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História

A trajetória de um voo

História de: Danielle Matachana Thomé
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/07/2021

Sinopse

Nascimento em Ourinhos. Gravidez e casamento com o seu primeiro namorado. Maternidade. Percurso na Projex, desde o início, com 15 anos, até tornar-se Diretora. Em paralelo a Projex, teve outros trabalhos, um no posto de gasolina da família do ex-marido e outro em uma escola de informática, Criança do Futuro, com sua irmã. Manifestações de machismo no trabalho e no núcleo familiar. Desconfiança e oposição da família. Superação e presidência da Projex. Falecimento da mãe. Separação. Reencontro com um amor de infância. Novo casamento. Mentoria da Monsanto. Certificação internacional WEConnect. Transformação de vida. Participação do programa Winning Women, da Ernst & Young. Pandemia. Sonhos.

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História completa

P/1 - Danielle, eu queria que você começasse se apresentando, dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento.


R - Bom, eu sou a Danielle. Danielle Matachana Thomé. Sou diretora da Projex Engenharia. Hoje é dia dezesseis de julho e eu nasci 25 de fevereiro de 1967. 


P/1 - Em que cidade você nasceu?


R - Ah, em Ourinhos. Em Ourinhos. Nascida e criada aqui, sempre.


P/1 - E quais os nomes dos seus pais? 


R - Aldo Matachana Thomé e Dorita Stevanin Matachana Thomé.


P/1 - E você sabe como eles se conheceram?


R - Se conheceram muito jovens. E eu não sei dizer onde, como, mas muito jovens. Namoraram onze anos, até se casar (risos).


P/1 - E o que os seus pais faziam?


R - Meu pai, quando começou a namorar a minha mãe, era estudante, e a minha mãe também. E meu pai resolveu fazer Engenharia Civil. E, assim, eu sei da história que a minha avó, a mãe da minha mãe, o incentivava muito a não abandonar a faculdade, ou levar sempre adiante. Meu pai fez Engenharia Civil na Poli [Escola Politécnica da Universidade de São Paulo] e a minha mãe era professora, ela fez Magistério.


P/1 - E você sabe a história dos seus avós? Você os conheceu?


R - Conheci. Conheci os meus quatro avós. O meu avô paterno é nascido em Portugal. Ele veio pra cá muito novo. E não sei como conheceu a minha avó. Mas o meu pai me contava que a mãe dele, a minha avó, era muito trabalhadora, muito. Já o meu avô era mais comerciante, assim, maneirinho. Mas quem pegava bem, assim, no trabalho, era a minha avó. E os meus avós maternos, não sei muito da história deles. Eles já morreram também há muito tempo. E eu perdi a minha mãe muito cedo, também. Então, eu acabei ficando, assim, meio que uma lacuna dessa história.


P/1 - E vocês tinham alguma comida, algum costume específico da família?


R - Ah, em relação a comida, até que não. Eu vim de uma família pouco exigente com comida. Ou que, se alguém tivesse alguma especialidade, assim, não. A gente sempre foi muito simples nesse negócio de comida. Eu lembro até que uma moça que veio trabalhar comigo, logo que eu casei e ela ficou uns dias trabalhando na casa do meu pai, dela até ter comentado: “Nossa, eu estava com tanto medo de vir trabalhar pra vocês, achando que vocês eram muito enjoados. Aqui é muito bom trabalhar, porque qualquer coisa que a gente põe na mesa é tranquilo, vocês não são enjoados”. Assim, eu me lembro disso. E o meu pai, a gente até comenta, se botar pedra na mesa, pra ele, ele fala que está ótimo, que ele amou. E eu sou assim também e os meus filhos também (risos).


P/1 - E você tem irmãos?


R - Eu tenho uma irmã, uma única irmã. Ela é mais velha. A minha irmã chama Cristiane.


P/1 - E como é a relação de vocês?


R - A nossa relação foi uma relação muito saudável, até a gente ter um problema com a empresa. Assim, a gente... Eu tenho dois filhos, um casal de filhos, e ela também. Mas, assim, o que eu me lembro... Ai, gente, dá pra parar?


P/1 - Pode ir indo, depois a gente faz os cortes.


R - Porque eu vou começar a falar coisa de mim. (risos) É isso mesmo? Então, tá bom. Bom, então, eu, assim, acredito que eu acordei um pouco, aliás, eu acordei pra vida pra entender muita coisa, depois que eu fui certificada como uma empresa de diversidade, dirigida por mulher. Parece que o mundo mudou de cor, pra mim. Porque, assim, eu entendo que os meus relacionamentos no passado, eu sempre fui muito cordata demais. Eu sempre fui muito resiliente. E eu me adaptava a todo entorno, tudo o que acontecia na minha vida, eu me adaptava, e se era ruim, eu me adaptava a aquilo ruim mesmo. Conseguia fazer... Eu me adaptava pra ser feliz dentro daquela realidade. Então, enquanto eu sempre fui assim, tudo caminhou muito bem. Quando eu comecei a enxergar algumas coisas, eu vi que eu não servia mais pra algumas pessoas. Porque eu entendo que eu sempre estendi o tapete vermelho, assim... Se eu levava, eu continuava levando, eu dava um jeito e assim era a minha vida. Parece que meio cega, ou eu me cegava, enfim. Atualmente, eu tenho... O meu atual marido fala pra mim que eu saí de um estado de coma (risos). Eu me anestesiei pra chegar até onde eu cheguei. Então o meu relacionamento com ela foi muito bom, até quando eu tive os meus filhos. Embora ela fosse, ela é mais velha, mas eu fiz tudo primeiro. Eu casei primeiro; eu tive filho primeiro; eu fui viajar pro exterior primeiro. Eu fui fazendo muita coisa na frente. Mas eu sempre achava que ela era o máximo. Porque ela, logo cedo, foi fazer faculdade. E ela fez Engenharia Civil. E eu, não. Eu casei cedo, eu tive filho primeiro. Eu fiz tudo ao contrário. Então eu sempre achei que o meu pai era o máximo e ela era também e todos os engenheiros civis eram o máximo. E eu nem Engenharia Civil eu fiz. Mas, na verdade, eu não fiz Engenharia Civil porque o que aconteceu? A minha mãe... Eu casei muito nova e eu tive filho muito nova. Nesse meio tempo, a minha mãe estava doente, ela ficou doente onze anos. Foi dado seis meses de vida pra ela, quando descobriram o câncer dela e ela ainda suportou onze anos. E, nesses onze anos, eu tinha... Logo no início, quando eu casei, já descobriram a doença da minha mãe. Na verdade, antes deu casar e ter filho. Então eu passei esses onze anos achando que - isso já faz 25 anos, tá? – a minha mãe podia morrer a qualquer hora. Porque você ter uma notícia que em seis meses... Sua mãe vai durar seis meses. Há anos... Câncer. Hoje já é uma doença que assusta, você imagina há tanto tempo. Então eu sempre tive muita preocupação, eu falei: “Eu não sei se a minha mãe vai estar aqui no mês que vem, se ela vai estar aqui no outro aniversário, se ela vai estar aqui no outro Natal”. Então eu decidi que eu ia... Eu já trabalhava. Eu comecei a trabalhar na empresa muito cedo. Eu pedi pra trabalhar na empresa, quando eu tinha quinze anos. Então eu falei: “Eu vou cuidar dos meus filhos, cuidar do meu trabalho e cuidar da minha mãe”. Quando ela morreu eu peguei e prestei vestibular. E aí o meu pai falou: “Filha, faz Engenharia Civil” “Eu não vou fazer, porque a gente tem bastante engenheiro na empresa. Então eu vou fazer arquitetura” (risos). E, nesse ínterim, essa faculdade que eu fiz, aqui onde eu moro não tinha faculdade, e eu fui fazer Arquitetura numa cidade aqui do lado, fica a cem quilômetros daqui.  Eu ia e voltava todos os dias pra fazer essa faculdade de Arquitetura, que aqui em Ourinhos não tinha nenhuma. Agora tem (risos).


P/1 - E, Danielle, como você descreveria os seus pais?


R - A minha mãe sempre foi uma pessoa muito querida, muito amiga de todos, muito mansa. Ela também é pisciana (risos). E, assim, eu tenho muita admiração por ela. Eu acho que foi uma mulher muito correta e muito... Me fazendo essa pergunta, você está me fazendo lembrar, eu acho que eu a puxei muito (risos). Ela foi muito... Aceitava tudo também. E o meu pai sempre foi um homem muito inteligente, muito dinâmico, muito forte, muito protetor, muito machista. Muito, muito machista. Pra ele, as mulheres, eu, a minha mãe e a minha irmã, era só pra gente ser cuidada, não era pra gente... Ele não fazia por mal. Fez porque, sei lá, da onde ele veio, do tempo que ele veio. Ele achava que a ditadura, os militares, que só tinha solução daquele jeito. Então, muito, muito, muito machista. Mas muito trabalhador. E um homem muito honesto, também, com o trabalho, com tudo o que ele fez. E muito competente. 


P/1 - E como era a sua relação com a sua mãe?


R - Eu sempre me dei muito bem com a minha mãe. Ela, entre eu e a minha irmã, ela tinha, sem dúvida, muito mais afinidade comigo, muito, muito mais, porque ela considerava que a minha irmã tinha um gênio muito difícil. Mas eu acredito que isso tem a ver com lá no começo, no nosso nascimento, entendeu? A minha irmã nasceu num cenário, meu pai ainda não tinha se formado. E o meu pai ainda era estudante. Tanto que, quando o meu pai se formou, eu fui na formatura dele, dentro da barriga da minha mãe. Então o meu pai é um cara muito: como é que ele ia ter filho, se nem emprego ainda tinha. Aí a minha irmã nasceu. Quando eu nasci, foi num intervalo muito curto. E o meu pai queria, primeiro, que a minha irmã tivesse nascido homem, ela nasceu mulher, já meio fora do tempo, que não era pra ter nascido. Em seguida, a minha mãe ficou, o intervalo meu e da minha irmã é muito curto, é um ano e pouco. E ele não estava preparado nem com uma, você imagina com duas. E aí eu nasci. Era pra eu ter nascido homem também e nasceu mais outra mulher (risos). Então, assim, eu cresci escutando essa história, que o meu pai queria que eu fosse homem, que eu nasci num momento financeiramente que não era bem-vinda, porque ele não tinha ainda muita segurança. E isso teve uma influência muito grande na minha vida, muito. Porque eu lembro ainda que, quando eu era criança, eu era criança, eu devia ter uns sete anos, alguma coisa desse tipo, cinco, a gente ia em restaurante... Porque o meu pai, no domingo, pelo menos, ele gostava de comer em restaurante. Eu lembro que eu tinha vergonha de pedir alguma coisa que eu queria, porque eu não queria encarecer a conta pro meu pai (risos). Ah, se eu queria um guaraná, eu ficava quieta, eu não pedia. E isso eu lembro com muita clareza. 


P/1 - E a sua relação com o seu pai?


R - A minha relação com o meu pai... porque veja bem, como eu te falei, quando eu tinha quinze anos, eu sempre admirei muito o meu pai, na forma de ele trabalhar, eu prestava atenção naquilo. Quando eu tinha nove anos, o meu pai foi prefeito aqui em Ourinhos. E ele foi considerado, até hoje ele é considerado o melhor prefeito que a cidade teve. Você imagina, naquela época, ter um prefeito engenheiro civil formado pela Poli. E ele tinha feito muitos projetos, ele tinha trabalhado na prefeitura de São Paulo, então ele tem muito conhecimento técnico de expansão e de engenharia. Então eu cresci com ele, assim, ele enfiava a gente no carro e saía pra passear na cidade, ver onde tinha enchente. E, assim, eu achava muito legal vê-lo com aquela vontade de fazer a cidade melhorar. Mas ele já tinha a Projex, né? Porque ele fundou a Projex logo que ele se formou. Ele começou a Projex com uma mesinha, né? Então, ele levou junto, um período, a Projex e a prefeitura. E ele conta... Ele conta, não, eu sei disso, que foi a época que a Projex mais perdeu velocidade, porque ele se dedicou muito pra prefeitura. Então, naquela época, a Projex, antes, quando ele entrou na prefeitura, a Projex tinha uns quatrocentos funcionários e quando ele saiu ela estava muito embaixo. Porque ele era o cara, ele que foi o fundador, ele que fez, ele que sabia de tudo da empresa. Aí quando eu tinha quinze anos – quando ele foi prefeito, eu tinha nove – eu pedi pra ir trabalhar lá na empresa. Eu falei pra ele: “Eu quero uma vaga aqui”. Eu achava lindo, eu pedi de recepcionista. Eu falei: “Deixa eu aqui?” E ele aceitou. Então eu comecei atendendo no telefone. Depois eu fui, passei pro setor de Desenho. Depois logo fui pro Financeiro. E, de lá pra cá, passaram-se 39 anos. Mas quando... A minha relação com o meu pai, eu sempre fui cordata. Ele sempre admirou muito o meu trabalho, assim, ele nunca desconfiou do meu trabalho, porque ele sabia que eu era muito dedicada. Mas eu também não podia fazer… Ele mandava e eu obedecia, ele mandava e eu obedecia. Mas a hora que a empresa começou a crescer... Porque eu falo qual é a relação com o meu pai, porque a relação que eu tenho com o meu pai é extremamente de trabalho. Quem trabalha trinta e nove anos com o pai, com os negócios. Eu não tenho nem, assim, muita lembrança de… Tenho, estou fazendo confusão, estou misturando as coisas, mas tenho. Eu lembro quando eu era criança, ele era um pai muito preocupado. Ele gravava... Eu era muito magrinha e pequenininha e eu era muito ruim de comer. Então ele me gravava comendo, ele dando comida pra mim, isso eu lembro. Mas da adolescência eu já não lembro mais muito coisa não, porque ele foi, assim, bastante ausente, por causa da prefeitura. E também por causa de outras coisas, que o meu pai era muito, muito dinâmico, mas, assim, mulherengo, digamos assim (risos). Não sei se eu devia falar isso ou não, depois vocês cortam, mas enfim. Aí nessa fase minha de adolescência, eu não tive muitas lembranças, era mais ausente. Então eu tenho mais lembranças do meu pai no trabalho. Mas aí a minha relação com ele sempre foi muito boa, até quando a empresa começou a crescer, a cada quatro anos, ela saltava muito de faturamento. Como eu trabalhava ali o tempo todo, ligada vinte e quatro horas ali no Financeiro, eu comecei a perceber que aquele crescimento estava muito veloz e as coisas estavam desorganizadas. E a base não tinha mudado. A gente fazia tudo igual, do mesmo jeito, com as mesmas pessoas. Eu comecei a apontar pra ele, que aquilo estava se tornando perigoso. Pra ele e pro meu cunhado, que a minha irmã casou com um engenheiro civil e o meu pai pegou aquele meu cunhado como se fosse o filho dele. Então eles tocavam a empresa, pegavam orçamento, cliente, não sei o quê. E eu, junto com outras pessoas do administrativo, tocava o backoffice da empresa. Só que a gente instalou um programa na empresa, que eu comecei a enxergar as coisas, antes do feeling deles. Porque aquilo, naquele tempo, era tudo feeling, o feeling dos dois. O feeling dos dois. E eu comecei a apontar muita coisa que ia dar errado, antes, dois anos antes. Porque conforme as coisas vinham pra eu pagar, eu falava: “Gente, esse negócio está errado. Isso vai acabar mal”. Só que eu não enxerguei isso só naquele momento. Pra mim, as coisas já tinham que ser diferentes há muito tempo. Mas eles não me deixavam, eu não podia falar, porque como ainda dava lucro... Então eu já sou mulher, eu sou a filha mais nova, eu não sou engenheira, eu não sentia, eu não podia, eu não tinha espaço pra falar. Então eu já achava que tinha que ser de outro jeito, mas as coisas davam certo, ia daquele jeito mesmo. Eu me lembro, desde que a minha mãe morreu, eu já enxergava que aquilo não podia ser daquele jeito. Mas a empresa dava lucro daquele jeito, então ela continuou daquele jeito. Só que a hora que eu vi o perigo mesmo, pra valer, eu comecei a confrontar. Aí eu comecei a confrontar, confrontar, confrontar os dois. Foi quando eu te falei que eu fui até agredida fisicamente, pra que eu me calasse diante do que eu estava apontando. E eles não me deixavam falar. E essa foi a maior marca minha com o meu pai, porque eu ia falar, eles não deixavam. Eu falava: “Então eu vou escrever” “Não. Você escreve muita coisa. Não fala”. Então eu falei: “Então eu vou gravar”. Eu tenho gravação minha no iPad. Eu falei: “Não, vocês não querem me escutar? Vocês não querem ler o que eu tenho pra falar? Eu vou gravar. Vocês vão escutar o que eu tenho pra falar”. E aí eles nunca viram essa gravação, essa gravação está comigo até hoje. E eu comecei a falar: “Se eu não posso falar, eu não posso escrever, eu quero sair da empresa, porque eu não vou trabalhar com um olho aberto, outro fechado”. Isso ficou só pra mim, porque eles nunca escutaram. E daí enquanto, assim... não zerou o caixa da empresa, ninguém, eles não escutaram. Aí, depois disso, a hora que chegou nessa situação, todo mundo pulou fora. O meu pai tirou o usufruto dele da empresa. O meu cunhado foi embora. A minha irmã me levou na Justiça, pra tirar o nome dela da empresa. E eu fiquei. E aí isso faz seis anos. E eu abri vários outros clientes. E hoje, o meu pai, lá atrás, quando eu mostrei, mostrei, mostrei... e eu assumi a direção da empresa, mesmo assim ele falava pra mim: “Você vai quebrar a empresa”, porque eu comecei a demitir todo mundo que estava ali, porque eu precisava mudar aquela base. Eu precisava mudar a forma de trabalhar, porque a empresa estava envelhecida, parada no tempo e ela não tinha se renovado. A gente não precisava ter passado por aquilo, se eles não tivessem sido tão machistas e tão travados e achando que eram super-heróis: “Eu sei, eu faço, eu fico e aconteço. Eu sei tudo e vocês não sabem nada”.  E não é assim, né? Daí, foi muito difícil esse rompimento. E o meu pai, ainda, o tempo todo me puxando o tapete, me puxando o tapete. Cada coisa que eu mudava na empresa, ele acabava comigo. Então eu tive que ter muita força pra suportar a pressão dele. Porque, bem ou mal, ele era o fundador, ele era o engenheiro, ele era tudo. E eu era só o backoffice da empresa. Ter que encarar tudo o que eu encarei, ainda com ele fazendo terrorismo sobre as minhas decisões. De lá pra cá passaram-se seis anos. Hoje o meu pai me elogia de manhã, de tarde e de noite. É Deus no céu, Danielle na terra. Quando ele não vê o meu carro estacionado na empresa, ele já quer saber onde eu estou, o que aconteceu, porque... E a pessoa que mais me machucou, hoje é a pessoa que mais me elogia e elogia sinceramente, porque no começo dos elogios dele, eu sabia que não eram sinceros, mas hoje eu sinto de coração que é muito sincero. E ele elogia muito. E ele fala: “Filha, vai dar tudo certo. Parabéns. Força”. Um dia ele chegou até a falar assim: “Se você tivesse nascido homem, você não seria tão brilhante quanto você é”. Mas já chegou a falar também, isso há uns três anos, no Dia das Mulheres: “Parabéns pelo Dia das Mulheres! Você trabalha como um homem”. Mas esse: “Se você tivesse nascido homem, você não seria tão brilhante como você é” é mais recente do que: “Parabéns, você trabalha como um homem” (risos).


P/1 - Danielle, eu vou voltar um pouquinho, mas depois, se você quiser falar mais sobre esse momento, eu gostaria de saber mais detalhes de como foi entrar na empresa. Mas antes eu queria saber, qual é a sua primeira lembrança da sua casa, da infância?


R - Luiza, essas coisas se confundem um pouco. Porque se eu não tivesse fotos, eu não sei falar pra você se eu ia lembrar de alguma coisa. Porque a gente vê foto, se confunde. Ah, se ela não existisse, essa foto, eu ia lembrar de alguma coisa? Não sei, né? Mas, ah, lembro a casa que a gente morava, inclusive era uma casa muito simples. Inclusive, hoje ela é minha, ainda, porque foi o meu avô que deu pro meu pai morar, quando a gente nasceu. Quando o meu pai começou a ficar melhor de situação, ele construiu uma casa, um sobrado maior e a gente mudou pra lá. E essa casa eram duas, era uma casa geminada, a gente ocupava uma, o vizinho ocupava a outra, o meu avô deixou de herança pra mim e pra minha irmã. Só que a minha irmã logo ela não quis. Tudo o que era deixado pra ela, ela não quis. E eu acabei comprando a parte dela. E eu tenho essa casa até hoje e eu alugo. Era uma casa simples, mas eu sempre fui muito apegada nisso, independente de ser uma casa grande ou pequena. Até pra eu mudar pra essa casa aqui, a casa que eu morei, que os meus filhos nasceram, essa casa que eu moro é melhor, mas eu saí de lá chorando, porque eu sou muito apegada à história. Eu estava vindo pra uma coisa melhor, mas o meu coração estava lá naquela história.


P/1 - E você lembra desse bairro, dessa casa?


R - Lembro. 


P/1 - Do que você gostava de brincar?


R - Lembro. Lembro. Lembro. Na frente da casa do meu pai a gente brincava muito de bets, tinha uma turminha. A gente morava na frente de uma praça. Isso quando eu já tinha uns doze, treze anos. A gente morava em frente de uma praça. E, naquele tempo, a gente brincava muito na rua. Brincava de bets. A gente tinha uma turminha que vivia sempre na pracinha, que era a pracinha na frente de casa. E eu tive uma infância e um início de adolescência muito, muito saudável, muito.


P/1 - E como era essa brincadeira, bets? Acho que eu não conheço.


R - Bets, não? Você não conhece? É um pedaço de madeira, um pau, bets. E aí a gente ficava... Tinha aquela latinha. Você tinha que derrubar a latinha. E era muito fácil brincar na rua naquela época, porque não tinha nada de... Não tinha movimento. E eu lembro que a bolinha caía dentro do bueiro, às vezes, porque corria e a pessoa não conseguia defender e entrava no bueiro, quem era menorzinha e mais magrinha era eu, né? Eu morria de medo de entrar naqueles bueiros pra ir buscar a bolinha (risos). E brincava muito de queimada, também. 


P/1 - E nessa época você pensava o que você queria ser quando crescesse? 


R - Pensava.


P/1 - O que era?


R - Eu era pequena, eu falava que eu ia ser médica pediatra. Sempre. A minha irmã falava que ia ser engenheira civil e eu falava que ia ser médica pediatra. E aí eu nunca tive muito incentivo da minha mãe e do meu pai em relação a estudo, faça isso ou faça aquilo. Eu lembro uma vez que eu falei pra minha mãe assim: “Por que vocês não pegaram no meu pé, pra eu estudar, pra eu ir...?”. Aí ela virou pra mim e falou assim: “Porque aqui cada um fazia o que queria”. E acabou que eu comecei a namorar muito cedo, com treze anos, o meu ex-marido. E fiquei com ele dos treze aos vinte. Casei grávida, com vinte. Fiquei grávida com dezenove, casei com vinte. Então eu não tinha, não tive um pai e uma mãe que falavam: “Vai estudar”. Acabou que eu fiquei presa ali e fiquei namorando. Então eu falava que eu queria ser médica pediatra. E eu lembro que eu tenho um tio... Um tio, não, um primo que era obstetra. Ele faleceu faz pouco tempo. Inclusive, os meus filhos nasceram na mão dele. E eu falava tanto que eu queria ser médica pediatra que um dia... Eu lembro que eu tinha treze anos e aqui em Ourinhos tem uma feira famosa, que é a Feira Agropecuária e Industrial de Ourinhos, ela é tradicional. E eu estava na feira e esse meu primo falou: “Eu vou ter uma cesárea”, porque ele tinha um hospital, “Você quer vir assistir?”. Eu falei: “Agora”. Saí da feira. Era tudo terra, é terra aqui, é terra vermelha, sabe? Eu me lembro que eu troquei a roupa correndo, cheguei no centro cirúrgico, botei as roupas e tudo e fui assistir uma cesariana. Amei ver aquilo, amei, achei o máximo. Mas a minha vida mudou de rumo, entendeu? Acabou que eu fui, casei, namorei, enfim.


P/1 - E você lembra da sua primeira escola?


R - Lembro. Muito. Muito. Um colégio de freiras. Inclusive, a minha professora do prézinho era uma freira mesmo, ela ia vestidinha de freira. E lembro muito do meu pré-primário, primeira e segunda séries. É dessa fase que você está perguntando, né? Sim. Das minhas amigas daquela época, eu lembro muito, tenho amizade com elas até hoje. Inclusive, o meu atual marido é paixão de pré-primário (risos).


P/1 - Me conta essa história.


R - (Risos) Ah, essa história é muito, muito, muito mágica. Eu conheci o meu atual marido, a gente era muito criança. A gente estudou o pré-primário junto, o primeiro, o segundo ano. E ele é de Vitória. E a família dele, o pai dele era gerente do Banco do Brasil e não sei por que cargas d’água vieram parar em Ourinhos. Mas o... Ele chama Estevão, tá?... Tinha dois anos quando ele veio pra cá. Os outros cinco irmãos dele nasceram aqui. E aí o que acontecia? Como eles eram de Vitória, o pai, naquela época, pegava aquelas seis crianças, enfiava no carro, nas férias de verão, e iam pra Vitória. Então chegava nas - eram três meses de férias naquela época - férias, eu via todos os meus amigos de escola no clube, no carnaval e eu não via o Estevão. Eu não o via e eu não entendia. Eu não sabia que ele morava longe, eu não sabia de nada, porque era só paixão de criança. Ele olhava pra mim, eu olhava pra ele e assim ficou. O pré eu não lembro tanto, mas a primeira e a segunda série eu lembro. Eu lembro que eu o conheci no pré. E daí, quando tinha festa caipira, eu queria dançar com ele e ele queria dançar comigo, mas a gente não sabia, isso tudo a gente ficou sabendo agora, né? Porque era só uma paixão de criança. E como eu era muito pequenininha, eu dançava com o meu priminho, que era o mais baixinho, e não dançava com o Estevão. Tanto que eu tenho foto com ele, ele atrás, com o olho assim, né? De criança, de caipira. Tudo bem. Aí chegou no terceiro... E todo ano, que virava o ano, eu o esperava chegar, entrar na sala de aula, esperava por ele. Daí um belo dia eles foram passar as férias, você imagina, de Ourinhos, interior, na divisa com o Paraná, ir lá pro Vitória, de carro. Um pai e uma mãe, com seis crianças dentro do carro, não é pra ficar indo e voltando, né? Então quando começavam as aulas, eles voltavam. E chegou no terceiro ano, ele não apareceu. E eu fiquei muito triste, porque eu fiquei esperando-o voltar. E eu não sabia o que tinha acontecido. Aconteceu que, quando eles foram pra lá e a família deles é de lá, alguém do Banco virou pro pai dele e falou: “Você pode escolher qualquer outra cidade pra você ser transferido”. E ele virou e falou assim: “Então eu quero ser transferido pra Vitória”. E como eles estavam lá, de férias, o pai virou pros filhos e falou: “Ó, fui transferido. Não vou voltar com vocês pra Ourinhos, porque é muito longe. Eu só vou pegar a mudança. Vocês ficam aqui”. E sumiu. E ele sumiu e nunca mais eu, a gente... Daí eu casei. E aí tem uma história engraçada: quando ele tinha 24 anos, ele foi fazer uma... Ele ficou no Japão um ano. Mas isso, eu não estou sabendo de nada, eu não o conheço, não sei da história dele, não sei nada. Como o pai dele tinha vivido muito tempo aqui em Ourinhos, ele passou em Ourinhos uma vez com o pai e foi na minha casa, lá onde eu morava, com os meus pais. Aí os meus pais... A moça que trabalhava lá, falou: “A Danielle casou e mora em tal lugar”. Nisso eu tinha 24 anos e ele também. Só que ele não tinha casado. Ele, nada ainda. Eu já tinha casado e já tinha dois filhos. Isso ele me contou depois. Ele foi na minha casa, tocou a campainha, a pessoa falou: “A Danielle está trabalhando” e ele pegou e foi embora. Ele foi embora. E eu nunca fiquei sabendo disso, também. Aí ele foi pro Japão e fez intercâmbio no Japão. Depois disso ele casou, teve uma filha. Eu também, eu tinha as minhas crianças pequenas. Depois de trinta anos, aí ele me achou nas redes sociais. Graças a Deus, ele era muito inteligente, ele sabia o meu nome inteiro (risos). Eu só sabia que ele chamava Estevão, eu não sabia o nome. Eu jamais, acho que conseguiria achá-lo. Aí ele fez o contato comigo. Eu já estava separada fazia quatro anos, ele também. E aí a gente se encontrou. E já faz dez anos que a gente está junto.


P/1 - Uau!


R - Aí a gente contou toda essa história um pro outro. As coisas que eu lembrava da escola e dele, era como se a gente tivesse feito a mesma leitura. A gente trocou tudo do mesmo jeito. Ele lembra das coisas que eu lembro. Eu lembro das coisas que ele lembra. E, assim, eu falo que foi um encontro de almas.


P/1 - Então, você o encontrou, o conheceu nessa escola... Mas você lembra de alguma professora marcante?


R - Lembro.


P/1 - Quem era?


R - A Irmã Nazaré era a nossa professora de pré. Me lembro da primeira série também, que era a dona Vilma, ela está viva ainda. Eu já peguei o Estevão, levei até ela, fui falar: “Você foi a nossa professora quando a gente era criança”. Da segunda série, eu não lembro por mim, eu lembro pelo Estevão, porque ele me contou que ela chamava Marina. Daí, da segunda série pra frente, eu já não lembro nome, assim, muito, de professor. Engraçado, né? Você está fazendo uma pergunta que eu tenho flashes de memória (risos).


P/1 - E você ficou nessa escola até acabar? Ou você chegou a mudar de escola?


R - Então, eu fiquei nessa escola até acabar. E eu lembro que era uma coisa que até me chateava. Porque, naquela época, a escola pública era muito boa. E eu estudava numa escola particular. E o Estevão acabou migrando também de escola. Porque, na verdade, não é que ele não voltou mais naquele ano. A gente se encontrava no caminho. Ele estudava numa escola, eu na outra, a gente se encontrava no caminho. E depois ele sumiu. É que ficou assim, na minha memória, que ele não voltou mais, entendeu? Ele foi pra escola pública e eu continuei na particular. E eu ficava um pouco triste, porque todo mundo falava assim: “Escola particular: Papai pagou, filhinho passou”. Então eu achava que... Agora que eu estou contando pra você, eu estou me lembrando que o meu pai, quando eu era criança, eu lembro dele me ensinando, ele me chamando de burra: “Burrinha”. Ele ia me... Então eu fiquei assim, muito tempo com trauma, quando as pessoas iam me ensinar alguma coisa, eu ficava assim meio que paralisada, sabe? Porque ele sempre me chamava de burrinha. E aí tinha esse negócio da escola, também e aí eu falava: “Bom, eu já sou a arquitetura, eu não sou a engenheira. Eu não sou homem, sou taxada de burra, não sei o quê”. Aí pronto, acabou com a minha autoestima por muito tempo (risos).


P/1 - Mas e essa mudança de colégio, você lembra?


R - Não. Daí eu estudei nesse colégio. Eu não mudei, né? Eu não fui pra esse colégio. Eu fiquei no colégio particular, até eu acabar o terceiro colegial. Aí, mas aí logo eu casei, né? Eu casei grávida. E aí eu fui cuidar dos meus filhos. E eu trabalhava muito, porque era uma demanda muito grande do Financeiro da empresa e eu tinha minha mãe doente. Então, eu acabei o terceiro colegial e fiquei sendo mãe, filha e trabalhando muito. E daí foi quando a minha mãe morreu, que daí eu prestei vestibular, que eu fui fazer a faculdade na Unimar, em Marília.


P/1 - E como você conheceu o seu primeiro marido?


R - Depois que o Estevão foi embora. Aí ele estudava, eu lembro dele no terceiro ano, alguma... Terceira ou quarta série. Eu lembro dele mais na quinta série. Mais na quinta série, na escola. Assim, na escola. 


P/1 - E como foi o momento de você decidir pedir uma vaga, começar a trabalhar na empresa do seu pai, na época do seu pai?


R - Ai, Luiza, eu não sei. Acho que, por eu ter admirado muito o meu pai, trabalhando muito. Eu lembro que, quando ele era prefeito, ele ficava até tarde na mesa, lá em casa. E ele conferia até a conta de telefone da prefeitura. Eu sempre o via trabalhar muito. E eu não sei. Eu achava legal aquilo, eu achava bonito. E eu falei, assim, eu... Aí quando eu fiz quinze anos, eu falei: “Ah...”, achava chique sentar atrás de uma mesa, achava legal, aquilo me atraía. Então eu acho que no fundo, eu queria ser uma empreendedora, assim. Eu acho que estava lá guardadinho (risos). Ah, outra coisa que eu lembro também, eu não estudei a vida inteira no colégio, não. No primeiro colegial eu fui pra escola pública. E aí eu vou te contar uma coisa que me veio agora na cabeça, muito interessante, pelo menos pra mim, pra minha história. No primeiro colegial eu fui pra escola pública e eu já namorava o meu ex-marido.  Aí, em um ano, nas férias de verão, o meu pai alugava, a gente ia pra praia no Guarujá. Até então, eu nunca tinha pegado exame nenhum. E no primeiro colegial, eu peguei. Então era assim, naquela época: você podia pegar duas matérias, na terceira você repetia direto. Então eu peguei duas, eu podia fazer recuperação. Mas o meu ex-marido já tinha repetido direto, ele estava na minha sala. O meu pai sempre quis me segurar, ele não queria que eu saísse, que eu fosse embora de Ourinhos ou alguma coisa desse tipo e queria que ficasse tudo aqui. Aí ele virou pra mim e falou assim: “Não” - porque já tinham me colocado um ano adiantado na escola - “larga da recuperação. Larga. Vamos pra praia” - você já viu isso? Um pai querer que um filho repita de ano? - “olha só, filha, que legal. E eu te dou uma moto”. Eu falei: “Nossa, interessante. Eu vou pra praia. Ganho uma moto, que eu queria muito. Fico na sala do meu namorado. Um ano adiantado. Beleza. Negócio fechado”. Larguei. Repeti de ano, com todo esse assédio que eu tive. E eu lembro que, nesse primeiro colegial, tinham recebido um intercambista, a escola. Então eu olhei esse cara que veio, esse rapazinho que veio dos Estados Unidos e falei: “Gente, eu quero isso pra mim. Eu quero fazer intercâmbio”. Aí eu fiquei com aquilo na cabeça. E aí, quando eu comecei a falar pro meu pai: “Eu quero fazer intercâmbio. Eu quero”. Ele falava: “Não. Porque isso não é coisa boa. E porque não. Porque quem vai pra essas coisas, volta pior”. O meu pai era totalmente ao contrário. Tem gente que empurra, ele puxava. Daí eu falei: “Não, mas eu quero, eu quero”. Ele falou assim: “Se você ver a sua documentação, então você vai. Eu não vou fazer nada”. Então eu falei: “Ah, tá bom. Deixa que eu faço, então”. Aí lógico, o que ele tinha que fazer era pagar, né? Aí eu vi tudo e acabei indo pros Estados Unidos, antes mesmo de eu... Aí, quando eu voltei... Eu fiquei na Califórnia. Não foi muito tempo. Na época foram só três meses, mas foi a melhor experiência que eu tive na vida. Eu sempre quis fazer isso. Foi uma pena, porque o meu visto era exatamente pro programa. Eu saí de lá chorando, chorando. Eu não queria voltar por nada. Fui chorando, porque você sabe que a gente de peixes chora, né? Eu fui chorando porque foi, assim, uma separação muito grande. Naquela época não tinha internet. Não tinha pra você fazer ligação. Era muito caro, era uma coisa de outro mundo. E aí eu lembro que, quando eu fui pra minha casa... Era assim, eram dois meses na universidade, né? Na College of Notre Dame, em Belmonte, na cidade de Belmonte. E um mês na casa de uma família. E quando eu cheguei na casa da família, eu estranhei muito, porque eles tinham feito uma entrevista comigo, como eram os meus hábitos e como era a minha família. E, de repente, eu cheguei numa casa que a família tinha três crianças: um bebê de oito meses, um de dois, um de quatro. Não tinha empregada. Lógico, nos Estados Unidos, não tinha nada. E eu me vi, assim, me botaram pra dormir num porão. E eu tinha vergonha de pedir coisa pra comer, tinha hora que eu passava até fome, porque eu era muito envergonhada. Imagina que uma mulher que tem três filhos ia se preocupar em ver se eu ia comer ou não, né? E aí, eu sei que eu me espantei com aquilo, no começo. Eu falei: “Gente, mas, né?” Bem ou mal, eu tinha uma vida tranquila, né? Em casa tinha empregada, tal. Eu me dei com aquilo. Aí agarrei aquilo, passava aspirador, cuidava das crianças. Cheguei chorando, lá. Espantei. Não deu um mês, eu saí de lá chorando, que eu não queria sair de lá. Eu não queria largar as crianças, eu não queria ir embora daquele lugar. Uma coisa muito, (risos) muito louca.


P/1 - Você foi pra lá, nesses primeiros dois meses, pra estudar?


R - Sim. Pra ficar dois meses na universidade. É, pra fazer intercâmbio, aprender o inglês, né? Então, só que três meses, só. A hora que estava começando a ficar bom, mas daí o meu visto era certinho no fim do programa. E aí eu não pude estender. Porque, se não fosse, eu tinha ficado muito.


P/1 - Nessa época você já estava namorando?


R - Sim. Aliás, eu fui pro intercâmbio, justamente porque eu não aguentava mais aquele namoro turbulento. E aí eu já tinha vontade, eu falei: “Não, agora eu vou embora daqui. E não aguento mais”. Aí foi a gota d’água pra me empurrar. Só que, na hora que eu entrei no aeroporto, que eu estava na sala de embarque, o meu namorado quis voltar comigo. E voltou comigo, eu embarcando. Então nesses três meses, a gente trocava cartas. Eu já o namorava... Isso foi, eu tinha dezoito anos, dezenove, alguma coisa assim, eu já tinha seis anos de namoro. Ele falou, eu acho que ele deve ter pensado: “É melhor eu pegar aqui, porque senão eu vou perder”. E aí, quando eu voltei, eu voltei em novembro, em janeiro eu estava grávida. E aí eu casei em abril. E aí eu fiquei, eu namorei o meu ex-marido sete anos e fiquei casada vinte anos. São 27 anos de... E o único namorado, tá? (risos) Dos treze aos vinte, foi o único.


P/1 - E como foi se tornar mãe?


R - Luiza, eu vou falar pra você, foi assim: eu já estava com a minha mãe doente. Então, quer dizer, com ela, eu achava que eu tinha que ser mãe dela. Eu não podia dar trabalho pra ela, porque a minha mãe já era doente. Eu assustei com aquilo, mas eu fui encarando. Tipo, eu me lembro que eu fui trocar uma vez o meu filho, eu nem sabia que eu tinha que abrir a mão assim, pra botar a roupa certinho nele. Eu não sabia nem como eu ia dar banho naquele bebê. Mas eu fui, dei conta, fui dando conta. E com a minha mãe eu não podia contar, né? E a minha sogra, na época, ajudou muito, até a filha dela ter o primeiro filho. Então, assim, eu tive uma cobertura muito grande nos dez primeiros meses. A hora que nasceu o outro neto, era filho da filha dela, ela foi ajudar a filha dela. Mas, assim, eu sempre fui muito tranquila com isso. Eu sempre: “Ah, eu não sei. Eu dou um jeito. Eu não tenho... Eu me adapto a isso aqui. Vamos que vamos, que...”. Não vi muito _______, não. A única coisa que eu sinto muito, que eu fui mãe muito nova. Eu trabalhava muito, muito. E aí, quando eu estava com quarenta anos, que teve o rompimento da minha separação, porque, na verdade, o meu ex-marido que se separou. Porque, como eu te falei, eu me adapto e eu vou indo naquilo. Eu ia sempre naquilo. E aí, quando eu estava com quarenta anos, separada, eu já estava com um filho de vinte, outro com dezesseis, eu senti um vazio enorme, que eu queria _______. Eu falei: “Pô, eu estou madura. Eu queria ter um filho”. Tanto que, quando eu comecei com o Estevão, como ele só tem uma menina, eu falei: “Não, vamos ter outro. Vamos ter outro. Eu quero, porque eu quero”. Aí, graças a Deus, ele teve muito juízo, porque eu não ia dar conta de cuidar da empresa e da criança também (risos).


P/1 - E, Danielle…


R - E, ah, outra coisa.


P/1 - Diga.


R - Quando eu me encontrei com o Estevão pela primeira vez, eu achava que eu era mais... porque como eu estava um ano adiantada na escola, eu achei que ele era um ano mais velho do que eu, porque era difícil, naquela época, entrar adiantado na escola. Foi uma das coisas que me prejudicou muito também, porque um ano faz diferença, a maturidade. Então, pra mim era muito difícil. Por isso que o meu pai me chamava de burra. Eu tinha que estudar muito pra alcançar algo que as minhas amigas tinham maturidade, eu falava: “Gente, porque eu tenho que estudar tanto, pra tirar uma nota que as pessoas não precisam...”, porque você é mais imatura, né? E quando eu encontrei o Estevão, eu falei: “Você é um ano mais velho do que eu, né?”. Ele falou: “Não. Eu também estava adiantado”. E eu sou quinze dias mais velha do que ele, ainda. (risos) E ele teve filho muito mais velho. Hoje a menina dele tem dezessete anos. E eu tenho um filho com 34 e uma filha com trinta. Então a gente tem a mesma idade, com filhos totalmente diferentes. Aí eu queria ter filhos e ele, não. Porque ele ainda tinha a filha, quando a gente começou, ela tinha sete anos, ela era uma criança ainda.


P/1 - E como foi a época de decidir a faculdade, entrar na faculdade?


R - A minha decisão foi assim: nada ia mudar pra mim, porque eu já trabalhava na empresa, eu já tinha o meu salário. Então, o meu salário não ia aumentar, se eu fizesse faculdade ou não. Como eu te falei, eu esperei a minha mãe morrer. Ela morreu, dois meses depois eu já estava prestando vestibular. E eu lembro que eu queria. Eu falava: “Independente de qualquer coisa, eu quero diploma pra mim”. E eu tinha muita preocupação, eu falei assim: “E se acontecer alguma coisa com a Projex? Tudo bem, eu tenho o meu pai, eu tenho um negócio seguro. Mas e se? Eu preciso ter algo meu, né?”. Então, eu lembro que os meus filhos eram muito pequenos, ainda, nessa época, e foram cinco anos. Eu trabalhava o dia todo. E eu entrava num ônibus aqui às cinco e meia da tarde, pra chegar lá em Marília, que era cem quilômetros pra ir, estudar a noite inteira e chegava em casa meia noite e meia, uma hora da manhã. Mas eu queria um diploma pra mim. E eu vi que eu não estava fazendo aquilo por causa de um emprego, porque emprego eu já tinha. Eu não estava fazendo por causa de salário, porque o salário não ia mudar. Mas, assim, mudou, da médica pediatra pra arquitetura. Mas eu sempre gostei muito desse negócio de ficar olhando e mudando espaços e criando. Engraçado, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas eu escolhi a arquitetura, porque, realmente, eu gostava. Mas depois eu me arrependi. Porque, como eu sou a diretora da empresa, eu acho que se eu tivesse feito a engenharia, eu poderia ter ajudado ainda mais na empresa, entendeu? É uma empresa de construção civil, é uma empresa de engenharia. Ela não é uma empresa de projetos. Eu lembro que quando eu optei por arquitetura, o meu pai falou: “Tudo bem”.  Mas daí ele falou, ele tinha falado pra mim: “Faz Engenharia”. Eu falei: “Não, porque tem muito engenheiro. Eu vou fazer Arquitetura”. Ele falou: “Tudo bem”. Daí eu lembro que ele falou pra mim: “Mas você não larga do que você cuida?”, que era do Financeiro. Eu falei: “Não, eu não vou largar”. Aí, o que aconteceu? Eu me formei arquiteta. Tentei levar as duas coisas juntas. Ser a financeira, lá do Financeiro e ser arquiteta. Mas, meu, são dois, um trabalha com o lado direito do cérebro e outro com o lado esquerdo. E eu não conseguia. Eu sou de me jogar no negócio. Como é que eu vou ser arquiteta, criar, que eu tenho que ficar vendo números e não sei o quê, além do que, não dava nem tempo. Eu fiz algumas coisas. Fiz alguns projetos, executamos algumas coisas. Mas aí chegou uma hora que eu falei: “Não dá. Eu não estou com o pé nem numa canoa, nem na outra. Vou ficar onde é mais importante pra mim”. E fiquei cuidando do Financeiro da empresa (risos).


P/1 - E como foi o momento de despedida da sua mãe? Você lembra dessa época?


R - Aí você pegou firme (risos). Bom, como eu te falei, foi dado seis meses de vida pra ela. Eu tinha dezessete anos, naquela época. E a cada ano que passava, que ela suportava aquela doença, era uma glória. E aí, o meu pai correu muito com ela, com médicos bons, com bons tratamentos. Só que chegou uma época que o câncer foi passando, assim, é considerado curado, depois de quatro anos ou cinco, alguma coisa assim. E nos quatro primeiros anos não tinha voltado o câncer da minha mãe. Aí voltou e, quando voltou, começou indo de um órgão pra outro e acabou que ela não aguentava mais o tratamento. E ela morreu dentro de casa. Eu lembro que eu dormi com ela na noite anterior dela morrer. Mas eu tinha tanta fé, tanta fé, que eu não estava entendendo que a hora que a sedasse, eu a tinha perdido (choro). Eu achava só que a sedaram, porque ela estava muito agitada e que depois daquilo ela ia acordar de novo. Eu não esperava. Eu sabia que ela estava ruim, mas eu não sei se eu era muito nova, ou muito inocente, ou muita fé. De repente, a sedaram e aí ela morreu em casa. E eu lembro de ter ficado abraçada com ela e... (choro) foi assim.


P/1 - Já com dois filhos?


R - Sim. A Angélica tinha quatro, na época, e o Mateus tinha oito. Eu tinha 28 anos. Eu entrei na faculdade com 29.


P/1 - E você chegou a trabalhar em outro lugar?


R - Foi assim, Luiza: o meu ex-marido, quando a gente casou, ele tinha... O meu pai tinha a Projex, uma empresa estabilizada. E o meu ex-marido, o pai dele tinha uma revenda de veículos, caminhão e carro. Então a gente casou. Eu casei grávida. O meu pai me deu uma casa. O pai dele deu um carro e eu falei... Só que ele era muito imaturo. Ele, toda vez queria gastar, toda vez queria viajar. Eu falava: “Você não está vendo que a gente não tem nada? Nós somos dois adolescentes criados, abastecidos pelos nossos pais. Quem tem são os nossos pais. Nós não temos nada. A gente tem que fazer a nossa cama, pra deitar nela”. Não, mas ele sempre quis, bom, enfim. Chegou uma fase que meu pai falava assim pra mim: “Essa gente viaja demais. Essa gente pesca demais”, porque a família do meu marido sempre gastava muito dinheiro. _______ quebraram. Eles quebraram, ficaram sem nada. Isso, tudo naquela loucura, eu fazendo faculdade, enfim. Depois disso, como o meu ex-sogro foi corredor, ele foi campeão brasileiro de carro, então ele tinha um nome muito forte no meio automobilístico. Aí a Texaco, o meu ex-marido tinha um parente muito forte na Texaco, no posto de gasolina. A Texaco, eu acho que pelo nome do meu sogro, tudo, fez um posto pra eles e deu o posto pra eles operarem. Inclusive, foi a Projex que construiu o posto. E eu estava no meu último ano da faculdade, quando inaugurou o posto. Eu falei: “Puxa. Estou fechando a faculdade, inaugurando o...”.  Não, minto. Estava começando o posto. Começando. Eu lembro que eu trabalhava no posto. Fazia faculdade e ia no posto. E tive um outro negócio também, agora que eu estou lembrando. A minha irmã sempre ia fazer algo diferente. Então ela era engenheira civil, mas ela nunca quis ficar dentro da empresa. Ela ganhava de lá, mas ela estava sempre inventando outras coisas pra fazer. E ela fez uma escolinha de informática, naquela época, há mil anos, chamava Criança do Futuro. E ela cuidava fazendo as aulas e eu cuidava do Financeiro da escola e de fazer a entrada dos alunos. E trabalhava na Projex. E aí quando eu entrei na faculdade, eu não conseguia me dedicar tanto. Porque eu me dedicava pro posto, pra Projex, pros meus filhos. Eu falei: “Meu, eu não vou dar conta de continuar cuidando da escola”. E os alunos começaram a cair, porque eu que era a pessoa que divulgava a escola, pra entrar aluno. Eu cheguei pra minha irmã e falei assim: “Olha, eu acho melhor a gente vender isso, porque eu não tenho condições mais de dar conta do que eu estou...”, porque eu ia pra escola, eu trabalhava pra escola na minha hora do almoço. Acabou que a gente vendeu. Deu tudo certo. Fechamos, vendemos, beleza. O outro lugar que eu trabalhei foi no posto, quando começou o posto, operou, mas eles botaram o posto no meu nome, porque o meu ex-sogro e meu ex-marido tinham quebrado. Só que o posto começou a dar muito prejuízo porque não tinha… e o meu pai virou pra mim, na época, e falou assim: “Filha, sai de onde você está e vai lá ver o que está acontecendo. O posto está no seu nome. Se eles quebrarem, vai levar tudo o que a gente tem”. Nossa, aquilo entrou, assim, que nem uma flecha, virou um comando na minha cabeça. Eu tranquei as minhas gavetas e fiquei lá três meses. Tudo o que eu fazia na Projex, que era uma operação diferente, totalmente diferente de um posto de gasolina, naquela época, eu já usava Excel. É uma operação totalmente diferente. A Projex, a gente comprava muito material de vários e recebia de poucos clientes. A gente sempre trabalha pra multinacional. Lá no posto era assim: você compra de um fornecedor, que era a Texaco, e recebia de vários: era cartão, em carteira, cheque, dinheiro, enfim. Aí eu peguei toda a sistemática que eu fazia na Projex, de controles e levei para o posto. Comecei a mostrar um monte de coisa pra ele, começou a enxergar mais. Eu lembro que, naquela época, faz tempo, faz tempo pra caramba, faz mais de, sei lá, dezesseis anos, alguma coisa assim, eu levei dinheiro meu, lá. Foi a última vez que eu botei dinheiro no posto. Levei 23 mil reais, coloquei, meu, lá. A partir daquele dia nunca mais eu precisei... Eu deixei os controles todos na frente dele, pra ele enxergar com transparência. Porque fora que tinha o posto de combustível, tinha a loja de conveniência. Então eu amarrei todo o controle. E dali pra frente a coisa começou a andar. Porque eles realmente fizeram uma excelente equipe que trabalhava no posto. É um posto que existe até hoje. Tem um atendimento excelente. Está numa área nobre da cidade. Aí eu fui embora. Mas ali, também, eu acho que eu acabei com o meu casamento, porque ele ficou com muita raiva de mim, porque eu mandei muito. O meu sogro, o meu ex-sogro e a minha sogra ficaram com ódio mortal de mim, também, porque dói, você mostrar. E eu chamei a atenção de muita coisa que a gente falava: “Isso aqui não vai dar certo. Isso aqui não vai dar certo”. Mas, enfim, acho que era um casamento que nunca nem teve. Não foi um casamento. Como diz a minha terapeuta, eu fui fazer terapia depois do casamento, ela olhou na minha cara e falou: “Minha querida, você não foi nem casada”. Eu queria... Eu falei: “Ahn? Faz vinte anos que eu estou com ele. Como...?”. Hoje eu sei o que é um casamento (risos).


P/1 - E sempre, então, tocando a Projex junto?


R - Sim. Sempre. A Projex é a menina dos olhos, assim. Eu não tenho como ficar longe daquilo. Tanto que na hora da... E ela teve um momento muito difícil, a hora que o caixa zerou, a minha irmã virou e falou assim: “Vamos vender”. Eu falei: “Eu não vou vender. Não vou vender. Eu tenho certeza que isso aqui é minha vida e a sua vida”. E a minha irmã sempre foi muito desapegada de tudo. Porque assim, ô, Luiza, quando a minha mãe morreu, o meu pai, de cara, botou cinquenta por cento no meu nome, cinquenta por cento no nome da minha irmã. Eu acho que ele ficou preocupado de ter outros relacionamentos e isso acabar prejudicando, enfim. E ele ficou como usufrutuário. Daí a minha irmã falou: “Vamos vender”. Eu falei: “Não vou vender. Não vou vender. Você vai ficar aqui junto comigo, porque...”. E aí ela não queria, não queria, ela me levou na Justiça, pra tirar o nome dela. E eu falei: “Não. O seu marido trabalhou aqui a vida inteira. Nós vamos juntos. O seu nome vai ficar aqui, até a gente levantar isso aqui, junto”. E ela pegou e me levou na Justiça, numa audiência de seis horas e meia. Ela tem direito de sair. E eu não sabia que ela ia fazer isso. Assim que ela tirou o nome dela da empresa, eles abriram uma outra empresa e eu perdi 75% do meu faturamento, porque o marido dela era o contato de todos os clientes e da engenharia. Isso foi em 2018. Aí eu fiquei doente. Aí eu baqueei. Fiquei louquinha, assim. Porque, meu, até você ir encarando, encarando, encarando, tudo bem. Porque quando o meu cunhado saiu da empresa... Porque logo de cara, ele quis sair. 2016 e 2017, eu mantive a empresa com o mesmo faturamento. Eu estava lotada de problema, mas pelo menos, se está entrando, você está apagando um monte de fogo do passado, um monte de causa trabalhista, um monte de obra sem terminar, mas eu estava mantendo. Quando a minha irmã tirou o nome dela, em setembro, em dezembro eu perdi a primeira obra pra ele, em 2017. Em 2018 eu não vi o chão, caiu 75% do meu faturamento, porque ele avançou em todos os clientes. Eu não fiz uma separação, eu não fui bem assessorada na separação, não colocaram cláusula. Era tanto problema, eu tinha tanta coisa pra resolver, que eu não sei nem te falar. Em 2018, aí eu vi _______. Aí eu fui bater na porta de um amigo que tinha uma construtora muito grande em São Paulo. Eu fui bater na porta dele, eu falei: “Pelo amor de Deus, me ajuda, porque eu não tenho condições”. Porque daí ter problema e ainda não ter coisa entrando e ter um monte de coisa pra pagar e já sem caixa, eu falei: “Não vou dar conta”. Daí ele se interessou, viu o valor da empresa, foi fazendo negócio comigo. Ele falou: “Não. Eu te dou dinheiro. Eu te dou suporte de engenharia. Fica setenta pra mim, trinta pra você”. Eu fui, fui, fui, até, eu falei: “Não quero. Não quero. Esse negócio não vai dar bom. Eu não estou conseguindo ainda fazer o negócio virar, como é que eu vou pegar dinheiro seu? E a empresa está no meu nome. E daí, se ele começa a querer crescer muito, está no meu nome. Eu sou pequena. Eu só tenho o nome. Ele é muito grande. Pra ele é uma gota no oceano. Eu não, é a minha vida”. Eu falei, aí eu pedi desculpa. Ele foi muito atencioso, foi uma pessoa incrível. Eu tenho muito amizade com ele e respeito por ele. E, assim, a gente... daí eu falei: “Você me perdoa. Eu estou fora. Eu estou fora”. Daí, em 2019, por causa da certificação da WEConnect, eu consegui abrir novos, porque a gente trabalha muito bem. A gente tem um nome muito limpo. E é uma empresa de cinquenta, 52 anos, já. E aí com a certificação e essa experiência de mercado, a gente, eu abri “N” novos clientes e hoje a gente vive uma outra realidade. Eu arrumei tudo o que eu queria. Não tem nenhuma causa trabalhista. Assim, está sendo a empresa que eu nunca nem sonhei, porque eu achava que eu nem era capaz. É acima dos meus sonhos. 


P/1 - E, Danielle, explica uma coisa pra eu entender: como foi esse momento de assumir, que você decidiu assumir a empresa? Você enfrentou algumas resistências, algum tipo de preconceito? Como você se sentia nesse momento?


R - Ai, Luiza, eu senti todos os preconceitos, porque eu tinha o preconceito do meu próprio pai. Eu não tinha o respeito nem dele, como é que eu ia ter da equipe que estava lá dentro? Foi muito difícil. Porque como eu te falei, que eu contei lá atrás, que eu misturei as coisas, eu já tinha assumido, a empresa estava na minha mão. O meu pai ficava dia e noite me aterrorizando, falando que não ia dar certo. Então, o primeiro, eu tive que ter uma força sobrenatural porque, além de eu ter que resolver muita coisa, eu tinha que lidar com o emocional de uma pessoa que realmente era o cara, pra mim, que ele era o cara que sabia tudo, me aterrorizando, falando: “Você não vai conseguir”. Mas, assim, eu não tinha tempo, eu tinha que lutar. Eu tinha que lutar. Eu não tinha tempo pra: “Agora eu não vou”. Nem me derrubar. Assim, eu ia passando por... Eu ia. Eu levava porrada. Eu chorava. Eu lembro que eu chegava pra trabalhar na empresa e era... Eu lembro que o que eu descrevia, era como se eu estivesse sendo violentada, estuprada moralmente, de tanto que eu era oprimida e falava... Olha, eu não sei nem como eu suportei, pra ficar com a empresa, porque eu ia trabalhar chorando, eu ia desesperada, mas eu tive força pra superar. Acho que de tudo o que eu passei, o pior mesmo foi em 2018, quando o meu faturamento caiu 75%. Porque daí eu tinha cem funcionários pra pagar. E ter que dar uma guinada. Aí foi forte demais. Eu tive crise de pânico. Eu tive que entrar em alguns remédios. E aí é outra história, que também vou falar pra você que eu me considero uma vitoriosa, porque eu mesma saí dos remédios, porque o psiquiatra estava me dopando e eu fui tirando, tirando sozinha e me livrei de tudo. Isso já faz mais de dois anos.


P/1 - De onde você tira essa força?


R - Ai, é de Deus, (risos) foi a fé. É de acreditar no impossível. Acreditar. E acreditar que... Tem hora, assim, tem gente que fala pra mim: “Ah, você pode ter fé. É Deus, não sei o quê. Mas você já percebeu o tanto que você trabalhou? Você já percebeu o tanto que você lutou?”. Eu falei: “Não. Eu sei. Eu sei. Mas a minha força maior foi...”. Claro, eu entendo, hoje eu trabalho pra caramba, eu trabalho pra caramba. E contando isso pra vocês, eu vi que foi uma luta, né? Foi sempre. Mas pra suportar o momento mais crítico tipo, assim: “Você chegou num paredão, querida. Você chegou. E, se você não tiver uma força além, você não...”, eu não ia conseguir. Eu sei que eu trabalhei muito, até porque Deus ajuda muito a gente, mas a gente tem que fazer a nossa parte. Mas foi pela fé no impossível, de acreditar no impossível. Senão eu tinha _______.


P/1 - Quando você ouvia essas coisas, você acreditava no que diziam pra você? Ou não?


R - Você está falando nas coisas da igreja, de Deus?


P/1 - Não. Eu digo nas resistências, assim, do seu pai.


R - Acreditava. Imagina. Nossa, eu me sentia incapaz, totalmente incapaz. Tanto que quando eu pensava em não ver o meu cunhado atravessando a frente da minha sala, eu falava: "Gente, o que vai ser de mim?” Porque o meu pai acabou envelhecendo e quem ficou à frente da empresa e começou a crescer rapidamente, mas perder tudo muito rapidamente, foi ele. E eu não cogitava, jamais, jamais, eu _______ com a empresa. Eu fiquei, na verdade, eu sabia da raiz dela. E aí quando a minha irmã... Ah, tem um detalhe, eu estou lembrando de um negócio. Posso contar? (risos) Quando começou esse confronto, Luiza, olha, eu comecei a confrontá-los: “Isso vai dar errado. Isso vai dar errado. Vai dar errado”, o que aconteceu? O meu cunhado virou pro meu pai e falou assim: “Ou ela, ou eu. Com ela eu não trabalho mais. Assim: é uma pentelha, não sabe o que está falando, fica enchendo o saco”. Daí o meu pai virou e falou: “Então fica com vocês”. Não comigo, imagina. Então: “Fica com você, meu filho”. Aí eu falei: “Bom, agora eu estou lascada”. Eles queriam que... O meu marido mora no Rio de Janeiro e eu aqui. Há dez anos que a gente leva essa vida. Por sinal, ele vai chegar daqui a pouco. E aí, na época, eles queriam que eu fosse: “A gente te dá um dinheirinho e você vai morar lá no Rio. Quem que não quer morar no Rio?”, né? Eu moro numa cidade, Ourinhos, interior, pequena: “Não quer morar no Rio de Janeiro?” Aquilo, pra mim, não era convite. Aquilo, pra mim, eu estava saindo da empresa enxotada, eu falei: “Gente, como? Como isso?” Aí o meu marido virou pra mim e falou assim: “Dani, você pode vir aqui, eu abro qualquer negócio com você, mas você vai vender a sua parte. Porque a hora que você abrir o olho, você não vai ter mais nada. Porque, se na tua frente as coisas estão acontecendo assim, nas suas costas não vai ter mais nada”. E a empresa era 50% no meu nome. Quando ele falou aquilo pra mim, eu falei: “Nossa, mas agora, então, piorou mais um pouco”. Porque eu falei: “Não. Eu tenho certeza que eles vão arrumar. Eu tenho certeza. Está na cara deles o que precisa fazer”. Ele falava assim, pra mim: “Não está, porque… o seu pai sabia fazer a empresa. O teu pai envelheceu, ele perdeu a mão do negócio. Você é seu pai. Você só não é engenheira”. O meu pai tinha todas as competências. Ele sabia cuidar de dinheiro; ele sabia engenharia; ele sabia tudo da empresa. E ficou, o meu cunhado era engenheiro e eu sabia... O meu cunhado... Era metade do meu pai, eu era a outra metade. Só que, pra tocar a empresa, ele precisava de um engenheiro, não da Danielle. Então, por isso que o meu pai o escolheu. Aí quando o meu marido falou aquilo, eu tenho umas coisas, assim, entram na minha cabeça uns negócios, parece que entram que nem uma flecha. Aquilo, pra mim, era a morte. Era a morte, eu falei: “Não. Eu não estou enxergando isso”. E o meu marido, o meu psiquiatra e uma amiga minha, ninguém se conhecia, os três não se conheciam, eles falavam a mesma coisa: “Eles não estão vendo. Se eles estivessem vendo, eles estavam arrumando o que está acontecendo”. E eu, pra mim, como eu era muito bem treinada, Luiza, que eles eram o máximo e eu era nada, eu falava: “Não. Não. Imagina. Eles são os bons. São eles”. E aceitar aquilo que o meu marido falou: “Vai embora e larga” foi, assim, destruidor pra mim. Os meus filhos estavam fazendo Engenharia Civil. O meu filho estava se formando naquele ano. Eu falei: “Gente, como é que eu vou fazer isso? O meu filho está fazendo Engenharia por causa da empresa. A minha filha também”. Eu peguei e liguei pro meu filho, falei assim pra ele: “Eu vou vender a nossa parte, porque o Estevão acha isso, isso e aquilo”. E eles concordaram comigo, ele falou: “Mãe, a gente está com você”. Eu assustei mais ainda, eu falei: “Meu Deus, agora eles fizeram Engenharia por causa disso e _______. Ah, meu Deus do céu!”. Só que daí, Luiza, quando o meu cunhado falou aquilo: “Ou ela, ou eu” e o meu pai o escolheu e aí eu resolvi que, eu falei assim... O meu pai e a minha irmã resolveram chamar um... Como que faz, quando faz... Está me fugindo o nome. Fazer a sucessão. Então ia fazer a sucessão. Só que a sucessão já estava resolvida, pro meu pai. Ele estava só me embolando, ali. Eu vou voltar um pouco a história, tá? Ele estava me embolando porque era isso, pra eu ir pro Rio de Janeiro. Eu falei: “Tudo bem. Eu vou pro Rio de Janeiro. Mas eu preciso que vocês arrumem isso, isso, isso, isso, isso e isso” “Ah, tá bom”. Aí eles viraram pra mim e falaram assim: “Você tem seis meses pra arrumar tudo isso que você falou”. Isso, eu ia lá pro Rio de Janeiro. Eu falei: “Tá”. Imagina, faz cinco anos que eu estou na empresa, eu estou arrumando até hoje, mas eu acreditei que eu ia conseguir arrumar isso em seis meses, na época. Só que cada coisa que eu ia arrumar, o meu pai passava na minha sala e me destruía. Se eu chamasse o contador pra conversar alguma coisa, sem brincadeira, ele passava na porta e falava assim: “O que você está conversando com ele?” Assim, me desmoralizava de uma maneira. Eu não podia mexer uma cadeira de lugar. Resumindo, chegou o dia, era dez de junho, não lembro mais de que ano, aquele dia eu tinha que entregar e falar... Eles chegaram pra mim e falaram: “Chegou o dia de você sair”. Eu falei: “Eu não fiz nada do que a gente combinou. Eu não consegui. Não foi feito. Isso é muito grave. Pra eu sair, isso aqui não pode continuar desse jeito”. Eu nunca pensei que eles iam pegar pesado mesmo. Eles viram que eu não estava fazendo nada. E quando esse cara veio pra fazer a sucessão, a gente fez um documento disso e foi colocado dentro do cofre. Mas que teria que ter sido feito isso. Quando eles falaram: “Você vai sair”, eu falei: “Não”. Mas fui atrás do documento. O documento não estava mais lá. Tinha sido assinado por todo mundo, né? De qualquer forma, daí o meu cunhado virou pra mim, falou assim: “Bom, se ela fica, com ela eu não trabalho mais”. Bom, daí antes, teve essa história, quando eles falaram: “Você tem que sair dia dez”, foi quando o meu marido falou: “Dani, vende a sua parte e vamos embora”. E aí eu cheguei nessa reunião pra falar pra eles, isso. Só que eles não imaginavam isso, porque nem eu imaginava isso. Porque isso nunca passou dentro de mim, entendeu? Foi algo assim... E como os meus filhos apoiaram, eu cheguei na reunião que eles iam falar: “Você vai sair agora” e eu falei: “Gente, eu cheguei à conclusão, vou vender a minha parte”. E o meu cunhado pegou, passou a mão no telefone pro meu filho e falou assim: “Você está sabendo que a sua mãe está vendendo a parte dela?” Ele falou: “Estou. Ela falou comigo antes”. Imagina que eu ia fazer alguma coisa sem falar com os meus filhos! E aí, só que, se eles eram os bons e não sei o que, eles deviam ficar com a empresa. Eles falaram: “Não. A gente não tem pra comprar”. Então, eu falei: “Não. Tem. Tem. Pode ir me pagando ao longo dos anos. Não tem problema”. Mas até hoje eu não sei se aquilo foi um golpe ou que diabo que foi. Nem sei. Até hoje eu não sei. Daí: “A gente não tem pra comprar”. Em seguida disso, passaram-se dois anos. Porque a minha irmã tinha dado uma parte. Era 50% meu, cinquenta dela. E, ao longo, como o meu cunhado foi muito dedicado, porque isso eu não posso negar, que ele trabalhava muito mesmo, a minha irmã deu 12,5% da parte dela pra ele. Por muitos anos, eu era a majoritária, mas eu nem sabia o que era isso. E, assim, o meu pai o protegia muito. Ele ganhava o triplo, ele ganhava 9% do lucro. E o meu pai o protegia, mas protegia a gente também. Mas era o filhinho que ele escolheu. Daí ele pegou e devolveu as cotas pra minha irmã, ele falou: “Do jeito que eu ganhei, eu vou devolver”. Daí a minha irmã esperou passar dois anos, pra daí ela entrar na Justiça. Porque daí ele estaria livre de responder qualquer coisa do passado. Ou seja: eu fiquei com a empresa, sem saber de nada, com um passivo trabalhista enorme, sem conhecer os clientes, nada. Assim, pra começar do zero. Então, quer dizer, eu não escolhi ficar com a empresa. Eu simplesmente não desisti, entendeu? Foi isso. Eu, daqui eu não desisto, né? É toda essa história. É uma trajetória (risos) complexa. Eu não sei se ficou claro pra vocês. Eu fui e voltei, desculpa.


P/1 - Eu quero saber em que momento você começou a acreditar que assumir a empresa era possível, que você era capaz de fazer isso? Quando você entendeu?


R - Eu vou falar pra você que as mentorias que eu participo, todo mundo tem tentado me fazer me livrar do passado, tá? Eu vejo, realmente, que abriram novos clientes, que a empresa é outra, mas a impressão que eu tenho, é que eu só vou considerar isso, mesmo, quando eu atingir aquele volume, aquele caixa que existia no passado. Já me falaram: “Você já é vitoriosa. Você precisa enxergar isso. Por tudo isso que você passou”. Você imagina, hoje é uma empresa de engenharia que a gente não tem... Zero causa trabalhista, faz mais de dois, três anos. Aí a minha advogada atual, que eu contratei depois da WEConnect, também, ela falou: “Dani, você tem noção do que é isso no mercado da construção civil?” Eu falei: “Não”. Assim, as pessoas ainda precisam ficar me mostrando. E uma dessa mentoria da EY era enxergar o passado e enxergar quem eu sou, o que eu fiz. E, assim, eu estou em processo, eu enxergo sim, que foi muita coisa. Mas parece que enquanto eu não voltar lá naquilo e falar: “Ó, aqui eu não consigo vestir isso”. Mas muita gente fala isso pra mim, muita: “Você precisa se enxergar. Você precisa enxergar que mudou”. É uma história (risos).


P/1 - E o que significou pra você, a Projex ter sido qualificada como uma empresa diversa, pela Monsanto?


R - Nossa, gente, eu nasci de novo. Aliás, eu falo que a certificação não resgatou só a Projex, ela me resgatou como pessoa, como mulher. Você imagina, mesmo com essas vitórias, eu ainda tenho essa lacuna. Você imagina se eu não tivesse essa certificação, se eu não tivesse passado. Essa seleção da Ernst & Young é uma seleção... A quantidade de empresárias inscritas nessa seleção é enorme. Nós somos de várias partes do país, empresárias. Essa mentoria, esse programa da Winning Women me fez um bem tremendo. Curaram, tipo, acho que está faltando 10%. Vocês estão fazendo parte da minha cura, (risos) pra enxergar, porque ser indicada pra um Museu contar a minha história, eu acho que é um prêmio e tanto, né?


P/1 - E como foi a experiência de ter participado do programa da Ernst & Young?


R - Foi algo, assim... Por sinal acabou esta semana. E foi tremendo. As minhas mentoras, olha, eu não tenho palavras pra descrever o que é um programa desses. O impacto que isso tem na nossa vida como pessoas, nas nossas empresas. E as outras três empresárias, a gente tem um grupo e a gente se reúne a cada quinze dias, virtualmente, porque a nossa turma passou toda virtual, a gente não se conhece. Nós estamos loucas pra se conhecer, se abraçar. E, assim, muito legal de ver como cada uma amadureceu, como a gente aprendeu umas com as outras. Algo assim... Olha, o programa nunca mais pode parar de existir, porque ele resgata vidas, não resgata só empresas, não.


P/1 - E, Danielle, quais foram os seus maiores aprendizados, nessa sua trajetória profissional?


R - Bom, eu acho que não existe uma empresa e não existe uma profissional, se não existe uma pessoa inteira. Então eu entendo que eu encarei essa vida profissional, eu acho que muito pela minha dedicação, pela minha garra e pela minha vontade. Mas eu só comecei a dar valor... Não a dar valor, a enxergar muita coisa, depois que eu enxerguei, que eu enxerguei, não, por causa do valor. Eu não sabia nem o que era diversidade, Luiza, eu não sabia. Assim, a certificação me fez, me rotulou, falando assim: “Minha querida, o que você passa, muitas mulheres passam. Muitos talentos estão mortos por causa disso”. Eu imagino se lá atrás, eu não tivesse tido todo esse preconceito, o meu marido que fala, ele fala: “Nossa, você ia voar longe. Você ia ser um avião, se você não tivesse sido tão oprimida”. Então eu acho que, de tudo, Luiza, o maior aprendizado disso foi que, gente, esse movimento de diversidade e deixar as pessoas serem quem elas realmente são, não tem preço. Eu acho que esse é o maior aprendizado. O resto, tudo a gente tira de letra. Agora, aquilo que você é oprimida, sem você conhecer porque você é e fica presa naquele cantinho e saber que existe isso. Porque a diversidade é tudo, né? É negro, LGBT, é perceber que é tanta coisa, tem tanta gente oprimida com isso. São muitos talentos mortos. Então, eu acho que, pra mim, de tudo, trabalhar pra mim é um prazer, qualquer coisa que vier pela frente, se é de manhã, de tarde, de madrugada, não tem hora pra mim. O problema não é trabalhar e encarar desafio. Mas o meu maior desafio eu acho que foi isso, foram décadas de opressão, onde eu não sabia nem o que eu era, do que eu era capaz. E tantas pessoas vivem assim. 


P/1 - Você consegue pensar em algum momento mais marcante da sua trajetória, como mulher empreendedora?


R - Eu acho que quando, assim... como eu já trabalhava, há mais de trinta anos a gente é fornecedor Monsanto, foi a Monsanto que apresentou a certificação pra mim, então eu considero que ali foi o início de libertação. O que aconteceu? Antes mesmo da certificação, a Monsanto fez o primeiro programa de diversidade, aqui no Brasil. E eles fizeram uma seleção com cinco empresas. Dessas cinco empresas, eu fui selecionada. Então, quer dizer, pra mim foi muito importante. Por quê? Porque eu recebi uma mentoria de sete meses, do meu maior cliente. Aí teve o dia da formatura e eu fui parar lá no painel, com toda a Monsanto, a diretoria da Monsanto viu. E era justamente dentro da Monsanto que eu estava perdendo, era ali o prestígio do meu cunhado. E aí eu fui presenteada, premiada lá em cima. E claro que toda a multinacional demora um pouco pra processar as coisas. E aí tudo apareceu. Então, hoje eu já retomei todo o meu trabalho na Monsanto. O meu cunhado não trabalha mais lá. Agora nem é mais a Monsanto, é a Bayer. E aí a gente abriu a Bayer, abriu a MEC, abriu a PepsiCo, a gente trabalha pra CTG. Enfim, eu realmente nasci ali, o dia que eu recebi uma certificação internacional, que chama Human United. A WEConnect certifica mulheres de negócio. Tem outros certificadores, mas o WEConnect é só de mulheres. Então, aquilo, pra mim, foi uma coroa. E a minha vida começou a mudar dali pra frente. Eu fui parar na Ernst & Young, na EY, justamente porque uma amiga dessas das cinco selecionadas pra Monsanto, um dia a gente sentou pra almoçar, ela olhou na minha cara e falou: “Dani, o programa, você precisa se inscrever, da EY. Eu tenho certeza que você vai ser... A tua história vai passar ali”. Aquilo entrou que nem um flash na minha cabeça. Eu me inscrevi. A hora que eu vi, eu tinha sido selecionada (risos).


P1 - Como é o seu dia a dia, hoje em dia?


R - Bem, eu respiro a empresa. Assim, os meus filhos ficam até irritados comigo: “Mãe, você não tem outro assunto?” “Não”. O meu marido briga comigo: “Dá pra deixar o celular de lado? Você não precisa...”. Eu preciso até desacelerar. Porque é a minha vida. É a minha vida, tudo. Se falar: “Você quer estar na praia ou você quer estar na Projex?” Enquanto eu não chegar aonde eu quero chegar, eu só quero estar na Projex. O resto, eu faço tudo à força, porque eu tenho que fazer, porque eu tenho que relaxar, porque eu tenho que... Mas o meu dia-a-dia é engolir aquilo, eu amo, eu faço por prazer. Eu amo o que eu faço. Eu tenho um foco, né?


P/1 - E como foi encontrar, ou melhor, reencontrar agora o seu marido atual? Como foi isso, pra você?


R - Ai, foi mágico. Assim, foi até engraçado. Ele me achou na internet. Aí, um dia, a gente marcou um encontro. Eu gostava muito dele lá atrás. Mas mesmo separada já há quatro anos, eu sou uma pessoa de ficar muito enraizada no passado. Eu demoro a me despregar. Muito. Por mais que eu tenha sofrido, eu demoro muito pra enxergar muita coisa. E aí foi uma construção. Eu sabia, assim, eu gostava dele quando ele era criança, porque ele era muito bom pra mim; era muito puro o que a gente sentia. Mas o primeiro impacto, eu falei: “Não. Eu não estou apaixonada por ele”. Só que foi uma coisa que foi vindo, que foi crescendo. E hoje ele é tudo na minha vida, eu não me vejo sem ele. É a minha alma gêmea. Sem ele, eu também não estaria aqui, porque ele foi o cara do meu lado. Ele foi e ele ainda é (choro). E eu só tenho que agradecer a Deus, muito. Porque eu fui muito... Eu posso ter sofrido, mas que eu fui bastante abençoada e privilegiada, eu fui.


P/1 - E como a pandemia afetou a sua vida? Se afetou, como essas transformações chegaram?


R - A pandemia foi punk. O primeiro lugar que ela tocou foi no meu relacionamento, porque o setor da construção civil não parou. A sede nossa é grande, é muito espaçosa, nem fica amontoado. Então o escritório conseguiu continuar. Não precisava fazer home office. E o meu marido estava no Rio, quando começou a pandemia. E ele pode, o trabalho dele é muito remoto. E a gente, assim, o primeiro lugar que afetou foi o meu relacionamento. Porque ele não se conformava de eu ir trabalhar. E ele foi muito rígido no início, muito, muito, muito. E eu falei: “Agora danou-se”, porque a gente ficou quatro meses sem se ver, três. E brigando, a gente nunca tinha brigado, nunca, nunca, nunca. Eu falei: “Meu Deus, como é que eu vou suportar isso agora? Porque ele é minha alma gêmea. Essa pandemia. Eu com problema também na empresa, bem ou mal, é difícil, porque o pessoal tudo viajando”. E a primeira coisa que afetou foi o nosso relacionamento. Mas o amor é maior, a cumplicidade é maior e a gente conseguiu, depois de quatro meses, ainda, sem se ver e brigando pesadamente, tudo se ajeitou. Na empresa, eu vou te dizer assim, que eu tive muito sucesso, porque logo no início, eu peguei muito pesado. Eu fiz um grupo, porque tem funcionário que eu nem conheço, porque contrata fora, a gente atende nacionalmente. E eu fiz um grupo e comecei a alimentá-los muito, direto, sobre a gravidade e como a gente deveria se portar, porque se eu esperasse um movimento da televisão... Assim, eu joguei muito pesado. E atualmente, a gente, nós estamos com… 10% do nosso time foi contaminado, sem ninguém... Ah, e de cara, eu falei: “Fazendo bem... mal não vai fazer”, comprei vitamina C, alimentei as obras o tempo todo. Eu falei: “É o que eu posso fazer. Eu não posso fazer mais nada”, além de dar máscara, botar álcool em todo lugar, proteger todo mundo. A construção civil não parou, eu tinha que continuar. Eu sei que eu não sei. Eu sei que 10% na construção civil, sem ter nenhum caso grave, internado e eu falei: “Mais uma vez eu fiz a minha parte, mas Deus fez a dele” (risos). E falava muito pro pessoal da fé, porque nessa hora foi tão forte pra todo mundo, que eu falei: “Eu não vou conseguir segurar que é Deus e falar de Deus e falar: gente, tenha fé. Vamos fazer a nossa parte”. E assim, eu vejo que hoje eu tenho um time muito, muito alinhado com os valores e com a cultura da empresa. Eu tenho orgulho do time que eu tenho.


P/1 - E, Danielle, você lembra de algo, você consegue pescar alguma história de alguma obra, alguma implementação desses anos todos, que tenha te marcado de alguma forma? 


R - Positivamente ou negativamente? Eu tenho as duas.


P/1 - Pode ser as duas.


R - Bom, eu vou contar a negativa primeiro. Eu tinha acabado de assumir a direção da empresa, a gente estava fazendo uma obra na multinacional, na parte de produção. E uma concreteira da região, que sempre atendeu muito bem, venderam o concreto pra gente, que não atingiu a resistência, depois que o negócio já estava pronto. Porque a gente faz teste de prova, né? E não atingiu a resistência. Nós tivemos que mudar tudo, rapidamente, por causa da produção. Foi muito desgastante. A gente fez o projeto novamente, refez toda a obra, entregamos a tempo, mas foi muito, muito, muito estressante e teve um prejuízo enorme. E eu processei a concreteira. Isso foi em 2016, esse processo está rolando até hoje. Mas eu espero esse retorno, porque eu respondi pelo cliente, botei tudo lá, mas isso não pode passar em branco. Então essa foi, assim, uma parte negativa. Eu estou falando da minha direção, tá? Porque quando estava na outra direção, eu não fazia parte dos problemas que tinham de engenharia, tudo, eu nem ficava sabendo, porque o meu pai e o meu cunhado... Não chegava até mim. E a positiva foi que, depois dessa queda de 75%, a maior obra da Monsanto, que já era Bayer, teve o ano passado, nós que ganhamos a concorrência. Nós entregamos. Foi em pandemia. Começou na pandemia. Entregamos na pandemia. Não atrasamos. Não tivemos problema nenhum. Olha, era material subindo por dia e por hora, era escassez de material. Tinha tudo pra dar confusão e a gente fez uma excelente entrega. E o que me alegra também, é que as notas do passado - porque a Monsanto sempre deu avaliações - as nossas notas, depois da minha administração, foram melhores. E eles elogiaram muito o nosso trabalho. E antes era muita briga, no passado: “Está faltando isso. Está faltando aquilo”. Então isso foi no final do ano passado, que a gente entregou.


P/1 - E, pra você, o que é ser uma mulher empreendedora?


R - Olha, eu vou te falar que é uma coisa... eu estou chegando à conclusão que é uma coisa que nasce com a gente. Eu não sei se isso se desenvolve. Pode, eu acho que até pode se desenvolver, mas hoje eu enxergo que, meu, quando eu vejo uma carinha querendo se interessar por um negócio, eu falo: “Dá valor pra aquela carinha”, porque isso é muito valioso. Porque tem gente que demora pra se interessar por alguma coisa. E se vê um interesse de novo, meu, pega aquela vida, empurra pra ela voar, que ela vai longe. Então... Mas isso não quer dizer que ninguém vira a chave no meio do caminho, sabe? Puts, então eu acho que hoje eu tenho os meus 54 anos, hoje eu consigo enxergar algumas coisas que lá atrás, eu acho que nem o meu pai enxergou. O meu pai podia ter me dado muito valor, falar: “Nossa, olha essa menina com esse desejo todo”, né? Então, eu acho que já é algo que está dentro da gente. Mas não posso dizer que não possa ser desenvolvido. 


P/1 - O que a Projex representa na sua história?


R - A minha vida (risos). É a minha vida. Eu não me vejo sem. Poderia até falar: “Nossa”, se alguém chegar e falar assim: “Eu te dou não sei quantos milhões nela”. Eu vou falar: “Hmm. Eu não sei, não vai rolar”. E eu vejo assim, também, por exemplo: pro meu pai a Projex, embora hoje ele não tenha nada lá, mas nem sabe dos números, ele não sabe de nada, ele vai lá a passeio. Mas eu vejo que, pra ele, é mais importante eu cuidar da Projex, do que dar atenção pra ele. E um dia eu falei pra ele: “Eu sei, pra você, o meu amor é dar amor pra Projex, que é a sua filha mais nova”. Porque a Projex, vem a minha irmã, eu e depois a Projex, né? E é como se eu estivesse cuidando da filha dele mais nova. Então eu vejo que ele se realiza com isso. E ele fala assim: “Filha, eu não quero te incomodar. Eu não quero te incomodar”. Então, chega no final de semana, ele fala: “Filha, descansa” “Pai, eu estou trabalhando”. Então, é a minha vida mesmo. Não sei de onde, não sei por que, mas é assim (risos). 


P/1 - E o que significa, pra você, trabalhar numa área que é culturalmente considerada masculina?


R - Olha, eu vejo assim, que toda essa mentoria, todo esse processo, esse empoderamento que me deram... Antes eu via um e-mail, assim que eu assumi, eu via um e-mail do cliente, eu gelava de cima em baixo, eu olhava aquilo e já tremia. Hoje eu entendi que eu tenho valor, eu falo coisas com coisas, eu sei o que eu estou fazendo e eu não preciso me diminuir tanto. E hoje eu converso com líderes de empresas e diretores, sem medo. Eu converso como uma mulher, uma diretora de empresa. Mas eu entendo também que a gente está sempre em construção. Essa etapa da EY, esse um ano, me transformou em outra pessoa. E eu vou correr atrás de mais mentoria, porque eu não posso, eu preciso me alimentar o tempo todo.


P/1 - E hoje em dia, como está a relação com o seu pai? 


R - Olha, eu achei que... teve um momento que eu falei, quando eu comecei a me enxergar, eu falei: “Eu não preciso passar por isso. Eu não preciso ter um pai que me massacra tanto. Eu não preciso ter uma irmã que me judia tanto”. Aí eu comecei a ver que eu tinha o direito de não ser aquilo. E o meu pai, como ele viu a empresa começar a prosperar e ficar melhor do que ela estava, ele consertou tudo o que... Eu, pra mim, já tinha desconsiderado. Eu falei: “Eu não preciso de pai. Eu não preciso dessa vida. Eu posso ser feliz sem essa tortura”. Mas ele foi e recuperou tudo. Ele pediu perdão. Ele reviu tudo. Assim, hoje eu tenho que dar parabéns pra ele, porque o meu pai foi um pai muito protetor. Hoje eu entendo que ele fez isso por amor. Ele não fez… pelas limitações dele, de achar que mulher, o lugar dela é ficar em casa e obedecendo. Então, isso curou. Foi fantástico. Porque uma das preocupações da minha mentora da Monsanto era resgatar o meu relacionamento com o meu pai, mas naquela época ainda estava muito difícil. É que agora, já, como eu te falei, é uma história de final feliz. Ótimo. Está ótimo. Excelente. Ele elogia os meus filhos. Ele me elogia. Ele fala: “Os seus filhos são maravilhosos. Se não fosse você, não... Nossa, o seu filho trabalha muito. A sua filha trabalha. A sua filha, a Angélica é o máximo, o Mateus também”. Assim, ele não se poupa de fazer elogios. É um fofo. Depois eu mando foto com ele (risos).


P/2 - Danielle, eu estava ouvindo a sua história e veio muito na minha cabeça essa pergunta: você tem ideia de quando virou essa chave na sua cabeça, de que você era oprimida, de que você era sempre deslegitimada pelo fato de ser mulher? Quando você teve consciência disso?


R - Eu posso te falar que é um processo. Eu tive consciência disso, como eu falei, com a certificação, quando eu comecei a interagir com outras mulheres, ver que, se existia uma certificação internacional pra mulher, é porque o negócio é complexo. E que aquilo tudo que eu sentia, que eu achava que era normal, não é. Mas se não fosse a certificação pra me mostrar isso, eu ia passar a vida daquele jeito. E não é um botão que a gente aperta e ahhh! Não. Não é. É uma forma de criação. É um monte, é uma história enorme, são décadas, né? Então é uma chave que está quase virada de uma vez. Mas foi, sem dúvida, com o início da certificação e o mundo que me conectaram, que eu falei: “Gente, olha isso. Cara, isso é muito, muito real” (risos). Foi esse momento. 


P/1 - E quais são os seus maiores sonhos, hoje em dia? 


R - Ah, eu quero ter os meus netos, porque os meus filhos já têm 34 e trinta anos. Amo criança. Sou louca por criança. Mas também entendo que Deus ainda não me deu esses netos, porque senão eu ia tirar o pé lá da Projex. Então eu tenho ainda uma missão que, como eu falei, eu quero colocá-la lá naquele patamar. Então, esse é... Os netos é um sonho, mas primeiro colocar a empresa naquele patamar, é primeiro e depois os... Mas eu sei que a gente não pode escolher. Acontece. Então é isso: muita, muita saúde e harmonia pros meus filhos, porque pra mim, família é o maior bem que a gente tem. Não ia adiantar eu ter a Projex com muito sucesso, se eu não tivesse os meus filhos comigo, em paz e harmonia. E os dois trabalham lá. Os dois são engenheiros civis. Os dois.


P/1 - Agora eu queria saber, a gente está encaminhando pro final, se você gostaria de acrescentar alguma coisa, ou de contar mais alguma história que eu não tenha instigado, ou passar alguma mensagem, enfim. 


R - Olha, você, assim, vocês tiraram de mim muita coisa. Foi muito legal. Porque eu falei até mais do que eu pensei que eu fosse lembrar. E a mensagem. Bom, primeiro eu quero agradecer de joelhos, essa oportunidade. Vocês estão fechando com chave de ouro uma etapa da minha vida, porque eu acho que, daqui pra frente, eu realmente preciso me tornar, assumir uma outra pessoa. Isso é um presente enorme de Deus, que vocês estão me dando. E falar que as mentorias, esse movimento de diversidade nunca pare, porque eu acho que essa é a maior mensagem que eu posso passar e pedir: que outras pessoas sejam libertas dessas opressões que a gente nem imagina que muitos vivam. Ninguém merece viver assim. Preconceito mata vidas e destrói talentos. Eu acho que o mundo poderia ser muito melhor. 


P/1 - E o que você acha da proposta de mulheres empreendedoras serem convidadas pra contar as suas histórias, num projeto de memória?


R - Ai, acho maravilhoso. Eu acho que todas terão histórias muito valiosas pra contar, porque eu tenho certeza que atrás de cada carinha tem uma. A minha história não é diferente de muitas outras histórias de luta, né?


P/1 - Eu sei que antes você estava um pouquinho receosa, ansiosa. Quero saber o que você achou de ter participado, de ter contado um pouco a sua história. Como foi essa tarde, pra você?


R - Ai, nossa. Foi, assim, um lavar de almas. Foi muito bom. Eu fiquei feliz, embora mexa, mas eu entendo que isso é um processo da minha cura e da minha liberdade, de falar: “Deu, Danielle. Está bom! Está bom, chega. Agora, se liberta de tudo. E vive em paz”. Assim, me foge até as palavras, porque foi muito tranquilo. Eu espero ter... Que vocês consigam compilar as coisas mais... Muito emocionante. O trabalho de vocês é muito legal, muito valioso. E eu acho importantíssimo porque, através disso, muitas outras vidas se identificam, pra poder caminhar mais rápido. Entender melhor. Uma coisa que eu nunca nem ouvi e demorei tanto pra saber que existia, né? Então, através dessas histórias, eu acredito que muitas vidas podem ser tocadas, virar uma chave, às vezes, bem mais rápido do que a minha.


P/1 - Te agradeço. Te agradeço muito, imensamente. Acho que você disse tudo. Vira inspiração, né? Pessoas e histórias que viram inspiração. Sei que não deve ser fácil contar. Nunca contei a minha história. Mas imagino que não seja muito fácil. Mas espero que você tenha curtido. E agradeço pela sua disponibilidade, por topar participar, por passar sexta-feira à tarde com a gente. Foi muito gostoso, pra mim, ouvir. Te agradeço de verdade.


R - Eu que agradeço vocês. Eu posso tirar uma foto assim, nossa?


P/2 - Pode.


R - É um momento, assim, tipo, inesquecível na minha vida.

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