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História

A transformação pela educação

História de: Valberlene Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/02/2021

Sinopse

Valberlene conta sobre sua infância no interior, a vinda para São Luís, o envolvimento com a dança, seu primeiro emprego, no McDonald's, e sobre como se tornou professora e coordenadora de uma escola infantil na Vila Canaã. Tem dois filhos.  

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História completa

 

 

P/1 - Vamos lá, Val. Qual o seu nome completo? Onde você nasceu, em que dia foi?

 

R - Meu nome é Valberlene Costa. Sou nascida no interior de Bequimão, município de São Luiz do Maranhão. Tenho 36 anos, nasci no dia 23 de novembro de 83.

 

P1/ - Val, você nasceu em hospital, em casa?

 

R - Em casa.

 

P/1 - E sua mãe, seu pai te falaram como é que foi esse dia que você nasceu, o parto?

 

R - Não. Ela me falou o básico, que fui nascida em casa. Como na época era tudo mais difícil no interior, onde eu nasci, então os partos eram feitos em casa.

 

P/1 - Entendi. Você foi com parteira, então.

 

R - Isso, exatamente.

 

P/1 - Você conheceu essa parteira?

 

R - Não, não conheci.

 

P/1 - E onde fica a localidade em que você nasceu, para quem não conhece o Maranhão? 

 

R - É Mojó, no interior do município de Bequimão, que fica mais ou menos perto de  Alcântara. A gente vai pra lá de ferryboat. Eu tenho poucas lembranças de lá, na verdade.

 

P/1 - Ah é, por quê? 

 

R - Porque nasci lá e vim pra cá pra São Luís, acho que com oito ou nove anos. Viemos embora pra cá.

 

P/1 - E qual é o nome da sua mãe, Val?

 

R - Vilma Maria Costa dos Anjos.

 

P/1 - E do seu pai?

 

R - Onildes Pereira Garcia.

 

P/1 - A família da sua mãe como é, o que fazia? De onde são? 

 

R - Na época todos viviam de roça. Viviam do plantio, de criação de animais, essas coisas.

 

P/1 - Qual é o nome da sua avó, do seu avô por parte de mãe?

 

R - Olimpío e da minha vó, Aldenora. 

 

P/1 - E você os conheceu?

 

R - Só a minha avó. Quando eu nasci, meu avô já havia falecido.

 

P/1 - E como é a figura da sua avó, como você se lembra dela?

 

R - A minha avó, digamos que ela não fazia o papel de avó, mas [de] mãe, porque na verdade ela era uma segunda mãe pra gente. Eu venho de uma família de mais duas irmãs e ela ajudou muito a minha mãe a nos criar, então eu sempre lembro dela de uma questão materna. Ela contribuiu muito, fez muito parte da nossa vida.

 

P/1 - Você nasceu então em Mojó. Quando você nasceu, como era a família do seu pai, da sua mãe?

 

R - Não. Na verdade, a minha mãe não chegou a conviver com o meu pai. Morava só minha mãe, minha irmã mais velha e minha avó.

 

P/1 - Uma casa só de mulheres, então?

 

R - Isso, exatamente.

 

P/1 - Como é isso?

 

R - A gente acaba vivendo na função de fazer os dois papéis. Por um lado é bom, mas a gente sente a falta de uma presença paterna, de uma presença masculina. Nos dias de hoje eu tenho mais entendimento dessa situação. 

 

P/1 - E no que isso impactou você, uma vida em uma casa só de mulheres?

 

R - É como eu falei. Não ter a presença masculina, de um pai, a gente se sente como se estivesse faltando um pedaço, como se estivesse faltando algo. Mas graças a Deus as minhas mães - digo minha mãe e minha avó - me deram algo que ninguém poderá jamais mudar e me tirar, que foi a educação. Eu tive uma base de dificuldade, mas eu tive valores dentro de casa que hoje já transmito aos meus filhos. 

 

P/1 - Você chegou a conhecer seu pai?

 

R - Sim, conheço. Hoje eu tenho um bom relacionamento com ele. 

 

P/1 - O que aconteceu, você nasceu e ele não estava lá, é isso? 

 

R - Sim, ele não foi presente na minha vida. Fui conhecer meu pai, acho que [quando] eu tinha uns dez, doze anos. Depois a gente passou a ter um convívio bem, já conversou. Já tivemos altos e baixos e hoje ele nunca vai suprir o que deixou pra trás, mas hoje consigo ter um bom relacionamento com ele. 

 

P/1 - Ele brigou com a sua mãe, o que aconteceu?

 

R - Não. Naquela época, [no] interior, se conheciam, moravam próximos,  Tiveram um relacionamento, de onde eu surgi; foi só isso e não houve mais nada. 

 

P/1 - A sua irmã mais velha...? 

 

R - É de outro relacionamento. 

 

P/1 - Da sua mãe com outra pessoa.

 

R - Também do mesmo lugar. 

 

P/1 - Os seus avós por parte de pai você conheceu?

 

R - A minha avó até hoje é viva. O outro eu conheci, vi uma vez só e já é falecido, o meu avô. 

 

P/1 - Qual é o nome do seu avô e da sua avó, por parte de pai?

 

R - Tereza. O outro a gente só entendia pelo nome de Garcia. 

 

P/1 - E a família do seu pai, da sua mãe? Você conhece as origens deles, de que região eles são? 

 

R - Sim, tanto da minha mãe como do meu pai são do mesmo lugar, de Mojó, Bequimão. Muitos ainda moram lá e muitos residem aqui em São Luís, em outros lugares e até em outros países. 

 

P/1 - E Bequimão a que distância é daqui de São Luís?

 

R - Exatamente eu não sei te dizer, porque a gente atravessa a baía, como falam. A gente vai de carro ou mesmo de ferryboat pra lá. Pelo ferryboat são uma hora e meia, duas horas para atravessar e tem a questão do transporte do lado de lá. 

 

P/1 - Você disse que não lembra tanto, mas você lembra alguma coisa de Mojó? 

 

R - Sim, eu costumo dizer que foi uma infância que hoje os meus filhos não vão ter - o prazer que eu tive, digamos assim. Foi uma infância de muita… Foi difícil, a pobreza era muito grande, mas a gente também lembra das coisas boas que hoje não vejo mais quando viajo pra lá. Não tem mais os rios, não tem mais as plantações, não tem mais os mesmos animais, a vida na verdade mudou muito nos interiores, tanto onde eu nasci quanto em outros lugares. 

Aquela infância que a gente viveu no meu tempo hoje a gente já não vê mais. Não tinha tanta maldade como se tem hoje. Foi sofrida, foi dolorosa, mas foi boa. A gente se alimentava daquilo que se criava, então era tudo muito natural e hoje é muito diferente. Eu tenho muito essas lembranças porque na época em que a minha avó ainda era viva a gente brincava e hoje a gente não vê mais essas questões, principalmente das brincadeiras.

 

P/1 - Vocês brincavam do que nessa época?

 

R - Durante o dia - porque na época também não havia energia elétrica - a gente brincava correndo no meios das roças pra pegar os bichinhos e depois soltar, o que a gente chamava de gafanhoto; pegava dentro das roças, brincava de bola, brincava de elástico, ia pros rios tomar banho, pulava das árvores ou ia montada nos animais.  Hoje a gente não vê mais isso. 

 

P/1 - Você também ajudava a sua mãe, a sua avó na roça também trabalhava lá?

 

R - Um pouco, porque quem ia mais eram eles, a gente ficava mais em casa. 

 

P/1 - Nessa época eram você e a sua irmã mais velha só?

R - Isso, porque a mais nova já nasceu aqui em São Luís. 

 

P/1 - E qual é o nome da sua irmã mais velha?

 

R - Vilmarene.

 

P/1 - Vocês ficavam em casa. Como era a relação que você tinha com ela nessa época?

 

R - Como ela era mais velha, ela cuidava de mim. A minha mãe saía geralmente pra roça e ficávamos eu, ela e a minha vó. 

 

P/1 - Vocês acordavam a que horas? 

 

R - Na vida de interior a gente acorda com as galinhas e dorme cedo. Como não tinha energia, não tinha nada pra fazer, então cinco horas todo mundo tomava seus banhos de poço - também não tinha água encanada - e na volta já tinha que jantar cedo, era na lamparina. Como não se tinha nada para fazer, era esperar o sono chegar, se contava história. 

 

P/1 - História do quê?

 

R - História de interior, digamos assim, lendas. Sentava uma turma dos primos, os vizinhos mais perto e iam contar histórias de interior. 

 

P/1 - E tem uma história que sua mãe, sua avó contava que lhe marcou, que você gostaria de contar pra mim?

 

R - A gente sempre ouvia falar que não poderia sair às seis horas da tarde pros matos porque tinha um tal de ‘currupiro’. Se o ‘currupiro’ pegasse a gente ficava doente, então a gente tinha aquele medo. Às seis horas e ao meio dia não podia ir pra dentro dos matos, fazer nada, por causa dessa lenda do ‘currupiro’. 

 

P/1 - Como ele é, o que ele fazia?

R - Segundo os mais velhos e a minha avó contava, ele assobiava e se encontrasse a gente ele soltava uma flechinha na gente e a gente “apagava”. Mas são histórias que a gente acreditava na época, criança gosta de escutar história. 

Além dessas histórias, a gente jogava algum tipo de joguinho que tinha pra jogar na época. Era de pedrinha, de algo parecido ou então a gente ia contar piadas. Sempre existe essa história de piada do interior, que os mais velhos iam passando pros mais novos e aí a história ia andando.

 

P/1 - E nessa época vocês também tinham contato lá com rádio, com TV? Alguém tinha isso ou realmente não tinha?

 

R - Na época a nossa comunicação era muito através de rádio. Por exemplo, se um parente estava distante, se tinha uma notícia para se dar, era através do rádio que a gente ficava sabendo - tanto é que eu me lembro de uma época em que a irmã da minha mãe morava em Roraima e ela faleceu, a gente soube no interior pelo rádio. 

 

P/1 - E como faziam isso?

 

R - Passava a comunicação para transmitir a questão de falecimento de alguém da família, ou através de cartas escritas. Se alguém que morava aqui, quando ia pro interior, tinha algo pra mandar, mandava através de alguém [por] escrito. Era assim que funcionava. 

 

P/1 - Vocês ouviam o que na rádio essa época?

 

R - Notícias, basicamente era mais notícias. 

 

P/1 - Era um programa assim, policial?

 

R - É, porque como não tinha energia, não tinha também televisão e os rádios eram a pilha, tudo o que se queria saber era através do rádio e nem todos tinham. Às vezes o vizinho do vizinho tinha um rádio, escutava uma notícia e ia transmitir a notícia.

 

P/1 - Músicas vocês ouviam lá, tinha também?

 

R - Muito pouco, porque como eu estou te falando nem todo mundo tinha os rádios, então a gente quase não ouvia. 

 

P/1 - E como era a casa lá em Mojó?

 

R - Todas de barro e de palha. 

 

P/1 - E você tinha outros parentes juntos também? Tio, primo?

 

R - Morando todos na mesma casa?

 

P/1 - Na mesma região.

 

R - Sim, na verdade nossa família é muito grande, então muitos moravam próximos. Depois foram se deslocando para outros lugares. 

 

P/1 - Quem eram seus tios que estavam ali na época?

 

R - O mais presente, que eu tenho também como um pai, que é irmão da minha mãe, era o Juvenal, que até hoje mora lá. Ele digamos que fez um pouco da questão paterna. Ele fez esse papel. 

 

P/1 - Como é o seu Juvenal? Como é o jeito dele?

 

R - Brincalhão, do jeito que eu sou também. A gente tem uma relação muito boa. Como somos três filhas, digamos que eu sou a mais levada, então eu puxo muita brincadeira com ele, gosto muito dele. A gente sempre está em comunicação, por todos os motivos. Eu, quando viajo, sempre tenho que passar lá; a mesma coisa ele faz, vem pra ver como a gente tá, então a nossa comunicação ainda é bem presente em relação aos outros. Como eu te falei, muitos se espalharam e o que a gente tem mais contato hoje é ele. 

 

P/1 - E você convivia com primos lá também. 

 

R - Sim, sim. 

 

P/1 - Era muita criança junta?

 

R - Eram quatro primos, filhos dele. 

 

P/1 - Juntava você, a sua irmã e eles. 

 

R - Sim, fora as outras crianças que ficavam mais próximas. 

 

P/1 - Isso vai até os oito.

 

R - Oito, dez anos, mais ou menos.

 

P/1 - E tem alguma coisa nessa época que você lembra bastante, que te marcou?

 

R - Positivo, negativo?

 

P/1 - O que for. Positivo, negativo, se você quiser contar 

 

R - O que me marcou muito na época é a questão da família. A nossa união que acontecia, a convivência, dos entes que a gente tinha e que hoje a gente não tem mais; dos passeios, das brincadeiras, que a gente costuma falar que se pudesse voltar ao passado pra viver novamente coisas boas que nos aconteceram… Minha infância foi dolorosa em questão de pobreza, na época, mas a gente soube aproveitar muito, de coisas que hoje a gente não vê mais. 

 

P/1 - Sua mãe plantava o que na época?

 

R - Mandioca, pra fazer farinha. Viviam muito da pesca também por questão de alimentos. Era basicamente isso. 

 

P/1 - Ela fazia isso pra vocês ou ela também vendia? 

 

R - Também, porque na época os meios de sobrevivência eram esses - roça, pesca e também artesanato, elas faziam rede pra vender. E era azeite de coco que elas tinham que pegar, era coco no mato para quebrar. Faziam azeite, era basicamente isso. 

 

P/1 - Dessas coisas que você aprendeu com a sua mãe, a sua avó, elas ensinaram tudo isso também pra você?

 

R - Sim, mas na minha época já foi um pouco diferente porque com dez anos a gente veio para São Luís, então aqui já não tinha o que tem lá. 

No interior eu ia mais era brincar, aqui não. Eu não participei da lavoura, da pesca. Claro que eu gostava muito de fazer isso e às vezes ia mais por brincadeira, tanto é que hoje eu gosto disso, eu gosto de sair para pescar, de uma ocasião em que eu possa ir com a minha mãe, com meu padrasto; às vezes a gente faz isso. Pra mim eu volto ao passado e lembro como foi um pouco da minha infância.  

 

P/1 - Tenta descrever pra mim a sua avó. Como ela era? Como ela andava, o que ela falava? Como era o jeito dela?

 

R - Ela foi muito presente na nossa vida. Quando chega o Natal, é uma data que eu fico muito triste porque ela faleceu no dia 24 e como ela morava com a gente eu vi tudo, presenciei tudo. 

Como toda avó e toda mãe que quer o melhor pros seus netos e pros seus filhos, a gente entende [que] por outra parte ela é chata, é isso, é aquilo, mas na verdade é o bem que eles querem. 

A minha avó, quando a gente viajava pro interior, quem sempre ia com ela era eu. E todas as vezes que a gente viajava, quando a gente descia num determinado lugar - era muito longe pra gente ir pra casa do meu tio - a gente ia andando e aí no meio do caminho ela se cansava, aí ela dizia pra mim: “Vamos parar um pouco que eu tô cansada.” E eu: “ Não vó, vamos continuar, tá longe ainda.” 

Eu tenho muita lembrança dela porque antes de falecer ela ficou em casa. Ela era muito teimosa e não queria ir para o hospital. Ela dizia: “Eu quero morrer dentro de casa, eu não quero ir pro hospital”, e de fato foi cumprido o que ela queria porque ela faleceu dentro de casa, a gente do lado dela. 

Eu dormia com ela no quarto, então sempre estive muito mais presente com ela do que as outras. Como a mais velha já trabalhava na época, não ficava muito em casa e eu ficava mais com ela.

 

P/1 - E de  Mojó vocês viajavam pra outros lugares?

 

R - Dentro do próprio município?

 

P/1 - É.

 

R - Sim, a gente saía muito pra outras localidades que eram distantes, mas tudo era feito ou a pé ou nos animais. 

 

P/1 - Vocês iam fazer o que nesses outros lugares?

 

R - Às vezes meu tio, por exemplo, tinha que ir atrás do alimento. Ele ia pra muito longe. Ele saía tipo quatro horas da manhã e chegava às vezes cinco horas da tarde pra ir fazer uma pesca longe, porque tudo também era difícil, ou plantar em outros lugares, outras roças de outras pessoas, pra trazer não só o alimento, mas trazer dinheiro. 

 

P/1 - E nessa época você se lembra se você tinha algum sonho, se você queria ser alguma coisa já?

 

R - Não, ainda não tinha esse tipo de pensamento. Era muito focada mesmo só em brincar, não tinha ainda um pensamento de futuro.  

 

P/1 - E nessa época vocês ainda não frequentavam a escola ou já?

 

R - Sim, mas tudo com muita dificuldade. Tudo era muito longe e nem sempre a gente podia ir. Quando eu cheguei em São Luís, aí sim eu tive uma educação melhor, uma qualidade de educação melhor. 

P/1 - Lá então era como? Onde você ia, nas escolas?

 

R - As escolas também eram muito precárias. Eram construídas de barro, como hoje a gente ainda vê escolas em alguns lugares, nos interiores. Os professores não eram formados, então era basicamente pra você tentar aprender alguma coisa. 

 

P/1 - Ia você e a sua irmã?

 

R - Sim, iam as irmãs, os primos, todo mundo junto. 

 

P/1 - Vocês iam sozinhos.

 

R - Sozinhos. 

 

P/1 - Você se lembra de algum professor dessa época?

 

R - Não. 

 

P/1 - Vocês foram pra São Luís. Como foi essa decisão? O que sua mãe, sua avó falaram pra vocês?

 

R - Bom, a gente veio pra cá por questões de melhoria de vida. Depois que meu avô já havia falecido a gente morava todo mundo junto, então minha mãe decidiu vir pra cá. Como outra irmã dela já havia saído pra morar em Roraima e o outro irmão já havia ido embora pro Rio, então a gente decidiu vir pra cá. Ficou só o meu tio Juvenal lá. 

 

P/1 - Vocês vieram pra onde de São Luís?

 

R - Pro Anjo da Guarda, fica na área do Itaqui.

 

P/1 - E o que elas falaram pra vocês? “A gente vai mudar…”

 

R - Não, não lembro.

 

P/1 - Você se lembra da viagem de ir pra lá?

 

R - Na época a viagem era mais difícil, porque hoje se tem o ferryboat, que é muito mais rápido, mas era de lancha. A viagem era mais demorada. 

Pra vir de lá pra cá era mais complicado. Tinha a questão dos gastos, tudo era muito caro, então foi um pouco difícil a nossa saída de lá pra cá.

 

P/1 - Difícil como?

 

R  - Principalmente a questão financeira. A minha mãe não tinha renda, minha avó também não tinha renda.   

 

P/1 - Quando vocês chegaram lá, quem foi buscar vocês? Como chegaram no Anjo da Guarda?

 

R - Meu outro tio já estava morando aqui no Anjo da Guarda e a maioria dos familiares que são lá do interior também vieram todos pro Anjo da Guarda. Muitos parentes estão lá, então foi uma ajudando ao outro com o pouco que tinha. A gente foi se ajeitando, digamos assim. 

 

P/1 - Vocês chegaram lá e ficaram na casa de alguém? 

 

R - Sim, ficamos na casa de uma pessoa, depois a gente foi morar de aluguel. Minha mãe foi se virar trabalhando como manicure, em casa de família, às vezes até na casa dos próprios parentes que já tinham condições melhores e assim a gente foi levando. 

 

P/1 - A sua avó ficou em casa. 

 

R - Ela veio pra cá e ficou conosco até o último dia de vida. 

 

P/1 - Como foi pra você essa mudança? 

 

R - A gente veio em busca de melhorias. Sair do interior pra cidade grande, como se fala, pra ver se melhorava a vida. Como eu ainda era pequena… Minha mãe viu que lá não tinha condições, então ela tinha que ir em busca de coisas pra melhorar a nossa vida.       

 

P/1 - Mas pra você, como você encarou? Ficou em choque ou não?

 

R - Não, porque era uma época ainda de muita inocência. Eu não tinha noção de muita coisa, se estava ruim ou bom. Não tinha maturidade pra isso. 

 

P/1 - Você tinha dez anos. 

 

R - Isso. 

 

P/1 - Quando vocês chegaram a ter uma casa [em] que era você, sua mãe, sua avó e sua irmã? Quando isso aconteceu?

 

R - Depois a minha mãe teve outro relacionamento, de onde eu tenho uma irmã mais nova, e essa pessoa a ajudou. Conseguimos uma casa pequena, mas fomos melhorando aos poucos. Depois a minha avó conseguiu a aposentadoria dela, então a gente foi melhorando. 

 

P/1 - Em que rua você morou mais tempo no Anjo da Guarda? 

 

R - A primeira eu não lembro, mas a segunda foi a Rua Doutora Érica, que a gente passou mais de dez anos. 

 

P/1 - E como era essa rua? 

 

R - Nessa rua também tinha outros parentes. Como eu falei, o Anjo da Guarda era cheio de parentes, então digamos que a rua que a gente morava era a rua dos Costa, a comunidade dos Costa, o nosso sobrenome. Nessa rua a gente tinha mais dois parentes - tios, primos, moravam todos próximos. 

Era uma rua tranquila. A gente tinha muitos amigos, brincou muito. A gente passou uma longa vida [ali]. 

Foi bom. Já estávamos mais estabilizados, numa casa melhor. Eu já tinha noção da vida. Minha mãe estava mais estabilizada, estávamos mais crescidos, então a gente já sabia mais ou menos se virar. Ajudávamos nossa mãe de outras maneiras.   

 

P/1 - Você foi pra lá no começo dos anos 90. Vocês foram pra uma escola ali?

 

R - Sim. 

 

P/1 - Onde foi essa primeira escola?

 

R - A primeira escola que eu estudei quando cheguei no Anjo da Guarda foi a Escola Lírio do Vale. Tive uma diretora que eu considerava muito - ela já faleceu - como outra mãe. Comecei minha vida escolar lá; ela me ensinou muita coisa que eu trago pra minha vida. Tive uma base também, em questão de educação - coisas que ela me ensinou na época que hoje eu sempre gosto de comentar, porque foram coisas que me ensinaram muito a ser uma pessoa melhor. Dali eu tive condições de descobrir várias coisas e ela me deu a oportunidade, então sempre digo que ela   também foi uma mãe, porque a gente tinha um carinho muito grande uma pela outra. Não de aluno e diretora, mas de mãe e filha. 

 

P/1- Qual era o nome dela?

 

R - Benedita. 

 

P/1 - Você se lembra da primeira vez que a viu?

 

R - Sim, dentro da própria escola. 

 

P/1 - O que você achou?

 

R - Naquele momento, quando eu [a] vi, ela tinha aquele papel de carrasca, digamos assim, muito grosseira. Mas na verdade ela era um amor de pessoa, tanto é que eu passei a conviver no ambiente da casa dela. 

Além da escola, ela mexia muito com a comunidade; ela levava projetos e o projeto dela era de cultura. Eu acabei me envolvendo também na questão cultural. Ela tinha [um projeto de] danças e eu participava de todas, porque aquilo foi me cativando, fui gostando. Por isso a gente acabou se aproximando muito, porque não era mais apenas a questão educacional. Tinha outra parte, que era a da cultura. 

 

P/1 - O que ela ensinava de dança, qual dança?

 

R - Era dança portuguesa, dança country e também mexia muito com o lado infantil, que na época era a Xuxa. Quando tinha Dia das Crianças, ela fazia todo aquele movimento, distribuía brinquedos. A gente acabava se fantasiando de paquita, dançava as músicas e ia apresentar. 

 

P/1 - Você então ficava fazendo a coreografia.

 

R - Sim. Havia desfiles, ela sempre fazia desfiles na escola. [Em] tudo eu estava presente, [de] tudo eu participava. 

 

P/1 - A sua mãe deixava, apoiava?

 

R - Sim. Minha mãe era muito presente, então estava sempre em contato com ela. Tudo de certo e errado que eu fazia a minha mãe sempre sabia. A ligação das duas já era mais que de diretora de uma escola [e de mãe], era muito mais que isso. 

Como a gente morava perto, o acesso também era muito fácil. 

 

P/1 - Nessa época, você pode dizer que começou a pensar em algo assim, “eu quero ser algo”. O que você pensava? 

 

R - Sim. A minha base em questão de futuro foi justamente essa primeira escola, onde eu vi muitos fatores, como a cultura. É uma coisa que eu gosto muito, por ter participado. Não sei, talvez no futuro abrisse algo relacionado à dança. Por outro lado, eu vi a questão da educação, que é onde hoje eu me encontro. Às vezes juntava tudo e dizia “não, não é isso que eu quero.” Tinha uma certa dúvida. Pra mim foi a base, na época. 

 

P/1 - Por que você acha que você e essa diretora se deram bem?

 

R - Eu acredito que foi a forma com que ela me acolheu. Não foi só uma questão de vida escolar, mas passou além disso. Passei a conviver com ela dentro de casa. 

Como tinha as danças, principalmente na questão da dança portuguesa, ela também requer produção das fantasias, das roupas, então eu passava muito tempo dentro da casa dela. Se eu estudava pela manhã, durante a tarde a gente tinha os ensaios e depois a gente ia pra casa dela bordar as roupas. Ficava lá até as dez, onze horas da noite, quase todos os dias. Nossa proximidade foi muito grande. 

 

P/1 - Como é uma roupa de dança portuguesa?

 

R - É uma coisa muito linda. Tenho fotos até hoje. Eu fico recordando do tempo, fico escutando as músicas. Eu gosto muito. Aqui no Maranhão a gente tem essa grande riqueza - o bumba-meu-boi, a dança portuguesa que, embora seja de origem de outro país, quando chega o festejo junino no Maranhão, é uma dança que tem por sua beleza as vestimentas. Na época, a gente se enfeitava muito. A dança portuguesa requer muito isso: muito brilho, muito enfeite. As saias [eram] muito largas porque elas tinham que girar, as músicas [eram] muito bonitas. Eu ficava maravilhada com aquilo. 

Além da dança portuguesa, tinha a dança country ou a dança do boiadeiro, outro nome que se dá. Era mais voltada pra vaquejada. A gente usava botas, chapéu. Também tinha a dança gaúcha, onde se usava saias rodadas com blusinhas mais decotadas. 

São ótimas lembranças que eu tenho dessa época. 

 

P/1 - Vocês se apresentavam em algum lugar?

 

R - Sim, a gente viajava muito, tanto no interior de São Luís quanto, às vezes, [em] outras cidades, mas as nossas apresentações eram muito voltadas pra aqui dentro mesmo. 

Como eu era menor na época, claro que sempre tinha que ter a autorização da minha mãe e a responsabilidade era toda da dona da dança, que era a diretora da escola.  

 

P/1 - Iam várias meninas?

 

R - Meninas e meninos. Muitos. 

 

P/1 - Ela te ensinou então a bordar, a costurar. 

 

R - Sim. Tudo que eu aprendi foi ela que nos ensinou. Na época, a gente mesma era que bordava as roupas. A gente não pagava ninguém. 

 

P/1 - E como é uma roupa de dança portuguesa?

 

R - Hoje tudo está muito diferenciado. Os anos vão passando e as coisas vão mudando. Na época, eram as saias bem rodadas, bem pesadas; usávamos sapatilha, meia de crochê - quem sabia fazer fazia, quem não sabia tinha que pagar alguém pra fazer. Usávamos as blusas até aqui [marca que são longas, abaixo da cintura] com um colete por cima, também todo bordado, e um lenço na cabeça. 

Os meninos [usavam] calça com colete, também as camisas e chapéu.

 

P/1 - E que cor tinham essas roupas?

 

R - Eram variadas, nunca era uma cor específica. Eram sempre bem coloridas. 

 

P/1 - Nessa época, você e a sua família tiveram mais contato com TV, rádio? 

 

R - Sim.              

 

P/1 - O que vocês assistiam, o que gostavam de ver?

R - A nossa primeira televisão, quando a gente chegou aqui em São Luís, se juntava todo mundo numa sala pra assistir. [Era] aquela televisão bem pequena. Pra gente era novidade; era uma diversão, algo a mais, assim como a energia, a água encanada. Tudo pra gente era novidade depois que a gente chegou aqui. A gente foi se adaptando às coisas. 

Quando a gente chegou a gente não tinha televisão, a gente ia assistir na casa do vizinho. Claro que tinha hora pra você chegar e hora pra sair. Aos poucos a gente foi se encaixando. 

 

P/1 - Você se lembra de alguma coisa que gostava de ver nessa época?

 

R - Desenho.

 

P/1 - De que desenho você gostava?

 

R - Os desenhos que hoje não existem, que eu sinto muita falta. Tom e Jerry, Caverna do Dragão, Pica-pau - esses desenhos que, de certa forma, não faziam mal porque hoje os desenhos que passam… Na verdade, as crianças estão, de uma certa forma, agindo tão diferente por conta do que veem hoje.

 

P/1 - Na sua casa tinha alguma religião? Vocês iam pra alguma igreja?

 

R - Sempre fomos da religião católica, todos eram. 

 

P/1 - Sua avó, sua mãe levavam vocês pra missa? 

 

R - [Era] muito difícil. 

 

P/1 - Mas vocês eram religiosos. 

 

R - Sim, católicos. Depois que a gente foi tendo conhecimento, fomos em outras igrejas e acabou que algumas pessoas tiveram o direcionamento pra outras religiões. 

 

P/1 - Tipo?

 

R - Eu passei quatro ou cinco anos na [Igreja] Adventista. A minha mãe hoje é da Assembleia [de Deus].  A minha avó foi da Universal [do Reino de Deus]. 

 

P/1 - Então não era uma coisa assim presente na casa de vocês. 

 

R - Não, não era.

 

P/1 - Qual o nome da sua irmã mais nova?

 

R - Dilcilene. 

 

P/1 - E como ela nasceu nessa escadinha? Qual a diferença de idade? 

 

R - Cinco anos de diferença [de] uma pra outra.

 

P/1 - Ah, cinco anos certinhos. 

 

R - Cinco anos certinhos. 

 

P/1 - Como foi pra você nascer a Dilcilene? 

 

R - A gente diz que foi a joia que chegou por último. A nossa mãe contou que foi um parto um pouco mais difícil, porque ela já nasceu bem gordinha. A cor dos olhos dela você vai ver que é diferente - os olhos verdes, que eu não tenho. Eu brinco com ela que na época não tinha tinta pra mim. (sorri) Só ela que teve esse privilégio de nascer com os olhos bonitos. 

Ela nasceu bem branquinha. A gente já cuidava dela, eu e a minha irmã mais velha; a minha mãe ia trabalhar e a gente ficava em casa, cuidando dela, juntamente com a minha avó. 

 

P/1 - Você teve ciúme quando ela nasceu ou não?

 

R - Não porque pra mim era como se fosse uma bonequinha, então a gente tinha todo o cuidado de cuidar dela. E minha avó sempre estava por perto, de olho, então foi tranquilo. 

O pai dela também era presente na época, morava com a minha mãe, então ela não passou pelo que eu passei, digamos assim.                    

 

P/1 - E seu padrasto, como era?

 

R - Ele chegou [quando] eu tinha uns doze, treze anos. Até hoje ele vive com a minha mãe. Ele veio não pra suprir a necessidade [de um pai], mas é como se fosse um pai. Embora não seja de sangue… Às vezes a gente escuta o ditado: “pai não é quem faz e sim quem cria”. Hoje eu tenho um imenso prazer em abrir a boca e dizer que é meu pai, porque é uma pessoa que sempre esteve ao nosso lado, uma pessoa que sempre me deu exemplo. Eu sempre o vi com outros olhos. 

Sempre teve um grande respeito, tanto da minha parte quanto da dele. Hoje os meus filhos realmente o veem como avô.     

A minha mãe pode não ter me dado riquezas. A grande riqueza que ela me deu foi a educação, os valores que hoje transmito pros meus filhos. Meu padrasto, pra mim, a gente é realmente pai e filha. 

 

P/1 - Qual é o nome do seu padrasto?

 

R - José Maria. Inclusive você foi visitá-lo. 

 

P/1 - Como era o dia a dia nessa casa no Anjo da Guarda?

 

R - A gente ia pra escola, da escola pra casa, brincava. À noite, às vezes tinha alguma coisa pra fazer ou às seis horas da tarde a gente ia correr, brincar na rua com os outros coleguinhas. Não tinha ainda muito o que se fazer. 

O Anjo da Guarda cresceu de uns tempos pra cá; ainda era muito pacato, muitos estavam vindo morar lá. 

Éramos só nós mesmo dentro de casa. Minha mãe saía pra trabalhar e a gente ficava em casa, então não tinha muito o que se fazer.

 

P/1 - O seu padrasto fazia o que na época?

 

R - Na época, ele era pedreiro. 

Depois que a minha mãe se separou do pai da minha irmã mais nova, ela teve esse outro relacionamento, com meu padrasto, e a gente acabou mudando de onde a gente morava pra outra casa. A casa já era maior, a vida já estava mais estruturada. Ele passava o dia fora, trabalhando. A minha irmã mais velha também já estava trabalhando, então já somava mais. 

 

P/1 - Quando você foi pra essa escola, você entrou em que série? Como era a sua turma? 

 

R - [Entrei no] primeiro ano, na primeira escola, até a quarta série, como se falava antigamente. De lá eu saí, fui pra outra escola porque não tinha mais a série que eu ia fazer. 

 

P/1 - Como era o Lírio do Vale? Você falou da sua diretora…

 

R - Era uma escola pequena,  onde todas as turmas eram separadas apenas por cadeiras. Era uma sala só. A direção ficava um pouquinho mais afastada. Tínhamos o pátio, que era muito grande. 

Na verdade, esse lugar era cedido por uma outra pessoa pra ela. 

Agora eu lembrei do nome da minha professora, é Silvana. 

Era o tempo da régua. Toda sexta-feira a gente tinha Matemática, tabuada. Quem não acertasse tinha que voltar pra fila até falar toda a tabuada. 

 

P/1 - Isso ainda em Mojó?

 

R - Na primeira escola aqui em São Luís, de primeira à quarta série. 

 

P/1 - Como era isso? As pessoas ficavam em fila…

 

R - Ficávamos em fila. Toda sexta-feira, tínhamos a tabuada pra estudar. Se você não acertasse, levava a régua na mão e voltava pra fila, até você acertar. Era dessa forma. 

 

P/1 - Quantas professoras você teve nessa escola? 

 

R - Nessa escola foi a diretora também, foi minha professora, e a professora Silvana.

 

P/1 - Elas davam aula de tudo? 

 

R - De tudo, porque nessa época se falava muito em alfabetização. Tinha que aprender a ler, a escrever, saber o alfabeto e os numerais. 

 

P/1 - Como foi esse processo de aprender pra você?

 

R -  Foi bem difícil, porque eu era uma criança muito tímida, muito quieta. Se você me colocasse sentada num lugar, eu passava o dia lá. Eu tinha muita dificuldade em falar, tinha muito medo, então quando eu via a diretora, que passava aquela imagem de durona, eu chorava. Mas a gente acaba aprendendo muito, aprendi muito com elas. 

 

P/1 - Foi lá que você aprendeu a ler, a escrever e a contar. 

 

R - Sim. 

 

P/1 - Seus colegas tinham a mesma idade que você?

 

R - Como nessa época era um pouco difícil, nem sempre eram da mesma idade. Eram idades diferentes. Crianças que não iam pra escola e estavam em idade avançada, ou idades menores. Era tudo misturado. 

 

P/1 - Ia você, sua irmã…

 

R - Nessa escola, só ia eu. 

 

P/1 - Você saiu dessa escola com que idade?

 

R - Fiquei de lá da primeira à quarta série. Saí de lá… Não lembro. Fui de lá pra outra escola que também ficava próxima, foi onde eu terminei a oitava série. 

 

P/1 - Nessa idade, você começou a namorar?

 

R - Com quinze anos. 

 

P/1 - Como foi isso?

 

R - (risos) Na verdade, às vezes começa dentro da própria escola. Como também tinha essa questão da dança, a gente viajava muito, então a gente conhecia muito… Namorei até com um rapaz que era o filho da moça, mas independente disso a gente tem uma amizade muito boa até hoje. 

A questão de namorado foi, na verdade, quando eu entrei na igreja adventista. Namorei um rapaz [de] dentro da igreja.

 

P/1 - Como é que se fazia pra se aproximar dos meninos nessa época? 

 

R - Como eu estava dentro da igreja - principalmente da adventista, que é uma igreja mais rígida - tudo tinha que ser com muito cuidado e não podia ser às escondidas. Tinha que ser tudo com permissão, porque você namorava, mas tinha que casar. 

A gente namorou durante algum tempo, aí minha mãe acabou descobrindo. Ela queria me tirar da igreja por esse motivo. 

Na época, só eu era da igreja. Era muito complicado, principalmente na adventista, que tem muitas regras - não pode vestir isso, não pode fazer aquilo, não pode comer aquilo - então dentro da minha própria casa eu era muito cobrada. Se a gente ia comer uma comida, tipo camarão, a adventista não te permite, então eu já escutava [reclamação] por isso. “Ah, tu não vai comer por causa disso…” Eu recebia críticas. Como eu era menor [de idade], eu tinha que acatar o que minha mãe me falava. Acabei saindo da igreja, a gente acabou terminando o namoro de criança, digamos assim, e ele acabou indo embora.

P/1 - Foi seu primeiro namorado. 

 

R - Sim. A gente se correspondia através de cartinhas. 

 

P/1 - Você deixava a cartinha onde? 

 

R - A gente tinha um programa chamado J.A. dentro da igreja, que acontecia aos sábados à tarde. Lá sempre tinha uma caixinha. “Hoje você pode enviar uma cartinha de amizade pra um amigo. Se você quer mandar um recado pra alguém…” Sempre a gente trocava essas cartinhas ali, ou ele escrevia através de amigos que a gente tinha dentro da igreja. Ele escrevia as cartinhas e mandava pra mim e eu respondia da mesma forma. 

Até um certo tempo [atrás] eu tinha todas as cartinhas, depois eu joguei fora. (risos)

 

P/1 - No começo eram cartinhas de amizade e aí foi evoluindo?

 

R - Isso. Acredito que se não tivesse acontecido esse rompimento… Não sei se até hoje, mas teríamos nos casado, porque estávamos dentro da igreja. A igreja era assim: namorou, tem que selar o compromisso e casar dentro da igreja, de acordo com as regras adventistas. 

 

P/1 - Você ficou quantos anos lá? Quatro, é isso?

 

R - Mais ou menos.

 

P/1 - Ficou triste quando saiu?

 

R - Sim, porque já estava [há] anos, convivia lá dentro, participava de tudo que acontecia. Participava de um grupo vocal que a gente tinha, o Grupo Primavera, que era dos adolescentes. Mas acabei saindo porque a minha mãe me proibiu. Ela descobriu que eu estava namorando com ele e não permitiu

 

P/1 - Você estava hiperintegrada ali, cantando…

 

R - Sim. Pregava, fazia tudo dentro da igreja. 

 

P/1 - Nessa época, vocês iam à praia?

 

R - Não. Os passeios que a gente fazia na igreja eram em outros lugares pra fazer cultos, ou piqueniques, que a gente fazia [com] todo o grupo. Sair só a gente não podia. 

 

P/1 - Então você passou pra outra escola. Que escola era?

 

R - Escola Comunitária Mariana, onde eu fiz até a sexta, sétima série. Por aí. 

 

P/1 - Como era lá?

 

R - Como era o fundamental maior, as cobranças eram mais… Você tinha realmente que estar mais compromissado com os estudos. Era [um colégio] pago também. A taxa era maior do que na outra escola que eu estudava; às vezes a gente tinha dificuldade com esse lado, nem todas as vezes a minha mãe tinha condições de pagar. 

Eu digo que sempre fui uma aluna que sempre se preocupava com os estudos. Nunca gostava de faltar, sempre estava muito presente na escola. Quando tinha as reuniões, eu sempre gostava de ir com minha mãe, pra ela escutar o que iam falar. Fiquei lá acho que até o sétimo, oitavo ano. 

Eu também participava de outras coisas. A escola também abrangia a comunidade e tinha outros eventos, como desfiles de final de ano, onde eu também acabei me envolvendo. Já tinha saído da igreja.

 

P/1 - Você estava em tudo que tinha.

 

R - Sim. 

 

P/1 - Por que você acha que fazia isso? 

 

R - Porque eu gostava. Sempre gostei, sempre fui muito voltada pra dança. Tudo que eu percebia que dava pra fazer, eu queria fazer. Acho que trago isso até hoje. 

 

P/1 - Por que você saiu dessa escola? 

 

R - Porque [se] encerrou a minha vida escolar lá. Eu tinha que ir pra outra escola, que era [de] ensino médio. 

 

P/1 - Isso tudo no Anjo da Guarda. 

 

R - Sim. O ensino médio não, foi em outro bairro. 

 

P/1 -  Você foi pra onde? 

 

R - No primeiro ano, eu fui pra uma escola chamada Coelho Neto, que fica no bairro da Alemanha. Eu tinha que pegar dois transportes pra ir, era mais longe. Lá eu fiquei o primeiro e a metade do segundo ano. Depois eu tive que voltar pra outra escola no Anjo da Guarda, onde eu terminei o ensino médio.

 

P/1 - Tem alguma história que marcou nesse período todo no Anjo da Guarda? Ou algumas? 

 

R - História de vida? 

 

P/1 - Que aconteceu com você?

 

R - A minha convivência do interior pra cá foi muito no Anjo da Guarda. Eu passei muito tempo lá, então tenho muitas amizades. Quando eu vim pra cá, deixei muitas amizades. 

Quando cheguei aqui, eu não me adaptei. Tive vontade de voltar pra lá, porque aqui o acesso pra tudo era muito difícil e lá não, era tudo mais fácil, mais perto. Conhecia todo mundo, a maioria era parente. Muito do que eu vivenciei, um pouco da minha infância e da minha adolescência foi lá no Anjo da Guarda. Escola, amigos, coisas que eu aprendi, o que eu convivi ficou muito no Anjo da Guarda. 

P/1 - Quando você terminou o ensino médio, você tinha quantos anos, mais ou menos?

 

R - Dezesseis.

 

P/1 - E depois você já queria fazer alguma coisa?

 

R - Até então, eu ainda tinha dúvida do que eu queria. Eu não saí do ensino médio e fui direto pra faculdade. Eu já estava no segundo ano do ensino médio quando eu comecei a trabalhar. 

 

P/1 - Você foi trabalhar onde?  

 

R - Fui trabalhar no McDonald’s, no Shopping São Luís, que foi o primeiro shopping aqui. Comecei como jovem aprendiz porque ainda não tinha idade, e lá eu passei cinco anos. Por isso eu tive que sair da escola da Alemanha, porque eu comecei a trabalhar e os horários não estavam batendo. Eu estudava à tarde e pegava o serviço das quatro da tarde até as dez da noite. Tive que vir pra mais perto de casa, estudar no Anjo da Guarda, aí fui estudar pela manhã. Deu certinho, ia estudar de manhã e à tarde eu ia trabalhar.

 

P/1 - Onde fica esse shopping? 

 

R - Em Jaracati. Deixa eu tentar te explicar… É mais ou menos [no caminho de] quem vai pro Calhau, pro Renascença. 

 

P/1 -  E como era trabalhar no McDonald’s? Como eram os clientes, os colegas?

 

R - Como era a minha primeira experiência, tudo era novo, mas eu digo que pra mim foi uma porta que se abriu pra outros empregos. Foi uma experiência que eu trago pra minha vida. 

Quando a gente vai trabalhar no McDonald’s, não vai trabalhar especificamente pra um lugar. Você faz o rodízio todo. Não sei se hoje é ainda assim, mas aprendi de tudo, da cozinha ao balcão. 

Aquilo pra mim foi maravilhoso, porque eu comecei a ganhar o meu dinheiro. Daquilo eu comprava o que eu tinha de necessidade pra mim e também ajudava minha mãe. 

 

P/1 - Você fez amizades lá?

 

R - Sim, muitas amizades. Até hoje convivo com algumas pessoas. 

 

P/1 - Quem de especial você lembra bastante?

 

R - Marleia, que eu tenho amizade até hoje; Lucidalva, que recentemente eu encontrei trabalhando numa farmácia aqui no Maiobão, entre outras pessoas, de vez em quando a gente se fala.

 

P/1 - Como era o dia a dia no McDonald’s? Você chegava…

 

R - Eu pegava o serviço às quatro da tarde, trabalhava no turno da tarde. A gente era horista: um dia você saía ás oito, um dia você saía às nove, outro saía às dez, menos aos sábados. Aos sábados era o dia em que o shopping estava mais lotado, então a gente saía entre dez e dez e meia da noite. 

Às vezes eu chegava em casa à meia-noite, quando eu conseguia pegar o último ônibus. Quando eu me atrasava, tinha que esperar o que a gente chamava de ‘corujão’, que passava às onze e meia e eu chegava em casa à uma hora da manhã.                    

Durante a semana, a gente tinha uma folga e um domingo por mês. 

Pegava todos os dias às quatro horas da tarde e não tinha um horário exato pra sair. Era [às] sete, oito, nove, dez, dependendo do movimento. Era mais ou menos assim. 

 

P/1 -  Como era com a clientela?

 

R - A gente recebia clientela de todos os aspectos, de todos os níveis; pessoas que te tratavam muito bem, pessoas que te tratavam supermal. Pessoas que te tratavam como lixo e pessoas que te tratavam muitíssimo bem.

Eu tive muitos clientes bons, que sempre passavam ali só pra te dar um tchau. “Oi, como é que vai? Tudo bem?” A gente acabava criando uma amizade. E tinha outros que não, que tratavam tão mal que você tinha que engolir seco. 

 

P/1 - O que você acha disso, desses tratamentos diferentes?

 

R - Uma coisa que a gente sempre escutava em reuniões era: o cliente sempre tem razão. Na época, eu entendia dessa forma; hoje eu vejo de outra forma. Pra prezar o seu emprego você tinha que engolir, mesmo que estivesse coberto de razão. Tinha que assumir que estava errado, porque o cliente estava dizendo que estava certo. Ele estava pagando por aquilo.

O Mc era multinacional, então tinha muito nome. Tem muito nome, então você tinha que engolir seco mesmo. 

 

P/1 - Você ficou cinco anos girando por…

 

R - Girando, fazendo tudo. Além de toda a parte da cozinha e do balcão, das vendas, tinha a parte de fechamento, de festas infantis - acho que foi bem aí que eu comecei a me encontrar, porque eu era muito focada pra essa parte. Quando tinha festas infantis, eles sempre me colocavam. “Vai agendar uma festa ali.” Eu agendava e eu mesma fazia a festa. Eu e mais duas ou três, dependendo da demanda, da quantidade de pessoas. 

Eu sempre gostei muito, acho que fui me apaixonando por isso. Tinha toda a parte de enfeite… Tanto é que uma vez eu me lembro que veio um pessoal de Fortaleza, porque o Mc era… Fugiu o nome agora da minha cabeça. Não era o dono.

 

P/1 - Tinha uma franquia. 

 

R - Isso, era franquia. Vinham pessoas de São Paulo, de Fortaleza. Sempre fazem esse rodízio aqui pra treinamento. Veio uma pessoa chamada Jussara, que era de Fortaleza; ela sempre vinha dar treinamento e ver como estava funcionando a loja. Ela me viu junto com essa Marleia e disse: “Eu vou pagar pra vocês um dia de curso de decoração.” 

Ela pagou pela empresa, nós fomos passar um dia no Sesc em São Luís, no [bairro de] João Paulo, e aprendemos um pouco de decoração. Ela viu que a gente tinha foco praquilo. Até hoje eu lembro que foi um incentivo a mais. 

Também lembro muito que o Ronald, que é o boneco, vinha também de São Paulo pra cá e fazia visitas em orfanatos, em hospitais. Um dos lugares que eu fui foi no [Hospital] Aldenora Belo, onde eu nunca tinha entrado, pra ver como funcionava. 

Ele chegou pra gente e disse assim: “Vocês vão comigo.” Escolheram algumas pessoas e eu fui uma das que foi participar. “A gente vai pro Aldenora Belo hoje, mas eu quero dizer uma coisa pra vocês: em nenhum momento vocês podem demonstrar fraqueza e chorar, porque nós vamos pra lá levar alegria.” Aí eu fui com ele e com algumas pessoas que vieram de São Paulo. 

Quando eu entrei no Aldenora Belo, eu tive que me controlar ao máximo. Quando eu me deparei com a situação, que eu vi aquelas crianças todas ali, acamadas, de vários lugares que nem daqui eram, do interior, a minha vontade foi de desabar. Mas eu me lembrei do que… Não sei de onde tirei forças naquele momento, mas a gente estava ali pra trazer alegria. 

Ele faz várias palhaçadas, faz brincadeiras. A gente leva o lanche. Foi muito divertido. De lá a gente foi pra um orfanato num lugar chamado Residencial Paraíso, numa escola bem humilde. A gente também foi levar um pouco de alegria, levar lanches e também fazer as brincadeiras. 

Ali eu fui me apaixonando por esse mundo de diversões, de fazer festas e estar em contato com crianças. 

 

P/1 - O que ele fazia? Como o Ronald falava com as crianças?

 

R -  Ele fazia mágicas e eu ficava observando. “Como é que ele faz isso?” Acabei descobrindo um pouco da mágica que ele fazia. E ele nunca apareceu em frente da gente sem a fantasia do Ronald, era todo o tempo fantasiado. 

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Nunca vi o rosto dele pessoalmente. Ele dizia que não podia.

 

P/1 -  Não podia?

R - Não podia. 

Vinham todos os personagens do McDonald’s. E eu sempre estava participando das festas; quando era pra ir pra frente dançar, eu estava junto com eles. Aquilo, pra mim, só ia somando. 

 

P/1 - Conte como é um dia dentro do McDonald’s. Você disse que girava...

 

R - Sim. A gente chegava às quatro horas. A gente vinha sem uniforme - não podia usar o uniforme fora, então a gente tinha um armário. A gente entrava, trocava nossa roupa. Antes de ir pras áreas, a gente tinha uma breve reunião, que era só pra ser distribuída - você vai pra lá, pra cá… Não tinha todos os dias “você vai pro balcão”. Não, cada dia você estava em uma área diferente. E quando você não sabia daquela área, não tinha experiência naquele lugar… “Você vai com fulano e sicrano porque vão te ensinar. Ele vai ser o seu professor hoje.” Todos que entravam tinham por obrigação saber [de] todas as áreas porque tinha a questão das folgas, então você tinha que aprender todas as áreas. A gente rodava tudo. 

A gente entrava às três e meia, quatro horas; com duas, três horas de trabalho você saía meia hora pra lanchar, ter um pouco de descanso e retornar pra área. 

 

P/1 - E que áreas tem dentro do McDonald’s? 

 

R - Tem a parte do balcão, que é a parte logo da frente; você fica no caixa. Tem a parte das fritas, onde você fica só responsável por fritar as batatas. Tem a parte dos refrigerantes e dos sucos - a torre, que a gente chamava. Ficava uma pessoa só responsável [por] ali. Tem a pessoa da produção, que só vai pedindo o que o balcão tá pedindo; a pessoa da produção fica repassando pros demais da cozinha. Tinha gente que ficava só no Big Mac - era Big Mac, McDuplo, Cheeseburger, Hambúrguer e alguma coisa quente... Cheesequente, não me lembro agora. Tinha uma pessoa que só ficava no Quarterão [com queijo] - era o Quarterão, Cheddar e McMax. E tinha outro que ficava no corredor, a parte maior, onde você fazia Supreme, McMila, as tortas, os nuggets, o McFish… E tinha outros lá, era a parte maior. 

Tinha também quem ficava responsável pelo setor das câmaras, que entrava pra pegar todos os estoques, e tinha também os quiosques, a parte dos sorvetes, onde eu ficava muito também. Eu gostava muito de ficar. Um dos quiosques ficava perto do McDonald’s e o outro ficava separado, mais distante da loja. E [tinha] também a questão das festas.                                                                                 

    

P/1 - Por que você gostava de ficar no quiosque?

 

R - Não gostava muito de ficar na cozinha. Gostava de ficar no balcão, fritas, quiosque ou nas festas, quando tinha os aniversários. 

 

P/1 - Mas especificamente no quiosque, do que você gostava?

 

R -  Porque no quiosque era só sorvete, não era tanto trabalho. Às vezes ficava uma pessoa só; no dia de sábado, não podia ficar uma pessoa só porque enchia. Se tinha dois caixas, eram dois caixas e dois ajudantes pros caixas. 

 

P/1 - E essa divisão por hambúrguer é por que? Um faz quatro tipos...

 

R -  Uma chapa é feita só pra um tipo de sanduíche, a outra chapa só praqueles específicos. A parte do corredor, que era mais pra fritura, não era na chapa, ficava muito separada. 

 

P/1 - Nesse período do McDonald’s, você diria que conheceu outras partes de São Luís? 

 

R - Sim, foi quando eu fui conhecendo outros lugares, fui buscando, digamos assim. Comecei a sair, a aprender, porque até então eu era muito pacata, não saía muito. Uma das pessoas com quem comecei a sair que começou a me explicar: “Olha, aqui é tal lugar, ali é outro lugar” foi o meu padrasto. Quando eu fui fazer o primeiro ano do ensino médio, eu não sabia onde era [a escola], ele disse: “Eu vou contigo, mas vou explicando passo a passo por onde é, que lugar é esse que você está passando.” Eu não conhecia nada, nunca tive esse tempo de sair pra conhecer. Era muito em casa, o meu mundo era muito aquele ali. 

 

P/1 - O Anjo da Guarda, né?

 

R - Sim.

 

P/1 - E você saía com o pessoal do trabalho?

 

R - Sim, saía muito. Depois, quando a gente vai pegando o gosto pela coisa, quando você vai tendo seu próprio dinheiro, as amizades que você vai construindo… Você vai conhecendo outros ambientes, vai tendo o prazer de conhecer outras coisas. Ali eu comecei a ver outro mundo.

 

P/1 - E o que tinha nesse novo mundo? Você ia em bar, restaurante?

 

R - Sim, ia muito em festas, principalmente no final de semana. Quando todo mundo terminava o trabalho, a gente ficava esperando todo mundo fechar a loja e aí… Hoje todo mundo vai pra tal lugar, a gente ia. Quase todos os fins de semana a gente juntava todo mundo do serviço e ia. 

 

P/1 - Onde vocês iam nessa época? 

 

R - É um lugar mais ou menos perto do Reviver, ali pelo Ceprama [Centro de Produtos Artesanais do Maranhão], do anel viário. Hoje os lugares que a gente frequentou na época não tem mais. 

 

P/1 - E vocês iam fazer o quê? Dançar?

 

R - Dançar, beber, conversar um pouco, porque a gente não tinha tempo pra falar dentro do serviço. Ia se divertir. 

 

P/1 - Imagino que nessa época você não estava mais na igreja. 

 

R - Não, não estava. 

 

P/1 - E namorou de novo?

 

R - Sim. Namorei de novo, conheci outra pessoa. Quase tive um relacionamento mais firme, mas na época minha mãe entendia de outra forma.  Às vezes, eu saía do serviço e ia pra casa dele; como ele também morava nessa localidade da Madredeus, do Reviver, eu ia pra casa dele e acabava chegando um pouco mais tarde em casa, aí minha mãe não aceitava muito. Eu saía mais cedo do serviço, ia pra lá e ela não aceitava muito isso. 

O que acabou acontecendo? Ela chegou um dia pra mim e disse que eu tinha que tomar uma decisão: eu saía do serviço ou terminava com ele. Quando você começa a trabalhar e ter um pouco de independência… Aquilo pra mim, no momento, pesou muito. Eu disse: “Eu não posso parar de trabalhar, deixar de ganhar o meu dinheiro.” Por outro lado, tinha a questão do namorado. Pra mim foi uma situação muito delicada, muito difícil.

 

P/1 - E você acabou optando por não ficar com ele. 

 

R - É, eu continuei no serviço e a gente acabou se separando.

 

P/1 - Você saiu do McDonald’s por que?

 

R - Pra mim já estava muito cansativo. E na época - não sei se hoje funciona da mesma forma - como a gente era horista, a gente não tinha um salário fixo. Às vezes eles contratavam e perguntavam se a gente tinha família - se você era casado, se você tinha filhos - porque o salário não compensava pra sustentar uma família. Como na época eu não tinha filhos, pra mim aquilo era um começo. Foi uma porta que se abriu e eu aproveitei.

Aquilo foi ficando cansativo, eu já queria mesmo sair. Não aguentava mais, ia trabalhar todos os dias forçadamente, pra não ter que pedir as contas. Aos dezenove anos eu engravidei, tive o meu primeiro filho, então aquela renda não estava mais suprindo. A partir do momento que eu tive meu filho eu já enfrentava problemas de faltar, por conta do meu filho. Tudo aquilo foi somando e chegou um dia que eles me chamaram e deram minhas contas, digamos assim.                                                  

 

P/1 - Qual é o nome do seu primeiro filho?

 

R - Tiago. 

 

P/1 - Como foi o dia em que ele nasceu?

 

R - Ele nasceu no dia quatro de abril de 2004. Na época, pelo serviço eu tinha um plano de saúde, então graças a Deus foi tudo perfeito. Eu fazia o meu pré-natal todo particular, pelo plano. Quando eu senti as dores foi de madrugada, já estava tudo organizado. 

Eu não convivi com o pai, morava com a minha mãe mesmo. Foi tudo eu e minha mãe. Quando senti as dores, fui pro hospital. Liguei pra médica, disse tudo; ela disse: “Pode ir pro hospital e a gente se encontra lá.” O parto dele foi tranquilo, eu fui bem assistida.

 

P/1 - Foi natural ou cesárea?

 

R - Natural, normal. 

 

P/1 -  Como você se sentiu quando ele nasceu? Como foram os primeiros dias?

 

R - Na minha cabeça eu ainda não entendia que a partir daquele momento eu era mãe. Eu não aceitava ainda, até pela questão de como tudo aconteceu. Eu tive um tempo pra me acostumar com a ideia de que eu agora era mãe, que eu tinha uma responsabilidade. Não ia mais viver pra mim, exatamente; ia viver por conta de outra pessoa. Eu tinha que dar conta do recado. 

Foi um pouco difícil, porque logo depois de um ano eu saí de lá, da empresa. 

 

P/1 - O que você pensou em fazer? O que aconteceu?

 

R - Bom, eu tinha que cuidar dele. Era um problema… Meu filho não era um problema, mas [era] uma coisa minha. Eu recebi tudo que tinha que receber da empresa e ainda ia passar uns quatro meses, mas eu tinha que procurar outro serviço porque já tinha um filho pra sustentar. 

Passei por algumas dificuldades, porque não foi fácil depois que saí de lá. Tentei trabalhar em um restaurante, não me adaptei. Desse restaurante fui pra outra loja dentro do Shopping São Luís; como eu conhecia muita gente, rapidinho eu consegui, mas também não passei muito tempo. De lá eu fui trabalhar numa padaria com meu pai, onde eu passei outro tempo. 

 

P/1 - O seu pai de sangue. 

 

R - Exato. 

 

P/1 - Você o reencontrou, então. 

 

R - A gente não tinha tanto contato, mas depois a gente passou a se falar, então foi mais fácil. 

Minha mãe, lógico, sempre estava do meu lado e sempre me deu muito apoio, me ajudou muito em relação ao meu filho. 

 

P/1 - Seu pai trabalhava numa padaria, então. 

 

R - Sim.

 

P/1 - Você ficou um tempo nessa padaria? 

 

R - Fiquei um tempo, mas não muito porque era longe. Eu morava no Anjo da Guarda e lá era Cidade Operária, era muito distante. Em trabalho de padaria a carga horária é muito grande. Acabei saindo e ele às vezes me ajudava. Como eu já tinha um menino, ele me ajudava de um lado, minha mãe do outro, até que eu consegui um novo serviço. E assim a gente foi passando. 

 

P/1 - Que novo serviço foi esse?

 

R - Fui pra outro restaurante, Light meals; depois fui pro Auguri, um restaurante também. Fui pra uma loja da Lupo, uma loja de meias. Passei um bom tempo desempregada. Quando eu vim pra cá, comecei minha vida novamente. 

 

P/1 - Você e sua família vieram pra cá em que ano?

 

R - Em março de 2009. 

 

P/1 - Conte o que aconteceu pra vocês virem pra cá. Vocês estavam na casa de vocês, imagino.                

 

R - Sim. Morávamos na Vila Madureira, que fica na região da Vila Maranhão. 

 

P/1 - Vocês tinham se mudado do Anjo da Guarda. 

 

R - Isso. Meu padrasto já vivia mais pra lá, todo fim de semana a gente também ia pra lá. Depois a gente foi indo com mais frequência. Minha mãe praticamente já vivia com ele lá e eu, como na época estava desempregada, acabava indo pra lá com meu filho. 

A gente passou muito tempo na Vila Madureira. Foi quando chegou, teve toda essa questão do deslocamento de lá pra cá e eu acabei vindo junto com eles. 

 

P/1 - Como era a casa lá na Vila Madureira?

 

R - Era de barro. 

 

P/1 - Como é a região, o que as pessoas faziam lá?

 

R - Na Vila Madureira todos eram voltados pra roça, pra agricultura. Era muito… Especificamente, interior. As estradas eram todas sem asfalto, sem água encanada, sem energia. Era basicamente uma comunidade. 

 

P/1 - Lembrava Mojó pra você?

 

R - Sim, muito.

Minha mãe começou com meu padrasto a plantar, ter vários bichos pra criar - galinhas, essas coisas. A área era muito grande, tinha como fazer isso. Aquilo sempre me lembrava a minha infância, o que eu passei no interior.

 

P/1 -  Nisso, seu filho cresceu um pouco lá também.

 

R - Sim.

 

P/1 - Você acha que ele se lembra dessa época?

 

R - Às vezes, quando ele vê as fotos, ele lembra um pouquinho. 

 

P/1 - Você conheceu nessa época algumas pessoas que estão aqui hoje? 

 

R - Sim. 

 

P/1 - Quem você conheceu?

 

R - Por exemplo, o fundador da Vila Madureira, que é seu Zacarias, a Patrícia, que é a filha dele. Uma pessoa que faleceu esse ano, que era o seu Zulu, que também morava lá. A dona Isabel com a família dela, que era bem grande. A dona Dadá, que não mora mais aqui hoje. Conheci muita gente de lá. 

 

P/1 - Como era essa comunidade? Era uma casa do lado da outra?

 

R - A do meu padrasto era uma das primeiras. Tinha a dele, do lado tinha a do Alex, que eram as mais próximas. O restante era mais pro fundo da Vila Madureira, onde tinha casas mais próximas. 

 

P/1 - E o que vocês faziam lá pra se divertir? Festa?

 

R - Tinha um festejo chamado São Benedito, aconteciam esses eventos lá. Basicamente era isso, ou às vezes faziam alguma festa com radiola, que se usa muito. Mas eu não ia muito. 

 

P/1 - Você se lembra de quando foi que as empresas, a Eneva chegou lá?

 

R - O ano, exatamente? Não lembro. 

P/1 - Eles conversavam mais com seu padrasto? 

 

R - Sim, mas algumas pessoas que estiveram por lá, [como a] dona Olga… Acho que foi uma das primeiras pessoas [com quem eles conversaram], eu estava presente. 

 

P/1 - Quando eles iam notificando…

 

R - Sim, sim. 

 

P/1 - O que eles falaram pra vocês? 

 

R - Eles falaram na época que iam fazer o remanejo de todo o pessoal da comunidade porque iam precisar da área, mas que a gente iria ser bem assistido. A gente não ia ser jogado fora daquele lugar. A gente ia ter outra casa, outro terreno pra ter o mesmo plantio que fazia lá. 

Houve uma negociação entre a empresa e a comunidade. 

 

P/1 - As pessoas ficaram ressabiadas ou não? Você se lembra do tom das conversas?

 

R - Muitos ficaram nessa dúvida de como iam proceder [com] tudo isso, porque ninguém tinha conhecimento de nada. Foi uma empresa que chegou e… Muitos, no início, não acreditavam que isso fosse acontecer e a gente nunca ia sair de lá. Quando viram que tudo isso estava acontecendo, algumas pessoas se perguntaram, como minha mãe: “Será que isso realmente vai acontecer? Eles realmente vão dar esse lugar pra gente morar?”

Foi quando aconteceu a primeira visita ao lugar pra onde a gente viria, que era aqui. E eu vim junto com a minha mãe visitar, saber como era, onde era o local. Viemos, na primeira visita, conhecer o terreno. 

Depois houve uma segunda visita, quando as casas já estavam em construção. Eu também vim. Houve uma terceira visita, pra cada um escolher onde ia morar. Eu também vim, pra saber onde seria minha casa. E aí comecei a participar mais de tudo o que ia acontecendo entre a empresa e a comunidade. 

P/1 - Da primeira vez que você veio aqui, nesse terreno, como era? Qual a impressão que você teve? 

 

R - Quando a gente veio, o primeiro impacto que eu tive foi [pensar]: é muito longe. Do Anjo da Guarda pra Paço do Lumiar é muito distante. Cair de paraquedas numa região em que você não conhece ninguém, não sabe nem pra que lado você vai, te causa certo pânico. 

Conversei com minha mãe. Disse: “Mãe, é muito longe. Será que a gente vai se adaptar?” 

Aos poucos, a gente foi se adaptando. Depois, quando a gente viu um novo lugar, todas as casas, uma do ladinho da outra, e comparando ao Anjo da Guarda, eu disse: “Será que vai ser um ambiente calmo, um ambiente de tranquilidade?” No Anjo da Guarda a gente não tinha mais isso, já era um ambiente muito perigoso. Eu já pensava muito no futuro do meu filho, convivendo com tanta crueldade, tanta marginalidade. Fiquei [pensando]: “Talvez pra cá as coisas possam ser melhores.”

Graças a Deus, hoje eu digo que não consigo mais sair daqui. Não consigo me adaptar de volta no Anjo da Guarda. Aqui eu tenho outro estilo de vida. 

 

P/1 - As pessoas da Eneva foram conversando com vocês. Como foram essas reuniões, no sentido de vocês falarem o que queriam, as demandas. Como isso foi negociado? 

 

R - Dessas questões eu não participava muito. Quem participava mais era meu padrasto. Foram muitas reuniões, isso eu sei te dizer porque como a empresa estava chegando e se tinha muitas decisões a tomar, as reuniões eram constantes. 

 

P/1 - Do momento em que eles chegaram ao momento que vocês vieram pra cá, quanto tempo durou o processo? 

 

R -  Não sei se foi em torno de dois, três anos. Eram várias famílias, então eles tinham que analisar cada família. Por exemplo, o meu padrasto: até onde eu sei, eles tinham que verificar como era a casa, quantos compartimentos tinha a casa, como ele vivia; quantos hectares tinha o terreno, quantos pés de plantação ele tinha. Foi um processo muito longo. 

P/1 - Eles vieram e tiraram fotos? 

 

R - Sim, tudo registrado. 

 

P/1 - Quando você viu as casas sendo construídas, o que você sentiu, o que pensou? 

 

R - Como eu morava com minha mãe, não tinha minha casa, foi um sentimento de alegria. Poder receber uma casa, poder ter a minha vida mais independente ainda com meu filho - na época, eu já tinha mais um filho. Quando eu vim pra cá, eu já tinha mais uma menina. Pra mim foi um sentimento de alegria, de vida nova. 

 

P/1 - Em que dia vocês vieram? Vocês se lembram da mudança?

 

R - Eu não sei se foi seis ou nove de março de 2009. 

 

P/1 - E como foi feita essa mudança?

 

R - Pra cada família foi direcionado um caminhão de mudança. Isso tudo foi com a empresa, eles organizaram tudo. A gente colocou todas as coisas dentro do caminhão e viemos pra cá. 

 

P/1 - Como foi colocar as coisas lá? Como era a casa?

 

R - Antes da gente vir pra cá a empresa já precisava do terreno. Como aqui ainda não estava pronto, eles alugaram casas e todo mundo foi pra essas casas alugadas, até o dia de vir pra cá. 

 

P/1 - Vocês ficaram quanto tempo nessas casas?

 

R - Acho que não foi muito tempo, em torno de quatro ou cinco meses. 

 

P/1 - Era onde?

 

R - Cada um ficou responsável por procurar e a empresa só ia pagar o valor. 

 

P/1 - E nisso estavam você, dois filhos… 

 

R - Minha mãe, minhas duas irmãs e meu padrasto. 

 

P/1 - E sua filha, como foi?

 

R - Bom, eu morei com o pai dela. Foi um relacionamento mesmo, convivi com o pai dela. Mas com dois meses dela nascida eu me separei. Aí já foi mais dor de cabeça, porque eram dois filhos. Tive que voltar pra dentro da casa da minha mãe - quando eu saí, deixei meu filho com ela. Ela não quis que eu levasse ele. Eu me separei e voltei com a menina. 

 

P/1 - Qual é o nome dela?

 

R - Isabela. 

 

P/1 - Ela nasceu quanto tempo depois do Tiago? 

 

R - Com três anos de diferença. Nasceu no dia dezessete de outubro de 2007.

 

P/1 -  Você se lembra do dia [da mudança], de vocês colocando as coisas na casa, como foi? O primeiro dia que você dormiu aqui? 

 

R - Sim. Quando a gente chegou aqui, não tinha árvores, não tinha nada, porque foi tudo tirado pra fazer as casas. A gente se sentiu muito perdido, sem saber pra onde ir, como ir, onde é, onde não é, porque a gente não conhecia nada aqui. Nos primeiros dias foi muito complicado. 

Em questão de segurança, a gente não conhecia os vizinhos, as comunidades vizinhas. A gente não sabia como era o ambiente. A empresa, por um determinado tempo ainda - não me lembro agora quanto tempo - disponibilizou a segurança pra gente, então tinha seguranças aqui durante um tempo. 

Pra mim foi um pouco complicado, porque eu comecei a ter problemas de visão. Não consegui me adaptar ao sol daqui. Durante o dia eu usava muito óculos escuros, porque me incomodava muito. Hoje eu acredito que tenho um pouco de problema no meu olho devido ao sol daqui. Eu dizia que o sol de Paço do Lumiar é diferente do sol de São Luís, mas acredito que é porque não tinha árvores ao nosso redor. Era tudo muito livre, a gente pegava muito sol. 

Passei uns dias bem complicados e dizia pra minha mãe que não queria ficar, que queria voltar pro Anjo da Guarda. 

Também [tinha] a questão da violência das comunidades vizinhas, que era muita. Chegou um dia que minha mãe disse: “Nós vamos embora daqui, a gente não vai ficar.” Tivemos uma conversa com a empresa, foi aí que colocaram um posto da polícia aqui e foi melhorando.

A questão do transporte aqui também era muito complicada. A gente passava horas e horas pra tentar sair e pra tentar chegar. Numa das vezes, eu lembro que saí e disse: “Mãe, se eu não conseguir voltar praí eu vou pro Anjo da Guarda.” Lá tenho a casa dos parentes, não tinha erro. 

Ainda desempregada, eu disse: “Mãe, aqui não vai dar pra eu ficar. Acho que eu vou voltar pro Anjo da Guarda.” Se eu voltasse, ela também voltava porque das três filhas eu acho que sempre fui a mais apegada a ela. Mas hoje, graças a Deus, a gente conseguiu superar tudo isso e digo que não me vejo mais voltando pra lá. 

 

P/1 - Quantos anos você acha que ficou nessa adaptação? 

 

R - Nós estamos aqui há onze anos; acho que foi uns dois, três anos, mas logo após eu comecei a trabalhar na escola, então já fui me adaptando mais. 

 

P/1 - Val, me conta uma coisa.  Quando vocês chegaram aqui, já tinham as casas. O que mais tinha de estrutura?

 

R - Só as casas, eu acho, e duas igrejas prontas. Como as escolas ainda não estavam prontas, todos já vieram com algumas escolas pras crianças poderem estudar. Meu filho, que ainda era da educação infantil, foi matriculado numa escola na Pindoba. A empresa também disponibilizou o transporte pra levar e trazer as crianças de volta pra cá. Tudo era por conta da empresa. 

P/1 - Como era a sua casa? Quando começou? 

 

R - Aqui? Como todas as casas, dois quartos, a cozinha, sala e banheiro. 

 

P/1 - Veio mais alguma coisa, eletrodoméstico?

 

R - Veio um liquidificador, um computador com a mesinha… O que foi mais, meu Pai? Um fogão com bujão… Eram cinco itens. A geladeira… Não me lembro qual era a outra coisa. 

 

P/1 - Máquina de lavar?

 

R - Não, não. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Tinha água, energia? Os postes também?

 

R - Sim.   

 

P/1 - E como foi a construção dos outros espaços aqui? 

 

R - A escola não estava pronta ainda, foi inaugurada no dia primeiro de agosto do mesmo ano, de 2009. Também a feira. O posto de polícia foi depois, o posto de saúde também foi depois. Na verdade, o que era mais necessário no momento era a escola, por conta das crianças. Como não tinha, elas foram estudar nas escolas das proximidades. 

 

P/1 - O polo agrícola já estava pronto? 

 

R - Não me lembro exatamente, porque eu não participei muito dessa questão do polo, dos terrenos. Só quem tem terreno lá é minha mãe, eu não tenho. Mas acredio que foi depois. 

 

P/1 -  Então no começo as pessoas não tinham muito como trabalhar lá. 

 

R - Não. Agora eu lembrei, realmente não tinha. O que aconteceu? [Pra] quem não tinha de onde tirar sua renda, a empresa foi dando esse suporte. 

 

P/1 - Nesse período, você estava tendo qual relação com a comunidade? 

 

R - Com a nossa comunidade? 

Muitos a gente já conhecia, né? Muitos a gente foi conhecendo aqui, porque algumas pessoas já não moravam mais lá. A gente foi criando outros laços de amizade com o pessoal que estava chegando. 

Lá cada um tinha sua casa, aqui foi diferente. Quando a gente veio pra cá, eu não morava perto de outra pessoa que veio morar aqui agora, entendeu? A gente foi se adaptando e tendo esse conhecimento de outros vizinhos.

 

P/1 - Quem estava [morando] ao lado de vocês, na época?            

                                    

R - Lá na Vila Madureira? 

 

P/1 - Não, aqui. 

 

R - Aqui, hoje, do meu lado é a minha mãe e do outro lado é o Alex com a Rafaela.

 

P/1 - Então teve uma casa pra você e uma pra sua mãe e seu padrasto. 

 

R - Isso. 

 

P/1 - Ficou na sua casa você e seus dois filhos. 

 

R - Hoje, sim. 

 

P/1 - Como foi a construção da escola? Demorou uns meses? 

 

R - Sim. Quando a escola ficou pronta, foi inaugurada em agosto, todas as crianças que estudavam fora vieram pra cá. Foram remanejadas, além das comunidades vizinhas, que também não têm escola. Estudam todos aqui. 

 

P/1 - Quem dava aula lá no começo?

 

R - Aqui? 

Foi onde começou a minha vida profissional novamente. Eu vim trabalhar aqui assim que a escola foi inaugurada. Comecei como [funcionária] administrativa, trabalhava no turno da tarde. 

Meu filho voltou pra terminar a educação infantil dele; na época, minha filha anda não estudava. Ele teve a vida escolar dele toda aqui, do Infantil II até o nono ano. 

As coisas foram melhorando, porque com a escola a gente não tinha essa preocupação de mandar os filhos pra outro lugar. Pra eles também, tudo era novidade; mesmo que tivesse o transporte pra levar e buscar, a gente tinha preocupação porque tudo era novo pra gente, não conhecia nada. 

Eu fui até essa escola pra saber como era, onde era, até pra levar ele mesmo porque ele só tinha quatro, cinco anos. Fui fazer esse acompanhamento com ele.  

 

P/1 - Quem eram os professores, professoras? 

 

R - Aqui de baixo?

 

P/1 - É.

 

R - Muitos não estão mais aí. Na época, era a professora Edna, a professora Rose, a professora Beth, Enilda, Renata… Eu era da parte do administrativo, junto com a Patrícia, também com a Bruna.

 

P/1 - Eles vinham de onde, esses professores?

                 

R - De vários lugares - Maiobão, São Cristóvão… Até do Anjo da Guarda tinha uma professora que foi professora do meu filho, a professora Dulce. [Tinha professor] de Raposa, de Ribamar - tinha o professora Adex, de Ribamar. Eram de várias localidades. 

 

P/1 - E quantas crianças tinha no começo? Você se lembra?

 

R - No início, a escola começou a funcionar da educação infantil até o nono ano. Foram poucos alunos, acho que em torno de cem, cento e alguma coisa. Hoje está em torno de seiscentos alunos. 

 

P/1 - Em todos os turnos?

 

R - Sim, no geral - na parte de baixo. Fora a educação infantil, que temos em torno de 215 alunos.  

 

P/1 -  Você estava trabalhando no administrativo. O que você fazia?

 

R - Toda a documentação da escola, da folha de ponto dos funcionários a histórico de alunos, declarações de alunos, documentos que iam pra Secretaria de Educação. Tudo que envolvia documentação da escola eu fazia. 

 

P/1 - Você e a Patrícia. 

 

R - Isso. Na verdade, éramos quatro [funcionárias] administrativas: uma pela manhã, que era a Patrícia, eu pela tarde e à noite, que no início funcionava o EJA, era a professora Pedra, junto com a Bruna. 

 

P/1 - O que você achava desse trabalho novo?

 

R - Pra mim, foi outra realidade. Antes de vir pra cá, eu tive um pouco de experiência, lá no Anjo da Guarda, numa escola, mas lá foi só experiência mesmo. Quando eu cheguei aqui tudo era novo, não sabia como se procedia, então fui aprendendo no dia a dia e também com os colegas de trabalho, os professores que já tinham uma história de vida na educação. Fui pegando um pouco daqui, um pouco dali; às vezes participava de cursos e a gente foi aprendendo. 

Passei uns quatro anos e pouco na administração da escola.

 

P/1 - Como eram as reuniões entre os moradores? Como vocês se organizam aqui? 

 

R - Todo fim de mês tínhamos a reunião com todos os moradores, pra saber como a comunidade estava, o que estava faltando, o que ainda não tinha acontecido, qual era a insatisfação dos moradores. Enfim, a reunião era pra ver como estava a nossa comunidade e [as reclamações] serem levadas à empresa - no caso, ainda era a MPX.

      

P/1 - Como foi a construção da rádio, da casa do tambor de crioula? Isso foi mais pra frente?

 

R - Como já existia na Vila Madureira o [festejo de] São Benedito, que é o santo de toda a programação deles, o tambor de crioula já veio de lá. Eles tinham que dar continuidade aqui ao trabalho. 

Hoje, acho que a Edileuza, a filha da dona Isabel, é a presidente do tambor de crioula. Ela continua com esse trabalho da parte da cultura. Hoje eu acredito que já esteja tudo legalizado, tudo bonitinho. Todo ano ela faz um dia específico pra ter esse festejo. 

Na questão da rádio, houve uns cursos pra quem gostava dessa área. Algumas pessoas fizeram os cursos pra se profissionalizar, pra fazer a rádio. Hoje ela está parada, mas construíram tudo, chegou a funcionar. Teve as pessoas que fizeram curso e estavam trabalhando nos programas. 

 

P/1 - O tambor de crioula, pra quem não conhece, é uma dança?

 

R - É uma dança, tipo essa dança que eu te falei, a portuguesa. O tambor também faz parte da época junina, é uma cultura nossa aqui do Maranhão. É o tambor de crioula, o bumba-meu-boi, as danças portuguesas, as quadrilhas, entre outras. A cultura daqui é muito rica. 

Eles também viajam, fazem apresentações. Geralmente, quando tem seminários da Eneva, no último dia eles sempre fecham os seminários com as apresentações deles.

P/1 - Essa dança tem o tambor? Como é?

 

R - São homens, geralmente, que ficam batendo os tambores, e as mulheres, com saias rodadas, dançando. 

 

P/1 - Essa dança tem a ver com herança africana? 

 

R - Eu acredito que sim, porque é voltada praquela época dos escravos. Tem toda aquela dança, aquela cultura mesmo. Acredito que seja voltada pra isso. 

 

P/1 - Você estava trabalhando no administrativo nessa época. Como você fez esse salto pra virar professora? 

 

R - Eu gosto muito de contar a minha história de vida como exemplo[pra] que outras pessoas possam seguir o mesmo caminho, no sentido de crescer profissionalmente. 

Entrei como administrativa; fui aprendendo, porque não sabia como funcionava uma escola, como aconteciam todos os procedimentos. Depois de mais ou menos quatro anos, uma diretora que estava aí teve um olhar diferente pra mim e disse: “Ano que vem eu penso em te colocar numa sala de aula como auxiliar de professora, mas pra isso você precisa começar a fazer uma faculdade.” 

Eu ainda não tinha feito faculdade por vários motivos, principalmente o financeiro. Aí eu disse: “Realmente, você não está errada. Eu ainda não fiz faculdade não porque não quis. [Foi por] questões financeiras, entre outras.” 

No ano seguinte, eu de fato saí do administrativo, dei vaga pra outra pessoa, e fui pra sala de aula. Comecei na sala de aula e comecei a faculdade.                     

Eu me formei, fiz quatro anos de Pedagogia. Quando estava terminando a minha graduação, fiz uma pós-graduação em Gestão e Supervisão Escolar. Passei quatro anos em sala de aula, na educação infantil, mas enquanto administrativa da UEB [Unidade de Educação Básica], eu percorri toda a escola. Eu não fui somente administrativa. A vida que eu tive no McDonald’s, onde eu fazia de tudo… Na UEB não foi diferente. Você não está ali apenas pra fazer a função que lhe foi determinada, você acaba fazendo tudo. 

A gente costuma dizer que quando você está na educação você é educador. Todo personagem que está na escola é educador. Até pra sala de nono ano eu fui. Quando um professor faltava e eu me preocupava, eu não deixava os alunos voltarem. Eu já estudava um pouco em casa pra preparar algo pro dia seguinte, porque eu já tinha noção. Eu sempre estava dentro de sala de aula, ou então, se precisava limpar… Eu sempre fazia tudo. 

Passei quatro anos na educação infantil e daí eu pulei pra coordenadora. Passei seis meses na coordenação, saí e hoje estou na gestão da escola de educação infantil. 

 

P/1 - Você se lembra da primeira vez que entrou em sala como auxiliar? Como foi?

 

R - Sim. Tudo que você pega pela primeira vez, você tem um espanto, um choque. Como é que eu faço? Mas eu digo que sempre tive sorte, porque a faculdade não nos ensina tudo. Na faculdade você tem uma base, você tem aquilo documentado, mas quando é a prática é totalmente diferente. 

Eu tive professores na faculdade e professores ao meu lado. Devo muito a uma pessoa chamada Edna, que esteve sempre conosco. Hoje ela não se encontra mais no meio da gente, partiu, mas ela me ensinou muito. Nos momentos em que eu estive ao lado dela, eu aprendi muito, aproveitei ao máximo. Hoje, o que eu [aprendi] na prática, dentro da sala de aula, não foi na faculdade; foi ao lado de uma profissional que estava do meu lado. Ela me passou muitos conhecimentos, já tinha uma longa bagagem com ela. A metade do que eu sei eu devo à ela; ela se foi, mas me deixou muito conhecimento de sala de aula, de educação infantil.

 

P/1 - Quando você entrou como auxiliar, os alunos da sala tinham quantos anos?

 

R - Eu passei pelas quatro etapas: creche de dois anos, de três anos, Infantil I, que são meninos de quatro anos, e Infantil II, que são meninos de cinco anos. Percorri todos. Eu tive todo o conhecimento, não fiquei determinadamente em uma sala. 

 

P/1 - Como é ensinar crianças?

 

R - Eu digo que me identifiquei mais com os alunos de quatro e cinco anos. São alunos mais independentes, já têm um pouco mais de bagagem. 

Na creche, você está começando, é todo um procedimento; é como se eles estivessem nascendo novamente e você vai ensinar tudo pra eles. Quando já estão com quatro, cinco anos, eles já têm mais noção: sabem pegar um lápis, escrever um pouquinho, sabem que tem que abrir o caderno. Na creche não, você tem que ensinar tudo. 

A educação infantil me conquistou. São crianças pequenas e você não é apenas professor - você é pai, mãe, tio… Você é médico, psicólogo, tudo. Às vezes, você consegue identificar numa criança o que o pai e a mãe não conseguem identificar. Eles nos veem, na verdade, como uma segunda mãe, porque a gente tem todo aquele cuidado de saber como conversar, como chegar, de dar um suporte que às vezes os pais em casa não conseguem. Transmitir um carinho, [porque] às vezes um aluno chega aqui tão carente que basta você colocar o olho que você percebe. Você consegue identificar que aquela criança não está bem, está necessitando de alguma coisa. Você dá um abraço numa criança dessa e ela [se] desmonta toda. 

Pra mim, ter experiência, tanto na educação infantil quanto no ensino fundamental… Eu me vi mais na educação infantil. 

 

P/1 - Pra quem não conhece, diga pra gente o que uma criança aprende com quatro, cinco anos. 

 

R - Coisas que se perderam ao longo do tempo foram os valores. Hoje os pais entendem que a escola não é mais pra ensinar valores, e sim um depósito de crianças. 

Eu digo que a gente tem muito trabalho hoje nessas questões, porque a gente tenta passar pra elas o que é um simples ‘bom dia’, um simples ‘boa tarde’, coisas que os pais não ensinam mais. Digo isso por experiência própria, porque eu passo pros meus filhos. A minha filha de treze anos só vai dormir se me tomar a bênção. Pra muitos, isso não existe mais. 

Uma criança de quatro anos, [se] chegar em casa e disser pro pai que aprendeu isso na escola, o pai vai achar errado, que não se faz mais isso, não se deve ensinar isso. Pra nós, o dever é ensinar a ler e escrever; é assim que eles pensam, mas não é bem assim. A gente tem todo o cuidado, todo um trabalho de ensinar a criança de três anos a começar sua independência, comer com suas próprias mãos, porque a gente sabe que em casa é diferente. Tem o pai e a mãe pra dar comidinha na boca, mas a gente ensina tudo isso. É desde aí que se ensina a ir ao banheiro, dizer como se faz… Em casa, as crianças fazem de qualquer jeito. 

A escola não está [ali] apenas pra ensinar a ler e escrever. É toda uma base, uma construção que a gente tem, de ter cuidado com essas crianças, de fazer o bem. Ensinar que ao acordar ele deve dar um ‘bom dia’ e ao dormir ele deve dar um ‘boa noite’. 

 

P/1 - De matéria, tem isso: saber ler, escrever, contar. É essa a idade?

 

R - Sim. A educação infantil é muito diferente do ensino fundamental. Hoje a gente trabalha com a BNCC [Base Nacional Comum Curricular]. A BNCC é muito voltada pra questão lúdica, a criança aprende brincando. Se você colocar um vídeo educativo ou uma música que fale dos números, ela vai ter mais facilidade de aprender do que eu estar do lado dela, explicando que isso é o numeral um. Brincando, através de uma música, de uma brincadeira, ela vai aprender tanto os numerais quanto o alfabeto. 

 

P/1 - É dessa forma que vocês ensinam, então.

 

R - Sim. A educação infantil é muito voltada pro lúdico, pras brincadeiras, as interações. Não estar preso dentro de uma sala de aula, com aquele conteúdo martelando todo dia. “Vamos ler o alfabeto.” A gente não quer que a criança decore, a gente quer que a criança aprenda. Se eu for lá no quadro, colocar o alfabeto de A a Z e fizer aquela leitura todo dia, ele vai saber A, B, C, D. Mas se eu fizer de outra forma, apresente o alfabeto, determine uma letra e pergunte a ele que letra é aquela, ele vai saber me responder porque eu não estou na ‘decoreba’. Estou de uma forma lúdica, através de uma música ou brincadeira, apresentando pra ele o alfabeto. 

 

P/1 - E como era [em] Mojó?

 

R - Na época, não existia essas coisas. Era muito tradicional. Existiam cartilhas, tanto do alfabeto quanto da matemática. Hoje a gente quase nem vê essas cartilhas de antigamente. A tecnologia está muito globalizada, então hoje as crianças… A gente perdeu muito na questão das brincadeiras, porque a criança quer estar só aqui [faz o gesto de brincar com jogos eletrônicos]. Lá ela aprende o alfabeto sozinha, os numerais, as formas geométricas, aprendem as cores, tamanhos. Tudo elas aprendem ali, sozinhas, porque a tecnologia já oferece isso pra elas. Quando você está em uma sala de aula, trancado, fazendo daquela forma tradicional de antigamente, a gente diz que é o ‘decoreba’. Você aprende a ler porque está o tempo todo ali, martelando. 

Os pais mesmo, em casa, podem ter a tecnologia a seu favor. Pros pais, hoje, como estamos vivendo na pandemia, a gente está tendo muita dificuldade. A própria criança de cinco, quatro anos chega pra mãe e diz: “Você não é meu professor. Você não sabe me ensinar.” Eles estão tendo muita dificuldade com essas questões. 

Às vezes, os pais dizem assim: “Criança desse tamanho não aprende, desse jeito ela não vai aprender.” Aí é que se enganam. Eles conseguem aprender dessa forma que a gente faz, na sala de aula. E a gente não se prende só em sala de aula, a gente sempre traz eles pra outro mundo. A gente coloca eles no pátio, faz passeios, bota um vídeo pra eles assistirem. A gente sempre tem aquela preocupação em trazer novidades pra eles, até porque hoje, se a gente parar, eles vão acabar nos ultrapassando.

 

P/1 - Vocês  os levam pro polo agrícola?

 

R - Sim, a gente já levou. E pra eles é emocionante, eles ficam maravilhados quando saem da escola pra ir a outro lugar. Esse ano, infelizmente, a gente não pode fazer esse tipo de passeio, mas no ano passado a gente levou eles pro Wang Park, levamos aqui dentro da comunidade pra fazer… [Aula de] meio ambiente, eles fazem o plantio. A gente também tem um projeto da hortinha dentro da escola, eles mesmos fazem todos os processos: pintar um pneu, colocar areia dentro do pneu, plantar a sementinha, regar todos os dias, até que aquela plantinha vá crescendo. Eles mesmos vão lá, junto com a professora, vão molhando; a professora vai dando toda a explicação. Quando chega o momento da colheita, cada um faz a colheita do que plantou. Chega em casa, vai explicar passo a passo pra mãe dele como foi feito na escola. 

 

P/1 - Eles gostam de ver as coisas crescendo? 

 

R - Sim. Infelizmente, nesse ano a gente não pôde ter nada disso, mas no ano passado… Não sei se vocês observaram lá fora, ao entrar na escola tem uns pneuzinhos lá, com umas plantas. É ali que eles faziam o plantio. Era bem decoradinho, a gente colocava o nomezinho lá. 

Ano passado tinha um aluno do Infantil II, de cinco anos, [que] fez o plantio de tomate cereja. Toda semana tinha um dia específico pra cada turma regar as plantinhas. Quando ele viu o tomatinho nascendo, ele disse: “Tia, quando tiver bastante tomatinho aqui eu vou pegar e vou vender.” Ele sabia que tinha dias específicos em que eles iam molhar e como tudo ia acontecendo, estavam participando de todo o processo. 

A gente sempre dava uma mudinha pra eles levarem pra casa, pra fazer a mesma coisa em casa. Pra eles, tudo aquilo era novo, era um momento diferente. Era um momento em que eles não estavam só em sala de aula, porque também é cansativo, ainda mais [pra] criancinhas, que entram às sete e meia na escola e saem onze meia. É muito tempo. Tirá-los sempre daquele momento, daquele espaço de sala de aula, e colocá-los em outro lugar é muito bom, sempre inovador.    

 

P/1 -  Você tem algum aluno que se lembra com mais carinho, que marcou? 

 

R - Como a gente conhece nossas crianças, vindas de muitos lugares, sempre tem uns que a gente acaba se apegando muito, porque a criança vem e fala com você, ou porque aquela criança está passando por um momento difícil, ou porque a mãe está tentando encontrar o que foi que aconteceu com a criança. São vários fatores. 

Eu tenho um aluno específico, que é esse que eu citei, do tomate. Ele está conosco desde a creche. Esse é o último ano conosco, daqui ele já vai pra UEB porque vai fazer o primeiro ano. A gente sempre notou que ele é uma criança diferente e quando a gente percebe isso, chama a mãe, tem toda uma conversa. A gente vem dando esse suporte pra ela. 

Ao longo dessa caminhada, ela acabou descobrindo que ele sofre de ansiedade. Ele é muito ansioso, muito agitado, mas é uma criança muito inteligente. 

A gente está todo o tempo dando esse suporte, ajudando, conversando com ela; ela já foi em vários especialistas, porque a gente fez um relatório, encaminhamos à Secretaria de Educação, pedindo que viesse uma equipe pra avaliar o caso dele. Só que durante esse tempo, acaba tendo alguns atropelos e esse ano foi um - ela estava tentando agendar um especialista, que é bem difícil, e não tinha conseguido ainda.                                                                     

Às vezes, quando ela aparece aqui, eu pergunto como ele está em casa. Ela disse: “Ele está tomando alguns medicamentos pra tentar ficar mais calmo, porque em casa ele também é da mesma forma que é na escola.” 

Por mais que ele dê trabalho, como a gente costuma dizer - criança que não para dá trabalho - a gente não tem como esquecer. Todo o tempo, tanto a professora quanto o agente de portaria, as meninas da limpeza, da cozinha - todos estamos sempre de olho nele. Às vezes, a professora chega pra gente e [diz]: “Não sei o que faço com o fulano hoje. Hoje ele tá daquele jeito.” A gente leva pra secretaria, conversa um pouco com ele, faz algumas perguntas. 

A gente percebe também a questão do ambiente familiar. Quando se chama a mãe pra uma conversa, ela vai contar todo o histórico dela e a gente acaba encontrando alguns fatores que fazem com que ele seja dessa forma hoje, além dos problemas de saúde que ele já tem. 

Ele não tem como esquecer, porque a gente tem essa preocupação [de] como ele está em casa esse tempo todo, sem estar na escola. A mãe deve estar tendo muito trabalho. 

Além daquelas outras crianças que acabam indo embora por alguns problemas que existem. A gente acaba se apegando. Às vezes, a gente ainda tem contato ou não. Tem crianças que têm problemas de família; as mães chegam pra gente e dizem assim: “Hoje ele não vai poder ir pra escola, porque ele não tem material escolar. “ E a gente tenta contornar a situação. “Mamãe, se esse é o problema, você pode mandá-lo [pra escola]. A gente dá um jeito, dá suporte, mas não deixe de mandá-lo.”

Crianças que a gente se apega pela história, que não têm carinho em casa. Tem crianças que são muito retraídas, mas tem aquelas que falam tudo que acontece dentro de casa. A gente tem esses que chegam: “Tia, hoje aconteceu isso e isso.” A gente fica assim: “Meu Deus, tá acontecendo tudo isso e essa criança tá carregando isso só.” A gente acaba se apegando também nesse tipo de situação e acaba trazendo tudo pra gente. 

Não é só aquele trabalho dentro de uma sala de aula, envolve muitas outras coisas. Crianças muito carinhosas… Aquelas que não são muito carinhosas, a gente tenta entender o porquê. Quando a gente tenta entender, a gente acaba encontrando certas situações. 

Crianças que a gente vê constantemente, que sempre estão passando na porta da escola, que de longe dão um tchauzinho, estão com saudade… Hoje a gente está tendo contato somente através dos grupos de Whatsapp, então a gente acaba matando um pouco essa saudade pelos grupos, onde elas ficam mandando as fotos das crianças fazendo atividade, ou em casa, fazendo alguma coisa… [Então] agora [o contato] é através de registros pelos grupos do Whatsapp. 

 

P/1 - Na pandemia está funcionando assim, então. 

 

R - Isso. Aqui, na nossa escola de educação infantil, a gente está trabalhando dessa forma. A gente criou os grupos com os professores e todo mês a gente forma uma apostila; muitos não têm condições de pagar, então a escola faz uma apostila e a mãe vem pegar na escola. Tudo é feito através do grupo do Whatsapp. Os professores acompanham tudo pelos grupos. 

 

P/1 - A parte de educação infantil se separou da UEB, é isso?

 

R - Sim. Aqui funciona só a educação infantil, a escola comunitária. E lá só a parte do ensino fundamental.                                                     

                

P/1 - Até o nono ano. 

 

R - De primeiro ao nono ano. O EJA já não existe mais. 

 

P/1 - No começo, vocês atendiam basicamente as pessoas da Vila Canaã. 

 

R - A escola?  Não, o Canaã é pequeno, existem só 95 casas. Existem poucas crianças, então não tinha como. Hoje, [a escola] abrange muitas comunidades próximas daqui, por isso o número de alunos é bem elevado. 

 

P/1 -  Como é a relação da Vila Canaã com os bairros do entorno, hoje em dia? 

 

R - A gente tem um bom relacionamento, porque além da escola temos o posto de saúde agora, que funciona. Ele não atende só a Vila Canaã, atende todas as comunidades vizinhas. 

A Vila do Povo, que é a mais próxima que temos aqui, é uma vila muito grande. Eles não têm escola, não têm posto de saúde, então todos são atendidos aqui - as crianças na escola e o posto de saúde também atende a Vila do Povo. 

 

P/1 - Não tem rivalidade? 

 

R - No início, como eu te falei, foi um pouco tenso, porque a Vila do Povo era cheia de pessoas do mal, pra não usar outro termo. 

Logo no início, foi muito complicado, eu tinha muito medo. Houve uma época que tinha muita rivalidade de gangues, viviam se matando, até que acabou. Alguns foram embora, outros morreram. O posto [policial], isso também nos trouxe muita paz, mais tranquilidade. Não que não aconteça ainda, mas hoje está bem melhor. 

 

P/1 - Ao longo desse tempo, vocês continuaram tendo conversas com a Eneva? Como é essa relação?

 

R - Sim. Hoje, a Eneva e a comunidade não são mais como no início. No início, tinha todo um suporte; o escritório da MPX ficava onde é o posto da polícia hoje. Tinha assistente social - ainda tem, só que o escritório era aqui, qualquer coisa que [a gente] precisava era mais fácil de resolver. 

Ao longo da caminhada, eles foram deixando que a gente se virasse, digamos assim, caminhando com nossos próprios pés. Ainda dão uma assistência, mas estamos com onze anos, estão nos deixando aos poucos. 

 

P/1 - E você acha que estão conseguindo caminhar com as próprias pernas?

 

R - As oportunidades foram dadas. Quem teve oportunidade de crescer cresceu, mas isso eu acredito que depende de cada um. Como eu disse, uso muito a minha história como exemplo. Se hoje eu estou aqui, cresci como profissional, digo que tudo aconteceu aqui. 

Hoje a minha vida está bem melhor, tenho minha própria casa, moro com meus dois filhos. A questão profissional partiu daqui, da escola, onde eu tive oportunidades; fui aproveitando cada uma delas e crescendo profissionalmente. 

Uso muito a minha história como exemplo, pra que todos possam seguir suas vidas. Que não seja na educação, mas que seja na área da saúde, em outras áreas. Que cada um possa agora conduzir sua vida. 

A empresa fez sua parte, ainda continua fazendo, mas cada um precisa seguir sua vida. As oportunidades foram dadas. Quem aproveitou, aproveitou; quem não soube aproveitar agora tem que seguir sua vida. 

 

P/1 - Como você vê a educação aqui na Vila Canaã? Qual a importância disso?

    

R - Vindo do interior, em que a vida é difícil… Na época, vindo de lá pra São Luís, onde passei muito tempo, e de São Luís pra Paço do Lumiar - é um outro município - eu digo que a educação aqui ainda é precária. Comparando a São Luís, às escolas que eu estudei, Paço do Lumiar ainda tem muito o que melhorar. Não só na educação.

Como a gente fala enquanto educador, mas também como pessoa, a educação é a base. Se você não tiver educação, você não consegue ser uma pessoa melhor. Hoje eu digo que o ensino médio não é mais nada; o magistério de antigamente, daqui a pouco não vai mais valer nada. Se você tem uma graduação, é pouco; se você tem uma pós-graduação, ainda é pouco. A gente tem que estar o tempo todo se reciclando. 

Vendo hoje todos os atropelos que a gente vem passando na educação em Paço do Lumiar, eu vejo que eles estão sofrendo muito com isso. Por mais que a gente tente fazer, porque trabalhar na educação… Pra fazer o seu papel na educação, você tem que fazer com amor. 

Tem muito que se melhorar. Eu digo que meu filho, no ano passado e nesse ano, perdeu muito. Ele já está no ensino médio; fez o primeiro semestre, quando chegou no segundo semestre a escola dele entrou em reforma. Ele passou o restante do primeiro ano sem estudar. 

No segundo ano, que é esse ano, teve a pandemia, então ele está esse ano inteiro sem estudo, porque presencialmente já não é muito positivo, ainda mais desse jeito… Ele teve uma grande perda e eu me preocupo com isso, porque no ano que vem ele vai pro terceiro ano. Embora eu diga que meu filho é um menino inteligente, de dezesseis anos, isso não vai fazer com que ele volte ao passado. No ano que vem ele não vai poder resgatar o que perdeu. O que ele perdeu vai ficar perdido, mesmo que ele estude em casa, mesmo que os professores o estejam acompanhando. Por mais que eles digam “a gente vai fazer o segundo e o terceiro ano no ano que vem”, pra mim isso não existe. Ou você faz ou você não faz. 

A educação em 2021 a gente não sabe como vai ficar. A educação, eu digo que é o pilar. Se você não estiver focado, se não tiver compromisso, as coisas não funcionam.                    

 

P/1 - Ele já tem algum sonho hoje, de querer ser alguma coisa?

 

R - Como a gente conversa muito e eu sempre dou muito suporte, tanto pra ele quanto pra ela, eu já comecei a perguntar pra ele o que ele quer ser. “Mãe, eu ainda não sei.” Eu disse: “Mas você tem alguma coisa em mente?” 

Eu o vejo muito focado na área de tecnologia. Eu tenho essa visão, mas talvez ele não veja isso. Também já o vi muito focado na área administrativa, já comecei a lançá-lo, digamos assim, pra ter outros olhares, ver se ele consegue definir o que pensa, o que ele quer. 

A menina, eu já perguntei pra ela. Ela tem treze anos. Ela disse: “Mãe, eu quero ser professora.” “Tu tens certeza?” 

Eu os deixo muito livres pra opinar, não vou colocar na cabeça deles que eles têm que ser isso porque eu quero. Não, vai ser uma escolha deles. 

 

P/1 - Por que você disse pra mim que não sai mais daqui?

 

R - Porque já me adaptei. A vida que eu tinha lá… Talvez, se eu estivesse ainda lá, eu não teria o que eu tenho aqui. Hoje eu tenho 36 anos, moro com meus dois filhos, tenho minha vida praticamente… Não estabilizada, mas uma vida bem melhor do que eu tinha lá. Hoje eu tenho a minha formação, a faculdade eu fiz depois que cheguei aqui, fui me estabilizar profissionalmente e também pessoalmente. 

Lá eu já tinha medo, de certa forma, pela violência, ainda mais com dois filhos. Eu pensava muito [nisso]. Hoje a gente vive numa paz que lá não tem. A minha preocupação era com o futuro dos meus filhos. 

Hoje, aqui, é uma tranquilidade que eu gosto, que lá não tem, ou em qualquer bairro que eu fosse daqui pra morar. Eu já me acostumei aqui. Talvez saísse daqui pra morar [em outro lugar], mas pra mim está bom agora. Pode melhorar, lógico.    

 

P/1 - Como você sente a associação, a comunidade? Como está a união entre os moradores? 

 

R - Quando se trata de ser humano, é difícil. Eu não faço parte da direção da associação, mas estou sempre envolvida. Estamos numa época política, numa época de pandemia, e como moro dentro da comunidade, trabalho dentro da comunidade, sempre estou envolvida em tudo. 

Como eu falei, trabalhar com o ser humano é muito difícil. Eu tenho um pensamento, fulano tem outro, a minha ideia não é a ideia de fulano, mas sempre quem que ter o respeito. Eu tenho a minha ideia, não significa que você não pode expor a sua. 

Nossa comunidade hoje está bem distante. A gente não consegue mais juntar toda a comunidade pra uma reunião, a gente tem muita dificuldade. Isso, no início, se fazia, mas hoje não. É como se fosse cada um por si, é como se não existisse uma comunidade. É como se fosse um bairro, cada um por si e ponto. 

A gente tenta, mesmo assim, desenvolver todos os projetos que a gente vai em busca. Estou sempre muito ligada com a Patrícia, como faço parte da escolinha, e a Dil, a minha irmã, [que] é do Serviço Social, está muito dentro da comunidade. A gente tenta buscar muita coisa pra comunidade, só que os próprios moradores não nos ajudam, nem reconhecem o que a gente tenta trazer pra cá. Está havendo esse grande impasse entre a comunidade e a associação. 

 

P/1 - O que a associação e vocês, na escolinha, estão tentando trazer?

 

R - Uma das coisas que a gente está em busca, que a gente já deu início, foi trazer um polo de uma faculdade pra dentro da UEB. Isso vai gerar tanto renda pros próprios moradores quanto a questão do crescimento profissional. Quem não tem oportunidade de fazer uma faculdade no Maiobão, como eu fiz, e também [não tem] a questão financeira, pode fazer aqui, dentro da própria comunidade. Só que quando você vai fazer uma pesquisa, que foi o que já fizemos em todas as casas, você não consegue porque às vezes a pessoa não te dá espaço, não quer ou não dá importância nenhuma. A gente está travada nesse sentido porque não vai abrir espaço só pra comunidade e sim pra todos os envolvidos, que estão ao nosso redor, todas as comunidades vizinhas. 

A gente está com esse projeto de trazer esses polos. Já vimos quais as faculdades mais procuradas, fizemos uma pesquisa. No caso, seriam Pedagogia e Administração. Trazendo um polo pra dentro da UEB, quem ainda não teve oportunidade de fazer uma faculdade vai ter. E também vai gerar emprego, porque vão precisar de pessoas pra trabalhar na UEB aos fins de semana e essas pessoas a gente iria retirar de dentro da própria comunidade.                  

 

P/1 - As pessoas que moram hoje dentro da comunidade são das famílias originárias da Vila Madureira ou tem pessoas de fora?  

 

R - Tem muitas pessoas de fora. São poucos os que vieram de lá que ainda se encontram aqui. A minha mãe praticamente reside no polo agrícola, junto com o meu padrasto. Como ele fica muito voltado pra lá, ela vem, passa dois dias aqui e volta pra lá. Outras pessoas também construíram casas dentro do polo agrícola, então saíram de dentro do Canaã e moram lá. Outras venderam suas casas, foram pra outros lugares. Algumas se encontram alugadas. 

Se a gente for fazer hoje uma pesquisa pra saber quantos moradores que vieram de lá e ainda residem [aqui], são poucos.

 

P/1 - Você consegue chutar uma porcentagem?

 

R - São 95 casas. Acredito que vinte famílias, ou menos, [são] dos que vieram de lá.

 

P/1 - Como você vê, em geral, o futuro da Vila Nova Canaã? O que você espera e o que sente aqui? 

 

R - A gente sempre procura melhorias. A gente sabe que ainda falta muita coisa. Eu penso no crescimento. Uma escola melhor, maior, que a gente possa levar a essas crianças melhorias. 

A nossa praça, ela precisa ser melhorada, revitalizada, porque está aí há onze anos da mesma forma que foi construída. A gente já tem projetos pra essa praça também, de fazer uma praça com academia, onde os moradores e os moradores vizinhos possam vir e fazer seus exercícios físicos. Você sabe que hoje a questão da saúde está buscando muito isso, então seria pra que as pessoas pudessem sair de suas casas e terem um lazer melhor na nossa praça, porque ela não está com essas condições. 

Eu penso que o Canaã tem muito pra crescer, pra melhorar. Tanto ao nosso redor como dentro do Canaã. 

 

P/1 - Você acha que a Vila Canaã ajuda as outras regiões ao redor a melhorar?

 

R - Eu vejo que depois que a Vila Canaã veio pra cá abriram-se outros leques pra outras comunidades. A escola não é só pro Canaã, o posto de saúde não atende só o Canaã, o posto policial não atende só o Canaã. Tudo envolve as outras comunidades. 

Quando se faz eventos aqui dentro, não se faz só pra comunidade, chama-se todas as vizinhas. O que nós fizemos por último foi o Dia das Crianças. A gente não poderia deixar passar sem fazer nada, mas [foi] tudo pensado na questão do momento que estamos vivendo hoje. 

A gente costuma sempre fazer a festinha, chama-se todas as crianças, distribui brinquedos, lanches. Esse ano, pegamos um carro aberto, decoramos o carro, pegamos os brinquedos, colocamos dentro do carro; a gente se veste de fantasias e saiu de casa em casa, distribuindo os brinquedos, pra que não viesse ninguém pra cá, pra não ter aglomerações. Quando terminamos a Vila Canaã, fomos pra Vila do Povo. Fizemos a entrega em três ruas e fomos pra outra comunidade, fazer a mesma coisa. Não atendemos só a Vila Canaã no Dia das Crianças.           

A gente também faz Dia dos Pais, Dia das Mães. A gente sempre faz pra atender as comunidades vizinhas, que estão perto da gente. 

 

P/1 - Como você vê o seu futuro hoje? Os seus sonhos, seus objetivos?

 

R - Com a aprendizagem ao longo do tempo, com os conhecimentos que eu venho tendo, não só profissionais, mas também de pessoas, eu acabei me envolvendo com outro lado. Eu me formei em Pedagogia e me pós-graduei em Supervisão e Gestão. Queria ver agora outro lado, pensei agora em me formar em Meio Ambiente, mas acabei me envolvendo com uma questão política, onde conheci novas pessoas, novos ambientes e acabei me encantando com a questão agrícola. Pensei em ver uma formação voltada pra essa área. Também não foge muito da nossa questão de educação, também mexemos com projetos tanto na área do meio ambiente quanto do polo agrícola, na nossa horta. 

Pensei em Agronomia. Não sei se ao longo do tempo vou continuar com esse pensamento ou não. Vejo que cresci muito profissionalmente, mas tenho outras portas abertas, posso seguir outros lados, não deixando a área da educação. 

Dentro de uma escola, digo que cheguei no último degrau. Saindo daqui, tenho que abrir portas, dar oportunidade pra outras pessoas. Sempre digo pras meninas que trabalham comigo que saindo eu vou dar oportunidade pra outras pessoas e todo mundo tem direito de crescer, assim como eu cresci. Todas elas têm direito a crescer. 

Eu me vejo, não sei, pro lado da Agronomia. Fazer uma faculdade ou um curso técnico, algo [em] que eu possa ver se é [com] isso que eu vou me identificar. Já tive esses pensamentos. 

Dentro da Canaã, pode ser que… Sou muito voltada também pra questão do trabalho voluntário. Os trabalhos que a gente desenvolve aqui… Eu gosto muito do que eu faço, a gente faz voluntariamente. Eu não faço pensando no que eu vou receber amanhã, estou envolvida desde que a gente chegou aqui. A gente vai passando de ano a ano, fazendo o nosso trabalho. 

Vejo que a Vila Canaã ainda tem muitas oportunidades pra oferecer pra todo mundo. A rádio está parada, mas estamos com a visão de novamente botar ela pra funcionar e ver pessoas que queiram, que se enquadrem pra trabalhar dentro da rádio. Isso também vai gerar renda, oportunidades. E pra mim, não sei ainda se numa área política… Era uma coisa que eu dizia que não gostava, que não queria me envolver, mas hoje estou envolvida. Já tenho outros pensamentos, vejo de uma forma diferente. Quem sabe daqui a algum tempo eu não possa estar mais envolvida ainda? Tudo é questão de futuro. 

 

P/1 - As crianças aqui que você já educou estão aqui, você as vê?

 

R - Sim. Elas estão na UEB. É um processo, da educação infantil elas seguem pra UEB, pro ensino fundamental. 

P/1 - Elas vêm falar com você?

 

R - Sim, às vezes eu nem reconheço. “Meu Deus, menina, você cresceu! Como é que tá?” A gente acaba lembrando do passado; “poxa, tive ela na creche, agora ela está com oito, nove anos”... É bem.. A gente acaba se emocionando. “Tia, você se lembra de mim? Você me ensinou assim, assim…” “Lembro.” E lá fora mesmo, eles acabam nos respeitando. Quando, infelizmente, alguns tomam outros rumos… Quando vejo fico triste, porque não era aquilo que a gente esperava. Mas quando não se tem uma base dentro de casa, não se ensina dentro de casa, a gente diz que quem ensina é a rua, e ela vai ensinar de outra forma. 

 

P/1 - Como é que foi contar um pouco da sua história hoje, Val?

 

R - Trazer um pouco do passado foi um pouco difícil, porque a gente tem que lembrar de alguns detalhes, mas do que está presente hoje foi mais fácil. 

 

P/1 - Foi bom, foi ruim?

 

R - Foi tranquilo. 

 

P/1 - Tá certo. Muito obrigado pelo seu tempo!

 

R - Terminaram? (sorri)

 

P/1 - Terminamos sim. Foi ótimo.

 

R - Tá certo. Obrigada. 




      

            

                       


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