Busca avançada



Criar

História

A vedete pimentinha

História de: Maria Victória dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/06/2016

Sinopse

Nesta entrevista Maria Victória dos Santos, conhecida como Vitória Régia, narra suas origens maranhenses, como sua mãe acabou indo para o Rio de Janeiro e sua criação pela madrinha, que acabou se tornando também uma mãe para ela. Desde criança já sabia que queria ser artista. Começou a trabalhar aos catorze anos, em uma rede de lojas, e pouco tempo depois conseguiu ingressar no teatro e a fazer shows como vedete. Participou de espetáculos nos teatros da Praça Tiradentes e fez turnês pela Europa e África. De volta ao Brasil, foi manchete nos jornais ao beijar o chão, brincando que vinte anos depois o Papa faria a mesma coisa. Na televisão participou do programa " Almoço com as Estrelas", na antiga TV Tupi, e seu último trabalho foi uma participação na novela "Belíssima", da Rede Globo. Aos cinquenta anos mudou-se para o Retiro dos Artistas, onde hoje é a mais antiga moradora.

Tags

História completa

Meu nome é Maria Victória dos Santos. Nasci em oito de dezembro de 1930 na capital do Maranhão, São Luís. Sou nortista, como todos da minha família, mas todos acabaram vindo pro Rio, a última que veio de lá foi a minha mãe. Antigamente, tinha uma frota que só trazia gente do norte, o Ita: “Peguei um Ita no Norte”, não tem essa música? Então, nós viemos no Itaxé que nos trouxe e minha mãe tinha uns conhecidos, essa gente que viaja à beça, deve ter conhecido lá e minha mãe foi direto para cá com os cinco filhos, inclusive eu. Vim com dezessete dias de nascida. Mamãe só esperou que eu nascesse, estava me esperando para entrar no Itaxé. Meu pai ficou pra lá, nunca mais nem soube, mas também nunca perguntei. Minha mãe tinha uma amiga rica que morava em Ramos, essa amiga dela me batizou e virou minha madrinha. Eu fui criada pela minha madrinha lá na rua Dona Cantilda, número 39, que era em Ramos. Lá a minha madrinha virou mamãe Amélia e o marido dela virou papai Nil, e lá fui criada e só sai de lá já com filho no colo. Não tinham outras crianças nessa casa, minha infelicidade na juventude foi exatamente isso, mas eu não fui muito infeliz, não, essa madrinha não me maltratava, ao contrário, eu que era a ovelha negra da família! Porque eu era do contra. Eu fazia tudo que exatamente ela não queria que eu fizesse. Me botaram no colégio, eu aceitei, estudei, me diplomei. Me botaram no ginásio, fiz o ginásio, diplomei, mas ela queria que eu fosse professora. Ela e ele, também, acho que mais ele queria que eu fosse professora. Mas eu queria era ser artista, eu já tinha isso na cabeça, eu ia para as festinhas com mamãe e papai, que era madrinha e padrinho, e cantava: “A deusa da minha rua…”, e fazia gestos e a minha mãe me vestia, eu descia as escadas... Eu não fui feita artista, eu já nasci artista.

 

Com quatorze anos, minha mãe deixou que eu fosse trabalhar na Exposição Carioca, as duas mães, que elas me criaram unidas. Tinha uma rede de lojas, a Exposição, a Exposição Carioca era só de mulher, a Exposição tal era só de homem, que era uma girafa, a girafa era a propaganda da Exposição, era a “Loja da Girafa” e eu fui trabalhar na loja da girafa. A carteira profissional de adulto era marrom e a carteira de trabalho de menor era vermelha, eu trabalhei com carteira vermelha assinada e tudo. Um dia estava sentada na praia, na areia, em frente ao Copacabana Palace com um grupo bom, então passa uma atriz, a Renata Fronzi e o Cesar Ladeira, o marido dela que era da Rádio Globo, era famosíssimo também, eles eram o casal da época. Aí, eles passaram, ele olhou para ela e falou: “Renata, aquela menina ali não tá boa para fazer aquela índia na cena, e tal?”. A Renata olhou e disse: “É, tá boa”. Chegou em mim e disse: “Quer trabalhar em teatro?”, e eu virei para ela e perguntei: “Quanto paga?”. Eram dois mil e quinhentos, para quem ganhava 600 na Exposição Carioca tava muito bom, aí, eu aceitei na hora. Me falou: "Amanha, duas e meia, três horas esteja na porta da boate Acapulco, na avenida Copacabana, 129” Ela me contratou na hora, porque queriam uma morena de cabelo comprido para fazer uma cena com Ângela Maria, ela cantava: “Este canto hindu…”, e eu vinha com aquele cabelo comprido, de biquíni, nunca usei maiô, sempre exigi biquíni: “Quero biquíni!”. A minha mãe assinou consentimento que eu trabalhasse na boate Acapulco, entrasse de biquíni em cena, eu já devia ter dezoito. Minha mãe ia muito lá, via, gostava, batia palma, ela incentivou.

 

Aí, no meio dessa temporada de Acapulco, o Zilco Ribeiro estava fazendo uma temporada no Teatro Follies. Eu vi que a opereta da Renata Fronzi estava para terminar, fui lá e imediatamente, fui contratada. Os empresários eram Mary Lopes e Juan Daniel, pai e mãe do Daniel Filho, na hora, eu fui contratada, eu era muito bonita, mesmo e tinha uma disposição para trabalhar em cena. Eu ia na plateia conversar com os expectadores, os fregueses, ia conversar e tirar sarro da casa deles, isso chamava-se número de plateia. O João Roberto Kelly fez uma música para mim, a música era “Geleia de Marimbondo” e eu vinha com o meu biquinizinho, minhas pluminhas e tal, vinha e cantava: “Parece até o espinafre do Popeye, quem toma, balança mas não cai”.

 

Nessa altura eu já alugava um quarto na Glória, para ficar mais perto de Copacabana, ir a praia, levar uma vida normal de artista. Então me apresentaram um empresário de Portugal, ele me levou para trabalhar em Portugal, Espanha, França, África, em 27 cidades numa costa da África que era a África Oriental e 28 cidades em outra costa, que era a África Ocidental. Fomos pioneiras, ninguém tinha ido à África até então. Giuseppe Bastos é que nos levou a África, foi o primeiro, o nome era Companhia Brasileira de Revistas, foi o primeiro grupo a se apresentar na África. A cidade que eu mais gostei foi Lourenço Marques, que era capital da África Oriental portuguesa, lá foi um sucesso. E eu fui entrevistada, imagina, tinha 30 mil habitantes a cidade, e eu fiz a declaração lá na entrevista: “Eu gostaria de ser a 30 mil e uma”. Ah, isso foi manchete, eu querendo morar na cidade, artista naquela época, famosa, querendo morar na cidade. Voltando para o Brasil, antigamente todo navio tinha que ficar ao largo, para aquela história de febre amarela, verificação de estado de saúde das pessoas que vinham de fora. Então, o navio ficava ao largo e os entrevistadores, jornalistas daquela época tinham o direito de ir lá. Um jornalista me perguntou assim, o seguinte: “Vitória Régia, qual é a primeira coisa que você vai fazer assim que chegar ao Brasil?”. Já estava há dois anos e meio fora do Brasil, estava com saudades, e disse: “Olha, eu estou com tanta saudades do Brasil, tanta saudades do Brasil, que não vai ter boca livre, vou beijar as bocas todinhas e vou beijar o chão do Brasil.". O Diário de Noticias” dizia: “Matou as saudades do Brasil beijando as pedras do cais”. Eu não tive mais divulgação porque eu dei um azarzinho, foi o maior azar da minha carreira, que na Mangueira teve um engavetamento de trens, foram 300 mortos, no dia oito de maio, o dia que eu cheguei ao Brasil. Esse engavetamento acabou me dando azar, porque aquilo foi inédito, uma mulher beijar o chão, antigamente, era inédito, eu fiz uma coisa que ninguém tinha feito. Depois eu soube que o Papa também andou beijando, mas foi vinte anos depois de mim, eu fui a primeira.

 

Voltei à Praça Tiradentes. Trabalhei com o Valter Pinto, aqui na boate Night and Day, a Praça Tiradentes era o foco dos teatros, todos eram ali e eu trabalhei em todos eles, fiz uma temporada em cada um. Das minhas colega, as que eu mais tinha amizade era a Virgínia Lane. As mais famosas eram a Nélia Paula e a Virgínia Lane e eu me dava muito bem com essas duas. Quando elas arranjavam qualquer coisa, me chamavam logo, antigamente uma indicava a outra: “Olha, estão ensaiando em tal teatro”, a gente corria para lá, era a corrida do ouro.

 

Então veio a TV Tupi, a primeira televisão do Brasil. Lá tinha um empresário chamado Aérton Perlingeiro, ele me chamou para fazer uma temporada no “Almoço com as Estrelas”, nesse programa nós sentávamos na mesa e éramos entrevistadas, eles entrevistavam cada artista que ia naquela dia. Fiz também um filme que foi famoso: “Nem Sansão, nem Dalila", nele eu vinha numa bandeja e dois negros abaixavam a bandeja, então eu saía dançando a música que era escolhida. Em outro filme, “Carnaval em Caxias”, eu trabalhei no corpo de baile, aí eu dançava com todas as meninas, então, eram dez músicas, entravamos dez vezes em cena. Era filme nacional, naquela época faziam muito filme brasileiro, nós tínhamos a Atlântica, a Vera Cruz, que era até aqui na Barra da Tijuca. Meu último trabalho foi 'Belíssima, uma novela da Globo, era a história de uma vedete que queria reunir as vedetes antigas todas num programa só e eu fui convidada. A Carmem Verônica era a estrela da peça, eu trabalhei com ela também, ela foi dando nome das vedetes antigas que trabalharam com ela, eu fui logo lembrada, claro, né, a pimentinha não podia faltar! Meu nome artístico era Vitória Régia porque eu sou do Maranhão, e lá, nasce a flor famosa. Foi o Colé que botou, ele disse: “Victória, você tem o nome de uma flor famosa lá onde você nasceu, seu nome vai ser Vitória Régia”.

 

Eu dava festas em casa, festas de arromba, eu vivia a minha vida assim. Mas, um dia eu fiz cinquenta anos, E então fui lá na Casa dos Artistas, falei com o diretor, que era o Francisco Moreno, e falei: “Moreno, eu estou precisando ir para a Casa dos Artistas e sei que lá só mora artista”. Só que na Casa dos Artistas só entra gente com sessenta e eu tinha 56 anos, mas o Moreno imediatamente: “Tô mandando uma artista para ai.". E eu vim, já fazem trinta anos, hoje eu sou a mais antiga moradora. Eu amo o Retiro, sabe por quê? Quando eu precisei, foi ele que me acudiu.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+