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A trajetória de um operário: das caldeiras ao Ministério do Trabalho

História de: Antônio Rogério Magri
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2005

Sinopse

Recém-casado e com uma filha para criar, Antônio Rogério Magri se vê obrigado a aceitar trabalhar na empresa do pai. De origem italiana, o operário teve que vencer longas jornadas de trabalho duro para poder sustentar sua família. Com o tempo, Macri conseguiu alçar melhores cargos na Light, participar do sindicato e da ADC, clube esportista da empresa. Após a visibilidade de suas grandes conquistas sindicais, o operário que mal tinha concluído o primário, chegou a ocupar o cargo de Ministro do Trabalho do Brasil. 

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História completa





P - Bom, ô Magri, então vamos começar pela sua identificação. Eu queria que você dissesse seu nome, data, local de nascimento, e ... a gente vai se estendendo...



R - Meu nome é Antônio Rogério Magri, eu nasci em 26 de outubro de 1941, nasci aqui no Hospital Santa Cruz, no Cambuci, quase no centro de São Paulo, quase no marco Zero da... que é Praça da Sé.



P - Fala um pouco pra gente sobre seus pais e avós...



R - Ah, sim, bom. Sou filho... meus saudosos e queridos pais, meu pai Antonio Magri, minha mãe, Tereza Borsari Magri, pessoas extraordinárias, que tenho essa lembrança até hoje de uma maneira muito viva. Papai era um eletrecitário. Papai trabalhou no Cambuci nas oficinas, onde eu trabalho hoje. Eu só entrei para a empresa porque papai quase que me obrigou a fazer isso. Eu trabalhava numa metalúrgica, que fazia gabinetes dentários, ali perto, no Cambuci mesmo. Em 1962 houve um aumento muito forte do Sindicato e eles acabaram demitindo pessoas. Que aliás é como faz sempre até hoje, né? Tem aumento, em vez de acertar, manda as pessoas embora. Eu fiquei desempregado porque eu me casei em 1960 e já casei com a minha filha no colo, a Cristina. Então, era um problema prá mim, porque eu fui morar junto com o meu pai, e papai disse, "olha você vai no Cambuci e a gente vai" E... me arrumou uma colocação. Só que eu não tinha profissão, não é, só com o quarto ano primário, que aliás eu sou um primário até hoje, não... não pude estudar, eu fui trabalhar de ajudante no Cambuci. E o papai é que me levou prá isso, e papai disse: "Olha, é um serviço dificil, um serviço duro, mas eu acho que você está precisando, você vai ficá comigo lá". E realmente, eu fui pro Cambuci. Minha mãe também me deu muita força, mamãe tinha... eu tinha um relacionamento com a minha mãe quase que incestuoso, de tão grande que era a minha relação com mamãe. E fui para o Cambuci fui ser... braçal. Então foi duro. Papai que era um carpinteiro de primeira linha, um homem que tinha muitos anos trabalhando na empresa, com um perfil realmente de lightiano, era difícil pra ele me ver dentro daquelas valetas abrindo esgoto, aquela coisa toda, foi muito dificil pro papai. Mas papai disse: "Olha, eu acho, eu acredito em você e tenho certeza de que você vai ficar como eu, vai morrer aqui dentro". Eu acho que um anjo deve ter dito amém pro papai, que até hoje eu me encontro ainda ali, passando todos os dias pela bancada onde ele trabalhava, tendo a mesma saudade dele. Realmente papai foi uma pessoa extraordinária. Mamãe também foi uma pessoa, uma criatura extraordinária, minha relação com minha mãe era tão afetiva, que ao... ao me faltar, eu pensei que ia ficar louco. Tive que procurar pessoas que me ajudavam e tal, mas eu compreendi também que essa é a passagem da vida. Tanto que mamãe morreu com 75 anos, papai com 86, faz dois anos agora, cumpriram a sua etapa, reconheço que a vida é assim mesmo. Aliás acho que eles passaram por aqui, devem estar lá em cima ainda me olhando, porque a vida tem sido boa pra mim. Eu não posso me queixar muito dela, sinal de que eles estão junto comigo até hoje. Isso é muito importante.



P - Magri, e sobre a origem das famílias dos seus pais, você se lembra, conheceu seus avós... R-Conheci, conheci, conheci. Meus avôs são... por parte de papai, meu vô Hugo, minha avó Vitória, são aqueles italianos maravilhosos de Pádua, um de Gênova, outro de Pádua, a minha mãe é padovesa, nascida em Pádua mesmo, os meus... os meus avós, por parte da mamãe, o vô Hilário, vovó Helena, foram pessoas que eu convivi. A minha vó Helena por parte de mãe eu conheci pouco, porque ela faleceu eu tinha cinco, seis anos de idade, mas eu me lembro bem dela. Mas o meu vô Hilário, sim. O vô Hilário era um italianão, uma figura extraordinária, morava em Mococa, que quando eles imigraram vieram tudo pra Mococa, tanto a família do papai, como da mamãe. E o vô Hilário era um italianão, já naquela época já com uma certa idade, aposentado, ele era ferreiro, tinha um punho parecia uma pata de cavalo, uma força enorme, tanto é que a minha influência, da... de fazer muito esporte, como eu fiz todo, foram dos meus dois avós. Os dois eram... um era carpinteiro o outro era ferreiro, mas tinham uma força de leão, os dois. Meu pai também gostava disso, então em me recordo, do vovô Hugo também pai do papai, como carpinteiro, com a sua carpintaria embaixo da casa dele, lá na rua Rosada, em Mococa, trabalhando, fazendo todos aqueles materiais, e eu moleque, em volta dele, aquilo me... eu gostava de vê-lo trabalhar mas nunca tive a habilidade que eles tiveram. Tanto meu pai como meu avô tiveram grande habilidade manual. Sempre foram pessoas que tiveram capacidade de trabalhar com as mãos. E eu não tive essa habilidade, mas em contrapartida, Deus me deu uma outra... canalizou a minha profissão pra outro lado. Eu descobri que eu em vez de trabalhar com as mãos eu era um bom... falava com facilidade, fluía com muita facilidade os meus... o meu raciocínio, o que eu pensava. Então... tínhamos essa diferenciação. Eles eram realmente muito bons pra fazer serviços manuais, e eu não tinha a menor habilidade, tanto é que quem troca luz na minha casa, conserta tomada, ainda é dona Isabel, é minha mulher que faz isso (risos), que eu não tenho nenhuma habilidade pra isso. Mas em contrapartida sei, que tenho essa facilidade, tanto é que minha vida política foi tudo por aí. P-E quanto a seus irmãos? Quantos irmãos você teve? R-Eu tenho um irmão só.



P - Um irmão só.



R - Um irmão só. O José Ricardo. Ele... só um irmão, como nós éramos só os dois, eu sou mais velho do que ele, eu sou cinco anos mais velho do que ele, e meu irmão... esse sim, esse puxou muito do papai. Tranquilo, mais acomodado, mais sossegado, e nós começamos a trabalhar muito cedo, eu comecei a trabalhar com onze anos, tanto é que com onze, com onze eu já tinha, eu já tinha assassinado esse dedo numa máquina. Com onze anos de idade. Porque eu era muito briguento, e mamãe me colocou pra trabalhar numa gráfica, pra tomar conta de uma gráfica do seu Alberto, pertinho de casa, ali na rua Tenente Azevedo. E eu me lembro que o... o operador da máquina, ele foi ao banheiro e disse assim, prá mim, "Olha, se caso a máquina... o papel pegar assim naquele rolo, você aperta esse botão aqui e.. não mexe na máquina". Tudo bem. Mas a máquina pegou o papel, e esse papel entrou dentro de uma proteção que tinha e eu enfiei o dedo pra tirar o papel, e ali passava uma engrenagem. Então foi o primeiro acidente grave da minha vida, porque eu não perdi o dedo porque meu dedo ainda... eu ainda era moleque e meus dedos não tinha essa conformação maior, mais grossa, e não perdi. Você pode ver que tem aí todo o dente da engrenagem aqui. E meu irmão também, minha mãe colocou pra trabalhar numa fábrica de grampinho com nove anos de idade. Porque... eles eram... nós eramos pobres demais então, sempre... além de poder ganhar um dinheirinho, saía da rua também O meu irmão é uma pessoa que, que também não, como eu não estudou, dada essa, aquele tempo não tinha essa facilidade, aquela coisa, apesar de que... o papai me colocou no Colégio da Glória, prá estudar. Colégio da Glória Irmãos Maristas aqui no Cambuci, na rua Lavapés. Que era um colégio caríssimo, longe do alcance inclusive financeiro do papai. Mas eu no segundo ano o reitor chamou, tinha o Irmão Justino, esse ninguém esquece, foi realmente a pessoa que mais marcou o colégio, o Colégio da Glória, até hoje é lembrado em prosa e verso, com fo... com quadros, com estátuas, com tudo dele lá, ele.. chamou meu pai e disse assim: "Olha, eu não quero expulsar o seu filho, mas não dá. Ele não estuda... ele atrapalha os outros... então, talvez ele precise ir para uma escola que force um pouco menos, que não exija tanto dele". E papai percebeu então que estava gastando dinheiro á toa e aí eu saí, e fui pro Grupo Escolar Oscar Thompson, que ficava ali na rua... Luiz Gama, pertinho do Colégio Nossa Senhora da Glória. E meu irmão... aí papai disse pro meu irmão, "Olha, você quer ir prá lá? Veja bem, lá"... então fomos os dois. Eu tava terminando... porque eu tirei o diploma com treze pra catorze anos, o professor acho que meu deu o diploma porque eu era grandão demais, ele acabou me dando o diploma pra sair. Mas, de qualquer forma, o Zé também estudou lá, depois ele foi... continuou no ramo gráfico, e hoje tem uma gráfica. Tem uma gráfica, bem casado, com a minha cunhada Marilda, tem dois filhos também excepcionais, e ele foi pra gráfica e eu fui pra Eletropaulo. Tivemos caminhos diferentes. Mas ele é muito diferente. Até fisionomicamente. Porque ele tem quarenta e... sete anos, não tem um fio de cabelo, completamente calvo, barbudo, até na... nas características visuais nós somos muito diferentes. O comportamento meu mais agressivo, uma coisa mais... mais de liderança, né, mais de liderança, que eu sempre tive isso. E ele não. Ele calmo, tranquilo, pacato, mas é uma grande figura, uma figura extraordinária. Os filhos dele são perfeitos também assim... porque a minha família é um pouco tradicional na Eletropaulo. Isso eu queria dizer, porque papai trabalhou na Eletropaulo, eu trabalho, meu filho Douglas trabalha, minha filha Cristina trabalha, meu genro trabalha, então nós somos família de eletricitários mesmo. O meu genro é um dos diretores, um dos vice-presidentes da ADC, né, conheceu minha filha, minha filha é desquitada do primeiro casamento, e o meu genro atual, que é o Toninho, ele casou-se com a Cristina mas já era diretor da ADC, sabia que eu tava um pouco envolvido, eu era presidente do Sindicato também, então facilitou tudo. Então nós somos uma família mais ou me... Eu quis trazer meu irmão pra Eletropaulo mas ele não quis vim, os meus sobrinhos eu tentei colocar, também não. Porque eu quis fazer um... criar uma confraria lá, porque eu gosto dessa empresa. Essa empresa, realmente... tradicionalmente, ela é, ela forma... hoje já nem tanto, um detalhe que a gente pode, um pouco mais pra frente, dizer, mas eu quis colocar todos eles porque entendia que, como eu tive uma participação, ela... ela teve uma participação decisiva na minha vida, que eu pude criar meus filhos, pude crescer, pude fazer... eu não estudei, mas meus filhos todos são formados um economista, um é jornalista, então eu devo muito a esta empresa, devo demais mesmo a esta empresa. Então, talvez até por dever isto para a empresa eu quis trazer todas as pessoas junto comigo. P-Eu queria que você, só pra antes de passar para uma fase mais recente, que você falasse um pouco da casa, da sua casa de infância, casa onde você passou sua infância, e recordasse um pouco como era o relacionamente de família como era o tipo de atitude que seu pai tinha, você disse que ele praticamente te colocou lá, ele tinha uma postura autoritária, como era seu pai? R-Ah, não tinha. Eu chamava ele de Magrão, por isso é que eu posso chamá-lo até hoje de Magrão. Magrão era uma figura extraordinária. Pra compensar tinha minha mãe que me massacrava e que me batia demais. Mas, batia porque eu era levado, né? Papai nunca me encostou a mão. Nunca, na minha vida. Nós morávamos ali na Mazzini e papai, quando veio embora de Mococa pra São Paulo, arrumou dois empregos numa carpintaria e depois ele acertou na Eletropaulo, mas não ganhava bem também, e fomos morar no chamado, naquele tempo se chamava cortiço, mas não era num tom pejorativo. Cortiço, para os italianos, era uma coisa digna de se morar. Apesar das dificuldades. Eu morava num tipo de cortiço desses, que começava na rua Mazzini, e tinha um fundo pela rua... pra rua Lavapés. Então era, então era enorme. Moravam 32 famílias, nesse cortiço, né. Que era uma vila. Insisto que o cortiço hoje tem uma... um tom muito pejorativo. Naquele tempo não. Era um cortiço, tal, era uma coisa onde moravam trabalhadores, que tinham sua dignidade, tentavam já naquela época resgatar sua cidadania, já desde aquela época, tentavam colocar seus pensamentos, e era um local muito bom, porque naquele tempo... isso, aliás quando converso com meus filhos, eu tenho sempre colocado essa questão. Ah, mas a vida hoje passa depressa. Realmente passa depressa. Naquele tempo passava mais devagar. Porque você imagina. Era uma vila com casas dos dois lados, então, quando era seis horas da tarde, já jantava, sentava numa porta de cá o vizinho sentava na porta ali, ficavam... não tinha televisão, papai tinha um rádio de Galena que só ele ouvia, então ficavam conversando, a mamãe com aquelas vizinhas, e eu participava, porque eu sempre gostei muito de ouvir os mais velhos. Talvez um pouco de toda essa minha... eu que não pude ser, ter a erudição dos bancos da faculdade, eu tive que ter a habilildade do autodidata, de aprender com as pessoas. Então sempre ouvi muito os mais velhos, gosto de conversar com os mais velhos e, participava dessas discussões. E o papai e a mamãe ficavam horas conversando, levantando as questões, mamãe levantava as questões da Itália, que ela veio menina, e tal, mas foi uma vida gostosa. Eu tive uma infância, eu vivi uma infãncia muito boa. Muito mais pela minha maneira de ser até do que pela própria, pela... por aquilo que oferecia, naquela época, das pessoas brincarem. Eu sempre fui muito levado, sempre fui muito ativo, então eu fazia, carrinho de madeira, com meu pai, ele me ajudava, eu só ajudava pregar aqui, pregar ali, meio errado, que eu não sabia, mas, de qualquer maneira, foi uma infância muito boa realmente. Eu sou extremamente grato a meus pais, porque eles souberam ser pra mim pais que me deram liberdade, que me deixaram conhecer os lados bons e ruins da vida, de maneira democrática. Papai era um democrata. Papai me ouvia. Isso há 40 anos ou até mais. Papai dizia, nós vamos ali na casa do tio, você quer ir? Então já naquela época ele já me consultava se queria ir ou não. Tanto é que eu passo, eu passei isso para os meus filhos e a minha filha conversa hoje com a minha neta, se vai num lugar, vai num Shopping, você quer ir no Shopping, você que comer um sanduíche no MacDonald, então se discute em casa aonde se vai. Isso veio de heranças realmente do papai e da mamãe.



P - Certo. Quais são as suas lembranças da cidade assim de São Paulo na sua infância? Como era São Paulo, e como é que você se lembra. R-Eu lembro de São Paulo de uma maneira que pouca gente se lembra, pessoas que tem menos de 40 anos não lembram São Paulo teve música, inclusive São Paulo da Garoa, aquela coisa toda. E me chama atenção hoje que não existe mais aquela garoa e aquele frio pela manhã de São Paulo. Eu ia pra escola, eu tinha oito anos, sete ou oito anos quando eu ia pra escola, aquela garoa que você não enxergava o outro lado da rua você não enxergava. Uma coisa diferenciada de hoje, porque hoje você não vê mais garoa, a temperatura mudou, o clima mudou demais, né. Outra coisa que eu tenho muitas lembranças, pelo menos do Cambuci onde eu nasci, das ruas eram todas de terra. A rua Mazzini ela foi... colocaram os paralelepípedos em 1948, 47, 48, então eu tenho a recordação quando foram colocados os paralelepípedos na rua, me recordo das galerias que foram feitas, que eram galerias enormes para poder colocar aqueles canos enormes também condutos de água e esgoto. Aquela coisa me marcou muito, porque hoje eu vejo uma São Paulo com tantas coisas diferenciadas, as pessoas de hoje jamais poderiam saber como é... que mão-de-obra que foi usada, e aquela época você não tinha os tatuzões, não tinha nada, era na pá e picareta, era na... era realmente no braço que se fazia aquilo, aquilo me marcou muito, e como a rua era uma rua de barro, nós jogávamos bola, fazía... não passava muito carro, então nós jogávamos, fazíamos partidas de futebol, homéricas brigas de rua, que aquilo, foi uma das coisas que mais me marcou, porque do jeito que eu era briguento, então estava sempre... por isso que eu apanhei muito da minha mãe, porque eu brigava muito,chegava em casa, além de apanhar na rua às vezes, chegava em casa e apanhava em casa também, mas essas coisas é que marcaram muito a minha infância. E, o taquaral, no fim da vila onde eu morava, no cortição lá em baixo, tinha um rio que passava um taquaral. E ali os pardais à noite enchia aquilo de pardal, aquela coisa de pardal, e de manhã com todos eles revoando, aquela coisa toda. Isso foi uma coisa que jamais vou esquecer na minha vida. Nunca mais vou esquecer. Foi bom. Lamentavelmente não se pode voltar mais. A vida vai pra frente, não é? P-Como é que foi que você conheceu sua mulher e como é que foi o casamento... quais são as recordações dessa parte. R-Bom, a proposição de se fazer um depoimento desses é a proposição da seriedade do que você fala. Eu conheci a Isabel, em 1960, eu conheci Isabel no Som de Cristal. Eu era um bailarino, né. Sempre gostei muito de dançar. Eu ia muito no Avenida Dança, naquele tempo tinha o Caçamba, o Paulistano, coisa que hoje, num tem. Eu nem sei se hoje tem esses lugares todos. O Som de Cristal tem ainda. E eu conheci a Isabel no Som de Cristal. E como eu gostava de dançar muito, e a Isabel é uma boa bailarina, eu conheci a Isabel ali. Conheci a Isabel, e eu estava servindo o Exército nessa época. Estava servindo o Exército. E eu mais passei detido, não por ser mau elemento, mas barba comprida. Eu cheguei na Polícia do Exército, que era um lugar, que tinha que estar sempre... porque a Polícia do Exército prende ou prendia naquela época. Hoje não tem mais isso. O sapato sujo, o... o soldado mal barbeado, cabelo, então você tem que cortar cabelo toda a semana, fazer barba todo o dia, a gente então estava sempre detido, estava sempre respondendo pernoite. E a Isabel passou a me visitar no quartel à noite, me levar cigarros, que naquela ocasião eu fumava, e nós nos conhecemos, ficamos com essa... um pouco dessa nossas vida, e um dia.... aconteceu, Isabel acabou engravidando. Engravidou, e eu era ainda militar, estava ainda como praça. Aí me recordo que eu dei baixa, falei com o tenente era pra sair na segunda baixa, acabei saindo na primeira baixa, porque a Isabel estava já estava em fase já de terminar a gravidez. Nem a minha mãe sabia, nem minha família não sabia, nem a família dela Ela trabalhava numa casa... Isabel era doméstica de uma casa que acabou levando ela pra casa até pra poder manter ela, disse "Olha, não vai poder ganhar muito, mas aqui ela tem um quarto que aqui ela tem comida, aqui tem tudo", tá bom, a Isabel topou, mas eu entendi que tinha que tomar uma decisão logo, não é, tinha que me decidir. Aí, eu disse, "Ó, Isabel, deixa as coisas acontecerem e vamos ver como que a gente faz pra casar ou qualquer coisa parecida". Uma coisa interessante, isso é uma coisa que eu vou dizer de maneira até sensibilizada. Com todo esse problema, minha mulher nunca tinha dito pra mim assim, olha, você precisa casar comigo, você vai casar comigo, não, nunca me cobrou nada na minha vida. Isabel nunca me cobrou nada, aquela barrigona, esta trabalhando, aquela coisa toda, aí eu saí do quartel e entrei nessa empresa que eu te falei, que era o Atlante S.A. que fazia metalurgia. Quinze dias depois, ela deu à luz. Então foi problema, porque eu não tinha avisado minha família, e eu tinha acertado, no Hospital Matarazzo, tinha um local onde podia colocar as pessoas que não tinham condições financeiras, grávidas, então davam à luz num setor, tinha um nome o setor que não me lembro o nome. A Isabel foi pra lá, e, deu a luz à Cristina, e eu fui ver a Cristina, minha filha. Uma coisa de louco, a Cristina, a minha cara. Desculpe a falta de modéstia, mas ela é a minha cara. Então, eu não tive jeito. Eu adorei aquilo tudo, falei, meu Deus, então fui pra minha casa e falei mãe, "Olha, eu... a senhora é avó". Não tinha entendido porque, porque olha, e aí eu contei tudo prá ela, ela falou "Ô, filho, isso é muito bom, tudo bem, então vamos falar com o teu pai". Meu pai, meu pai disse assim pra mim: "Olha, o que é que vamos fazer, traz ela pra casa, casa, vamos.... é o teu desejo, esse?" "Eu disse, pai, eu não tenho muita escapatória eu gosto da Isabel, eu acho que..." E quando a Isabel saiu do Hospital, quatro dias depois do parto, ela já saiu pra minha casa. E aí esse... esse tributo valoroso da minha mãe. Minha mãe, a Isabel é... uma mulata. Uma mulata maravilhosa, mas... mas é criola, né. Pôxa... já pensou eu chegar na rua de casa, aquelas família italiana, chegar com uma criola num lado e uma filha no outro? Então foi difícil mas a minha mãe pegou ela foi de casa em casa, e disse, "essa aqui é a mulher do Magri e essa aqui é filha dele, do Toninho", me chamava de Toninho, Toni. "Essa é filha do Toni". Aí a minha mulher ficou dormindo num quarto, eu e meu irmão viemos dormir na sala, e em 20 dias nós montamos a papelada toda, e eu casei. Acabei casando com a Cristininha já... e fui morar com meu pai. Aí colocamos uma cama num outro quarto, de casal, e ali fiquei morando com o meu pai e com a... Então foi uma coisa que nos ligou muito. Você vê, eu estou casado há 34 anos com a Isabel, mas com laços umbilicais muito fortes. P-São quantos filhos?



R - Tenho dois filhos, eu tenho duas netas. Então são, é um laço forte demais, né, por toda essa trajetória minha e dela, e a Isabel, viveu comigo os momentos difíceis, momentos que eu ganhava pouco demais, só tinha uma calça jeans, lavava de noite, secava com o ferro pra trabalhar o dia seguinte, então ela viveu comigo momentos dificeis. Então... é essa toda a gratidão, que eu tenho pela... não apenas gratidão, porque afinal das contas eu adoro da minha mulher, eu gosto a minha mulher, apesar dos 34 anos que estamos casados, mas ainda... temos uma relação afetiva e amorosa como nos primeiros tempos. Mas eu não posso deixar de... de num depoimento desses, deixar de dizer, de registrar isso. A forma com que a Isabel enfrentou, realmente ela nunca me cobrou, nunca disse você vai casar, num vai casar, nem nada. Tanto é que de vez em quando eu digo que ela me seduziu. Porque ela tinha... Isabel é mais velha que eu, quatro anos. Eu falei, você já era mais velha, eu tinha 18 anos você tinha 24, não 22, e ela diz, "mas eu nunca pedi pra você se casar comigo". E realmente, essa foi uma grande verdade. Esse foi o nosso conhecimento, tanto é que quando eu fiz bodas de prata, 9 anos atrás, eu falei, Isabel, não vamos fazer missa, não vamos, o quê que você quer de presente. Ela disse "olha, não sei o que que você vai me dar, mas o que você me der depois eu queria ir no Som de Cristal". E aí nós fomos jantar, e levei a Isabel no Som de Cristal depois de 25 anos de casados, aí voltamos ao Som de Cristal, e por incrível que pareça tava lá ainda o Baiano que era o garçom, tava lá o Índio, que era garçom, o Pelé, que era o chefe da segurança, e aí foi uma farra, foi uma coisa muito gostosa. Eu fiquei de voltar depois outras vezes, mas aí já...Os valores vão mudando, a vida já é outra, e ficou prá trás, o passado é passado, mas foi ótimo... foi ótimo nesse aspecto. P-Como é que é a relação entre vocês dentro de casa, familiar, hoje, não é?



R - Bom, hoje, hoje, a minha relação com a Isabel é boa. Porque com 53 anos que eu estou, os valores mudaram, mudaram muito os valores, né, que a vida é assim mesmo. Os valores que eu tinha vinte anos atrás são diferenciados de hoje. Então eu sou um sujeito muito caseiro, sou um homem que vivo realmente para a minha casa, não saio de casa sábado e domingo, não saio de casa, sou muito chegado na televisão, então sou uma pessoa que vivo vendo televisão, agora eu pus um multicanal agora, então, 24 horas por dia agora que, então as nossas brigas em casa, eu e a Isabel, a briga maior, é exatamente esse, que eu gosto muito de televisão, e ela não gosta tanto, então nós criamos um problema, temos esse problema, mas a nossa vida no dia-a-dia é extraordinária, de fazer inveja realmente. Porque eu sou... eu e a Isabel, nós fizemos assim, eu não posso ver a Isabel... sábado e domingo, eu fico em casa. Então ela está lavando o quintal. Eu tenho vergonha de ver a Isabel fazer uma coisa e eu não fazer. Então eu vou pro quintal, ela joga água, e eu puxo, ela lava a louça, eu enxugo, nós temos uma vida nesse particular muito junto mesmo... eu tenho vergonha deixar a Isabel trabalhar e eu não fazer nada Nós ficamos muito sem empregada, não conseguimos acertar empregada, eu tenho três cachorras, a Orca, aquela, famosa Orca, ainda, mais duas pequenas que sujam, que faz xixi, que faz cocô, então de manhã eu mesmo levanto, ajudo a limpar, então a vida é boa no sentido... nesse aspecto. No sentido da vida afetiva, da vida conjugal, por si só, isso é extraordinário, porque eu ainda tenho um verdadeiro fascínio sexual pela minha mulher. Acho que os casais só consegue sobreviver 35 anos quando essa questão sexual é levada muito a sério. Muito a sério. E eu levei isso muito a sério com a Isabel. A Isabel até hoje, eu tenho paixão. Eu me relaciono bem, sexualmente com a Isabel. Então essas coisas todas dá um tom bom dentro de casa, né, se você está bem, por esse lado, o outro lado é só complemento Porque na vida aprendi que isso é verdade estando bem o casal, sexualmente, a família, os filhos, o resto é complemento. O resto... é uma coisa que vai, no vai da valsa. Mas, bom, meu relacionamento é ótimo então com os meus filhos muito bom, bom, os meus filhos são pessoas que não me deram um pingo de trabalho, porque eu não tive muito tempo para os meus filhos. Essa é a grande verdade. A Isabel é a grande... a grande mãe. Ela é que cuidou dos meninos. Porque quando eu entrei na Eletropaulo, pra você ter uma idéia, eu entrava às 5 da manhã, pra ligar as caldeiras, e saía às 9 da noite. Foi assim durante 12 anos, os primeiros 12 anos de casado. Eu entrava às 5 da manhã, e chegava às 9 da noite, que dizer, eu não via meus filhos, né, a Isabel é que cuidou, aquelas dificuldades, que a Isabel também não é nenhum suprassumo da inteligência, mas teve dificuldades. A modernização, a gente... não é como a gente se fazer primário, depois as coisas foram se modernizando, mas com todo o sacrifício que havia, as crianças cresceram... educadas, sem vícios, nem nada, se formaram por sua própria conta, a única coisa que fui fazendo é dar um dinheiro pra fazer, mas estudaram com a sua... a força de vontade deles. Então a nossa relação até hoje ainda é muito boa. Nossa relação familiar é estreita, é umbilical. Até hoje... ainda nos falamos por telefone, porque o Douglas mora sozinho, né. O Douglas tem 3O anos e a Cristina tem 34. A Cristina está casada, pela segunda vez, tem a filha do primeiro casamento, agora tá com o Toninho, felizmente uma pessoa extraordinária. O Douglas resolveu morar sozinho, tem a sua vida, ganha pra isso, mas, nos falamos telefonicamente todos os dias, nos encontramos todos os sábados e domingos, é uma vida sadia. Uma vida sadia.



P - Vamos voltar um pouco à empresa, esse... você contou os primeiros anos, de entrar às cinco, e sair às 9. Como é que foi essa fase inicial na Light, ainda Light e como era a Light, como era a empresa, e a sua relação com colegas...



R - A Light, a Light ela, ninguém que trabalhou na Light, pessoas do meu tempo, irá, em nenhum depoimento da vida falar mal dela A Light ela tinha um compromisso tão realístico com os seus funcionários, ao compreender, até, a sua verdadeira participação... porque o parque industrial brasileiro cresceu, exatamente, com o crescimento da Light. A Light que, ao desenvolver-se, fez desenvolver o parque industrial brasileiro. Então há uma relação... havia uma relação muito grande entre o trabalhador e ela, ele se sentia importante, e ela sabia que ele era importante também. Mas dentro daqueles valores daquela época, fazia-se dentro daquela possibilidade o que era possível fazer. Houve uma época que nem sindicato não tinha. Então era a relação capital/trabalho que advinha realmente deste, deste entendimento de um, que sabia que trabalhava numa empresa importante, e da empresa importante, que sabia que ele era importante como trabalhador. Era tão importante, que havia trabalhadores da Light, que escrevia assim, uma placa, assim, "Aqui mora um funcionário da Light". E deixava na porta. Tão importante, que pra você abrir... abrir um crediário no Mappin, por exemplo, nas Lojas Garbo, se você era funcionário da Light, você não precisava fiador. Só a carteira profissional era o próprio fiador. Então isso era, era um orgulho para o lightiano. Tanto é que ele escrevia "Aqui mora um funcionário da Light". Havia credibilidade pra isso tudo. A empresa, os seus diretores, os seus superintendentes, em menor número do que hoje, muitos deles conheciam por nome os seus trabalhadores. "Ô seu Horácio", que era o encanador que eu era ajudante dele. Quantas vezes o Dr. Bittencourt, que era o superintendente entrava e dizia, "Bom dia seu Horácio", eu não, porque ninguém não me conhecia, mas os mais velhos. Então chamava-se o homem pelo nome, que era uma coisa extremamente importante, né, as pessoas não se sentiam um número. Eles eram, eles tinham um nome. Isso fazia com que as pessoas trabalhassem muito, trabalhassem muito mesmo. Os salários eram bons? Bom, não eram os melhores, mas era um salário bom. A segurança que tinha na empresa, e... e a Light ela foi por exemplo a pioneira... quer ver, para dar um exemplo, em acidente de trabalho. Em coibir o acidente do trabalho. Aqueles slogans todos, os grande slogans, da prevenção de acidentes, começou, na Eletropaulo. "Previna-se, nos bondes", tá lá grande, "Cuidado, ao subir no bonde", "Previna-se, não se acidente". Então ela foi uma das pioneiras no que diz respeito à prevenção de acidentes. Ela... ela foi extremamente consciente, quando ela construía... quando construía as suas... suas... ou identificava, por exemplo o escritório central, quando ela fez os almoxarifados, prédios que a Light fez, eu nunca me esqueço, eram feitos com cimento Portland, importado da Inglaterra, vinha o cimento num latões assim, da Inglaterra, aí fazia, então, todos os vasos sanitários eram de primeira, os aquecedores pra mão, quer dizer, ela tinha uma visão macro de que o homem merece ser considerado dentro desse processo. Ele é um parceiro, ele não é um insumo, então ela tinha já essa visão. Então, é evidente que você imagina um funcionário como eu estar urinando, por exemplo num mictório que tinha vindo da Inglaterra. Aquilo parece que, não hoje é uma coisa... mas naquele tempo, então havia uma relação diferente. Um aquecedor, assim, pra enxugar a mão, aquele negócio que apertava no pé, saía aquele calor assim, era um coisa que, ninguém podia imaginar. Então essa relação, da empresa com os trabalhadores, era muito boa. Agora eu já vi, peguei a Light, mas já vi... já vi numa mudança da Light. Sabe uma história muito longa, evidentemente que não vou abordar, porque demanda muito tempo, mas na verdade, a Light ela já sentia seu contrato terminando, e ela sabia que mais cedo ou mais tarde ela ia passar para... para o governo do estado de São Paulo. Então evidentemente ela foi ficando mais relapsa. Não foi investindo, foi deixando de investir, o salário foi deteriorando um pouco e nessa época eu já estava na empresa, até chegar quando privatizou, aliás, sai da mão de uma empresa privada e vai para o estado. Mas em 1963, quando eu entrei, como eu ganhava salário mínimo, e tinha muitos compromissos, papai, aquela coisa, não tinha outra coisa que fazer senão hora extra, hora extra, então,como eu morava pertinho da empresa, fazer hora extra pra mim era uma moleza. Então tinha uma caldeira, a caldeira dos restaurantes, que precisava ligar ela às cinco da manhã, pra quando chegassem os cozinheiros às seis e meia, já ter água quente, aquela coisa toda. E como o seu Cláudio, que era uma das pessoas que ligava e desligava a caldeira teve uma tuberculose, o meu chefe Mazuria perguntou: "Quem é que quer entrar de manhã, é só ligar as caldeiras, faz duas horas extras de manhã", "eu entro". Então passei a entrar às cinco da manhã. Eu morava perto, acordava às quatro e meia, entrava às cinco, ligava as caldeiras, já ajustava, ajudava ali, punha água no fogo para fazer um café pro pessoal que vinha chegando, e quando eram sete horas, que vinha todo o mundo, entrava uma outra pessoa, e eu descia para ser... para fazer ajudante de encanador, aquela coisa toda. Saía às cinco, da tarde. Mas aí a prefeitura deixou de... porque quem recolhia o lixo da rua era a prefeitura. E a prefeitura deixou de recolher o lixo, por um decreto do... se não me engano, era o Jânio Quadros, quando o Jânio foi prefeito, um decreto dessa natureza, não, a prefeitura não vai mais recolher o lixo. As empresas tem que recolher seu próprio lixo, e jogar fora onde quiser, nos lixões e tal. Aí o seu Mazuria faz outra vez, e disse "Olhe, preciso de umas três pessoas, para colher o lixo, aqui, e porque..." aí explicou essa situação toda e ai saiu o Ferraz, o Zelão e eu, e aí nós passamos também a recolher o lixo na parte da tarde. Um dirigia o caminhão, outro dirigia uma empilhadeira, e o outro colhia o lixo, pegava o latão e colocava em cima assim. Aí você imagina. Eu pegava às cinco da manhã, até às 7 era duas horas. Depois pegava das cinco às 9 , são mais 4, 4 e 2 são 6, eu fazia... eu ganhava mais de hora extra do que de... de atividade normal. Foi essa uma das razões que eu trabalhei demais hora extra. Só que era um trabalho muito pesado, muito duro, né, e... não humilhante, porque não tem serviço que humilha, não tem nada que humilha mais do que ganhar salário mínimo, isso sim que é humilhante. O trabalho, não. A remuneração é que humilha às vezes o trabalhador. Trabalhador com filhos, como eu tinha, ganhar um salário mínimo era realmente uma coisa que depunha contra a sua cidadania, contra a sua dignidade, até hoje, até hoje. Mas não o serviço. Mas mesmo não humilhando, era um serviço chato de fazer, né. Serviço assim... colher lixo assim, mas assim mesmo foram 12 anos. A partir daí, eu fui saindo, fui dando... fui aprendendo como eram as coisas, descobrindo o caminho das pedras, depois ajeitei. Achei o caminho das pedras. P-Me conta um pouco então qual é esse caminho das pedras, como e que é, quais os cargos que você desenvolveu, sua ascensão dentro da empresa. R-Eu tinha uma certa liderança. Sempre tive uma certa liderança. Mas não tinha era oportunidade, não tinha chance. Naquele tempo não dava pra você ocupar um cargo de encarregado, porque tinha um encarregado. Não dava pra você ocupar um cargo de mestre, porque tinha um mestre. O chefe de seção, porque tinha o chefe de seção. E era uma faixa etária que ia demorar na empresa. Eles não iam morrer com facilidade, a não ser por um acidente, ou qualquer coisa parecida, e nem nós desejávamos isso. Mas de qualquer maneira, eu saio depois de toda essa andança e vou ser encanador. Passei a ser encanador, já com uma remuneração melhor, eu já tinha nisso montado a academia, eu já tinha uma certa facilidade para treinos, eu fui campeão paulista de judô em 59, então já era faixa preta quando fui pra lá e montei uma academia, e fui ganhando essa liderança dessas pessoas todas. Aí na primeira oportunidade que aposentou o primeiro... o primeiro feitor, que era o contra mestre da seção aposentou, eu já imediatamente fui guindado ao posto. Porque tudo, tudo bafejava para que eu fosse. Aí então o encarregado... porque aí foi aquela faixa etária que começou indo embora. Aí o encarregado foi embora, eu fui para o lugar de encarregado, mas isso foi em 75 já. E quando foi em 77 surgiu a primeira oportunidade pra ir pro sindicato, disputar as eleições do sindicato, na chapa. Não como presidente, mas, mas eu era um cargo, um cargo que eu não se me recordo agora... segundo secretário. E foi uma eleição dificil porque foi oito, sete chapas, sete chapas, foi um fato histórico, esse. E eu pertencia à chapa da situação, Chapa 1. E nós ganhamos as eleições, quer dizer, dividiram tanto, né, acabaram se dividindo tanto que nós ganhamos as eleições, a situação ganhou a eleição. E aí eu empreguei mais a minha liderança, porque quem era o vice-presidente era um senhor chamado Bello, mas ele não tinha, não tava muito chegado no sindicato, negócio dele era outro. Então eu fiz um acerto com os outros diretores, e na hora de eleger realmente a diretoria, eu fui a vice-presidente. Ele ficou pra baixo e eu, fui pra cima. Era o presidente, e eu. Isso em 77. E nessa época começaram aquelas greves no ABC, né, começaram a espoucar as greves no ABC, paralizações, aquela coisa toda, e o presidente do meu sindicato, que era o Sylvio Guimarães, também já um homem com 66 anos, já tava um pouco... não por sua culpa, mas por todo o processo da revolução, da ditadura militar toda, os sindicatos se encalacraram, então eram coisas mais simples, era dentista, era serviço administrativo, e ele não desenvolveu tecnicamente e politicamente, ele não se desenvolveu. Então quando ele viu que estavam aquelas greves lá, os eletricitários tentando também fazer alguma coisa, ele me chamou e disse: "Olha, eu não vou segurar esse pepino aqui, não vou segurar. Eu vou me aposentar e você, você assume a presidência". Aí eu falei, é comigo mesmo. Aí ele se aposentou, e eu assumi a presidência em agosto de 78, praticamente ele ficou um ano como presidente do Sindicato, e eu assumi em agosto de 78. Foi uma coisa assim levada, né. Porque quando a oportunidade me apareceu, eu não desperdicei nenhuma, que esse talvez tenha sido a minha grande habilidade. De aproveitar as oportunidades. Porque quando eu não as tive eu soube... eu soube me conduzir com as dificuldades que se apresentavam. Quando as... apareceram as oportunidades, eu fui aproveitando uma a uma delas, sem deixar perder nenhuma com alguma dificuldade, porque naturalmente só com o primário, fica muito dificil, essas coisas são difíceis, mesmo. Por isso sempre disse a meus filhos, as pessoas tem que ter além do talento, ter junto talento, dignidade, importante talento e dignidade, as pessoas só sobem com isso. Talento, dignidade, e preparo. Você tem que estar preparado pra quando a oportunidade chegar. Quer dizer, eu estava preparado de uma maneira, mas não estava de outra. Evidentemente eu tive problemas muito sérios Aliás não foi só o Sindicato, isso foi no próprio ministério, quando fui ser ministro, uma série de coisas É evidente que eu posso não sabe fazer a sopa, mas sei se ela tá salgada. Mais isto não basta. Você passa, num determinado momento a não teorizar. Sua capacidade não teoriza. Aí você precisa de um intelectual, você precisa de um jornalista, você precisa de uma pessoa que te oriente, pra você poder seguir. Que é o caso, inclusive, se trata de uma fala política, que é o caso do Lula, quer dizer, toda a habilidade que tem, mas é obrigado a ficar na mão do Mercadante, do Weffort por quê? Porque é esses é que teorizam. Ele tem a alma, a força, a vontade, mas isso só não basta. É preciso ter a capacidade de reunir a capacidade intelectual, pra poder você jogar esse jogo bem aberto. Então pra mim houve muita dificuldade, porque um sindicato como o nosso que... que gira um orçamento de dois, três milhões de dólares por ano, com a responsabilidade de uma categoria absolutamente heterogênea como a nossa: advogados, jornalistas, técnicos, operários, ali era inteiramente heterogênea. Então precisaria ser uma linguagem, pra você ser bem compreendido, uma linguagem boa. Mas aí eu tive essa facilidade de conversar em todos os patamares, em todos os níveis de maneira a ser compreendido. Eu tinha facilidade de conversar com um peão, um operário, porque eu era o próprio. E a facilidade de conversar com um engenheiro da minha liderança, porque eu o respeitava e ele sabia que ele se sentia reproduzido por mim, em que pese não ter a intelectualidade maior, né, mas ele acreditava que eu aprendia com facilidade, e muitos deles me ensinavam muita coisa. Mas foi uma certa dificuldade. O não... não estudar, essa falta da erudição, eu nunca pensei que pudesse fazer tanta falta. Hoje, pra quem quer realmente subir na vida, pra quem tem pretensões seja elas quais forem, precisa estar preparado. A vida hoje não... não... dificilmente vai aparecer um outro ministro trabalhador. Escuta o que eu te digo. Vai demorar mais cem anos pra aparecer outro assim. Mas foram essas dificuldades que eu tinha, mas foi... acabou saindo tudo da melhor maneira possivel. P-Ô Magri, você falou em, só fala um pouco mais da sua carreira. do sindicato, e que dificuldades e... primeiro eu queria saber quanto tempo você ficou na... na presidência do sindicato momentos mais importantes você viveu enquanto presidente dos...



R - Olha, foram 12 anos de presidência, de 78, 11 anos, porque um ano não fui presidente, de 78 a 89, então foram 11 anos de presidente mais um de secretário. Mas pra mim, as coisas mais importantes elas aconteceram no início realmente, né, foi no início. Porque o eletricitário, que era, ele era importante pra morrer, ele era essencial pra morrer, mas não era tão essencial já nessa minha época pra receber, já havia aquela mudança da Light pra Eletropaulo, aquela coisa toda, eu sentia que era preciso fazer alguma coisa. Então a... a própria Light, com essa convicção canadense, ela sempre embutiu muito na cabeça do eletricitário que ele não podia fazer greve. Era importante só pra trabalhar. Então eu sentia que tinha que fazer uma mudança nesse perfil, tinha que mudar esse perfil. E que não era fácil mudar esse perfil naquela época de mais de 90 anos. Como você muda 90 anos de tradição? Muito dificil. Mas eu usei um pouco o condutor das greves do ABC, porque houve aquela greve, e naturalmente as pessoas acabaram evoluindo nas suas reivindicações. Houve toda aquela crise do Lula, aquela cassação do Sindicato, mas aquilo avivou um pouco o movimento sindical brasileiro que vinha tentando se livrar das amarras da ditadura militar. Então era dentista... o meu sindicato tinha, 40 dentistas, tinha 35 médicos, então eu era mais um administrador de uma empresa, do que propriamente o presidente de um sindicato. Então eu sentia que tinha o momento, que era o momento oportuno de mudar esse eixo, partir pro campo do eixo político, preservando o eixo administrativo, porque sempre entendi que nesse particular... nesse particular, o meio justifica o fim. Quando você tem um sindicato como o nosso que é dentista, médico, você pode canalizar isto pra sua organização, pode fazê-lo. Isso eu percebi. Aí, em setembro de 79, 78, setembro de 78 eu fiz uma assembléia fora da data-base. Nunca teve isso, a empresa nunca deu um tostão fora da data-base. Então eu fiz uma assembléia antes, e as nossas assembléias que costumavam ir 200 pessoas, 150 pessoas, que eram amigas do presidente, só pra aprovar a pauta, aprovavam a pauta no começo, aprovavam a pauta no fim, nós fizemos... eu fui pra base, colocar essas questões, discutir com o trabalhador, dizer que era importante a ida dele, e a assembléia teve que ser feita na rua. Tinha umas 5.000 pessoas. Foi uma das coisas que mais marcou na minha vida. Me marcou muito. Então eu me senti em cima de uma Kombi, falando pra cinco mil pessoas, e senti, me senti na obrigação de dar... canalizar as questões corretas pra eles, que eu não podia iludi-los. Já que eu reconhecia que eu tinha uma facilidade de falar, e quem tem o dom da palavra acaba arrastando as pessoas muito pra onde quer, eu aprendi isso aí também, eu senti que tinha uma necessidade de conduzi-los pelo caminho mais sério que tinha. Aí disse "olha, eu queria explicar pra vocês que tem... está acontecendo isto, isto, isto e isto. Acho que está na hora de nós resgatarmos um pouco da nossa dignidade e na hora de buscarmos o momento. Acho que nós merecemos..." Aí aquele discurso, né, eu achei a embocadura do discurso. "Parque industrial é nosso, ninguém funciona sem nós, se nós pararmos, pára tudo". Aí eu encontrei a força. A força que eu tinha. A verdadeira força não é ser ministro, não. A verdadeira força é você pode parar São Paulo e parar o Brasil. Essa era a força verdadeira. Aí eu senti que eu tinha, né. Parece um trocadilho. Eu tinha a força. A força literalmente falando. Aí nós conduzimos as negociações e o presidente era o Dr. Leal. E eu disse a ele assim numa reunião: "Olha Dr. Leal, se o senhor não der esse aumento pra nós, não há outro recurso. Nós vamos acompanhar o ABC. Nós vamos fechar essa empresa, nós vamos parar essa empresa". Ele disse, "Mas nunca aconteceu". Mas vai acontecer agora, não, mas... "Olha, nós preferimos vender a empresa do que dar o aumento". Isso é uma frase histórica dele. "Bom, então o senhor vai ter que vender a empresa, porque nós vamos parar". Aí eu fui pro sindicato e decretei a greve, mas não deflagrei a greve. Decretamos a greve. Três dias depois me chamaram no Rio, porque o escritório é no Rio, negociamos, e foi o primeiro acordo que nós tivemos, o ABC tinha tido 20% ou 15% de aumento, e nós tivemos o mesmo aumento, igualzinho o ABC, só que eu tive que... aí é que eu tive que aprender a negociar. Eu não tinha essa habilidade da negociação. Aí nós fizemos... 15, 20% em cima, quer dizer, nós invertemos a pirâmide. Nós demos 5% em cima, e 20% em baixo, para os trabalhadores. Isso foi realmente a grande... a grande sacada, o primeiro grande passo. A partir daí as coisas foram caminhando porque... E, eu digo isso com orgulho, claro que digo isso com orgulho, com vaidade, não, e não sei se até com um pouco de vaidade, muito mais talvez pelo lado do orgulho do operário que teve que transcender, que teve que sair realmente daquela situação dificil, transcender isso tudo Os melhores acordos foram feitos na minha gestão. Não talvez... Além disso tudo, porque o momento também ajudou, né. O momento dependia de alguém que tivesse uma certa liderança e... e fosse pra cima. E eu fui. Uma das grandes conquistas nossas, por exemplo, nesses anos todos, foi a garantia de emprego. Essa pra mim é a mais substancial de todas. Porque você trabalhar, numa empresa, sabendo que ninguém pode te mandar embora, a não ser por um processo, né. Não é estabilidade no emprego. Eu fui tão coerente comigo mesmo, que eu não quis a estabilidade como era antigamente, até pra não voltar de forma retrógrada, né. Eu quero a garantia de emprego. Como é que fica a garantia de emprego. Então pra empresa mandar embora um funcionário hoje, ela tem que primeiro dar uma advertência verbal, depois advertência escrita, depois uma suspensão, aí depois o processo está pronto e manda embora. Mas até isso acontecer, todas as pessoas tem chance de se regenerar. Ninguém pode ser mandado embora na primeira... na primeira oportunidade Então isso foi extremamente positivo pra mim. Isso foi em 84, uma discussão... o Montoro era o governador do Estado, e o Goldemberg era o presidente das empresas. Era o tripé: Eletropaulo, Paulista, e Light. Eu peguei o estatuto do PMDB, que está escrito lá, o trabalho é propriedade do trabalhador. está lá no estatuto do PMDB. E eu peguei isso: "Doutor, está aqui,ó, o trabalho é propriedade do trabalhador. Porquanto, eu acho, entendo, que a garantia de emprego é..." e aí fomos, fomos, e o Montoro não teve como fugir muito disso, e acabamos tirando essa conquista. O adicional de periculosidade, que foi uma das coisas também muito, importante, não porque 30% compre a vida do trabalhador. Não por isso. Muita gente diz "É, mas você está comprando a vida do trabalhador por 30% do seu salário". Eu disse não. Porque o eletricitário ele não tem nenhum mecanismo, há setores que não tem mecanismo que salve eles. Por mais segurança que você tenha, se explodir um transformador, só se ele estiver dentro da um tanque de guerra. Se não, você... está sujeito a... então essa era uma maneira de compensar um trabalhador, que tinha um salário não tão compatível com as regras internacionais, mas que se expunha ao risco periodicamente, diariamente. Então essa foi uma grande conquista também nossa, do adicional de periculosidade, que foi uma coisa extraordinária. Alimentação gratuita, café com leite, pão com manteiga, essa é uma coisa que eu nunca esqueço, é uma coisa simples mas que não dá pra esquecer, porque essas coisas tinham que partir de mim, né. Como eu estou falando de mim, eu sou, como eu não gosto de falar muito, mas como é um depoimento. Eu queria dar café com leite pras pessoas, e eu fui falar com o Aarão e ele disse "Não, eu não vou dar café com leite, ah, vai tomar na sua casa café com leite pão com manteiga". E eu fiz um estudo, voltei meio chateado e fiz um estudo e voltei pro Rio de Janeiro, pelo seguinte. "Vou provar pro senhor, que o grande número de acidentes que acontecem na sua empresa, na área de risco, advém, pelo seguinte. O senhor vai subir numa torre, o senhor põe um capacete que pesa 3 quilos. Uma bota que vem a aqui, que pesa mais 6 quilos, um cinto de segurança que pesa 4 quilos, a corda, que pesa tantos quilos, o senhor dá todo esse equipamento pra ele, e ele sobe. Só que ele sobe, doutor, em jejum. Sobe sem tomar café, sem nada. E cai lá de cima de fraqueza, de inanição. E ele não toma café na casa dele, porque não dá. Não dá pra tomar café de manhã, às vezes sai correndo, não tem leite, não tem pão, não tem essas coisas todas", e aí houve um convencimento de que era verdadeiro, com os dados que eu apresentei, era verdadeiro. Então a empresa, a princípio, começou a dar só pros operários. Porque eu sempre tratei de tratar a coisa no paradigma. Eu conseguia pra um, depois... metia todo o mundo no... no rolo. Aí nós conseguimos para os operacionais, e hoje todo o mundo tem o café com leite pela manhã, de graça. E o almoço. Que era caríssimo, pois nós estávamos já na base de... se tivesse hoje... se tivesse continuado, seria hoje 5 a 6 dólares uma refeição pra nós. Nas proporções que ia. No entanto hoje ela é gratuita, e eu acho isso também um grande avanço na... no nosso campo. E uma dezena de tantas outras que foram... que foram acontecendo, que marcou, marcou muito mesmo a minha vida no movimento sindical. Eu acho que... mas o que mais me marcou realmente, foi esse início, essa visão que eu tive que ter que era possível mudar o perfil do sindicato assistencialista para um movimento pendular que ia para um movimento totalmente reivindicatório, político. Mas aí tive algumas outras questões, porque aí eu me liguei a... a... aí, em 8O, sim, pois não.



P - Sobre... você estava falando de... uma lembrança que.. a gente poderia colocar aí dentro é a ADC, que.. a ADC está aí como parte das conquistas do sindicato. R-Ah, é verdade. É que são tantas coisas que eu me esqueço da ADC. A ADC foi... porque a Eletropaulo, a Light, depois Eletropaulo, ela não tinha essa ligação, desse mecanismo da lazer. O lazer que houve na empresa, era sempre lazer que vinha espontaneamente, isoladamente de uma pessoa. Aí quando essa pessoa... por exemplo, o setor de Pesca, o Clube de Pesca. Era dois ou três companheiros que gostavam de pescar e começaram a fazer alguns campeonatos, aquela coisa toda e a empresa aí resolveu, cederam um local, fizeram uma sede, a empresa fez, mas o que quero dizer que não foi espontaneidade da empresa. Isso nasceu da vontade individual de cada trabalhador. Ela nunca teve muito essa ligação, por ser canadense, um pessoal que não mexe muito com isso, e em contrapartida, as outras empresas, Banco do Brasil tinha a Associação do Banco do Brasil, todas as outras grandes empresas tinham esses associações. Aí então surgiu a idéia de construir uma associação classista dentro da empresa. Aí nasceu a ADC com esse espirito, com o espírito de poder levar a esses trabalhadores algum tipo de esporte. Fosse ser no campo de natação, fosse no campo de judô, futebol, dessas coisas todas. E ela nasceu. Eu só não tenho lembrança, isso precisaria checar, se 78 ou 79, aí ela nasce, sobre uma égide, forte já, de compreensão de todos os eletricitários, que era importante manter, uma coisa... um nível esportivo dentro dela. Ela nasce numa égide muito forte de... de compreender isso. Tanto é que a empresa dá... a empresa contribui com uma parte, mas a outra parte são os trabalhadores que pagam a ADC. A ADC tem milhares, doze ou catorze, mil sócios hoje que pagam rigorosamente. E o sindicato naquela ocasião, ajudou. E eu me lembro de uma maneira até que ajudei. Porque a ADC tem uma característica. Ela nunca foi politizada em parte... instrumentalizada pelos partidos políticos. Há quem queira pegar, mas, por via de sorte, ou porque talvez eu enquanto presidente do sindicato sempre forcei muito essa barra, ela nunca fui instrumentalizada. Mas numa eleição de 80, o pessoal do PC do B, quis pegar. O que encabeçou a chapa, um companheiro nosso chamado Barreto, e o Takeo, encabeçava do outro lado. E eu assisti... eu fui lá assistir. Saí do sindicato e fui lá assistir essas eleições. O Takeo começou... terminou as eleições, contamos os votos, e o Takeo ganhou por 8 votos. Aí pediram recontagem, daqui a pouco contou, e... só tinha 5 votos. Aí pediram a recontagem, tinha 3 votos. Aí falei bom, se contarem mais uma vez eles vão empatar. Aí não tive outra alternativa senão virar a mesa, né. Mas virar a mesa literalmente falando. Não é virar a mesa politicamente. Nós viramos a mesa que tinha assim, todas as urnas em cima, "Está ganha as eleições e o Takeo vai..." Por quê? Era sacanagem deles. Eles estavam anulando os votos e o Takeo tinha ganho. Então eu até tenho isso como uma participação decisiva, porque também se caisse na mão do outro, provavelmente a ADC não seria hoje o que ela é. A instrumentalização teria canalizado pra outro campo, e provavelmente a empresa, percebendo isso, não investiria mais nela, os trabalhadores também não investiriam, porque tudo que foi na Eletropaulo tem que fluir dentro de um campo, num campo, que... apartidário, né. Porque dentro... porque o sindicato, a ADC consegue reunir dentro deles, palmeirenses, sãopaulino, santista, protestante, católico, espírita, PT, PC do B. Quando você está ou no sindicato ou numa associação como a ADC, todo o mundo cabe. Na hora que você instrumentaliza, você cria uma parte. Uma parte... a etimologia já diz, né, partido vem de parte. E aí você cria uma parte. E aí não tem mais jeito. Aí nós nunca deixamos fazer. Mas foi muito importante realmente a decisão do sindicato em apoiar a ADC em todos os momentos. Eu fiquei durante, doze anos no sindicato, na existência da ADC quase dez anos, sempre apoiando literalmente a ADC, tanto é que, toda a sede da ADC era no sindicato. Quando eu saí de presidente, oito andares do sindicato eram da ADC. Aí depois criou ela pernas, criou força, mais dinheiro, e se deslocou e hoje até aí ela está. P-Como desportista, você usa a ADC, pratica muito esporte ou praticou pela ADC?



R - Eu disputei uma Olimpíada na ADC. Mas já... já agora recentemente, que eu digo, nos próximos cinco anos passados. Porque quando eu fui... porque eu fui... eu sou campeão paulista de judô, 59, sou campeão brasileiro de luta greco-romana que pouca gente sabe disso. Então sempre gostei muito dessas... tanto é que montei minha academia, no sindicato, na empresa. Quando eu vim pro sindicato, montei a academia, dentro do sindicato, de judô, de karatê, capoeira, que está lá até hoje, e incentivei muito o Takeo como presidente da ADC, que eu só conhecia o Takeo como presidente da ADC, a tocar os esportes, então você hoje... a ADC tem uma difusão dos esportes a nível de da área de São Paulo que é muito grande. Tanto é que tem uma Olimpíada. Aliás está transcorrendo agora as Olimpíadas dela. Em 87, 88, eu me inscrevi para um campeonato de judô. E eu disse à minha neta, "Olha eu vou te ganhar uma medalha". A minha mulher duvidou de mim, que fazia muito tempo que eu já não fazia isso, aí eu fui, ganhei.... ganhei a primeira luta, ganhei a segunda e cheguei na final sem nenhuma novidade porque eu, eu tinha condições de fazer isso mesmo sem treinar, porque... judô é que nem andar de bicicleta, nunca mais você esquece. Falta um pouco de habilidade. Mas, tinha um criolo meu amigo que era bom, era um faixa marron muito bom. E eu subestimei o criolo na... e aí criolo no sentido mais carinhoso da palavra, que eu chamo ele de criolo até hoje, subestimei porque sabia que ganhava, aí tomei um haley gouche e acabou a luta, mas eu ganhei uma medalha de prata. Ganhei a medalha de prata que está com a minha neta até hoje, fiz um chaveiro pra ela, está com ela até hoje, mas eu sempre achei que ADC, na gestão do Takeo, sempre teve uma... deu uma importância muito grande realmente na questão do esporte. Ela faz juz àquilo a que ela se propôs. Ela é esportiva mesmo.



P - Magri, pra concluir, como foi um trabalhador chegar a ministro de Estado? Queria que você me desse a sua visão até... mais no sentido mas emocional mesmo dessa experiência.



R - Eu acho o seguinte. O meu movimento pendular foi muito grande, você há de convir comigo que por todo o relato que eu fiz e que pouca gente conhece, e a gente não diz isso até pra não parecer demagógico, pode parecer demagogia, eu chegar num canal de televisão e dizer olha, eu colhi lixo durante doze anos, isto é demogogia, o passado pra mim apesar de servir muito, eu sou... eu tenho uma filosofia, o passado pra mim, é um carro potente, com dois faróis potentes, numa estrada escura, mas iluminando pra trás. E eu preciso dos faróis iluminando pra frente. Então meu passado, ele me serve de embasamento pra não errar mais, mas eu, não faço questão de viver sobre esses enfoques saudosistas, né. Tanto é que, se não fosse num depoimento desse, eu jamais teria contado um pouco da minha vida. Mas pra você... mas por tudo o que eu disse, você vê que não foi fácil esse movimento pendular, sair de dentro de uma valeta pra você chegar a ministro de Estado. Mas, eu cheguei a uma conclusão, que não precisa ser nenhum intelectual, nenhum erudito pra saber, que você, tendo uma certa capacidade de entender esse mecanismo político, qualquer um pode ser ministro. Mesmo porque ministro, de fato, e esse depoimento quero fazer um dia no canal 4, canal 5, pra todo o mundo ouvir. Um ministro é uma... se o Brasil não tivesse ministro, ele andaria da mesma maneira. Teria que ter o presidente da República, e o ministro da Fazenda. Tanto é que eu dei ao Collor, essa sugestão. "O senhor tira os ministros, e colocar todos secretários de Estado". "Por quê?" "Porque é óbvio, porque o senhor me coloca no mesmo status da Zélia, que era ministra, e eu vou lá e quero dinheiro pra dar pros aposentados e ela diz que não, o senhor me subestima, eu fico numa situação muito delicada. Agora, se eu sou seu secretário de Estado, e ela ministra, e ela diz não, eu sou secretário, não posso peitar com ela. Mas se eu sou ministro, eu tenho obrigação de peitar e não dá pra peitar, porque por tudo que eu conheço hoje, eu sei que não dá. Porquanto seria melhor sermos secretário". Mas como não vai conseguir, isso, porque mecanismos de ministro de Estado, o status de ministro de Estado é uma coisa importante para se fazer política no Brasil, tem que manter. Mas eu cheguei aí e percebi que podia tocar aquilo com muita facilidade. Porque é aquilo que eu disse no começo. Eu não sei fazer a sopa, mas sei que está salgada ou não. Então foi uma coisa a princípio um pouco complicada, mas eu fiz aquilo que qualquer pai de família faz. Senta com a família e "O que que eu ganho, e que que nós gastamos". Então eu fiz esse cálculo. O que que entra na Previdência, e o que sai. Aí fiquei decepcionado, porque naquela época já tinha um déficit de 300 milhões de dólares, por ano, 300 milhões de dólares por mês, o que dava praticamente 2, 3 bilhões de dólares por ano então eu sabia que ela ia canalizar para um ramo muito dificil. Mas tentamos fazer muita coisa, aí eu dei... eu não vou generalizar, porque aí seria até injustiça da minha parte. Mas a imprensa, em geral, ela nunca destacou muito as minhas atividades. A imprensa, no fundo, ela tripudiou em cima de um trabalhador, essa é a verdadeira razão do depoimento porque no fundo, no fundo, no fundo, a imprensa ela me viu como uma pessoa que pudesse ser manipulada. Então quando eu disse, quando eu usei da palavra imexível, né, porque eu entendi que o dicionário da língua brasileira, o vernáculo da língua brasileira foi melhorado dessas formas, ou desta forma, a palavra aparece num momento de contingência difícil ou num contexto diferente, serviu realmente, não só de... como serviu de chacota porque se fosse um intelectual que tivesse dito isso, talvez não tivesse nenhum problema. Quando eu disse que tratava meus cachorros como seres humanos, eu não menti. Isso é verdadeiro. Eu trato os meus cachorros como se fossem humanos mas o jornalista foi maldosamente disse: "Magri disse que cachorro é ser humano". Então essas coisas, eu não tenho mágoa. Se você perguntar, não, não, mas o trabalhador que não pertence a esta casta, e neste país, onde os trabalhadores valem mais do que a elite, nesse país o trabalhador vale mais do que a elite, essas elites jamais poderiam realmente aceitar a idéia de um trabalhador chegar a ser ministro. Sabe por quê? Porque se ele for, se ele chegou a ministro e for um bom ministro, ele pode ser um bom presidente da República, ele pode ser um bom governador, e aí as elites estariam pulverizadas. E as elites, que detém todo esse poder econômico, não permitiriam isso. De jeito nenhum. Mas não tenho mágoa, foi uma grande experiência, se você perguntar pra mim, você se arrepende de ter sido ministro? Não. Mas pelo status? Não. Porque a minha estrutura é muito maior do que esse status. Mas foi importante, pra mim ver como esse país caminha hoje, e às vezes eu fico muito cético hoje em relação as propostas políticas da televisão, porque eu sei das dificuldades que se tem pra encontrar. Mas uma coisa pra encerrar o meu depoimento, eu queria ser muito sincero, abrir meu coração assim com a franqueza de um operário. Eu não tenho nada de ninguém. A estrutura operária, um operário que entrava às cinco, que colhia lixo, não tem humilhações. A grande humilhação, foi quando eu recebi meu primeiro salário mínimo, e não tinha dinheiro pra comprar leite pra minha filha. Aí sim senti-me sem cidadania, sem estrutura, e isso me deixou humilhado, não perante a sociedade, mas perante a minha filha que mal, mal balbuciava qualquer palavra. Essa foi a minha única decepção com a vida. O resto eu acho que o resto é o restolho do restolhado.



P - Muito obrigado, Magri.

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