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História

A tal de Neidinha

História de: Ivaneide Bandeira Cardoso
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Ivaneide, a Neidinha, relata sua experiência com a Amazônia, sempre presente em sua vida: nascida no Acre, enfrentou um incêndio durante a travessia até Rondônia. Graças à mãe, chegaram em terra firme e se acomodaram onde hoje é demarcada como Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Neidinha conta como era seu dia a dia na floresta, o medo do contato com os índios, ainda criança, e o trajeto que a levou decidir estudar História. Os primeiros medos na cidade também foram relatados, já que não conhecia carro e cinema. A volta para “o mato”, como carinhosamente se refere à Floresta Amazônica, foi como uma volta para a casa, pois é nela que Neidinha se sente realmente à vontade e encontrou aquilo que escolheu fazer na sua vida: apoiar a conservação da Amazônia e garantir os direitos dos índios.

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História completa

Sabe qual é o maior perigo de morar na floresta? O homem. Tem quem diga que é pegar malária, mas na verdade é o homem. É ele que ataca os animais. Os animais não atacam você. Veja só… Há mais de 30 anos que eu trabalho com índio, só fui atacada por uma onça pintada uma vez! Por isso que eu digo: o maior perigo da floresta é o madeireiro e o garimpeiro. São eles que destroem a floresta.

 

Rondônia não era como tá hoje, tudo destruído. Era mata virgem. Os animais vinham no quintal de casa, eles não tinham medo de gente. Eles eram nossos brinquedos! Paca, cotia, macaco. Criança da cidade não cria as bonecas? É a mesma coisa, só que a gente cria bicho. A gente cuida dos macacos como se fossem uma criança, cuida de gavião, de arara. Tinha macaco-prego, macaco-barrigudo, tinha macaco-cuatá, tinha maracanã, tinha periquito, tinha veado. Ah, tinha muito bicho! Os mais fáceis de brincar eram o veado e o macaco. O veado é mais mansinho e o macaco se parece com a gente, ele é muito amoroso!

 

A gente passou a infância com meus pais nos ensinando a andar no mato. Como meus pais ensinaram a gente a caçar, a pescar, eu aprendi a me virar, a me proteger. Se eu ando no mato hoje e um bicho me pica, sei exatamente qual é a folha que eu vou pegar e passar em cima pra me livrar da picada. Nós aprendemos muito com eles. Minha mãe aprendeu a caçar por uma questão de sobrevivência. Lá só era mata virgem e a gente precisava comer. Então as únicas coisas que tinha pra comer eram frutos e raízes do mato e caças. Como meu pai tinha cartucho e espingarda, ele ensinou minha mãe a atirar. Era ela que caçava e trazia a comida pra casa. Ah, a gente falava raiz da cotia, raiz de paca. Comida era nome de bicho. A gente era meio bicho também.

 

Sabe outra coisa que a gente fazia no meio do mato quando criança? Por incrível que pareça, e tu não vai acreditar nisso, a gente lia revista. Minha mãe gostava de ler. Quando o avião ia deixar a mercadoria, deixava também revistas e mais revistas, aquela Grande Hotel, que nem existe mais hoje. Grande Hotel, Cruzeiro, Contigo, livrinhos de bolso. Eu li toda a saga do Flash Gordon, aqueles livrinhos de bang-bang de bolso. Tanto que eu gosto muito de ficção até hoje por ter lido muito quando criança. Eu lia muito! Quando minha irmã e eu saímos do mato, a gente já sabia ler e escrever porque a minha mãe nos ensinava com uma cartilha do alfabeto. Na cidade, a gente tinha uma vantagem em cima das crianças que viviam lá: na escola, a gente já sabia ler e escrever, somar, multiplicar, tudo nossa mãe já tinha nos ensinado! Aí eu fui pra faculdade. Escolhi estudar História porque eu queria manter a história do povo, eu queria manter a história de Rondônia. Eu ficava muito cansada de ouvir o povo dizer que o pessoal de Rondônia não tem identidade, que Rondônia é uma terra de ninguém. Eu dizia: “Rondônia tem identidade sim!”. E aí fui fazer História.

 

Quando eu morava no mato, eu não tinha noção do que era discriminação, de como os índios eram tratados. Pra mim, todo mundo era igual. Gente, bicho, todos eram iguais, não havia diferença. Quando eu vim pra cidade, descobri que não era assim, as pessoas não se tratavam como iguais, e percebi que havia muita discriminação em cima dos índios. Eu decidi: “Vou combater a discriminação”. Depois de me formar em História, me especializei em Análise Ambiental e fui trabalhar com os índios. Fui a primeira mulher a trabalhar com localização de índio sem contato porque, até essa época, a Funai achava que isso era trabalho de homem. Eu era movida pela minha decisão: “Eu não quero perder a minha forma de falar, não quero perder a minha forma de agir”. E isso pautou toda a minha faculdade, pautou tudo.

 

Um dia, ouvimos o som de motosserra. Pegamos todo o pessoal da aldeia e fomos pro mato. Chegamos e o cara estava derrubando uma castanheira. “Você está dentro da terra indígena, derrubando árvore, e isso não pode!”, eu falei. Ele respondeu: “Não, estou fora, não tem nenhuma placa”. Ele tinha pego a placa e jogado fora. Prendemos o cara e os  índios tomaram todas as suas coisas. Ele ficou desesperado. “Não, não, fale pra eles devolverem!”. “Não, não posso. Não vou dizer pra eles devolverem motosserra, nada disso. Você invadiu a terra deles, está roubando a terra deles!” Um amigo que estava filmando tudo, disse: “Neidinha, afasta um pouquinho”. Aí o madeireiro olha pra mim e diz: “Ah, então você é a tal da Neidinha?” A gente fez até um filme com isso, ficou muito engraçado. “Até no meio do mato um madeireiro me reconhece! Ninguém merece!”. Até hoje sofremos ameaça. Como a gente trabalha com proteção, a maioria aqui está ameaçada de morte.


A primeira vez com os índios foi muito emocionante porque você aprende sobre eles em revista, em livro de escola, que acabam ensinando tudo errado: ou o cara é bonzinho demais, é santo, ou o cara é selvagem, e na verdade eles não são nem uma coisa, nem outra, eles são gente igual a nós, com qualidades e defeitos. Mas a primeira vez que eu entrei, pra mim eles eram seres sobrenaturais, eram o que eu tinha lido no livro da escola. E quando eu os encontro, descubro que eles são iguais a mim, iguaizinhos, e aí me lembra toda a minha infância, porque eles brincam que nem eu brincava, comem que nem eu comia! Me senti em casa, muito mais em casa do que quando eu estava na cidade. Foi como se eu estivesse de volta às minhas origens! Isso me emocionou muito. Vinicius de Moraes dizia que ele era o branco mais negro do Brasil, né? Pois é assim mesmo! Eu acho que eu sou a não índia mais índia do Brasil!

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