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História

A terra que tudo floresce

História de: Margarida de Gouveia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/01/2022

Sinopse

Em seu relato, Margarida de Gouveia relembra momentos de sua história: sua vida na fazenda em Portugal, a vinda para o Brasil, seus encantos pela terra farta do país, sua vida com o marido e os cinco filhos. Por fim, relata a vida dos filhos e seu desejo de visitar as filhas mais uma vez na Austrália.

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História completa

P/1 - Qual é o seu nome? Onde foi que a senhora nasceu e onde?

 

R - Eu nasci em Portugal, Ilha da Madeira.

 

P/1 - Quando?

 

R - Dia 1 de maio de 1922.

 

P/1 - Seus pais, como é que eles se chamavam e onde nasceram?

 

R - Também lá na Ilha da Madeira. Margarida de Gouveia, minha mãe, e meu pai, José de Gouveia.

 

P/1 - Conta um pouquinho da sua família. Como era a sua família, o que eles faziam...

 

R - Lá em Portugal?

 

P/1 - Sim, na Ilha da Madeira.

 

R - Bom, a minha família lá... A gente tinha fazenda, tinha porco, tinha ovelha, tinha cabra, tinha vaca. Essa era a nossa vida lá, trabalhamos muito na Fazenda, com todo esse gado.

 

P/1 - Eles continuam lá? Só a senhora que veio para o Brasil?

R - Sim... Faleceram. Faleceram todos lá e eu vim com meus filhos para cá.

 

P/1 - Quando a senhora veio?

 

R - Em 1955.

 

P/1 - E nessa época que idade tinham os seus filhos?

 

R - O mais velho tinha 10, [os demais] 8, 6, 4 e 2 [anos]. Quer dizer, eu não sei se eu estou muito certa, porque a caçula veio com sete meses.

 

P/1 - A senhora não passou por Lisboa, veio direto para o Brasil?

 

R - Deixa eu ver... Da Ilha viemos direto porque viemos de navio. Viemos de navio, então não eu não lembro muito bem.

 

P/1 - Ainda sobre isso, como foi a sua saída? O que a senhora sentiu de ter deixado a Ilha da Madeira, Portugal...

 

R - Olha, eu só senti de ter deixado meus pais. Porque na época estava muito difícil para a gente viver lá.

 

P/1 - Por que?

 

R - Porque não tinha fábricas. A gente só tinha a fazenda, tudo o que a gente trabalhava era para vender para receber algum dinheiro. Galinha, ovos, porcos, repolho... Tudo que a gente tirava da fazenda era para vender, mas a gente recebia muito pouco dinheiro. E eu tinha cinco filhos.

 

P/1 - E o seu marido, o que fazia?

 

R - Meu marido trabalhava no Empório, que aqui chama... Acho que secos e molhados. Como é que chama se aqui, [o lugar] que vende arroz, batata...?

 

P/1 - Secos e Molhados?

 

R - É... Acho que é secos e molhados que se chama aqui. Não estou muito a par.

 

P/1 - Venda?

 

R - Era venda, lá [em Portugal] se chama venda.

 

P/1 - Como é que foi a viagem de navio?

 

R - Maravilhosa, essa foi inesquecível.

 

P/1 - Conta para a gente como é que foi.

 

R - Foi maravilhosa, apesar de eu vir com cinco filhos, todos pequenos. Mas todo mundo se dava bem. Foi uma coisa... Essa foi a primeira experiência na minha vida que eu gostei demais. Quando eu voltei lá em Portugal, eu voltei em 1979, eu queria vir de navio. E eu andei em tudo quanto é lado para vir de navio, mas nessa época só tinha uma viagem por um mês porque depois que surgiu o avião para lá e fizeram Campo de Aviação, vinha tudo de avião. E eu queria voltar de navio, porque eu gostei demais, mas não encontrei passagem, pois só tinha uma vez por mês e estava tudo lotado. Então eu voltei de avião.

 

P/1 - E a viagem de navio era confortável?

 

R - Demais. Demais. Aquilo tinha um conforto enorme, agora eu não sei, mas naquela época tinha um conforto enorme.

 

P/1 - E chegando aqui, como é que foi a vida?

 

R - Olha foi boa. Para mim foi muito boa, muito gratificante, porque quando eu cheguei aqui as coisas eram todas tão baratas. A gente ia na feira e era uma sacola de banana por... Já não lembro o nome da moeda naquela época.

 

P/1 - Que ano era?

 

R - 1955.

 

P/1 - Que bairro a sua família se instalou?

 

R - No bairro do Chora Menino, em Santana, porque já tinha família lá. Então, nós ficamos morando perto do cemitério de Santana, que é o cemitério do Chora Menino. Então, eu adorei aqui, porque era uma terra muito farta, aliás, é até hoje. Então era tudo barato, para plantar era só fazer um buraco no chão, que já dava tudo e já colhíamos tudo que a gente plantava. Em Portugal, era preciso adubar, cavoucar e regar muito, era uma dificuldade para tirar uma plantação lá. E aqui eu fiquei encantada. A gente vendeu uma casa que tinha lá, compramos uma casinha aqui com um pedaço de terreno, [pois] naquele tempo era tudo barato. Então, eu ia para aquele fundo de quintal, plantava coisas ali, era só fazer um buraco e a gente tirava tudo, repolho, alface... Eu fiquei encantada e até hoje adoro esse país.

 

P/1 - O que a senhora plantava dava para alimentar a família?

 

R - Não, isso não. Essa casa que a gente comprou era na frente da rua e o meu marido, como gostava e era a tendência dele, instalou um bar. A gente morava no fundo, ele fez um salãozinho na frente e instalou um bar. E ele trabalhava no bar, vendendo bebidas, salgados, doces. Naquele tempo a gente fazia tudo o que podia para trabalhar.

 

P/1 - A senhora ajudava nesse bar?

 

R - Como?

 

P/1 - Auxiliando-o?

 

R - Sim. Sim. Eu trabalhava junto e os meus filhos mais velhos também já ajudavam. E foi uma parte da nossa vida.

 

P/1 - Atualmente a senhora faz alguma atividade?

 

R - Atualmente não. Agora eu estou aproveitando [para] viver um pouco, porque eu já trabalhei demais. Olha, essa [história] do balcão está aí.

 

P/1 - A senhora comentou que faz ioga. Além de ioga, a senhora tem mais alguma atividade de lazer?

 

R - Eu faço ioga, viajo um pouco quando dá e participo dessas festinhas que eu adoro junto com as minhas companheiras.

 

P/1 - E os seus cinco filhos, dona Margarida?

 

R - Os meus cinco filhos? Tenho três filhas que foram embora para a Austrália, porque quando ficaram moças e com essa ditadura que começou aí, estavam na faculdade, se formaram na USP, e a minha filha mais velha que é muito ativa começou a ficar nervosa com a situação que estava ficando o país. Os militares querendo proibir o que ela gostaria de fazer... Tudo. Então, depois ela conheceu um moço aqui, com quem ela casou, mas foi casar lá na Austrália. Quando ela não tinha o conhecido, ele tinha um irmão que estava estudando medicina lá na Austrália. E ele já tinha toda papelada dele pronta para ir embora para Austrália, que esse irmão dele já tinha mandado para ele.
Então, quando ele conheceu minha filha, estava querendo desistir [de ir], depois minha filha falou que estava querendo ir embora e que se ele desistisse estava tudo acabado, então ele foi embora. Ele foi, ficaram se correspondendo, um ano depois ela foi e casaram lá.

 

P/1 - E as outras que foram para lá?

 

R - As outras, depois de três anos que ela (a mais velha) estava lá, ela veio aqui e a caçula quis ir com ela. Então foi a caçula e depois de uns quatro anos, tinha a minha outra filha que tinha se formado em Artes Plásticas e ela ganhou uma bolsa de estudos do governo aqui.

Depois, com essa bolsa, ela pediu para ir fazer um curso lá na Austrália, porque ela queria ir conhecer e as irmãs já moravam lá, então... Eles a deram autorização para ir fazer esse curso lá na Austrália. Ela foi, conseguiu ficar 2 anos lá e queria ficar lá, mas eles não lhe deram o visto permanente. Não a deixaram ficar porque ela tinha ido como turista, só para fazer o curso. Então ela não conseguiu e foi embora, mas sempre com vontade de voltar para lá. Depois aqui estava difícil para ela voltar para lá, ela foi para Lisboa, ficou dois anos em Lisboa e agora, em maio desse ano, ela voltou para Austrália e conseguiu visto permanente lá. Então estão as minhas três filhas lá na Austrália.

 

P/1 - E todas elas estudaram. Agora, para já ir finalizando, os outros dois também estudaram?

 

R -Também estudaram.

 

P/1 - Todos eles?

 

R - Todos se formaram. Todos. Eu tenho um, esse ainda está solteiro...

 

P/1 - E o seu marido, dona Margarida?

R - Meu marido faleceu. Eu tenho um [filho] que trabalha para o governo. É o mais velho, que ainda está solteiro, ele vai - não sei é um ou dois dias da semana - no Palácio. E tem o outro também formado que trabalha na Caterpillar. Esse ficou dois anos lá nos Estados Unidos pela firma, aliás, tinha 3 anos para ficar lá, mas o chefe dele não parou de trazer ele para cá.

 

P/1 - Eu tenho uma pergunta para a senhora para finalizar, porque nosso tempo está se acabando...

 

R - Tudo bem.

 

P/1 - O que a senhora quer fazer daqui para frente na vida?

 

R - O que eu quero fazer? Se eu puder, [quero] visitar as minhas filhas lá na Austrália, porque eu já fui, já morei um ano com elas lá, mas se eu puder ir mais uma vez, eu tenho vontade. Se uma filha me chamar para ir para lá... (risos)

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