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História

A todo vapor mas com muito amor

História de: Carolina Soares Rodrigues
Autor: Curso Matemática UEMG/Divinópolis
Publicado em: 14/08/2017

Sinopse

Memória e História da professora de Matemática Carolina Soares Rodrigues relatada aos estudantes  Felipe H.G. Carvalho e Priscila de Fátima Borges Amaral Carvalho do 1o período do Curso de Licenciatura em Matemática da UEMG/Divinópolis/MG.

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História completa

P: Vamos lá, começar com nome, data e local de nascimento.

R: É Carolina Soares Rodrigues. Eu nasci em 23/03/91, aqui em Divinópolis.

P: Aqui em Divinópolis mesmo. E desde lá em quais escolas você estudou e como que era cada uma? Fala um pouquinho de cada uma...

R: Olha, eu estudei numa escola municipal, no São José aqui. Depois eu fui começar o fundamental, eu fui pra uma escola estadual que é o Halim Souki, fiquei lá a primeira etapa. Aí a segunda parte do ensino fundamental eu fui pra outra estadual que é o São Francisco de Assis. E depois, o ensino médio, eu fui pro Cefet. Então só estudei em escolas públicas, né. E era bem parecido, eu acho, as estaduais e a municipal. O que eu achei mais diferente é o Cefet porque é o ensino técnico com o médio, que, como vocês sabem, é um perfil. Não é muito parecido com as outras escolas. Tem algumas diferenças, por causa disso.

P: Certo. E a relação dos seus pais com seus estudos, como que era?

R: Olha, os meus pais eles não estudaram muito. Meu pai, ele tem o ensino fundamental incompleto e minha mãe ensino médio incompleto. Então eles não tinham, assim, uma noção muito de pensar no futuro, de estudar depois da parte básica. Mas eles tinham uma noção de que enquanto eu estivesse na escola, naquele processo básico, tinha que ser tudo muito bem feito. Então minha mãe era extremamente exigente. Com comportamento, com notas e tudo o mais. Meu pai não era tão presente nessa fase, mais era minha mãe, que na época não trabalhava fora. Eu tenho mais dois irmãos, e a minha mãe ficava com a gente o dia todo. Então era ela quem cuidava de tudo. Ajudava no dever de casa, em trabalhos, ia em todas as reuniões da escola. Todo mundo da escola conhece a minha mãe, sabe? Então ela ajudava em tudo. Qualquer evento que tinha, minha mãe tava lá. Participava de colegiado de pais, etc. Ela era bem participativa e bem exigente também. Mas assim, não tinha tanto essa noção de pensar em fazer faculdade e tal. Isso não era uma coisa muito presente no cotidiano nosso. Até porque eles não fizeram isso. Mas era muito bom, eu achei que foi bem bacana a relação que eu tinha, principalmente com a minha mãe, pra minha formação.

P: Nós duas nos conhecemos na OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática em Escolas Públicas) e foi lá também que você conheceu o Vinícius, seu marido. Eu queria que você falasse um pouco como que foi a OBMEP pra você e os relacionamentos que nasceram de lá, por assim dizer.

R: Eu participei da primeira OBMEP quando eu tava, foi a primeira mesmo das OBMEP que a gente teve, eu tava na 8ª série que se chamava, né. Hoje é o 9º ano. E aí eu comecei a gostar dessa olimpíada, achei muito interessante, eu tava ainda no ensino fundamental. E depois no ensino médio que eu fui entender melhor como é que ela funcionava e fui fazer um esforço maior de participar e tentar ganhar medalhas essas coisas. Eu gostei bastante. A OBMEP foi uma diversão pra mim, na verdade. A gente não tem muito aquela expectativa do prêmio, né. A gente quer fazer, quer participar e tal. E aí como a gente foi fazer o projeto, depois que a gente ganha a medalha por participar do PIC, nossa, era ótimo! Estudava matemática no fim de semana, o que hoje muitos adolescentes acham absurdo, e pra nós era alegria. Não tinha coisa melhor do que ir pra aula da OBMEP, eu adorava. Era muito bom, eu até contava os dias da semana pra chegar. Porque era muito legal. O professor é muito bom, a gente estudava uns assuntos diferentes, que era muito instigante, do ponto de vista matemático mesmo, que eu gostava. Umas coisas que era diferente da escola e dava mais emoção de estudar. E tinha as amizades, que era uma turminha muito bacana. A gente encontrava e almoçava e ficava conversando um tempo no horário de almoço, ia embora junto, entendeu. Então era muito bom mesmo. E eu fiz amizade com o Vinícius, que depois que acabou a OBMEP, a gente começou a namorar. Bem no finalzinho, assim. Foi muito bom, foi uma fase que eu tenho muitas saudades. Que eu acho que despertou mais ainda a minha vontade de fazer alguma coisa na área de matemática mesmo.

P: Inclusive esta é até a próxima pergunta. De onde veio a decisão de cursar licenciatura em matemática e como essa escolha foi recebida pelas pessoas ao seu redor?

R: Olha, desde que criança eu queria ser professora, sempre foi minha ideia inicial desde quando eu era pequenininha. Aí quando eu estava no ensino médio eu comecei a pensar em fazer para dar aula de matemática. Aí o Rônei, que era meu professor, ele foi meu professor do ensino médio durante os três anos, a gente tava numa aula e resolvendo algumas questões e tal, eu fiz um probleminha, aí ele foi na minha mesa e falou assim: “Você quer fazer iniciação científica de matemática?” Aí eu falei: “O quê que é isso?” (risos). Ele me explicou: “É um projeto, você vai estudar algumas coisas de matemática mais avançada e tudo o mais. E se você quiser eu faço um projeto pra você. A gente tem bolsa, você recebe.” Me explicou como que era o PIC (Programa de Iniciação Científica) Júnior do Cefet. Aí eu falei: “Quero, vou fazer.” Aí ele fez o projeto, eu fui selecionada e comecei a fazer o PIC Júnior. Aí eu fui estudar algumas coisas de geometria plana, num estilo um pouco diferente do que a gente tem na educação básica, que é aquela parte do sistema dedutivo axiomático, que eu fui estudar. Que eu nunca tinha visto, né? Aí eu fui aprender, mais ou menos, como que era a matemática mais acadêmica. Aí eu gostei também e durante o PIC foi que eu resolvi mesmo pra área de matemática. Mas eu pensei em fazer em outros cursos assim. Pensei em psicologia, filosofia. Que era a parte de humanas que eu gostava bastante. Mas como eu queria dar aula mesmo, eu pensei que a matemática seria melhor. Pensando na parte prática de poder trabalhar em escola mesmo. Eu gostei do PIC, foi bem legal.

P: No caso, essa escolha, o pessoal ao redor te apoiou?

R: Ah é, tinha esquecido. Não, não teve uma repercussão assim não. O pessoal da minha família achou normal, acho que eles meio que esperavam uma coisa nesse estilo. Pelo meu perfil mesmo. Não foi muito bem recebido, porque eu quis mudar de cidade. Que eu fui querer morar em Belo Horizonte. Aí quando eu passei no vestibular, meus pais ficaram meio preocupados, eles não queriam que eu fosse não. E na época a UEMG era paga, né? Era privada ainda, aí tinha o PROUNI. Eu até consegui o PROUNI aqui na UEMG, mas eu não peguei a vaga, não fui fazer. Aí minha mãe não gostou porque como eu tinha a opção de ficar aqui e fazer na UEMG e eu quis mudar de cidade, ela ficou bem preocupada. Mas do curso em si não, eles até acharam interessante. As pessoas acham legal ser professor. Eles sabem que não é uma carreira fácil, nem muito valorizada. Mas eles acham bonito, eles acham que é uma escolha que a pessoa vai trazer um certo benefício pra sociedade. P: Tem um tom de nobreza, né? R: Isso, ainda tem. Pra pessoas, principalmente, mais velhas. Então eles contam com um ar de: “Nossa ela é professora.” Sabe? Tem isso ainda. Principalmente meus avós. Minha avó fala assim, meus tios. Tem uma valorização do quê que é a profissão. Mas eles sabem que do ponto de vista prático ela é muito difícil. E da parte de matemática, tem gente que fala assim: “Nossa que coragem, é muito difícil, ninguém gosta.” Tem esses comentários, sabe? Mas nada que me atrapalhasse não, era só coisa leve mesmo. (risos)

P: E tem algo marcante que te influenciou nessa decisão? Igual você citou o PIC, lá do Cefet. Tem alguma coisa que você queira citar que você lembra? Porque no PIC foi a matemática, só que você já queria dar aula de todo jeito. Então algum professor, alguma coisa?

R: Não, não tive um professor especificamente não. Mais eu tive vários professores muito bons, que eu acho que foram inspiradores. Mais em como eles se relacionam com os alunos, com a forma de trabalhar com os adolescentes e tal. Foi mais a parte do contato humano ali, sabe? Eu queria trabalhar com pessoas, entendeu? Então o que mais me chamou a atenção foi isso mesmo. Era relacionamento com as pessoas e a ideia de trabalhar na formação de pessoas, isso eu acho que é muito legal. Uma coisa importante pra mim, pra me sentir realizada profissionalmente. Pensar que eu posso atuar, mesmo que de uma maneira pequena, na formação de outras pessoas e contribuir pra isso.

P: Como foi e está sendo sua trajetória acadêmica? O quê que você considera importante? Pontos altos e baixos.

R: Olha, minha trajetória acadêmica, pensando na graduação, foi relativamente tranquila. Porque, a gente sabe que é um curso que tem muitas reprovações e eu não tive nenhuma, eu fiz todas as matérias. Tem uma flexibilidade o currículo, porque onde eu fiz, na UFMG, a gente pode mudar algumas matérias de período você pode pegar matérias de períodos seguintes, pode trazer para frente, ou pode adiar alguma coisa. Aí lá eu fiz o PIC, que era da OBMEP ainda, né. E depois eu saí do PIC, porque eu fui pesquisar. Eu sempre quis a licenciatura, então quando eu fui fazer o PIC, eu sabia que eu tinha uma bolsa de mestrado para fazer depois, tudo por causa do prêmio da OBMEP. Mas aí eu fui conversar com a coordenadora e eu queria fazer o mestrado em educação matemática. Porque quando eu entrei na licenciatura eu já conhecia várias coisas, vários professores e tudo mais que eu gostava mesmo da área de educação. Então eu não queria entrar na matemática pura, e eu não ia fazer bacharelado. Aí ela falou que não seria possível, não tinha orientador, não era o objetivo do PIC, não era o perfil. Aí eu não quis fazer o PIC mais. Eu fiz um semestre fora do PIC, aí eu larguei e tentei outra bolsa, que foi de monitoria no colégio técnico que tem lá, no COLTEC. Aí eu fiquei como monitora no COLTEC e depois eu fui tentar monitoria na outra escola. Que é o centro pedagógico, que é lá dentro também. Como monitora no centro pedagógico que eu fui dar aula na EJA (Educação de Jovens e Adultos), aí essa monitoria é um projeto de inserção à docência. Que oferta a EJA a noite e são os licenciandos que dão aula para essas turmas, então a gente é o professor da turma mesmo, não é bem monitor não. A gente é responsável pela turma. E tinha algumas orientações, reuniões semanais para explicar. Que é um projeto sensacional, achei que foi uma fase decisiva pra eu conseguir ter alguma experiência docente, que fosse orientada. Porque quando a gente forma e já vai atuar, você vai sozinho, você fica meio perdido. Então era um meio termo, não era estágio que você fica observando e tem um professor responsável pela turma. Mas também você não dá aula sozinho, você tem reuniões de orientação frequentes. E todo um processo de estudo mesmo, da questão de educação matemática e da EJA e tal. Então esses projetos que eu participei, ao longo da graduação toda, todos relacionados a licenciatura, foi muito bom. E em relação ao curso mesmo, as disciplinas, ele tem uma certa deficiência na parte pedagógica. A UFMG é muito voltada pro bacharelado e o que eles consideram crucial na formação é a parte matemática mesmo. Então a gente acaba tendo pouca disciplina de psicologia, sociologia, pedagogia e tudo o mais. Então eu achei que foi bom eu ter feito esses projetos, pra me dar um reforço nessa área. Então foi muito bom, eu não tenho quase nada a reclamar do curso. A qualidade foi bem melhor do que eu esperava, pra falar a verdade. Eu fiquei encantada com a universidade, com os professores. Tive poucos professores que foram meio problemáticos, foi bem raro isso. E com os colegas também, teve uma amizade e uma união mesmo pra gente estudar juntos, conseguir fazer trabalho, conseguir estudar pras provas. Foi bem legal. Foi uma experiência ótima. O que me atrapalhou, na verdade, na universidade era a questão econômica mesmo. Porque eu tinha, praticamente, nenhum recurso. Então foi bem difícil, foi a parte socioeconômica mesmo. Mas a assistência estudantil me ajudou bastante, também foi fundamental para eu conseguir formar. Porque sem a assistência da universidade provavelmente eu não teria continuado. Eu teria voltado pra cá. Porque eu não tinha condição de morar em Belo Horizonte e arcar com os custos, porque minha família não podia enviar dinheiro frequentemente. Enfim, tava uma situação muito difícil na época. Mas aí eu tive assistência estudantil da Fump, que é uma fundação e aí eu consegui a moradia, então morei no alojamento da universidade, eu entrei no segundo período. Aí eu fiquei tranquila, porque era muito baratinho o custo e eu tinha essas bolsas dos projetos. Então eu consegui me organizar direito, quando eu entrei para moradia. Aí foi bem tranquilo mesmo. Então eu acho que não foi uma trajetória muito conturbada, não. Foi bem tranquila. P: E o mestrado? R: Pois é, eu formei no meio do ano, porque eu fiz o curso em três anos e meio, eu formei no meio do ano de 2012. Entrei em 2009 e formei no meio de 2012 e já comecei a estudar pro mestrado.

P: Foi muito rápido, né? Pra matemática na UFMG.

R: Pois é, é porque é flexível esse negócio. Aí eu peguei as matérias diferentes, fiz uma matéria do mestrado no último período. Eu solicitei na FaE, Faculdade de Educação, para cursar uma disciplina do mestrado da UFMG. Foi muito bom, também. Pra eu sentir também o clima do mestrado, que era o que eu queria fazer. Aí quando eu tava no último período já comecei a preparar para ingressar no mestrado, porque eu tentar UFMG e o UFOP. São dois processos diferentes e o processo tem prova escrita, a gente tem que estudar alguns livros, artigos e coisas de matemática também, no caso da UFOP. E tem entrevista, defesa do projeto e análise do currículo. É um processo extenso, né? Então eu fui me preparar, conhecer. Esse projeto a gente tem que elaborar ele antes da inscrição. Aí eu fui elaborar os projetos, pesquisar um assunto que eu fosse querer fazer e tudo mais. E aí quando eu terminei, no meio do ano, eu já tava fazendo esses projetos para inscrição no mestrado. Aí eu fiz inscrição na UFMG e na UFOP, fiz os dois processos, com o mesmo projeto nos dois casos. Fiz as provas e foi bem trabalhoso esse processo, mas foi legal. Eu fui aprovada nos dois. Só que, meu assunto que eu ia pesquisar, pra fazer na UFMG, a pessoa que mais ia se encaixar com o estilo do assunto pra me orientar, não tinha vaga no ano, ela não ia orientar ninguém. Aí eu fui pra UFOP. Porque lá tinha uma professora que já orientou o trabalho nesse mesmo tema. Aí eu fui pra lá, mais por causa disso. Por causa do tema mesmo. Mas foi bom também, porque a UFOP ela é mestrado profissional, e na época eu já estava trabalhando aqui em Divinópolis, então eu tinha que ir e voltar toda semana. Se eu fosse fazer na UFMG provavelmente isso não ia acontecer, porque lá é o acadêmico e os horários das aulas é bem desregulado, então ia ficar muito difícil para eu conciliar com o trabalho aqui. Teve essa vantagem também. Na UFOP eu tinha aula só quinta e sexta, trabalhava aqui em Divinópolis segunda, terça e quarta. E sábado. Eu ia na quinta e voltava na sexta a noite. Aí foi conturbado, a parte do mestrado foi caótica, minha vida. Eu quase enlouqueci, porque eu tinha muita aula, passei no concurso do Estado, assumi o cargo e comecei o mestrado. Então ficou aquela confusão e eu dava aula em cursinho. Aí quando eu formei, eu comecei a dar aula em cursinho em Divinópolis, em Itaúna e em Pará de Minas. E eu ficava indo pra esses lugares. Pois é, gente eu era louca. Aí quando eu entrei no concurso eu saí de Itaúna e de Pará de Minas. Não, não me lembro. Acho que eu continuei dando aula em Itaúna e Divinópolis e ia pra Ouro Preto. Aí eu saí de Itaúna e fiquei só em Divinópolis e Ouro Preto. Mas foi super conturbado, uma confusão danada, por causa do trabalho mesmo. Mas o mestrado em si, também, eu fiquei satisfeita com o curso, com a minha orientadora que me ajudou muito, fez o projeto que eu gostaria, que foi sobre crenças em alta eficácia em matemática, e foi muito bom. Mas devido ao trabalho foi bem difícil. Então no final eu já estava extremamente cansada e eu demorei um pouquinho mais de dois anos. Porque lá o prazo do mestrado é dois anos e meio. Aí eu demorei os dois anos e alguns meses, eu terminei ele em, comecei em 2013, em fevereiro, terminei em maio de 2015. Deu dois meses a mais. Mas foi bom também, me ajudou muito o mestrado. Foi até meio revolucionário, pensando no meu trabalho na sala de aula. Porque as coisas que eu estudei, da minha pesquisa, foram muito relacionadas a questões mais afetivas do aluno, mais coisas emocionais que estão envolvidas na aprendizagem de matemática. Então isso mudou muito o meu jeito de dar aula e de observar o aluno, foi uma formação bem bacana. Que eu acho que me ajudou demais.

P: Você considera que este mestrado foi um divisor de águas?

R: Foi. Foi para minha prática, né. Porque eu fiz um estudo mais aprofundado mesmo na parte teórica. Chama teoria social cognitiva. Ela foi elaborada por um psicólogo canadense, chama Albert Bandura. Então eu estudei bastante essa teoria e quando eu fui fazer eu fiz na EJA também, que como eu dei aula na EJA durante a graduação, eu gostei muito também e fiquei bem interessada de trabalhar com a EJA. Aí eu fiz o mestrado com os alunos da EJA aqui em Divinópolis, numa escola estadual daqui. Aí nesse processo eu fui aprendendo várias coisas e com o trabalho de campo, que eu ficava lá com os alunos, entrevistei alunos, aplicando questionário e tal, eu aprendi muita coisa. Foi uma época difícil, mas ao mesmo tempo de muito aprendizado. Apesar de todo o cansaço que eu fiquei, foi muito bom. Foi realmente um divisor de águas para minha prática. Depois disso eu comecei a observar muitas coisas que eu não observava antes e que eu nunca tinha aprendido. O olhar para o aluno de uma maneira mais ampla enquanto ser humano mesmo e não como só uma cabeça pensante. Mas uma pessoa que sente, uma pessoa que tem uma história, uma pessoa que tem emoções, que tem medo, que tem ansiedade. Todas essas questões que eu fui abrindo o olhar e foi muito legal, eu gostei demais do mestrado. E aí no final do mestrado eu estava trabalhando no Cefet. Foi uma experiência diferente porque eu dei aula na graduação, na engenharia. E antes eu trabalhava mais no ensino básico. Mas eu não me encontrei na graduação, não gostei do estilo de aula, e agora estou no ensino básico de novo, voltei a trabalhar só com o preparatório e ensino médio.

P: Dos locais que você já lecionou até hoje, como foi a experiência em cada um desses lugares e a diferença de trabalhar em um lugar e outro?

R: Muito diferente. São lugares muito diferentes mesmo. E é bom a gente experimentar lugares diferentes no começo da carreira para a gente se localizar e ver o que a gente acha interessante. Quando eu tava cursando a graduação eu tinha em mente que eu ia gostar mais de dar aula na faculdade. Essa era minha ideia inicial. Tanto que eu já ingressei no mestrado direto, porque eu tinha o alvo mesmo na graduação. Fiz alguns concursos, né? Mas depois quando eu fui dar aula nesse cargo como substituto, professor temporário do Cefet, que eu dei aula na engenharia mecatrônica, eu vi que não era bem o meu estilo não. E assim que eu formei, que eu vim para Divinópolis, eu fui procurar emprego. Então eu sai entregando currículo, pesquisando, conversando com várias pessoas. E aí eu consegui um cargo no pré vestibular e hoje é o que eu mais gosto. Eu nunca pensava que eu ia querer dar aula em cursinho, porque parece que... na minha concepção de estudante, eu nunca tinha feito cursinho, então quando eu pensava em cursinho eu tinha um esteriótipo do professor na minha cabeça que era um professor que fica fazendo gracinha, que não dá aula de verdade. Olha que feio, né? Então eu nunca tinha feito cursinho, então eu tinha um esteriótipo, uma imaginação. E eu imaginava que era aquele professor assim, aquele cara “ah não sei o quê, vou ensinar os macetes aí e tal” e que não ia estudar mesmo, sério. Aí quando eu fui dar aula, foi o primeiro lugar que eu consegui trabalho, eu falei: “É, vai ter que ser aqui mesmo.” Eu não tinha muita esperança que eu ia gostar não, mas era o que tinha pra mim e eu estava precisando trabalhar. Aí eu adorei! Eu amo dar aula em cursinho. Eu nunca mais saí. Eu trabalho nesse lugar tem 5 anos e aí quando eu entrei eu fiquei uma semana e eles já me ofereceram vaga em outros cursinhos. Então eu dei aula na mesma rede no cursinho de Divinópolis, de Itaúna, de Pará de Minas, de Cláudio e depois na escola de Oliveira. Tudo da mesma rede, que é a do Anglo. Então foi bem legal e eu me encontrei no preparatório mesmo. De vestibular e de Enem. E eu não pretendo largar. Agora escola, eu dei aula na escola estadual, quando eu fui pro concurso, eu fiquei um ano. Mas devido eu estar fazendo um mestrado ao mesmo tempo e o salário ser extremamente precário, assim... quando a gente houve falar a gente acha que não é. Mas é absurdo o salário do professor do estado. Na época era pior ainda, muito pior do que é hoje. Em 2013 estava o governo.. um outro governo, né? Que nós sabemos que foi um governo que sucateou muito a educação no estado, então foi uma fase bem triste. Agora deu algum sinal de melhora, o salário do professor do estado está bem maior. Bem maior não, relativamente maior. Não é, não chega a ficar comparado com outros lugares, outras instâncias. Mas é maior. Então na época eu fiquei muita insatisfeita com a questão do salário mesmo. Eu peguei um cargo porque eu tinha a noção de que o concurso era estabilidade. Porque eu dava aula na rede privada e eu não sentia estabilidade nenhuma. Então eu queria uma coisa estável. Aí eu peguei o cargo mas eu vi que não ia dar certo e eu tinha que sair de algum lugar para conseguir fazer o mestrado e eu sai da escola pública. Eu tinha o cargo no ensino fundamental. Foi uma experiência muito interessante também, eu aprendi muitas coisas dando aula na escola estadual. A gente acha que é ruim de trabalhar por causa do perfil dos alunos, é o que eu ouvia dizer. Mas eu não senti isso. Eu não vejo diferença no perfil de aluno, para aprender matemática, para a gente dar aula, na escola pública e privada. No comportamento e tudo mais. Porque a gente tem a impressão que a escola pública é caótica em relação como os alunos comportam. Mas não é bem assim. O caótico da escola pública é a organização que o governo faz dela. Isso é caótico e é muito, muito frustrante para o professor. Você querer fazer um bom trabalho, você ser mal remunerado e a organização... a maneira com a escola é feita, a escola estadual hoje, ela tem muitos problemas e não há interesse em resolvê-los. Do ponto de vista das secretarias mesmo, dos gestores entendeu? Então a gestão da escola estadual é ruim, tem defeitos graves e eles vão ficar aí por muito tempo, entendeu? Infelizmente é isso que acontece e eu me decepcionei muito nesse sentido. Mas em relação aos alunos não, eu tinha uma relação muito legal com meus alunos. Só que assim, turmas enormes. Eu tinha 37 alunos de 12 anos no sexto ano. É muito complicado, você tem um trabalho muito cansativo. Mas assim, tem n coisas de diferença dos lugares que eu trabalhei eu acho que eu não ia conseguir citar. Mas eu acho que a gente tem que pensar realmente na escola pública, que é a maior parte do nosso ensino básico. Ele é público e eu tinha vontade também de trabalhar na escola pública que é o lugar de onde eu venho. Mas, você fica sufocado. E quando você tem oferta de outros lugares com condições melhores de trabalho é muito difícil você recusar para manter ali a escola pública. É muito difícil. Então não deu pra mim. P: Tem alguma experiência marcante dentro das salas de aula desde que você leciona que você gostaria de compartilhar? R: Experiência assim, da sala de aula? Deixa eu pensar… tem algumas experiências que são boas e tem algumas que são ruins, é claro que tem. As experiências ruins que eu tive foi mais questão de alunos desmotivados. Eu acho que isso faz muita diferença na vida do professor, quando você chega para dar aula e você sente o clima da sala. Tem turma que é desmotivada, tem alunos que não têm ali uma vontade de participar, de aprender, de tudo o mais. Então essas experiências são mais nesses sentidos, as experiências ruins, eu acho. E onde eu percebi essa questão da desmotivação maior foi na engenharia. Foi na engenharia meus alunos mais desmotivados, vamos dizer assim. E é o que eu também não esperava, porque a gente acha que dar aula de matemática na engenharia todo mundo vai querer aprender tudo, né? Mas não é assim. E o clima da aula é diferente, os alunos são adultos, mas eles são mais parados. Eles não perguntam tanto. É claro que assim, é uma aula mais tranquila, você não precisa ficar chamando atenção por causa de conversa, comportamento, enfim. Mas também não há aquela animação sabe? Agora o oposto, os alunos que estão ali com mais vontade, com mais sede, é a EJA. A Educação de Jovens e Adultos é fascinante. Pode conversar com qualquer professor que trabalhou na EJA, todos que eu conheço, é muito bom. Porque os alunos querem mesmo, tem o interesse, demonstram o interesse, fazem muita questão de aprender. Então você está trabalhando em um dia e aí já começam a perguntar né, no caso eu dei aula na EJA foi no ensino fundamental. Então você está em uma aula aqui, você está ensinando uma coisa, aí um levanta a mão: “Mas quando é que você vai dar raiz quadrada?”. Eles estão querendo que as coisas cheguem logo, sabe? Aí toda aula eles querem. “Mais aula que vem vai ter o que? Hoje vai ter mais matéria? Mas você não vai faltar não né?” Eles sentem falta, eles sofrem que você falta entendeu? “Mas você faltou aquele dia, você não vai faltar mais não, né?” Então assim, lá eles querem muito aprender. Porque eles tem uma outra trajetória de vida, que eles realmente sentiram falta desse conhecimento ao longo da vida deles e quiseram voltar para a escola em busca de um objetivo que eles têm. Então é um público muito diferenciado. Mas também essa questão da motivação, no caso do cursinho, eu também senti muito isso. Porque os alunos têm o objetivo muito definido também, que é aprovação em vestibular e Enem, então eles estão querendo muito aprender a matéria, porque eles também sentiram a necessidade. Em geral é aquela experiência de tentar, não ser aprovado. Aí eles descobrem que a matemática vai fazer muita falta e muitos também querem trabalhar, querem fazer curso de exatas. Então eles tem um interesse em aprender isso, para usar depois, eles têm a ideia de que vai ser importante. E alguns até mesmo, é engraçado isso, eu não achava que ia ver esse perfil de aluno. Tem aluno, do cursinho por exemplo, que quer estudar uma matéria por curiosidade apenas. Igual acontece na EJA também. A gente acha que a matemática vai ser interessante se ela for aplicada no cotidiano, se ela for útil, sei lá. A gente fica tentando, né? Porque um aluno se motiva a aprender matemática? Às vezes parece que não tem motivo nenhum. Ele quer aprender só por aprender, simplesmente. Então eu tenho aluno que fala assim, no cursinho. Ele não quer fazer um curso na área de exatas, ele quer aprender uma matéria por exemplo que quase não cai no Enem. Por exemplo, logaritmo. Quando cai, cai uma ou duas questões. Não é uma matéria que é uma coisa crucial para ele passar no vestibular. Mas tem aluno que quer por quê quer aprender logaritmo. Porque quer saber o quê que é, ué. Ele tem vontade. Ele não quer fazer nada com isso na vida dele, ele só quer saber. Ele quer falar: “Eu sei logaritmo agora, porque eu aprendi esse negócio”. É assim, questão de honra. É engraçado, isso é muito bom gente. É muito bom você ter, o menino quer estudar o assunto porque ele quer. Pronto. Que nem a gente mesmo. A gente faz matemática porque a gente tem vontade. Pronto. É muito legal, então a gente tem isso também. Eu vi nesses dois púbicos essa ideia. Então tem aluno, ou da EJA ou do cursinho, que fala: “Nossa, eu nunca aprendi esse assunto na minha vida! Hoje, hoje ele não me escapa! É hoje que eu saio daqui sabendo o que é círculo trigonométrico.” É esse estilo, é muito legal, isso é muito bom. E no ensino regular você não vê tanto isso porque, lá no ensino médio e fundamental, ele tem a noção de obrigatoriedade. Então quando ele é obrigado a ir na escola e os pais que cobram a nota, e a escola, a gente é que avalia o aluno, elabora a prova e tudo o mais, então ele tem outra relação com aquele espaço. O aluno que busca a EJA ou o cursinho porque ele tem vontade, ele quer, ele precisa, é diferente da ideia de obrigatoriedade. Então essa diferença é básica na questão da motivação e da relação com o professor. Então um tem, quando o aluno está na escola ele vê o professor como o lado inimigo. Que é o quê vai reprovar, é o quê da prova difícil e tal. Agora quando você está no cursinho ou na EJA, ele vê o professor como o lado amigo. Que é o cara que está ajudando ele aprender o que ele quer aprender. Simplesmente. Ele não vê como nada obrigatório. Então essa diferença para mim foi algo fundamental, porque esse tipo de relação faz diferença na vida do professor. No cotidiano dele, na disposição de chegar e dar aula. No emocional da gente quando a gente sai da sala. Tem hora que você sai da sala, você fala: “Jesus. Graças a Deus essa aula acabou”. E tem hora que você sai, que você sai assim, rindo, você nem dorme. Tinha vez, eu dava aula de noite né, na EJA, eu chegava eu não conseguia dormir. Porque eu estava tão animada, tão feliz, que eu não conseguia dormir. Aí eu ia fazer o relatório da aula. Tipo, era meia-noite, eu fazendo relatório. Feliz, feliz. Só porque aquela aula foi muito legal. Então depende, no meu caso o que faz muita diferença nessa questão do trabalho é a relação com os alunos mesmo. Agora o assunto que eu ensino não faz muita diferença pra mim, se eu estou ensinando equações diferenciais ou soma de fração, tanto faz. Agora, depende é do aluno, de como é que ele está aprendendo e como é que ele se relaciona com isso.

P: Você deu aula em vários lugares diferentes, sobre o método de ensino: quando é a mesma matéria, em salas diferentes, você acredita que manter o mesmo método é o mais eficaz? E quais métodos você mais utiliza ou gostaria de utilizar?

R: Quando você fala mesmo método, você quer dizer mesmo jeito de dar aula em lugares diferentes, contextos diferentes? P: Sim. R: Na minha concepção: lugares diferentes, métodos diferentes. (risos) Públicos diferentes, métodos diferentes. Então eu acho que eu nunca dei uma aula igual a outra na minha vida até hoje. (risos) Apesar do pouco tempo que eu trabalho, são cinco anos, foram muitas experiências diferentes porque eu mudei de lugar várias vezes e acabei experimentando vários lugares. Acho que eu nunca dei uma aula igual a outra mesmo, é quase impossível, na minha ideia. Os perfis das turmas são muito diferentes e eu acho que a gente tem que levar várias coisas em consideração. Porque a gente tem a nossa formação, as coisas que a gente deseja fazer. Enquanto metodologia a gente estuda muita coisa. Então a gente tem ali a formação inicial, principalmente, e a questão do mestrado, com várias coisas da parte pedagógica e metodológica. A gente tem essas coisas todas em mente. Mas aí você tem que pensar no contexto concreto. Você chega no lugar, ou na escola, ou no cursinho, ou uma faculdade, ela tem uma forma de funcionamento, ela tem um estilo de trabalho e um objetivo. Então você tem que pensar no quê que a instituição vai querer de você. Não tem como você chegar e fazer tudo do jeito que você quiser. Então, às vezes, você até tem vontade de fazer algumas coisas, mas aquele local não te permite, ou não te recomenda, ou até reclama mesmo. Tem algumas coisas que a gente não pode fazer, porque a gente tem que seguir as regras do lugar. Então ok, tem as minhas concepções de formação, minha experiência docente, tem o perfil do lugar e também tem o perfil do aluno. Que não quer dizer que vem depois, numa ordem, está tudo misturado ali. Tem o perfil dos alunos, da turma, os objetivos deles, os conhecimentos que eles já possuem ou não, a gente tem que levar isso em conta. Porque a carga matemática, a gente tem matérias que dependem umas das outras. Então, às vezes, eu estou querendo ensinar coordenadas polares, por exemplo, em Cálculo II, mas os alunos não tinham ideia de ângulo no círculo, então como é que eu ia fazer? Tinha uma necessidade de ver algumas coisas antes e tudo mais. Então tem essas questões. Então fica tudo isso envolvido, a gente acaba tendo que ter metodologias diferenciadas pra cada lugar, pra cada contexto por causa disso. E nesse ponto, quando eu dei aula nas instituições públicas, na escola estadual e no Cefet, a gente tem uma liberdade maior. Eu senti isso, professor mais livre pra fazer as escolhas. Nos lugares privados, escolas privadas que eu trabalho hoje e nos cursinhos a gente é mais preso, mais engessado. A escola privada tem uma preocupação maior com a qualidade e aí, pelo menos nas que eu trabalhei e trabalho, eu vejo que eles vão amarrando, amarrando, amarrando todo o processo de ensino, controlado. Quanto mais eles controlam, mais seguros eles ficam da qualidade. Então eu trabalho em escolas que é muito controlado. Deixa eu te dar um exemplo: a distribuição de pontos do bimestre já vem pronta. É nesse estilo. Então todos os professores vão dar uma prova valendo tanto, outra prova valendo tanto. As datas são pré definidas. A gente chega na escola em janeiro, o calendário tá pronto até dezembro. A gente chega pra conversar em dezembro, o horário tá pronto do ano seguinte. Então é tudo muito organizado e engessado. Te dá um conforto por um lado, porque você não tem nem que pensar a data da sua prova, a data já tá lá. Você não tem que pensar seu cronograma, ele já vem pronto na sua apostila. Sua apostila vem assim: aula 1, aula 2, aula 3, dever de casa. Tudo muito prontinho, mas você não tem muito espaço de manobra. Então, às vezes, você quer fazer uma coisa diferente, por exemplo, eu gosto de dar trabalho. Quando eu dei aula nas escolas públicas, eu dava trabalho de pesquisa pros alunos. Meus alunos tinham que pesquisar, tinham que fazer texto e tudo mais. Nas escolas privadas não tem como eu fazer isso, então não tem essa liberdade, porque não tem ponto. Eu posso dar esse trabalho, só não vai ser avaliado de pontos, do bimestre, do ano. Então é bem mais complicado. Então varia muito o jeito de dar aula. Muito, muito diferente. O jeito que eu dava aula na escola pública e na privada. P: Você já chegou a ser procurada por alunos para algum desabafo ou pedido de ajuda em assunto pessoal? Ou acabou percebendo, enquanto professora, e teve uma participação? Como que foi isso pra você, como que você reagiu a esse tipo de acontecimento? R: Isso é muito frequente. Muito mesmo, mais do que eu gostaria.(risos) Porque, o quê que acontece, mais com os alunos do cursinho. Como a gente trabalha com preparatório, a gente tem, por exemplo, grupo do WhatsApp, grupo do Facebook, os alunos te conhecem, te procura fora, nas redes sociais pra ter contato. E eles tem um canal de comunicação fácil. Eles te manda mensagem no Facebook, ou no WhatsApp, isso acontece muito. Então é muito comum, principalmente os alunos do cursinho em relação a escolha profissional, que vestibulares eles vão fazer, como que eles vão organizar os estudos. Por exemplo, eles me mostram como que eles montaram a agenda semanal deles, com carga horária de cada matéria, pergunta pra trocar uma ideia. Pedem orientações em geral de organização dos estudos. Às vezes não são coisas muito pessoais não, mas é uma conversa extra classe, que a pessoa te procura mais pra pedir um conselho. Isso é muito frequente. Mas na medida do possível a gente vai ajeitando, quando não posso ajudar eu falo: “Ah, isso aí infelizmente não é um assunto que eu posso te falar.” Às vezes os meninos fazem uma pergunta muito difícil (risos) “Você sabe o quê que cai no vestibular lá da federal do Espírito Santo?” Não faço ideia. (risos). “Você acha que convém eu morar na Bahia ou no Rio Grande do Sul?” Não sei. (risos). Não conheço, nunca ouvi falar desse lugar! “Você acha que eu faço salinha de Física ou de Química?” Você tem que ver a confusão que vira na época do SISU. Porque na época do SISU, gente, é caótico. O menino chega, ele tem a nota do Enem dele, ele pode clicar em qualquer lugar do Brasil para estudar. Isso te dá uma liberdade, uma noção de: “Meu Deus, tá tudo aqui na minha mão.” É na tela do seu computador. Isso é uma coisa que a gente não tinha na época que a gente fez o vestibular, uma coisa muito diferente do que eu estava acostumada. E te dá uma liberdade muito grande e as dúvidas vêm surgindo. Porque eles começam a questionar sobre o curso que eles querem fazer. Aí eles tiveram o ano inteiro, esse tempo todo eu pensei em fazer tal curso, é o que eu quero da minha vida. Quando chega o SISU que eles vêm aquele tanto de coisa, tudo mudou na cabeça. Ele não sabe que curso que ele quer, ele não sabe aonde vai morar, ele não sabe o que ele quer fazer, ele não sabe se a nota dele vai dar, aí vira uma confusão. Nesses momentos eu vejo que eles me perguntam muito. Aí meu telefone fica o dia inteiro chegando chamada, mensagem e áudio. Então os alunos perguntam bastante, mas nada muito pessoal não. Essas questões mais subjetivas, até que não é tão frequente.

P: Sobre movimentos sociais, o atual momento político do Brasil. O que você pensa desses movimentos sociais, inclusive sobre a escola sem partido que foi uma pauta muito falada o ano passado?

R: É. Problemas graves. Muito graves. Eu não me lembro, na minha vida inteira, de ter visto uma situação tão complicada. Talvez tenha tido, mas era criança, não sei. E também eu fui prestar mais atenção nessas questões quando eu entrei na faculdade, eu tava no ensino médio, já era maior. E era tudo muito diferente, a gente tinha outro estilo de governo, as coisas aconteciam de uma maneira diferente. Foi meio assustador pra mim, o impeachment. Eu não esperava que isso fosse acontecer de verdade, aí as coisas foram desandando depois e eu fiquei meio assustada. Com medo. A verdade é essa. Eu estou com medo do que pode acontecer em relação a parte da educação. Esse projeto da escola sem partido, eu também fiquei bem chocada com o conteúdo dele quando eu li. É o cúmulo do absurdo. Você fica assim: “Não tô acreditando no que eu tô lendo”. A gente acha que ninguém vai fazer isso mais, você já adquiriu tantas coisas, são direitos sociais conquistados com luta. Um processo longo de trabalho de várias instituições articuladas, enfim. E de repente as coisas começam… retrocesso. É assustador. E a gente tenta, na medida do possível, participar das articulações que a gente consegue contra isso. Os movimentos que tem na nossa cidade, com grupo de professores, nas universidades mesmo, nesses eventos que a gente vai, a gente sempre tem essas discussões, em congressos e tudo o mais. Então está sendo bem crítico essa fase e eu tô preocupada porque como as coisas foram acontecendo nos últimos meses, a gente fica com uma noção de total imprevisibilidade. Porque aconteceram várias coisas que eu não fazia ideia que iam acontecer, entendeu? E eu realmente achava que não seria possível. A gente realmente está tendo uns movimentos de direita, muito forte. E isso me preocupa, porque do ponto de vista da gente que trabalha em educação, a gente quer mudanças sociais, sempre procura essa questão de melhorias sociais, pensando na parte das populações que precisam mais mesmo. Então essa escola sem partido chega a ser ofensivo pro professor, sabe? Você lê aquilo você fala: “Meu Deus, o quê que eles pensam que é o meu trabalho?” É ofensivo, é ofensivo. Porque é uma censura ao trabalho do professor. E numa questão, por exemplo, a questão do gênero, que a gente não poderá discutir, a ideia é: “Não poderia discutir na escola questões de gênero.” Como se fosse uma coisa totalmente irrelevante na vida do aluno, é absurdo! Porque, eu trabalho com adolescentes, e isso é uma coisa fundamental na vida deles. Falar de gênero, falar de sexualidade, falar de machismo, de feminismo, isso faz parte do cotidiano deles, é uma coisa muito presente e eles querem falar sobre isso. Então mesmo na aula de matemática, que a gente acha que isso não vem tanto a tona, mas vem. Porque mesmo que você não esteja falando, você está lá no meio da aula: “Então gente, a lei dos cossenos…” Um menino levanta a mão: “Então professora, eu vi um artigo feminista no seu Facebook, queria que você comentasse…” Sério, isso acontece na minha aula. Não tem jeito de você fugir. “Mas o quê que você acha desse negócio que eles falaram que na escola não pode discutir gênero?” Eles perguntam, não tem como você escapar. Você vê que é uma coisa importante. Recentemente teve a série dos 13 Porquês (13 reasons why) aí no meio da minha aula, do nada, a aluna me chama na mesa dela: “Professora, queria te recomendar uma série, para você assistir.” Falei: “Já tenho muita série, não vou conseguir começar outra.”(risos) “Mas essa você precisa, você precisa assistir.” “Ok, fulana”. Aí ela me falou os 13 Porquês, fiz maratona de série, assisti e tal. E teve uma discussão ótima na aula, que é sobre o suicídio, né? Depressão, enfim. Foi muito bom, foi muito bom. Então acaba que não tem como você fugir disso não, é a necessidade dos alunos, a gente não pode deixar isso passar. E eu acho grave mesmo, esse tipo de projeto que tenta limitar a ação do professor em questões que são importantes na formação dos alunos e são necessárias. É direito deles. Buscar um conhecimento, informação que eles necessitam, mesmo. P: No caso dessa nova reforma do ensino médio, que saiu aí. Como você encara, pontos positivos e negativos? R: A gente tem esse problema, que foi uma reforma aprovada às pressas, por meio de medida provisória. Isso já é um problema, o modo como ela foi feita. É claro que às vezes a gente olha e pensa: “Nossa, a flexibilização do ensino médio é uma coisa interessante, o menino pode escolher que caminho que ele pode seguir.” Parece interessante mesmo, a princípio é legal você pensar no aluno ter um direcionamento, já pela área que ele quer seguir. Isso já foi feito antes, já houve esse tipo de tentativa no ensino básico. Isso na verdade é uma questão… O perfil do ensino médio no Brasil, historicamente, já teve vários problemas. Problemas assim, problemas de identidade. A gente não entende muito bem pra quê que ele existe, o quê que ele quer…(risos) É meio indefinido. O nosso ensino médio está igualzinho aos nossos alunos adolescentes. Ele não sabe muito bem a quê veio. Quer dizer, ele surgiu como preparatório para o superior, então o ensino médio nosso ele é propedêutico, sempre teve essa característica. Mas a gente tá querendo que ele seja também preparatório para o mercado de trabalho e ele seja uma fase de conclusão. Então a gente não sabe, até hoje, se o ensino médio é uma fase de conclusão ou uma fase intermediária. É aí que está o problema. Pra algumas pessoas ele é conclusão, pra outras pessoas ele é intermediário, então como que a gente vai fazer? A gente tem um tipo só que vai atender todo mundo? É realmente complexo essa discussão, já pensei nisso várias vezes, estudei algumas coisas, conversei com muitas pessoas. É uma pauta que sempre surge pra nós que somos professores do ensino médio e os alunos também questionam isso: “Por quê que a gente tem tanta matéria?” “Por quê que o currículo é assim e não é ‘assado’?” Hoje em dia o que eu vejo no ensino médio é que o forte dele, o principal eixo dele, é realmente preparação pro superior. E aí, a gente acaba ficando preso ali nesse objetivo. E o aluno que não tem esse objetivo, que é a maioria, vamos falar a verdade. Se a gente pensar numericamente a quantidade de alunos que terminam o ensino médio e a quantidade que ingressa no superior, é muito menor. Então a gente tem vários alunos que estão fazendo o ensino médio que não é de acordo com o que eles vão fazer depois. E aí vem outra questão, que é: será que esses alunos que não entram no ensino superior, depois, é porque não desejam fazê-lo ou é porque não tem oportunidade? Então a grande crítica, eu acho, dessa reforma é isso. Quando você direciona esses alunos, ao mesmo tempo que você pode dar a chance de escolha, você pode tirar a chance de escolha também. Porque, às vezes, ele vai seguir uma área meio que por falta de opção. Ele seguindo uma área técnica, por exemplo, ele se distancia do ingresso no superior que ele poderia fazer se ele estivesse cursando o ensino médio comum. Então tem essa questão de um aprofundamento da desigualdade, no ponto de vista de que, alunos que estão em camadas mais populares, eles vão ficar mais direcionados para o mercado de trabalho e ensino técnico e mais distantes do ingresso no superior. Tirando essa oportunidade. Então, acho, que esse é que é o problema principal. Que é o como que isso vai funcionar na prática. Porque a questão é assim: o aluno pode escolher um eixo direcionador que a escola oferta, então ele não vai ter uma liberdade de escolha assim como nós pensamos que terá não. Na prática a coisa funciona de uma maneira diferente e nós sabemos disso. Nós sabemos que em algumas escolas as coisas funcionam de um jeito, em outras escolas funcionam de outro. Nosso ensino básico é muito heterogêneo, ele é muito diferenciado de um lugar pra outro. Tem diferenças regionais, diferenças de condição socioeconômica, isso é muito diverso. E outra questão é que essa discussão da reforma do ensino médio gente, ela está nas escolas públicas. Nas escolas particulares essa discussão simplesmente não existe. Nas que eu trabalho, por exemplo, ninguém falou nada disso. Porque não vai mudar, por um motivo muito simples: a escola particular é voltada para Enem e vestibular. É muito claro. É assim: quando o Enem mudar, a nossa escola muda. Quando o vestibular mudar, a nossa escola muda. Só. É pra isso que eles estão preparando os alunos, nós temos isso muito definido. “Nossa escola é pra preparar o aluno para o Enem” Então a prova é questão do Enem, o simulado é questão do Enem, tudo é assim. Então enquanto eles falarem assim: “Reformou o ensino médio, que coisa interessante. E o Enem como é que está? Mesma coisa?! Tranquilo então. Continua igualzinho” Então esse assunto nem chegou nos professores do ensino particular. Onde eu trabalho pelo menos, não. Por causa da questão disso, de ser direcionado pro Enem. Que é outro problema pros alunos que vão ficar na reforma, porque se a avaliação nacional padronizada é de um jeito e o ensino médio dele é de outro, ele não vai conseguir se dar bem nessa avaliação, claro. Então tem esse problema também, se o ensino médio muda, mas a forma de avaliar e de ingressar no superior não muda, aí tem alguma contradição ali. Certo? P: Hoje, pra você, o que é ser professora? R: Nossa que pergunta difícil. (risos) Tanta coisa na cabeça, tanta coisa… Eu ainda penso no inicial de quando eu decidi ser professora mesmo. Que é a questão da formação de pessoas, eu trabalho com formação de pessoas. Isso é que eu acho o principal da profissão e é o que eu tenho em mente quando eu vou trabalhar e fazer meus planejamentos e conversar, fazer as escolhas e tudo mais. A gente tem que pensar em que contribuição a gente vai fornecer pra essas pessoas com quem a gente está atuando, na formação. Então eu penso é isso. E eu acho que, talvez, por causa disso que eu tenha gostado mais do ensino médio, do preparatório. Que é uma fase cheia de escolhas, cheia de ideias, muitos conhecimentos novos, muitas questões que vem a tona, questões da vida pessoal, questões do mundo, do seu lugar no mundo, questões sociais. Então são muitas ideias fervilhando nessa fase da vida, na adolescência, e eu acho que o professor tem um papel muito importante, nós professores em geral. De vários conteúdos, várias formações, vários lugares. E eu acho que é o interessante mesmo, a gente pensar numa fase da vida que o aluno esteja, realmente, fazendo várias mudanças na sua formação, no seu modo de pensar, no seu modo de agir. E hoje eu vejo que os alunos têm uma referência no professor que a gente acha que não tem mais. Eu fiz esse questionamento várias vezes: “Nossa, num mundo tão globalizado, tão informatizado, com tanta informação fácil no seu telefone! Tudo que você quer, você digita e descobre. É tudo tão rápido, parece tão acessível. E o professor, ele ficou sem lugar? E agora? Se o menino tem tudo no celular dele o quê que ele vai ter comigo? Na minha aula?” E não, eu não achei que ficou assim. Eu me questionei sobre isso já, conversei com outros professores também e quando você vai pra sala de aula você vê que não é bem assim. O professor continua sendo uma referência importante e, às vezes, até mesmo porque com o nosso estilo de vida hoje, os pais não tem tanto tempo disponível com seus filhos, como nós temos. Às vezes eu tenho mais tempo com aquele adolescente do que o pai e a mãe dele. Encontro com ela, às vezes, três vezes por semana, dependendo de como é seu trabalho ali. Às vezes ele te envia uma pergunta, por exemplo, no Facebook e você responde na mesma hora. Você tá online, você conversa com ele. Então, às vezes, é um tipo de relação que é diferente das outras relações que ele tem na vida dele. É claro que não é uma relação de amizade, o professor e o aluno, não é esse tipo de relação e eles entendem isso. É uma relação de professor-aluno mesmo, que é diferente de todas as outras relações que ele tem. Mas eu acho que ela continua funcionado e o professor continua sendo uma referência importante, eu percebo isso. Que os alunos observam muito, eles comentam de outros professores, eles observam muito e os professores funcionam como exemplos. O tempo todo, mesmo que você não queira, tudo o que você faz os alunos percebem. As suas atitudes, às vezes é uma coisa muito pequena. “Mas o professor falou isso. Que o outro professor fez isso e aquilo. Teve um evento da escola, mas o professor não quis vir. A gente chamou fulano pra assistir nossa apresentação, mas ele não quis comparecer. Fulano foi e filmou no celular de tanto que ele gostou.” Essas coisas, elas observam o tempo todo. Então eu acredito que esse lugar do professor ele ainda é muito forte mesmo na vida dos estudantes. Eles tem essa noção de exemplo, de referência, de uma pessoa com quem eles aprendem. Entendeu?

P: Atualmente você tem algum projeto? Quais são seus planos para o futuro?

R: Um projeto... bom, o que eu estou fazendo hoje de trabalho que é um projeto meu mesmo é o que a gente chama aqui de salinha. Salinha de Enem. Que é uma aula do professor, ela é particular, com um grupinho de alunos. Então eu tenho dois grupinhos, duas pequenas turmas que eu faço preparação pro Enem de matemática, só. Então é uma aula minha mesma e eu elaboro material, cronograma. É uma coisa, um projeto bem assim, todo construído com as coisas que eu quero fazer e tudo mais. Então o que eu tenho feito é isso. É o quarto ano que eu faço a salinha e é muito legal, é um estilo totalmente diferente porque é fora de uma instituição. É o professor com sua turma. É uma coisa bem diferenciada assim, bem bacana. Eu adoro elaborar o material, ficar selecionando questões, elaborando questões, fazendo simulado e tudo mais. E é uma turma pequena, que é uma coisa que eu acho que faz muita diferença na vida do professor. Gente, educação em larga escala para mim não é legal. Eu gosto da sala de aula em pequena escala. Pequena mesmo. Então assim, tenho turma de ensino médio com cerca de 20 alunos. É muito bom. Numa escola que eu trabalho, escola particular, tem uma turma pequena. E isso é muito bom. Nessa salinha coloco 10. 10 alunos. Dá para você fazer coisas assim, um atendimento bem mais individualizado, a gente conhece todo mundo pelo nome. “O fulano, como é que foi?” Chama lá na sua mesa, você ajuda resolver o exercício, o probleminha e tudo o mais. Conversa. Atende fora do horário, igual essas questões, eles fazem o cronograma de estudo deles, conversam comigo sobre a escolha profissional, sobre os lugares que eles vão tentar para ingressar, que eles pesquisam, né? Várias questões que dá para a gente fazer um atendimento bem mais individualizado que eu gosto muito, que eu acho que é bem melhor para e a gente trabalhar. E também é uma qualidade para o professor. Ele trabalha num esforço diferente. Numa turma grande você desgasta a voz, a atenção vai dispersando, porque um conversa ali, um aqui, às vezes dá uma diferençazinha ali no comportamento. Então quando a turma é pequena, que é o que eu consigo fazer na salinha, é mais tranquilo de trabalhar. Então tem esse projeto que eu pretendo continuar com ele, tenho gostado muito sabe

P: Nessa salinha, a maioria dos alunos é do ensino estadual ou particular?

R: É variado. Esse ano a maioria é do ensino público. Aí Tem estadual e tem CEFET. E tem alguns de instituições particulares também. É bem variado. Mas o perfil dos alunos são alunos que esta procurando um desempenho muito alto no Enem. Eles querem notas assim, bem lá em cima mesmo. Cursos muito concorridos, a maioria é medicina. É um perfil bem definido. Então eles têm um objetivo definido, a gente trabalha em cima daquilo e a gente consegue desenvolver um trabalho com rendimento muito bom por causa disso. Porque o objetivo é bem parecido e é uma turma pequena. Então é excelente de trabalhar. Eu adoro trabalhar na salinha. Minha aula é na sexta-feira e eu chego morta em casa. Extremamente cansativo também, por causa da quantidade de conteúdos e atender todo mundo. É cansativo ter que pensar cronograma, material, apostila e não sei o que. Mas é muito legal. Chego cansada, mas satisfeita.

P: E seus planos para o futuro? Questão tanto acadêmica, as leituras que você gostaria de fazer e toda a questão pessoal também...

R: As coisas que eu costumo estudar geralmente são mais na área da psicologia, que é o que eu estudo desde a época da graduação. Eu fiz iniciação científica também na época da graduação quando eu comecei a estudar educação matemática e foi tudo na linha mais da psicologia mesmo. Então é o que eu continuo estudando ate hoje né? O artigo que eu estou escrevendo com a pessoa que me orientou no mestrado é nesse assunto. Então da parte de estudo é mais essa área da psicologia aplicada na educação matemática. Agora de planos acadêmicos, eu não tenho em mente ainda doutorado. Eu não estou com esse projeto, não pretendo fazer tão cedo, então vou esperar, vou continuar trabalhando. Tenho a intenção de trabalhar no ensino superior se houver oportunidade na licenciatura. Tenho essa vontade de trabalhar com a licenciatura, então dependendo se tiver essa oportunidade eu gostaria. E no mais eu não sei, mas eu pretendo continuar com o preparatório que é o meu favorito.

P: O que você achou da entrevista, de participar, das perguntas...

R: Nossa, foi muito bom! Foi difícil que a gente tem que pensar tanta coisa, é difícil pensar em tanta coisa em tão pouco tempo. Então às vezes deixei de falar várias coisas, falei de mais, não sei. Mas é muito bom, é uma reflexão sobre a trajetória como professora que é muito interessante. Eu gosto muito de ter esse tipo de conversa, acho que é muito produtivo e acho que é até necessário mesmo para a gente, como professor, se fazer essas perguntas mesmo que outra pessoa não nos faça, acho que é bom a gente se fazer esse tipo de pergunta, né? Pensar nossos objetivos, nossos estudos... a gente não para de estudar nunca, isso é impossível. Não é uma lenda, viu gente? Esse negócio de falar que professor vai estudar pra sempre é verdade. A gente não consegue parar de estudar, é quase impossível. Porque a gente é muito curioso... às vezes você está lá assim, fazendo coisas totalmente diferente na internet, aí você vê uma reportagenzinha ali e você fala: “Opa, vou clicar!” Aí você vai lendo, lendo, lendo, lendo... é muito bom. Então a gente acaba estudando mesmo né? Mesmo que informalmente no nosso dia a dia é necessário. Então essas perguntas foi bacana, gostei de participar, agradeço a oportunidade, espero que ajude de alguma maneira.

P: E você gostaria de acrescentar alguma coisa, deixar um recado para futuros professores ou relatar alguma outra história ou algo que você lembrou e não teve a oportunidade de falar?

R: Olha, eu acho que eu falei bastante coisa sim, não sei se eu tenho algo a acrescentar. Acho que não. Mas, para vocês que estão fazendo licenciatura em matemática, eu fiquei, eu sou, muita satisfeita com essa escolha que eu fiz na licenciatura de matemática hoje, gosto de trabalhar com o que eu trabalho. É claro que a gente não tem tudo da maneira como a gente gostaria, acho que nenhuma profissão tem. No caso da nossa profissão a gente precisa ainda de várias melhorias, a gente corre atrás de várias questões, mais da condição de trabalho, da remuneração. Então assim, o que vejo na carreira são profissionais... enfim, eu também já tive essa fase. Com uma carga horária de trabalho muito exagerada mesmo, às vezes além do que a gente consegue. Então são profissionais que ficam sempre muito atarefados, muito cansados. Então eu espero que quando vocês forem trabalhar, que vocês pensem bastante nessa questão. De como vocês vão se organizar porque, devido essa questão da remuneração, eu percebo que os professores tentam compensar o baixo salário trabalhando em vários lugares. Eu também trabalho em 4 lugares e já trabalhei com carga horária bem maior do que eu estou hoje. Mas o que eu percebo é isso. Às vezes a gente, com essa vontade de ter uma remuneração melhor, acaba trabalhando em vários lugares e reduzindo nosso tempo de preparação de aula, de reflexão sobre a prática, de estudo, de qualidade de vida, de outras coisas que não são trabalho. De Lazer, de tempo com a família e isso eu acho que é um problema da profissão. A condição de vida do professor. A gente precisa pensar sobre isso, falar sobre isso, conversar. Repensar nossas escolhas. E também, outra questão que eu vejo é que a classe de professores como um todo é uma classe muito heterogênea também e às vezes desunida, infelizmente. Então a gente precisa articular as nossas lutas melhor. A gente tem uma forma muito individualista de trabalhar. A gente precisa articular melhor com nossos colegas de trabalho, em relação ao trabalho mesmo, é claro. Professores da sua escola, conversar sobre a escola, sobre os alunos, enfim. E em relação as nossas lutas sociais mesmo e de melhorias para nossa profissão. Os segmentos são muito separados. O professor que está na Escola Federal não faz ideia do que acontece na Escola Estadual e como é a vida do professor que está lá e vice-versa. Então são vidas muito diferentes, são trajetórias muito diferentes que não se comunicam muitas vezes. Então principalmente esta questão do professor universitário com o professor do ensino básico que eu acho que ficam muito distantes. E a gente poderia ter uma comunicação muito melhor nesse sentido e aprender muito mais e também conseguir coisas melhores para nossa profissão. Então são questões que eu acho que a gente precisa também. Porque a gente fica muito, quando a gente está estudando, quando a gente está se preparando para dar a aula, a gente fica muito pensando mais no aluno do que na gente, né? A verdade é essa. Claro, nosso principal objetivo ali é trabalhar com o aluno, com a formação dele. Mas nós não podemos esquecer do nosso lado também, de pensar numa forma de trabalhar que seja saudável. Até porque isso vai refletir na sua atuação. Então o quê que eu percebo: quando eu tinha um número de aulas muito maior, eu não tinha tanto tempo de fazer algumas leituras que eu faço hoje, de elaborar algumas coisas diferentes, de pensar ideias para minha aula, de buscar uma atividade, de ver um vídeo na internet e levar para os alunos. Então a gente fica muito preso ali no cotidiano e na correria e fazendo só o necessário. A gente fica muito ali no arroz com feijão e isso é um pouco frustrante também, sabe? Eu queria ter esse tempo de fazer outras coisas. E cuidar da vida pessoal, claro! Então a condição de trabalho do professor vai afetar muito a vida pessoal dele e a qualidade do trabalho dele. Então a gente acha que a gente vai conseguir dar aula de qualidade dando 50 aulas por semana. Gente... isso é humanamente impossível. Impossível assim, humanamente quase impossível. Claro, existem professores muito bons que dão essa quantidade de aula. Mas é claro que eles estão sacrificando outras coisas. Será que vale a pena? A gente pensar mesmo no estilo de vida que nossos professores estão tendo. Porque, é uma classe gente, que quando você observa dados de pesquisas, com larga escala, é uma classe que tem um estilo de vida doentio! É antidepressivo o tempo inteiro. Remédio para dormir, remédio para acordar. Dor na coluna, dor no ombro, dor no joelho... professores sedentários, professores jovens com problemas de saúde, afastamento por depressão... inúmeros casos. Vocês podem pesquisar isso aí, isso aí tem demais. Então são questões que eu acho que a gente precisa pensar nisso na formação. Porque quando a gente escolhe um curso de graduação, a gente não está escolhendo um curso. A gente está escolhendo uma profissão que vai durar 30 anos. Se depender do Temer vai durar mais. Um problema que temos aí recente, que também não podemos deixar passar isso aí. Pro professor é muito grave. A gente acha que vai aguentar, trabalhar com uma carga horária extensa num período extenso da sua vida. Gente, isso é um projeto suicida! Isso é um projeto suicida. Então hoje eu fico muito mais atenta neste tipo de coisa, na questão do estilo de vida dos professores. Converso muito com meus colegas sobre isso, a gente faz ali conversas de apoio mútuo, né? Porque a gente acaba tendo de tomar decisões que a gente tem medo que dê errado. Por exemplo, tentar reduzir as aulas. Isso é muito difícil do ponto de vista financeiro às vezes. Isso não pode, é complicado o professor reduzir suas aulas. Mas ele precisa fazer essa escolha por causa de problemas de saúde. Então a gente acaba conversando muito isso, isso é um assunto muito recorrente com os meus colegas de trabalho, sempre tive isso. Professores fazendo o mestrado e trabalhando. Eu fiz isso e me arrependi em alguns momentos e converso com professores que estão fazendo o mestrado também, para a gente trocar uma ideia e tal. Então é isso que eu gostaria que vocês pensassem. Agora do ponto de vista do trabalho com os alunos eu acredito que vocês terão mais surpresas boas do que ruins (risos). Quando a gente vai para a sala de aula, a sensação que eu tive é de que foi melhor do que eu esperava, de um modo geral. E hoje eu estou bem satisfeita com isso.

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