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História

A transformação pela educação

História de: Aidê Martins
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2009

Sinopse

Aidê Martins relembra aspectos de sua vida quando era criança, como a relação com os treze irmãos, as brincadeiras de infância e os obstáculos enfrentados por uma família humilde. Aos catorze anos saiu da escola para trabalhar como empregada doméstica. Retomou os estudos mais tarde, e, com muito esforço, estudava História enquanto fazia faxina para pagar os estudos. Tornou-se professora e diretora de escola. Nessa entrevista, Aidê fala das dificuldades que passou, e sobre o trabalho que realiza com os alunos.    

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História completa

Meu nome é Aidê Martins, nasci em dois de abril de 1961 no município de Japeri. Sempre morei, nasci e vivi... Tudo meu é em Japeri.

 

Éramos quatorze irmãos, atualmente somos oito. Abaixo de mim tem quatro. Acima tem mais três, quer dizer, eu estou na quinta posição. Brincava e brigava muito porque a minha mãe não estava em casa, meu pai também não. Ao mesmo tempo em que estava brincando, a gente brigava, mas sempre fomos muito unidos, até hoje. Até hoje os oito, do que sobrou, dois meninos e seis meninas. Um briga pelo outro, um ajuda o outro, até hoje.

 

O meu pai sempre trabalhou em obra, como pedreiro. Depois ele começou a trabalhar no SESC da Tijuca - ele sempre falava que era o fundador do SESC da Tijuca - passou a acho que ser mestre de obra e foi criando a gente dessa maneira.

 

A minha mãe era do lar. Como o meu irmão mais novo, que já faleceu, tinha um ano, ela o deixou com os irmãos e foi trabalhar. Trabalhou numa casa durante trinta anos, no Leme, e depois se aposentou. 

 

Eu só vim conhecer minha avó com doze anos. Minha avó era linda, tinha cabelo na cintura, lisinho. Eu me lembro, aos doze anos, ela sentada num cantinho. “Essa é minha neta?” E quem me deu esse nome foi a minha avó. Quando eu tinha quatorze anos minha avó faleceu - quer dizer, eu só vi a minha avó por parte de pai uma vez e é uma imagem que eu não esqueço até hoje.

 

Quando criança, não sei por que queria ser secretária, de que eu não sei. “Quando eu crescer eu vou ser secretária, vou ganhar muito dinheiro, vou morar num apartamento!” Eu nunca tinha vindo à cidade, mas dizia que ia morar em apartamento. “Vou morar num apartamento e sozinha!” Essa era a minha vontade.

 

Comecei a trabalhar quando tinha quatorze anos. Trabalho até agora, aos quarenta e sete. Só fiquei dois anos na minha vida sem trabalhar. Porque é aquela história, a gente vai ficando mocinha e quer vestir diferente, fazer diferente. Com quatorze anos estava na sétima série, minhas irmãs mais velhas já trabalhavam em casa de família e só vinham em final de semana. Elas chegavam muito bem vestidas, com liberdade de dizer: “Mãe, eu vou em tal lugar”, e eu tinha que pedir: “Posso ir?” Então eu achava “Vou parar de estudar e vou trabalhar também”, para fazer a mesma coisa.

 

Parei de estudar e fui realmente trabalhar; vim para Copacabana, depois trabalhei em Laranjeiras, fui trabalhando. “Aqui não está bom, vou embora, vou para outra.” Assim foi. Quando chegou em 1980 resolvi estudar novamente. Minha mãe ajudou a pagar a escola particular que eu fiz da quinta à oitava série, fiz até o primeiro ano na escola particular, depois parei de trabalhar novamente. Já estava morando com alguém, fiquei grávida, perdi, parei de estudar. Em 1984 retornei a estudar, fiz formação de professores, depois parei novamente e fiquei dando aula pela manhã e descia à tarde para fazer faxina ali no Leme. Chegava às duas horas da tarde, saía às nove horas da noite. Em 1996 resolvi fazer faculdade, quer dizer, foi fazendo faxina também. Já dava aula duas vezes na semana, trabalhando com Geografia. Os outros três dias eu vinha para a cidade fazer faxina para pagar a minha faculdade. Não foi nada fácil.

 

Inicialmente trabalhei de babá, de faxina, de diarista. O negócio era trabalhar, ter o meu dinheiro. Dando para estudar eu estava indo, sempre procurando um conhecimento melhor.

 

O que me fez pensar em voltar a estudar foi o que eu chamo de humilhação na casa da madame. Você está, em um sábado, doida para ir embora para casa. Passou a semana inteira ali, parece um cativeiro, sem hora para dormir, para acordar. Você está correndo porque é sábado e quer ir embora para sua casa, para o seu lazer, seus amigos. Começa fazendo comida e lavando uma louça, tem alguém deitado num sofá, à toa, e diz assim: “Aidê, vai lá comprar um cigarro para mim?” Pô, eu nunca gostei de usar o uniforme na rua. Vai lá, tira aquele uniforme, bota uma roupa, desce, compra um cigarro. Quando você volta, bota o uniforme de novo. “Ah, eu esqueci. Vai na farmácia para mim?” Eu pensava: “Vou estudar para acabar com essa vida, ainda vou estudar para isso.”

 

E o que mais me fez querer sair disso: eu trabalhei em uma casa em que só se lavava roupa à noite, e meu quarto... Era o varal de roupa, o meu quarto era aqui ao lado e eu dormia em um colchonete. Não tinha máquina de lavar, você lavava, pendurava, escorria a água e eu pegava toda aquela friagem. Falava: “Ai, pelo amor de Deus! Minha mãe já vive uma vida de doméstica, vou viver o resto da minha vida?”

 

Foi muito interessante porque eu retornei... Minha irmã: “Volta a estudar sim.” Aquele incentivo, a minha mãe. [Eu dizia:] “Ah, mas eu quero trabalhar!” E só tinha pela manhã. Como é que eu ia trabalhar e estudar, fazer formação de professor? Não era a formação de professores, era retornar a estudar, não importava. Parecia até que não tinha objetivo fechado, o objetivo era eu ir estudar. Então quando fui lá, fiz a minha matrícula.

 

Assim foi a minha escolha em ser professora. Esqueci que queria ser secretária, em ser professora primeiro. Passei logo pro segundo ano, fui fazer estágio. Falei: “Poxa, tem que fazer estágio, mas olha a timidez ainda!” Pedi para a minha irmã mais nova, já casada com dois filhos: “Vai lá naquela escola do Marajoara e pergunta se eu posso fazer estágio lá.” “A Celita falou que você pode fazer estágio lá, tem problema não!” “Então está bom!”

 

O período da faculdade foi difícil, ainda mais quando as pessoas não acreditam que você é aquilo. Você fala e riem, dizendo assim: “Ah, você adora fazer piada.” Eu trabalhava dois dias no Bernardino e os outros dias ia fazer faxina para poder ajudar a pagar a faculdade, que foi com muita pressão, então quando chegava na faculdade, principalmente às quintas-feiras, juntava aquele grupinho chamado “sou da elite” - porque eu fiz na Rio Duque, faculdade particular.

 

Parei de trabalhar. Estudava de manhã e fazia estágio à tarde. Fui para essa escola fazer estágio, onde eu fiquei nove anos. Fui como estagiária, achei a secretária e disse: “A minha irmã falou já com a diretora se eu posso...” “Minha filha, olha só, tem aquela turma ali, toma esse papel aqui, vai lá para sala.”

 

Foi passando o tempo e acabei nove anos dentro dessa escola, oito anos dessa maneira - um contrato, é um projeto, é o estágio -  e um ano já concursada. Quando fez esse um ano concursada eu já não queria mais a escola. Mudou a direção, mudou tudo, já não era aquela minha escolinha que eu vivia, que eu morria por ela, veio pessoas diferentes. Pedi transferência em 1995 e fui pro Bernardino de Mello.

 

Aquela escola hoje tem o nome de Vereador Paulo Saudade e é bem mais recente. Eu já estava no Bernardino.

 

A política envolve a gente, querendo ou não, e esse vereador me convidou para trabalhar com ele. Eu falei: “Não vou sair do Bernardino!” “Te dou um DAS e você vai para essa escola.” Também iniciei essa escola, não tinha escola! Tinha o alicerce, aí começamos a andar na comunidade, ver aluno, crianças que não estudavam e fizemos um levantamento. Com isso foi o tempo de fazer a escola: quatro salas, uma secretária e um refeitório.

 

Bem, agora vamos fazer a matrícula. A escola ainda não estava terminada; botamos uma mesa na rua e ali começamos a fazer matrícula. Matriculamos 65 alunos. Isso em janeiro, quando foi em março iniciei a aula e inauguramos a escola. Fiquei diretora, eu e mais outra professora e ali nós levamos a escola durante dois anos. Marcou muito também para mim.

 

Nessa época eu já tinha feito a loucura do marido (risos). Falo do homem que mora na minha casa. Namorava um pouquinho, conheci lá no Juventude e começamos a namorar; três anos depois resolvemos… Acho que ele que resolveu, porque quando eu percebi estávamos há seis anos juntos. Acho que eu nunca pedi, nunca pensei em ter marido. Nunca foi o meu objetivo ter marido, filho. O filho aconteceu, mas Deus levou e o marido permaneceu. É o tipo de marido que se eu quisesse mesmo um dia ter seria o ideal, porque nós conversamos. Já estamos juntos há 32 anos, não brigamos, não me impede de fazer nada. Ele é muito caseiro, a vida dele é informação.

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