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História

"A vaidade é o que compromete"

História de: Euclides Scalco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2005

Sinopse

Scalco nos conta sobre sua infância na pequena Nova Prata, sobre sua juventude no internato, sua vivência como farmacêutico e como que entrou para a vida política posteriormente. Com grandes vivências na política brasileira, principalmente entre as décadas de 60 e 90, Scalco acabou assumindo a presidência da Usina de Itaipú. Aqui, nos conta sobre como chegou a este cargo e também os pormenores de as administração.

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História completa

P/1 – Bom, repetir a pergunta, o nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Euclides Girola Scalco, nascido em Nova Prata, Rio Grande do Sul, 16/09/1932.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Elias Scalco e Adélia Zanoto Scalco,

 

P/1 – E o seu Elias, ele trabalhava com o que?

 

R – Era agricultor e, posteriormente, foi empresário.

 

P/1 – É... e o nome dos seus avós?

 

R – Avós paternos é Girola Scalco, da onde vem o meu segundo nome e Ana Zoline Scalco. Chegaram no Brasil em Nova Prata em 1891. Meus avós maternos, Amadeu Zanoto e Lúcia Zanoto também moradores de Nova Prata, Rio Grande do Sul, todos descendentes... Melhor, todos italianos vindo do final do século XIX.

 

P/1 – Dentro dessa coisa, o que o senhor lembra, assim, tinha alguma tradição italiana que era forte, assim, que os avós passavam? Algum costume?

 

R – Não lembro, que os meus avós faleceram relativamente jovens, né? Me lembro muito bem do meu avô paterno que morou conosco. Era... Eu era jovem e era uma pessoa muito forte com capacidade de liderança e... Desses italianos que leva tudo para frente. Chegou onde nós... Aonde eu acabei nascendo em Nova Prata, desbravando aquela terra e até poucos dias uma prima minha mandou uma fotografia em que eu apareço no porão da casa dele, que tinha... Era um agricultor, era muito forte, tinha uma cantina de vinho e eu, provavelmente, devia ter uns quatro, cinco anos, estava no colo dele numa festa entre eles lá na comemoração de... Da ordenação de um sacerdote, filho de amigos dele, naquela região. E essa fotografia eu vi depois de 60 anos.

 

P/1 – Gostoso, né?

 

R – Gostoso.

 

P/1 - E as casas de Nova Prata, assim, como é que o senhor descreveria a cidade, como é que eram as casas?

 

R – No município onde nós nascemos não é Nova Prata. Eles moraram num distrito, hoje, chamado Vista Alegre do Prata. Evidente, as primeiras casas eu não conheci. Eu conheci quando o meu avô já tinha uma casa, uma propriedade rural muito boa e tinha na vila, ele tinha um hotel. As primeiras casas foram de madeira cortada não por serraria, mas era com serrote. Ficavam o dia inteiro serrando uma tora para poder fazer meia dúzia de tábuas. E eu lembro muito bem de um episódio, que na época da Vindima, eles tinham... (pequena interrupção)

 

P/1 – O senhor estava falando da Vindima...

 

R – Na época da Vindima eles, então... Como eu tinha uma família muito grande e produziam vinho e da colheita da uva, embaixo do parreiral até a cantina, eles levavam em cestos que era uma galhofa e era levado por um burro, por um animal, e esse burro era tão ensinado que ele ia sozinho. E quando ele chegou na cantina não tinha ninguém para recebê-lo e como tinha uma tina de vinho, ele invés de beber de água, tomou vinho. E como o burro não voltava mais, foram ver o burro estava deitado de porre (risos). Então eu lembrei desse episódio quando eu vi essa fotografia agora, depois de mais de 60 anos, recordando aquela cantina, que aconteceu esse episódio do burro foi de porre.

 

P/1 – Que ótimo. E como que era a Nova Prata quando o senhor era criança assim? Descreve como é que era a cidade, o que é que vocês faziam?

 

R – Eu morava no Distrito...

 

P/1 – No Distrito?

 

R – Distrito de Vista Alegre. Era um distrito aí de umas 20 casas. O que lembro bem, que o hotel em que o meu avô... Que o meu pai administrava ficava bem na frente da igreja e uma coisa que me lembro e me chama atenção é que na época era tradição dos italianos na véspera de finados, eles ficavam badalando o sino a cada cinco minutos. Então se passava a noite inteira ouvindo o sino da igreja badalando, anunciando que o dia seguinte era Finados, comemoração dos mortos. Realmente ficava uma coisa tétrica, né? (Risos).

 

P/1 – E ninguém dormia?

 

R – Ninguém dormia. E um que me lembro desse período é de que na Páscoa havia o hábito dos italianos de procurar os ovos de páscoa, que eram distribuídos pelos pais nos formigueiros ou atrás de moitas. Então a nossa juventude... A meninada, não a juventude, ficar se matando para encontrar os ovos de páscoa nos formigueiros e etc. São alguns episódios que eu lembro. E também eu tenho um episódio também muito interessante; meu avô tinha uma mula muito bonita e que ele me deixou com ele uns tempos e eu ia ao moinho com essa mula. Num dos dias que eu fui ao moinho, o moinho ficava longe da vila, uns cinco quilômetros, quando eu saí do moinho... Porque eu não sabia subir no burro, na mula. Tinha que me colocar em cima. Eu era pequeno, tinha uns cinco, seis anos. E deu um temporal na estrada. Eu, agora, inclusive no ano passado, em setembro, fui no aniversário de 100 anos de uma tia minha e passei no local dessa casa e quando deu o temporal, a mula que tinha mais juízo do que eu, entrou embaixo do porão da casa para se preservar da chuva, né? (Risos).

 

P/1 – E quais eram as brincadeiras, assim? Tinha crianças, outras crianças no distrito? Vocês brincavam do que?

 

R – Tinha, tinha. A brincadeira que nós fazíamos... Por exemplo, nós tínhamos... na rua do Distrito era um morro e esse morro nós íamos lá com esses carrinhos... Carrinho de quatro rodas com uma tábua e a gente ficava subindo o morro carregando aquele negócio nas costas e depois descendo. Quer dizer, você levava uma hora para subir e descia em cinco minutos, né?

 

P/2 – O senhor falou que tinha, o seu avô tinha hotel, né? Era numa região de passagem...

 

R – Era de passagem entre Nova Prata e Guaporé.

 

P/2 – E tinham bastante ocupações esse hotel?

 

R – Não, não, muito pouca. Eu fui agora, fui visitar porque eu nasci naquele hotel. Agora quando eu fui visitar, fui ao aniversário da minha tia, eu passei lá com a minha filha, o meu genro e o meu sobrinho, eu fui... Fui visitar o hotel para mostrar para a minha filha onde eu tinha nascido. Mas alguns anos passados eu estive lá, depois de muitos anos, e fui visitar esse hotel e na época eu era deputado. E a moça me levou, tal. Daí eu disse “eu nasci aqui nesse quarto.” Bom, agora quando (inaudível) da minha tia, aniversário, eu fui mostrar para a minha filha e subi. E aí era mesma moça, depois de muitos anos, e ela disse: “Ah, nesse quarto aqui nasceu um deputado.”, (risos) disse: “esse deputado era eu.”.

 

P/2 – E como é o nome do hotel, doutor Scalco?

 

R – Até hoje eu chamo Hotel Scalco.

 

P/1 – E estudos? Como que era estudar nessa época?

 

R – Eu com a idade de nove anos, meu pai mudou de lugar, dessa vila Vista Alegre e foi morar em Guaporé, no Rio Grande do Sul. Comprou um hotel e continuou com a sua atividade hoteleira. Meus estudos foi feito no primário, estudei em colégio marista lá em Guaporé, onde eu fiz o ginásio também e, posteriormente, fui fazer o científico e faculdade em Porto Alegre. Eu me formei em 1954, no ano da morte do Getúlio.

 

P/1 – Qual que é a diferença de Nova Prata para Guaporé, assim, que o senhor sentiu dessa época?

 

R – Enorme. Nova Prata era uma cidade razoável. O distrito onde eu morava tinha umas casas como eu te falei, e Guaporé já era uma cidade bem maior. Uma cidade já com porte de ter escolas de bom nível. Aquela região era... Vamos dizer, a melhor escola que tinha. Quer dizer, filhos de família de Bento Gonçalves, Passo Fundo, ia estudar em Guaporé porque era uma escola de irmãs maristas muito renomadas. E eu tive a felicidade de frequentar essa escola.

 

P/1 – Era rígido?

 

R – Muito rígido e muito eficiente. Eu falo francês e eu aprendi o francês no ginásio.

 

P/1 – E algum professor que marcou, assim, tua passagem pelo colégio marista?

 

R – Marcou. Me marcou um professor do primário, Irmão Clodoaldo, de quem fui muito amigo, e me marcou o diretor da escola, que era Irmão Eduardo. Era um francês que conhecia a Matemática como poucos. E foi lá que eu aprendi a Matemática e ele dizia o seguinte: “Você tem que, na Matemática, estudar os teoremas, etc, você... Quando você passar o Teorema de Pitágoras você e passou a ponte dos burros. Você entendendo o Teorema de Pitágoras, você entende a Matemática”. Então, foi uma pessoa que me marcou muito.

 

P/1 – Ele deu aula para o senhor muito tempo?

 

R – Deu aula dois anos; Terceira e Quarta série do Primário.

 

P/1 – E já mais adolescente, assim, o que é que...

 

R – Aí foi em Porto Alegre.

 

P/1 – O senhor mudou para Porto Alegre?

 

R – Mudei para Porto Alegre. Colégio Rosário, dos Irmãos Maristas também. Fiz o Científico, interno, e depois terminei na Faculdade. As coisas no internato foram muito interessantes, né? Como eu era caxias, eu, no recreio, no Colégio tinha embaixo para vender sanduíche, essas coisas, então eu ficava de bodegueiro, vendendo sanduíches, Coca-Cola etc. Mas não era para mim. Era do Colégio e eu participava de garçom. Já tinha uma vocação de garçom porque no hotel do meu pai eu era garçom.

 

P/2 – Então, o senhor ajudou nos hotéis do seu pai como garçom?

 

R – Sim, sim. No hotel do meu pai, em Guaporé, você tinha hóspedes que se passava durante o dia. Naquela época não tinha restaurante, as refeições eram em hotéis. E eu era responsável por servir os hóspedes. Cabia a mim isso. E as coisas interessantes, naquela época o pessoal... os gringos tomam vinho, né? Lá tinha várias cantinas de vinho, de várias marcas. A melhor marca, o melhor vinho era Guaporé. Às vezes, faltava o vinho Guaporé. E eles queriam o Guaporé. Então, eu transvazava. Pegava os outros vinho, botava na garrafa do Guaporé, e levava para eles e ficava tudo bem, né? Tomavam o vinho Guaporé.

 

P/1 – Da mudança de Guaporé para o Colégio marista, para o internato, o que é que mudou para a vida do senhor? Porque o internato é um dia inteiro de estudo.

 

R – Evidentemente que mudou muito porque, primeiro, em Guaporé eu morava 200 metros do Colégio e Porto Alegre eu ficava longe da família. Na época, quando eu fui para Porto Alegre, em 1949, era uma distância de 220 quilômetros. Na época, isso levava um dia de ônibus, né? E quando a gente ia para a escola, toda a família ia se despedir porque a gente ia só se ver daí há seis meses.

 

P/1 – Nas férias?

 

R – Nas férias. Evidente que foi uma mudança grande, né? Mas eu... o período que eu estive interno foi importantíssimo para a minha formação, que foi ali que eu aprendi a disciplina, a ordem e o respeito aos outros. Foi... Normalmente as pessoas acham que a vida no internato é muito ruim. Eu, realmente, foi um período que forjou o meu caráter, a minha forma de ser, que eu guardo até hoje.

 

P/1 – Como é que era o cotidiano no internato? A que horas vocês acordavam...

 

R – Acordava às 6:00, ia à missa, depois da missa ia para o estudo e às 7:30 ia tomar café; 8:00 ia para a aula, até 12:00, almoço, 14:00 aula até às 17:00. Depois voltava para o internato, ia para a sala de estudos, jantar, deitar. Quartas e sábados eram jogos, futebol... E o que era interessante, naquela época a gente só podia tomar banho na quarta e no sábado.

 

P/1 – É mesmo?

 

P/2 – Dois dias...

 

R – Só tomava banho quarta e sábado, né? O que isso também não me estranha muito porque eu passei um período em 1970, na Bélgica, e morei na casa de uma família de amigos e o banho era quarta e sábado também (risos).

 

P/1 – Deve ter alguma explicação (risos).

 

R – Foi um período muito interessante, no Colégio, foi... Uma coisa que também eu fazia, na época das provas eu não estudava, lia gibi. Quer dizer, era uma forma de relaxar e descontrair; lia histórias em quadrinhos.

 

P/1 – Quais eram as mais...

 

R – Na época tinha um, que era até meio proibida. Como é que era? Não lembro o nome não... Faz tanto tempo.

 

P/1 – Não tem problema. E, assim, vocês podiam sair sábado, domingo?

 

R – Não, não...

 

P/1 – Tinha alguma atividade de final de semana?

 

R – Não, não, a única saída que tinha era no sábado... No domingo a gente podia sair todo o dia. Saía de manhã, voltava de noite, né?

 

P/1 – E aí vocês iam aonde?

 

R – Ah, cinema... Tínhamos uns amigos da fronteira do Rio Grande do Sul que os pais tinham cavalo no Prado, no hipódromo. Então, nós íamos no hipódromo, que esse... Padre Simões, Irmão Simões Reiner e ele disse: “Vamos lá que nós vamos ter umas barbadas hoje para nós ganhar um dinheirinho”. Normalmente a gente não tinha nem... não sobrava nem o dinheiro do bonde para voltar para o Colégio. Então, a gente tinha que voltar a pé. Aí, demorava e a gente tinha que comer um cachorro-quente que era feito nuns suportes que botava carvão de um lado, aquecia a água e tal. Então, a gente comia o cachorro-quente na frente do Rosário.

 

P/1 – Senhor Scalco, descreve para mim como é que era Porto Alegre nesta época. O senhor falou do bonde, assim, quais os principais locais, como é que era o Centro da cidade?

 

R – O Centro é como hoje. Porto Alegre é uma cidade confinada, né? Tem uma ponta, que chama Ponta da Cadeia, onde tinha o antigo presídio, que era formada pelo rio Guaíba. Então, o grande passeio da gente era ir à Rua da Praia, onde tinha os cinemas. E o melhor cinema era o Cinema Imperial onde frequentava as meninas de Porto Alegre. Então, a gente ia assistir a saída do cinema para ver a garotada, né? Ou ia na missa para assistir a Santa saída, né?

 

P/1 – Acho que isso a gente faz até hoje (risos).

 

P/2 – O senhor fala muito nós, nós. Alguns amigos permanecem desde aquela época?

 

R – Daquela época poucos porque quando eu vim para o Paraná - eu vim para o Paraná em 1959 - dos amigos, dos companheiros de escola... Há dois anos eu encontrei um amigo meu que foi meu companheiro desde o Ginásio... Do Primário até o Ginásio. E fazia 40 anos que eu não o via. E foi a casa de minha filha em Porto Alegre e... Uma coisa interessante é como eu reencontrei este amigo. Minha filha tinha uma... tem até hoje lá uma loja, além de outras atividades que ela faz, e uma senhora foi lá comprar... É uma loja de equipamentos de jardim, estas coisas. E esta senhora foi comprar e conversando ela disse: “Como é seu nome? ... Prisca? ... Ah, interessante, o meu marido disse que um grande amigo dele teve uma filha Prisca”. E a Prisca virou e falou: “Mas quem é este grande amigo?”  “Ah, é Aimone”. “Ah, eu sou Prisca Scalco”. “Ah, Scalco, então é filha do Euclides?”. “Sou filha do Euclides”. Bom, depois na próxima vez que eu fui lá me encontrei com ele. Na mesma oportunidade, na casa da minha filha, encontrei um médico que trabalhou comigo aqui no Paraná, que foi prefeito da minha cidade, tinha sido vice prefeito do meu pai, foi meu guru político. Ele foi (inaudível) no Rio Grande do Sul, um dia estava conosco lá no Paraná e depois voltou para o Rio Grande do Sul. Então, também encontramos na casa da Prisca com este: o Aimone que foi o meu colega de Primário e o Álvaro que foi o meu gurú e companheiro de política, inclusive. Foi uma conversa agradabilíssima. Lá pelas tantas o Álvaro virou para mim e disse: “Como é que você e o Aimone faz 40 anos que não se encontram e estão conversando como se estivessem deixado de conversar ontem?” Então, são coisas interessantes da vida, né? Mas eu encontro de vez em quando alguém. Agora há poucos dias eu estive em Brasília, me procurou uma pessoa que foi meu colega de internato.

 

P/1 – É?

 

R – Depois de muitíssimos anos. São as coisas que...

 

P/1 – Depois o senhor fez Científico e foi fazer Farmácia?

 

R – Eu fiz curso de Farmácia e foi uma decepção para os Irmãos Maristas.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque sempre havia disputa: qual é o Colégio que classifica os melhores alunos no vestibular e nos melhores cursos, né? E os grandes cursos da época, e agora também, é Medicina, Engenharia, Direito e eu fui fazer Farmácia. E o diretor da escola disse: “Scalco, que pena que você foi fazer Farmácia!”. Enfim, eu fui bem classificado.

 

P/1 – E na família, alguém incentivava para fazer Farmácia?

 

R – Não, não, meu pai sempre foi uma pessoa muito liberal, não pressionava ninguém.  Eu, inclusive, quando meu pai, certo período da vida, teve dificuldades exatamente no período em que eu tive que estudar em Porto Alegre, que veio o meu irmão, disse: “Pai, eu não vou estudar em Porto Alegre. Eu vou fazer curso comercial e fico aqui ajudando o senhor.”  E ele disse “não, você vai porque burro basta eu. Eu quero que você se forme em alguma coisa válida.” E foi com esse incentivo do meu pai que eu fui cursar Farmácia , meu irmão foi cursar Odontologia e, assim, a gente se formou e...

 

P/1 – Os dois em Porto Alegre?

 

R – Os dois em... Ele ainda fez o científico em Porto Alegre e fez Odontologia em Florianópolis.

 

P/1 – Certo. E aí o senhor começou a trabalhar?

 

R – Em 1955, eu fui montar uma farmácia que não foi em Bento Gonçalves. Foi num distrito de Guaporé, onde nasceu a minha filha e a mulher que eu casei, que vive comigo até hoje.

 

P/1 – Como que ela chama?

 

R – Teresinha.

 

P/1 – Teresinha.

 

R – Agora fazendo um parênteses; em 1988 quando eu coordenei a campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso, eu estava na fila do avião em São Paulo e chegou uma mulher e me disse: “Você é o Scalco?”  Eu disse: “Sou.” “Euclides?”  “Sou.” “Ah, eu sou irmã do Renato Aiolf lá de Guaporé, vocês estudaram juntos. Eu estudava no colégio das freiras.” Claro que depois de 40 anos eu não reconhecia. Eu disse: “Claro, somos daquela época.” Depois de muita conversa ela olhou para mim: “Vem cá Euclides, você está com a mesma mulher ainda?” (risos).

 

P/1 – “Ainda.”

 

R – E eu estou com a mesma mulher ainda.

 

P/2 - E como é que o senhor conheceu sua mulher?

 

R – Minha mulher eu conheci numa festa de inauguração da igreja de Guaporé. Ela foi com o pai para assistir a inauguração da igreja...  Até naquele dia eu estava reatando namoro com uma menina que eu já tinha namorado, depois tinha deixado e a gente tinha meio se combinado para que naquela festa a gente, no footing da praça a gente se encontrar e recomeçar uma vida de namoro. E eu estava com um amigo meu que era... Ia vir a ser primo da irmã da minha mulher, que a Zilda ia casar logo depois com o primo dele. E nós passamos e vimos essas moças, eu perguntei para o Rudi: “Rudi, quem são essas moças aí?” “Ah, essas aí são de Mussum.” Bom, ficou por isso. Fizemos algumas voltas na praça e vamos tomar um suco de frutas lá na casa paroquial. Chegamos lá e essas moças estavam sentadas numa mesa e nós sentamos em outra. Ele ficou conversando com elas, que as conhecia. E ele disse a seguinte observação: “Oh Teresinha, tem um rapaz que pediu por você. Tem um rapaz que está com um terno de linho branco, tem um distintivo do colégio na lapela...”  E era eu, né? Mas a Tersinha não se deu conta de quem seria. Tomamos o suco e tal, elas tomaram e fomos saindo, elas saindo e eu também saindo. Aí ele pegou a Teresinha pelo braço e “Teresinha, o rapaz que eu te falei é este aqui, viu?”. (Risos). Bom, aí nós ficamos passeando na praça. Ela tinha combinado hora de voltar para a vila deles, que Mussum era distrito de Guaporé. Eu fui com ela até o carro do pai dela e disse para ela: “Posso te telefonar amanhã?”. Daí no dia seguinte eu telefonei e estou com ela a 46 anos.

 

P/2 – E a outra moça que o senhor ia reatar o namoro?

 

R – Está solteira até hoje.

 

P/2 – Está solteira até hoje? O senhor nem foi encontrar com ela? (risos)

 

R – É verdade, ela está solteira até hoje. Não por minha causa. (risos)

 

P/1 – Ah, meu Deus do céu. Quando o senhor estava estudando a Farmácia, o senhor já pensava em montar uma farmácia sua? Como é que o senhor conseguiu, assim... Enfim, exige um certo investimento, como é que...

 

R – No começo o meu pai me deu suporte, tive condições e trabalhei nesse local no Sul durante uns dois anos. Daí a coisa não ia. Eu acabei vendendo lá e fui... Instalaram uma farmácia nova em Bento Gonçalves, na cidade alta. Montei a farmácia em agosto...

 

P/1 – Só para a gente se localizar, é em 1950 e...

 

R – 1958.

 

P/1 – E oito.

 

R – Em agosto... Mês de novembro um amigo meu me ligou, disse: “Scalco, você tem que ir para o Paraná.” “Ué, mas fazer o que?” “Não, lá tem... Eu vim de lá agora, tem um médico lá que está precisando de um farmacêutico e você precisa ir para lá.” Mas digo: “Não dá, não tem condições.”  Ele tinha uma grande loja em Porto Alegre, era muito amigo de meu pai e era nascido da vila da minha mulher. “Não Scalco, você vai para lá.”  “Não posso. Faz quatro meses que eu montei a farmácia aqui em Bento Gonçalves, como é que eu vou fazer?” “Não, não, você vem para cá, para Porto Alegre hoje, eu quero conversar contigo.” Aí a noite eu fui para Porto Alegre e ele me disse: “Olha Scalco, você tem que ir para lá porque eu disse para ele que você ia.” “Mas José, como é que eu vou fazer?” Ele disse: “Vai te embora.” Bom, voltei, falei com a Teresinha: “Olha Teresinha, eu falei com o José, me disse, em italiano se chama Betin, ele quer que eu vá.” “Experimenta, vai.” Então eu vim para o Paraná e fui visitar esse local. Eu cheguei, era um hospital de madeira, isso foi em 1958, em novembro de 1958. A cidade, eu levei dois dias para vir do Rio Grande do Sul até a cidade. Era só barro, terra e... Esse médico era do Rio Grande do Sul e veio para o Paraná em 1953. Conversando com ele, ele disse... Digo: “Mas doutor Valter, para mim vir para cá... Montei uma farmácia lá.”  Ele diz: “Olha, quem te deu uma informação de você eu confio. Se você não vender a farmácia, encaixota a traz tudo para cá.” Então eu voltei em novembro. Fiquei muito indeciso. Eu fui a Porto Alegre falar com esse meu amigo, digo: “Bepe, não vai dar para ir... Veja, como é que eu vou vender essa farmácia, o que é que eu vou fazer?” “Scalco, vai te embora. Faço a seguinte proposta; você vai para lá, entrega Bento Gonçalves, encaixota e leva e eu te dou um cheque em branco. Se você tiver prejuízo no primeiro ano você vem me cobrar.” Consegui vender a farmácia em Bento Gonçalves e no dia 21 de janeiro eu estava morando em Francisco Beltrão.

 

P/2 – Por que o senhor resolveu fazer Farmácia, doutor Scalco?

 

R – Porque tinha dois farmacêuticos em Guaporé muito ricos. Eu digo “farmácia deve ser uma boa coisa” (risos).

 

P/1 – Agora, por que esse amigo, ele achava que o senhor tinha que ir... Tinha que ir para Francisco Beltrão?

 

R – Esse aí é uma pessoa fantástica. O que ele orientou gente para ir para lugares novos. Ele mandava esses amigos dele, as pessoas amigas da família ou para Santa Catarina ou para o Paraná. “Vocês são jovens, vão buscar terras novas, vão buscar coisa nova. O Rio Grande do Sul já deu o que tinha que dar e vocês vão embora.” E foi assim que eu vim. E uma forma também de ter vindo... O meu pai sempre foi envolvido em política lá no Rio Grande do Sul, ele era líder partidário do PTB, foi vereador, foi prefeito... Enfim, e a Teresinha só me pediu: “Scalco...” Ninguém me chama de Euclides, nem a Bete me chama de Euclides. “Scalco, se for para o bem você vai. De minha parte, não tem problema. Vamos embora.” Eu vendi por qualquer coisa a farmácia em Bento Gonçalves e montei os bagulhos que eu tinha num caminhão do meu sogro e viemos para o Paraná, eu, minha mulher e dois filhos. E aí começou a minha vida. Eu fui morar numa casinha... Francisco Beltrão era uma cidade na época com dois mil habitantes e fui morar numa casa que estava no meio de potreiro. Só tinha rua principal. Para levar as coisinhas que eu tive, elas ficaram encaixotadas um ano porque não tinha onde botar. Só desmanchamos a cama, a minha cama, uma mesa, o berço das crianças e moramos numa casa que, de noite, as vacas vinham se coçar na casa e chacoalhava todo mundo (risos). Ainda não tinha luz, não tinha água para lavar roupa, fazer comida. A minha mulher tinha que buscar água a 500 metros de balde. O banho era uma lata de querosene, a gente puxava um barbante assim para abrir o chuveiro. E assim fez a vida, né?

 

P/1 - E aí o senhor também se envolveu com política?

 

R – Bom, o que eu estava dizendo que a minha mulher “vamos fazer o seguinte; vamos embora para lá, eu aguento o que for preciso, contanto que você não se meta em política.”

 

P/1 – E aí?

 

R – E aí, eu cheguei em 21 de janeiro, no final do ano, por outubro, veio uns amigos que eram lá também de Nova Prata, amigos de meu pai que eram comerciantes lá. Lá em Francisco Beltrão teve uma revolta agrária em 1957. Foi a primeira revolta que só pegou em armas no Brasil. E expulsaram... Houveram mortes e eu fui uma das primeiras mudanças que entrou depois de 1957. Em 1959 porque era uma área conflitada, área que não tinha terras legalizadas, não tinha nada disso. Então era uma área de conflitos. Eu cheguei, fui me instalar nessa casa e num dia de chuva fui... Tinha que montar o fogão, era fogão a lenha e botar chaminé. Eu trepei no telhado e caí e machuquei o pé. E fiquei mancando uma porção de tempo e aí o pessoal dizia: “Vocês viram aí, chegou o farmacêutico que é manco.” (risos).

 

P/1 – Mas aí os seus amigos foram andar...

 

R – Foram andar e disseram: “Scalco, o doutor Valter vai ser o candidato a prefeito e nós precisamos que o senhor seja o vereador.” 

 

P/1 – Em Francisco Beltrão?

 

R – É. Mas eu digo: “Faz um ano que eu estou aqui, como é que eu vou...”  Diz: “Olhe, é só você aceitar, o resto nós fazemos.” Daí eu olhei para a minha mulher e “Teresinha, o que é que você acha?” “Topa.” Aí topei e estou aí.

 

P/1 – Aí o senhor foi eleito...

 

R – De vereador eu sou ministro do Estado hoje (risos). Eu fui eleito vereador...

 

P/1 – Por dois mandatos, né?

 

R – É, mas tem uma história no meio aí. Que eu fui eleito vereador em 1960. Em 1962, esse médico que foi prefeito se elegeu deputado estadual. Aí na época, no Paraná não tinha vice-prefeito. Teve que fazer uma eleição para substituí-lo e eu fui candidato a prefeito. Graças a população eu fui eleito. E eu peguei o Golpe de 1964 como prefeito. Foi um período muito duro. Em 1964, eu fui candidato a vereador para ajudar os companheiros e a partir daí eu não disputei mais eleições. Só vim disputar eleições em 1974 porque esse médico que foi deputado estadual foi preso, foi torturado, perdeu um olho na prisão e respondeu processo. Ficou como subversivo e eu traumatizado com essa história desse grande amigo que.... Eu só vim disputar eleições em 1974, também num episódio muito su-generis. Em 1970 o MDB defendia a auto-extinção porque como ele não conseguia eleger, não tinha poder nenhum, não conseguia nada, em 1974 quando houve... O Geisel permitiu que a propaganda fosse aberta porque antes era só santinho que aparecia na televisão e naquela eleição os candidatos podiam ir para a televisão. Era ao vivo. E foi a grande virada, mas antes disso eu fui convidado para ser candidato a deputado, eu não aceitei. Fui convidado para ser candidato a senador, eu não aceitei. Aí apareceu uma pessoa, o Leite Chaves que topou ser candidato a senador, mas aí faltava vice e o único que aceitava era um maluco de Curitiba que andava de guarda-chuva em dia de sol. E na convenção me chamaram para lá para convenção e eu disse: “Não vou não.” Então um amigo meu que era deputado federal disse: “Scalco, venha para cá pelo menos, pô. O pessoal está querendo que você... Pelo menos conversar.” Eu fui. Então, de manhã eu fui para assembléia no domingo e aparecia... Queriam que eu fosse candidato a suplente de senador. Aí eu fui conversar com o candidato a senador, o Leite Chaves, para saber o que ele pretendia porque não tinha chance nenhuma naquela oportunidade ser candidato para ser candidato. Fiquei conversando com ele uma hora mais ou menos e eu achava que ele queria ser candidato a senador para fazer um nome para ser candidato a prefeito de Londrina. E na conversa, eu digo: “Vem cá Chaves, o que você pretende com a candidatura?” “Scalco, eu vou ser eleito.” “Mas como?” “Eu tenho uma força interior que me diz que eu vou ser senador”. Saí lá para fora, falei, reuni os companheiros da minha região, eu disse um palavrão e digo: “Você acha que eu vou ser candidato a suplente de senador de um cara que só tem força interior?”. Bom, acabei tendo que aceitar porque não tinha outra alternativa e naquele dia da convenção, a expectativa era assim; do candidato da Arena fazer um milhão de votos e o MDB fazia 400 mil votos. Quatro meses depois, o Leite Chaves ganhou com uma diferença de 400 mil votos e eu fui suplente a senador.

 

P/2 – Mas o senhor entrou na política pelo MDB ou pelo PTB?

 

R – PTB.

 

P/2 – Pelo PTB que era o partido. E quando é que o senhor mudou do PTB para o MDB?

 

R – Quando extinguiram o PTB.

 

P/2 – Ah, porque... Está certo.

 

R – Foi extinto o partido, daí criaram o MDB e Arena.

 

P/1 – Quando o senhor falou bem do seu pai, da política, tudo, o que atraía no senhor, assim, quando jovem, a questão política assim?

 

R – Nada. Não, porque quando os meus colegas de Farmácia, de científico souberam que eu era... estava na política no Paraná, eu era prefeito, eles não podiam imaginar Scalco prefeito porque quando eu estava na escola, no científico, tanto no científico quanto na faculdade, eu só estudava. Não fiz política estudantil, eu não fiz nada disso. A única coisa que eu fiz de política foi no suicídio do Getúlio, nós fizemos um manifesto alguns estudantes. Foram, até um número chato, 24 estudantes que assinaram um manifesto de repúdio pelas condições políticas que levaram Getúlio ao suicídio. Entre os estudantes, o primeiro que assinou era o Pedro Simon e eu fui o segundo. Mas foi naquele episódio. Então eu nunca fiz política, nem estudantil. E a vinda para o Paraná que me levou na circunstância que... Aí os amigos do meu pai vieram me pedir para mim ser candidato a vereador e que eu era só dar o nome que o resto eles faziam. Eles fizeram o resto no começo e depois eu fui continuando (risos).

 

P/1 – E paralelamente a isso uma vida profissional aí da tua farmácia.

 

R – Claro, claro. Eu tinha a farmácia. Depois... Bom, nesse período eu fui prefeito, vereador... Eu saí da prefeitura em 1964 e aí comecei a construção do hospital que nós temos até hoje.

 

P/1 – Da onde vem essa idéia do hospital, de construir um hospital?

 

R – Eu me lembro que quando nós chegamos, eu fui trabalhar nesse hospital de madeira, que era pequeno e aí nós decidimos, eu e esse médico que me levou para lá e mais um outro médico, construir o hospital. Aí foi um hospital bastante grande que está até hoje... Então foi um período de... Nesse período aí, 1964, 1965, eu respondi EPM, eu fui denunciado como comunista...

 

P/2 – O senhor foi preso?

 

R – Ein?

 

P/2 – Chegou a ser preso?

 

R – Não cheguei a ser preso, mas esse médico foi preso, ficou preso muito tempo, mas eu não cheguei a ser preso. Tive ameaças, eu respondi um EPM, mas quem me denunciou tinha mais comprometimento não político, mas de ordem moral que não se sustentou a denúncia, que houve um inquérito no quartel e a denúncia que fez contra mim virou contra ele. E aí remeteram o processo a justiça comum e esse processo na justiça comum levou a queima do Fórum para que queimasse o processo, etc.

 

P/1 – Nossa!

 

P/2 – Em que cidade que estava sendo?

 

R – Francisco Beltrão.

 

P/2 – Francisco Beltrão mesmo tinha lá, então...

 

R – Tem uma unidade do Exército até hoje.

 

P/1 – E depois o senhor atuou como chefe da Casa Civil...

 

R – Não, mas antes... Em 1974, eu fui candidato a suplente de senador. Daí ganhamos a eleição. Aí em 1975 veio a solicitação, a pressão de eu assumir a presidência do MDB do Paraná. Em 1975 eu fui eleito presidente do MDB e daí, daí até hoje, né? (Risos).

 

P/1 – Nossa, tanta coisa que...

 

P/2 – Um monte de coisas.

 

R – Em 1978 eu fui candidato para deputado federal. 1982 eu repeti a federal. Em 1983 eu fui para Casa Civil do Governo do Paraná. Em 1986 me reelegi deputado federal e 1990 disputei a eleição de vice-governador na chapa com (inaudível) e perdemos a eleição. E a partir de então eu não disputei mais eleições.

 

P/2 – Então o senhor ajudou a fundar o PSDB? É um dos fundadores do PSDB?

 

R – Eu fui fundador do MDB, fui fundador do PMDB e fui fundador do PSDB. Eu fui secretário nacional dos três (risos).

 

P/2 – Dos três? E como é que foi essa fundação do PSDB? Assim, a expectativa de vocês que haviam saído, aquele grupo todo que deixou o PMDB?

 

R – O problema surgiu a partir do processo constituinte. Com a morte do Tancredo, a ascensão do Sarney, chegou um determinado momento em que a posição do Sarney era destoante, de pelo menos de uma parcela do grupo do PMDB e a gente tentou que o PMDB saísse do Governo. O PMDB tinha ministros... a saída do partido do Governo... Isso não aconteceu e durante o processo constituinte, as coisas começaram a tomar posturas ideológicas, né? Em 1986 o PMDB inchou, tanto que ele teve maioria absoluta na Câmara. Tinha 54% dos parlamentares constituintes era do PMDB. E no processo constituinte as coisas se dividiram em correntes. Então, metade do PMDB de então era de Direita e as nossas divisões começaram a ir. Um grupo que era do atual presidente, Fernando Henrique, o Covas, o Teotônio, o Richard, o Pimenta da Veiga, eu e outros, né? A medida que a Constituinte avançava, a gente ia se separando. Quer dizer, também ajudou nessa história toda a postura política em São Paulo do Quércia, em Minas do Newton Cardoso e no Paraná do Álvaro Dias, que dentro do PMDB eram posturas muito fisiológicas e mais a Direita. Então nasceu, houve uma esperança de uma coisa nova. Quer dizer, o grupo que estava mais com o Covas, com o Fernando, o Serra, eram todos parlamentaristas e se juntou com um grupo que era do PFL que também era parlamentarista e a coisa começou a ser conversada e acabamos, então, partindo para a solução da criação de um partido social democrata parlamentarista. Aí as coisas começaram a nascer. Alguns saíram. Eu era vice líder do Covas na Constituinte. Na verdade quem deu o primeiro sinal de saída foi eu, que eu era secretário do PMDB, primeiro vice líder. Então numa reunião do Executivo era muito amigo do doutor Ulisses. Eu vinha conversando com doutor Ulisses: “Ou o partido toma um rumo com relação ao Governo Sarney, ou acaba havendo uma divisão.” E o doutor Ulisses não acreditava que nós tivéssemos...

 

P/2 – Era isso que eu... Ocorre justamente isso, que ele não acreditava...

 

R – Não.

 

P/2 – Que vocês saíssem para formar um partido.

 

R – Um outro partido. Então num destinado dia, eu preparei um discurso de saída do... Primeiro, saí da Executiva, eu comuniquei que sairia. Pedi demissão do cargo de secretário do PMDB e uns dias depois eu fiz um pronunciamento na Câmara, comunicando o meu desligamento e antes disso eu dei o discurso ao doutor Ulisses e ele presidiu a sessão que eu fiz o discurso e aí começamos a retirada.

 

P/1 – O processo.

 

R – E posteriormente foi o processo de criação do PSDB e daquilo que está até hoje.

 

P/1 – Vamos dar uma paradinha. Vamos tomar uma água?

 

P/1 – Bom, a gente vai mudar um pouco de assunto, mas enfim, o senhor se recorda a primeira vez que o senhor veio para Foz do Iguaçu?

 

R – Em Foz do Iguaçu?

 

P/1 – É.

 

R – 1957.

 

P/1 – Descreve como é que era a Foz dessa época?

 

R – Eu saí do Rio Grande do Sul para procurar um lugar para me estabelecer. Eu vim com os meus amigos... Eu falei, um amigo que foi meu guru, Álvaro, que eu encontrei com outro amigo, que eu faria 40 anos que eu não via. Ele era médico, nós viemos... Ele veio passear porque ele tinha uma fazenda em Querência do Norte de café, eles ficavam juntos para ver se encontra lugar para trabalhar. E viemos de Jeep naquele período. Foi uns 15 dias de viagem. E viemos aqui... Nós saímos de Barracão de manhã cedo para chegar a noite aqui em Foz do Iguaçu. Hoje, se faz em duas horas. Só tinha avenida Brasil naquela... Uma cidade aí de três, quatro mil habitantes. Nada, sabe, ruas empoeiradas e nada que se desse visão aquilo que hoje... Foz do Iguaçu era uma vila. Teve um hotel que nós paramos, tinha imagem do anterior eles tamparam os lençóis. Isso era ... Isso que fiz foi em 1957, lá vai 45 anos.

 

P/1 – Verdade. E vocês não quiseram ficar...

 

R – Não, fomos a diante (risos).

 

P/1 – E depois quando que o senhor retornou para Foz do Iguaçu, assim, segunda, terceira vez? Não era nem turístico naquela época?

 

R – Não, não. Para chegar nas cataratas era uma picada, não tinha como chegar. Voltei em Foz do Iguaçu depois de muitos anos. Depois que eu morava em Francisco Beltrão, acho que nos anos de 1965, por aí, que eu vim com a família visitar as cataratas, porque quando eu passei em 1957 não se via as cataratas porque nem se falava, né? Então, a imagem era diferente. Foz do Iguaçu já era uma cidade, já tinha algum fluxo turístico, catarata já era... Já era aberta, já na época já tinha hotel do lado das cataratas, construído pelo governo. Muito depois...

 

P/1 – Certo. E, assim, da usina hidroelétrica, assim, quais foram as primeiras... As lembranças mais antigas que o senhor tem, do senhor ter ouvido falar que ia construir...   

 

R – De ser contra.

 

P/1 – Ah?

 

R – Ser contra Itaipú.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Eu sou contra Itaipú até hoje. (risos)

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque na época a posição toda era contra a construção de Itaipú, por razões que o governo colocava como uma estratégia geopolítica, que tinha que construir Itaipú para deixar Argentina de joelhos e era projeto dos... da época dos projetos megalomaníacos e eles consideram Itaipú megalomaníaco e é. Eu acho que até hoje Brasil não vive sem Itaipú. Itaipú fornece 25% da energia do Brasil, 38% da energia do Sul e Sudeste, evidentemente que é fundamental. Algumas razões porque que eu disse “até hoje eu sou contra Itaipú”.  Acho que Itaipú é uma obra magnífica, né? Tecnicamente poucas usinas tem o nível dela, pela sua eficiência de funcionamento e a grandiosidade da obra, aquilo que ela representa para o Brasil. Mas eu acho que se fosse pensar em Brasil, teria sido feito um projeto de Marcondes Ferraz, que era uma usina em Porto Mendes, com sete milhões de quilowatts. Seria o desvio de uma parte do Rio Paraná por um canal de 50 quilômetros que trazia água para Ilha Grande e jogava em Porto Mendes. Isso aí de uma usina de sete milhões de quilowatts, só nossa, só brasileira. Você podia ter conduzido, completada as usinas do Rio Uruguai e do Rio Iguaçú, que daria uma potência maior do que Itaipú. Por que que eu digo isso? Você construiu Itaipú em parceria com... Parceria não. Em condomínio com Paraguai e o que que o Paraguai entrou na usina de Itaipú? Normalmente se diz, “com a metade do rio.” Mas nem isso porque toda água do Paraná, 99,5%, é da bacia brasileira. Então, na realidade, Paraguai entrou com barranco do rio, do lado de lá. Daí o Brasil construiu a usina, todo financiamento foi feito com aval do tesouro brasileiro, com responsabilidade brasileira. Tem o processo de royalties, que o Paraguai recebe todo mês agora, em torno de 20 milhões de dólares de royalties. O Brasil consome 96% da energia de Itaipú. Então, o Brasil está pagando. Itaipú se paga em 2023, um processo de 50 anos de acordo com o tratado, já tem que estar amortizado. Em 2023, Paraguai recebe limpinho, sem pegar um tostão, metade da usina. O capital inicial foi 100 milhões de dólares, 50 milhões do Paraguai, 50 milhões do Brasil, só que os 50 milhões do Paraguai foram emprestado pelo Banco do Brasil, que Itaipú está pagando em 50 anos. Tem uma usina eficiente, mas uma parceria que tem todos esses óbices que a gente tem aí, administração é partilhável, as decisões são por consenso. Por exemplo, hoje nós aprovamos no conselho o plano de cargo e salário lá em Itaipú porque até ontem o plano de cargos Paraguai tinha um e o Brasil tinha outro. Então, as coisas foram, aos poucos, foram se tornando realmente unitárias, né? Então, com essas dificuldades todas, você está dando de presente uma usina para o Paraguai e hoje nós verificamos que nesse período de 1984 para cá foram pagos de royaltes para os dois países, seção de energia, essa coisa toda, cinco bilhões e seiscentos milhões de dólares. Então, eles levaram dois bilhões e tantos dólares para o lado de lá, né? Então, nesse aspecto, eu digo “até hoje eu sou contra Itaipú.” A não ser pela... Na época... Pô, e na época também tinha uma colocação que a gente entendia como verdade e que não é verdade, que a barragem de Itaipú em 50 anos ficaria totalmente assoreada e perdia toda obra. Isso não é verdade. Quer dizer, as pesquisas que são feitas todo ano, de batimetria, até hoje você não tem nenhuma sedimentação. Realmente, o projeto Itaipú é a única usina que tem uma proteção ambiental como tem Itaipú. Você sobrevoando o lago você vê que são 1400 quilômetros de uma faixa que tem 200 mil metros de florestamento. Então, o assoreamento, a erosão em Itaipú é muito pequena. A batimetria feita pela consultoria de Cecapa de Curitiba, da Universidade, mostra que Itaipú só vai ter problema daqui há 250 anos.

 

P/1 – Nossa.

 

R – E como daqui há 250 anos ninguém de nós estará aqui, então não terá problema (risos).

 

P/2 – O senhor disse... A gente sabe, quer dizer, Itaipú se paga em 2023 e também vence o acordo.

 

R – Aí tem que renegociar o acordo.

 

P/2 – Aí terá que... Não há nada, então, previsto. Quer dizer...

 

R – Não, hoje, evidentemente antes de 2023 você vai ter que começar a negociar esse acordo porque lá, hoje, você... A Itaipú... A tarifa de Itaipú é feita pelo custo. Itaipú não trabalha com conceito de lucro, é uma empresa que não tem lucro. Trabalha só para cobrir as despesas, que são financiamentos, amortização do capital, pagamento de royalties, pagamento de remuneração de administração e as despesas administrativas. Isso que estabelece a tarifa de Itaipú, somente o custo. Por isso que a tarifa de Itaipú a tendência é cair, vai cair para o ano que vem porque você a medida que vai pagando a dívida e a partir de 2005, a dívida de Itaipú cai muito porque até lá a gente vai pagar...

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho dentro desse espírito do começo da construção, que o senhor comentou... Fazia parte de uma idéia também de colocar a Argentina de joelhos, né? O que é que se falava nessa época? Era medo?

 

R – Não, a estratégia militar é de que, bom, com a usina de Itaipú... Que a grande disputa é sempre na... Na América do Sul foi a disputa com a Argentina, né? Até a década de 50, a Argentina era um país mais desenvolvido que o Brasil, tanto que, com medo da Argentina, a grande parte das Forças Armadas está no Rio Grande do Sul até hoje. E tem uma coisa interessante, quer dizer, no Sul fizeram frentes com bitola estreita para evitar que os argentinos invadisse porque o argentino tem bitola larga, né? Então, não dá. O argentino não podia circular aqui (risos). Então, a concepção era essa, pelo menos que foi... que na verdade, que se Itaipú tiver que... Bom, se Itaipú romper, destrói metade da Argentina, Buenos Aires etc. Se isso acontecer não vai destruir a Argentina porque quando chegar lá... Daqui uns 300, 400 quilômetros, as águas são dispersas e não terá uma catástrofe tão grande como se pronunciava. Mas na época os argumentos eram esses, né? A teoria geopolítica do guru da revolução, que era Golberine.

 

P/1 – O senhor chegou acompanhar alguma fase da construção, fazer alguma visita aqui na usina?

 

R – Não, não, nunca. Eu conheci Itaipú em 1992.

 

P/1 – E aí qual a impressão do senhor?

 

R – Porque como eu era contra Itaipú, não vinha para cá, né?

 

P/1 – Em 1992, o que é que aconteceu que o senhor veio para cá? (Risos).

 

R – Isso é uma obra fantástica, né? Quer dizer, como obra realmente... Tanto que em 1997, foi em 1997, a Sociedade de Engenharia Americana considerou Itaipú uma das sete maravilhas da engenharia moderna. Então, falar o que? Como obra, acho que... Enfim, evidentemente que isso eu sou contra e falo até hoje. Evidentemente que é uma força de expressão, mas realmente se fosse pensar em Brasil, você tinha feito outras opções e não esta, né? Você podia ter construído Belo Monte, que vai dar uma usina do tamanho de Itaipú só brasileira. Podia ter feito aquelas soluções que eu falei antes aqui. Na verdade, quer dizer, um local... Quer dizer, não tem local no mundo tão aproveitável quanto Itaipú. Bom, essa história já contaram para vocês. Itaipú vai continuar sendo, mesmo com Três Gargantas, com uma potência e meia... Quer dizer, com 18 milhões de quilowatts, uma Itaipú e meia, vai produzir menos energia que Itaipú por causa da Bacia do Paraná. Acima de Itaipú, você tem 47 grandes usinas que ficam reservando água e Itaipú que é última. As Três Gargantas é uma barragem só. Então, se tiver problema naquela, quer dizer, não tem reserva. É um só reservatório. Então, a potência dela é maior, mas a capacidade de produção é menor.

 

P/1 – Tá. E o senhor chegou aqui em 1992, foi uma visita?

 

R – Foi uma visita e fui... Eu vim porque um padre amigo meu da CNBB, veio para a minha cidade e ele “pô, Scalco, eu gostaria de conhecer Itaipú.” Então, digo “vamos lá.” (Risos) Não sei se a Bete estava aí uma época. Então, visitei Itaipú com Padre Hernandes, né?

 

P/1 – E dessa época, qual era o cargo do senhor, isso em 1992?

 

R – Eu estava flanando (Risos). Eu deixei o mandato e fiquei um ano e pouco sem atividade, né? Levantando de manhã, pensando como é que eu ia preencher as horas do dia, né? Porque eu não voltei para a minha cidade que não tinha mais sentido depois de 15 anos fora do hospital e fora da farmácia, eu voltar para farmácia, voltar para hospital numa cidade do interior.

 

P/1 – É verdade.

 

R – Então, eu fiquei em Curitiba. Montei um escritório para atender as pessoas que me procuravam e ler, ler, né?

 

P/1 – E aí como é que se deu o convite para o senhor assumir o cargo aqui como diretor geral?

 

R – Em 1994, o presidente Fernando Henrique me convidou para coordenar a campanha dele, a primeira campanha dele. Na eleição de 1994, Fernando Henrique me convidou para ser o coordenador político da campanha dele. Tem uma história de amizade muito grande com Fernando de muitos anos.

 

P/1 – Como começou?

 

R – Antes dele ser senador, eu conheci Fernando pelos livros dele e em 1970 eu fiz um curso em Paris e fiz um curso Leuven, na Bélgica. O sociólogo da moda na Europa naquele período era ele.

 

P/1 – Era ele, né?  

 

R – Ele lecionava em Nanterre onde começou o Movimento de 1968, Movimento Estudantil da França, né? Então, me familiarizei mais com Fernando porque o instituto que eu frequentei, que era Instituto (Rebre?) tinha muita ligação com Fernando, mas não conheci lá, conheci posteriormente. Quando ele voltou do exílio, eu já era deputado. Aí a gente fez relação de amizade. Quer dizer, como nós éramos... Dentro do PMDB, nós éramos o grupo da tendência socialista e o Fernando tinha essa postura. Ele estava junto em São Paulo, ele vinha muito a Brasília, então as nossas relações começaram aí e prosseguiram até hoje.

 

P/1 – Estreitar.

 

R – Então, em 1994, ele me convidou para ser coordenador, eu aceitei, mas logo depois a minha mulher teve um problema de um tumor cerebral. Ela foi operada e aí eu falei para o Fernando: “Fernando, eu não tenho condições de vir, não vou deixar a Terezinha nessa situação, que...” Logo que começou a campanha. Aí eu fiquei... Ia praticamente toda semana a Brasília, dava um ou dois dias lá, mas aí eu nem saí da empresa que eu estava, dirigindo, né? Em seguida, logo no começo de 1995, ele me convidou para vir para Itaipú. Eu disse: “Olha, Fernando, faz nem um ano que eu estou na empresa... Agora, não posso aceitar.”

 

P/1 – Que empresa que era, só para gente...

 

R – Aquela que eu...

 

P/1 – É.

 

R – Uma empresa da construção civil, Habitação... Que eu dirigi um período. Depois, isso foi... Nesse período, houve... Eu estava no PSDB e o Álvaro Dias entrou no PSDB. (Inaudível) veio me comunicar, que o Álvaro no PMDB, o Álvaro foi meu secretário. Eu era presidente do partido e ele era secretário. Aí o Álvaro um dia me ligou, disse: “Olha, Scalco, tal, eu queria te comunicar, eu vou entrar no PSDB. Pô, nós já trabalhamos juntos, você... Vamos trabalhar juntos de novo, eu sei que contigo meia dúzia de palavras basta.” Eu digo: “Olha, gostaria de conversar pessoalmente contigo porque meia dúzia de palavras não dá.” Eu digo: “Você está aí no sábado?” “Estou.” “Então, vou passar na tua casa.” ___ simplesmente fui na casa dele no sábado, ele colocou, queria falar com o partido. Eu digo: “Olha, eu vim na tua casa acompanhado do Ride para te dizer que eu não tenho nada de pessoal contra você. O meu problema é de ordem política. Você lembra que quando você foi eleito governador, você me convidou para ser secretário e eu te disse que eu aceitaria depois da Constituinte.” Algum tempo depois, eu fui até o gabinete dizer que eu agradecia o convite que você tinha me feito e que eu não tinha condições de ser seu secretário por diversas razões, pelas atitudes que você estava tomando. Essas razões continuam. Então, eu não terei condições de enfrentar amigos meus que você perseguiu, que eram companheiros. Então, eu quero te comunicar para que você não saiba nem pela imprensa, nem por terceiros, que se você entrar no PSDB, eu saio. Vou comunicar o presidente”. Na semana seguinte, fui a Brasília, falei com o presidente. Digo: “Olha, Fernando, o Álvaro me disse vai entrar no partido e eu vim te comunicar que se ele entrar, eu saio. Para o partido é muito mais importante o Álvaro do que eu porque ele tem força de voto e eu não a tenho. Mas de qualquer forma, por coerência, eu vou tomar essa atitude.” “Não, Scalco, eu não convidei, tal. Eu quero ainda que você vá para Itaipú.” Eu digo: “Olha, Fernando, vamos fazer o seguinte, vamos aguardar para ver o que vai acontecer, porque se eu sair do partido, como é que você vai me convidar para Itaipú?” “Não, mas é que Itaipú não tem nada a ver com o partido. Itaipú é uma escolha minha.” Depois, quando acontecera em mês de julho, o Álvaro entrou no partido e eu saí. Um mês depois, Fernando me chamou, o presidente me chamou: “Scalco, estou te convidando para você ir para Itaipú.” Eu digo: “Agora eu aceito!” (risos).

 

P/1 – Agora, por que que ele achava que o senhor tinha que vir para cá? Enfim, o que é que ele justificava?

 

R – É uma questão de confiança, né?

 

P/1 – Com certeza.       

 

R – E eu acho que deu certo (risos).

 

P/1 – E aí quando o senhor chegou aqui, qual era o momento da empresa, como que o senhor...

 

R – E também pela liberdade e amizade que eu tenho com o presidente, na intimidade, a gente se trata por “você”, com terceiros trata ele de presidente, não podia ser tão mal educado, né? Eu digo: “só que há uma condição, Itaipú, pelo que sei, é uma empresa muito complexa, o relacionamento com os paraguaios é sempre conflitante, eu topo, contanto que eu indique a diretoria.” Ele disse “tudo bem. Você pode escolher os nomes.” Aí eu escolhi. Embora, eu tinha sido político, político eu sou, mas partidário, eu escolhi pessoas desvinculadas ao processo político partidário, né? E eu acho que por aí que a gente teve sucesso em Itaipú.

 

P/1 – Quem que eram os diretores que o senhor chamou?

 

R – Schwab, chamei... No primeiro momento, como diretor técnico... Que é funcionário do Itaipú até hoje, que ficou dois meses, aí ele teve um câncer. Eu fiquei até o final do ano, praticamente, eu respondendo pela diretoria técnica sem entender, mas tinha os superintendentes e no final... No mês de outubro de 1996, aí eu fui ao Shwab digo: “Olha, Schwab, não dá mais para continuar desse jeito, eu tenho que escolher um outro diretor técnico”, que eu mantive ele no período como diretor técnico e Shwab tinha que apoiar um companheiro, um profissional do nível dele, que hoje ele é presidente da Fibra, Fundação da Itaipú. Aí eu trouxe o doutor Altino Ventura, que era técnico... Ele era um assessor da Eletrobrás e hoje é presidente da Eletrobrás. Bom, para diretor financeiro eu trouxe uma pessoa que trabalhou comigo no Governo.  Para jurídico, eu trouxe um desembargador que depois faleceu, doutor Cabral. Para diretor do... Fabiano e diretor de coordenação, veio.... Aí foi uma indicação, mas mais política porque houve um problema com... Não vou lembrar o nome dele. É que eu tenho 70 anos, já tenho...

 

P/1 – Eu sei, onde tem os jornais...

 

R – É o Brasílio, Brasílio que o presidente pediu que eu o colocasse. Ele estava saindo da Conab, então veio para cá e depois ele saiu também. Então, houve uma composição de um pessoal realmente desvinculado de postura partidário e que se deu em condições de fazer um belo trabalho, né?

 

P/1 – Quando o senhor chegou aqui, quais foram os primeiros desafios assim?

 

R – Primeiro desafio, eu assumi dia 5 de outubro... Não, dia 13 de outubro, no dia 15 de dezembro encerrava um contrato de mão de obra contratada. Era uma empresa que tinha setecentos e poucos empregados e havia sido feito um programa de que refazer o contrato dessa empresa e tinha um esquema de demitir 100, 120, 150 pessoas por mês e assim ia acabando o contrato, né? Numa primeira reunião que eu fiz com a diretoria e o pessoal de recursos humanos, perguntei como que é esse esquema. Então, me mostraram que era esquema. Eu digo... Eu fiquei horrorizado. Como é que você pode manter numa empresa a espada na cabeça e os funcionários que vão...?, “bom, mês que vem, vai sair 100. E quais são os 100? Pode ser eu, pode ser aquele.” Eu digo “bom, vamos fazer o seguinte...” Maquiavel diz o seguinte “que o que é bom, você tem em conta-gotas e o que é ruim numa pancada só.” Verifiquem aqueles que são necessários para a empresa e fixei, quer dizer, tinha que dispensar 400 e trezentos e poucos seriam recontratados. Então, os superintendentes já escolheram quem ficaria e no dia 15 de dezembro, 10 dias antes do Natal, foram dispensados 400 e não foi reformado o contrato com a empresa. Primeiro momento difícil decisão, né? Mesmo porque a empresa estava inchadíssima na época. Tinha muito mais gente do que cadeiras para sentar e desnecessário. Então, o que nós reduzimos quando nós assumimos a 2100, hoje nós estamos com 1400 e poucos, 1470 e a empresa continua firme, né, sem problema nenhum (risos).

 

P/1 – E depois... Ano assim, o senhor traçou algumas metas, como é que foi de produção, como é que foi o desenvolvimento do trabalho?

 

R – Nós encontramos aqui um projeto que tinha que modernizar a empresa, de montar o Mondike, que é o monitoramento eletrônico, o Escada que é o controle das máquinas, essa coisa toda, que estava sendo discutido desde 1988 e nós estávamos em 1996. E aí começamos a trabalhar para implementar isso, entendeu? E já começou a se discutir a questão das outras duas máquinas e implementamos tanto o Mondike quando o Escada, trabalhamos na questão das duas máquinas. Inicialmente a discussão era de prorrogar o contrato porque o contrato das 18 ainda não foi encerrado. Então, você poderia comprar essas outras máquinas com um aditivo contratual porque a lei possibilita que você faça um aditivo até 25%. E havia um cálculo de que essas duas máquinas custavam 300 milhões de dólares. Eu pedi para (inaudível) que era o meu assessor, doutor Ari Queiroz, que havia sido presidente da Coperdigo. Digo: “dá uma pesquisada e vê quanto é que está custando (inaudível) mesa e taco”. Pelos cálculos empíricos que a gente fez, essas máquinas que estão ali custariam 170 milhões de dólares. Aí eu fui a Eletrobrás mostrar, dizer “a situação é essa. Eu acho que não dá para fazer um aprovação de contrato, 170 por 300 milhões porque está acontecendo isso, isso e isso.” Tinha sido construído em segredo e segredo tinha constado 21 mil dólares por tonelada de turbina e gerador. Caxias, sete mil dólares, quer dizer, um terço. Se essa correspondência vale para Itaipú... Enfim, acabando depois deu muita luta com os paraguaios e tal e chegamos a comprar essas máquinas por 184. Então, ganhou 116 milhões de dólares. Então, foi um processo muito grande e todo esse processo de paisagismo da empresa, segurança eletrônica, plano de turismo, ecomuseu, CRV...

 

P/1 – Quero detalhado tudo isso (risos). A ideia do paisagismo, porque as pessoas falavam que era um grande canteiro de obras e que na gestão do senhor realmente foi “virou um jardim.”

 

R – Aconteceu... Primeiro, nós completamos o mirante, foi construído o mirante, feito aquele... Todo aquele ajardinamento e aí o seu Hélio Teixeira inventou o painel de barrageiro, que eu banquei. Foi procurado o Poti, que era o maior artista plástico do Paraná, que fez esse projeto que vocês vêem que é uma beleza. Infelizmente o Poti morreu em maio e a obra só ficou pronta em outubro. Mas a gente meteu essa concha acústica, inventou-se hospital, foi por aí. Então, tem muita coisa a ser inventada. Mas a questão do paisagismo tem um fato interessante. Eu era meio metido, eu visitava as coisas para ver o pessoal trabalhando, eu fui na carpintaria que tinha plantado e vi lá, parece, que 12 pessoas fazendo nada. Eu digo: “o que é que vocês...”; “Não, nós estamos aqui na carpintaria e tal”, um barracão muito velho. Eu cheguei no escritório, chamei, falei: “acabem com aquela história lá. Porque tem uma carpintaria dentro da usina, tem uma carpintaria lá no outro lado e essa carpintaria aqui na entrada desse reduto aqui”. Os superintendentes não me atenderam, mas Deus me atendeu, que naquela noite deu um vendaval, derrubou a carpintaria (risos). E agora é um belo jardim ali onde você vai entrar e tal.

 

P/1 – E aqueles 12 que estavam ali sem trabalho sabiam quem era o senhor?

 

R – Sabiam. Quando eu saí, eu digo “olha pessoal, se não dá para continuar”, deu um pavor. Todo mundo correu, o diretor esteve aqui e disse isso, “vão acabar com a gente, vão demitir a gente” Então, algumas coisas são folclóricas.

 

P/2 – E essa atitude sua era comum em outros setores, visitar outros setores, identificar os problemas de perto, o senhor gostava de fazer isso?

 

R – Gostava de fazer isso.     

 

P/2 – O senhor acha que é isso que ajuda administrar melhor?

 

R – Eu acho que ajuda administrar e ajuda ter relação com o pessoal. Quer dizer, a primeira vez que eu visitei o almoxarifado, eu fiquei indignado porque daí me contaram uma história que tinha... tinha um pavilhão cheio de caixas fechadas. Eu perguntei o que tinha dentro. Ninguém sabia. Bom, se descobriu que tinha cinco mil litros encaixotados, que nunca foram usados e nem sabia o que tinha lá dentro. Então, eu dei o prazo até final de 1996 para eles classificarem todos aqueles itens lá e eles disseram “não, não dá, não dá.” Eu digo “ou vocês fazem ou no final do ano alguém paga.” E no final do ano estava classificado porque esse almoxarifado de Itaipú deve ser o maior almoxarifado do Sul do Mundo.

 

P/1 – Qual a extensão dele?

 

R – Não é extensão, é coisa que tem lá dentro mesmo (risos). Tem muito material que faz 15, 16 anos que não é movimentado, que não é utilizado. Então, se você contar custo de armazenagem, vale mais... O custo de armazenagem é maior do que o valor da peça. Aí já fizemos uma porção de leilões. Itaipú não leiloava, então as coisas que estão... a gente agora faz leilão, né? Então, já foi limpando muita coisa que estava aí.

 

P/1 – E tem uma questão também do recebimento das concessionárias... Parece que tem uma coisa em escala, que Furnas não pagava para Itaipú porque não recebia das concessionárias?

 

R – Não, quando nós assumimos em outubro de 1995, Furnas e Eletrosul, quer dizer, para quem a gente vende, deviam para Itaipú um bilhão e oitocentos milhões de dólares. Quer dizer, Itaipú na época tinha um déficit anual em torno de 400 milhões de dólares. Então, a dívida subia extraordinariamente, tanto que foi feito uma previsão porque 2023 a empresa tem que estar paga. Nós fizemos uma previsão do que aconteceria em 2023, na situação que nós estávamos. Itaipú ia chegar em 2023 devendo 88 bilhões de dólares porque a tarifa estava congelada seis anos, os juros que se pagavam da dívida era muito alto, era 12% mais o INPC etc.... Chegava a 18%. O que é que nós fizemos; renegociamos toda dívida, renegociamos a tarifa, a dívida passou dos 18 para sete e meio mais a inflação americana. A tarifa foi elevada 7% e hoje a empresa está redondinha. Chega em 2023 paga. Então, a grande dívida de Furnas para Itaipú era dívida da CESP e como o Mário era governador, eu fui ao Mário e digo “Mário, não dá para continuar desse jeito, que essa era dívida do Quércia e do Fleury que não pagaram.” E o Mário, final de 1997, ele pagou toda dívida e também tinha o Rio Grande do Sul que devia e o Brito era o governador que tinha sido meu companheiro de liderança. O Marcelo Alencar no Rio também era meu amigo. Enfim, os devedores pagaram e a partir daí a gente começou a ter tranquilidade na administração.

 

P/2 – O senhor que foi pessoalmente, então, cobrar?

 

R – Ein?

 

P/2 – O senhor que foi pessoalmente cobrar os governadores?

 

R – Não, o primeiro contato foi pela amizade que eu tinha com os três governadores. Quer dizer, e o Mário mandou acertar. O presidente da CESP era o Matarazzo, André, e o secretário da energia era o (inaudível), ex-genro do presidente.

 

P/1 – É verdade (risos). Aí foi possível também começar pagar os royalties para os municípios?

 

R – Sim, se pagava atrasado porque tinha atrasado com os municípios que está se pagando. Até o final desse ano, se paga todo o atrasado e pagava atrasado com o Tesouro Nacional. Na época se devia entre... O Tesouro Nacional era 432 milhões de dólares e para os municípios era em torno de 200 milhões. Então, agora se termina de pagar tudo o atrasado e sempre foi pago em dia. Quer dizer, desde de que nós assumimos até agora, nunca atrasou um dia o royalties dos municípios.

 

P/1 – E qual a transformação, vamos dizer assim, em função desse pagamento para esses municípios que o senhor... O senhor acompanha um pouco, o que que...

 

R – Diria que um paraíso porque tem municípios que recebem... Santa (inaudível) recebe dois milhões setecentos mil reais por mês. Quer dizer, o royalties do Brasil são 15 milhões de dólares por mês, o estado do Paraná recebe sete, os municípios, os 15 municípios recebem mais sete e depois Mato Grosso e outros municípios recebem o restante, né? E o Ministério de Ciência e Tecnologia e Ministério de Meio Ambiente. Então, esses municípios vivem numa tranquilidade administrativa enorme. Tem condições de fazer belas administrações porque não tem problema financeiro. E além disso, Itaipú tem procedimentos com os municípios, estradas para evitar erosão, que interessa para Itaipú. Tudo aquilo que interessa para Itaipú e para meio ambiente, o Itaipú tem com os municípios. E alguns projetos, assim, de mais magnitude, quer dizer, esses abastecedores de água que Itaipú financia é para que não poluam os rios. Então, a questão do agrotóxico é feita atrás de postos, vai para o abastecedor e fica limitado nessa área. O remanejamento de embalagens de agrotóxico que foi feito... Isso foi antes da gente chegar aqui... Diretoria lá em Santa Terezinha. Enfim, outras obras que são feitas em interesse das comunidades, né? E uma coisa importante que foi feita em Itaipú foi resolver o problema indígena, né?

 

P/1 – Da reserva?

 

R – Era, nós tínhamos... Quando nós assumimos, tinha uma invasão de uma área... Aqui no Refúgio Bela Vista, então nós compramos uma área no município de Diamante do Oeste, 1800 hectares e eles foram colocados lá, levaram com o apoio de Itaipú, apoio do município de Diamante do Oeste, apoio do (inaudível) e da Funai. E, talvez, o melhor projeto que Itaipú tenha feito e indígena, que vai... Eles com assistência toda que está sendo dada pelas instituições. Eles têm lavoura coletiva. Essa lavoura coletiva, então, eles vendem a produção no comércio e cada um tem a sua subsistência e com isso ele estão construindo escola, posto de saúde, suas residências e não se vê pelo menos mais esses índios perambulando pela cidade, tomando pinga, né?

 

P/1 – Que essa era a realidade antes?

 

R – Então, eles têm um projeto, um projeto.

 

P/1 – Eu queria que o senhor falasse um pouquinho do complexo turístico de Itaipú.

 

R - A idéia toda do complexo turístico nasceu pelas maluquices do Hélio de fazer o show de som, luz e água. Quer dizer, o show de som e luz vai ser inaugurada agora em outubro. O show na água... Todo projeto seria trazer no vertedouro. Quer dizer, imagens com aquela cortina de água, de neblina, mas com a crise dos reservatórios, quando nós chegamos aqui o vertedouro vertia quase que o ano todo. Agora está seco, né? E não seria pertinente você fazer um show de água, abrir a água que está necessitada para produzir energia elétrica. Então, inicialmente, o show vai sair só ao longo da represa com laser, coisas dessa natureza, iluminação. Qual é o objetivo disso aqui? Você segurar o turista mais um dia. Vocês viram ontem a noite, não precisa mais discorrer sobre isso. Também isso seria integrado com o Ecomuseu que está sendo revitalizado, melhorado. O Refúgio Bela Vista, que está sendo feito uma coisa realmente fantástica porque não terá coisa similar no Brasil, pela técnica que está sendo usada de aproveitamento de materiais não poluentes, de não usar ar condicionado, alimentação natural, calefação com energia solar. Enfim, e reciclar a questão da preservação da flora, completar o que está sendo feito ao longo do lago e a questão dos animais que estão sendo reproduzidos em cativeiro. Têm animais que foram reproduzidos e a única experiência que nós temos no Brasil de alguns animais que reproduziram aqui. E o repovoamento de quando... quando os animais ficam em grande número, soltam na natureza já com o seu chip monitorado para que seja acompanhado... Enfim, acho que realmente é um projeto muito importante. Acho que isso vai ser importante para Foz do Iguaçu e isso poderá reter o turista mais um dia pelo menos em Foz do Iguaçú, porque o turista chega de manhã, visita a catarata de Itaipú e de noite... No máximo, ele fica uma noite. Eu acho que Itaipú vai propiciar possibilidade de abrir mais um campo de turismo, né? Eu acho que se houver futuras administrações, se completarem o projeto do show de som e luz e colocar água, aí realmente vai ficar mais bonito ainda.

 

P/1 – E o canal da Piracema também?

 

R – Canal da Piracema.

 

P/1 – Vai ser outro ponto.

 

R – Vai ser outro ponto. Realmente deve dar certo. O grande problema é que o peixe agora... Que o peixe na piracema é bom porque tem água turbulenta. Vai ter que usar um artifício lá embaixo, aonde cai o Bela Vista para que o peixe suba no Bela Vista, né? Acho que vai ter que botar uma sinalização, “por aqui, Piracema” (risos). Para não deixar eles irem lá nas turbina. Mas a Piracema vai dar certo. Ele já foi feito com miniatura, feito todos os testes hidráulicos, vai ser um espetáculo digno de ser visto. Você vai ver o peixe subindo...

 

P/1 – Vai mesmo?

 

R – Ah, sem dúvida nenhuma.

 

P/1 – Doutor Scalco, tem alguns momentos, assim, que eu classificaria de tensão. Teve um... Parece um dia que caiu 10 torres que iam para Furnas e até detectar... Foi um vendaval que deu numa cidade. O senhor estava aqui, como é que...

 

R – Estava aqui e fui lá na torre.          

 

P/1 – Eu queria que você contasse um pouco esses momentos de tensão porque, assim, o país depende muito, o Sul todo e, assim, quando acontece alguma coisa, a gente não sabe a dimensão.

 

P/2 – Todo mundo diz que Itaipú é culpada.

 

R – Primeira notícia que sai, “Itaipú é...” Ocorre o seguinte; a linha de transmissão não é de Itaipú. Quer dizer, Itaipú gera energia, coloca na estação de Furnas. Então, a linha da usina até Furnas é de Itaipú. Daí para frente é Furnas. Agora, ninguém fala em Furnas, fala linha de Itaipú. Então, quando acontece alguma coisa é Itaipú. E isso aconteceu... Na queda das torres nem tanto. Quando teve aquele apagão que aconteceu, um problema na sub-estação de Itaipú de Bauru, disseram que foi Itaipú que saiu do ar, né? Realmente saiu do ar, por que? Porque quando caiu a tensão lá, as máquinas desligam, se não elas implodem, queimam, né? Ficam girando no vazio. Mas isso acontece. Nós tivemos que dar uma nota inclusive naquela oportunidade dizendo que Itaipú não tinha nada a ver com aquilo. Quer dizer, Itaipú desligou porque a rede caiu. Nas torres, foram 14 torres naquele vendaval, que levou 10 dias para ser recuperada. Depois teve em 1998, teve o problema dos atentados em duas torres, que também caiu a linha, que colocaram bombas que as torres foram derrubadas. Tensão porque a primeira reação é: Itaipú. Evidentemente para nós, as coisas não afetam, mas afetam na frente porque a gente sabe que não foi Itaipú. Mas de qualquer forma, a preocupação é porque falta energia para população.

 

P/1 – Em relação a questão da crise de energia elétrica, como é que o senhor viu esse problema no passado?

 

R – Eu vi por Itaipú, eu vi por lá porque eu passei a coordenar um setor, área de controle de consumo foi minha responsabilidade.

 

P/1 – O senhor foi chamado para...

 

R – Eu fui chamado para coordenar toda área de consumo, de controle e consumo de energia, né? Então, você imagina, todo mundo queria mais energia e não tinha energia para dar. Então, tinha que dizer muito mais não do que sim e analisar com critérios os setores que realmente mereceriam ter mais energia do que os 20% que foram cortados inicialmente, né? Então, foi um período muito difícil porque todo mundo acha que o seu negócio é o mais importante. Então, você tem que ter, saber qual é a prioridade maior. Graças a Deus, a gente tinha uma boa equipe de trabalho e se passou um momento do racionamento... Quer dizer, disponibilizando energia para setores mais prioritários, mais emergentes e garantindo de que não houvesse um declive maior. E tanto... de que no começo o susto era que você ia ter muito desemprego, que ia cair a produção e na verdade isso não aconteceu. O desemprego não houve e a produção também não caiu. E tinha um fato interessante que um empresário de São Paulo me procurou, queria mais energia. A gente analisou o caso da indústria dele e nós não pudemos dar mais quilowatts para ele. Um tempo depois, encontrei com ele em Congonhas, ele veio me abraçar: “Pô Scalco, sabe que foi muito bom que você não me deu mais energia porque eu não sabia que eu estava perdendo dinheiro. Os 20% não me fizeram falta.” Então, o que havia era falta de controle, tanto das famílias, quanto das empresas, um critério de descuido com relação ao uso da energia, tanto que o consumo parou e ainda parou o racionamento e o consumo de energia caiu 15% agora, dizendo que as empresas estão chiando. Porque o pessoal se deu conta de que tinham que racionalizar o seu consumo. E o período da crise foi uma escola para muita gente, tanto que até as famílias não voltaram mais a consumir o que era. Você saía de uma sala ia para outra, deixava a luz acesa, televisão na sala tocando, você almoçando e etc. Então, o senso de economia passou a ser o cotidiano brasileiro porque o brasileiro só entende duas coisas; pelo estômago e pelo bolso. Pela razão ele não entende.

 

P/1 – Verdade.

 

P/2 – Eu tenho uma pergunta, mas estou guardando para o final, que ele disse que lia muito, queria saber o que que ele lia? O senhor ficou um tempo lendo, então o que é que o senhor lia?

 

R – De tudo que caía na mão, né?

 

P/2 – Alguma preferência?

 

R – Eu lia muito a questão econômica que mais me atraía e também a questão de... A literatura de modo geral, né? Uma coisa que eu li, que faz falta pro brasileiro é a Fogueira das Vaidades (risos). Que a vaidade é o que compromete, inclusive, o desempenho de muitos setores da sociedade e de um modo especial o governo. Disputa de espaço, achando que um vale mais do que o outro. Isso não leva a um trabalho de equipe e sem equipe você não faz nada. Então, esse é o grande momento que o Brasil vive essa disputa. E se você tiver o trabalho de mutirão, as coisas vão bem e acho que Itaipú mostra exatamente isso. Acho que o importante que a gente conseguiu em Itaipú é a identificação com o corpo funcional e tenho impressão que isso aconteceu. Duas empregadas de Itaipú sentiram orgulho de serem empregadas de Itaipú, vestem a camisa de Itaipú e acho que isso foi fruto de todo trabalho de uma equipe que administrou, criando condições e acho que algumas ações que foram feitas na empresa, tipo criar o coral de Itaipú, valorizando os empregados, o Bosque do Trabalhador, o Painel do Barrageiro e outros benefícios que nós fizemos, que isso valorizou, o pessoal se sentiu valorizado e com isso respondem muito melhor, né? Mas também a obra que foi feita. Primeiro que a gente descentralizou todos os consultórios dentro do Hospital para uma área só de consultórios na frente do hospital. Ampliação do hospital do jeito que foi feito, colocando aqui os melhores equipamentos que você tem no Paraná em todas as clínicas; oncologia, hemodinâmica, ressonância magnética, tomografia, hemodiálise, coisa que só tem em grandes centros, né? E acho que isso valorizou muito o trabalhador de Itaipú e deu segurança para ele. Então, acho que esse é o grande trabalho que a gente conseguiu fazer.

 

P/1 – Agora, tem uma pessoa que o senhor citou muito, que é o Hélio Teixeira, né? Eu queria que o senhor falasse um pouquinho dele?

 

R – Eu conheço o Hélio desde do século passado. Eu conheci o Hélio nos momentos difíceis. Ele era repórter da Veja. Quando eu assumi, apresentou (inaudível) na época que prendiam gente, época de perseguição. Eu fui eleito presidente do partido 12 dias depois, prenderam 80 companheiros nossos na operação Marumbi. As pessoas, a gente só fica sabendo uns15 dias depois. E a gente fez... Eu comecei a fazer um contato com o Hélio desde daquele período de 1974. E daí para frente, todos os episódios da vida política, o Hélio sempre esteve junto com a gente. Esteve em Brasília na Constituinte, esteve com a campanha do Covas, esteve com a campanha... Enfim, quando eu fui para Itaipú, eu convidei o Hélio e essas coisas todas, o Hélio tem muita criatividade, coisa que ninguém conhecia essa faceta dele. Essas coisas que vocês estão inventando hoje aqui, tudo coisa do Hélio. A questão do Ecomuseu, questão da iluminação, questão do Bosque do Trabalhador. O Hélio tem uma grande virtude, ele como jornalista, ele sabe onde encontrar a notícia e sabe onde as coisas acontecem. O Bosque do Trabalhador, como é que ele chegou a essa idéia? Ouvindo dois empregados. “Seria bom demais se tivesse um bosque para plantar as árvores para nós etc.” Ele trouxe essas idéias e banquei as idéias. E assim foi com o show, assim foi com a concha acústica, assim foi com o Ecomuseu, assim foi com... Com todas essas coisas que estão acontecendo aí, o Hélio tem participação.

 

P/1 – Fantástico. Eu tenho uma última pergunta para falar com o senhor porque a gente já está acabando, tem mais quatro minutinhos. O que o senhor achou de ter ficado aqui com a gente essas duas horas falando da infância, do passado, trajetória do senhor, sabendo que isso vai para o Memorial do Trabalhador?

 

R – Achei muito gostoso. Eu acho que foi uma experiência nova que eu tive na minha vida, que eu nunca tinha tido essa oportunidade e foi... E também pela jovialidade de vocês, pela alegria com que vocês fizeram as perguntas, com a descontração, queria descontrair um pouco.

 

P/1 – Eu queria agradecer em nome do Ecomuseu, do Museu da Pessoa, a ajuda do senhor.

 

R – Eu agradeço a vocês e que nos encontremos em outras oportunidades por aí.

 

P/1 – Com certeza.

 

P/2 – Obrigada, doutor Scalco.

 

Fim do depoimento.                              

 

 

 

 

 

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