está acontecendo?” “Não, estou fora de forma e tal”, e falava: “não, mas...”, porque quando a gente vai... Igual, eu fui lá para essa unidade, lá a coisa é mais... Não faz física, lá é mais relaxado, lá o pessoal vai para trabalhar mesmo. Já lá na unidade de Araguaí não, o pessoal já fica dedicado a fazer física, a treinar, o pessoal ficava mais preparado. Então jogava essa de que não estava preparado, mas ele, com toda a vivacidade dele, percebeu que tinha um pouco de corpo mole, não é, que realmente tinha.

 

P/1 - E não teve uma ideia de continuar a carreira militar?

 

R – Teve. Inclusive, quando surgiu o curso de sargento temporário, eu tive quase que fazendo esse curso, mais uma vez a namoradinha não deixou (riso), você entendeu? Então mais uma vez: por quê? Porque para eu fazer esse curso de sargento temporário eu tinha que voltar para a minha unidade que era Araguari, o curso era lá, então eu já pensava em me ausentar da namorada, e para mim já era... Eu já descartava, não é? Inclusive o sargento Ferreira, que me incentivava: “vem e faz” “não, não vou poder e tal”. Foi onde o sargento Valfrido lá dessa unidade que eu fui destacado em Goiandira, por causa da namoradinha, eu comecei a... Às vezes saía na hora de serviço e tal, e ele começou: “olha, cuidado e tal”, ele começou a pegar muito no meu pé, eu peguei e resolvi sair da vida militar, falei: “vou pedir baixa, o regime é muito duro, linha dura, mão de ferro”, aí eu resolvi pedir baixa.

 

P/1 - E para fazer o quê?

 

R - É, eis a questão, inclusive na época eu estava: “eu vou pedir baixa e vou tentar arrumar um emprego, não é?” Aí eu pelejei para arrumar um emprego em um lugar, noutro, e nada. Mas eu já tinha pedido baixa, e quando você pede baixa ela não vem imediatamente, eles fazem uma análise todinha, depois coisa de 30 dias mais ou menos que chega a sua baixa. Quando chegou a minha baixa, tudo bem, fiquei satisfeito por um lado e meio contrariado por outro. Eu não sabia se era realmente aquilo que eu queria, foi aonde eu saí procurando emprego, e estavam construindo uma barragem lá entre Araguari e o Estado de Goiás, ali que é a Usina de Emborcação, os Andrade Gutierrez. Procurei lá, fui no campo de obra deles, aí eu consegui um emprego lá de apontador de campo, fiquei mais animado. Aí já tinha saído a minha baixa e eu comecei a trabalhar lá nessa usina hidrelétrica. O pessoal estava mexendo com construção, construindo ela, e eu comecei a trabalhar de apontador de campo. Mas eu vi lá também... Porque aí, lá que realmente a coisa pegou, porque eu tinha que ficar a semana inteira lá, não tinha como eu ir e vir para Goiandira, que é onde eu estava. Tinha um barraquinho onde eu estava lá, e começou a criar atrito com a namoradinha, porque a namoradinha também não ficava satisfeita, ficar toda a... Foi até que a namoradinha não deu em nada, acabou, eu tive que terminar com a namoradinha.

 

 P/1 - Está certo. E no que consistia esse teu trabalho de apontador de campo lá?

 

R - Era apontar... Porque tem, nessas obras, esses caminhões fora de estrada que são imensos, então anotar esses caminhões a hora que eles estavam carregando, a hora que eles estavam vazios, se eles estavam parados. Porque você tinha que ir lá e perguntar ao operador por que ele estava parado. Tinham também as perfuratrizes que perfuravam a rocha para colocar as bananas de dinamite, para abrir o caminho para fazer o canal da represa, e você ia anotando; as pás carregadeiras, você tinha que anotar tudo. Ou então você pegava determinada máquina, eles te davam tipo umas planilhas, “isso aqui é da máquina tal” e lá tinha os nomes: Mickey, Donald, tudo nome do Walt Disney. Você ia anotando essas máquinas, falava: “olha, você anota essas máquinas...”. Inclusive um fato lá que me chamou bastante atenção também é a dureza que é aquilo lá, porque como é em campo e lá tem muitas pessoas de fora, de longe, do Nordeste, é um acampamento, e eu fiquei no alojamento onde tinha muito nortista, baiano, e ô povo bravo! Nossa Senhora! E o povo costumava beber pinga, esse tipo de coisa, e para mim... Eu nunca fui assim de beber, e saía briga lá extraordinária, eu ficava apavorado, porque isso também sempre me apavorou, esse tipo de violência. Inclusive eu acho que esse negócio de violência já me apavora desde a infância, como eu era o mais novo e meus irmãos mais velhos brigavam, aquilo para mim... Eu criei um trauma naquilo. Eles brigavam de dar murro, de sair sangue, esse tipo de coisa. De vez em quando saía umas brigas dessas, aquilo para mim era um tormento. E meu irmão mais velho foi muito ruim, sabe, quando eu era [mais novo], eu sempre apanhei dele, sempre, e meus irmãos do meio me protegiam mais. Meu irmão mais velho chegava junto mesmo, inclusive uma vez, eu lembro direitinho, eu levei uma paulada nesse braço aqui dele, que levantou um ovo assim, aquilo ficou... Então aquelas brigas, aqueles ‘trem’, qualquer tipo de violência que vem disso aí eu fico muito chocado. E lá nesse acampamento, quando começava a jogar bola, todo o jogo terminava em pau mesmo, em pancada, e ‘nego’ jurava de morte, então aquilo também, sabe, foi... Cada lugar que eu pegava, que eu chegava que tinha esse tipo, eu procurava me afastar, eu nunca gostei de ficar no meio dessa...

 

P/1 - Era o isolamento, não é?

 

R - Isolamento, eu procurava sair desse tipo de situação.

 

P/1 - Qual foi sua alternativa nesse momento?

 

R - Nesse momento... Inclusive lá eu adoeci, nesse lugar. Eu estava dobrando serviço, porque lá tinha muita gente que às vezes, por causa de briga, de pinga, esse tipo de coisa, parece que não comparecia no canteiro de obras, e eu comecei a dobrar serviço. Eu começava às vezes de manhã, o cara não chegava, eu ficava outro turno, aquilo foi me desgastando. O almoço que eles serviam lá era muito ruim, e começou a me dar problema de estômago, esse tipo de coisa, comecei a ficar doente. Aí eu estava já meio debilitado e o meu irmão apareceu lá nesse acampamento uma vez, esse meu irmão acima de mim, o primeiro, e falou: “olha, se quiser ir embora, vamos embora, eu estou vindo de Brasília...” – porque ele estava vindo de Brasília –, “estou vindo de Brasília, estou indo lá para a casa da mãe, se quiser a gente vai para lá e tal”. E eu pensei “não, mas eu vou começar tudo de novo, voltar para casa de novo”, fiquei pensando, mas resolvi ir. Cheguei lá e minha mãe me viu, a situação, falou: “não, você não vai voltar mais não”, inclusive deu até abandono de emprego, porque eu não apareci lá mais nem para dar baixa na carteira, eu não quis aparecer mais lá. Inclusive eu vi uma cena lá que eu achei assim... O pessoal fazendo a concretagem, que chamava canal de adução. Canal de adução é onde eles desviavam o rio para construir no leito dele, para depois voltar o rio para o leito novamente. E nesse canal de adução... É um túnel no meio de uma pedra, no meio de uma montanha de pedra, onde o rio passa, e lá eles tinham que reforçar a entrada desse túnel com concreto – e grosso – para a água não dar erosão ali, e lá nesse concreto de secagem rápida chegou a cair uma pessoa, e eu acho que eles não resgataram essa pessoa, isso eu fiquei... Está vendo, ‘esses trem’ que vão acontecendo, a gente vai... “Isso aqui é uma loucura, é uma guerra, não é um emprego”. E ‘esses trem’ foram me afastando, aí eu saí também, não voltei mais lá, deu até abandono de emprego. Como o meu padrasto, o açougue estava indo de mal a pior, que na época ele já estava querendo sair dessa sociedade com esse senhor lá e acabar com esse açougue, quando eu voltei falou assim: “que tal nós mudarmos para Uberlândia?”

 

P/1 - Por que Uberlândia?

 

R - Por questão de emprego. Uberlândia tem mais emprego, “que tal nós mudarmos para Uberlândia?” Eu falei: “uai, eu topo. Vamos ver, a gente sai daqui, dá um jeito, a gente vai para Uberlândia”. Aí ele falou assim: “faz o seguinte então...”, ele acertou tudo lá, fechou o açougue, pegou a parte dele, vendeu as máquinas, aqueles balcões frigoríficos e tudo e deu um dinheirinho razoável. Aí ele me pôs um dinheiro na mão e falou assim: “você vai na frente, aluga uma casa para a gente lá que a gente vai mudar para lá então” “e emprego?” “não, a gente dá um jeito e arruma alguma coisa por lá”.

 

P/1 - Que ano era isso?

 

R - Isso era em início de... Março de 78. E eu vim para cá. E Uberlândia, você vê, eu morei tanto tempo em Araguari e em Uberlândia eu vinha pouco. Eu arrumei uma casa aqui em um setor muito ruim (riso), mas foi o que eu achei no momento, assim, até o preço, até o dinheiro que ele tinha me dado. Aí eu arrumei uma casa no bairro Jaraguá para a gente mudar e voltei satisfeito, voltei: “Oh, arrumei a casa lá, já está reservada, já está alugada, o endereço, estou com o endereço aqui, tal”. Isso foi em uma sexta-feira. No sábado nós arrumamos toda a mudança, e no domingo nós mudamos, eu lembro direitinho que foi no domingo de manhã. Pegamos o caminhão – tudo em março – e colocou tudo no caminhão, carroceria aberta, nem baú não era, e viemos. Inclusive aconteceu até um fato que... Quase chegando em Uberlândia o tempo já estava fechando, eu falei “não, mas já está chegando”, já estava no rio, ali perto do rio Araguari, estava já na subida do rio, “dá para a gente chegar”. Só que despencou uma canga d’água que molhou tudo: colchão, sofá... Molhou ‘os trem’, televisão, molhou tudo, e até que puxou a lona e parou para pôr lona, já tinha molhado muita coisa. E a gente chegou nessa casa e começou a descer ‘os trem’, aí custou achar e tal chovendo. E era terra ainda, não tinha asfalto. E um buracão lá, escorrendo enxurrada, nossa! Aí meu padrasto queria me matar: “pô, mas arrumou em um lugar, não dava para arrumar noutro lugar não?”, falei: “foi o que deu para arrumar com o dinheiro que você me deu”. (riso) Aí nós mudamos tudo e guardamos ‘os trem’ tudo molhado. E não tinha nem jeito de deitar direito, porque os colchões molharam. Nós fomos colocar as lâmpadas, inclusive, e nós esquecemos que as lâmpadas que nós trouxemos de lá eram 110 [volts], as lâmpadas queimaram todas. Era 220 [volts] lá, queimou tudo, e já era quase meia noite, meia noite e tanta, já era noite, e para achar lâmpada ainda, que dificuldade! Teve que ficar com vela até no outro dia, porque a gente não conseguiu achar lugar aberto para comprar lâmpada 220. Aí meu padrasto, já com uma semana que estava aqui, arrumou serviço de servente de pedreiro e eu comecei a ajudar ele. Falei: “meu Deus, esse serviço não é brincadeira, é muito pesado. Carregar tijolo e fazer massa, aquele tanto de ‘trem’, eu tenho que, de uma forma ou de outra, ajudar”. Aí eu comecei a fazer currículo e ir nas empresas, ver se eu conseguia arrumar emprego. Eu lembro direitinho que eu consegui fazer um currículo e tal e levei na Viação Gontijo, Expresso Gontijo. Fiz um teste lá e o cara gostou muito da minha letra, canhoto e tal, e ele gostou da minha letra, falou: “olha, sua letra é boa, nós vamos marcar aqui para você fazer um teste, se você quiser vir”. Eu marquei lá e fui aprovado no teste. Ele falou: “então ótimo, você pode vir, você vai fazer um treinamento em Belo Horizonte primeiro, depois você vai vir para cá. Nós vamos pôr você... Nós estávamos pensando em pôr você como cobrador, mas eu acho melhor pôr você lá no guichê para você tirar passagem”. Eu fiquei todo empolgado, de gravatinha, vai ficar de gravatinha, um serviço bem tranquilo, não é? Só que nesse meio termo ele falou o valor que ia me pagar, uma coisa... Um valor bem... Aí uma colega da minha mãe que mora aqui falou: “eu posso... Tem um colega meu lá na CTBC que se chama Raul...” – na época era o Raul Paulo Costa, ele foi diretor da ABC Inco – “Eu vou conversar com ele, porque às vezes ele pode arrumar na CTBC para você”. Falei: “Conversar lá, [agora] que eu já estou praticamente arrumado na Gontijo?” Ela falou com ele, ela falou: “olha, ele falou que é para você ir lá, falou para você pegar um currículo seu e ir lá”. E eu fui. Na época era aqui na Machado de Assis, ali no prédio da sede antiga. Chegando lá, encontrei o Cícero Domingos Penha, não sei se já deu entrevista para vocês o Cícero. O Cícero era do Departamento Pessoal, ele falou: “faz um...”, na época era teste de conhecimentos gerais. Eu fiz esse teste de conhecimentos gerais e fiquei esperando. Ele falou: “você fez esse teste aqui, agora você vai lá em cima conversar com o Zezinho, que é o chefe do almoxarifado”, lá em cima, onde é Algar hoje, lá era a CTBC, e eu fui lá. Chegando lá o Zé Vieira falou para mim... Foi em uma sexta-feira, ele falou: “eu quero que você comece segunda-feira, segunda-feira eu já quero que você comece”. Aí eu fui combinar antes no Departamento Pessoal a questão de salário e comprarei um com o outro. Eu lembro que, na época, a Gontijo me oferecia dois mil reais, cruzeiros na época, dois mil cruzeiros. E na CTBC era dois mil cruzeiros e cem. Eu falei: “oh, melhorou, 2100, acho que eu vou é na CTBC mesmo”. Fui lá em cima, o Zezinho virou: “eu preciso de segunda-feira, dá para você vir?” eu falei: “nossa, dá sim, claro que dá”, e fiquei pronto para trabalhar, dia quatro de maio de 1978, e vim na segunda-feira.

 

P/1 - E qual era a sua função ali?

 

R - Eu entrei lá como auxiliar de almoxarifado, aí...

 

P/1 - E consistiu em que essa função?

 

R - Pois é. Eu chegando lá, o Zé Vieira: “oh, você vai tomar conta desse pátio aqui”. Lá tinha um pátio, era tudo terra, não tinha nada de asfalto, e tinha uns postes de cimento, bobina, um galpão com um monte de coisa, isolador. Eu não entendia nada daquilo lá na época, “você vai tomar conta desse pátio aqui”, falei: “bom, se for só para tomar conta então está bom.” Só que na época tinha um colega de trabalho lá que chamava Alair, inclusive ele já faleceu. O Alair tinha um jeito de ser chefe, gerente. Ele olhando assim, falou: “é você que vai tomar conta do pátio?” “é”. Como eu era novato, primeiro dia de serviço, eu não questionei, qualquer um que falasse comigo qualquer coisa eu ia fazer. Ele pegou, chegou e falou assim: “oh, eu vou te dar essa enxada aqui, você limpa esse pátio todo aí para a gente, deixa isso limpo.” “tá bom”. Peguei a enxada, pensei lá na gravatinha, eu sentado, tirando passagem no guichê, falei: “puxa vida, olha o que eu fui pegar. Mas vamos lá, vamos lá”, comecei a capinar aquilo, limpar aquele corredor. Inclusive, onde tinha os postes e trilhos o mato cresce por baixo: “e agora, como é que vou tirar esse mato daqui, esse poste pesado? Não vai ter jeito de eu aluir esse poste aqui”, e comecei a agachar por baixo e arrancar com a mão mesmo o que dava para arrancar. E foi. Eu fiquei uma semana nessa enxada, pensado no emprego lá na Gontijo, na gravatinha, sentadinho, limpinho. Mas eu comecei a pegar mais o serviço. Apesar de que, na época, quando chegaram essas bobinas de cabo pesado, esse tipo de coisa, não tinha talha, não tinha nada, era tudo carregado na mão. Inclusive a gente colocava uns postes de trilho no caminhão, vinha com a bobina, vinha calçando e empurrando a bobina até chegar em cima do caminhão. As bobinas eram até mais pesadas do que as de hoje, porque elas tinham um revestimento de chumbo, uma capa de chumbo, muito pesada essas bobina. Então a gente juntava quatro, cinco homens empurrando ela devagarzinho até chegar em cima do caminhão, e era aquela labuta. Mas eu já fiquei mais satisfeito, a gente estava mais entrosado com o serviço e tudo mais. Com oito meses que eu fiquei ajudando e trabalhando de chapa mesmo e carregando caminhão e caixote e marque tampa... Marque tampa são uns aros de ferro fundido, grandes assim, que põe no passeio. Você já viu, aquelas tampas que o cara entra dentro... Pegando aqueles aros, tudo serviço grosseiro e pesado mesmo.

 

P/1 - Aro de tampa, não é?

 

R - Aro de tampa, o aro e a tampa junto, aquilo é um peso. E o pessoal começou ver que eu era dedicado, inclusive pode pegar minha ficha e olhar quantas faltas eu tenho de médico e tudo. Eu não falto mesmo, só em caso de extrema urgência. Não sou de faltar. Então o pessoal começou a ver minha dedicação, e eu tinha uma caligrafia razoável até, aí resolveram pegar um colega nosso lá de dentro que trabalhava com material de escritório, distribuição de material de escritório, e com o malote, estava apertado para ele. Ele falou: “você quer ir lá para dentro para mexer com esse serviço de malote e tal?” “quero, ótimo. Meu sonho é trabalhar lá dentro do escritório”. Ele falou: “então tá, a partir da semana que vem nós vamos pôr você lá, você vai aprender o serviço de malote”. E eu comecei a fazer o serviço de malote. Ele me ensinou determinadas coisas e começou a ir saindo, saindo, até eu sozinho nesse serviço de malote. Para mim foi... Eu peguei isso com unhas e dentes. Eu trabalhei três anos nesse setor de malote, era malote para CTBC inteira, eu mexia com a distribuição. Eu recebia malote, abria os malotes, distribuía os envelopes, recolhia os outros departamentos. Na época tinha bilhetagem, essas mesas de fazer interurbano. As telefonistas tinham os bilhetes, vinham aqueles pacotes de bilhete assim, aquilo ali rasgava dentro, eu juntava e fazia outro pacote para entregar, porque senão não tinha nem como, e saía distribuindo. Nisso foi uma beleza, porque eu comecei a conhecer todo o mundo, todas as áreas, ter contato com todo mundo.

 

P/1 - Você mesmo distribuía?

 

R - Eu mesmo distribuía os malotes. Eu recebia, abria os malotes; tinha uma folha que eu anotava o departamento e quantos envelopes eram; pegava visto lá na frente com quem recebia os envelopes e saía distribuindo na CTBC inteira.

 

P/1 - E tinha um carro para você fazer isso?

 

R - Não, é dentro do prédio mesmo.

 

P/1 - Ah, dentro do prédio.

 

R - Os que eram para outros prédios eu punha dentro de outro malote, a perua levava e lá distribuía, mas a central de malote era lá comigo. Isso para mim foi... Eu fiquei supersatisfeito, eu comecei a conhecer todo mundo, todas as áreas, ia em um lugar, ia noutro, ia...

 

P/1 – E o senhor Alexandrino, o senhor conheceu nessa época?

 

R – Conheci. Inclusive, um fato que eu tenho com senhor Alexandrino é que, quando eu estava trabalhando no pátio ainda, lá tinha um monte de fio drop de sucata que recolhe dessas redes de rua.

 

P/1 – Fio drop?

 

R – É, fio drop. Esse fio de telefone que tem no poste, esse mais fino. A gente recolhe aqueles velhos, ressecados, e vira sucata. E vai fazendo aqueles montes lá, porque não tem lugar de pôr, ficavam aqueles montes. O senhor Alexandrino sempre ia no almoxarifado e rodava o pátio, tudo, eu não conhecia ele assim ainda, a pessoa dele. Aí eu estou lá assim, sentado, organizando e puxando, e tinha um bocado de fio lá esparramado. Ele chegou, pegou aquilo daquele jeitinho dele – vinha arrastando o pé: “Uh, uh. Oh seu moço”. Ele pegou aqueles fios no chão e falou: “o que é isso aqui, seu moço?”, ele só chamava a gente de seu moço. Eu falei para o senhor Alexandrino – eu já conhecia a pessoa, já tinha visto ele antes, eu não conhecia pessoalmente –, eu falei: “isso é fio drop, é sucata, fio retirado e tudo.” “Não, seu moço, mas isso aqui não pode ficar esparramado assim não, seu moço”, e jogou lá em cima do monte. “Quem é o chefe do senhor, seu moço, quem é o chefe do senhor?” “Ah, é o seu Zé Vieira, do almoxarifado” “Ah, e o senhor sabe quem é o sem-vergonha do homem do pátio?” Eu que era o que tomava conta do pátio (riso). Ai, ai, ai, eu falei: “oh, meu Deus do céu!” Ele falou: “mas quem é o chefe do senhor?” “o Zé Vieira”. Aí o Zezinho depois veio, falou: “ah, mas você deixa ‘os trem’ tudo esparramado, o Sr. Alexandrino veio e me chamou atenção”. Eu falei: “mas eu nem sabia...”. Ele falou: “não, tem que manter isso aqui arrumado, organizado”, e deu aquela dura. Eu falei: “então está bom”. E quando a gente trabalhava no almoxarifado, tinha esse sistema de plantão, que trabalhava até meio dia no sábado. Trabalhava até sexta-feira todo mundo, aí no sábado tinha um plantão, e nesse plantão geralmente ficava uma pessoa que conhecia do material do almoxarifado, todo o estoque e um motorista. Porque se precisasse buscar alguma coisa no centro da cidade... Que o pessoal procurava alguma coisa que não tinha no almoxarifado, esse motorista ia buscar. E o senhor Alexandrino todo o sábado ia lá, todo o sábado ele ia lá ver quem estava, ver como que é estava. Eu lembro que ele chegou lá, e a chegada dele é tradicional, às vezes você estava lá dentro, sentado, você escutava ele arrastar o pé e “uh, uh”, “Ah o homem vem, o homem vem”. Levantava lá: “pois não, senhor Alexandrino”. Ele: “espera aí”. Ele entrava no meio das prateleiras, andava no meio das prateleiras, olhava o material. E ele começou a me perguntar: “pois é, moço, e isso aqui assim?”, e eu falei: “hum, hum” “e isso aqui assim?” “hum hum”, no terceiro “hum hum” ele virou para mim: “‘hum hum’ não, seu moço, ‘hum hum’ não existe, ou sim ou não” (riso) então, sabe, ele falou: “’hum hum’ não, moço, ou sim ou não’”.

 

P/1 - As pessoas sempre dizem que ele era uma pessoa que não gostava de desperdício, não é?

 

R - Não, é impressionante. Isso inclusive eu até estava comentando com a menina lá do museu. Ele, se visse um clipe no chão ele pegava, um prego no chão... Ele pegava prego no chão no meio do pátio lá e falava: “olha o desperdício”. Inclusive ele me colocou umas duas semanas lavando uns isoladores, não sei se você já viu uns isoladores de porcelana branca assim, grande. Eu encaixotei umas trinta caixas daqueles isoladores. Lavava com água e sabão, encaixotava, empalhava – que não podia deixar nem arranhar –, e ele queria aquilo tudo, 30 isoladores em cada caixote. Eu lavei em torno de umas 40, 50 caixas de isolador daqueles. Ele queria branquinho, o isolador bonitinho. Aproveitava tudo, retirava do que estava velho, lavava; aqueles que estavam quebrados, que não tinham recuperação mesmo, aí a gente tirava fora, jogava. Mas ele queria todos arrumados. E ele ia em tudo quanto é obra que ele sabia que tinha. O cara furando buraco, ia lá... A presença dele é impressionante, tanto que ele marcava a presença em qualquer lugar que ele... Inclusive quando nós... Na época de almoxarifado, que eu já mexia com a parte de estoque, de almoxarifado, essas coisas mais caras de rede – que é fio drop, cabo aéreo, esse tipo de coisa –, a gente tinha um controle lá de cárdex, os fichários, antes do sistema, e a gente tinha as fichas, o histórico todinho, a requisição, a baixa, a entrada, tudo direitinho. Toda vez que era para fazer ordem de compra desses materiais ele pedia a ficha do cárdex, analisava a ficha do cárdex para ver realmente como é que estava o consumo, se aquela quantidade que a gente estava passando para comprar se atendia, se não estava muito, se não estava pouco, se tinha gente desperdiçando ou não, ele acompanhava em cima mesmo. Era uma coisa que me admirava muito, como é que o dono da empresa... Inclusive ele discutia muito com o doutor Luiz e assim, essa questão de desperdício e tudo mais, ele sempre foi muito... Falava para o doutor Luiz: “oh, Luiz tem que olhar ‘esses trem’ que está gastando, esses esbanjamentos danados”. Uma coisa que ele não gostava, tremendamente que ele não gostava, era de reunião: “tudo é reunião, tudo não sei o que lá é reunião disso, reunião daquilo”. Abominava reunião. Ele não gostava de reunião, achava que reunião estava perdendo tempo, estava desperdiçando tempo. Inclusive, às vezes, qualquer coisa que ele topava, um funcionário assim mais sentado, alguma coisa e sem fazer nada... Ele, se visse, já: “está me roubando, seu moço, está me roubando. Vamos, seu moço, vá fazer alguma coisa, seu moço.” Ele falava mesmo. Eu lembro uma vez que a gente estava procurando uns marque tampa na... Ainda não tinha construído o almoxarifado grande, aquele pavilhão grande lá da Algar, e lá criou mato, capim alto. Nós estávamos carregando um caminhão para Uberaba, e eram quatro marque tampa, aqueles que eu te falei; o aro mais a tampa, e nós carregando lá. Ele foi lá no meio do mato, veio e chegou lá onde nós estávamos lá no caminhão e falou: “para onde vocês estão carregando isso, seu moço?”, eu falei: “nós estamos carregando para Uberaba” “o que vocês estão carregando?” “quatro marque tampa que a gente está carregando aqui e tal”. A gente tinha colocado dois e tinha um no chão, aí nós colocamos dois, pegamos esse terceiro e colocamos lá. Nós procuramos assim em volta o outro e não achamos esse quarto marque tampa. “Vamos para fechar a carroceria do caminhão”, ele falou: “não, seu moço, por que está fechando, você não falou que são quatro marque tampa?” “é sim senhor”. “Mas tem só três aí, seu moço”. Eu falei: “não, é porque...” “não seu moço, cadê o quarto?”, e nós saímos procurando no meio do mato. Ficaram quatro mesmo, e nós conseguimos achar esse quarto “são quatro, moço, tem que ser quatro” (riso), entendeu? Então ele é realmente... A presença dele, ele queria ver mesmo a coisa acontecer.

 

P/1 - É, ele não deixava de acompanhar, não é?

 

R - Não, ele sempre acompanhava, sempre queria saber, acompanhava todo o trabalho. Dessa vez que eles já me passaram para dentro do almoxarifado lá, para trabalhar, lá dentro do almoxarifado eu trabalhei no setor de malote três anos, depois eu saí do setor de malote, fui para a área de controle de estoque. Trabalhei na área de controle de estoque, trabalhei na área de distribuição também, porque lá, na época que tinha esse almoxarifado, tinha uma estrutura muito grande.

 

P/1 - Era o central, não é?

 

R - É, o almoxarifado central, uma estrutura muito grande. E nessa estrutura nós éramos em torno de 67 pessoas, então tinha área de distribuição, tinha área de estoque, área de recebimento, de faturamento, que emitia as nota, a área de controle de nota, o cárdex... O próprio cárdex que não tinha sistema na época, não é, controle de cárdex, tinha nossa chefia que... Eu fiquei com esse chefe meu lá, o Zé Vieira, coisa de um ano, um ano e meio, de quase dois anos, aí mudou. A nossa direção lá mudou para o Zé Leonardo, José Leonardo Pereira de Freitas, que é o cunhado do doutor Luiz. Então ele sempre dirigindo a coisa com mão de ferro mesmo, que ele é rígido também. Na época do Zé Leonardo essas 67 pessoa envolvia a parte de suprimentos – que é o almoxarifado em si –, a oficina, que construía, a oficina do seu Tião Gomes... Inclusive até falei, não sei se ele já deu entrevista para vocês...

 

P/1 - Já.

 

R - Já, não é? Ele fazia construção de material de rede, DG, ferragem de rede, esse tipo de coisa. Tinham as oficinas de telefone, que faziam o conserto de telefone, inclusive até de TP, de telefone público, e tinha o departamento de energia, que cuidava da parte de manutenção e conserto de ar condicionado, mexia com essa parte de ar condicionado. Inclusive resolvia até alguns projetos, que hoje ainda... Essa parte de sucata eu ainda mexo com ela, e de vez em quando eu ainda vejo alguns bastidores, alguma coisa que foi construído por essa equipe. São aquele Tecle Amizade, como Disque Amizade, foi desenvolvido por uma equipe CTBC, fizeram um bastidorzinho, os cartãozinho, tudo. Eu vejo aquilo e eu fico imaginando, falo: “poxa, é uma coisa que criou, já acabou, já veio outra tecnologia bem mais avançada”. Esse pessoal era subordinado ao... Ah, e tinha também o Departamento de Transporte, que mexia com toda a frota da CTBC, inclusive das regionais. Se o pessoal precisava de um pneu, alguma coisa, era tudo reportado a esse Departamento de Transporte.

 

P/1 - Era centralizado demais, não é?

 

R - É muito, muito centralizado, muito centralizado. Inclusive toda a semana saía em torno de três a quatro, cinco caminhões de mercadoria para essas regionais. Carreta, a gente tinha carreta, levava carreta de material para as regionais. Cimento a gente... Eu me lembro, porque a gente comprava cimento daquela fábrica de cimento em Uberaba, no delta, Ponte Alta. Vinha uma carreta de lá para cá para a gente toda semana com 800 sacos de cimento, entendeu? Uma coisa muito centralizada. Até para construir esses próprios prédios, prédio de Franca, o próprio prédio 232, quando eu entrei não tinha, a 232 estava construindo. Esse prédio aqui da 236... Então esse cimento, essas coisas eram compradas direto na fábrica, era tudo centralizado no almoxarifado. Você vê, todo esse material gasto no prédio, toda essa infraestrutura, tudo isso saía de dentro do almoxarifado.

 

P/1 - Mesmo das outras localidades?

 

R - Mesmo de outras localidades, era tudo comprado, tudo centralizado dentro do almoxarifado de Uberlândia.

 

P/1 - Mas isso não causava problemas de distribuição, de...

 

R - Às vezes, mas muito pouco. Como a coisa tinha um controle muito rígido, a coisa realmente fluía. Inclusive, até nessa parte de cárdex, de fichário, a gente tinha um controle muito, muito... Inclusive a gente tinha – eu lembro direitinho – um monte de... Uns plasticozinhos verdes, azuis, amarelos, que a gente colocava no cárdex azul: “estoque normal; vermelho: pedido; amarelo: a pedir”, entendeu? A gente tinha essa sinalização todinha, inclusive tinha até um quadrozinho lá [que], às vezes, quem entrava lá para trabalhar no cárdex não tinha aquela informação, olhava lá, “estoque normal; a pedir, pedido”, então tinha todo esse controle no cárdex. Era uma coisa muito... Inclusive nosso centro de distribuição, onde era a distribuição, nós demarcávamos no chão as áreas, no chão tinha demarcado, inclusive tem até hoje lá, se a gente entrar naquele depósito que hoje virou um barracão de festa, a gente vê as marcas no chão. Uberlândia, Franca, Uberaba, Iturama, tinha tudo separado, a gente colocava o material naquelas áreas. Chegava ali, vinha aquele tanto de coisa, falava: “olha, já tem...”, fora aquele equipamento mais grosseiro, que eram os dutos, cimento, que ficava em outros depósitos; bobina... Ia lá, carregava com aqueles equipamentos mais grosseiros, depois vinha, pegava aquelas (miuçalha?), fazia-se a carga.

 

P/1 - Certo. Como é que isso se desenvolveu? Quer dizer, a partir do momento em que esse almoxarifado se descentralizou, não é, teve um primeiro momento que ele se descentralizou, e a gestão desse almoxarifado, como é que foi o percurso da ficha cárdex até o sistema?

 

R - Ah, tá. Aí nós começamos a ver essa questão de sistema. Na época, o Marcelo, que era responsável pelo controle de estoque, falou: “tem um sistema aí que nós vamos começar a lançar, e nós vamos pegar um modelo da Tele-Goiás, nós vamos para Goiânia, vamos fazer um curso, nós dois lá, vamos fazer um acompanhamento de como é que é feito lá, e vamos lá ver como é isso. Aí nós começamos fazer essa implantação, e essa implantação foi de um trabalho fora do comum, porque foi tudo através de umas planilhas. Você tinha que pegar item a item e fazer a planilha dele para lançar isso no sistema, e foi tudo preenchido à mão. Eu lembro que na época nós fizemos uma força tarefa lá em três pessoas; nós pegamos até quem tinha melhor caligrafia para ficar uma coisa para você compreender, para você entender mesmo, e ir preenchendo essas planilhas. Depois juntar todas essas planilhas e digitar isso no sistema, sabe; então nós pegamos isso... Foi a única forma da gente cadastrar isso. Inclusive até veio o nome NET. “NET”, eu não sabia o que era NET: “NET? O que é NET?”, que é Número de Estoque Telebrás, que nós, como estávamos na parte de telefonia, tinha que seguir a norma, na época da Telebrás, que hoje é Anatel. A gente tinha que seguir a norma Telebrás, então dentro da norma Telebrás, as mercadorias, os itens cadastrados chamavam-se NET, Número de Estoque Telebrás. Nós fomos lá, ficamos lá em Goiânia, lá na Tele-Goiás, na época, vimos como se fazia esse cadastro e tudo mais. Só que lá é uma estrutura muito grande que tinha, que inclusive o departamento de cadastro deles, de NET... Era um departamento; nós lá éramos duas pessoas, era bem reduzido, tínhamos que fazer isso em duas pessoas. Nós vimos lá, contamos, 0 mil, 15 mil itens, nossa! E a gente começou a fazer o cadastro daquilo.

 

P/1 – Era o que tinha também na CTBC, dez mil, 15 mil?

 

R - É, em torno de 15 mil a 20 mil itens. Começou fazer NET daquilo tudo, NET de um transistor, de um resistor, e como nós tínhamos oficina de ar condicionado, oficina de conserto de telefone, tinha uma gama imensa de componentes eletrônicos; transistor, capacitores, resistores. Inclusive tem até hoje um rapaz que trabalha junto com a gente que se chama Francisco. Ele era assim, gostava demais dessa parte de eletrônica, então em leitura de valores, das resistências, de transistor, era com ele mesmo. Ele achava bom, então eu falava com ele e ele: “olha, isso vale tanto, isso é tanto”, ele tinha tudo na cabeça. Inclusive a gente assim... A mercadoria que rodava mais, que tinha mais giro, a gente guardava aquele NET, 11 dígitos – você guardava aqueles 11 dígitos na cabeça –

“qual é o Net do fio drop”, o cara gritava lá: “ah, 6145999...”, falava todo o código. Essas mercadorias de maior rotatividade a gente guardava na cabeça, porque constantemente estava precisando daquilo.

 

P/1 - Mas sempre fazia isso no muque? Anotava na mão ou o sistema já...

 

R - A princípio, até o sistema estar funcionando, ok, que deu... Diz que o sistema, para ser bom, tem que dar pau, não é? Brincadeira. O pior é que todo o sistema dá pau, mas nenhum... (riso). Então virava, mexia o sistema dava problema. Inclusive o nosso chefe lá, o Zé Leonardo, ele ficava emputecido, falava: “puta merda, pô, mil vezes cai, esse negócio de computador, isso não tem condição”. A gente precisava liberar alguma carga, alguma coisa, não tinha como, porque estava travado o sistema, você não tinha como emitir ordem de separação, porque aí já era: “não, porque vai, é automático, isso já emite a ordem de separação, já sai”. Realmente, depois de um longo tempo a gente conseguiu emitir as ordens de separação, mas a princípio foi uma trabalheira. O Zé Leonardo ficava possesso: “não, faz essa ordem de separação na mão mesmo e tal, o caminhão...”, ainda mais que ele tomava conta também do Departamento de Transporte, e aquele tanto de caminhão parado lá, aquilo era uma loucura. O doutor Luiz chegava lá, via aqueles caminhões parados, nossa! Pelo amor de Deus! Ele ficava possesso: “por que o caminhão está parado? Cadê? Tem que mandar essa mercadoria! Por que isso está parado?” É uma loucura, tinha que... Inclusive, na época também, quando montou... Com essa estrutura que a gente tinha, nós ficamos encarregados também de dar o subsídio, levar todo o material para Portel, no Pará, lá o Pacajá... Não sei se já te falaram do Pacajá. Pacajá é uma serraria, mas um... Inclusive lá até exportava dormente. Teve que comprar, montar isso tudo, levar. Foram carretas e carretas de material para lá, inclusive um cara muito bom que trabalhava junto com nós no departamento de compras, o Augustinho – já saiu da empresa –, encarregado de comprar esses materiais todos, mas muita coisa que comprou para lá... Lá montou uma estrutura, fez tipo... Já viu aquele projeto Jari [Junta Administrativa de Recursos de Infração]? Semelhante àquilo. Então foi muita coisa para esse projeto, eu lembro que saía carretas e carretas, tanque, tambor.

 

P/1 – Era uma empresa do Grupo?

 

R – Empresa do Grupo.

 

P/1 - Serraria?

 

R - Chamava ABC Norte; serraria, mexia com exportação de dormente.

 

P/1 - Quando é que houve a descentralização desse mega almoxarifado no qual o senhor trabalhou?

 

R - Foi mais ou menos em 92, quando o doutor Mário Grossi veio para a empresa. O doutor Mário Grossi veio com a ideia já de descentralizar isso, porque tinha muito. Inclusive até eu sou de pleno acordo, tinha muita coisa ali que não é produto afim. A gente estava mexendo com conserto de ar condicionado, telefone público, de telefone, fabricar peça de material de rede; isso não é o produto afim nosso, o produto afim nosso é telefonia, não é fábrica. Então ele teve essa ideia de começar a terceirizar esse pessoal, falou: “olha, nós vamos acabar com isso, vamos descentralizar isso.”

 

P/1 - Quer dizer, as regionais ficaram mais independentes nesse controle de estoque a partir de então?

 

R - É, porque aí que começou a se criar os almoxarifados das regionais, cada um ter seu almoxarifado, e começou a cada um já ter a sua área de compra, sua área de controle de estoque, então começou descentralizar mais. E nessa parte que começou a sair, a descentralizar, começou a haver a descentralização. Quer dizer, um dos primeiros a ser terceirizado foi a oficina de telefones. Falou: “olha, nós não vamos mexer mais com conserto de telefone, vocês vão montar uma empresa para vocês; vocês entram em acordo, fazem uma sociedade, nós vamos mandar o serviço para vocês, vocês vão ser nossos credenciados, vamos credenciar vocês e vamos dar toda a infraestrutura para vocês. Vocês vão pagar isso para nós com serviço, e depois vão ter o próprio faturamento de vocês”. Nós fornecemos para eles bancadas, mesas, cadeiras, instrumental, todo o equipamento que eles precisavam para exercer aquela função deles.

 

P/1 - Equipamento que havia já dentro da empresa.

 

R - Equipamento que havia já dentro da empresa, dentro do que era propriedade da CTBC.

 

P/1 – E como é que ficou a relação do doutor Luiz mais na frente dos negócios? O tipo de olhar do acionista continuava o mesmo que daquele do senhor Alexandrino de antigamente?

 

R - Olha, eu até não sei realmente como o acionista tem sentido isso. Eu lembro que na época que a gente trabalhava lá em cima, que tinha o Departamento de Ações e tudo mais, e tinha toda essa presença mais marcante do senhor Alexandrino, a coisa tinha um volume muito grande. Tinha assim um volume de trabalho muito grande, e a gente não tinha, basicamente, oportunidade de vivenciar esse movimento de acionista, esse tipo de coisa, a gente era muito focado ali dentro, sabe?

 

P/1 - Depois dessa descentralização, qual foi o seu destino no meio desse processo?

 

R - Depois dessa descentralização começaram a se criar os setores, e surgiu, na época, em 1992, o controle patrimonial, que até então a empresa não tinha, durante todo esse tempo a empresa não tinha um controle patrimonial, assim, mais uma área dedicada ao controle patrimonial. Me convidaram para participar dessa equipe, falou: “eu estou montando uma equipe para fazer o controle patrimonial da empresa, e como você tem uma vivência de almoxarifado muito grande e você conhece muitos equipamentos, nós precisamos do seu apoio nisso”, e eu topei plenamente, falei: “não, tudo bem”. Eu, já sabendo que já estava começando a fazer esse tipo de descentralização, me propus a ajudar a formar essa equipe. Inclusive, na época, nós formamos uma equipe com sete pessoas, basicamente duas em campo e o restante na parte de controle, de administrar, de cadastrar e tudo mais.

 

P/1 - No que consistia esse controle patrimonial?

 

R - Consistia em a gente ir a campo e identificar item a item da empresa; uma cadeira, um projetor, um microfone, um ar condicionado, um bastidor, um equipamento de material de ar central, a central em si... Entendeu? Então tudo. Nós começamos a fazer, fizemos uma varredura na CTBC, de ponta a ponta. Fomos às mais remotas localidades que tinha da CTBC, inclusive repetidoras e tudo mais, fizemos uma varredura geral. A princípio nós começamos com duas pessoas em campo, eu e mais um colega que já saiu da empresa, e nós fizemos essa varredura em um tudo, pegamos lá da ponta e fechamos tudo, todo o tipo de equipamento nós identificamos dentro da empresa.

 

P/1 - Quanto tempo demorou isso? Deve ter sido um...

 

R - Nós demoramos em torno de um ano e seis meses, mais ou menos, para fazer esse tombamento físico. E correndo, porque era, na época, uma exigência. Porque na época ainda a Telebrás que estava fazendo também, de planilha de custo e tudo mais, a gente tinha que ter isso. Inclusive na época eu lembro que a gente tinha uma chefa lá que se chamava Suzel, e ela cobrava muito isso da gente, sempre que a gente chegava para fazer reunião, queria ver como é que estava o desdobramento disso, e a gente... Eu lembro uma vez que a gente, fazendo esses tombamentos físicos, aproveitava o máximo, de ir na localidade e fazer e tudo. Para adiantar a gente fazia só o cabeçalho da planilha e o equipamento, e chegavam lá aqueles itens corriqueiros, que é localização, planta. Aquilo a gente tem a planta da cidade, a localização, o nome do coordenador, tudo. Isso a gente deixava para preencher no hotel. Eu lembro que eu, muito afoito com aquilo e tentando acabar com aquilo muito rápido, ia para o hotel, chegava no hotel; ao invés de tomar banho e jantar, não, eu sentava lá e começava a preencher aquilo, e quando me dava por mim eu já estava deitado lá na cama com aquele tanto de planilha esparramada assim, e já era três, quatro horas da manhã. “Pô, nem banho tomei...”, juntava aquilo tudo e ia tomar um banho. Eu ficava exausto, no outro dia tinha que... E nesses detalhes, na regional de Pará de Minas, que é uma região mais distante daqui, eu lembro uma vez que eu saí daqui no domingo, no domingo à noite para chegar lá segunda de manhã, trabalhar a semana inteira e vir. Cheguei em uma bela segunda de manhã lá, porque chegava de madrugada, pegava o ônibus da Gontijo aqui, ia até no trevo de Pará de Minas, porque ele não entra lá dentro, e lá do trevo você descia a pé, porque de madrugada não tinha táxi, não tinha nada, você tinha que ir a pé até o hotel. Chegava no hotel, tomava um banho e ia para a empresa. Numa dessas eu cheguei lá em Pará de Minas... Cheguei às sete horas, porque já estava acordado mesmo, não dormia mais. Eu chego lá, nenhum carro para eu ir para a cidade perto. Olhei, falei: “mas nenhum carro?”, comentei com o cara. Ele falou: “não, não tem, um está na oficina, um está não sei o que”. Eu olhei, vi duas motos lá, na época tinham as motos com as caixas que o pessoal de rede usava e o pessoal que recolhia ficha nesses telefones públicos utilizavam. Eu olhei essas motos lá e o cara falou: “uma é do rapaz fiscal de rede, a outra é do rapaz que recolhe ficha”. Peguei essa pastinha minha, pus dentro de uma caixa dessa e saí para a localidade de moto. Falei: “vou de moto, porque eu não posso ficar parado”. Porque a cobrança era muita, e fiz umas três, quatro localidades de moto mesmo.

 

P/1 - Esse controle pronto depois desse ano e meio significou o quê do ponto de vista de gestão desses materiais?

 

R - Significou um melhor controle. Você já tinha identificado dentro da planta CTBC uma câmera dessa, por exemplo; você tem o nome do patrimônio dele, a identificação dela, quem é o responsável por ela... Entendeu? Todo um controle que até então não tinha, isso acho que foi um ganho muito grande para a CTBC.

 

P/1 - Esse tipo de conceito perdura até hoje?

 

R - Perdura até hoje. Inclusive nós estamos com uma auditoria aí na parte de parque de hardware. Tem uma empresa fazendo essa auditoria para a gente hoje, inclusive está fazendo aí um trabalho até muito bom, que está colocando em todo o micro, notebook, (hub?), esses roteadores, identificando tudo, colocando etiqueta, aquele selo de proteção para não ter nenhuma violação... E se tiver alguma violação a gente está anotando isso e está tendo conhecimento dessa violação.

 

P/1 - No que o teu trabalho melhorou depois desse processo todo de desenvolvimento de gestão dos materiais?

 

R - O conhecimento que eu tive em termos de equipamento, em termos de trabalho mesmo, de desenvolvimento de nova tecnologia que a gente foi vendo, novos métodos de trabalho, comportamento, até, comportamento pessoal da gente. Isso para mim foi tudo, eu tive... Acredito que eu tive um desenvolvimento muito bom durante esse período. É assim, o contato com as pessoas, a amizade que a gente fez, o conhecimento... Hoje praticamente quase todo o mundo da CTBC me conhece, então eu procuro, eu tenho muito contato com o pessoal nessa parte de patrimônio, porque o pessoal precisa de uma mesa, precisa de um... Sabe? Sempre está me procurando, sempre está... E eu estou sempre servindo esse pessoal da melhor forma que a gente pode atender.

 

P/1 – Como o Museu do Futuro precisou também, não é?

 

R - Ô, e eu estou sempre à disposição (riso), [se] precisar eu estou à disposição mesmo.

 

P/1 - Me diga uma coisa, e hoje, como é que é tua atuação?

 

R - Hoje eu estou mexendo com essa parte de gestão de patrimônio, mas atuando mais na área física. Continuo atuando na área física, gerenciando a parte de controle de mercadoria, de itens, e olhando essa parte de movimentação de móveis. Porque sempre tem muita mudança, tem um projeto disso, um projeto daquilo, e a gente tem que estar sempre fornecendo cadeira, fornecendo mesa, porque a gente não pode ficar comprando isso direto. Por isso tem que ter uma área... Tem uma área de estoque que eu deixo isso guardado, procuro manter a coisa bem em ordem para não estragar. Tem um rapaz que trabalha comigo nesse transporte desses móveis, então vai para a 232, vai para o centro administrativo, vem aqui para a 236: sempre tem essa movimentação, e eu sigo essa movimentação. E na parte de controle de equipamentos também se transportou algum equipamento aqui para outra regional, fazer essa transferência dentro do patrimônio. Eu tenho o sistema lá no meu micro, faço essa transferência, equipamento que fica obsoleto, que o pessoal desativa, que precisa vender isso para sucata, dou uma avaliada, procuro saber quem é o responsável da coisa para saber se realmente aquilo pode ser vendido, se aquilo está obsoleto mesmo, se não vai ter um futuro reaproveitamento daquilo. Inclusive tem casos de centrais aí que estão sendo desativadas. Eu ligo para a pessoa e falo: “você não vai reaproveitar mais nada, é sucata mesmo?” Sempre eu procuro ter um apoio desse pessoal da operação para confirmar aquilo, se realmente não tem mais utilidade para a CTBC. Dentre outras, também tem essa parte de sucata, controle de fios. Fios são retirados, fios drop, esses cabos grossos de rede, a gente tem um depósito lá na Engeset que o pessoal vai colocando esses fios, então eu faço a venda dessa sucata nessas mantenedoras, que são as prestadoras de serviço para a CTBC. Eu visito elas para ver se têm esse tipo de sucata, para a gente recolher isso e reverter em renda, em receita para a empresa.

 

P/1 - Certo. Isso vai o que, a leilão ou é cotado...

 

R - Não, a gente estava fazendo um contrato com um pessoal que compra isso, mas a gente está desenvolvendo essa parte, e a gente tem... Faz tipo cotação, vê se escolhe os três que geralmente entram em contato com a gente, que compram da gente e vende para a melhor oferta.

 

P/1 - É uma equipe, você trabalha com uma equipe?

 

R - Não, esse eu faço sozinho mesmo. Pego aprovação da minha coordenação, depois que está tudo aprovado, tudo certinho, pego a aprovação da minha coordenação, ele assina o mapa para mim, eu emito nota fiscal daquilo, grampeio junto com esse mapa e arquivo, e eu pego esse recibo de depósito e passo para a área financeira.

 

P/1 - Isso apenas em Uberlândia ou em todas as outras?

 

R - Não, apenas Uberlândia. Inclusive é pensamento do pessoal, parece que... Ver se centralizava isso aqui. Mas eu não sei ainda como é que está esse andamento, se realmente vai centralizar aqui ou não. Agora, essa parte de quando o equipamento fica obsoleto ou desativação de equipamento, mesmo das regionais, o pessoal me comunica para eu ver com a parte operacional se realmente aquilo está obsoleto, e a gente procura saber se está disponível para a venda mesmo, se pode ser sucateado.

 

P/1 - Certo. A gente estava falando muito da sua trajetória aqui, de contar a sua história. Nós deixamos de lado um pouco a sua vida pessoal. Você acabou casando, tendo filhos, como é que foi?

 

R - Inclusive eu conheci minha esposa na CTBC, na época que eu estava trabalhando com malote, que eu falei que trabalhei três anos no setor de malote. O serviço era muito corrido, não tinha tempo para tomar um cafezinho. Tem aquele... Tipo três, quatro horas a gente toma café, não é? O meu café sempre era mais tarde que de todo o mundo. O meu café era cinco horas da tarde, não tinha como, porque eu tinha o prazo certo para levar os malotes na portaria, porque o correio vinha pegar, se eu não levasse naquele horário determinado, o pessoal ia embora, não podia esperar, eu dançava. Tinha que arrumar outro meio, então eu procurava sempre estar lá na hora, com o malote. Então em torno de cinco, cinco e dez, que eu conseguia ficar mais tranquilo, aí eu ia tomar meu café, ia lá na cantina. A cantina, inclusive, é de frente à diretoria lá onde é a Algar hoje. E nessa aí tinha uma menina lá da cantina que sempre reservava para mim rosquinha, um pãozinho húngaro e um meio copo de leite. Nisso ela me fisgou com o estômago, e eu estou com ela até hoje (riso).

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R - Como lá na cantina tinha um regulamento das meninas sempre usarem toca ou boné para não ficar... Sempre vi ela daquele jeito. Um dia eu vi ela com o cabelo solto – brincadeira –, aí pronto, ela soltou o cabelo, aí acabou, está comigo até hoje.

 

P/1 - Qual é o nome dela?

 

R - É Nilza.

 

P/1 - Tem filhos?

 

R - Três filhos com ela.

 

P/1 - Quem são?

 

R - Aline, Anselmo e Adriana.

 

P/1 - Que idade [eles] têm?

 

R - A Aline tem, vai fazer agora, dia 26, 18 anos. 18 não, 19, vai fazer 19 anos. O Anselmo fez agora, em agosto 17, e a Adriana dia 31 de março fez 12. Inclusive essa Adriana é filha adotiva, nós pegamos ela com dez dias, porque quando nós tivemos o segundo filho – que foi o menino, homem –, minha esposa... Nós estávamos combinado assim, que se fosse... Porque o primeiro foi parto normal, [se] o segundo fosse parto normal também, ia operar, mas como não teve como, teve que ser cesariana, aí que ela operou. Depois que ela operou, passou certo tempo, ela se arrependeu, queria ter mais um. Eu fiquei: “eu acho que é suficiente”. Ela não, queria ter mais um, ficou naquela. Nesse intermeio, um compadre meu que tem uns parentes que moram em Monte Carmelo ligou para a gente [dizendo] que tinha uma senhora doando uma menininha assim, assim, assado, tal, se podia trazer. Ah, aí foi no ato. E ela é mais escurinha do que... Inclusive, nós já a criamos com ela sabendo que é filha adotiva, para não criar um trauma, a gente achou por bem fazer esse tipo de coisa, porque ela tem uma série de diferenças; ela é mais escura um pouquinho, cabelinho mais ruinzinho... Nós já procuramos criar já nesse... Ela sabe e tal, “você quer ir lá filha? Se você quiser ir lá a gente leva” “não, não quero ir”. Então sempre, sabe: “o dia que você quiser ir você pode falar para o papai, a gente te leva lá, você vai conhecer sua família”. Nós sabemos, temos o endereço da família dela, tudo direitinho, mas o pessoal lá não tem endereço nosso, não sabe nada a respeito dela. Inclusive, na época lá que trouxe a menina, disse que era um casal de São Paulo, para a gente não ficar assim, não é? A gente temia o pessoal ficar muito... Dar problema. Na época eu queria fazer adoção normal, legal, como é de praxe. Eu cheguei a conversar com o advogado, inclusive ele era da CTBC, o... Como é que ele chama? O carequinha lá, agora falhou o nome. Eu conversei com ele. Porque ela estava muito mal, estava subnutrida, chegou lá enrolada em um cobertorzinho daquele sapeca, negrinho, muito terrível, fedendo a urina, muito subnutrida mesmo. E ela precisava urgentemente de assistência médica, só que para ter assistência médica ela teria que ser minha dependente, e para ser minha dependente eu tinha que ter o registro dela. Eu conversei isso com o advogado, ele falou: “Ó, para você fazer essa adoção, você vai ter que ficar um ano com ela sem registrar, que o pessoal vai acompanhar, vai psicólogo em sua casa, vai para acompanhar tudo, não é assim de um dia para o outro assim, isso é demorado”, só que como ela precisava de assistência médica muito rápida, eu, conversando com ele, ele falou: “por bem, você registra ela como filha legítima sua e pronto, acabou. Você apresenta lá o registro, tudo, e põe ela como dependente sua, que essa menina do jeito que ela está...” Entendeu? E rapidinho a gente fez isso. Hoje, graças a Deus ela está lá que é uma fortaleza, graças a Deus. Ela foi se recuperando, se recuperando e hoje é... Ela é de um amor, assim, impressionante com a gente.

 

P/1 - Me diga uma coisa, o que é que você poderia dizer para uma pessoa que estivesse chegando agora na CTBC? O que você diria para ela depois de toda essa sua trajetória aqui dentro, o que você falaria para essa pessoa?

 

R - Olha, eu... Sinceridade: às vezes a gente começa a falar, a gente fala o que eu vou falar agora... O pessoal fala que a gente, não sei, às vezes criticam de uma forma não muito legal, mas a pessoa, para entrar na CTBC, tem que realmente vestir a camisa. Eu vesti a camisa e visto a camisa até hoje. Então o que a empresa precisar de mim, a qualquer hora, qualquer dia, eu não meço esforço. E dia de sábado se precisa eu vou, de domingo tem alguma coisa para resolver e se precisar eu vou. Então essa questão é que a empresa... Eu acho a empresa muito boa para a gente trabalhar. Você vê, ela abriu um leque para a gente de horário flexível; convênio médico é um dos melhores que tem, então realmente é uma empresa muito boa de se trabalhar, é uma empresa muito boa de se trabalhar, e ela te dá retorno naquilo que você aplica, no seu esforço, ela te dá todo o apoio que você precisa. Essa questão do horário é tão boa que, vamos supor, se você falhar, faltar um dia, ela não quer saber o que aconteceu, desde que suas obrigações estejam em dia, você esteja com seu objetivo cumprido. Isso é muito bom, porque a gente está sujeito a qualquer hora precisar faltar um dia, de chegar mais tarde um dia, de você ter que visitar algum parente doente, alguma coisa em outro lugar, você tem que faltar mesmo, e isso ela não te cobra, desde que você seja... Então um conselho que eu daria para a pessoa que entra hoje é realmente vestir a camisa, vestir a camisa e suar em prol dela, porque ele vai ter retorno, vai ter bons frutos, com certeza.

 

P/1 - Você alimenta sonhos assim, tem sonhos para realizar ainda, quais são esses sonhos?

 

R - Olha, eu tenho sonhos assim, de comprar um terreno para os meus meninos, meus filhos, deixar eles bem situados, e de ficar... Inclusive essa filha mais velha minha, ela já tentou vestibular umas três, quatro vezes, e eu sempre falo com ela: “filha nunca desista, nunca desista porque você tem que ser independente, eu não quero que mais cedo ou mais tarde você case com alguém e que você tenha que ficar com essa pessoa por obrigação. Seja independente, porque qualquer coisa você sabe se virar sozinha”. Então meu sonho é tornar esses meus filhos bem independentes, bem... Você entendeu? Esse é meu sonho.

 

P/1 - Legal. Como é que você se sentiu dando esse depoimento?

 

R - Olha, eu achei... É uma viagem, não é, é uma viagem, e é uma coisa que parece que a gente fala com emoção às vezes, mas é uma viagem que a gente... Parece que vêm todos os flashes das situações que a gente vem narrando, você vê as imagens direitinho dos acontecimentos, do desenvolvimento do dia a dia, são flashes que aparecem na mente da gente.

 

P/1 - Muito obrigado, eu acho que foi ótimo.

 

R - Eu é que agradeço, eu que agradeço.

 

P/1 - Muito legal! Muito bom!

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