Busca avançada



Criar

História

A Toca do Esquilo e o amor à culinária

História de: Robson Ziotti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2021

Sinopse

Memórias da infância com os avós. Imigração da Itália. Chegada da família no Brasil. Trabalho dos pais. Lembrança dos tios e da família. Brincadeiras de infância em Ribeirão Preto. Memórias da Vila Tibério. O clássico da cidade: Botafogo e Comercial. Bullying na infância. Primeiro emprego. Abertura do “Esquilão”. Barcos e viagens. Professor de história. Agradecimentos e planos para o futuro.

Tags

História completa

          Meu nome completo é Robson Zioti Machado, mas eu utilizo só Robson Zioti, pois a minha família Zioti, de italianos, chegou aqui em Ribeirão Preto em 1898. Então eu sou bem conhecido como Zioti. Nasci no dia 28 de janeiro de 1969, em Ribeirão Preto.

          Os imigrantes italianos que vieram pro Brasil, nessa época, eram todos do sul da Itália: Calábria, Sardenha, a parte pobre da Itália. Não podemos esquecer que, em 1890 e alguma coisa, Ribeirão Preto era o maior produtor e exportador de café do planeta Terra. Então, eles vieram pra trabalhar na lavoura de café, pra substituir os escravos. E era quase a mesma coisa que um escravo, não é? Mas o meu bisavó, Cesário Zioti, foi morar na Vila Tibério, e lá ele comprou umas terrinhas e começou a plantar hortaliças. Então ele era um “chacreiro” na parte alta da Vila Tibério, onde só havia imigrantes italianos que moravam.

          Eu nasci na Rua Epitácio Pessoa, perto da Avenida do Café, também na Vila Tibério. Meu pai tinha uma profissão muito interessante que, infelizmente, ele não seguiu porque adoeceu. Eu deveria ter seguido. Ele era vidreiro. O vidreiro põe o vidro no forno, derrete, vai assoprando um cano com o vidro ainda mole, aí faz garrafa, copo, jarras, castiçais. Tudo no sopro. É uma linda profissão, é uma arte que está acabando.

          E eu comecei trabalhando em banco até 1990. Em 1990 eu saí do banco e entrei no ramo do comércio. Eu tinha uma lanchonete que se chamava Brazil, com Z. A fachada era verde, amarela e azul. E a calçada era azul, cheia de estrelas brancas. Depois eu montei o primeiro restaurante por quilo em Ribeirão Preto, em agosto de 1991. Ele se chamava Casablanca e servia 600 refeições por dia. As pessoas ficavam na rua, na fila, debaixo de sol e chuva pra almoçar.

          Mas eu era muito jovem, 22 anos, um jovem sem orientação nenhuma, família humilde. Imagina o dinheiro que eu via todo dia! Aí já viu, não é? É o que todo jovem fazia naquela época: sexo, drogas e rock’n roll. Então, você ia pra esbórnia. Imagina um moleque de 22 anos ganhando uns 20 contos por mês. Imagina. Ia pra discoteca, pagava pra todo mundo, ia viajar, levava os outros de graça. Bebia igual um cachaceiro. Era viver a vida. O que eu deveria ter feito nessa época? Guardado dinheiro, centrado, feito franquias, feito outras lojas do restaurante Casablanca. Aí começou a bater a concorrência, a pipocar um monte de restaurante, até que eu resolvi sair de lá pra vir pro meu endereço atual. Então, do Casablanca virou Esquilão. Depois virou Toca do Esquilo.         

Mas é que eu não tive orientação, né? Eu deveria, naquela época, ganhando muito dinheiro, ter juntado e ter feito outras coisas. Mas eu aprendi a lição: “Venda. Não ande de Mustang zero, ande de Camaro velho”, tá? Por que eu estou dizendo isso? Agora, recentemente, enquanto todo mundo estava surfando na onda de ganhar dinheiro antes da pandemia, o que os caras faziam? Trocavam de casa, moravam na cobertura, compravam rancho, faziam piscina, compravam um Mustangão zero pra desfilar na cidade. O que o Robson fazia? Guardava dinheiro e guardava dinheiro. Eu já estava estabelecido novamente, o restaurante estava sempre lotado... foi o que eu fiz. Hoje eu já estou perdendo dinheiro por causa da pandemia. Está sendo sangrado, tá? Todo mês está diminuindo. Agora, imagina você se eu conseguir manter a minha empresa aberta, manter o meu nome na cidade com tudo isso, as pessoas vão falar o quê: “Nossa! Aquele cara lá conseguiu passar essa pandemia”. A hora que voltar ao normal, de dez restaurantes vai ter quantos? Três, ou dois, ou quatro. Se eu não tivesse dinheiro guardado, filhão, estava ferrado. Estava ferrado. Eu já teria sido liquidado.

          Mas na Toca do Esquilo eu já consegui me estabelecer bem. Fui até fazer faculdade, tinha o sonho de ser professor e consegui. Era uma questão de honra. Como o restaurante estava sempre cheio, eu pegava poucas aulas. Viajava pra outra cidade pra dar aulas, mas às 11, ao meio-dia, eu já estava aqui de volta pra tocar o restaurante. Hoje eu não leciono mais.

          E também acabei me metendo na política. Eu tive sorte, porque tinha a pior visão possível da política, mas entrei em um partido bom, de esquerda, o PSB. Isso mudou completamente a minha vida, a maneira de encarar a vida.

          Quanto à comida, na minha opinião, o estado mais bonito, mais acolhedor, que tem a comida mais gostosa, mais de “sustância”, mais fácil, mais barata, é Minas Gerais. Então, logo eu falei assim: “Eu vou transformar meu restaurante em estilo mineiro”. Eu desenhei aquele fogão a lenha que você viu ali, contratei uma empresa pra construir o fogão a lenha de verdade, e aí eu comecei a mudar a cara do restaurante pras coisas rústicas: mesa de madeira, fogão a lenha, panela de barro, panela de ferro, essas coisas. Mas uma coisa... isso foi mudando aos poucos, viu? São 28 anos de restaurante. Foi mudando aos poucos e foi dando certo. Hoje, a nossa visão é fazer com que a hora que você venha almoçar aqui, você lembre lá da sua avó, quando você ia pro sítio da sua avó, pra fazenda, ou pra chácara. Pois lá na sua avó você comia aquela costelinha na banha de porco, aquele frango caipira, aquele quiabo colhido na horta. Então a gente quer que a pessoa, quando entra aqui dentro, remeta ao passado de quando ela era feliz e não sabia.

          E eu consegui manter todos os funcionários aqui, mesmo com a pandemia. As pessoas que trabalham comigo estão aqui desde sempre, quase todas. Eu tenho uma visão de patrão totalmente diferente, porque quero que meus funcionários ganhem a vida aqui mesmo. Eles têm que ganhar também. São pessoas que gostam de trabalhar aqui e que estão comigo há muito tempo.

          Aí eu me lembro de quando a vigilância sanitária veio aqui e reclamou que minha cozinheira trabalhava cantando. E isso não poderia acontecer. Aí eu pensei: “Meu Deus, você quer coisa melhor do que uma pessoa que trabalha cantando? Que cozinha cantando? Isso é amor.”

          Porque você pode gastar o dinheiro que for, com o produto mais fino e mais caro para colocar no seu restaurante, que não vai adiantar nada. O segredo de uma boa comida é o amor, e a minha cozinheira canta porque ama cozinhar. Você come aqui e percebe que a comida é feita com amor e que ela vem com um gosto de verdade, com aroma, com cheiro de amor.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+