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História

A tradição e a expansão do conhecimento

História de: Inu Ibã Huni Kuin (Francisco de Assis Pinheiro Domingo)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/03/2022

Sinopse

Ibã nos conta sobre as tradições e rituais de seu povo, os Huni Kuin. Fala também sobre como introduziu o violão em sua aldeia e sobre suas viagens à Europa.  

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História completa

(00:00:20) P/1 - Ibã, queria primeiramente agradecer pelo seu tempo, por partilhar a sua história com a gente. Agradecer mesmo, de coração, em nome do Museu da Pessoa. 

Eu queria que você começasse fechando seus olhos e voltasse lá pra raiz da sua vida, lá no baú das suas lembranças, e que você pegasse a primeira lembrança que você tem na sua vida; a primeira memória que você tem. 

 

R - Haux haux haux [cumprimenta com as mãos]. _______ Inu Ibã Huni Kuin, [da] Aldeia Rosa Branca Samaúma, [da] terra indígena Seringal Independência [do] Alto Rio Tarauacá, [no] município de Jordão, Acre, Brasil. 

Eu sou um estudante, então eu vou refletir um pouco [sobre] a minha jornada nessa vida, nessa parte terrena. 

Eu lembro da primeira vez [que tive] conexão com a jiboia.

 

(00:01:40) P/1 - Pode ir falando. 

 

R - A jiboia, pra mim, é a principal fonte da sabedoria, onde eu tive que [me] conectar com a tradição, a origem do meu povo. O primeiro momento que eu [a] encontrei, eu tive que cantar pra ela. Nesse momento, a minha mãe me ensinou uma música pra eu poder falar com a jiboia, pra eu poder aprender com ela, na parte da infância. Daí pra frente eu comecei a estudar a minha música, como txana [cantador].

 

(00:02:21) P/1 - Você podia contar como foi o contato com a jiboia? Onde foi, você tinha quantos anos? Como foi esse contato da sua mãe com a jiboia? 

 

R - Nós somos uma família de tradição, uma família que vive na floresta, muito distante da cidade. Geralmente a floresta fica em volta da casa, então ela realmente chega dentro da casa - a jiboia chega dentro da casa. Vivia no meio de nós, da família. Um dos primeiros meninos, criança, filho [tem que] encontrar com a jiboia pra poder [se] tornar um verdadeiro líder da família. 

 

(00:03:06) P/1 - Ibã, antes de voltar pra jiboia e de começar a falar sobre você, eu queria que você contasse um pouco do seu avô. O que você lembra, o que você sabe sobre o seu avô e sua avó?

 

R - A parte do meu avô, pai da minha mãe, que é um dos mestres, um pajé muito forte. Um curador, dos conhecimentos tradicionais. Eu lembro que ele chegava em casa pra ajudar a família em tudo que precisar - da parte espiritual, da parte da cura, do trabalho. Ajudava entre todos os processos de evolução da família e ajudava a ensinar o mistério pra viver. 

Uma vez eu me lembro que ele curou de mim uma doença muito, muito forte. Dentro da vida a gente passa… [Quando] criança a gente tem um monte de coisa pra sobreviver, pra curar. Ele ajudou a curar, ajudou a proteger, ajudou a abençoar a parte da criança pra crescer, [pro] futuro.

 

(00:04:30) P/1 - Qual era essa doença que ele curou? 

 

R - Era tipo um monte de tumores, dói assim no corpo. Tinha que passar remédio pra desaparecer essas dores. 

Uma vez eu fui caçar, aí voltei com um monte de picadas de formiga, que é a tucandeira. Eram 24 horas pra sarar, pra parar de doer, mas ele pegou um remédio, uma folha e sumiu tudo. Era um mistério muito profundo que ele sabia. 

 

(00:05:15) P/1 - Você lembra de alguma outra cura que ele fez?

 

R - Ele fazia cura nas pessoas da família. E ajudava a tornar pajé também, ajudar a dar banho, essas coisas. Eu o conheci muito pouco, porque chegando na minha idade de dez, doze, treze anos, ele já… Muito cedo ele partiu. 

 

(00:05:50) P/1 - Vamos ficar um pouco até os seus dez anos. Como era a sua vida de criança lá na aldeia? 

 

R - A vida de criança é muito forte na aldeia. A gente vive mesmo assim, pé no chão. Pra viver na floresta tem que andar muito na montanha, os igarapés. [Tem] que ajudar os pais, mães, ajudar a evolução da nossa família. A gente trabalhava muito na plantação, como agricultor; também vivíamos de pesca, de caça. 

 

(00:06:30) P/1 - Você lembra da primeira vez que foi caçar? 

 

R - Eu lembro.

 

(00:06:35) P/1 - Como é que foi? 

 

R - Eu lembro que meu pai me levou. 

Eu gostava de ver as pessoas, eu olhava pro lado e tinha os meus colegas pequenininhos, caçando junto com o pai. Aí eu perguntei pro meu pai: “Por que você não me leva? Outros estão levando os filhos.” Aí meu pai: “Não, você ainda é pequeno.” Mas eu queria de todo jeito. Embora pequeno, eu queria ir junto, ver o que estava acontecendo, aí ele me levou de barco. 

A gente não caçava perto da casa, a gente tinha que partir por alguns dias, pra longe. A gente caçava [por] dois, três dias, depois voltava. Eu parti junto com eles. 

Quando eles foram [pra] dentro da mata, os animais vieram [pra] perto de mim. Uma paca. A gente não precisou usar de nada mais. Ele veio perto e a gente começou [a ir] atrás dele, caiu na água e debaixo d’água a gente conseguiu pegar [ele]. 

 

(00:07:51) P/1 - Você falou também que, quando criança, você já ia pescar. 

 

R - É. 

 

(00:07:56) P/1 - Como era a pescaria Huni Kuin?

 

R - A pescaria Huni Kuin é tanto com tingui… Com anzol e com tarrafa também, com flecha.

 

(00:08:10) P/1 - O que é o tingui?

 

R - O tingui é uma planta muito poderosa, tira o oxigênio da água. Aí o peixe sai pulando; parece que assim, do nada, ele vem pra cima da água. Você pega facinho, [é] muito fácil de pescar.

 

(00:08:29) P/1 - Você tem irmãos? 

 

R - Eu tenho quatro irmãos - quatro comigo, na verdade.

 

(00:08:36) P/1 - Você tem alguma história de criança com os seus irmãos, que você lembra? 

 

R - Os meus irmãos me desafiavam muito. A gente vivia mesmo de desafio entre irmãos, aí que começa a guerra pra ver quem é guerreiro mesmo, quem é mais forte. A gente viveu um momento muito disso. Meus irmãos são os guerreiros, pra testar guerreiro tem que ser guerreiro. 

A gente tem uma vida muito particular, muito preservada na família. O meu pai vive dentro do particular, da aldeia, debaixo da samaúma, onde a gente cresce, toda a família - só a família. Foi um trabalho muito profundo, um cuidado muito diferente, sabe? 

 

(00:09:38) P/1 - Você disse que vocês viviam debaixo da samaúma. Você se lembra de algum momento de contato com a samaúma? 

 

R - Contato com a samaúma? 

 

(00:09:48) P/1 - É.   

 

R - Uma vez eu comecei a perguntar… No meu estudo de evolução eu comecei a perguntar, depois de meus quinze, dezesseis anos de conexão com a natureza. Foi também um grande mistério pra mim. Como a gente vive na floresta, a gente pensava que toda árvore abre. Não. A samaúma é uma das grandes árvores sagradas, onde a gente tem esse prazer de celebrar a tradição.

 

(00:10:32) P/1 - Mas teve algum dia que você teve alguma intuição ou sonho com a samaúma?

 

R - Sim. Eu ouvi falar que a samaúma é onde vive o espírito, onde vivem os mestres, então eu fui debaixo da samaúma e vi… Perto da samaúma tinha muitos beija-flores (imita o som de voo) debaixo de uma flor das estrelas. Eu também gostei desse espaço onde eu pude me apresentar, porque no mundo a gente precisa de um espaço pra poder se apresentar. Eu escolhi esse lugar, onde posso me apresentar, onde posso estar com minha família. A partir daí que eu passei a cuidar de árvores. 

 

(00:11:31) P/1 - Legal. Isso que você falar de cuidar de árvore… Queria te perguntar sobre o plantio. Você falou que [quando] criança já plantava. Como é que era a rotina da roça na sua vida? 

 

R - É muito difícil pra trabalhar, porque são muito grandes as coisas. A gente pra fazer o trabalho tinha que chamar todo o povo da vila pra poder ajudar. Nesse momento vinham todas as pessoas, pra ajudar a roçar. A gente trabalhava. Às vezes eu cortava muito. Às vezes eu ia pro roçado e chegava dentro da casa no colo do meu pai, porque eu fui cortado com o terçado - [pra] manobrar a gente erra e [se] corta. Mas [em] algumas partes da minha vida [houve] um aprendizado muito profundo com o trabalho, onde aprendi mesmo a lição da vida, onde eu sentia a energia mesmo da natureza. 

Meu pai mandava a gente trabalhar debaixo do sol quente mesmo, aí uma vez eu comecei a vomitar do nada, com a energia do sol. Vomitava, vomitava, quase desmaiei. “Não sei o que tá acontecendo contigo, então você tem que ficar quieto.” A partir daí que o meu pai começou a me levar em outro caminho, porque eu não aguentava a pressão do trabalho manual, do trabalho da terra - cavar, botar a mandioca, plantar dez mil, trinta mil covas de mandioca. A gente fazia coisa pra que todo mundo comesse também, todo o nosso povo.    

 

(00:13:40) P/1 - Queria te perguntar se tinha algum desafio de terra, se vocês sofreram algum tipo de invasão, de problemas com os vizinhos brancos, com patrão. Você lembra de alguma coisa dessa? 

 

R - A gente vivia muito assim… As pessoas caçavam muito no nosso território, então às vezes a gente encontrava com esses caçadores. Depois de contato… Eu sou muito novo nessa correria, mas o meu povo conta que são cinco tempos diferentes. Essa parte da invasão foi no tempo da correria, o tempo das seringas [seringueiras], no tempo da maloca. Esse tempo eu não vivi, porque eu nasci depois disso. Eu nasci depois que começou essa política, a política de educação do governo, da valorização, de ajudar um ao outro. 

 

(00:14:45) P/1 - Como era a educação Huni Kuin? Como você aprendia, como as pessoas lhe ensinavam as coisas?

 

R - A primeira coisa que eu cheguei… Como a gente vivia na outra aldeia, eu cheguei na aldeia principal, onde vive a família da minha mãe. Os meus tios são os professores, são pessoas de capacidades muito profundas. 

Eu cheguei e ouvi falar que estava tendo aulas, aí eu, criança, perguntei: “Vocês que são professores, vocês dão os livros pros outros. Por que vocês não estão me dando?” Logo eu recebi um caderno e um livro, aí fomos dentro da escola mesmo, tradicional, [de] palha, cerca de taboca. 

Foram aprendizagens muito tradicionais. Eu perguntava pro meu tio sobre a escrita do português, aí ele também não sabia traduzir português pro Rã-txa Kuin. Aí então eu comecei a perguntar outras coisas, comecei a estudar música. A gente estuda mais [coisa] tradicional do que outras matérias. 

Nosso trabalho é manual, tipo prática. A educação tradicional é a educação prática, mas também aprendi a ler e escrever com o meu pai. 

 

(00:16:36) P/1 - Já que você falou do canto tradicional, você poderia fazer um canto tradicional pra gente? 

 

R - O canto tradicional? Depende do canto que você quer escutar. 

 

(16:47) P/1 - O que você puder cantar. 

 

R - (risos) O canto tradicional… A primeira música que eu aprendi é pra aprender a música mesmo, então a gente tem que pedir permissão pra poder aprender nós mesmos, dentro do nosso coração e pro espírito yuxibu encantado escutar a gente e ajudar a gente a aprender.   

 

(começa a cantar) 

 

(00:18:28) P/1 - Eu queria voltar, já que você cantou, pro seu canto pra jiboia. Como foi a sua relação naquele momento e no resto da sua vida com a jiboia? 

 

R - Foi muito forte. A jiboia me entregou uma grande responsabilidade da família, porque nós fazemos uma das partes sagradas, então pra nós é um grande e sagrado mistério o yuxin jiboia. Só que tem um preço pra isso: eu tinha que perder um irmão do meu lado; o espírito levou o irmão. A partir daí que eu não quis ficar mais só na aldeia; eu queria viajar pro mundo, porque o meu irmão partiu sem ser autorizado pela família, mas autorizado pelo espírito. Eu pensei diferente; eu pensei que eu também tenho a minha liberdade de conhecer outros lugares. E nesse momento eu pedi uma grande força mesmo pra me dar a jornada, pra me dar essa libertação de estar ali, sem saber de nada que está acontecendo no mundo. A gente queria expandir o conhecimento e também trazer conhecimento [pra] dentro da nossa aldeia. 

 

(00:20:10) P/1 - Como foi isso de perder um irmão?  

 

R - Ah, muito forte. Pra quem vem aqui na Terra, se não é pra assumir a linha, você tem que se retirar de qualquer jeito. Era eu ou ele, a missão que nós tínhamos, então o espírito mesmo… Ninguém sabia o que estava acontecendo; três dias depois, do nada… 

 

(00:20:46) P/1 - Como assim, era você ou ele?

 

R - O espírito… A energia, nós estávamos colados. Eu não podia sair ou ele não podia sair; ou ele saía ou eu ficava. Era muito mistério. Eu descobri isso depois de muito tempo, através da minha espiritualidade, mas eu senti que é um grande alívio também, pra família prosperar, ter mais conforto. Pra chegar no ponto certo, tem que experimentar a amargura, tem que experimentar esse choque. Depois do choque você se alivia, pensa mais positivo. Foi assim que aconteceu com a nossa família.

 

(00:21:38) P/1 - Mas tinha alguma coisa a ver com a jiboia, é isso?

 

R - Não. Era um espírito, que não podia permitir isso. 

 

(00:21:48) P/1 - Já que você está falando de espíritos, queria que você contasse um pouco como foi se dando o seu contato com a espiritualidade.               

   

R - A minha espiritualidade começou da parte da jiboia, a parte do nixi pae [ayahuasca], a parte da medicina, a parte do banho, a parte do hãpaya [ritual de batismo], a parte da viagem… Catolicismo. Eu fui batizado como Francisco de Assis, com religião do catolicismo. Esse momento… Eu tenho a minha responsabilidade de cuidar da natureza e cuidar da minha família, do povo. Atualmente eu tô seguindo esse caminho pra que eu possa [me] equilibrar entre o mundo astral e o mundo material. 

 

(00:22:47) P/1 - Quando foi a primeira vez que você tomou nixi pae?

 

R - A primeira vez que eu tomei nixi pae [foi] com meus doze anos. A pessoa chegava lá, ninguém sabia o que era nixi pae, ninguém contava muito porque era segredo, sagrado, mistério. Aí uma pessoa pediu: “Cadê nixi pae?” Mas nós tínhamos nixi pae. “Agora é hora de tomar.” “Tá bom, então vamos.”  Nós fomos, tomamos, aí nós pedimos pro pessoal, eu já guiando todas as pessoas que vêm tomar. [Era] a primeira vez que eu tomei, “então vamos caminhar na montanha”. A gente começou a caminhar no meio da força mesmo, no meio da miração, ouvindo os pássaros, subindo a montanha, assistindo o pôr do sol. Comecei a chamar o vento - a primeira força que eu vi foi a do vento. O vento realmente é o primeiro deus, a primeira energia do planeta. Nós [nos] reunimos, fizemos uma sagrada oração, música, aí chegou um grande vento (imita o som). Foi muito bom, muito forte. 

[À] meia-noite tinhamos que voltar pra nossa casa, aí como era escuro, como era mata, na floresta, a gente tinha que andar, as pessoas pediram pra eu ir à frente, guiando. Eu tinha que guiar as pessoas no meio da noite, no meio da floresta, depois do nixi pae muito forte. Eu fazia um trabalho de guerreiro mesmo, desde a minha infância.

 

(00:24:57) P/1 - E pra quem não sabe, o que é o nixi pae

 

R - Nixi pae é uma planta muito poderosa, ela foi transformada como deus mesmo. Esse nixi pae é uma pessoa que viveu na Terra e ele não quis partir pro outro mundo, pra ninguém… Ele não quis desaparecer. Ele quis se transformar num remédio pra humanidade experimentar um verdadeiro ser, um verdadeiro deus dentro da gente. Esse é um amigo de Jesus Cristo, como se fosse… Muita gente fala, muita gente acredita que Jesus existiu aqui e [se] transformou. Nixi pae, pra nós, é igual a isso: existiu e [se] transformou. 

 

(00:25:53) P/1 - Como foi a sua caminhada com o nixi pae? Você disse que nessa primeira vez você já viu a força do vento, com doze anos. Nas vezes seguintes, ao longo dos anos, o que você foi vendo e sentindo?                    

                          

R - Eu perguntei a meu pai. Meu pai era incamuru - incamurus são dons dos xamãs, são verdadeiros mestres. Eu perguntei pro meu pai, disse que a ayahuasca é muito forte; quando chega, chega mesmo. Só que eu não sabia, né? Aí foi indo. 

[Tem] diferentes preparos também. Como eu [era] jovem, eu gostava de experimentar diferentes medicinas, diferentes lugares, com diferentes pessoas. Uma vez chegou um pajé [de] outra aldeia, aí me deu esse nixi pae muito forte. Pessoas gritaram, pessoas… Nossa, muito forte. Ela conecta mesmo entre o astral e a matéria, só que [tem] a jiboia do astral e tem a jiboia aqui da Terra. Eu comecei a ver a jiboia do astral dentro do planeta, colorida mesmo, trazendo essa força. É muita força, tem que preparar realmente o coração; não pode ter medo, tem que ter coragem. 

Você não consegue ficar em pé quando chega a força, você tem que sentar, deitar ou tem que relaxar. Relaxar é importante, meditar, segurar esse equilíbrio. 

Depois disso, meu pai falou: “Ainda tem mais profundo.” “Mais profundo pra quê?” “Pra chegar no pajé tem que beber um litro.” “Sério?” “Sério. Esse nixi pae que vocês tomam não mostra. Tem que tomar um copão, um litro ou [ser] um ser muito forte.” “Tá bom.” 

Fui indo, aí cheguei no Alto do Paraíso, com meus dezesseis anos. Foi muito forte. O yagé da Colômbia, um povo diferente trouxe o yagé, eu não sabia o que era; me deram três, quatro colheres, já _______. Pá! 

Eu fiquei sentado a noite inteira, nem consegui me levantar. Aí que eu vi realmente o estômago da terra. Nós chamamos profundeza porque é o estômago da terra, um ___________. Você vê dentro da terra, mas essa terra tem brilhos diferentes que você nem imagina, que abrem profundezas. Então me levou nessas profundezas. Eu assisti cachoeira, eu assisti esses mundos girando dentro de nós mesmos, em volta de nós. Na profundeza você consegue sentir a natureza e realmente o que está acontecendo porque está balançando - é o equilíbrio, o ar que vem balançar essa força. Você consegue sentir dentro de você. É isso que me mostrou. A ayahuasca me fez sentir toda a natureza.                                            

                         

(00:30:10) P/1 - Nossa! E o rapé? 

 

R - O rapé a gente usa pra curar mesmo a pessoa. Às vezes a gente fica com dor de cabeça, fica meio tonto, estressado e não quer essas coisas que a gente faz pro bem. A gente pega o rapé, pede e escolhe um assopro. Você quer um assopro diferente? O que você precisa? Às vezes a pessoa… Puf! E acordava duas, três horas depois. Aí que é a realidade espiritual. 

Outros assopros são jiboia, beija-flor, caminho do sonho, são do trabalho, do coração… São outros, alinham o coração. 

 

(00:31:12) P/1 - Você lembra de alguma cura muito forte que você viu com rapé?

 

R - Como eu comecei muito cedo, rapé foi muito equilibrado pra mim, não teve muita reação, não. Foi muito assim, já conectado com tranquilidade, começando a senti-la até que eu cheguei… Pega a força mesmo, pra aguentar. A gente consegue aguentar também, porque é muito preparo pra aguentar uma energia muito profunda.

 

(00:31:48) P/1 - Eu vou voltar só um pouquinho. Queria que você contasse um pouquinho da sua mãe, do que você lembra de memória dela, como era a relação com a sua mãe.           

 

R - A minha mãe é uma grande rezadora, uma grande mestra no que ela faz. Como não tinha miçanga, ela fazia colares como ossos de animais. Ela conta que foi uma das pessoas, como primeira filha do pajé, como primeira filha do cacique, ela era responsável por um barracão, uma cooperativa. Foi vender as coisas. Através da arte dela ela conseguiu todo o material que ela precisa - panelas, roupas, entre outros materiais de trabalho. Ela conseguia fazer artesanato manual, ninguém acreditava no que ela fazia. “Artesanato pra quê?” Ninguém acreditava que artesanato vale dinheiro. A partir daí [ela] começou a criar a própria autonomia da família, o próprio conhecimento da família. 

Como mulher também, ela tinha que aprender umas coisas, porque não é fácil aprender a tradição. Tem que estudar muito, às vezes as pessoas não têm tempo pra estudar. As pessoas não têm coragem pra conhecer mesmo o que é a realidade. 

Minha mãe só pegou as partes importantes. Ela conta que toda coisa que ela via, que ela viveu… As pessoas faziam artesanato, ela já fazia também. Uma vez ela foi à casa do pajé, pajé mulher mesmo; ela tinha uma sabedoria muito profunda do kene [grafismos da arte huni kuin], então ela ensinou pra ela o kene

É [de] geração pra geração. A minha mãe agora já está recebendo a responsabilidade da minha avó, com uma ancestralidade muito sagrada e ensinando esses mistérios, esses saberes pra toda a família.               

 

(00:34:31) P/1 - Sua avó é viva? 

 

R - Minha avó já partiu, só tem uma das avós. 

 

(00:34:36) P/1 - Você falou um pouquinho do seu avô. Você lembra dos seus avós?

 

R - O meu avô teve três mulheres, como cacique. Nosso povo não pode deixar a mulher sozinha ou mulher que vive distante. Se alguém da liderança souber, ele tem que trazer [pra] dentro da aldeia, cuidar com responsabilidade de guerreiro. 

O meu avô [se] casou com duas mulheres, fez muita coisa como guerreiro. Eu tenho duas avós; uma partiu e eu tenho mais duas, por parte do pai e por parte da mãe. São guerreiras também, elas me batizaram muito profundo também. Tem animais que a gente come o coração; fica muito forte, pra não ficar longe e ficar com saudade da família, chorando. Nós temos que [nos] preparar pra deixar o coração… Um coração que não deixa nada atrapalhar. Você vive ali, mas com essa potência.        

                          

(00:35:55) P/1 - Você falou que a sua avó te batizou. Como é que foi esse batismo? 

 

R - Esse batismo a gente [faz quando] criança, aí dizem que pra ficar velhinho, viver muito tempo, a gente precisa comer um coração cru, sem cozinhar nada. Pegar assim (faz o gesto de cortar) e comer os pedacinhos. Esse é o batismo do coração. 

 

(00:36:24) P/1 - Coração de quê? 

 

R - Coração de um animal, um animal que vive… Como se fosse um animal… Mucura, conhece mucura? É um tipo de animal que vive. Dizem que esse animal você pode bater nele, fazer um monte de coisas e ele ainda consegue viver e respirar. Ninguém consegue matar. É um coração forte, esse. É esse coração cru que você tem que comer pra ficar forte também. 

 

(00:37:03) P/1 - Nossa! E tem um nixpu pimá [ritual de passagem para a vida adulta]?

 

R - Tem nixpu pimá, que é depois de… Eu fiz nixpu depois dos dezoito anos.

 

(00:37:18) P/1 - Foi a primeira dieta que você fez? 

 

R - Não. 

 

(00:37:22) P/1 - Vamos entrar nessa parte: qual foi a primeira dieta que você fez. 

 

R - A primeira dieta foi a jiboia mesmo. 

 

(00:37:29) P/1 - Você tinha quantos anos? 

 

R - Eu tinha quase oito, dez anos. 

 

(00:37:35) P/1 - Nossa! E como foi essa dieta? 

 

R - A dieta foi muito forte. Como é família, a gente tinha que estar mais trabalhando mesmo, tinha que fazer muito trabalho e também fazer grandes curas. A gente vivia mesmo dentro de um reino muito sagrado, então já cresci com essa energia muito profunda. 

A parte da dieta a gente começa desde… Nascendo também. Você nasce e a sua família, o seu povo lhe dão um banho de ervas medicinais, clareando o destino do seu caminho. Já trazem o remédio pra poder batizar o caminho da espiritualidade também. Aí a gente começa a crescer, até chegar no nixpu pimá, depois pra estudar outras, outras integrais também. Nixpu pimá é muito importante pra juventude, pra quem realmente quer voltar, focar no caminho. 

 

(00:38:59) P/1 - Você falou que fez essa dieta da jiboia com oito anos. Como é uma dieta?

 

R - As dietas… Você só vai querer o que você vai pedir. É como se fosse uma promessa. Essa promessa você tem que cumprir, mostrar e dedicar. A jiboia te ajuda de alguma forma a trazer a sabedoria. 

 

(00:39:25) P/1 - E era com uma jiboia viva mesmo?

 

R - Viva mesmo.

 

(00:39:30) P/1 - E ela ficava lá no terreiro.

 

R - No terreiro. A qualquer momento a gente encontrava pra poder compartilhar saberes. 

 

(00:39:37) P/1 - Qual foi a coisa mais importante que a jiboia lhe ensinou? 

 

R - Ensinou o kene, me ensinou a música, me ensinou a medicina, me ensinou a história, me ensinou a trabalhar, me ensinou a olhar o caminho e cuidar das pessoas. 

 

(00:39:58) P/1 - Falando disso, do kene. Você disse que sua avó ensinou sua mãe. O que você lembra… O que é o kene? Muita gente que tá assistindo não sabe o que é. Qual o significado desse colar, dessa roupa?

 

R - Eu tenho meu clã diferente, o clã da onça. Um clã que vem de muito tempo atrás. Tem dois clãs diferentes pra falar do kene: o kene da jiboia e o kene da onça, o kene do gavião e o kene da samaúma. Cada ser tem seu kene diferente. Tem mais de sessenta espécies de kene diferentes. Eu estou usando o clã da onça. Essa é a pata da onça. No [povo] Huni Kuin a gente já se identifica através do kene. Se eu chegar no meu povo usando esse kene, as pessoas já vão perceber que eu sou Inu _ , que eu sou daquela família. Eu sou essa pessoa que pode todo mundo me chamar de Inu.

 

(00:41:25) P/1 - E você é Inu porque seu pai é Inu?

 

R - Porque meu pai é Inu, meu avô é Inu, a ancestralidade da parte do pai é Inu. [A] parte da mãe é Banu, que é a jiboia. 

 

(00:41:42) P/1 - E aí depois da dieta da jiboia… Foi quanto tempo de dieta? 

 

R - Como era na infância, eu… Agora eu ainda estou seguindo a dieta. Na verdade, agora que eu estou ficando amadurecido, agora é que eu vou entrar pra dieta mesmo, porque meu pai pediu. “Você é muito novo. Pra fazer dieta tem que ser uma pessoa muito velha também, tem que amadurecer um pouco a vida.” Eu queria muito [me] aprofundar mais, aí foi avisado: “Você já entrou, agora espera. Tem que chegar em mais idade pra poder entrar de novo.” “Tá bom.” 

Eu já vi muita força. Se a gente é jovem, nossa, é muita força pra aguentar. 

 

(00:42:45) P/1 - Você falou que era muita força e falaram pra esperar, mas você fez essa [dieta] da jiboia. Como foi que seguiu? Com oito, dez anos você já estava querendo estudar…

 

R - Estudando música, passeando, estudando mesmo as tradições, línguas - o português já, outras línguas também, na escola. Escrever, ler, trabalhar. A gente faz um pouco de cada, porque não é só um ensinamento, já vem variado. Eu segui esse degrau de cada, até estar atualmente como líder de juventude das três terras indígenas.   

 

(00:43:31) P/1 - Deixa eu te perguntar uma coisa de outro assunto: sua aldeia não é desmatada? A floresta é desmatada? 

 

R - Não. 

 

(00:43:42) P/1  - A aldeia vizinha à sua é desmatada? 

 

R - Agora tá sendo um pouco, porque a população tá crescendo. 

 

(00:43:49) P/1 - Mas a maioria das aldeias são preservadas? 

 

R - São preservadas. 

 

(00:43:52) P/1 - Como é que era passado esse valor de preservar a floresta? O que eu queria te perguntar é o seguinte: o que fazia vocês preservarem a floresta, enquanto você vai em outro lugar, branco, nawa, e queimam, destroem? O que falavam pra você quando criança, jovem, que fazia vocês preservarem a natureza? 

 

R - Pra preservar a natureza, primeiramente a gente vive com a medicina. Nós sabemos que todas as florestas têm significado de cura. O pajé consegue identificar todas as plantas. Dizem que se você começar a estudar a medicina você não consegue mais mijar em nenhum canto, porque você vê toda a medicina. 

Nós sempre preservamos, a floresta é rica, a floresta é a vida. A floresta é o planeta, na verdade, então o povo nawa, os fazendeiros são essas pessoas que querem muito dinheiro. Querem aproveitar disso, da natureza, da terra que dá… É claro que é muita riqueza; pra nós, nós já somos riqueza dentro do coração, dentro do espiritual, dentro da tradição. Não precisa destruir muito pra ser rico.                                                      

 

(00:45:33) P/1 - E isso era como? Eram os mais velhos que falavam? 

 

R - Isso foi o governo também, fora a Comissão para o Índio. A Comissão ajudou as pessoas [a saber] como manejar, como criar, como proteger, como cuidar do nosso meio ambiente. As pessoas estudaram, já começaram a proteger, começaram a cuidar da floresta, das árvores grandes, das árvores pequenas, principais, então foi assim, foi um estudo também, com a ajuda de todos os amigos do mundo e amigos do nosso Estado.

 

(00:46:21) P/1 - Você disse que é uma liderança da juventude. Como foi que você virou uma liderança? 

 

R - Na primeira infância, meu tio era a liderança. As pessoas já vinham falando: “Você vai cuidar da juventude indígena, da juventude estudante. Você vai ajuntar toda essa juventude e mandar trabalhar.” Tudo que eu fazia era juntar essa juventude e trabalhar junto, pesar junto, caçar junto - viver junto ali. Comecei a me tornar mesmo da família, direcionado praquilo, resolver algum problema, solucionar pra ajudar a família. Foi aí que eu cresci, pra ajudar o povo que vive na floresta e também na cidade. 

Quando chego na floresta, hoje em dia, as pessoas me recebem muito diferente[mente] de todos eles, porque quando eu chego na cidade eu também recebo as pessoas como eu conheço. Ajudar a andar no Brasil, no mundo, ajudar pra fazer os documentos, os diferentes trabalhos burocráticos. Na floresta, não; na floresta a gente chega já no trabalho manual, ajuda um e outro a viver normalmente.  

 

(00:48:04) P/1 - Você tinha amigos? 

 

R - Sim, amigos parentes, amigos primos, amigos… Às vezes verdadeiros, às vezes você não encontra nenhum amigo verdadeiro. (risos) 

 

(00:48:21) P/1 - Dos verdadeiros, você lembra de algum episódio que viveu com um amigo? Se perdeu na mata alguma vez, alguma coisa diferente assim? 

 

R - Perder, não, agora caçar longe, enfrentar muitos desafios, sim.

 

(00:48:47) P/1 - Qual foi a maior aventura que você já viveu? 

 

R - Meu pai era o aventureiro, na verdade. Na minha infância eu não encontrei ninguém que me desafiasse. Eu queria estar na frente de todos, testava todos pra me desafiar, mas ninguém conseguia. Aí meu pai me desafiou: "Então bora! Vou te levar pra muito longe. Você aguenta mesmo?” De lá eu já vim assim, muito cansado, depois de oito horas de viagem, de um dia de viagem, caminhando pela montanha, pela floresta, rio. Caça um catitu, carrega nas costas, às vezes descia a montanha rolando, até chegar [embaixo], levantar, carregar… Na infância tem que ser de tudo.

 

(00:49:47) P/1 - Você tinha quantos anos nisso?

 

R - Eu ainda era… Tipo treze anos. 

 

(00:49:54) P/1 - Depois da jiboia foi o hãpaya que você fez? 

 

R - (risos) Agora eu ainda estou nesse processo. É muita coisa ainda, mas já passamos [por] muitas outras coisas. 

 

(00:50:15) P/1 - Como foi esse caminho de estudo? Qual foi o grande pajé que você conheceu? 

 

R - Era o Dua Buse, o meu próprio avô e os meus tios. 

 

(00:50:28) P/1 - Qual foi o grande ensinamento que você sente que Dua Buse ensina, que você viveu com ele? 

 

R -  A parte da história e a parte da música e a parte da medicina ‘perfumosa’, de banho. 

 

(00:50:44) P/1 - E teve algum dia que você lembra que foi especial com ele? 

 

R - Ele sempre ia lá em casa. Eu também gostava de chamá-lo pra visitar, quando eu precisava. Tinha uns trabalhos particulares, então eu tinha que chamar alguém, então de preferência era o Dua Buse. Ele foi à aldeia explicar o que estava acontecendo, o que está vindo, o que vai ser; ele me mostrava um pouco de cada, as coisas mais tradicionais.

 

(00:51:28) P/1 - E os seus tios? O que você lembra deles nesse período, dos dez aos quinze anos, nesse período que você começou a se formar? Que histórias você lembra dos ensinamentos que eles lhe passaram? 

 

R - Eu saí muito cedo, porque… Como eu vivia longe da aldeia, eu não conseguia ver esses tios trabalhando realmente, mas sempre eles são os políticos, os estudantes também. Eles viajavam muito, às vezes trabalhavam muito. Só quando a gente precisava chamar é que eles vinham visitar, ajudar e perguntar se [a gente] estava bem, se estava conseguindo viver, se estava precisando de ajuda. 

Eles sempre ajudam a família. Eles me ensinaram como caçar, como pescar, como trabalhar com a família; como cuidar das coisas como liderança, como representante, como um verdadeiro guerreiro. É com eles que eu convivo quando eu volto pra floresta. Eles fazem vento pra nós juntarmos toda a nossa família - nós fazemos juntos, na verdade. 

 

(00:52:58) P/1 - Teve algum pássaro que lhe ensinou alguma coisa? 

 

R - Pássaro? O meu dom espiritual… Eu sou um beija-flor. Eu não sei como, esse caminho [se] abriu através do caminho espiritual do beija-flor. Eu agradeço a esse grande espírito. Nós chamamos os pássaros de encantados e músicos. Os pássaros são os músicos, então a gente tenta estudar junto com esses pássaros músicos. São eles que trazem a sabedoria da memória e da música, como o japiim, outros pássaros como o uirapuru, como o mensageiro. [A gente tem]  que sempre [se] concentrar, aprofundar, com esses passarinhos você realmente é o txana.

 

(00:54:03) P/1 - E você teve algum aprofundamento com algum pássaro? 

 

R -  Através da pimenta e através de uma folha na língua. Você pega uma folha que fala a língua do papagaio. Essa língua te dá a potência do passarinho pra poder cantar outras músicas, diferentes línguas de músicas. 

 

(00:54:29) P/1 - Como foi esse processo com a pimenta? 

 

R - Esse é o batismo pra poder ter a voz do passarinho. 

 

(00:54:38) P/1 - E você sentiu a sua voz mudando? 

 

R - Sim, muito profundamente.

 

(00:54:42) P/1 - Você teve alguma visão durante esse processo? 

 

R - Não. Você recebe depois de três dias. 

 

(00:54:49) P/1 - E muda a voz.

 

R - Muda a voz. 

 

(00:54:54) P/1 - Voltando, você disse que morava longe da aldeia. 

 

R - Meu pai, como genro do cacique… Quando começaram a conquistar a terra, a terra indígena Seringal Independência… A própria independência do nosso povo conquistou a nossa terra. A partir daí, meu avô viu o meu pai como guerreiro [e disse:] “Você vai escolher o lugar onde você quer morar. O espaço é esse.” Ele mostrou o espaço de terra; [era] grande, [com] espaços diferentes. Meu pai [disse:] “Então eu vou morar aqui.” [É] um pouco distante da aldeia. [Foi] aí que eu nasci, quando ele começou o próprio território dele. E lá ainda existe. 

 

(00:55:57) P/2 - Eu queria perguntar se tem algum rito de passagem, alguma dieta que faz pra passar pra adulto. Você já passou por isso?

 

R - Sim. Pra nós, pra passar [de] criança para adulto você tem que mostrar que já sabe pescar, caçar, trabalhar, que já sabe ajudar - a sua potência primeiro. Depois é que vai vir a responsabilidade de assumir. Mas as meninas, elas têm o processo da primeira menstruação. Tem um batismo de três a cinco dias, com o nixpu pima. Aí é que elas vão comer nixpu.  A parte da adolescência, da menstruação já chega com o batismo, pra poder passar o equilíbrio. Nós recebemos um remédio de pintar dente pra alinhar com nosso corpo, sem mexer nada  - sem olhar, sem conversar, sem muito barulho. E os pajés cantando, rezando, conduzindo a cerimônia de passagem. 

Tem momentos de banho, momentos de kampum [kambô]. No final é kampum. Tem momentos de música, danças mesmo, que se dança o dia inteiro pra firmar a sua matéria fisica. A partir daí que você passa dois, três dias dentro da rede, só concentrado. Sem sal, sem açúcar, sem namorar, sem ter contato com outras pessoas. Só a família pode cuidar de você. 

 

(00:58:27) P/2 - E o que é kampum?

 

R - Kampum é uma medicina do sapo, que vive em três partes do planeta.

 

(00:58:37) P/1 - E você se lembra de como foram esses três dias na rede?  O que você lembra desses dias? 

 

R - (suspira) Essa parte é muito sagrada. Você fica ali na rede, aí todas as meninas da aldeia vêm cantar pra você, balançando a sua rede. Vão falar tudo aquilo que você merece - se você merece um caranguejo, se merece um peixe, um tatu… Se você merece alguma coisa, elas vão lhe dando essa energia. Toda a aldeia cantando pra você. Só as primas por parte do pai - a irmã do meu pai, as filhas dela - podem brincar comigo. O filho do meu tio, irmão da minha mãe, pode brincar comigo. Outros não podem brincar, porque existe respeito entre relações pessoais. 

 

(00:59:58) P/1 - Não teve nenhum momento que você teve vontade de sair da rede? Você conseguiu aguentar? 

 

R - Não, tem todo um cuidado. É tudo respeito também. Se você quebrar a dieta, é muito perigoso. Você tem que ter consciência daquilo pra não interferir no processo. [Com] toda a família apoiando você consegue ficar tranquilo, ficar relaxado. Tem que cumprir, tem que mostrar que você é guerreiro. Não pode desistir no meio do caminho, porque é a partir daí que vão reconhecer quem é você. 

 

(1:00:51) P/1 - O que é o japiim?

 

R - O japiim é um pássaro cantador. Um pássaro misterioso, um pássaro mensageiro que vive perto da aldeia, da sua casa, escutando você. Só que tem uma coisa: nós sabemos que o japiim… A fêmea faz o ninho e o macho só cuida dos filhotes, dos ovos e da música. A responsabilidade da fêmea é cuidar dos alimentos, cuidar do ninho. 

O macho começa a cantar imitando outros tipos de passarinho. Chega ao ponto de outro passarinho não gostar que o japiim o imite. Esse passarinho bota o marimbondo do lado do passarinho, pra esse marimbondo poder escutar o japiim e imitá-lo. Tem um ser que mora do lado do japiim só pra vigiar, pra ele não imitar aquele passarinho. Se ele imitar, esse bichinho corre atrás do passarinho, tira todas as penas dele, deixa pelado. É um grande respeito com a natureza, uma coisa que a gente admira muito no japiim. Ele é muito sagrado pra nós. 

 

(1:02:48) P/1 - Você já viu isso acontecer?

 

R - Já. Às vezes você vê o passarinho sair correndo do nada, vai sumindo na floresta. (risos)

 

(1:03:01) P/1 - Você já teve algum contato mais profundo com o japiim?

 

R - Essa parte ainda vai chegar. 

 

(1:03:11) P/1 - E o violão, como se deu esse encontro com o violão?

 

R - Na floresta não existiam muitos instrumentos. Como a minha primeira missão é música, o primeiro desafio era cantar. Pediram que eu participasse… Pra sentar na roda das pessoas tem que aprender a cantar. Tem que saber cantar. Já foi o desafio da música, no primeiro momento. 

Eu comecei a cantar sem instrumento. Cantar, cantar, cantar… Até que chegou a oportunidade de saber onde está o violão. Eu vi violões diferentes, pessoas diferentes, lugares diferentes, mas ninguém sabia tocar. Eu pedi também…. Eu comecei a tocar assim, do nada, só que as pessoas com outros violões tinham ciúme de mim. “Não é seu, não é aquilo”... Você sabe, se você não tem o seu próprio material, mexe em outras coisas, as pessoas podem ficar com raiva de você. 

Meu pai percebeu isso, que eu tinha o dom musical, que queria um instrumento. Tudo o que eu queria era ter dinheiro, muito dinheiro, porque eu precisava que o meu povo tivesse conforto, material pra estudar, pra tocar, pra animar. Então eu pensei: “Como é que eu vou ganhar dinheiro? Todo o dinheiro que meu pai gasta é só pra manter a família na aldeia.” Ele me deu uma parte de dinheiro muito pequena naquela época. Dinheiro pra mim era… Uma parte já era tudo. Comecei a pensar: “Vou juntar dinheiro. O primeiro projeto meu”, eu pensei, “vai ser um violão. O primeiro dinheiro que eu vou gastar vai ser num violão.” Comecei a juntar esse dinheiro pra conseguir meu próprio violão. Comecei a trabalhar, carregando alimentos pras pessoas, ajudar no trabalho manual pra poder ganhar dinheiro, até que eu pude comprar. 

As pessoas viram. “Você tem dinheiro pra quê?” “Isso é pro violão. Eu quero um violão.” Tudo o que eu queria era um violão. 

Como eu era criança, entreguei pro meu pai: “Vai lá comprar um violão pra mim.” Ele veio pra cidade; em Jordão não tinha violão. Em todo o município não tinha violão, então ele tinha que vir pra Rio Branco, em outra cidade. Como a viagem estava demorando, ele comprou primeiro um barco com esse dinheiro do “projeto violão”, só que ele prometeu: “Eu comprei um barco, mas eu vou pra Rio Branco pra poder comprar o seu violão”, aí fiquei tranquilo. “Tá bom. Eu quero meu violão de alguma forma; chegando o meu violão tá bom.”                                

Um tempo depois, chegou o meu violão. Todo o povo ficou muito feliz, estava chegando um violão pela primeira vez na aldeia, [eu] tendo essa oportunidade de tocar e cantar, e ter um instrumento da família. 

Comecei a tocar. Ia pra outros lugares onde já tinha violão pra buscar informação. As pessoas falavam: “É muito fácil. É só ir tocando e você vai aprender.” Ninguém falava qual a posição, como se faz, só falavam que tem que tocar pra aprender. A partir daí, eu tinha que tocar escutando a minha música e tentando acompanhar com o violão. Comecei indo, mas ainda estou batalhando pra encaixar a nossa música tradicional, acompanhando com o violão. 

 

(1:08:11) P/1 - Como os mais velhos ouviam isso, você tentando encaixar a música tradicional no violão? 

 

R - Pra eles violão não é tradicional, em primeiro lugar. Aí a gente fala: “Essa época que vocês viveram… Já é outro tempo, então pra nós esse tempo não existe. Nesse tempo já tem instrumento, é importante ter instrumento.” 

 

(1:08:42) P/1 - E aí? 

 

R - E aí nós conseguimos cantar. Agora estão começando a gostar, a se animar. O povo precisa de animação. O povo precisa de um instrumento que deixe todo mundo equilibrado, harmonizado. Pra nós, não é contra a tradição. Nós somos a favor da tradição, [queremos] integrar esse conhecimento. 

 

(1:09:16) P/1 - E como é que foi a sua jornada com o violão? Você o pegou e não sabia nenhuma nota. Como é que você virou txana, cantador?               

          

R - Eu tinha que cantar primeiro, pro violão me acompanhar. Você tem consciência, você escuta como você está cantando, aí você consegue escutar e tocar junto com essa música. A gente aprende com essa música que a gente canta e tenta encaixar no violão. 

 

(1:09:53) P/1 - E você ficou meses fazendo isso. 

 

R - Meses, muitos anos. É um desafio da vida. (risos)

 

(1:10:01) P/1 - Outros jovens já tocavam ali? 

 

R - Agora, tendo o violão com [os] huni kuin, se você vir alguém fazendo uma coisa legal você também quer fazer, porque existe a inteligência das pessoas. Existe o desejo das pessoas de realizar algo mais relevante, mais elevado, mais profundo. As pessoas estão começando a se aprofundar muito, tocando muito violão, cantando, fazendo trabalho com o violão e trazendo músicas tradicionais junto com o violão. Hoje a gente consegue entender que toda a aldeia tem a oportunidade de tocar violão.

 

(1:10:55) P/1 - Qual foi a primeira música que você conseguiu aprender a tocar? 

 

R - Agora eu tenho que… A primeira música não [se] encaixa no violão, porque é muito tradicional. Você tem que ver alguma coisa que encaixe. Às vezes não encaixa porque é tradicional, não existe instrumento. Existe sim, mas pra encaixar tem que estudar muito, então eu ainda estou estudando pra encaixar. Depois disso, a gente tem outras músicas que [se] encaixam bem tranquilamente. 

 

(1:11:42) P/1 - Qual foi a melhor coisa que o violão lhe trouxe? 

 

R - Mais alegria, mais harmonia, mais conforto de estar no espiritual. Você está muito longe, tocando e cantando; você espanta os maus espíritos. O ditado fala que quem canta espanta os maus espíritos. Você canta e [se] liberta [de] todas as coisas. 

 

(1:12:08) P/1 -  Já teve alguma história com o violão, alguma coisa diferente que aconteceu com o violão?

 

R - Pra mim foi um presente. Eu consegui chegar a esse ponto com a ajuda de toda a família e de todos os amigos também, mas tem algumas pessoas que não queriam que eu fizesse isso. Eles roubaram meu violão, todas as coisas que eu tinha pegaram. 

Eu fiquei assim: “Poxa, como é que eu vou aprender a tocar se ninguém quer me dar a oportunidade?” Nesse momento, chegou meu amigo com dois violões. “Tá aqui teu violão de novo. Você o perdeu, mas eu trouxe outro violão pra você.” Toda a aldeia ficou olhando assim, [desconfiada], do nada outro chegando e me dando um violão. 

A partir daí que começou a minha carreira. Perdi um violão novo, mas ganhei de novo.                        

A história do violão pra mim é uma grande alegria, por ganhar um presente da vida, pra poder ensinar e ajudar.

 

(1:13:42) P/1 - Você pode tocar uma pra gente?   

 

R - Agora? 

 

(pega o violão e começa a tocar e cantar)

 

(1:16:04) P/1 - Ibã, eu queria perguntar, se você puder falar, se você teve contato com Muká.

 

R - Muká é muito poderosa; é a mãe, rainha da floresta. Muká é um dos seres que vivem neste planeta pra ajudar. É uma força feminina e a força de todos os animais. 

A minha ancestralidade fala que ela é muito poderosa para uma cura. É mais forte que ayahuasca, muito mais profunda de estudo. Tem que ter muita coragem pra encontrar com Muká. É uma longa caminhada, um longo processo, mas vale a pena. Vale um tesouro, na verdade. A floresta está em pé, equilibrada, [ela] está protegendo toda a natureza. 

Quem conhece Muká… Existe uma linhagem muito sagrada. Na nossa ancestralidade, quem faz uma dieta muito profunda vive 105 anos. Minha avó faleceu com 105 anos porque ela tinha muito estudo com Muká; ela ajudava a curar as pessoas. Ajudava a proteger, a batizar, ensinava as coisas. E foi bom. 

 

(1:18:25) P/1 - Você fez essa dieta? 

 

R - Essa dieta eu encontrei sim. Minha avó já estava em outro mundo com meu avô, com as pessoas. Eu queria muito me encontrar com essa ancestralidade naturalmente, só que eu não consegui porque partiram antes de eu estar junto com eles. Claro que eu conheci todos eles, mas não consegui sentar, declarar como é. Mas a família existe, meu pai conta, as pessoas contam como se faz, como tem que mexer, como funciona. 

Eu fiz o processo e funcionou assim, puf! É muito forte, mas a gente se liga com todo mundo, toda a ancestralidade vem assim e olha se você está preparado mesmo. Você consegue sentir a energia da espiritualidade do lado, conduzindo. E no sonho, abre… Puf! Abre o caminho do sonho, na verdade. É o poder do sonho. Você precisa entender o seu sonho, a sua vida pra entender Muká.  

 

(1:19:57) P/1 - Você teve algum sonho que possa compartilhar?

 

R - Sonho? É muito poderoso. Eu pedi pra conhecê-la e eu a conheci, realmente. Dependendo do que você pede, ela te responde. Mais cedo ou mais tarde, ela responde. Eu me encontrei com os meus avós, meus ancestrais, todos no universo. Com essas cores que a gente vê, esses são os espíritos que vêm do universo pra Terra. O arco-íris é o caminho pro grande espírito se conectar contigo. O arco-íris, o brilho.                              

                                 

(1:20:53) P/1 - Como é a dieta? 

 

R - A dieta é sem sal, sem doce, sem carne, sem relacionamentos. Sem banho, sem muitas pessoas. Também é um trabalho particular. E estudar o que você deseja. 

 

(1:21:20) P/1 - Você fez por quanto tempo? 

 

R - A gente controla, na verdade. Tem de três meses, dois meses, um mês. Não é só uma dieta. Você faz uma, depois outra. 

Tá sendo um grande desafio, porque a gente escolhe um caminho e não pode desistir dele. A gente tem que buscar o caminho. Essa caminhada que eu estou tendo, essa é a responsabilidade de estar aqui, de curar, de cantar, conhecer. É através do caminho de Muká. Mas é muito importante estudar junto, é muito sagrado. Muito cuidado também. Eu posso falar somente coisas positivas, porque é o que nós desejamos. Não podemos ficar só pensando em outras coisas, podemos só pensar em coisas de boa qualidade. 

 

(1:22:37) P/1 - E qual foi o dia da dieta mais forte? 

 

R - Forte mesmo? Cheguei na floresta, parecia que toda a floresta era o kene. Você vê espíritos por todo lado, olhando, e você caminhando, porque abre, é a expansão da consciência. Depende do tempo que você aguenta, vai se aprofundando mais. A ayahuasca também, você toma o nixi pae dentro da dieta e é muito mais forte do que sem dieta. 

 

(1:23:21) P/1 - Além de ver o kene você teve alguma outra experiência forte durante a dieta?                     

 

R - Sentia os animais, o poder dos animais. A anta vem falar contigo: “Ei, o que tá acontecendo?” Você tem que responder ou tem que [se] entregar. São [coisas] misteriosas, sagradas.   

 

(1:23:49) P/1 - Mas a anta é física mesmo ou miração?

 

R - Miração ou energia mesmo. Miração.

 

(1:23:59) P/1 - E com planta? Você disse que conseguiu até falar a língua da planta, pra você entender pra que a planta serve. 

 

R -  As plantas realmente [têm] um poder muito grande. Depois de Muká você tem que tomar banho, porque Muká te consagra. Tem outras medicinas do lado, que ajudam a equilibrar suas emoções, as coisas do coração, os pensamentos; pra força, equilíbrio, essas coisas, tem outras medicinas pra ajudar. Muká é somente pra você ser consagrado, ser abençoado. 

 

(1:24:53) P/1 - Quando você foi fazer, você era jovem? O que a sua família achou? 

 

R - Na verdade, toda a família está dentro disso. Cada qual tem a sua dieta. Você sabe. Seu irmão tem estudo também, ela tem estudo, todo mundo tem estudo. Um toca, o outro canta; às vezes um viaja, o outro segura. A preparação é pessoal. 

 

(1:25:38) P/1 - Como foi o dia de fechamento da dieta? 

 

R - Tem que chamar o pajé. Tem que chamar o grande xamã pra falar um pouco mais [sobre] o que realmente é. 

Foi um banho, mesmo. O fechamento é o banho. Pra poder comer depois, beber água pura, comer carne, tem que ter banho.          

 

(1:26:17) P/1 - Quem foi o pajé que te acompanhou? 

 

R - Foi o Dua Buse. 

 

(1:26:21) P/1 - O que você sentiu depois da dieta? 

 

R - Depois da dieta você está dentro da dieta. Você não sente que você saiu, você sente que está dentro, por isso que tem que ter cuidado pra não ficar fazendo algumas coisas. Você já tem a dieta, você é a dieta. 

 

(1:26:44) P/1 - E depois do Muká você ainda faz alguma dieta? 

 

R - Muita coisa. Mas depende da coragem da pessoa. 

 

(1:26:53) P/1 - Você teve coragem de fazer alguma outra coisa? 

 

R - Agora… Tem essa que a gente falou, da pimenta, e de outras plantas, outros mistérios. Com os pássaros, com as árvores, com Iemanjá, com os próprios deuses. Tem essas dietas. 

 

(1:27:25) P/1 - Ibã, como foi que você começou a viajar pra fora do Acre?    

 

R - A oportunidade veio pelo meu pai, da primeira vez. Ele me perguntou se eu queria estudar na cidade. No meio de todos os meus irmãos, minhas irmãs, ele viu… “Você quer estudar na cidade?” Acho que ele foi perguntando pra cada pessoa. 

Eu não sabia o que era a cidade, o que era viagem, o que era andar de avião. Ele falou: “Você quer?” [Eu pensei:] “Por que não? Se eu ficar aqui tudo vai ficar assim. Ninguém vai me explicar o que é realmente verdadeiro, o que é certo, o que é ruim.”    

A partir daí, me botaram na cidade. A primeira coisa: tem que aprender português na cidade. Eu não sabia nada de falar, nem pedir picolé eu sabia. Andava descalço.

Entrei na sala de aula e foi tranquilo, porque meu pai já tinha me ensinado a ler e escrever. Comecei a ler e escrever, foram funcionando as coisas. A professora me deu um caderno com cadeado: “Você ganhou um prêmio.” No primeiro momento, ganhei um prêmio da vida. 

Comecei estudando, mas queria ir mais longe no Estado, pra Europa, pra outros lugares diferentes, mas minha mãe não deixou. “Não, você não tem dezoito anos ainda. Por favor, não vá.” 

O pensamento da minha mãe é estar junto ali, cuidando da aldeia, balançar a força. (risos) O pensamento do meu pai é diferente, quer que a gente estude, conheça outros lugares, tenha uma sabedoria mais tecnológica, mais ampla. 

[Eu disse:] “Se vocês não me deixarem eu vou sumir na floresta. Eu vou pra montanha, vou virar homem-lobo.” Falei assim pra toda a família. Não acreditaram em mim. “Então você não vai pra cidade, fica aí.” (risos) “Se for pra ficar aqui, então eu vou pra floresta.” 

Sumi na floresta. A partir daí que acreditaram em mim. “Então você tem coragem mesmo, vai lá estudar na cidade.” 

 

(1:30:23) P/1 - Você sumiu na floresta por quanto tempo? 

 

R - Por um dia. 

 

(1:30:27) P/1 - E como é que foi esse dia? 

 

R - O dia foi muito tenso. Era a escolha, ou a cidade ou a floresta, então a escolha que eu fiz foi entrar na floresta. Fui longe, longe, aí meu pai começou a se preocupar, minha mãe. Foram atrás e me acharam, aí falaram: “Você tem que ir. A sua passagem já tá comprada pra você estudar em Rio Branco.” “Tá bom.” 

A minha vida começou daí. Cheguei em Rio Branco com quase nada. Não tinha emprego, nem o sustento básico, recursos. Comecei a estudar a quarta série e a professora começou a perguntar… Meu cabelo era diferente, eu gostava de andar com o meu cabelo como se fosse… Um índio mesmo, cabelo grande. A professora ficava admirada: “Você sabe que na cidade todo mundo admira muito o índio. Você é índio, você é aquilo…” 

A minha nota… Tinha que apresentar a cultura tradicional Huni Kuin, do meu povo, dentro da sala de aula. Pra mim foi um acolhimento mais puro, sabe? A diretora foi muito receptiva comigo, uma pessoa que começou a gostar de mim. 

O primeiro evento eu organizei dentro da escola, quando eu saí da aldeia. Organizei o evento com a permissão de diretores, professores. Fizemos a dança da jiboia, a dança do bariri, a dança dos legumes, com palha, fantasia. Os professores me deram nota dez na cultura. (risos) 

 

(PAUSA) 

 

(1:32:36) P/1 - Vou continuar. Você foi pra Rio Branco, começou a aprender as coisas, apresentar sua cultura. E aí?          

 

R - Comecei a participar de teatro, de eventos de música, como o Arraial Cultural, ExpoAcre, onde as pessoas se juntam pra celebrar o final do ano, coisas assim. A partir daí ganhei a oportunidade de me apresentar como artista. 

 

(1:33:11) P/1 - Você fez o quê? Foi aí que você foi viajar pra São Paulo?

 

R - Comecei a estudar, estudar. Teve um momento que meus primos, meus parentes não queriam mais viajar, não queriam mais sair de casa, da aldeia, de perto da família porque é muito difícil viajar pra longe, pra lugares diferentes. Tem que ter uma organização mais profissional. Eu era a única pessoa que eles tinham ao lado para poder viajar. 

Eu tinha quinze, dezesseis anos, na época. Eles disseram: “Então você vai viajar”, porque ninguém tinha dúvida… Eu já cantava, já me apresentava, organizava eventos, “então vai ser você mesmo o representante [da aldeia].” Fui colocado diante da liderança, pra poder representar o nosso povo.            

 

(1:34:17) P/1 - E como é que foi?

 

R - Eu vim pra São Paulo, só pra conhecer. Comecei a viajar através da minha autonomia, pegando avião, táxi, ônibus, mas eu sabia o endereço de onde eu ia. 

Chegando aqui, apareceram muitas oportunidades pra gente se apresentar, pra compartilhar, pra gente estar junto, pensar no futuro e ajudar um ao outro, porque a floresta é muito grande pra receber também. 

 

(1:35:00) P/1 - Quando você foi pra Europa?

 

R - Eu fui pra Europa com 21 anos. 

 

(1:35:08) P/1 - E qual foi sua impressão? Você cresceu na Amazônia, o que você achou daquele lugar? 

 

R - Uma pessoa preparada me levou pra Europa, estudando junto mesmo, do lado. Pediu pra eu me preparar durante um ano, então eu me preparei culturalmente, tradicionalmente, com meu povo, com a minha família. Cheguei lá como txana, como representante tradicional do meu povo. Comecei a falar da medicina, a gente levou muitas medicinas do nosso lado, então pra mim eu viajei com toda a Amazônia. 

 

(1:35:53) P/1 - Você foi pra qual país? 

 

R - A gente andou pela Inglaterra, Dinamarca, Alemanha, Finlândia, Ucrânia, França, Bélgica…

 

(1:36:05) P/1 - E você tem alguma história do que você viveu nesses lugares?

 

R - Muitas profundezas da medicina. A gente começou a conduzir cerimônias com cinquenta, sessenta pessoas. Um trabalho muito sério. Às vezes a gente pedia ajuda, mas graças a Deus pra mim foi um grande presente conhecer pessoas diferentes do mundo, que acreditam na medicina, que querem ajudar a floresta a crescer e sustentar o povo; trazer essa valorização dos povos tradicionais, mostrar que nós temos o nosso próprio conhecimento. Foi uma expansão cultural mais profunda, pra Europa acreditar que nós temos uma medicina verdadeira.               

 

(1:37:08) P/1 - Bom, já estou encaminhando pro encerramento. Você quer perguntar mais alguma coisa? 

 

P/2 - Não. 

 

(1:37:20) P/1 - Qual foi o maior desafio da sua vida? 

 

R - Estudar na universidade. 

 

(1:37:29) P/1 - Você fez universidade? 

 

R - Eu passei no Enem, só que como na cidade precisa de dinheiro, precisa de estrutura, precisa de pessoas que apoiem, eu vi que não era a hora pra ficar ali, concentrado. Eu tinha que primeiro conhecer o mundo e voltar, pra poder estudar isso. Primeiro eu tinha que ter parte dos recursos pra manter a minha educação, é minha responsabilidade também estar na cidade.   

 

(1:38:16) P/1 - E qual foi a maior alegria da sua vida? 

 

R - É conseguir instalar minha aldeia. 

 

(1:38:23) P/1 - Como foi isso, esse processo de instalar? E aproveitando, quais projetos você já fez na sua aldeia? 

 

R - Projeto cultural de agricultura, projeto de piscicultura, projeto de medicina, destilação de água aromática, que protege o ambiente, ajuda a equilibrar a inspiração e espantar maus espíritos. Esse é um projeto de fazer remédios tradicionais.

 

(1:38:54) P/1 - Como se deu isso, esse processo de destilação no fundo do Acre? 

 

R - Atualmente eu ainda estou instalando… Foi instalado, só que queimou essa instalação. Pegou fogo a casa, então perdi uma destilação que gente estava fazendo, mas foi um aprendizado muito grande, uma descoberta muito verdadeira, pra poder mostrar que a medicina ajuda a curar. 

 

(1:39:30) P/1 - Mas como é que surgiu essa ideia? 

 

R - Essa ideia veio através do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e os pajés, a pajeria de Minas Gerais e as pessoas que trabalham com água aromática foram dar capacitação na aldeia. Quando eles foram dar essa oficina, eu não consegui chegar ao lugar, só que depois deixaram o equipamento lá, aí eu tinha que ir lá depois pra aprender a destilar, pra poder instalar na minha aldeia. 

 

(1:40:14) P/1 - E aí deu certo. 

 

R - Deu certo, mas agora estou buscando de novo, pra poder estruturar com melhores recursos.

 

(1:40:29) P/1 - E como foi que você se casou? 

 

R - Eu me casei porque nós somos guerreiros. O guerreiro, na juventude, tem que aprender a caçar, pescar, trabalhar e fazer a casa. A partir daí você já está pronto pra casar. 

As pessoas perguntaram: “Você já faz isso tudo, agora você vai casar, certo?” “Por que?” “É o povo que vai decidir. Você é trabalhador, você faz aquilo tudo. Você agora é bem-vindo à vida de guerreiro.” 

Eu não gostei dessa ideia de casar cedo, então eu fui estudar. Fui pra Rio Branco, passei três, quatro anos muito concentrado, aí as pessoas chegavam… Você solteiro é muito atrativo, todo mundo quer oferecer alguma coisa, mas com a responsabilidade de estudar eu ainda andava por todo canto. Mas ajudava a minha família eu crescer, estudar. Eu pensei: “Vou ajudar as pessoas a estudar, se formar também.” O meu casamento é ajudar a pessoa a se formar. 

 

(PAUSA) 

 

R - Nós somos de uma linhagem muito sagrada. Não sou eu que decide o meu casamento, é a minha família que decide. A parte do pai, da mãe, da família do meu pai, todos liderando; eles se reúnem e decidem com quem você pode se casar. 

 

(1:42:33) P/1 - E aí?

 

R - E aí você tem que assumir. Você fala que está estudando, você tem que ajudar de alguma forma. É uma responsabilidade muito grande. 

 

(1:42:46) P/1 - Como foi o nascimento do seu filho?

 

R - Da minha filha? Eu tenho duas filhas, na verdade. A minha filha é um presente do grande espírito [da] madre terra, porque eu pedi uma força pra dar esse presente. A minha avó viveu 105 anos; essa força da ancestralidade se transformou na minha filha. 

Eu não tinha casado, nunca tinha imaginado essas coisas; no sonho se mostrou pra mim. “Eu vou transformar a sua filha”. Uma velhinha falando que ia [se] transformar em uma criança. [Eu perguntei:] “Como vai ser?” [Ela respondeu:] “Você vai ver o que vai acontecer.” 

Depois de um tempo, nasceu minha filha, aí eu chamei essa minha filha [com] o nome da minha ancestral. 

Todos conhecem minha família. Nós somos uma família de guerreiros, uma família tradicional, então pra mim é um grande presente.

 

(1:43:58) P/1 - Qual foi a cerimônia mais forte que você já fez? 

 

R - Mais forte? (risos) A mais forte é o nixi pae.

 

(1:44:12) P/1 - A cerimônia mais forte de nixi pae, qual foi? 

 

R - Foi no Alto Paraíso e na Ucrânia, na Europa. Eu vi todo mundo se mexendo no chão, todo mundo precisando de ajuda, vomitando, fazendo limpeza. 

Como condutor, responsável pela cerimônia, veio a samaúma na minha frente e se transformou. Pá! “Você está dentro, aqui. Eu vi todas as árvores, a floresta; tudo raiz, tudo conectado. Eu me concentrei fortemente. 

Eu não fiz a limpeza. Eu tinha que manter esse equilíbrio pra poder ajudar as pessoas.

No final do trabalho respirei assim. (suspira) Foi um grande desafio, uma coisa de trabalhar o próprio espírito. É muito forte. 

 

(1:45:32) P/1 - Qual é a coisa que você acha, de tudo o que você viu viajando, que o povo 

Huni Kuin tem mais a oferecer pro planeta Terra? 

 

R - A medicina, o ayahuasca, a música, a dança, os kene e também a água aromática. E o rapé e essa cura. Quem quiser curar tem que acreditar na medicina. 

 

(1:46:15) P/1 - Qual é a importância da memória pro seu povo?

 

R - A memória está viva. Tem pessoas muito [mais] sagradas do que eu ou qualquer um de nós, então essa memória é mais preservada ainda. 

Agora está caminhando um caminho de descoberta muito forte. Esse mundo vai ter surpresas, porque ninguém sabe o que está acontecendo na Amazônia e nem no mundo. 

 

(1:46:54) P/1 - Qual você acha que seria o valor de se gravar os velhos Huni Kuin? 

 

R - Porque a memória é verdadeira, tudo é verdadeiro. Se você começa a se aprofundar, você pode escrever um monte de livros, filmes, fazer coisas muito fortes. A gente vê que as coisas se perdem porque a gente não tem equipamento, não tem conexão com a universidade pra ajudar na pesquisa. Pesquisar um velho é uma universidade pra nós. 

 

(1:47:38) P/1 - O que você vê pro futuro?

 

R - O futuro é muito avançado, né? O futuro realmente é futuro. Eu ainda estou caminhando pro futuro. 

O futuro já está descoberto, na verdade, só que tem leis diferentes, conhecimentos diferentes, tem pessoas diferentes se transformando diferente. As crianças estão nascendo mais inteligentes, as pessoas [estão] estudando mais, estão avançando mais o mundo [com] conhecimentos diferentes. Agora vamos trabalhar juntos, porque estamos começando a encontrar… O primeiro contato que estamos tendo com as cidades internacionais é com nós, jovens indígenas, porque nossos ancestrais não viveram isso. Agora nós estamos tendo a oportunidade de estudar, conhecer, nos conectar, fazer um documentário… E realmente sonhar com um futuro melhor. 

 

(1:48:46) P/1 - Qual é o seu maior sonho?

 

R - Meu maior sonho é criar a universidade do meu povo. 

 

(1:48:55) P/1 - E como foi pra você contar a sua história aqui, hoje? 

 

R - A história é muito parágrafo. A gente tenta lembrar coisas diferentes, mas o que eu fui lembrando eu falei. O que eu não lembrei ficou pra trás. (risos) 

 

(1:49:14) P/1 - Uma última pergunta antes de você tocar violão pra gente encerrar. Eu queria que, da mesma forma como você começou, você fechasse os olhos. Se quando você morresse você só pudesse levar uma memória dessa vida, pra toda a eternidade, qual seria o momento, de tudo o que você viveu, que você levaria? 

 

R - Boa pergunta. Tenho que escolher o que eu quero levar. 

 

(1:49:50) P/1 - Pensa aí, um minutinho. No dia de hoje. 

 

R - (respira fundo) A energia… Eu tento descobrir realmente a percepção. O que eu percebo [é que] eu tenho uma missão muito profunda com meu povo e com a família em que eu vivo, com todas as pessoas com quem eu convivo. Eu vou realizar tudo o que a natureza me permitir; o que eu vou levar Deus vai saber. 

 

(1:50:55) P/1 - Pra gente fechar, você quer tocar uma musiquinha a mais pra gente? 

 

(pega o violão e começa a tocar e cantar) 

 

                                                           

R - Haux haux haux. 



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