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História

A tradição dos partos encantados

História de: Jovita Silva do Sacramento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/05/2008

Sinopse

Na região de Lençóis, na Chapada Diamantina, mais de 30 crianças já nasceram com a ajuda da experiente baiana Jovita do Sacramento. Ela aprendeu a profissão com o marido, Rosalvo, que orientava os partos mais complicados incorporando o “encantado”, uma entidade espiritual. Em uma localidade de poucos recursos, que naquele tempo não tinha sequer hospital, Dona Jovita confiava nas ervas para preparar chás e medicamentos. Assim, foi construindo um vasto conhecimento sobre o poder de cura da hortelã, da melissa, da cidreira... São esses saberes que, depois de ter deixado o trabalho como parteira, ela passou a transmitir aos jovens da comunidade e aos turistas, agora na função de mestre griô.

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História completa

Jovita Silva do Sacramento, nasci no dia 14 de fevereiro de 1945. Eu cresci, acabei de me criar e estudei em Lagoa das Vacas, no município de Ipirá. Quando tinha a idade de 14 anos, nós íamos para a escola e, lá da escola mesmo, já tinha um caminho que ia para a roça. Meu pai e minha mãe já tinham casinha na roça, que já tinham panela, já tinham tudo, cozinhavam comida, ficavam esperando por nós, meio-dia. E, quando era meio-dia para a tarde, nós íamos trabalhar com nossos pais. Mas, nos dias de sábado e domingo, eles davam férias para nós brincarmos.

Aí, mudamos aqui para o sertão. Eu casei com um homem que chamavam de curador. Ele entendia de passar medicamento de remédio, de curar gente, de chegar gente perturbado de cura, amarrado de corda, ele mandava para o médico. E ele foi mudando o meu ritmo, e eu fui criando filho, e os “encantados” dele participavam de negócio de conhecimento demais, e as mulheres gestantes. É que já faz muito tempo. É que eu casei com viúvo, mas, antes da falecida morrer, trabalhava com isso. E a primeira mulher dele concorria, não dava para essa profissão que eu peguei, de pegar menino, de assistir uma gestante.

O “encantado” é o que o povo chama de caboclo, espírito, esse negócio que entra na cabeça de um e de nós, por exemplo. “Vamos chamar o caboclo de tal!” Aí, o caboclo dele, do falecido meu marido, era o nome que pegava o menino, chamava Velho Nagô. Agora, quando o Velho Nagô via que era difícil e ele não podia chegar junto, ele não ia. Só ia apegado com o caboclo. Ele tinha o movimento dele, chamava, tomava susto, que nós tudo assustávamos aqui. Ele já conversava de outro jeito. Ia lá, rezava na barriga da mulher, se o menino fosse para nascer aquela hora, ele falava: “Não demora, não!” E se não fosse para nascer também: “Você precisa de um medicamento ou, então, arruma um médico, arruma um carro para ir ao médico!” Aí, agora que o caboclo está, quando a criança, que já estava muito difícil, que ele via que aquele menino dava jeito, o “encantado” entrava lá no quarto da mulher incomodada, fazia as orações, rezava, colocava o pé esquerdo em cima da barriga da gestante e, quando a gente via, a gente via ele assustar logo, assustava e virava logo para trás. Daí a pouco, eu me preparava e pegava o menino nas palmas da minha mão. Durante esses tempos, 33 anos, durante esse tempo em que eu vivi com ele, foi nessa profissão, ainda peguei uns 30 e tantos meninos.

Quando a mamãe acaba de ganhar nenê, a gente pega uma fraldinha daquela da criança mesmo e dá uma massagem na barriga. Pega bem a barriga, a barriga “zoa”, com óleo de amêndoa ou óleo de comida, bem quente. Vai esquentando a mão no fogo, coloca o óleo e esfrega bem. Agora, quando a dona do corpo chega para o lugar, amarra o pano bem apertadinho, e ela fica, durante uns três dias. Se ela quiser levantar nas 24 horas, não subir escada e nem dar mal passada, ela pode sentar na cama dela para sair para uma cadeira, qualquer canto. E, livre disso, passando os três dias em diante, pode lavar o pano do nenê, juntar essa mesa aqui e colocar a bacia, dos três dias em diante. Durante o parto dela, ela tem que usar, logo no início, quando acaba de ter nenê, que a gente acaba de amarrar a barriga da mamãe e a barriga da criança, a senhora pega um dente de alho, um pouquinho de cominho e queima o dente de alho no forno, torra bem torradinho, mistura e coloca um cabo de cinza, cinza da fogueira que se faz, coloca dentro d’água e ferra a água com aquele rescaldo bem quente e guarda. E ela, para beber, só o cominho e o alho e a água.

A hortelã é boa para dor, estômago. A melissa é boa para cabeça. O pessoal está se sentindo muito nervoso, toma o chá da melissa. A erva-cidreira, está sentindo dor de cabeça, tontice, esses negócios, e quer vomitar é a cidreira com sal. Chá caseiro é chamado. Antigamente: “Ah, fulano está sentindo o coração!” A gente fazia o chá de qualquer folha, de um calmante, e sarava. Mas hoje em dia não, só sara com médico.

Hoje em dia, tem até algumas ajudazinhas, que Deus ajudou, um hospital perto que aqui não existia, porque em Lençóis não tinha hospital, não. Nessa época que eu trabalhava com isso, não tinha hospital. Quando acontecia, vinha um médico no posto, de 30 em 30 dias. Quando acontecia, ia ali, fazia uma consulta, um exame para mulher grávida ou se estivesse com uma doença muito grave. Para os homens, se estivesse com uma doença muito grave. E, hoje em dia, todo três dias vai no hospital que tem médico, e até que o povo não está mais se importando com esse medicamento, o medicamento caseiro. Porque nós todas, naquele tempo, confiávamos na folha. Se uma sentisse a dor de cabeça, que a outra nem tinha sentido a dor de cabeça, ia dizer: “Eu vou fazer o remédio que a fulana fez porque vai passar!” Hoje em dia, não. Hoje está com dor de cabeça, amanhã, quando amanhecer o dia, vou procurar o médico. Não fala outra coisa, só consegue o médico.

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