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A transformação está em você

História de: Monja Coen (Cláudia Dias Batista de Souza)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2009

Sinopse

Imigração dos avós. Separação dos pais. Colégio de freiras. Casamento aos 14 anos. Traição do marido. Gravidez. Separação. Nascimento de Fábia. Morte de Antônio Carlos. Curso de Madureza. Faculdade de Direito. Tentativa de suicídio. Experiência com LSD. Prisão na Suécia. Encontro com o Zen Budismo. Ordenação de monja. Monastério no Japão. Casamento com monge mais jovem. Primeira mulher Presidente da Federação das Seitas Budistas brasileiras. Visibilidade na mídia. Morte do ex-companheiro.

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História completa

O meu nome monástico é Coen, recebi minha denominação monástica no dia 14 de janeiro de 1981. Posso dizer que a monja nasceu aí. Antes disso eu era Cláudia Dias Batista de Souza, nascida em 30 de junho de 1947. 

Minha mãe e meu pai se casam no interior e se mudam para São Paulo, nos Campos Elíseos.

Meu pai se apaixona por uma mulher muito linda que trabalhava com ele, era secretária. Minha mãe e ele se separam. Nessa época eu devia ter dois, três anos de idade, então, tenho poucas memórias disso.

Depois da separação, meu pai construiu uma casa no Pacaembu.O bairro era novo e o estádio tinha acabado de ser construído. Eu ficava passeando lá, tinha muita criança na rua nessa época. 

Eu corria, gostava muito. E a gente subia nos muros. A brincadeira era essa, não sei bem por que. Brincava e andava de bicicleta. 

A gente fazia lição, “Estou livre”, e ia brincar. Brincávamos de lojinha, casinha, mas a minha irmã sempre me fazia ser a rainha, ou seja, a rainha vestia o vestido da mamãe e ficava sentada na cadeira, e ela fazia tudo Eu brinco com ela dizendo que “ela fez foi uma monja meditativa”. Sempre fui sentada, de criancinha. E ela fazia, ela vendia, era todos os assistentes do rei. Eu era a rainha parada: “Não, você não pode sair daí”. Quando brincava de casinha, ela era a mãe, eu era sempre a filha, eram as posições que ela me colocava. Mas era bom brincar com ela. 

Mais tarde a gente foi estudar no Instituto de Educação Caetano de Campos. 

Tive uma experiência muito boa porque nunca havia colado, era sempre uma adrenalina: “Vamos colar, quem quer colar?”. Tinha uma prova, não sei se era Geografia, que eu falei: “Hoje eu vou colar, que delícia”. Peguei o livro, coloquei aqui embaixo. Eu tinha uma grande amiga, chamava Gláucia, e essa menina vê que eu tô lá colando feliz da vida, levanta-se e diz: “Professora, a Cláudia está colando”. Acabou. Eu tive muita dificuldade em ter amigos e amigas na minha vida. Essa menina me traumatizou pra sempre. 

Eu cresci muito rápido, com 13 anos parecia ter mais idade e comecei a namorar Antônio Carlos Scavone. Minha mãe desesperada, ele tinha 20 anos.  Ela não saía da sala: “O que vocês estão conversando?”. Tive um namoro muito vigiado.

E eu comecei a bater o pé dizendo que queria casar. A minha mãe dizia: “Não precisa casar”. E eu falei: “Não, agora vou”. Casamos. Eu tinha 14 anos e ele 21.

Ele começou a sair com outras pessoas, depois eu soube, ele tinha outra namorada. O casamento foi se desfazendo e eu fico grávida. Durante a gravidez a gente se separa.

Durante muitos anos a gente se via pouquíssimo. Agora, cada vez que ele se encontrava comigo dizia: “Vamos voltar” e depois ia embora. 

A moça com quem ele casou, não sei o nome dela, tinha uma filhinha que era da idade da nossa. Então, ele começa a levar a minha filha para passar os finais de semana com ele e ela começa a ficar maravilhada com o pai. E nisso ele morre.

Comecei a trabalhar no Jornal da Tarde. Eu era tímida, tinha muita dificuldade em entrevistar as pessoas, inúmeras vezes voltava pra redação sem as perguntas básicas. E eles diziam: “Volta”. E eu ia, morrendo de vergonha, tocar de novo a campainha e tinha que perguntar da intimidade das pessoas. Quando elas não queriam falar era horrível, um sacrifício. 

Acho que a imprensa, o contato com tantas pessoas, das mais pobres às mais ricas, e você vê todos os seres humanos, tantas injustiças e tantos absurdos e você fala: “O que eu posso fazer por isso? Será que a minha vida pode ser dedicada a levar a uma coisa maior?”. Nessa época tem jornalistas se encontrando, me convidam a fazer parte de grupos onde vamos discutir textos políticos, socialistas, comunistas. E eu vou a alguns encontros e de repente chega um momento que eu era simpatizante, mas não era do partido.

Sou contra guerra, contra violência. Eu queria que mudasse, mas que ninguém morresse. Nessa época tento o suicídio. Achei que tudo estava demais, quero acabar com isso, chega. Não consigo mexer muito no mundo, mas o mundo tá mexendo demais comigo. Vou embora. Fui encontrada antes de morrer.

Apareceu um menino no jornal, fazia ilustração. Uma noite falei: “Vamos pro bar”. Ele disse: “Você quer fazer uma coisa diferente hoje? Quer tomar um LSD comigo?”. Eu falei: “Vamos embora”. 

 “Eu quero experimentar mais”. “De onde vem isso?” “Vem da Inglaterra” “É pra lá que eu vou”. Aí, eu dei um jeito. 

Cheguei em Londres, achei um basement pra morar, tinha alguns brasileiros que me ajudaram. Me inscrevi em um curso de inglês, comecei a ter as aulas e cada um que eu encontrava eu falava: “Tem LSD?”.

Foi muito difícil achar. Até que encontrei pessoas que tomavam e a gente começou a usar junto. 

Tive um namorado nessa época que queria levar LSD pra vender na Suécia. Nós pegamos um barco. Ele comprou lá. Fomos pegos e presos na Suécia, o que eu acho que foi muito importante na minha vida porque foram cinco meses para deixar essa experiência assentar.

Eu sentava na minha cela maravilhosa, seis horas da manhã, vendo o nascer do sol: “Ohmmmm”. E como me fazia bem. E começo a perceber o meu processo e o das pessoas à minha volta. 

Voltei pro Brasil, uma saudade imensa da minha filha, só queria ficar com ela.

Eu pedi uma viagem pro meu pai, eu queria ir pra Índia, já tinha uma sedução, mas tinha ouvido falar dos grupos alternativos que eram zen-budistas na Califórnia, vivendo sem agrotóxicos, com reciclagem, energia solar. Eu falei: “Nossa, essa gente é linda. Quero estar perto de gente inteligente com ideias novas”.

Já na Califórnia, começo a praticar com o Paramahansa Yogananda, self-realization fellowship. Nisso já estou cada vez mais me entranhando em meditação. 

Comecei a descobrir que o zen era a minha praia, era a minha casa, era tão tranquilo, o cheiro de incenso, a maneira de fazer meditação, tudo tinha muito sentido pra mim. Fui fazer um retiro de uma semana, esse foi um marco importante, várias coisas aconteceram nesse Sesshin de sete dias

Quando terminou, eu era atendente do meu mestre, levava incenso pra ele e eu chorei durante a cerimônia inteira, comovida. Não saberia dizer nem do quê. E nesse dia pedi a ele que eu queria me tornar monja e me mudar para a comunidade. 

Fui ser o que a gente chama de trainee por três meses. Nós estudávamos e tínhamos uma prática como os monges teriam. E cada vez confirmava mais, e cada vez ficava mais simples essa vida. Imagine, de repente você só tem uma chave. Eu me desfiz dos cartões de crédito, cortei os cabelos, dei todas as minhas roupas.

Vou bater na porta do meu professor e dizer: “Então, o senhor não vai dar a minha ordenação?”. Antes que eu abrisse a boca, ele pega a agenda e diz: “Vamos marcar”.

Continuei o trabalho com o mestre, aí, me deram um panfleto, e eu quis ir pra um mosteiro no Japão.

Eu era muito presunçosa, achava que já tinha tido minha experiência iluminada, afinal eu tinha tomado tanto ácido, tantos encontros espirituais com a verdade, tantos retiros de meditação. Claro que eu estava pronta. Iria falar do coração pro coração das pessoas e não precisava saber falar japonês. E aí, me puxaram o tapete. Foi dificílimo, sofrido. Os dois primeiros anos não entendia o que falavam, era de enlouquecer.

E um jovem monge se aproxima e vem me ajudar a ler os textos. Ele era jovem suficiente para ser meu filho. E ele vem, me ensina isso, aquilo, faz chá pra mim. Um dia ele se declara apaixonado. Evidentemente, estou carente, sozinha. É bom ter alguém que goste de você, uma delícia, e a gente namorou e casou. 

Ficamos trabalhando no templo de um amigo dele, alugamos uma casinha muito pobrezinha. Fomos morar no ‘amor, uma cabana e nada mais’. Ele largou tudo, realmente tinha uma carreira brilhante. Eu trabalhava em um templo perto do Monte Fuji.

Rezávamos o dia inteiro de uma casa pra outra, enterros, memoriais, meditação, etc. E vamos acumular dinheiro. Pra quê? Pra vir pro Brasil, porque ele quer vir.

Viemos pra cá. Passam-se alguns meses, ele tinha uma ilusão que com o dinheirinho que a gente acumulou dava pra comprar um terreno em Mairiporã e que a gente iria construir um templo. E aí, descobre que não é bem assim. O dinheiro vai sendo gasto. Fomos trabalhar no templo da Liberdade e houve uma mudança. O monge que construiu esse templo volta pro Japão, teve um desentendimento com a diretoria brasileira. Pedem que eu assuma.

Democratizamos o Zen Budismo aqui no Brasil

Depois de anos, jogo tudo fora, começo outra vez. Saí do templo, um aluno meu disse: “Por favor, venha dar aula pra nós aqui, na sala de visitas da minha casa. Não tem móvel, a gente faz zazen ”. Uma vez por semana a gente se reunia. De repente, quem aparece? O Chico Pinheiro vem me entrevistar. E aí, eu começo a aparecer na mídia. 

Quanto mais comecei a entrosar e ter alunos e me envolver com isso, o relacionamento foi se tornando menos importante.

Mais tarde ele volta pro Japão, nós nos comunicamos quase que uma vez por semana por telefone durante os primeiros meses, sempre com muito respeito, com muita ternura. Ele se casa, tem uma filhinha, tem um infarto e morre. 

Eu gosto da Terra, gosto do ser humano, acho maravilhoso. Viver aqui é uma delícia. Acho bom que muitas gerações depois de nós possam apreciar isso. Então, o que nós fazemos agora pode criar causar e condições para que pessoas continuem apreciando a vida humana na Terra.

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