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História

A união de dois povos.

História de: Irineu Braz Torrezan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2005

Sinopse

Irineu Brás Torrezan, nasceu do município de Dracena, Estado de São Paulo em 8 de abril de 1952. Começou a trabalhar com o controle de estoque na usina de Itaipú desde 1975 e descorre sobre as experiências dentro da empresa.

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História completa

P/1- Por favor, diga seu nome completo, local e data de nascimento.
R - Irineu Brás Torrezan, eu sou de Dracena, Estado de São Paulo, nasci em 8 / 4 / 1952.
P/1 - O nome do seu pai e da sua mãe?
R - Sou filho de Remigio Pedro Torrezan e Gertrudes Santa Torrezan.
P/1 - Seus pais faziam o que lá?
R - Meu pai era construtor e também proprietário de granja e tinha uma fábrica de tijolos. Minha mãe foi sempre dona de casa. (PAUSA)
P/1 - Quando você veio para a Itaipu, por que veio?
R - Eu vim porque eu me formei no curso de matemática e na região minha era um pouco difícil você conseguir um emprego bom, né? E meu irmão já tinha entrado na Itaipu no mês de junho e eu vim quase que no vácuo dele, né? Ele entrou, havia a possibilidade de emprego e eu vim tentar também conseguir um emprego na Itaipu. Fiz o teste em junho de 1975 e fiquei aguardando até o final do ano, quando eu vim para entrar na Itaipu em dezembro.
P/1 - Quais foras as suas primeiras impressões de Itaipu.
R - Bom, na Itaipu eu cheguei aqui um pouco perdido, né, não sabia o que era, não tinha muita noção do projeto. Então, a primeira vez que eu vim na Usina, na barragem era canteiro de obras ainda, aquele poeirão, aquele movimento e eu não entendia muito o que era a empreiteira onde tinha a Unicom, por exemplo, começando. A própria Itaipu era representada pela Caebe, então a gente não conhecia muito o sistema. E eu fiz o teste na Caebe, que era para representante que fichava o pessoal na Itaipu e acabei ficando na Unicom, que era a empreiteira, né, e requisitado para trabalhar na Itaipu, na área de materiais.
P/1 - Isso seria o almoxarifado?
R - Almoxarifado.
P/1 - Que tipo de coisas você lidava, por exemplo?
R - Eu cheguei, comecei a trabalhar na área de controle de estoque, mas já com pouco tempo eu passei na parte de documentação. Então eu comecei a trabalhar na parte de emissão de pedidos, né, os primeiros pedidos de aço, cimento, cinza volante. Os materiais básicos da Usina fui eu que fiz. E depois no controle da documentação também. Fazia o pedido, depois quando chegava o material o pessoal fazia o recebimento e eu fazia a liberação dos documentos comprobatórios que autorizavam o pagamento. No começo o volume não era muito grande, quando eu cheguei. Aí a partir de 1982, 1983 o volume ficou bem grande, a gente foi aumentando a equipe e já o serviço foi distribuído para a equipe.
P/1 - Vocês conseguiam facilmente o material requisitado, ou era difícil, como é que era?
R - O material, a Itaipu na época, no começo da Usina, até que era fácil conseguir o material. Mas quando começo um volume muito grande, que a obra entrou em ritmo acelerado, a partir de 1980, então ficou um pouco difícil conseguir o material. Mas tinha a equipe de compras e o material, os materiais de grande volume eram um pouco distribuído. Aço, você comprava de várias siderúrgicas; o cimento também de várias indústrias, várias marcas, né, para distribuir um pouco, senão você acabava esgotando todo o cimento de uma região, porque o volume era grande. Você vê que o recorde nosso de carretas e recebimento foi de 110 carretas ao dia. Então era muito material.
P/1 - E vinham de caminhão?
R - Vinham de carretas, carregadas em container, e vinha do que a gente chamava de cebolão, que eram os caminhões que transportavam e traziam o cimento a granel. Só a cinza volante que vinha quase que só de Santa Catarina. Um material que era agregado do concreto.
P/1 - Tudo pela rodovia?
R - Tudo pela rodovia.
P/1 - E você tem assim algum caso que tenha acontecido, algum caso a ser contado? Você sempre tem um caso ou outro, coisas que aconteceram.
R - Coisas que aconteceram foi a experiência que a gente teve quando chegou, né? Eu fiquei uma época hospedado na cidade, no hotel, um ano e pouco, depois eu tive que vir para a Usina porque foi construído um alojamento, então o pessoal foi transferido para o alojamento. Aqui a gente, então passava o dia inteiro e quase que a noite, né? Porque na época a gente fazia muita hora extra, morava no alojamento e a gente participava muito da atividade da Usina nessa época e convivia junto com os peões. Era interessante a gente viver com eles, apesar que a gente não trabalhava direto no canal que eles falavam, o buracão, porque eles chamavam de buracão, mas a gente participava junto com eles no refeitório, na própria área de lazer que tinha, né? Quando a gente ia para a cidade, era um sacrifício ir para a cidade, porque lotava todos os ônibus, a quantidade de empregados - de peões, que a gente chamava - era muito grande, então a gente tinha uma certa dificuldade de conseguir até sair do alojamento para ir para a cidade.
P/1 - A convivência com os peões era boa?
R - A convivência era boa porque eles eram muito alegres e estavam aqui realmente só para trabalhar. Eram muito divertidos, eles tinham muito uma amizade muito apegada um ao outro, geralmente eles conviviam em grupo. O que a gente sentia é que tinha que ter um cuidado. Por exemplo, na época eu tinha um carro e a gente percebia que eles saíam da Usina quase que meio zonzos quando trabalhavam lá, por causa do barulho, o excesso de zoeira de barulho dos caminhões, equipamentos. Chegavam até subir no carro da gente. Quer dizer, em vez do carro atropelar eles, eles atropelavam a gente. Por causa da dificuldade que eles tinham de se sentir com o pé no chão depois que eles saíam da Usina. Teve um fato que um peão quase subiu em cima do meu fusca, eu parei a tempo. E teve um colega meu que chegou a atropelar. Ele parou o carro, mas o peão chegou a pular por cima do carro dele e precisou ir para o ambulatório. Então a gente sentia isso deles, que quando eles chegavam naqueles caminhões, que a gente chamava de papa-fila, a gene tinha que parar e deixar eles descer, porque eles vinham feito doidos para comer, principalmente no refeitório. Ou para correr para o alojamento para tomar banho primeiro. Quando parava o caminhão eles desciam naquela embalada, a gente tinha que respeitar e falar: “A vez era deles agora.”
P/1 - Mas você ficava no alojamento junto com eles?
R - Ficava. Fiquei, morei um ano e pouco no alojamento. Era um pouco separado o grupo nosso e deles, mas era próximo. A gente assistia a convivência deles.
P/1 - E quanto àquela coisa dos materiais da Usina, que você lidava mais de perto, você tem algum incidente, alguma coisa, alguma falha de materiais?
R - Não, o interessante do material na época, principalmente quando começou a chegar os equipamentos, era que a primeira máquina que chegou, por exemplo, a primeira turbina, foi interessante porque tinha uma comitiva enorme, sabe, de repórteres, engenheiro e todo mundo queria ver. Então, cada peça interessante que chegava a primeira vez era um fato jornalístico. Depois, na última quase não tinha ninguém, quer dizer, na última turbina tinha só a gente, alguém do almoxarifado, mais um técnico de segurança. Então, de tantas máquinas que vieram, acabou perdendo aquele encanto.
P/1 - A primeira turbina que chegou veio de onde?
R - As turbinas, os equipamentos vinham a maioria de São Paulo. Algumas peças eram importadas, mas a maioria era de São Paulo.
P/1 - E o transporte?
R - O transporte rodoviário era todo pela pista, com batedor. Era muito dificultoso, realmente demorava muito tempo.
P/1 - Desde de São Paulo até aqui de batedor?
R - Ela vinha realmente tomando todo trânsito, porque a turbina tem mais de oito metros de diâmetro, então realmente ela tomava toda a pista, né? Realmente era um transtorno, um transtorno para correr isso, porque junto com a turbina vinha carretas de cimento também, que tinha que chegar a tempo.
P/1 - Era um comboio, assim, um monte de coisa tudo andando junto?
R - É, a pista todinha de São Paulo para cá teve que ser adaptada para isso.
P/1 - Como assim?
R - Adaptada. Algumas pontes tiveram de ser reforçadas, alguns elevados tiveram de ser modificados, né, viadutos, para poder passar aquelas peças de grande porte.
P/1 - Ai que coisa. E você estava quando foi a história do desvio, o buracão? Todo mundo fala do buracão, o que você tem a dizer do buracão?
R - Bom, o canal de desvio era uma das partes interessantes da Usina, né, pela quantidade de rochas que saiu, pelos explosivos. Então, inclusive, eu controlava o recebimento de explosivos também, né, fazia liberação de pagamento, era um volume muito grande de trabalho. Quase todo dia tinha explosões, e a gente praticamente parava o serviço porque a gente queria assistir essas explosões. Então, tinha algumas que eram fantásticas, eram cinematográficas.
P/1 - Ah, fala, conta a mais bonita que teve.
R - A mais bonita que teve foi realmente a da abertura do canal, né, que foi feita a secadeira, então foi aquela que realmente apareceu na televisão, já depois de construído o canal praticamente. Realmente foi a mais bonita. Mas de susto realmente teve diversas delas, que a gente estava trabalhando e não sabia que ia ter explosão e levava um pouco de susto quando pegava de surpresa, né?
P/1 - Mas era seguro, não tinha problema?
R - Era seguro, nunca teve problema, nenhum acidente.
P/1 - E a população não ficava com medo?
R - A população, às vezes ficava o pessoal das vilas, que tremia tudo, porque tem muita rocha no subsolo, então tremia bastante as casas, né? Mas devagar o pessoal ia acostumando com a vibração das janelas.
P/1 - Qual foi a etapa da construção que você considera mais importante?
R - Eu acho que a mais importante foi a fase que estava no auge mesmo, acho que foi em torno de 1983, foi quando houve maior volume de material que chegou, de lançamento de concreto, o maior número de pessoas trabalhando. Então, esta fase realmente foi a mais importante pelo volume de trabalho, de produção, recorde de produção que tinha. E paralelamente todos os trabalhos também ocorriam recorde.
P/1- Agora já estamos no final da entrevista, então me diga uma coisa: o que você acha dessa iniciativa da Itaipu querer resgatar a memória falando com os funcionários?
R - Olha, eu acho muito interessante porque você... Tem um ditado que diz: “se a memória se dissolve o homem se dissolve.” Então nós precisamos disso, dessa memória para a Itaipu. Outro ditado é de que a Itaipu precisa de uma história porque senão um dia a Itaipu nunca vai poder ser refeita. Então nós precisamos resgatar toda a memória da Itaipu. Se precisar repetir esse feito, que realmente foi um feito muito importante, eu acho que através da memória dela, ela pode ser refeita. E sem ocorrer os erros que houve, né? Realmente, todo mundo que faz um projeto dessa envergadura pode cometer erros. E a memória da Itaipu pode ajudar a gente evitar alguns erros e realmente transformar às vezes um outro projeto em realidade, como foi a Itaipu.
P/1 - Certo. E agora, você, pessoalmente, o que achou de dar essa entrevista?
R - Eu achei interessante em dar essa entrevista. Porque registra um momento pessoal para a gente em deixar alguma coisa marcada para o futuro, de como foi feito um projeto dessa envergadura. A Itaipu não só foi uma obra, como foi também uma ligação, uma transformação de duas nações. Eu acho para mim que a Itaipu representa quase que uma nação à parte. Porque ela tem um símbolo, então a Itaipu representa as cores de duas bandeiras, do Brasil e Paraguai. Então a Itaipu foi uma segunda guerra entre Brasil e Paraguai, só que uma guerra ao contrário. Há 130 anos o Brasil e Paraguai quase se destruíram guerreando e a Itaipu foi ao contrário, porque ela guerreou para construir alguma coisa junto, guerreou para ficar junto. Representa a união de dois povos, e quase que para sempre, porque a Itaipu é impossível ser administrada sozinha, ela tem que ser administrada pelos dois povos quase que eternamente. Então, é um elo de ligação, de amizade entre duas nações que deve servir de exemplo para muitos países, muitas regiões de conflito.
P/1 - Belíssima entrevista, muito obrigada.

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