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História

A super dona Janet

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Nesta entrevista dona Janet nos conta sobre sua infância, adolescência. Fala sobre sua vida escolar. Amigos e família e sua atividades culturais preferidas. Conta sobre seu casamento e desafios de mãe. Viuvez após o nascimento de cinco filhos. Estudou música e chegou a participar de um concerto no Teatro Amazonas. E dá ênfase a sua vida na laboral na Petrobras.

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História completa

P/1 – Bom dia.

R – Bom dia. Muito obrigada pela oportunidade, muito obrigada porque a gente tem que agradecer tudo que a vida nos dá. É muito importante.

P/1 – Dona Janet...

P/2 – A gente é que agradece.

P/1- A gente é que agradece. A gente gostaria de começar pedindo que a senhora nos falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Eu sou Janet de Almeida Pará, nasci em Manaus, no Amazonas, numa rua chamada Avenida Joaquim Nabuco, uma das ruas centrais de Manaus. Lá eu nasci e fiquei até; a noção assim, mais ou menos, uns seis anos, sete anos, quando fiz a escolinha, maternal, naquele tempo maternal, né, e aos sete anos eu ingressei no Colégio Santa Dorotéia, colégio religioso que até hoje tem em Manaus. Meu pai era gráfico, mas...

P/1 – Qual era o nome dele?

E – João Pará Júnior.

P/2 –Ele trabalhava com que, senhora Janet?

R – Com revistas, publicação. E o meu pai era músico, gostava de música e começou a me levar para o lado musical. Quando eu entrei no colégio, com sete anos, eu já comecei, além de leitura, da instrução normal, eu comecei as primeiras notas do piano. Então eu cursei dos sete aos quatorze anos eu estudei neste colégio, que até hoje ainda é patrimônio em Manaus, é como se dizem e com 14 anos eu tinha sete de piano, né, eu dei o meu primeiro concerto no Teatro Amazonas. E minha vida se desenrolou quando meu pai morreu em 1942. Eu me casei nesse ano mesmo...

P/2 – Conta para a gente então um pouquinho, como que era essa rua onde a senhora falou que nasceu, os amigos...

R – Era uma rua; é ,ainda hoje, uma rua central, viu, só que naquele tempo as casas eram outras. Hoje são prédios grandes, é tudo diferente. Mas o colégio, ainda existe lá, o Colégio Santa Dorotéia. Depois do Colégio Santa Dorotéia eu passei dois anos no Colégio Maria Auxiliadora que já é de outra organização religiosa, é Salesiano, Colégio Salesiano. Então a minha formação mesmo, é católica, é católica. Só que o meu pai ele gostava de livros espíritas, de narrativas, de coisas assim. E eu era muito chegada ao meu pai, eu era muito mais assim, chegada ao meu pai do que a minha mãe, a gente não descobre porque essas coisas, né, a gente tem mais afinidades com umas pessoas do que com outras.

P/2 – Qual é o nome da sua mãe?

R – Maria de Lourdes Pará. Minha mãe era exclusivamente de casa, doméstica, cuidava da casa, cuidava dos filhos, costurava muito, gostava de costurar, ___ ______ de hoje costurava ainda a minha mãe; só a única coisa que ela fazia e eu não faço é crochê, nunca aprendi fazer.

P/1 - E a influência religiosa era dela?

R – Não, era do meu pai.

P/1 – Católica?

R – Católica.

P/1 – Era do seu pai?

R- Meu pai era. Mas o meu pai adoeceu e ele começou a ter assim, uns problemas diferentes. Ele tinha sonhos, ele tinha visões e ele dizia para mim: “Filha, eu não vou durar muito.” Ele me preparou para ele ir embora, ele sabia, tinha um problema renal muito sério, aliado a um problema cardíaco, ele tinha crises que ele ficava no chão deitado que e não levantava, não tinha condições de se levantar. A gente aí botava... Ele não queria cama, só queria chão, porque o chão era reto para ele deitar por causa da posição. E o meu pai adoeceu e eu fiquei com essa formação. Existe alma, existe outro mundo? Eu só tinha aprendido que tinha céu e inferno, né, purgatório, que a gente morria ia para o céu e tal. Pecado, a consciência de pecado. Não podia fazer isso porque era pecado, certo? Eu cresci com esses conceitos. Mas já aos 14 para 15 anos comecei a pesquisar uma outra coisa. Existe morte, para onde é que a gente vai quando a gente morre, o que que acontece conosco, aquela cova é realmente o fim? Meu Deus! Eu tinha 1.001 dúvidas, né? Então...

P/1 – Isso a senhora começou a estudar sozinha?

R – Aí eu comecei a estudar sozinha, fazia a minha pesquisa sozinha. Primeiro eu entrei por literatura romanceada, aquelas histórias bonitas, né, de amor, de fracasso, de negação. E aquilo foi me enchendo assim a alma, eu fui começando a entender os meandros do ser humano, compreendeu? Aí eu me casei, me casei com um homem 20 anos mais velho que eu.

P/1 – Mas antes do casamento a gente volta mais um pouquinho. Conta pra gente então, a senhora teve contato com os seus avós na sua criação?

R – Não, meus avós já tinham morrido.

P/2 – A senhora nasceu...?

R – Eu nasci em Manaus.

P/2 – Não. Quando a senhora nasceu?

R – Quando eu nasci eles já tinham morrido.

P/2 – A senhora tinha irmãos?

R – Tinha. Eu sou a mais velha, depois tem uma outra mais nova do que eu e tinha um homem que já morreu agora, morreu em 1992, perdão,1994. Mamãe morreu em 1992, ele morreu em 1994. Eu agora só tenho uma irmã lá em Manaus. Ela tem uma família também, tenho sobrinhos, eles vivem lá com negócio de governo, de política. O marido da minha tia-neta, né; é neta da minha irmã, é Prefeito lá em Presidente Figueiredo, numa cidade chamada Presidente Figueiredo.

P/1 –Em Manaus?

R – Em Manaus. Então, essa formação eu vim me moldando nas coisas, eu era uma menina que gostava de assuntos de gente grande. Então, eu com 12, 14 anos, a nossa casa era do lado do Consulado Português, certo, então eu era muito danada, eu pulava o muro para ir lá no Consulado falar com a Consulesa para me emprestar revistas, revistas que vinham de Portugal, eles tinham coleção e eu queria ver e ela ficava admirada. Eu, daquele tamanho, eu pulava o muro da minha casa e ia lá. Ela me emprestava a revista, eu trazia a revista, lia e depois eu devolvia. E, em 1945, teve a Segunda Guerra Mundial, né, havia uma revista chamada Em Guarda Para a Defesa das Américas mas eu não perdia uma, eu dizia para ela: “Não põe no lixo porque eu quero.” E assim eu fui lendo, eu lia tudo, eu lia papel do chão, eu lia tudo. Eu tinha uma fome assim de conhecimento, de querer assimilar tudo no mundo.

P/2 – E as brincadeiras, a senhora, quando criança, gostava de brincar?

R – Pipa, jogar pipa. Eu era como se fosse um moleque. Eu trepava no telhado para jogar pipa, adorava.

P/1 – E seus irmãos, como que era a relação com seus irmãos?

R – Meus irmãos eram mais quietos que eu, meus irmãos já tinham muito medo da mamãe. Porque a mamãe, qualquer coisa dava uma chinelada. E meu pai dizia que não, que pancada não educava ninguém. Mas ele me dava uma lição, que eu aprendia tudo. Ele me botava na mesa, falava, falava, falava, eu começava a chorar e ele achava que aquilo, e realmente, aquilo ia lá dentro da minha alma, não eram as pancadas da minha mãe. Que a minha mãe me dava duas chineladas, depois eu estava fazendo a mesma coisa. O meu pai era o contrário, ele falava lá dentro da minha alma, certo, a minha afinidade; a mamãe dizia: “Você só quer bem ao seu pai.” Não era, eu tinha mais afinidade com ele, né, ele me entendia mais. Ela dizia que ele gostava mais de mim. Não era que ele gostasse mais de mim, nem eu dele, era afinidade que a gente tem. Isso é só depois, fazendo cursos, estudando, é que eu vim saber, vim entender essa afinidade que os seres humanos têm que ter. Nós somos todos iguais, nós somos irmãos, nós somos filhos de um pai só, que é Deus. Então por que tanta briga, por que tanta indiferença, né? Então eu me criei nesse ambiente, pesquisando, estudando, colecionando coisas...

P/1 – Como o quê, o que a senhora colecionava?

R – Artistas de cinema, tinha álbum, tinha mania de fazer álbum de artista. Tinha aquelas histórias, aquelas coisas de quadrinhos que a gente comprava o álbum na banca de jornal... Figurinha! Tinha tudo quanto era figurinha, eu tinha. E fazia força de completar meus álbuns, trocava, ia à escola do outro trocar figurinha para completar o meu álbum, eu queria meus álbuns tudo completo, bonitinho, para eu mostrar para os meus amigos que eu tinha um álbum. P/2 – Qual o artista que a senhora mais gostava? R – Olha, daquelas artistas do meu tempo mesmo... Como eu era criança, eu adorava a Shirley Temple, né, aquela menininha que até hoje eu vejo na Net, né, os filmes dela são uma coisa linda. Mas eu gostava de filmes clássicos,eu não gostava de filme de brincadeira, de bandalheira, eu gostava de Ben Hur, né, Os Dez Mandamentos, via não sei quantas vezes Os Dez Mandamentos, Sansão e Dalila, tudo filme bíblico, eu adorava aquilo. Até hoje eu sou assim! Eu não quero ver filme de luta, quero ver filme que tenha uma história, que tenha uma coisa que me encha a vida, compreendeu? Eu andei agora de uns dias procurando um filme aí que é a Vinda do Anticristo. E eu vou procurar na locadora para ver de novo, eu vi na Net.

P/1 – Então a senhora gostava muito de filmes?

R – Gostava, eu sempre gostei muito de filmes, cinema era a minha... Era tocar piano, ir ao cinema, dia de domingo meu prêmio era ir ao cinema, na matinê das 4:00 horas. Papai me levava. Eu me lembro, eu tinha uma foto, não tenho mais, que eu botava, me arrumava todinha com uma roupa; a gente usava boina, não lembra? Você não lembra porque não é do seu tempo, mas as meninas usavam boina, uma boininha bonitinha, eu tinha foto com aquela boina, me preparava todinha e ia com meu pai, não era a minha mãe não, era o meu pai que me levava ao cinema, eu ia para o cinema com ele.

P/1 – Como que era a sua casa, dona Janet? Conta para a gente um pouquinho do seu cotidiano, seus irmãos. R – A minha mãe costurava muito, ela trabalhava muito de costura. Então ela tinha freguesa, ela tinha uma sala que era o ateliê dela, então ela ficava ali. Tinha uma velha, negra, velha, que meu pai botou em casa... Quando eu me senti como gente eu já encontrei aquela preta em casa, dona Amélia, ela tinha sido escrava, certo e ela contava para a gente, sentava a gente no chão e contava que quando gritaram a liberdade, a Princesa Isabel, ela tinha seis anos de idade. Imagina como ela não era velha. O meu pai botou ela em casa, ela ficou conosco, nos deu tanto apoio, dava remédio para a gente, remédio de folha que ela fazia e ela dava e o meu pai apoiava e a gente achava ruim, porque era um remédio ruim, mas ela foi assim, uma pessoa importante na minha vida. Então, antes de eu me casar, quando eu já estava com uns 12 ou 13 anos ela resolveu voltar para a terra dela, ela era do Maranhão. E meu pai fez tudo, embarcou ela num navio, naquele tempo tinha navio, né, embarcava de navio. Meu pai botou ela num navio do Lloyd Brasileiro e ela foi para o Maranhão. Seis meses depois ela morreu, no Maranhão. Ela ia à procura de um filho único que ela tinha. Achou o filho só para morrer. Então essa velha, teve muita importância na minha vida. Ela contava histórias do tempo da escravatura, dos negros, das senzalas, eu fui criada assim, nesse ambiente de estudo, sabe, de conversas e isso foi formando assim, a minha... Então, eu hoje, eu não gosto de carnaval, porque eu nunca brinquei carnaval, nunca saí num bloco, não tinha assim, amizades com pessoas não. Eu, qualquer coisa, eu estava pegando num livro, sentada no chão, ficava horas. Aí a minha mãe: “Ô ____, você não fez nada, não fez o bordado, não fez isso...”, começava a brigar, eu largava o livro. Quando ela dobrava as costas eu deixava o bordado e pegava o livro. Eu abria a porta , para ela não me ver, pegava o livro e fechava a porta, assim em cima de mim, aí eu ficava. Ela me procurava e eu estava de trás da porta, né? Essas coisas que a gente faz de criança, que depois quando a gente está mais de idade a gente diz “Mas como eu pintei, né? Como eu fiz coisas, coisas!” Aí veio o casamento...

P/1 – E a juventude dona Janet, como é que foi a juventude?

R – Não me conta. Eu não tenho, eu não tive juventude. Não me fala o que é mocidade. Eu saí da meninice para casar com um homem que tinha 20 anos mais velho que eu.

P/1- Quantos anos a senhora tinha quando se casou?

R – Eu tinha 16 anos, ele tinha 36.

P/2 – Então foi da escola para o casamento.

R – Da escola para o casamento.

P/2 – Como que era a escola, como que era o dia a dia na escola?

R – Olha, a escola era muito boa. Porque era colégio religioso, eu era Irmandade do Coração de Jesus, do Coração de Maria, de todos os corações de Deus que tinha eu era da Irmandade, né? Então, minha vida religiosa no colégio foi assim uma coisa importante, fazia parte do coro da igreja, cantava e ajudava, porque o colégio tinha dois padrões: o padrão do pessoal que pagava e o pessoal das meninas que chamavam “a escola dos pobres”. Então eu sempre tive essa vocação assim para ajudar, então eu ia ajudar na “escolinha dos pobres”, certo, eu tinha o meu dia que eu saía do meu ambiente e ia ajudar na “escolinha dos pobres”. Eu não sei porque eu fazia aquilo, mas eu fazia. Eu também não me perguntava muito não. Eu fazia porque era o meu dom de fazer aquilo.

P/2 – Era uma escola só de meninas?

R – Era só de meninas, Colégio Santa Dorotéia era só de meninas. Depois que eu passei para o Colégio de Maria Auxiliadora, onde eu sou ligada até hoje pela Associação das Ex-Alunas de Maria Auxiliadora. Quando nós ficamos adultas, que todo mundo se separou, nós fizemos um pacto. Então eu não estou lá, mas elas me mandam tudo. É através do colégio; não é do Colégio de Maria Auxiliadora, é do Colégio de Santa Terezinha, que pertence a organização Salesiana, né, é da mesma organização. E eu estudei no patronato Santa Terezinha. Ainda hoje existe uma casa muito bonita, agrega alunas para todo o curso, até o segundo grau. Eles têm até o segundo grau. E até o segundo grau eu fiz lá, no Colégio Santa Teresinha.

P/1 –E as amigas lá no colégio, a senhora tinha amigas, tinha grupinhos?

R – Tinha, tinha sim, mas muito pouco. A mamãe não gostava da gente sair muito com amiga, era naquele em que a vigilância era severa, né? Não saía não. Saía com meu pai, saía com meu irmão, saía com ela quando... Tinha uma missa que a gente tinha que ir às 4:00 da manhã. Ai meu Deus do céu, que sofrimento! A missa às 4:00 horas da manhã, na hora do melhor do sono eu acordava; “Vamos embora, vamos embora para a missa.” Todo mundo, ia sonolenta. Um dia eu ia sonolenta no meio da rua... Antigamente; não tem agora, diziam... Existiam uma caixa de correio de ferro que botavam nos postes [riso], eu dormindo, andando, dei com a cabeça...O sangue desceu, fiquei toda lavada de sangue, me enxugaram e tudo. Assim mesmo eu fui para a missa. Quando eu saí da missa, ainda vinha suja de sangue, aí a gente sempre ia, quando acabava a missa [riso], a gente ia ao mercado, era aquele mercado enorme, aí é que a gente ia tomar café no mercado. Naquele dia ninguém foi, porque eu estava toda suja de sangue, viemos embora para casa, pegamos o bonde, tinha bonde, né? Pegava o bonde, o bonde veio pela Joaquim Nabuco, eu fiquei em casa. Então, daí... Não fiquei com raiva de missa não, mas não vou a missa de manhã cedo não, só vou a missa das 10:00 horas em diante, quando eu estiver bem acordada [riso]. Não vou a missa cedo não, de jeito nenhum.

P/1 – E como que vocês se vestiam, dona Janet, a senhora, as suas amigas?

R – Olha, a gente daquele tempo...

P/1 - Como que era a moda na época?

R – Não, não era que isso fosse moda, mas a minha mãe era muito assim, eu diria hoje, “careta”, né? É, “careta”! Mas ela não admitia roupa de alça, nem nada, então eu tenho retrato com roupa assim. Hoje a minha roupa toda é assim, tudo de manga comprida, é tudo do mesmo feitio, é tudo comprida, é calça, quer dizer, eu não sei usar uma roupa sem manga, eu me sinto mal. Eu não faço nada, o que eu tenho roupa assim sem manga é camisola de dormir, que eu estou em casa para dormir e pronto. Passou isso, isso aqui é roupa... Com essa roupa eu sou clássica, eu vou para toda parte com essa roupa, esse tipo de roupa. É tailleur, é calça comprida, ou com saia, mas sempre tem golinha, sempre tem a manga, quando não é a manga aqui, é ¾, por aqui. Se eu vestir uma roupa sem manga eu fico assim...Não vou não.

P/1 – E era assim na época, vocês estavam sempre com roupas...?

R – Já era assim, sempre assim. Meu pai era muito rigoroso, ele era muito moralista, ficava reparando as pessoas que andavam mal... Então, comigo, eu era que tinha que reparar todos os grilos dele, né, eu tinha que me vestir conforme ele quisesse. É, eu não andava não.

P/1 – E as amiguinhas também andavam assim? R – Andavam, o pessoal da minha época andava. E não se andava muito com... O carnaval existia, sempre existiu o carnaval, mas ele dizia que o carnaval era para gente que não era uma boa companhia, que não era uma boa coisa, certo? E naquele tempo carnaval ainda era blocos, aquela folia de rua, aquela coisa todinha. Mas nem assim, começava tocar o tamborim a minha mãe dizia: “Janet, está na hora!” Era para ir dormir. Nós morávamos defronte um... Tinha um clube e o clube dava festas e eu ficava animada, 4:00 horas, 5:00 horas eu tomava banho, me aprontava e tudo, pensava que eu ia ver a festa, pelo menos ouvir a festa, eu ficava na calçada, naquele tempo botava cadeira na calçada, né, ficava todo mundo ali, na calçada. E eu com aquela vontade que a festa começasse, né? Aí os camaradas começam de lá “Ehhh, pirirí, parará!”, afinando os instrumentos. Meu pai dizia: “ Janet, está na hora!”. Cadê? Acabava a minha alegria, certo?

P/2 – E a senhora não paquerava?

R – Não. Eu saí da adolescência para o casamento, para ter filho.

P/2 – Não teve nem uma paquerinha?

R – Não.

P/2 – Não conversava com as amigas?

R – Não, não conversava com amiga, amiga ia assim de repente lá em casa, a gente falava uma brincadeira, depois ia embora, meu pai não era chegado assim, muita gente em casa, ele era meio solitário, ele gostava de viver com os livros e criar os filhos, os três filhos daquele jeito, né? Só que uns se apegam mais. A minha irmã não se apegou muito a isso não, a minha irmã namorou, pintou, ia a festa, agora eu como eu fiquei mais apegada a ele, eu absorvi muito aquela mentalidade dele e hoje eu louvo a Deus ele ter me feito assim, porque eu hoje não sinto falta de carnaval “Ih, carnaval está aí!” não estou nem aí! Eu quero ter um monte de livros para ler, quero ter um monte de coisas para estudar, para fazer, escrevo, de repente me dá umas coisas na cabeça eu escrevo, certo, o que eu tenho vontade. Aí eu fui conhecendo outras filosofias. Ao longo do meu casamento... Passei dez anos de casada, certinho.

P/1 – Como foi que a senhora conheceu o seu esposo?

R – Ele trabalhava nos Correios e Telégrafos e eu tinha uma aula que eu ia, de bordado; naquele tempo moças aprendiam a bordar, né, costurar, bordar, esses negócios, eu tinha uma aula de bordado. Então eu passava pela porta dos correios e descia uma rua, uma ladeira onde era a casa da família que eu bordava. E ali, eu passando por ali, eu vi aquele cara na porta. Ele me olhou assim, eu olhei para ele, ham, hum... Aquele homão; eu era garota, eu estava com 15 anos, com 16 anos, não me importei. Passado uma semana ele me seguiu, eu senti ele sair da porta e me seguir para ver onde é que eu entrava, certo? Aí ele viu a casa que eu entrava, ele conhecia, era de uma família da Paraíba, eles eram da Paraíba, uma família nobre, boa e tudo. Aí ele quis saber o que era que eu fazia lá. Perguntou, a empregada disse: “Não, ela vem aqui, vem estudar, vem bordar com a dona Josefa.”, que era a senhora dessa família. Uma família tradicional da Paraíba, que tinha ido para Manaus. E o que aconteceu? Ele ficou, aí no outro dia ele me procurou, me seguiu. Eu tinha... Eu morria de medo do meu pai, né, que o meu pai soubesse e me desse uma coça, né? Ah, eu fiz tudo para não falar com ele, ele disse: “Não, você não precisa ficar com medo de mim não e tal...” E começou com aquele negócio; “ Se você quiser eu vou na casa...”, “Deus me livre na minha casa! Não vai mesmo na minha casa não”. Ia falar para o meu pai, tá doido? Eu novinha e tudo... Não, não vai não. E ele: “ Eu vou, eu vou porque eu vou, eu vou, porque eu estou precisando falar com você, falar com seu pai, com sua mãe...” Até que um dia eu cheguei da escola, ele estava lá na minha casa com meu pai, quase que eu não entro, quase que eu não entro, morrendo de vergonha. No dia que ele pegou na minha mão, meu Deus do céu, eu tive vontade de sair correndo, porque não se namorava ninguém, não tinha namoro de agarrar nem nada, né? Aí meu pai disse para ele se ele quisesse namorar comigo que ele podia ir, era de 7:00 h, até as 8:30 h, na sala lá de casa. Aí eu fiquei namorando com ele, das 7:00 às 8:30 h . Quando dava 8:30h o meu pai olhava no relógio e dizia: “Janet!”, eu já sabia, estava na hora de mandar ele embora, né? Tanto passado seis meses ele disse: “Não, eu vou me casar, eu quero me casar, eu já estou ficando velho, não sei o que...” Eu não sabia nem se eu gostava muito dele, né, eu não tinha muita percepção dessa coisa, nem nada, eu vivia envolvida com meu piano, tocar piano, eu queria tocar minhas sonatas, meus prelúdios, aquela coisa todinha, eu não tinha muita noção. Mas casei.

P/2 – E como que foi seu casamento?

R – Esse casamento foi numa igreja linda, Igreja de Santa Rita. Meu pai, minha mãe, o pessoal, os amigos, os vizinhos, minha madrinha, meus padrinhos, o padrinho do... Os conhecidos amigos do meu pai e tudo. Para o meu pai o meu casamento foi assim, é... Ele deixou me casar, mas assim, com aquele receio de pai, né, com medo de eu me entregar para uma vida diferente. E foi, na realidade, o que aconteceu. Ele morreu segurando nas minhas mãos e dizendo assim: “A vida vai te dar grandes encargos, você tem que ser forte.” O que que eu entendia naquele idade de grandes encargos? Não entendia muita coisa. Mas, só depois que a coisa se complicou, quando se concretizou foi que eu fui ver que as palavras do meu pai eram sábias, porque eu passei dez anos casada, nesses dez anos... Naquele tempo não tinha pílula, não tinha anticoncepcional, não tinha camisinha, não tinha nada, eu tinha filho de dois em dois anos. Quando um fazia dois anos, eu tinha outro, fazia dois anos, eu tinha outro. Então, quando ele morreu eu tinha cinco filhos. E o meu pai tinha dito para mim, segurando as minhas mãos? “A vida vai te dar grandes encargos, você tem que ser forte.” Aí foi que eu fui compreender as palavras do meu pai. Porque eu estava viúva, com cinco filhos para criar. E daí! A minha mãe me dando todo apoio e toda cobertura, mas era uma mulher, né? Nós ficamos com uma casa própria, que era a nossa casa e a pensão do meu pai. Aí eu vi que eu tinha que ir trabalhar, que eu tinha que fazer alguma coisa, eu tinha cinco crianças.

P/2 – Quantos anos a senhora tinha?

R – Eu tinha 26 anos. Então, a minha mãe como já estava viúva... Minha mãe era muito rigorosa. Ela dizia assim “ Você é nova, mas você não vai arranjar ninguém, porque você vai fatalmente ter filhos.” E ia; fatalmente se eu tivesse arranjado, me casado de novo, qualquer coisa, eu teria filhos. Então, eu fiz um pacto comigo: “ Se alguém tem que ser sacrificado nisso, então vou ser eu. Mas eu vou criar os meninos!” Comecei aí, me desdobrei pelos filhos, botei na escola e cobrava e fazia tarefa com eles e botava em aula particular, botava em colégio público, botava em aula particular, eu queria assim, como se eu tivesse acelerando a educação deles, para eles se formarem, também, né, para eles se formarem como gente, como pessoa, não era como estudo, era como pessoa, dando uma formação e um exemplo para eles, né? Tanto é, que quando eu entrei na Petrobras eu levava eles para trabalhar de noite, porque a gente virava serão, acabava o expediente 6:00 horas e tinha serão, você podia trabalhar até dez horas, onze horas da noite. Para mim não ir sozinha para casa, a minha mãe fazia eu levar o menino e ele dormia no sofá, da base de Manaus. E eu ia; botava o menino no ombro e ia pegar o bonde para ir para casa, onze horas da noite.

P/1 – Sua família tinha alguma expectativa para a senhora trabalhar, não, era só o casamento?

R – Não, era só o casamento. Quando eu fiquei viúva foi que eu vi que a coisa... Você quando sente a situação, você não precisa ser... Porque as situações, elas aparecem às vezes de modo inesperados. Você está muito bem na vida, tal, estabilizado, de repente vem uma coisa, uma decadência na sua firma, você está falido. Aí, se você não tem um preparo psicológico para isso, você vai dar um tiro na cabeça! Porque estava acostumado com um padrão de vida, né? Então, veio aquilo, a minha mãe me preparou assim: “Não, você tem que cuidar dos filhos, agora você tem que...”. Ela ainda dizia para mim assim: “Ai de você que manche a família!” Como quem diz: eu não podia mais preterir para me casar, ou me juntar com alguém para refazer a minha vida, ela achava que dali em diante a minha vida seria as crianças. E foi.

P/1 – No momento que a senhora ficou viúva?

R – No momento que eu fiquei viúva.

P/2 – Como é que foi essa procura de trabalho? R – Bom, a minha irmã tinha casado com um rapaz que foi “pracinha”. Ele foi à Itália, combateu na Itália e tinha voltado da Itália. Quando ele voltou da Itália ele falou para mim: “Janet, a Petrobras está começando aqui, você podia dar uma chegada lá e ver se você conseguia alguma coisa.” Eu fiquei assim... Eu estava trabalhando na padaria, eu acordava quatro horas da manhã, movimento da padaria é cedo, né, cinco horas da manhã. Eu acordava quatro horas para pegar o bonde, ir para a padaria, trabalhava até quatro horas da tarde e voltava para casa.

P/1 – Esse foi o seu primeiro trabalho, na padaria?

R – Meu primeiro trabalho, na padaria.

P/1- A senhora teve outros antes de ingressar na Petrobras?

R – Não. Só foi esse.

P/1 – Conta para a gente um pouquinho, como é que foi esse trabalho lá na padaria. R – Na padaria eu acordava quatro horas para ir para lá, eu trabalhava no caixa. Padaria, movimento da padaria é cedo, não é cinco horas da manhã, seis horas da manhã. Então eu trabalhava no caixa, só recebendo dinheiro e tal, fazia prestação de conta e tudo, quando dava quatro horas; eles me davam o almoço lá, quando dava quatro horas eu vinha embora. Eu chegava em casa, consegui, para arranjar mais um dinheiro, para ter mais um dinheiro, porque o meu marido era funcionário dos Correios, certo e então, como funcionário federal, lá não tinha nem um órgão que cuidasse de aposentadoria, para tratar da minha aposentadoria para receber os proventos dele. Então tudo era tratado aqui no Rio pelo Ipase [Instituto da Previdência e Assistência dos Servidores do Estado], não havia um instituto chamado Ipase? Os institutos, antes deles se juntarem todos, eles eram separados, era Iapi [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários] , Iapc [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários], Iaptec [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas] , né? Vocês não lembram disso, eles eram separados, todos, cada classificação... Nós éramos Iapi, porque éramos indústria, né, mas funcionário público era Iapetc. Então demorou muito o processo de vim a papelada para cá, para eu começar a receber a aposentadoria lá e nesse tempo eu tinha que comer, tinha que viver, né? Então foi por isso que eu fui trabalhar na padaria. E quando eu chegava da padaria quatro horas da tarde eu costurava, eu pegava costura para fazer. Eu peguei costura da Prefeitura, ela fazia fardas para criança, aquela sainha toda pregueada e aquela blusinha branca, né, então a Prefeitura; eu tinha um amigo na Prefeitura ele me deu, me arranjou esse trabalho da Prefeitura. Então eu trabalhava, quando eu chegava em casa tomava um banho, fazia um lanche, qualquer coisa e trabalhava até onze horas da noite na costura. Aí dormia para quatro horas da manhã ir embora para a padaria. Então isso foi a minha vida nesses primeiros, antes de eu entrar para a Petrobras.

P/2 – E como que a senhora ficou sabendo do trabalho da padaria?

R – Esse meu cunhado...

P/1 – Da padaria.

R – Da Padaria era uma freguesa que a minha mãe tinha, que era mulher de um sócio da padaria. E ela querendo me ajudar, vendo que eu estava necessitada, ela falou para o marido se não estava precisando de alguém e eu fui para lá, trabalhar no caixa.

P/2 – E a primeira vez que a senhora ouviu falar na Petrobras foi...?

R – Foi através do meu cunhado. Ele tinha acabado de chegar da Itália...

P/2 – A Senhora nunca tinha ouvido falar...

R – Não, eu nunca tinha visto falar na Petrobras, era na Rua Marcílio Dias, o escritório lá. Eu fui entrevistada, fiz uma entrevista assim, com um geólogo chamado (Lúcio Semeon Gaia?). Eu não sei, a última notícia que eu tive dele, ele estava no escritório de Nova York, dirigindo o escritório de Nova York. Ele fez o meu teste, quando eu fui... Em maio, quando fui para ser contratada, ele fez um teste para mim, não foi um teste escrito não, ele fez um teste assim, de conhecimentos. Ele pegou a minha ficha, olhou, viu que eu era viúva, que eu tinha cinco filhos e tal, ele perguntou para mim: “A senhora sabe qual é o leite que a fábrica... Quem fabrica o leite que a senhora dá para os seus filhos?” Eu disse: “Sei sim, senhor, mas eu quero a razão social.” Eu disse: “Sim, senhor, é Companhia Industrial e Comercial Brasileira de Produtos Alimentares, a Nestlé.” “Ótimo, muito bem! E a senhora, deve lavar muita roupa, não é, com criança assim... A senhora sabe qual é o sabão que a senhora usa, quem é que fabrica?” Eu disse: “Eu sei, é o Sabão Português, fabricado pela União Fabril Exportadora.”. “Tá bom, muito bom! A senhora pode passar para aquela sala, que vão lhe dar a indicação para a senhora ir para o serviço médico.” Eu fui para o serviço médico. E foi nesse período de seis meses que eu fui contratada. Quando foi no primeiro dia de novembro, último dia de outubro, aí eles fizeram uma prova escrita, para eu fazer uma carta pedindo um emprego para a Petrobras. Eu sempre tive facilidade para escrever, eu nunca dificuldade não. Eu escrevo com a maior facilidade. Diz o que que tu quer e eu... Eu fiz a carta, ele olhou e disse: “Está ótimo! Pode ir para o serviço médico.” Eu fui para o serviço médico, no dia primeiro eu estava trabalhando na Petrobras, estavam assinando o meu primeiro contrato de trabalho.

P/1 – Que ano?

R – 1956. Aí, a Petrobras tinha sido criada em 1953, eu acompanhava por jornal, revista a lei 2004, né, o suicídio do Getúlio, aquela coisa todinha, aquele problema com... Eu sempre gostei desse negócio de política, não sou política não, mas sempre gostei. Então eu acompanhava aquilo. Daí em diante, quer dizer, havia coisas anteriores, eu sabia, porque havia o CNP, o [Conselho Nacional do Petróleo]. Mas ele apenas jurisdicionava, fazia aquelas pesquisas, não tinha atividade de extração, não tinha, certo? Por isso é que foi criada a Petrobras. A Petrobras foi criada realmente para fazer esse trabalho de prospecção e extração do petróleo. Então já tinha sido descoberto um poço em São Paulo e um poço em Lobato. Mas as atenções estavam voltadas para a Amazônia. Amazônia todo mundo sabe que aquilo é um celeiro de tudo quanto é bom, só que está tudo ainda... Ainda não se abriu as portas dali, alguém já furou assim, um bocadinho, o estrangeiro já levou remédio, essas coisas e tal, mas não tinha. Então havia um serviço de pesquisa para perfurar na Amazônia. Então houve essa pesquisa, houve esse trabalho e foi perfurado o primeiro poço na margem do Rio Madeira, numa antiga fazenda, era uma fazenda de gado, desapropriaram essa fazenda para poder começar a perfurar. Lá furaram quatro poços: NO, que é a sigla Nova Olinda, Nova Olinda do Norte, NO1, NO2, NO3, NO4. Mas essas perfurações não revelaram óleo em quantidade comercial, né, existia bacia, mas só... A Petrobras só extrai quando tem realmente quantidade que possa ser expressivo em matéria financeira, não é? Mas de qu

alquer maneira, provou, naquela época, a exploração de gás do Urucu, já se fazia prospecção lá no Urucu. P/1 – Isso em que época, mais ou menos? R – Mais ou menos em 1956, 1957. É a data que tem aí nesse livro, quando começou, tem até uma foto de quando começou. A mata fechada e só aquela clareira, né, foi quando eu vinha contando aquele negócio do rebocador. Nós fomos fazer uma visita a Urucu e o rebocador passou. Nós estávamos vendo a clareira lá no meio da mata, a gente tinha que parar ali mais ou menos, né, para poder entrar na mata. E o rebocador parou, foi embora, passou, foi embora. Eu digo: “Meu Deus do céu, nós não vamos para cá, por que que ele vai para ali?” Eu não entendia. Porque ele subiu, quando chegou lá em cima, mais ou menos 1 quilômetro, eles param a máquina todinha e aí a força da água vem trazendo o rebocador.

P/1 – Isso a senhora estava acompanhando um grupo?

R – Eu estava acompanhando um grupo.

P/1 – Da Petrobras?

R – Da Petrobras. Porque eu sempre fui curiosa. Você imagina que, na seção de material, sabe onde eu trabalhava? Na seção de peças de trator. Eu sei tudo de trator!

P/1 – Assim que a senhora entrou na Petrobras a senhora foi trabalhar nesse setor?

R – Na área de material. Criaram a SRAZ [Superintendência Regional da Amazônia ]com a sede em Belém, a sede central em Belém e Manaus era a base; que Manaus era a operação, então era a base. Mas a gente era dirigida por Belém, né? Então, se criou a base de Manaus para operação, para fazer o trabalho; tinha prospecção, tinha sísmica; sísmica é aquele abalo que dá na terra com dinamite, para poder tirar os cascalhos de lá de dentro, para poder examinar, para ver se dá realmente petróleo ou não, compreendeu? É um trabalho bonito, a sonda vai furando e aqui... E tiram aquele material todo que está. Aquele material era embalado numas caixinhas, chamava-se “testemunho”. A gente mandava as caixinhas tudo codificada direitinho, vinha para cá para o Rio, para laboratório, para examinarem, para ver se naquele poço daria petróleo, ou teria petróleo comercial. Então não havia essa tecnologia que hoje há, naquele tempo tudo era primário, tudo era assim, muito rústico, e eu trabalhava nessa parte de fornecer... Você imagina que entrava o trabalhador com os terçados, machado, para abrir o lugar, depois para poder entrar um trator, entrar um carro para levar lá dentro os operários, levar mantimentos para eles armarem aquelas casas de lona, que eles dormiam ali mesmo, certo? Então, tudo era muito primitivo, tudo era muito precário, muito sacrifício, certo? Aquelas sondas para chegarem lá, aquela tubulação... Eu não sei se vocês já viram, tem uma tubulação que ela vem lá de cima e a máquina vai... A sonda vai entrando na terra, né? Quando chega aqui embaixo, que ela já está para entrar, a outra já está para amarrar, então, tem o torrista que é o que trabalha lá em cima e tem o plataformista que trabalha aqui embaixo, né? Esse daqui toma conta dos tubos que tem que entrar e esse daqui, na hora em que ele encaixa, ele tem que enroscar para aquele tubo continuar rodando e vai embora... Aqueles tubos enormes. Aquilo é uma sequência, vai furando até encontrar. Em determinados dias tiram tudo, aquelas tubulações de novo, para ver o que está dentro do tubo, aquilo ali é que vai ser examinado. Agora eu não sei, porque agora é no mar, né, mas em terra era assim que se procedia.

P/2 – E a senhora participava disso tudo?

R – Ah, eu participava!

P/1 – Conta para a gente então, um pouquinho, como que era esse seu trabalho, a relação entre amigos...

R – Eu fui trabalhar no... Foi o seguinte, lá existe a Manaus Harbour, é a concessionária do Porto de Manaus; não sei, vocês já devem saber por revistas, por noticiário. O Porto de Manaus ele é flutuante, são umas boias, né, é feito por uma companhia inglesa, então ele é preso no paredão de pedra e ele sobe e desce, de acordo com a maré, porque lá tem maré, né, o rio sobe e desce. Então quando sobe ele vem aqui para cima, os navios encostam ali, descarrega e tudo, e quando desce ele faz a mesma coisa. Então, em torno daquela base criou-se os armazéns para armazenar, como nós temos as docas aqui, não é, nós não temos as docas? Assim tem os armazéns lá. E o governo cedeu um armazém daquele para a Petrobras botar o escritório dela, certo? Este chefe, o primeiro chefe era um homem de Marinha, né, agilizou as coisas e a Manaus Harbour, que era a empresa inglesa, cedeu aquele... Então nós fomos para aquele galpão, né, não era um prédio, era um galpão todo de zinco, ali nós fizemos paredes assim, tabiques de compensado e formaram-se as seções; seção de material, seção de pessoal, caixa, fiel de caixa, essa coisa todinha, entende?

P/2 – Tudo lá?

R – Tudo lá. Então, ali era o nosso mundo. Como nós ficávamos na beira do rio, do paredão do rio, encostava os rebocadores, as lanchas e tudo. Essa era a operação por água. E tinha a perfuração aérea, que eram os Catalinas; lembram daqueles aviões que “sentavam” na água, os Catalinas? Os Catalinas levavam o material mais leve, inclusive manutenção, comida para o pessoal e tudo, compreendeu, nas equipes. Esse Rodrigo Barbosa era chefe, era... Ele foi fiel de caixa de uma equipe, entrou como trabalhador braçal, com terçado no meio de mata, quando ele chegou lá, que ele já se fez, ficou lá, um dia tinha faltado lá um camarada que cuidava do dinheiro do cofre da empresa e ele assumiu, ele tinha capacidade...

P/2 – Ele tinha.... ?

R – Tinha capacidade. Ele tinha dois cursos superiores e entrou como trabalhador braçal.

P/2 – Por quê? R – Eles queriam entrar na Petrobras. A Petrobras teve, sempre teve um prenúncio, de ser uma empresa com grande futuro, certo, então todos queiram entrar na Petrobras; principalmente homens, que sabiam... Porque homem é mais chegado a aventura, vai para a mata, vai fazer picada na mata, vai encontrar onça, esse negócio todinho, essa aventura, era muito essa aventura, compreendeu?

P/2 – E para a senhora, o que que significava entrar na Petrobras?

R – Para mim significava segurança, eu tinha certeza que a Petrobras seria uma grande empresa e significava segurança para mim. Tanto é, que quando ela foi criada, depois que ela foi criada, que começou todo aquele movimento político, que culminou com a morte do Presidente, né; em 1953 ele assinou a Lei, em 1956... nesses três anos eu comecei a me interessar por esses problemas da Petrobras, compreendeu, me interessar, até que em 1956 eu entrei. Agora, eu lá dentro, casei, bordei, eu tinha tudo nas minhas mãos, os elementos para conhecer a empresa e eu queria conhecer, eu queria conhecer de tudo, desde a operação mais rudimentar, até as coisas mais elevadas. Aí eu comecei a seguir o desenvolvimento do Sudeste, do Nordeste, as perfurações na Bahia, Lobato, essa coisa toda, eu lia tudo, procurava ler tudo, certo, e sempre tive um bom relacionamento com meus chefes. Aí nessa revista têm muitas pessoas que ainda me conhecem, estão vivas, certo? O doutor Heitor Manuel Pereira, que hoje é chefe do Clube de Engenharia, né, é um pernambucano. Eu tive inclusive relações assim, boas com a família dele, que a minha filha era moça e saía com a filha deles, levavam para festas e tudo.

P/2 – E como é que era esse “ser mulher” nessa época, ser mulher, trabalhar na Petrobras...?

R – Olha...

P/2- No meio de um “bando” de homens...

R – Era, era meio brabo, mas a pessoa... Aí é que eu acredito que a pessoa em si, ela faz assim, ela faz o seu ambiente. Porque se o homem vê que você não dá margem, ele não avança. Eu me lembro de um fato muito importante logo que eu entrei, deste retratinho, aquele mesa com aquele ventilador e aquela... Eu entrei e tinha um rapaz alemão, vivia rondando lá minha sala, vivia rondando. Um dia o meu chefe, era o Carlos Acatauassú Nunes, um engenheiro geólogo, era o chefe da base. Ele chamou o rapaz alemão e disse para ele: “Olha, a Janet é uma pessoa viúva, ela tem cinco filhos e ela é muito direita. Você não se atreva porque você não vai encontrar entrada.” Ele andou me escrevendo umas duas cartas da Alemanha, depois ele foi embora para a Alemanha ainda me escreveu umas duas cartas. Acabou, ficou por aí. Eu vivia no meio daqueles homens plataformistas, torristas e tudo, nunca aquelas criaturas me disseram alguma coisa. E eu era braba, no meu trabalho eu era braba mesmo, eu fazia cumprir as ordens.

P/1 – E tinha muitos graus assim, hierárquicos lá dentro, como é que era a relação com os chefes... ?

R – É, tinha o chefe da base e tinha os chefes de seção, né? Hoje eu não sei se já mudou, mas eu estudei muito a estrutura da empresa.

P/1 – Como é que era essa estrutura?

R – Era o Conselho de Administração, o CA, que a gente chamava. O Conselho de Administração englobava dois órgãos importantes, que até hoje são importantes; era a Divisão de Informações, a Divinf e a Diaudi, que era Divisão de Auditoria. Esses dois estão lá em cima, quando passa para um presidente, já vem tudo “peneirado”, já vem tudo arrumadinho, direitinho; quer dizer, o presidente já toma conhecimento para iniciativa dele e dos departamentos, já vem organizado as informações corretas, o que é certo, o que é errado e a fiscalização no funcionamento da empresa, certo? Então, eu hoje, que eu vejo assim esse governo com tanta falcatrua, eu me pergunto: “Essa gente nunca teve auditoria”, porque se tivesse auditoria, uma auditoria rigorosa, talvez não tivesse isso tudo, não se deixasse chegar a esse ponto, né? A Petrobras, você nunca viu a Petrobras metida em escândalos, nunca. É uma empresa séria, organizada, funciona, não tem um empregado da Petrobras que diga “Eu vi essa falcatrua” ou “Vi isso errado, que passou”, não, cada um de nós era um vigilante. Eu lembro de, na gestão do Coronel Dourado, que era base de Nova Olinda, quando foi a visita da Rainha Elizabeth, né, eu vi a Rainha Elizabeth de perto, eu fui até a balsa, a corveta que levou ela era linda, uma corveta branca, da Marinha e duas outras, eram três “monstros” daquelas embarcações com ela, foram, levaram ela na base de Nova Olinda para ela conhecer a primeira base no Amazonas que deu óleo, né?

P/2 – Como é que foi a recepção?

R – Eu não fui, eu estava em Manaus, eu só providenciei as coisas, mas eu não fui. Dizem que foi muito bonita a recepção dela.

P/2 – O que que a senhora teve que providenciar?

R – E tive que providenciar toalha, as “benditas” toalhas. “Me manda toalha”, o Coronel: “Me manda toalha de linho, me manda copo de cristal, me manda prato de porcelana, me manda, tudo que tu tiver aí de bom me manda, que eu vou receber a Rainha Elizabeth.” Meu Deus do céu! Eu larguei a minha mesa, disse para o Coronel: “Coronel, eu vou para a rua, eu tenho... Eu não posso ficar aqui, que o Coronel de lá está me apertando para mandar as coisas. Então eu vou ter que mandar.”, “Vai, vai, manda para ele que ele tem que fazer as coisas.” Então... Depois teve a visita da Terezinha; Terezinha já foi com o chefe de Relações Públicas, né, ela foi fazer uma visita lá, ficou lá conosco...

P/2 – A visita era ?

R – Era a Miss Brasil, foi Miss Brasil, nós recebemos uma Miss Brasil lá. Então a gente tinha, de uma certa forma...

P/1- E como foi essa recepção?

R – Ah, foi muito [pausa]. (Fim da fita nr. HV/2004-03)

P/1 – Bom, retomando, a dona Janet estava contando para a gente da visita da Miss. Como é que foi, conta aí para a gente?

R – Olha, foi uma visita rápida, não demorou porque ela, naquela época, ela estava em evidência, né, como Miss Brasil e ela era uma moça assim, me pareceu muito inteligente, né, além de bonita, viu, além de muito bonita. E ela fez uma visita rápida, passou um dia, dormiu lá e no outro dia o Catalina foi apanhá-la, né? Ela veio para Manaus e veio embora, foi uma visita rápida. Mas as coisas assim, por exemplo, do trabalho mesmo, para você vê a seriedade com que a Petrobras encara o “bem”, o patrimônio dela, teve um administrador de campo que perdeu a chave do cofre, as equipes todas elas tinham um cofre porque tinha valor, né, tinha dinheiro, tinha dinheiro para pagamento do pessoal de campo, aquele dinheiro não podia faltar e o cara perdeu a chave do cofre. Não sei, ele podia ter outros jeitos, outras modalidades de abrir, ou de pedir da gente um socorro porque ele tinha que abrir os cofres para pagar, fazer o pagamento de fornecedor, de empregado e tudo. Ele não teve dúvida, ele pegou um maçarico; sabe o que é maçarico, aquele negócio... Ele cortou a porta do cofre e abriu. Na outra semana ele fez uma CI, que a gente chama Comunicação Interna, é um documento prático na empresa, CI, fez uma CI para mim, dizendo que o cofre estava chegando para ligeiros reparos. O cofre estava cortado, a porta, a fogo. Quando eu recebi a comunicação, o cofre estava lá no rebocador... “Coronel, o senhor vai dar um jeito, olha aqui!” “Ótimo Janet, patrimônio da empresa, né? Dilapidou, acabou com o patrimônio da empresa. Tem que fazer, chama ele.” Sumariamente o cara foi demitido, o Coronel não aceitava, ele era muito rigoroso. Eu acho que por isso eu trabalhei com ele em Manaus e depois quando fui para o Maranhão eu trabalhei com ele. Quando veio desbaratado pelo AI-5 [Ato Institucional número 5], o famoso famigerado AI-5 [riso], que a gente foi embora, ele disse: “Eu quero a Janet, pode mandar ela para mim que eu quero.” Aí foi que eu fiquei três anos no Maranhão e depois eu fui para o Rio.

P/1 – Mas como que era trabalhar em Manaus, como estava nesse momento... ?

R – Olha, trabalhar em Manaus foi uma coisa assim, muito prazerosa, porque tudo que é pioneirismo pode ser difícil, mas é importante. Porque você sabe desde uma criança nascer; nascer uma criança é difícil, mas depois que ela nasce é uma benção, né, é uma beleza. Então, tudo na vida da gente tem uma parte difícil, mas essa parte difícil é que alicerça as glórias, o sucesso que você vai ter no futuro. Você vai contar, assim como eu estou contando hoje, esses 32 anos que eu passei dentro da empresa, né? Então, quando eu fiz dez anos, eu recebi o primeiro diploma com dez anos; fiz 20 anos, recebi o diploma de 20 anos. Já aqui no Rio eu sabia que tinha o diploma de 30 anos, mas era raro uma mulher receber, porque geralmente a mulher nunca completa o tempo de aposentadoria, né, ela nunca completa, ela sempre sai um pouco antes, né, e não completa o tempo e eu completei. Eu recebi o meu diploma de 30 anos aqui no Museu de Arte Moderna. Só duas mulheres que receberam de 30 anos, o resto tudo era homem, certo, empregados que completaram 30 anos. Então este livro diz que o patrimônio da empresa é o “patrimônio humano” que ela tem. As pessoas daquela época, não sei hoje, mas elas se agarravam assim, com muita força na empresa, cada um dava o melhor de si, compreendeu, para que... Como eu disse para vocês, trabalhava com peças de trator, então eu mandava filtros de tratores, filtros para filtrar o óleo do trator para as unidades e descobri em Rio Branco que o cara estava pedindo muito filtro de trator; eu tinha os prazos, eu tinha meus controles e meus prazos de recompor o material, eu aprendi que material não existe estoque zero numa empresa, nem na tua casa. Quando está para acabar o açúcar, tu já vê que já está para acabar tu, já vai repondo. Então na empresa é muito pior, não pode faltar material então você tem um ponto de repor. Então eu vi que ele está pedindo muito amiúde e a minha responsabilidade era atendê-lo, mas eu também tinha responsabilidade com meu chefe. Então eu levei ao chefe e falei: “Olha, eu já mandei tantos filtros de óleo para ele, ele está pedindo de novo. Eu não sei o que que está acontecendo. Eu não posso porque eu tenho os custos deste filtro de óleo.” Aí foram apurar. Tinha uma cidadezinha próxima lá, ele vendia os filtros de óleo que eu mandava para ele. 

P/2 – E aí, ele foi demitido?

R – Foi demitido, sumariamente. Foi demitido.

P/2 – A senhora trabalhou só nessa área ou em outras áreas, em Manaus?

R – Não, em Manaus eu só trabalhei em material.

P/2 – Só em material.

R – É, comprava da verdura até a...Mandava pedir broca. Porque o material pesado se pedia daqui, ia para lá e a gente distribuía.

P/1 – Daqui do Rio?

R – Daqui do Rio. E o material de consumo, de comida, de roupa, dessas coisas, era feito lá e a gente mandava ou de balsa, ou de avião. Nós tínhamos o Catalina que levava esse material.

P/2 – Quanto tempo demorava, para pedir? Aí como é que era?

R – Não, ele pedia através de uma RA; se chama Requisição Almoxarifado. Se eu tivesse esse material no almoxarifado, eu imediatamente providenciava e despachava, se eu não tivesse eu ia fazer uma consulta de preço com vários fornecedores, para saber qual era o melhor preço, para poder fazer um pedido de compra, compreendeu, eu trabalhava com isso.

P/2 – E de onde a senhora tirava uma folguinha para ir acompanhar as expedições, como que era isso?

R – Porque tinha ocasiões que era preciso eu ir, às vezes eu queria ver como era que estava funcionando lá, para poder ter uma visão do que que eu estava fazendo aqui. Eu tinha que saber como é que ele está funcionando lá para eu saber como é que eu estava fazendo aqui, se eu estava mandando tudo a tempo, porque havia coisas que não podia faltar, você tinha que estar reciclando todo tempo, todo tempo, então não podia faltar. Eu não podia deixar, como eu dizia: “Não posso deixar a peteca cair”. O cara dizer para mim que faltou tal material para a sonda dele e eu não mandei, ia ficar parado. Uma operação daquela parado uma hora é um prejuízo enorme, certo? Então eu tinha, sempre tive consciência disso. Então eu me desdobrava...

P/1 – E tinha muitas pessoas trabalhando com a senhora, não, nesse setor?

R – Tinha umas dez pessoas, certo, trabalhando no almoxarifado. Eu fiz inventário. Eu fiquei com a cabeça tão maluca de material, que eu sabia parafuso sextavado, cabeça grossa, cabeça fina, sabia não sei quantas qualidades de parafuso, eu tinha aquilo tudo na cabeça, eu sabia, quando o cara pedia, e eu já ia direitinho no escaninho, tirava, contava, fazia para depois envelopar e ir embora. Então essas coisas assim, que fizeram assim, da minha vida, os fatos que eu hoje conto, as coisas que se passaram, como eu te disse, a Páscoa que eu promovia lá, né, tinha que ter... “Pô, a gente tem que ter uma Páscoa aqui, esse pessoal tem que rezar, tem que comungar, tem que fazer alguma coisa”, só arrumava o altar; na base, isso tudo na base, não ia na Igreja não, era na base. Arrumávamos uns caixotes, forrava com lençol, com umas cortinas, botava o santo e tudo e contratei com o padre para ele estar dia tal, às tantas horas, para o padre ir para lá rezar a missa. E aí convoquei; eu era tipo de sindicato, eu convocava o pessoal todo da minha área: “Olha gente, nós vamos fazer uma Páscoa, todo mundo tem que rezar, tem que comungar...”, muito bem, todo mundo aderiu, né, e todo mundo ficou em jejum. Era no outro dia 7:30 h da manhã era para ser a Páscoa e todo mundo comungar. O pessoal reuniu todinho e espera o padre; cadê o padre? O padre não aparecia. E deu sete horas, deu sete e meia, oito horas, oito e meia e o pessoal começou: “Eu já estou com fome, eu já quero comer, eu já quero tomar café...”, “Espera aí que o padre vai chegar.” O padre veio chegar eram dez e meia, teve um defunto lá, uma pessoa, uma missa, um negócio para ele fazer, ele se atrasou, pediu mil desculpas, eu disse: “ Frei José, não peça desculpas não, aconteceu, aconteceu.”, “E o pessoal que vai comungar?”, só já tinha três ou quatro, o resto já tinha tudo tomado café, não ia mais comungar. Mas fizemos a Páscoa. Fazíamos brincadeira de Natal também, certo, fazíamos brincadeira do Natal; eu congregava assim, as pessoas. Eu trabalhava... A minha sala era contígua ao caixa, porque trabalhava o fiel de caixa e a gente não tinha...O serviço era muito, era pilhas de material que vinham assim, para a gente despachar, então você não tinha muita hora de almoçar. Você se almoçava lá, mandava buscar um sanduíche, ou qualquer coisa, almoçava lá e continuava trabalhando, continuava trabalhando, não tinha... Não ia olhar para o outro... Só ia lá...Porque tinha que bater o cartão de ponto, sempre tivemos que bater o cartão de ponto. Batia-se o cartão de ponto, voltava e trabalhava. E às vezes a gente ficava com fome, estava com uma fome, não dava para sair para comer, não tinha quem fosse comprar um sanduíche e eu ficava falando em comida; eu sempre gostei de coisa de casa, né, fazer comida... Eu ficava falando em comida, porque isso... Eu fazia um vatapá com um tanto de camarão e bota castanha de caju, e bota uma pimenta não sei o quê, o cara batia assim na porta: “ Cala a boca “diabo”, eu tô morrendo de fome aqui e tu só fala em comida” [riso]. Esse rapaz, a última vez que eu estive com ele, ele estava na Reman, na Refinaria. Eu fui há quatro anos, que eu fui para o casamento de uma neta minha e que já tem até um nenezinho; e eu fui visitar a Refinaria, eu fui à Refinaria. Mais muito bonito; a Reman, que foi Copam [Companhia de Petróleo da Amazônia], do senhor .Isaac Sabbá, Isaac Benayon Sabbá, era o nome do dono daquela Refinaria, hoje é a Reman. Então, todo o pessoal que era da SRAZ [Superintendência Regional da Amazônia], hoje está ligado, pelo menos historicamente, a Reman, porque é o órgão que ainda existe lá.

P/1 – Na época a senhora entrou, a senhora foi para a Reman.

R – Não.

P/1 – Ou ainda não era Reman?

R – Eu fui SRAZ.

P/2 – O que que significa?

R – É Superintendência Regional da Amazônia, SRAZ, certo e a Manaus era a base. A Superintendência dirigia, era o patrão e nós éramos a base de execução, certo, era assim que funcionava.

P/1 – E a senhora lembra assim alguma coisa que a senhora não tenha gostado nesse período que a senhora estava lá, que tenha lhe desagradado?

R – Não. Período desagradável foi quando eu... Pela “bendita” revolução, que eu estava com a minha casa em construção, a casa estava levantada as paredes, ainda não tinha nem piso, só tinha o telhado e eu tive 15 dias, a Petrobras me deu 15 dias para eu me apresentar no Maranhão. Eu fechei a obra, entreguei a obra para o Banco Ultramarino, não é da época de vocês, existia um banco chamado Banco Ultramarino, no Brasil. Então eu entreguei a obra para o Banco Ultramarino, botei tábuas, tabiques nas janelas, na porta, botei a minha mãe, porque eu estava num apartamento de uma casa alugada, botei a minha mãe e os meninos e fui me embora para o Maranhão. Eu só ia em Manaus uma vez por ano, de férias. A mamãe, a minha mãe é que foi o “baluarte”, a mamãe é que comandou os meninos lá, botava na escola, aguentou essa “barra”. Quando eu saí do Maranhão foi que os meninos e a mamãe voaram para o Rio, nós fomos nos encontrar no Rio três anos depois. Mas aí só foram os quatro, a mais velha já estava casada em Manaus, ela ficou e só foram os quatro comigo, são os quatro que estão lá, que estão aqui agora.

P/2 – Agora, nesta época em Manaus ainda de exploração, a senhora não tem uma história que tenha marcado nessas aventuras, tristes, alegres?

R – Só a do defunto no dia de carnaval.

P/2 – Conta para a gente.

R - Morreu esses rapazes; tiveram esses acidentes, né, na mata.

P/1 – Qual foi?

R – Árvore... Uma árvore, dá tempestade, numa mata como a Amazônia, você não imagina, né, uma tempestade? E uma árvore caiu e caiu em cima do alojamento e matou três pessoas. Dois rapazes eram operários nossos, brasileiros, mas matou um engenheiro, um geólogo italiano. E era terça-feira de carnaval quando o rapaz da... Porque sempre ficava os vigias e motorista na base. Eles receberam a notícia e o rapaz ficou sem saber; terça-feira de carnaval, tudo fechado, não tinha nada que a gente pudesse se valer, ele foi e telefonou para mim, eu estava em casa, ele me contou: “Janet, aconteceu isso assim, assim, e eu não sei o que que eu faço.” Aí eu disse: “Olha, eu vou para aí, eu vou para aí.” Aí, me vesti, peguei um táxi, fui para a base. Cheguei na base eu disse: “Olha, nós temos que... Agora a providência é nossa, ou certo, ou errado nós temos que fazer alguma coisa, então vamos pelos caminhos mais legais que a gente tem, primeiro: chamar o Catalina para tirar o corpo lá de dentro da mata e trazer para Manaus, de Manaus nós vamos ter que se comunicar com o Rio de Janeiro, para ver as instruções que o Rio de Janeiro dá, né, o que que a gente tem que fazer.” Logo me ocorreu, ele era estrangeiro, tinha que mandar ele para a terra dele, né, aí eu digo “Eu não tenho consulado em Manaus, italiano”, eu tinha que me comunicar com o Rio de Janeiro. Aí nós nos comunicamos com o Rio de Janeiro, fomos ao chefe da base, lá ele tomou conhecimento, mas ele tomou conhecimento das providências administrativas e tal. Daquela de pegar o corpo, levar para cá e lá, era eu e o motorista. Então, aí nós acordamos com o Rio que tinha que embalsamar o corpo do rapaz e vim para cá para ver se pegava um avião para levar para a Itália. Mas aí a gente tinha que coordenar o vôo do avião; era Varig, naquele tempo só a Varig fazia esse vôo direto, Rio de Janeiro –Manaus - Rio de Janeiro, até hoje ainda tem aquele vôo. Quando eu vou, eu vou nele porque é um vôo maravilhoso, são três horas e meia voando do Rio de Janeiro para Manaus, chega dá sono na gente. Então... Aí, vamos levar para o Instituto Médico... Primeiro, mandamos buscar o Catalina, quando chegou do Catalina, do aeroporto nós fomos buscar, levamos para o Instituto Médico Legal. Aí eu fui na empresa pegar as chaves com o vigia, para abrir a ficha dele, para pegar a ficha, os documentos deles, as coisas dele que tinha na empresa, para a gente poder tratar do problema do óbito, né? Aí, já entregamos logo ele no Instituto Médico Legal e fomos ver as documentações dele, para reproduzir aquilo tudo para a gente ter, para acompanhar o corpo, para mandar para o Rio de Janeiro outra “pá” de documento e do Rio de Janeiro ir para a Itália também com um monte de documento, que era as coisas para o rapaz ir. E agora? Ninguém tinha xerox naquele tempo; a gente tinha mimeógrafo. Passar tudo aquilo no mimeógrafo, juntar, etiquetar, botar num envelope. “Esse é para nós, esse aqui é para ir para o Rio, esse aqui é para do Rio ir para a Itália” e aí a Varig estipulou: “Vocês tem até às “tantas” horas para entregar, porque não entrega no aeroporto, entrega no hangar”. Defunto não entra assim na...Junto com passageiro não, entra uma carga, entra lá escondido e nós tínhamos horário para entregar, o avião saía sete horas, a gente tinha que entregar às cincohoras, o corpo. Ah, meu Deus! Quando nós saímos do Instituto Médico Legal e carro? Não tem funerária, não tem carro, eu disse: “Ô Walmir, faz o seguinte: pega a Rural, desce os bancos da Rural e a gente bota ele na Rural e leva; é o único jeito, não tem outro jeito.” Aí descemos os bancos da Rural, botamos, aí coube o caixão, né, ele não era muito grande, coube o caixão, nós fechamos... Quando nós saímos do escritório, que era uma parte assim mais da área do porto, que íamos pegar a avenida principal para cortar para ir para o aeroporto, quem disse? Estava tudo tomado de bloco...

P/2- De carnaval?

R – De carnaval, era terça-feira de carnaval. “Meu Deus do Céu! Por onde é que nós vamos passar, nós temos hora para entregar esse corpo, que que a gente vai passar?” E ele dirigindo, eu não queria que ele ficasse nervoso, né, porque ele estava dirigindo. Aí, quando chegamos numa hora que nós empacamos mesmo, ele disse assim: “Janet, salta e fala com um guarda, explica para ele que nós estamos com um corpo aqui para levar para o... Fala para ele.” Eu ia sempre de linha de frente, eu digo: “Não, eu vou sim.” Aí eu fui andando assim no meio do povo, encontrei um guarda, dois guardas estavam. Aí eu disse para ele: “-Moço, o senhor quer me fazer um favor? O Senhor quer abrir caminho que nós temos um problema aqui, tem uma pessoa que nós vamos levar para o aeroporto, um defunto que está aí, nós temos que levar para o aeroporto para embarcar.” Ele olhou para mim e disse assim: “Quanto quer pela brincadeira?” O nervoso aí me subiu, o sangue me subiu. Eu disse: “Moço, não é brincadeira, não. O Senhor quer ver eu lhe levo...”Aí o outro que estava com ele foi que tomou, disse: “Ela não está dizendo besteira.” Aí disse: “Não, espera aí, deixa eu ir lá com a senhora.” Aí foi ver, aí conversou com ele: “Rapaz, nós estamos com esse corpo aqui, estamos levando para o aeroporto, esse corpo vai embarcar daqui para o Rio de Janeiro, para do Rio de Janeiro ir para a Itália.” Aí foi que o cara aí foi abrindo o pessoal, o povo todinho, aí foi que nós conseguimos passar.

P/2 – Isso em que ano, mais ou menos?

R – Foi em 1958-1959. A operação estava na mata, estava firme mesmo, estava bem operosa lá na mata, o pessoal estava cavando mesmo.

P/1 – E quais eram assim as expectativas com exploração, nesse momento?

R – Era aquela expectativa e eu digo, se tirava os testemunhos, né, para ver e vinha para cá, para o departamento de geologia, para analisar. Por aqueles cascalhos que saía dentro da broca é que você sabia se a prospecção era favorável ou não. Porque em petróleo não adianta cavar com um pocinho, os caras têm que cavar com uma bacia, né, que seja comercial que dê para fazer alguma coisa. Então lá era simplesmente... Eram veios, quando furava, não furava aqui, porque eu acho que as bacias sedimentares elas são como um corpo humano, ela tem veias assim, certo, que saem daqueles bolsões, né, então, se furasse numa veia daquela era pouquinha coisa que saía, né, então era preciso em outra parte, por isso que a operação era a sismografia, a gravimetria; sismografia é aquela que abala o solo, né, depois vai a gravimetria para furar, a sísmica, né, e depois vem a que extrai, a que tira, cada um tem a sua função...

P/1 – E os resultados daquele momento?

R – Depois tem o que refina, tem o que distribui e aí vai adiante. P/1- E os resultados naquela época, como é que estavam?

R – Naquela época não eram promissores, tanto é que a operação foi descambando para cá, para o Nordeste, né, para a Bahia, São Paulo, teve Lobato, né, Lobato estava... Lobato ainda era o famoso “cavalo de pau”, não sei se vocês se lembram... uma sonda que é assim, parece um manuá, parece um cavalo, vocês já viram em filme de faroeste, não viu? Aquilo é o “cavalo de pau”, eu ainda peguei aquelas sondas, “cavalo de pau”, eu ainda vi aquelas sondas em operação. Então era assim, nós chegamos no aeroporto o comandante estava com uma cara desse tamanho, o avião já estava atrasado, tinha que receber os passageiros, aí fui me metendo, fui botando no porão do avião e nós entregamos os documentos, aí já é...O Rio de Janeiro aqui tomava conta para daqui mandar para Manaus. Foi um pedaço... Ai menina! Nunca me esqueço disso, do nervoso que eu fiquei, da raiva que eu tive do cara perguntar “Quanto quer pela brincadeira?”.

P/1 – Em pleno carnaval.

R – Em pleno carnaval, ah!

P/2 – E vocês ficavam ansiosos para achar a bacia, o petróleo, como é que era o clima?

R – Não, o clima era de expectativa, porque daqui e dali, poderia vir a sobrevivência do projeto, né, da base. Se tivesse óleo em quantidade, nós estaríamos... Não era a revolução que tinha acabado, a gente tinha que continuar. Mas a revolução foi como que...“Está dando um pouquinho, não é comercial, não é promissor financeiramente? Então acaba, pronto.”

P/2 – Mas vocês acreditavam...

R – A gente acreditava, sempre acreditou. Porque havia um negócio; como se diz, à boca pequena, que nós estávamos ali em cima, né, a Venezuela não está ali adiante? A Venezuela não é o maior produtor de óleo? Então, o que vem na tua cabeça? Isso lá embaixo... Que esse óleo que a Venezuela está tirando lá, não seria do nosso? A gente não tem sempre aquela... A Venezuela, ela está tirando... Mas esse óleo era nosso, se furar aqui vai dar é o óleo que a Venezuela está tirando lá, certo, se fica ali pertinho. Então a gente tinha sempre essa expectativa, essa expectativa que levou a gente a lutar pela Petrobras. É, um ponto que eu sempre relato, relatei isso lá no Edise, a criação da Petros, a Petros foi assim uma coisa que foi pensada. Como ela era dirigida por militares, a base era... Primeiro se pensou no reembolsável; sabe como é o reembolsável? Que tem no Exército, é uma espécie de supermercado que as famílias se abastecem e é cobrado diferentemente, compreendeu? Primeiro se pensou em fazer um reembolsável, depois... Porque sempre se ficou pensando que o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] era muito fraco, não era aquilo que a Petrobras queria para os empregados dela, né? Então começou se criar a Petros. Só que havia um problema, a gente já contribuía para o INSS e então ninguém mais contribuir mais para a Petros, ninguém queria. Já não contribuía... P/1 – E como que era essa contribuição? R – Era um percentual como, mais ou menos, do INSS, a gente tinha um percentual que descontava... Para criar a Petros precisava, mas precisava da adesão de todo mundo. Você vê, agora estão fazendo um problema aí de negócio de vida, de problema de saúde, mas só pode de formar uma coisa quando se junta elementos que possam dar forma àquilo. Então a Petros começou... Eu acho que foi o primeiro, a primeira ideia. Nós tínhamos um operador de rádio e os rebocadores tinham os transmissores, aquelas torres de… Lá em cima, aqueles equipamentos de transmissão. E esse rapaz foi consertar um aparelho de transmissão lá em cima, no mastro, na torre do rebocador e ele caiu de lá. Quando ele caiu, ele bateu com a costa no dorso do rebocador, quando ele caiu n'água ele já estava morto. Então esse homem tinha oito filhos, era do Pará, era da Superintendência. Então , esse só tem, a família só vai ter o INSS, é a única coisa que essa família vai ter. Então, o Coronel Jarbas Passarinho, Jarbas Gonçalves Passarinho, que foi Governador duas vezes de Belém, né, do Pará, foi nosso Superintendente. Ele teve uma ideia: “ Vamos passar um rádio-circular, todos os empregados da base vão contribuir com 1 cruzeiro”; naquele tempo era cruzeiro, “Cada um de nós vai dar 1 cruzeiro para ajudar essa família.” A mulher tinha oito filhos e não tinha nem uma casa. Na época fizeram essa circular, nós arrecadamos 9 mil e duzentos reais... Cruzeiros; naquele tempo era cruzeiros e fizemos a entrega para ela. Com esse dinheiro ela comprou uma casa e ficou com mais a pensão do INSS. Quer dizer, aí nasceu a ideia que a gente precisava de algo mais, de alguma coisa a mais que complementasse o INSS; eu não digo que tenha sido esse fato isolado, mas a ideia talvez tenha nascido daí, “Nós precisamos ter alguma coisa a mais que o INSS”. E aí começou a se formar a ideia, começou as pesquisas para ver: um quer outro não quer, “Não, eu já pago INSS não quero mais.” Eu não, eu abracei a ideia na hora: “ É para pagar, é para benefício, então eu quero.” Então eu fui das primeiras que assinei, brigava, fazia discurso lá: “ Gente, vamos aderir a Petros, a Petros é uma coisa boa, a Petros é uma coisa que vem complementar, vai ajudar muita gente.” Ficaram muita gente que não aderiram na época, depois a empresa deu uma outra chance para os que tinham ficado fora, para entrar pagando, claro, os atrasados desde a fundação, né? Porque a gente vinha, desde a fundação estava pagando, quem entrasse aqui ia ficar um vácuo, né? Não, então a pessoa entrava... A Petrobras deu essa prerrogativa de entrar pagando os atrasados, mas muita gente não quis. Então, têm algumas pessoas na Amazônia que só tem o INSS, perderam a ...

P/1 – Conta para a gente como que foi essa criação da Petros, se a senhora lembra alguma coisa?

R – Era uma... Como se diz assim, um chamado, era uma convocação: “Vamos criar um órgão para suprir a carência do INSS...”; naquele tempo a gente já sabia que o INSS não... E era ainda separado, nós éramos Iapi, éramos indústria. Tinha o Iapc comerciários, tinha os bancários, né, tinha os funcionários públicos, era o Iaptec, era tudo separado, depois foi que fizeram a fusão, ficou INSS. Então, que foi que aconteceu? Quando fizeram essa fusão aí foram se estruturando, nesse tempo a Petros foi convocando o pessoal “Quem vai, quem vai, quem vai”, até quando tinha o número já elevado, foi criado a Petros, a Petros foi criada. Que tem o Diário Oficial, que eu guardei a cópia do Diário Oficial que foi publicada e o primeiro estatuto da Petros, o primeiro estatuto. Depois teve um outro com algumas modificações, mas na íntegra mesmo, a ideia mesmo é aquela central: munir o empregado, agregar o benefício Petros ao INSS. Tanto é que no seu contracheque vem INSS e Petros, certo, vem tudo separadinho direitinho.

P/1 – Conta para a gente, dona Janet, como que foi a transferência para o Maranhão. O que que aconteceu nesse momento?

R – Esse momento é aquilo que eu disse, fiquei muito chocada porque eu estava com a minha casa em construção em Manaus. Mamãe tinha... Pela morte do papai, minha mãe tinha um terreno grande, dividiu, deu a metade para mim e metade para minha irmã. Nós éramos três irmãos, tinha um homem, mas esse mais novo estava muito bem de vida, tinha uma estabilidade financeira, uma família e tudo, a minha mãe chamou ele e disse “Olha, você vai abrir mão em cartório desse terreno, eu vou dar para as suas duas irmãs, vai ficar com uma e com outra. Todas duas são viúvas...”; a minha irmã já estava viúva também, “Eu vou dar para elas.” Aí ele foi no cartório com a mulher dele e assinou tudinho. E eu estava construindo a minha casa quando a Petrobras me transferiu, eu tinha duas semanas, eu não tive dúvida, mandei botar parede; como é... Tábua nas coisas, porque eu estava numa alugada, mamãe estava numa casa alugada comigo. Aí eu rompi, quebrei o contrato da casa, paguei uma multa, botei a mamãe com os meninos na casa que eu estava construindo, não tinha nem piso, certo, eu botei umas folhas de compensado e botei só as camas para os meninos para a mamãe ficar, porque eu tinha que ir me embora para o Maranhão.

P/2 – Porque que a senhora tinha que ir?

R – Por causa da bendita... Do AI-5, da revolução, foi em 1964. Veio ordem para acabar a base.

P/1 – E acabou a base?

R – Acabou a base, tinha que acabar; ou dispensar empregado, ou transferir, tinha que acabar a base de Manaus. Que achavam que a base não era produtiva, não era viável para fins de exploração. Uns foram para Fortaleza, para Asfor; tinha a Asfor, a fábrica de asfalto em Fortaleza, e eu fui para o Maranhão. Fui trabalhar na mesma coisa, no mesmo material que eu trabalhava, eu fiquei no Maranhão.

P/2 – A senhora que escolheu ir?

R – Não, o Coronel Dourado... Que eu já trabalhava aqui com material, ele estava lá, tinha sido o chefe de lá, disse “Não, eu quero a Janet lá, ela me serve no almoxarifado, ela faz a mesma coisa que ela fazia lá.” Então não teve solução, eu fiquei no mesmo trabalho, eu só vim trocar de atividade quando eu vim para o Rio. Que aí eu vim para o setor financeiro, eu vim para o setor de ações.

P/2 – Como que foi essa mudança?

R – Ah, essa mudança foi meio... Foi boa, porque tudo na vida é um aprendizado, você aprende, a vida te ensina, você não precisa de muita coisa não, a vida te ensina a fazer as coisas, a te comportar. Eu vim para o Rio para o antigo Serargi, o serviço de pessoal era (Serargi?) aqui no Rio. Então era dividido: contadoria geral e tesouraria geral, era (Congeteral?). Quando eu cheguei aqui fizeram a fusão: Serviço Financeiro, com toda a estrutura do serviço financeiro, eu assisti essa fusão, o Doutor Paulo de Tarso Leal, era chefe da (Conge?) e José Paiva Prudente era o chefe da Teral, eu trabalhei com todos dois. Aí foi que eu fui trabalhar nessa área do setor de ações.

P/2 – Isso em que ano?

R – Isso foi em 1960...1970 e poucos, 1972 mais ou menos.

P/1 – Que a senhora chegou no Rio?

R – Não. É, sim, que eu cheguei no Rio, mas eu ainda fiquei trabalhando um tempo na minha área, depois foi que eu passei para área do setor de ações.

P/1 – Quanto tempo a senhora ficou no Maranhão?

R – Fiquei três anos no Maranhão.

P/1 – Como foi essa experiência lá no Maranhão?

R – Ah, foi muito boa. Aquelas coisas, aqueles fantasmas no Maranhão, eu morei numa casa mal assombrada, de noite eu morria de medo que eu estava sozinha na casa e a casa era cheia de retratos dos antepassados, dos caras que tinham morrido e as janelas, quando batia vento ela... balançava a janela e eu ficava morrendo de medo, tinha umas histórias de assombração no Maranhão, que tinha uma carruagem de uma mulher que passava de noite; ah, eu morria de medo, eu pedia a Deus que amanhecesse o dia e o ônibus passasse para me levar para a base. Eu passava o dia inteiro na base, só vinha às 5:00 horas da tarde. Aí vinha para casa, mas também não saía mais. Depois eu desaluguei essa casa, não aguentava mais, aí eu arrumei um pensionato.

P/1 – Aí a senhora foi sozinha?

R – Fui sozinha.

P/1 – Os filhos ficaram com a sua mãe?

R – Ficaram em Manaus com a mamãe. Aí arranjei um pensionato, fui morar num pensionato. Mas a freira me “aperreou” tanto, a freira queria uma porção de coisas e eu comecei ficar... “Quer saber de uma coisa, vou procurar uma família para morar.” Deus sempre me direcionou para os lugares, sabe? Me informaram que na rua, numa famosa rua que...Você conhece o Maranhão, não né? É...Salvador de Oliveira. É uma rua que vai dar no Convento, no Convento das freiras, onde morou Gonçalves Dias. Sabe do verso, né? “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...”, essa coisa toda e eu fui morar naquela rua. Por sorte encontrei um casal de idosos, que eles tinham casado a única filha que eles tinham e a filha depois do casamento não falou mais com eles, brigou com os pais e foi embora. E eu cheguei na ocasião. Eles me receberam assim, como uma filha. Eu fiquei lá um ano e cinco meses, até vir me embora, aí saí do Maranhão para o Rio.

P/1 – E por quê que a senhora veio para o Rio? R – Porque eu não podia ficar separada da minha família, né, meus filhos estavam no Rio...

P/1 – Foi uma escolha sua.

R – Foi uma escolha minha, certo, eu não podia voltar para Manaus, não tinha mais operação em Manaus, eu estava no Maranhão, eu só tinha que vir para cá, ou ir para o Ceará, ou ir para o Paraná, ir para alguma outra unidade.

P/1 – E por que o Rio de Janeiro, dona Janet?

R – Não, aí é que está minha filha. Eu não pedi Rio de Janeiro, eu pedi para ir para São Paulo. Sou maluca por São Paulo. Se eu me desse o direito de morar, eu ia morar em São Paulo, eu adoro aquela terra. Eu pedi...

P/2 - _____ ______?

R – Não, eu pedi para vir quando eu estava construindo o Edise aí e a gente estava naquele edifício do lado da Candelária, não é do tempo de vocês, existia ali o Banco Ultramarino; mas pelo menos de notícia vocês devem ter. Do lado existia o Banco Ultramarino, o Banco Ultramarino saiu de lá e a Petrobras tomou conta. Ali, naquele edifício, foi criado a Braspetro, eu assisti a criação da Braspetro, que é a nossa subsidiária lá no Exterior. Ali foi criado a Braspetro.

P/2 – Em que ano?

R – Eu não me lembro, só eu vendo no livro a criação da Braspetro, não tenho lembrança disso.

P/1 – Mas a senhora se recorda… A senhora tem algumas recordações desse momento, o que que a senhora lembra desse período da criação da Braspetro?

R – Sobre trabalho?

P/1- Isso.

P/2 – Alguma história...

P/1 – Ou alguma coisa que a senhora se recorda.

R – Sexta-feira da Paixão eu assisti, trabalhando um dia de domingo, eu assisti o incêndio da Igreja de Nossa Senhora do Rosário...Dos Pretos; sabe ali na rua Uruguaiana, não tem a Igreja de Nossa Senhora dos Pretos? Um dia de domingo; eu trabalhava sábado, domingo, não tinha problema não; eu tinha trabalho, o trabalho era meu, eu tinha que fazer? Porque eu trabalhava assim...Foi quando começou a se criar computador, né, então a gente tinha que fazer aquele trabalho manual, todo dia, dez horas, ir entregar para o computador e aí ficava trabalhando de novo para no outro dia, dez horas, entregar. Então tinha horas que acumulava tanto que eu tinha que ir de noite, ou dia de sábado, dia de domingo, para adiantar o meu trabalho, porque do meu trabalho dependia o trabalho dos outros, eu tinha que acelerar o trabalho dos outros.

P/2 – E a senhora passava para o computador ?

R – Não, eu passava para o pessoal que...Os dados de todos os processos eu passava para o pessoal de computador, para eles trabalharem, compreendeu, eu era uma intermediária, certo? Quando foi instituído, em 1967, o fundo de garantia, eu trabalhei na implantação do fundo de garantia dos empregados da Petrobras, porque todo mundo tinha que optar pelo fundo de garantia, era a lei né? Então eu tinha 11 anos para trás, então quando eu me aposentei, eu me aposentei com 22 anos; porque a lei dizia que passou de dez anos seria dobrado, né, então eu tinha 11 anos, foram 22 anos de processo anterior e daí em diante de 1967 mais o fundo de garantia. A Petrobras resguarda os direitos do empregado de uma maneira fora de série, ela não tira nada do empregado, o que ela pode dá, ela dá.

P/1 – E o que que mudou para a senhora aqui no Rio?

R – Bom...

P/1- Encontrou com a família...

R – Aí eu encontrei com a família. Eu sou tão conservadora que no prédio que eu vim morar aqui no Rio, eu moro até hoje, não saí de lá [riso]. Eu morei no 303, passei para o 603, agora eu estou na cobertura, agora eu não posso subir mais, não tem mais andar [riso]. Eu sou muito...Sei lá, eu gosto das coisas assim muito... Não sou muito assim, como é que se diz, modernista, gosta de coisa moderna; eu gosto de coisa moderna até um certo ponto, mas não sou muito...Continuo tocando piano, continuo escrevendo, fazendo os meus escritozinhos...

P/1 – Conta para a gente, dona Janet, voltando um pouquinho, como que a senhora se sentiu sendo uma das primeiras mulheres a participar desse concurso para mulheres do seu Estado?

R –Olha, eu me senti assim... Hoje ainda tenho uma moça, uma menina; menina! Deve estar velha também, em Manaus, chamada Yolanda Correia Guimarães, essa menina era daqui do Rio, ela estava em Manaus por um acaso passeando e participou do concurso e ficou em Manaus. Ela ficou moça-velha, não casou nem nada, mas ela tem uma casa muito bonita, eu a última vez visitei ela em Manaus e daí desse pessoal do livro tem muita gente que eu conheço, João Beniz trabalhou comigo na base, o Rodrigo Barbosa, esse que eu disse que entrou como trabalhador braçal, depois se revelou, foi chefe de... Floriano da Glória Ferreira que é chefe da Ambep [Associação Mantenedores Beneficiários Petros], em São José dos Campos, entrou no mesmo ano que eu entrei, ele participou de todo esse movimento em Nova Olinda, a exploração dos poços, essa coisa todinha. Foi uma vida...Foram realmente 32 anos que foi assim muito bem vividos, dedicados à empresa... E hoje eu digo sempre: “Meu Deus, quem puder entrar, entre, porque a Petrobras só tende a crescer, ela vai crescer cada vez mais.” Não sei se você viu a última entrevista do Chile...Do México...Do Chile; qual é aquele... Espera aí... Estados Unidos tem... É... Exploração rasa e exploração profunda. O México! O México, na exploração profunda, ele tem tecnologia, mas na rasa ele não tem, ele está esperando pela Petrobras. A Petrobras é que vai dar subsídio e tecnologia para ele explorar o petróleo na parte rasa do México. Então a Petrobras que já pediu tecnologia de outros países, hoje ela já está fornecendo, ela já está dando, ela já está incrementando, fazendo esse intercâmbio, que é uma coisa muito importante, muito importante mesmo. A Petrobras cresce e ela vai crescer muito mais.

P/2 – Quantas mulheres, mais ou menos, entraram nesse concurso?

R – Naquela época nós éramos 18.

P/1 – E como vocês foram recebidas? Primeiras mulheres...

R – Ah, nós fomos recebidas muito bem, muito bem. Eram cinco, tinha um contador, um chefe de base, um chefe de almoxarifado e a gente...Todo mundo era assim, muito destemida, né, não era muito...Porque todo mundo... Principalmente eu que já era casada, já era viúva, já tinha cinco filhos, eu levava muito meu emprego a sério, né, eu não podia pestanejar, nem brincar, levava muito...Eu sempre fiz as coisas muito a sério, eu não sou muito chegada a brincadeira, eu acho que brincadeira tem hora, tem o momento e tal que você brinca e tudo, mas em matéria de trabalho, de responsabilidade, você tem que levar a coisa bem a sério. Foi isso que norteou toda a minha vida na empresa. Aquele cara que eu contei do cofre, né, que cortou o cofre, a porta do cofre, eu achei que aquilo foi uma falta de responsabilidade dele, ele gritava “Olha gente...”, eu ia para a fonia, “Olha não tenho como abrir o cofre, eu estou precisando, vocês mandem uma pessoa daí...”, porque não ficava longe se pegar... A gente tinha o numerário; o dinheiro que ia para as equipes ia de Manaus, a gente tirava do banco, né... Então o que que acontecia, a gente tinha que tirar o dinheiro do cofre, conferir com duas pessoas, aí tinha que levar no aeroporto, conferir para o Comandante com duas pessoas, entregar ao Comandante e o Comandante é que entregava na chefia da base. E isso às vezes era feito de dia, mas às vezes era feito de madrugada, três horas da manhã, quatro horas da manhã, “Olha, o avião hoje vai sair cinco horas, nós temos que levar o dinheiro.” Não podia tirar o dinheiro antes não, só podia tirar o dinheiro do escritório na hora certa. Então algumas vezes eu fui com o motorista; “ Janet, eu posso te apanhar?”, “Me apanha sim, eu vou contigo!” Porque ele também não queria ir sozinho, a gente ia com aquele mundo de dinheiro, né, para não ir com a responsabilidade que a gente... “Eu vou contigo!” Ele passava na minha casa, me apanhava, a gente ia no escritório, chamava dois vigias, eu mais ele contávamos o dinheiro, empacotávamos o dinheiro, aí levávamos para o avião. Quando chegava no avião entregava para o Comandante... Contado de novo, tornava a recontar para o Comandante entregar lá na base. Então, nesse trabalho de negócio de dinheiro, eu cuidava desse dinheirinho do fundo rotativo, que a gente chamava, era uma verba para pequenas despesas, porque pedia de grosso a gente tinha que mandar comprar, ou comprava em Manaus, ou pedia do Rio, da Bahia, de qualquer lugar, quando era material para as sondas. E o outro material de manutenção de subsistência a gente comprava em Manaus mesmo, eu fui inclusive chefe de compras em Manaus, no setor de compras.

P/2- E os homens...Como é que era, os homens não se surpreendiam com a senhora não?

R – Não, porque era assim: esse Heitor Manoel Pereira, que hoje é Presidente do Clube dos Engenheiros da Petrobras...Eu tinha um chefe que ele tinha sido gerente da Standard Oil, existia uma companhia inglesa chamada Standard Oil e ele tinha sido chefe lá, foi trabalhar na Petrobras. Mas ele era ótima pessoa, muito bom, mas para assinar papel. Você botava na mesa dele, ele assinava ...! Eu trabalhava na sala ao lado com ele. Eu fazia aquela papelada todinha, os outros faziam a papelada todinha, botava na mesa; eu não sei nem se ele lia, ele assinava tudo. Resultado, quando esse homem saía de férias era um problema. Aí esse Heitor Manoel Pereira disse “Eu vou desconfiar uma coisa: se a dona Janet sai de férias eu tenho que deslocar outra pessoa para o lugar dela, mas se o senhor Sérgio sai de férias a dona Janet faz o dela e faz o dele.”

P/1 – Era só assinar? R – Era só assinar! “ Mas, a dona Janet eu não preciso botar substituto para ela, que se ele sai ela faz o serviço dela e assina. Então o senhor Sérgio substitui...A dona Janet substitui o senhor Sérgio, mas o senhor Sérgio não substitui...” Porque quando eu entrava de férias, a gente tinha que tirar outra pessoa, porque ele não fazia o meu trabalho, meu trabalho era emissão de ordem de compra: PCM [Pedido de Compra de Material]. Tem um mundo de sigla que eu ainda tenho na cabeça, PCM. Então, foi assim... Ele ficou com raiva de mim, tanto é que quando foi para transferência ele disse que lavava as mãos, que ele não dava opinião para mim ser transferida, quer dizer, iam me botar...Me demitir. Aí foi quando o Coronel, que estava no Maranhão, disse: “Não, eu quero a Janet, pode mandar que eu quero ela.”

P/2 – Mas eu digo assim, a senhora numa época que o trabalho feminino não era tão comum, a senhora viúva, viajou de Manaus para o Maranhão, do Maranhão para o Rio...

R – Para o Rio.

P/2 – Como que era essa recepção, os homens não ficavam assustados?

R – Não, porque eu já vinha com o...Vamos dizer, com dossiê, eu já viajava com dossiê, a história minha toda já vinha...Quando eu era apresentada numa base, eu já vinha com dossiê. Inclusive esse Coronel Dourado, que já morreu, ele morreu há dois anos, ele me conhecia, até ele me recebeu no Maranhão e disse “Ó, não precisa nada, me manda a Janet.” Eu fui com 12 plataformistas, no mesmo vôo eu fui com 12 plataformistas, foi só eu de mulher para o Maranhão, da base de Manaus. Duas foram para Fortaleza e uma foi para o Paraná, para o xisto. Não tem no Paraná a indústria, industrialização do xisto no Paraná? Essa menina até já morreu, eu soube que ela morreu, ela casou, teve dois filhos e morreu. Então é assim, quando eu ia, quando eu vim para o Rio, uma comitiva, a presidência, diretores, passou pelo Maranhão e o Coronel me apresentou, Dr. Jorge Nascimento de Castro que era o chefe do serviço financeiro aqui, no Rio de Janeiro e aí ele conversou com ele “Olha, Janet é uma pessoa ótima, mas ela está ausente da família dela, os filhos dela estão em Manaus, ela não pode trazer para cá porque ela não sabia, ela estava temporária aqui. Então, se você transferir ela, ela aí já pode levar, juntar a família dela e tudo.” Aí ele disse assim “Vou estudar, vou estudar.” E veio embora. E eu fiquei rezando “Ah, meu Deus do céu, tomara que ele...” Não demorou uns dois meses veio um rádio me dizendo que aceitava, que estava sendo criado o serviço financeiro, estava sendo extinta a (Conge e a Tegal?), a contadoria e a tesouraria geral e estava fazendo a fusão do serviço financeiro e o setor de ações tinha sido criado por causa do movimento de bolsa, bolsa de valores, que estava no auge, os corretores trabalhando, era aquele “bafafá” de ganhar dinheiro; quando eu comprei esse apartamento meu, eu comprei com dinheiro de ações que eu tinha da Petrobras, eu pegava qualquer dinheirinho... Porque naquele tempo havia um mercado fracionário; hoje não, hoje são lotes de 20 mil, 10 mil, só pode comprar quem tem dinheiro, mas naquela época você comprava 20, 50, 100, compreendeu, você ia comprando e havia o que: bonificação; era um dinheiro que eu recebia e tinha subscrição; você subscrevia, comprava mais uma a 1 real. Então, se você tinha 100 ações, você comprava mais 100, ficava com 200 e sobre aquelas 100 que você tinha você recebia um dinheiro, um percentual que você se quisesse aplicava também, comprava mais ações, ia fazendo o seu bloco. Então eu tive ações da Petrobras, eu tive ações do Banco do Brasil, eu tive ações da Vale do Rio Doce, da Mannesmann, certo, Lojas Americanas. Eu fui comprando, fazendo o meu pé de meia, compreendeu, fazendo o meu pé de meia, fui comprando, comprando, comprando. Quando eu vi que eu já tinha mais ou menos um dinheiro, apareceu o apartamento, eu joguei tudo na bolsa e comprei o apartamento à vista.

P/1 – Conta para a gente quando foi que a senhora se aposentou.

R – Eu me aposentei em 5 de maio de 1988. Tem aí a minha prestação de conta e tudo. P/1 – Como que a senhora se sentiu recebendo esses três diplomas por tempo de serviço?

R – Ah, eu me sinto gratificada. No dia que eu recebi esse diploma eu chorei tanto, chorei tanto; ainda estava trabalhando, né, recebi no Museu de Arte Moderna.

P/2 – Onde?

R – Aqui no Rio, Museu de Arte Moderna. Eram 16 homens e duas mulheres só receberam o diploma de 30 anos. Ainda tem mais, tem os broches, os distintivos; eu tenho ouro, um de platina e um de brilhante.

P/2 – Nossa!___ ____

R – Eu não trouxe porque...

P/2 - ___ ______

R – São bonitinhos. Um é aquele losango da Petrobras, o primeiro de dez anos, né, depois mudou, o losango não era aquele da ponta fina, era aquele da ponta quadradinha, né, mudou. E foram mudando os losangos, é cada um aquele modelo.

P/2 – Esse de brilhante é de quantos anos?

R – É de 30 anos. P/1- A senhora recebeu junto com os diplomas?

R – Aquele emblema que tem na porta do Edise assim, aquele triângulo com as pontas aparadas, é aquele que eu tenho, diamante, o de 30 anos.

P/1 – E como que a senhora foi recebida no Maranhão, a senhora teve algum problema por ser mulher e estar trabalhando lá?

R – Não, eu não tive problema nenhum porque eu tinha uma salvaguarda o Coronel que já era meu amigo, né, o Coronel já era uma segurança, já me conhecia e tudo e o pessoal lá era muito bom, o pessoal era muito bom. O chefe de pessoal era um camarada bom; só chefe de pessoal da base, do tempo que eu estava em Manaus, é que era “ranzinza”, aquele cara linha dura. Quando foi agora, uns dois meses, eu fui no Cedis aqui; que eu nunca tinha ido, né, no Cedis. Cheguei lá encontro uma placa, Antônio Ferreira Bastos; “Meu Deus, eu conheci esse homem, era um cão.” Ele não dava chance. Então, como eu entrei como ajudante administrativa, eu fui até o final da minha carreira de ajudante, até onde eu tinha que galgar, daí em diante eu só podia passar para outra carreira de assistente se eu tivesse um curso superior. Eu não tive dúvida, me matriculei num cursinho, fiz vestibular, passei no vestibular e fiz faculdade, quatro anos, está aí o diploma, fiz na Estácio de Sá.

P/2 – Faculdade de quê?

R – De administração, fiz Administração de Empresas. Dei o diploma, dois meses depois eles me classificaram para assistente. Eu tenho um cartão lindo que o meu chefe fez e assinado por todos os... O pessoal da minha sala, do meu setor, né, me parabenizando; Maurício Alvarenga, meu chefe de pessoal, me parabenizando que o meu exemplo era...Eu competia...Eu ia para a faculdade com meu filho, nós dois, eu e ele, porque eu queira ser promovida e a Petrobras só me promovia se eu tivesse um curso superior, eu aí...

P/1 – Mas isso era só com a senhora, ou era com todos?

R – Não...

P/1 – Promoção, como é que era? R – Não, era norma da empresa para passar. É auxiliar de escritório, ajudante administrativo, assistente administrativo técnico, são os degraus, né?

P/2 – E a senhora passou para assistente em que ano?

R – Passei... Ah, eu nem me lembro, mas eu tenho a carteirinha, eu tenho a minha carteirinha que eu passei para a assistente, quando eu passei para assistente, me aposentei como assistente administrativo.

P/1 – E o que que mudou na sua vida quando a senhora se aposentou, como é que foi sair desse universo de trabalho...?

R – Eu me preparei mesmo, eu sou uma pessoa assim, que eu tenho assim uma visão das coisas lá trás, eu vou me preparando para... Mais ou menos eu tenho uma visão do que que vai acontecer, compreendeu. Então eu sempre tive... Naquela época, a Petrobras já fazia uma espécie de preparação daqueles que iam se aposentar, certo, havia umas reuniões onde eles falavam na aposentadoria, porque a pessoa que não tem essa percepção que passa 30 anos dentro de um trabalho e que sai de repente, fica sem fazer nada...Nós tivemos colegas nossos que se mataram.
P/2 – É mesmo?

R – É, nós tivemos dois colegas no Cefin que se mataram. Ainda ontem eu soube notícia de um colega nosso que está aposentado que está um trapo, deu para beber, estourou a vida todinha. Então eu não, eu pensava assim: “Eu vou ficar sem sair de casa, mas eu tenho que arranjar alguma coisa.” Como eu gostava de costurar, eu já gostava de costurar, eu tinha mania de costurar” quando eu não costurava roupa nova, eu costurava velha, eu pensei assim; a minha filha tinha lojas em Manaus, então eu pensei: “Ah, eu vou botar uma fábrica, eu vou fazer uma confecção e vou vender para a minha filha.” Aí combinei tudo com ela “Mãe, não fica preocupada, o que você fizer faz isso, eu vou lhe dizer o que que eu vou precisar, você faz, produz e eu compro.” Oh, eu não tive dúvida! Comecei a fazer a papelada, tudo, tudinho, comprei um terreno na Estrada Rio-Petrópolis, já, quando já vai subindo para a serra, comprei um terreno bonito. O terreno era horrível, o terreno era um buraco assim. No dia que eu fui ver...Mas eu comprei o terreno para ajudar um contínuo que trabalhava comigo, o cara estava numa pior, queria vender o terreno, ele precisava de R$ 4 mil. Eu fui ao Banco de Tokyo, aquele banco que tem aqueles quadradinhos, ali na Presidente Vargas e tirei um empréstimo de 4 mil reais e botei na mãe dele, ele disse: “Dona Janet, eu não tenho como lhe pagar, mas eu tenho um terreno, eu passo esse terreno para o seu nome.” Eu disse: “Passa.” Não fui... Nem vi o terreno. Fui lá, ele passou, assinei o recibo e tudo, ele assinou o recibo também, no dia que eu fui ver o terreno era um buraco. Tinha uns meninos lá no canto, jogando futebol. “Meu Deus do céu, onde eu me meti!” Depois eu disse: “Não, isso deve ter alguma coisa que eu não sei, o que é...Mas deve ter alguma coisa.” Eu estava nesse apartamento, eu tinha comprado a cobertura e o dono desta cobertura que me vendeu, era um alemão; senhor (Hans Friedrich Bern?), aí eu contei para ele: “Senhor Hans, eu comprei um terreno horrível, o senhor quer ir lá ver para mim?” Ele era construtor, ele construiu a embaixada da Alemanha em Brasília, é outra história, concorreram vários, a embaixada de Israel e ele alemão; casou? Quem era o maior inimigo dos israelitas, não eram os alemães? Ele concorreu com vários construtores e ele ganhou, a embaixada de Israel em Brasília é planta desse alemão. Aí ele foi ver comigo o terreno. Ele disse: “Olha, não tem nada não, você vai gastar um pouco mais, mas isso aqui vai dar um coisa muito bonita.” “Como é senhor Hans, que eu vou fazer isso?” Ele disse: “Não te importa não, que eu faço uma planta.” Quando ele fez a planta, que eu olhei; não entendia “chongas” de planta, ele disse: “Mas vai ficar bonito, Janet.” Eu disse: “Vai? Então vamos começar.” Aí comecei: botava uma camada de pedra, botava areia, fui botando tijolo lá no terreno lá e os meninos jogando bola, espalhando a terra todinha, aí eu mandei fazer um cercado para botar a terra. Ele fez uma planta... A casa era toda sextavada; sabe como é sextavada, aquele, né, era toda sextavada. Mas ele trouxe a planta lá de baixo, em pedra, né, fez o primeiro para mim, como se eu tivesse assim, um depósito mas bem alicerçado, trouxe o segundo e trouxe a casa aqui para cima. Mas ficou linda a casa! A sala dela era assim, de enviesada. Eu fiz a parede da sala toda em pedra, eu passei sete anos construindo a casa. P/2 – Na aposentadoria. E – Na aposentadoria. Pegando empréstimo no banco, tirando, aplicando e com meu dinheiro eu fui fazendo. Montei a fábrica! Comprei as máquinas, fui para São Paulo, comprei fazenda, comprei máquina elétrica cortadora de... Comprei tudo e vim me embora. Trabalhei dois anos, estava feliz da vida, tinha três empregados, a firma legalizada, tudo direitinho, bonitinho, seis homens entraram lá, me botaram um revólver na cabeça e levaram tudo [pausa]. Ali ficava meio distante, na subida, logo que você vai subindo tem aquele _______, depois que paga o pedágio; naquele tempo não tinha nem pedágio, passa ali por onde é o pedágio, começou a subir a serra, era do lado direito. Eu fiquei desolada, eu passei um mês que eu não falava, que eu não dormia, eu tenho uma filha que é médica, ela me dava remédio para dormir, eu não dormia, eu andava o tempo inteiro. Levaram tudo, levaram televisão, aparelho de som, levaram máquinas, eles des...Como é, eles desparafusaram a máquina e levaram a cabeça da máquina, eles não querem a mesa, eles querem a cabeça da máquina. Eu tinha overloque, eu tinha máquina de reta, máquina de zig-zag, máquina de pregar botão, máquina de cortar, tudo eles levaram. Eu fiquei num estado deplorável, eu não sabia o que fazia. Os meus filhos foram lá, tiraram toda a minha bagagem, o resto que ficou botaram num depósito e fecharam a casa. Eu tinha um filho que morava em Macapá, estava morando em Macapá. Ele tinha ido...Vinha aqui para o Rio “Mãe, vamos fazer o seguinte, vamos para Macapá, você passa uns três meses lá para aliviar a cabeça, para melhorar... P/1 – A senhora tem quantos filhos mesmo? R – São cinco. Uma está em Manaus, esse agora que está em Palmas, no Tocantins. Eu assisti a... Quando fizeram Brasília; Brasília é um pedaço de Goiás, né, depois, da parte Norte de Goiás, fizeram o Tocantins; parte Norte de Goiás que era a parte mais esquecida. E o resto ficou Goiás, que ainda é muito grande. Então eu tinha filho em Palmas, no Tocantins; como é, em...Ele estava ainda em Macapá e eu fui para Macapá, peguei um avião e fui para lá. Para passar três meses, eu passei três anos. Cheguei lá, ele tinha uma loja...E eu queria esquecer aqui, né? Aí botei a casa à venda, já tinha tirado toda bagagem, botei a casa à venda, o outro filho daqui ficou vendendo a casa, vendi a casa e eu acabei. A minha alegria foi dois anos com a fabriqueta. Acabou a fabriqueta, eu não quis mais.

P/1 – E hoje, dona Janet, o que a senhora faz na hora de lazer?

R – Não. Por causa desse problema da minha perna, com esse aqui eu demorei muito a operar, eu queria ficar boa, tomar remédio ficar boa, sem operar. Até que o médico disse “Olha, não vai adiantar, a senhora vai ter que botar uma prótese aí, não em como...”

P/2 – Foi quando?

R – Aí eu botei a...ano passado. Em julho do ano passado eu fiz essa aqui. Tive problemas, tive problemas muito, problema renal, cardíaco, eu tenho pressão alta, a minha pressão é controlada. E, ele queria operar o outro. “Não! Operar só um, não quero o outro não só um.” Aí operou esse. Quando eu fiquei boa dessa, eu digo: “É muita covardia eu não fazer no outro.” Eu já estava também não podendo quase andar desse aqui. Aí resolvi fazer, mas fiz com outro médico. Muito bom também, não vou dizer que ele foi ruim. Ele teve uma pouca sorte que dois pontos arrebentaram, né, então ficou me dando na cabeça esses dois pontos, mas o resto foi tudo bem. Agora como não tem mais joelho para operar, acabou o joelho, então eu acho que estou livre. Eu dou assistência nesse Dispensário... A gente dá 300 pratos de sopa... P/1 – Onde fica? R – Fica na Martins Ribeiro, ali do lado de quem vai à Faculdade Santa Úrsula, não tem aquela rua que vai para o lado do metrô de Botafogo? É ali. Dispensário da Irmã Zoé. É uma freira que fundou aquele Dispensário, ela já morreu, mas ficaram os outros que trabalham e eu trabalho dois dias na costura, eu costuro para velho, para os leprosos, eles fazem... Eles têm um convênio com o Leprosário de Belo Horizonte e eu faço colcha de cama, faço lençol, pijama, bata, faço tudo. Eu passo dois dias da semana lá, trabalhando nisso, me faz um bem enorme. Eu vou agora dia 14 à festa, a nossa festa de encerramento. Eu estou lá, é. E vou ao almoço da Ambep [Associação Mantenedores Beneficiários Petros], né, que é dia 17, o almoço da Ambep, a Déa já me convidou para eu ir ao almoço da Ambep; eu quero deixar essa muleta, que eu não vou andar de muleta [riso]. P/1 – Mais o que que a senhora faz, nesse tempo de lazer, a senhora falou que gosta de acompanhar umas filosofias, não é isso? R – Gosto sim, gosto de tocar piano, tenho que tocar um bocadinho todo dia, comecei a entrar na “era do computador”, mas eu fico fazendo as minhas análises, eu leio muito, eu (leio?) jornal, tenho assinatura de jornal. Então, eu acho que essa tecnologia que nós temos hoje, toda ela é muito boa, bem vinda, é muito oportuna, mas quando o ser humano tem consciência do grau que ela afeta a vida das pessoas. Eu li um artigo há poucos dias num livro, que diz o seguinte: “Nós estamos, a classe rica, a classe média, ela está implorando felicidade para o traficante. Ela compra a droga porque ela se sente feliz?” O pai dá o jogo para o menino, que ele tem os ídolos dele, né, os Power Rangers e aquelas coisas, não é, que o pai fica em estado secundário, primeiro é o ídolo dele, né, certo? Então, eu acho o seguinte, que a vida, a percepção das pessoas, a formação é na infância. Se você tem um lar estruturado, um pai equilibrado, uma mãe ali carinhosa, tudo vem do berço, tudo vem da criação. Não é que a gente seja contra o divertimento, não. Porque a minha filosofia ensinou o seguinte, as coisas boas da vida foram feitas para serem vividas, corretamente. Se você bebe, no almoço, socialmente, muito bem, você bebe sua caninha, sua caipirinha, sua cerveja, seu whisky, mas não vai se embebedar para ir brigar na rua, né, para dirigir um carro e por a vida dos outros em perigo. Então, tudo na vida requer uma dose de “semancol”, como eu costumo dizer; se manca. Você [riso]. Você não é obrigado a ser “careta”. Não, você pode ser extrovertido, você não é obrigado a ser “careta”, todo tempo de cara feia. Não, não é por isso, não é por aí não. Mas você tem que ter uma medida, um meio termo, certo, das coisas, para que você possa viver bem, né? Se eu, eu vou me sentir bem no meio de uma passista daquela de Escola de Samba, seminua, eu fico olhando para ela...Como é que pode, como é que pode, meu Deus! Mas é a felicidade dela, você vê os graus de felicidade como são diferentes. Eu vou para um seminário lá em São Paulo, fui agora no Rio Grande do Sul, em Gramado, em outubro, que é “Gramado, O Grande Seminário da Prosperidade”, passei cinco dias lá. Meu Deus, o que eu aprendi em matéria de tecnologia, de avanços, mas esses avanços todos coordenados com uma pessoa com a mente equilibrada, você usa, não é permitido que você... “Ah, não vou usar”, você usa, mas usa com moderação. Você não vai pegar internet para pegar uma parte de mulher pelada, de fazer isso, transar na conta...Entrar na conta dos outros para tirar dinheiro, certo? Então você tem um meio termo, uma medida para você viver, para você viver bem. São conceitos; eu digo isso porque a minha neta... “Ah, porque hoje eu vou para a Mangueira.” Aí eu já fico assim “Vai para a Mangueira, né?” Aí vão me dizer que Mangueira… A festa da Mangueira, o samba da Mangueira é ótimo, não tem briga, não tem nada. Como que não pode ter briga, se lá não tem bons elementos...O pessoal de lá deve está com o estopim, só esperando para ver qual que era... Ah, meu Deus do céu!

P/1 – A senhora tem quantos netos, dona Janet?

R – Espera aí, é... Dois da de Manaus, dois da (Walquiria?), quatro, dois do Antônio, seis e tenho dois netos nos Estados Unidos, estão homens já, um com 26 anos, outro 22. Um trabalha na TAM, em Miami e o outro trabalha na Ericsson do Brasil.

P/2 – Estão os filhos lá também?

R – Não, o pai está aqui, é, só estão os dois, que são os filhos do primeiro matrimônio dele. E tem um menininho lá do Walter , que está em Palmas. Então são seis, sete, certo? E tenho um, dois, três bisnetos, tenho três bis... Eu tenho um bisneto com 14 anos, filho da minha neta mais velha, da filha da Sônia, de Manaus. E tenho um bisneto que mora em Barcelona, eu estive em Barcelona em 1997/1998, fui lá vê-lo, quer dizer, eu não fui vê-lo, vi a mãe dele, ela ainda estava grávida dele. Agora ele nasceu, eu só conheço ele por retrato. E nasceu agora um que... Da minha neta que casou com um rapaz judeu, que nasceu agora, estava esperando que o menino nascesse que eles querem ir para Israel. E eu rezando todo dia:“Deus, eles não vão!” Para aquele lugar eles não vão. Vai acontecer alguma coisa que eles não vão. Mania de ir para um lugar daqueles, tão tumultuado, não é, tão tumultuado. Eu acompanho aquela guerra...Porque eu acompanho pela Bíblia, entendeu, pelos ensinamentos eu vou acompanhando, eu vejo os filmes que são... Que dizem _______, eu estou para ver um agora que é A vinda do anticristo, quer dizer, a força do mal, contra a força do bem, estão querendo desmanchar a ONU [Organização das Nações Unidas] gente, agora é que resolveram abordar o efeito estufa, quando a terra já está sem… A geleira lá dos Andes já está derretendo tudo. Meu Deus! Isso há cinco anos atrás se tivessem tomado a “peito” isso, a coisa já estava mais diferente. Agora, a Rússia aderiu, só agora é que os Estados Unidos, que é o maior poluidor, né? Então, se não cuidar da terra, ficar jogando lixeira no ar e no solo, esse material descartável das informáticas jogado no solo, que não tem prazo para aquilo diluí, para a terra diluí. A terra fica um lixo, né, e nós vamos viver nesse lixo? As águas todas contaminadas.

P/1 – Quais são os seus sonhos, dona Janet?

R – Olha, eu quero que Deus me ajude a continuar com esta filosofia de vida. Do meu marido eu herdei a parte espiritual, né, acreditar na sobrevivência do espírito, essa coisa toda. Quando ele morreu, eu conheci o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, uma sociedade com sede em São Paulo que diz: “Você é o fruto do seu pensamento”. Ele diz: “Educa a tua mente e vigie o teu coração”; acho isso lindo. Uma mente educada com um coração equilibrado; muitas vezes o coração é impulsivo, né, você nem pensa, você vai no impulso. A seguir, quando foi criado Brasília; Brasília foi criado depois, né, quando saiu da capital foi para lá. Quando saiu da capital foi para lá, em toda a capital precisa haver uma loja, um núcleo da Sociedade Teosófica e eu pertencendo ao Círculo Esotérico eu fui convidada para ir a Brasília para assistir a inauguração da loja teosófica. Então eu fui e vieram dois pastores, dois membros da Sociedade Teosófica da Índia para a inauguração da loja de Brasília e nós, por sorte, ficamos no mesmo hotel. E ele, um que era o secretário geral, conversou muito comigo, nós conversamos, ficamos dois dias ali conversando, batendo papo, participamos da inauguração, a loja é linda, a loja de Brasília, muito bonita. E ele disse para mim: “Olha, a senhora aceitaria responder uns questionários?” Eu disse: “Aceito sim, se for alguma coisa que eu saiba responder eu aceito.” E nós nos despedimos, cada um foi para o seu estado e tal e ele foi embora para a Índia. Dois meses depois eu recebi um envelope grande, era um questionário. Ele falando sobre vidas passadas, sobre elemento da natureza, quais elementos da natureza que eu absorvia, essa coisa todinha, a mentalidade do ser humano, essas coisas assim, tipo mística. Eu preenchi o questionário e toquei para a Índia, mandei de volta e esqueci. Um mês depois bateu outro envelope. Ele dizia, um rascunho rápido dizia: “Responda como a senhora pensar, o que a senhora entender, como a senhora preencher, o problema da sua vida metafísica”. Espera aí, aí comecei a procurar na ideia, né, tudo que eu tinha aprendido no Círculo, tudo que eu tinha aprendido na Sociedade que eu pertencia, tudo que eu tinha aprendido no espiritismo, eu comecei a ler leitura toda romanceada; você quando não quer entender muito doutrina, lê romance, que é também um veio da doutrina, né, eu comecei a ler romance espírita, romance esotérico, Quando eu mandei o segundo envelope ele me mandou o diploma da Sociedade Teosófica da Índia. Aí eu passei frequentar a aqui do Rio. É ali na Praça Tiradentes, não tem uma Rua Princesa Leopoldina, Princesa não sei o quê, bem ali tem a loja da Sociedade Teosófica, eu frequento até hoje. Quando foi... frequentava a Sociedade Teosófica, quando foi em 1992 a minha mãe morreu. Mãe morreu em Manaus, eu estava em Macapá. Eu fui para o enterro da mamãe e a morte da mamãe foi uma coisa assim, desesperadora, porque eu já não tinha mais nem o marido, né, e tinha morrido a mamãe que tinha sido o “baluarte”, me aguentou na hora difícil da minha vida. E por perda da minha mãe, um dia eu estava desesperada, eu recebi uma revistinha assim. Quando eu recebi a revistinha dizia: “A morte não existe”. Como que a morte não existe? Tudo que eu sabia sobre espírito, reencarnação, vida após morte, eu não acreditava para minha mãe, que eu não ia mais ver a minha mãe. Eu não tive dúvida, peguei um avião no Amapá e voei para São Paulo; eu faço as coisas assim, eu não sei como, mas eu faço. Aí foi que eu fui... Lá é que eu fui entender o que era. Ela não é uma religião, primeiro ela diz assim: “Vá à sua religião de origem, não deixe a sua religião de origem, mas aprenda os ensinamentos como você conviver...Viver e conviver bem.” Então ela te ensina que você é o fruto daquilo que você pensa, o fruto daquilo que você pode dar. Se eu te dou uma boa coisa, claro que eu vou receber uma boa coisa. Mas eu te agravar, se eu te ofender, se eu disser algo que te machuque, é só o que eu vou receber. Então a lição é simples. Olha, antigamente eu me aborrecia com a empregada, eu me aborrecia por causa de uma coisa, de uma panela que ela tirava, hoje eu não me aborreço por nada na vida. Eu vejo programa de televisão junto com ela, eu quero que ela se eduque, que ela se instrua junto comigo, eu leio jornal para ela; mas ela sabe ler, eu digo as notícias melhores que tem no jornal para ela ler e tudo. Ela é mais velha do que eu. Ontem eu disse para ela “Olha, eu vi um programa ótimo em Fortaleza, a festa do Padre Cícero em...”; como é o nome da cidade dele? Juazeiro, Juazeiro do Norte. E mostrei para ela toda aquela reportagem em Juazeiro, o pessoal, as romarias e tudo; que eu fui a Canindé, eu conheço Canindé, São Francisco do Canindé, eu fui a uma festa de Canindé. Aí ela disse assim “Mas a senhora é de Manaus mesmo, ou a senhora é de Juazeiro?” Liga, desliga “ Iná, Manaus é lá no Norte, Juazeiro é a segunda Cidade de Fortaleza.” Quer dizer, ela já não está assim, muito...Mas é uma ótima pessoa, é uma boa pessoa. Eu doente da perna ela ficava comigo, dormia do meu lado, quando eu levantava de noite ela estava ali em pé, isso tem dinheiro que pague? Não tem. A dedicação...E eu tenho pena dela, mas ela é ótima pessoa, ela fica adivinhando o que que eu vou querer comer, o que que eu vou querer beber. O meu remédio ela passa e... “Já tomou o remédio? Olhe, está na hora do remédio, a senhora não vai esquecer do remédio.” E ela fica assim. Então são coisas que o dinheiro não paga, você diz assim: “Ah, eu tenho dinheiro, eu compro tudo.” Não compra não. Então eu tenho uma filosofia que diz o seguinte: “O dinheiro é importante, é, ele não deixa de não ser. Mas ele não é determinante”, porque se ele fosse determinante muita gente com dinheiro não dava um tiro na cabeça e não morria, não é não? Não fazia besteira. Pegar o dinheiro; o dinheiro é bom, dá muita coisa, dá muito resultado, mas quando você sabe aplicá-lo corretamente.

P/2 – Bom, dona Janet, a gente queria perguntar para a senhora o que que a senhora achou de ter participado do Projeto Memória Petrobras e de ter prestado o depoimento.

R – Olha filha, é a primeira vez que eu sou convidada para um trabalho desse, mas eu te confesso que foi muito gratificante, muito bom eu rememorar esses anos que eu passei dentro dessa empresa que constitui a minha vida, a vida da minha família, a vida dos meus filhos, a escolaridade deles, tudo isso eu devo à Petrobras. A Petrobras foi assim, a alavanca da minha vida que me levou a constituir hoje tudo que eu tenho que, para muitos pode parecer pouco, mas para mim é muito. Eu tenho paz, eu tenho um equilíbrio enorme, eu tenho uma segurança que eu sei que se a Petrobras...Quantos anos eu viver a Petrobras está junto comigo, né? Isso tudo é muito importante na vida de uma pessoa, porque você viver sem esperança é muito triste, né, então você viver com segurança, você saber que você tem uma coisa que está ali perto de você, que lhe ampara, que lhe protege. O Serviço Assistencial da Petrobras Médico é uma beleza. Eu tenho aquele plano completo, né, eu pago... Que o grande problema é que as pessoas às vezes não querem dispor de dinheiro, mas se você precisa de alguma coisa você tem que dispor. Então quando fizeram o Plano, esse Plano Vida, eu aderi o plano na mesma hora. Então, hospital, médico, hospitalização, cirurgia eu não pago nada, das outras coisas eu pago uma parte, mas essa parte assistência médica de operatório eu não pago nada, a Petrobras paga tudo. Então, minha filha, isso hoje é muita coisa, né, é muita coisa. Eu sou muito feliz! Eu queria que todas as pessoas também tivessem; em qualquer organização, não é só a Petrobras. Tem aí uma Vale do Rio Doce que está uma beleza, né, tantas outras empresas que ainda são confiáveis neste Brasil, né, ainda são confiáveis, que a gente pode ter esperança de que este Brasil realmente pode chegar ser o “celeiro do mundo”, né?

P/2 – Dona Janet, obrigada pelo seu depoimento.

P/1 – A gente adorou a entrevista. Muito obrigada. 

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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