Busca avançada



Criar

História

A travessia reversa

História de: Dona Isabel Casimira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Em sua história, Dona Isabel narra o nascimento da Guarda de Moçambique 13 de Maio e a coroação de sua avó Maria como Rainha do Congado de Minas Gerais pelas mãos do governador da época. Em seguida, fala sobre sua família paterna e materna e as raízes deles no bairro da Barroca, onde frequentou quando criança. Descreve o carnaval antigo de Belo Horizonte, todo o passo a passo da Festa de Nossa Senhora do Rosário e a estrutura das Guardas de Congo e Moçambique. Narra também sua emocionante viagem à Angola, e como sentiu-se carregada pelos espíritos de seus antepassados nessa travessia. Por fim, fala de seus casamentos e das expectativas para com seu filho Shelton.

Tags

História completa

Teve um projeto que fizeram para poder levar a mamãe à África. Por quê? Porque o povo da capoeira, quando a mamãe chegava, cantava para ela, "E lê lê lê ô, a Rainha Nzinga chegou, a Rainha Nzinga chegou, a Rainha Nzinga chegou". A mamãe dançava ali no meio deles e sentava. Por isso que o nome do filme é: "A rainha Nzinga chegou". Por essa música que deu a vontade na menina de fazer esse projeto para ajudar a levar a mamãe. A mamãe tinha muita vontade de conhecer a África, os países africanos, ir um pouquinho na Angola, tomar banho naquele mar, aquelas coisas todas, então ela foi na frente, foi primeiro. A princípio, pensou que iria acabar o projeto, mas não tinha como parar. Mamãe não queria que parasse nada, mamãe gostava de: "começou, faz até o fim". Ela era dessas. Nós pegamos o projeto e fomos fazendo a duras penas, porque a mamãe foi embora em junho e a viagem foi em julho, Nossa, triste demais. Fomos fazendo o que a gente dava conta. A gente dava crise de choro, a gente dava crise de tristeza, mas fomos firmes, porque todo mundo é humano. A gente dava aquela baqueada e, de repente, firmava novamente. Fomos pedindo proteção. O filme foi se fazendo, à medida que o guia ia apresentando para a gente os lugares, nós íamos fazendo as perguntas e muitas perguntas já eram de nossas cabeças de muito tempo, que tínhamos vontade de saber. Fomos perguntando o que era verdade e o que não era, os cantos… Os nossos tatas tiveram a sutileza de colocar palavras africanas nos cantos em Português, então, mesmo que a gente não soubesse o significado daquela palavra, a gente sabia que era sagrado, a gente sabe que é sagrado. É como quando você vai em outra matriz, que estão cantando em outra linguagem africana. Você pode não entender nenhuma palavra, que sabe que é tudo sagrado. Então, você não canta fora de hora, não canta fora do contexto, você canta pedindo ajuda, pedindo proteção, invocando quem pode te ajudar, que é zambi, que é o nome de Deus. Dentro do avião, começou uma turbulência. Foi uma hora e meia de turbulência, balançava, balançava, balançava e eu pensava: "Meu Deus, por que esse avião balança tanto? Fiquei pensando: "Será que vou morrer de acidente de avião?" Falei: "Ah não vou. Que bobagem é essa, viajar de avião para morrer? Coisa boba". E fiquei pensando qual o sentido daquela tempestade, daquele avião balançar tanto, olhei para o canto e vi que tinha uma janela aberta. Nessa janela aberta, eu observei que a chuva estava caindo muito forte, mas a chuva caía de lado, formando ondas. Eu achei muito interessante aquela água caindo e batendo no avião como se fosse onda. No que eu percebia aquela água batendo como onda, entendi que aquele avião era um navio aéreo, era o navio… Era reverso, a travessia reversa. Eu vim pelo Atlântico num navio e retornei para Angola em outro navio, que era o navio aéreo. Eu achei esse negócio tão lindo e quando percebi que aquilo era um navio que estava me trazendo de volta para Angola, fiquei pensando e ouvi a voz falando comigo assim: "Nós estamos no navio e viemos escoltar a senhora de volta para Angola, estávamos esperando a senhora para retomar". Eu falei: "Me esperando?" "É". "Ora, mas por que vocês não voltaram antes? Por que me esperar tantos anos, tanto tempo?" E aí eles disseram: "Era o nosso compromisso, nós nos comprometemos de só retornar para a nossa terra, quando a senhora retornasse, nós somos a sua escolta". Eu tornei a perguntar: "Vocês ficaram me esperando esse tempo inteiro?" "Sim, era o nosso compromisso, mas nós não vamos retornar com a senhora de lá, o nosso compromisso era a escolta de volta". Eu falei: "Muito bem, e eu vou ficar sozinha?" "Não, outros serão designados para sua escolta". Eu achei isso um carinho… Meu coração até dói. Eu achei isso um carinho tão bonito, tão perfeito, achei assim, um cuidado da espiritualidade, um cuidado da ancestralidade comigo, conosco. Eu me senti muito especial de saber que não estava sozinha, achei aquilo maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso. Dali, começaram as respostas às coisas, ás perguntas que eu tinha, os vazios da mente de não saber o porquê e de perguntar e não ter resposta, porque não tinha quem respondesse. Cada um tem a sua resposta e esta viagem foi a minha resposta, a resposta que foi dada para mim, minha. Foi maravilhoso e tudo arranjado pela espiritualidade, muito lindo, muito lindo mesmo. Foi uma travessia fantástica, eu não imaginava nunca passar por isso quando entrei naquele avião, nunca. Não tem onde eu inventar, eu pensar numa história magnífica desse jeito. Eu cheguei de lá toda cheia, toda metida, me achando, porque eu não andava sozinha. Eu já sabia que não andava, mas agora tinha certeza absoluta de que não estamos sozinhos, temos quem cuide de nós, as pessoas, as divindades, a força maior, a coroa maior, estão sempre ali andando ao lado da gente.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+